31 maio, 2007

Voz de Mulher - Tradição e Contemporaneidade em Aveiro



Depois de anunciado o nome de Fátima Miranda, é agora conhecido o restante programa do II Festival Voz de Mulher, que ocupa o Teatro Aveirense, em Aveiro, nos dias 5, 6, 7 e 8 de Julho, com organização das Segue-me à Capela e do Teatro Aveirense. Um programa interessantíssimo em que todas as intervenientes juntam doses semelhantes de música tradicinal com técnicas e géneros contemporâneos, proporcionando experiências musicais e performáticas únicas. O programa arranca na primeira noite, dia 5, com o concerto «Diapasión», da espanhola Fátima Miranda, e uma sessão de DJing - a «Noite Borato de Sódio» - por António Pires (autor deste blog) e Luís Rei (o camarada do Crónicas da Terra). No dia seguinte, 6, às 15h00, a cantora italiana Amélia Cuni (na foto) dirige um workshop de canto indiano dhrupad. Dia 7, às dez da manhã, o grupo vocal Segue-me à Capela dá um workshop de canto tradicional português; às 15h00, Fátima Miranda protagoniza o colóquio «Yo Me Las Compongo - Vocalista ou Boca Lista?»; e à noite decorre o espectáculo «Old Trends and New Traditions in Indo-European Music», pelo duo de Amélia Cuni e Werner Durand, seguido pelo espectáculo «Aanikuvia – Soundscapes» do duo finlandês de Anna-Kaisa Liedes (ela que foi do importantíssimo grupo Niekku e está agora nas MeNaiset) e Kristiina Ilmonen (que acompanhou Anna-Kaisa no projecto Utua) e por um concerto do grupo português Mulheres do Minho. No dia 8, o festival encerra com um workshop, às 15h00, de canto tradicional fino-karelio-úgrico e improvisação vocal por Anna-Kaisa Liedes e Kristiina Ilmonen. Uma feira do disco especializada em cantares no feminino pode também ser visitada nestes dias. Mais informações aqui e aqui.

30 maio, 2007

Festa do Fado - No Castelo Ponho o Cotovelo...



O Castelo de S.Jorge - sobranceiro a Alfama, à Mouraria, ou um pouco mais além, ao Bairro Alto e ao africano S.Bento - é o cenário natural de mais uma Festa do Fado, que ocupa o mês de Junho, integrada nas Festas de Lisboa, e que, mais uma vez, tem uma programação que procura juntar ao fado músicas próximas ou distantes e promover algumas parcerias mais ou menos inesperadas. No Castelo, a Festa do Fado começa dia 8 de Junho e prolonga-se até ao fim do mês, todas as sextas e sábados, com concertos de Pedro Moutinho com Teresa Salgueiro (vocalista dos Madredeus e agora também em viagens musicais por esse mundo fora), no dia 8; do grupo Sal com o fadista Ricardo Ribeiro (marido de Ana Sofia Varela, vocalista dos Sal), dia 9; de Maria Ana Bobone com o grupo masculino a capella Tetvocal, dia 15; da fadista Ana Maria (angolana e um dos raros exemplos de uma mulher negra a cantar o fado) com a cantora cabo-verdiana Maria Alice, dia 16; Ana Moura (na foto) com Amélia Muge (Amélia que compôs um dos temas do novo álbum de Ana Moura), dia 22; Raquel Tavares com o cantor e guitarrista cabo-verdiano Tito Paris, dia 23; Paulo Parreira (guitarra portuguesa) e o músico argentino Ramón Maschio (ligado ao tango e à milonga) com a respeitadíssima fadista Beatriz da Conceição, dia 29; e, a finalizar, o fadista António Zambujo com Luís Represas, dia 30. Mas ainda há mais fado no mês de Junho em Lisboa: o eléctrico 28 - Prazeres/Martim Moniz - é o palco swingante e radical (pelo menos na descida de Belas Artes para a Baixa) do «Fado no Eléctrico», de 7 de Junho a 1 de Julho, às quintas-feiras e domingos; e no Chapitô, paredes meias com o Castelo, continuam as cantorias e guitarradas depois dos espectáculos no Castelo, dias 8, 9, 15, 16, 29 e 30, nestas últimas quatro datas com as «Tertúlias de Fado», conduzidas por Hélder Moutinho.

(o título deste post é uma homenagem a Carlos do Carmo, cantor de «Lisboa, Menina e Moça»)

29 maio, 2007

Granitos Folk - De Regresso ao Contagiarte...



Juro que amanhã falo sobre umas coisas que vão acontecer na minha cidade, em Lisboa. Mas, para já e já hoje, volto a falar do Contagiarte e da quarta edição do festival Granitos Folk, que decorre de 6 a 9 de Junho neste espaço multicultural da cidade do Porto. Apostando apenas em grupos folk/tradicionais portugueses, o Granitos deste ano apresenta um programa interessantíssimo que junta alguns quase-veteranos destas lides a alguns jovens grupos de elevado potencial. Dia 6, o festival abre com os portuenses Pé na Terra (vencedores do recente concurso Folk and Roll e fazedores de uma música que tanto os leva à tradição portuguesa como ao reggae e ao rock) e Mandrágora (um dos mais importantes grupos portugueses a fundir a folk com o rock progressivo e sons vindos de muitos e desvairados lugares; na foto). Dia 7 é a vez dos belíssimos cantares e sons tradicionais rejuvenescidos da Serra do Caramulo pelos Toques do Caramulo (de Águeda) e do jazz manouche e inventivo dos Comcordas (de Castelo Branco). Dia 8, alguns dos músicos dos Comcordas repetem a presença em palco com um outro projecto, os Ventos da Liria, que vão à música «celta», ao tango e à música balcânica, numa noite em que também actua o grupo de danças tradicionais No Mazurka Band (com viras, corridinhos, chulas, pingacho, mas também valsas, rumbas e paso-dobles). Na última noite, sábado, há mais festa e dança com dois grupos que fazem das danças tradicionais europeias o seu trampolim para uma comunhão absoluta com o público bailante à sua frente: os Mosca Tosca e os Bailebúrdia. Mas, para quem isto não chega, ainda há sessões de DJ de folk e world music, todas as noites, com os DJs Osga, Sérgio, Moustache, Innyanga e Goldenlocks. Assim haja fôlego, coração e uma mezinha qualquer para as bolhas nos pés...

28 maio, 2007

Terrakota - Próxima Estação: Aula Magna



A propósito do lançamento do álbum «Oba Train» e do concerto de apresentação do disco, dia 31, próxima quinta-feira, na Aula Magna, em Lisboa, a cantora Romi e o guitarrista Alex deram uma entrevista ao Raízes e Antenas. Um resumo da conversa segue aqui em baixo como mais um aperitivo para a audição do álbum (ver também crítica ao disco) e/ou para o concerto...

Quais são as principais motivações para continuarem a lutar pela vossa música?

Alex - Para já, continuamos todos muito apaixonados por aquilo que fazemos. E também recebemos muitos estímulos das pessoas que nos ouvem que nos motivam a continuar. Quando fazes o que gostas e percebes que a coisa também passa para o público, isso dá muita força. Também temos tido oportunidade, graças ao nosso trabalho, de não estarmos fechados numa carreira apenas em Portugal. E os nossos concertos no estrangeiro, perante públicos novos, e apesar do cansaço, vai-nos estimulando.

Romi - Se só tocássemos em Portugal, tenho a sensação de que estaríamos muitas vezes a andar em círculos fechados. O facto de tocarmos lá fora é importante para essa motivação e também para tentar melhorar sempre.

Este álbum dos Terrakota estreia uma nova editora, a Gumalaka, associada à Matarroa e à Rádio Fazuma. como é que surgiu essa associação de vontades?

Alex - O trabalho das grandes editoras, que são cada vez menos, é um trabalho repetitivo e feito com pouca paixão. E então nós fomos ter com pessoas que, ao longo dos anos, gostam daquilo que fazem e daquilo que nós fazemos. Fomos falar com a Rádio Fazuma e, a partir dali, o processo foi correndo: fomos falar com a Matarroa e também sentimos muito boa energia. E isto alargou-se às outras pessoas que trabalharam connosco, os técnicos, as pessoas do estúdio, as pessoas que acreditam em nós e contribuíram com dinheiro. E isso nota-se no disco: há, por exemplo, uma voz que é de uma das pessoas da Rádio Fazuma...

Romi - Reuniu-se aqui um grupo alargado de pessoas que têm a mesma forma de sentir, de estar; o mesmo gosto. E uma maneira de fazer as coisas que tem mais a ver com a cultura verdadeira e não com o comércio.

O vosso técnico nas gravações foi, mais uma vez, o Dominique Borde. Ele é quase um membro honorário dos Terrakota, ou não?

Alex - Quando vamos para estúdio, sim. Não sei se mais alguém teria paciência para suportar aquela quantidade de pistas que nós gravamos. «Olha, vamos pôr mais um instrumento; olha...». E o estúdio dos Blasted Mechanism, em que o nosso álbum foi gravado, tem muito bom som. Tem uma ligeira reverberação que é muito melhor para os nossos instrumentos acústicos do que outros estúdios, de acústica mais seca e abafada, em que já gravámos.

Há, pelo menos, uma grande diferença neste álbum em relação ao anterior («Húmus Sapiens»): o Junior tem novamente uma presença importante nas vozes, a juntar à Romi...

Romi - Sim, no primeiro álbum nós dividíamos muito as vozes entre os dois, mas no segundo fui eu que cantei mais. Neste novo voltámos um pouco à espontaneiade do primeiro e as coisas aconteceram assim naturalmente, mas com mais maturidade...

A vossa música passa por imensos géneros e o novo álbum ainda passa por mais alguns que nunca tinham visitado. Mas há, aqui, uma presença maior do chamado «som mestiço» (Manu Chao, etc.) e de temas cantados em espanhol...

Romi - Nós estivemos em Barcelona e gostamos imenso do trabalho do Manu Chao, mas tudo isso foi por acaso. Lisboa também seria o lugar ideal para se fazer um «som mestiço», à semelhança de Barcelona ou de Paris, mas isso não acontece porque cá ainda há muitos preconceitos a vários níveis. É quase como se fosse uma borbulha que Lisboa tem e que tenta esconder com base em vez de a extrair e tentar curá-la.

Mas, ao menos, já há alguns casos em Lisboa de mestiçagem musical...

Romi - Sim, mas as mais visíveis são mais na área da electrónica. Se se meter um bocadinho de drum'n'bass já a coisa vai, como no caso dos Buraka Som Sistema... Mas o mesmo já não acontece em relação a outros grupos. Esta situação poderá mudar: a minha filha é filha de um pai italiano e de uma mãe semi-angolana semi-portuguesa e, assim, a mente dela é mais aberta em termos culturais e de linguagens.

Alex - Mas tens razão em relação ao «som mestiço»... Nós somos um grupo de «global-fusion», como dizem os ingleses; somos uma coisa híbrida, numa sociedade híbrida, a fazer uma música híbrida.

Romi - E, ainda em relação ao cantar em espanhol, digo-te que, a primeira vez que ouvi flamenco, aquilo tocou-me tanto quanto a música africana. Eu acredito que já fui cigana numa outra vida... O flamenco tem uma energia vital.

Qual foi a intenção de convidarem tanto os rapazes do hip-hop angolano quanto o lendário U-Roy para as gravações do álbum?

Alex - O Ikonoklasta e o Conductor do Conjunto Ngonguenha têm um trabalho que está muito à frente em termos de mensagem e há entre nós uma grande identificação na leitura do mundo. A colaboração correu muito bem e ainda havemos de fazer mais coisas juntos. Quanto ao U-Roy, houve, para além da admiração que temos por ele, uma oportunidade única que foi o facto de ele vir cá a um festival. E gravámos a participação dele no quarto de hotel porque ele tinha que ir para Espanha umas horas depois. Mas foi muito giro.

Há agora alguns concertos de apresentação do álbum...

Alex - Já houve um, em Milão, que correu muito bem! Tínhamos três mil pessoas a ver-nos. E agora há o de apresentação oficial na Aula Magna, dia 3, produzido por nós, por uma associação cultural, a Bigorna, e a Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa. Vão lá!!! O bilhete custa só 5 euros!!! É simbólico... E vai acabar antes de o Metro terminar. Depois vamos ao Porto, ao Festival Mestiço, dia 8 de Junho. Em Lisboa vamos ter como convidado o Conductor e no Porto vamos ter os dois: o Conductor e o Ikonoklasta. E a seguir, os Terrakota fazem de banda de suporte de um concerto deles...

26 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XX.1 - Robert Johnson



Mito maior dos blues, o cantor e guitarrista norte-americano Robert Johnson (de nome completo Robert Leroy Johnson, nascido a 8 de Maio de 1911 em Hazlehurst, Mississippi, falecido a 16 de Agosto de 1938), foi um compositor, músico e cantor tocado pela mão de Deus, apesar de, como alegadamente conta a lenda, ele ter vendido a alma ao diabo numa encruzilhada, de modo a poder ser o maior guitarrista do mundo. Lenda faustiana à parte, a verdade é que Robert Johnson fez a ponte entre os blues rurais do delta do Mississippi e outros sons que ia ouvindo na rádio, lançando as sementes daquilo que vinte anos depois da sua morte viria a ser o rock'n'roll. Morto muito jovem (na idade «fatal» dos 27 anos), Johnson deixou apenas 29 canções originais gravadas, mas as suficientes para que se tornasse o ídolo de gente como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Phish, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Rolling Stones, White Stripes ou os nossos Nobody's Bizness.


Cromo XX.2 - Madredeus



Os Madredeus foram, nos últimos vinte anos, a maior exportação da música portuguesa, numa escala só comparável à da diva Amália Rodrigues, muitos anos antes deles. Criados em 1985 pelo guitarrista Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o teclista Rodrigo Leão (Sétima Legião), a eles juntaram-se o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro, que gravaram um ano depois «Os Dias da Madredeus», um álbum que lançava logo as pistas pelas quais a música do grupo se viria a reger depois: uma mistura de fado, música popular portuguesa e os ensinamentos globais da Penguin Cafe Orchestra. Apesar de ao longo dos anos terem tido profundas alterações na formação - numa segunda fase, Leão, Gomes e Ribeiro saíram, entrando o teclista Carlos Maria Trindade, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice; e numa terceira, Teresa Salgueiro, Peixoto e Júdice deixaram o grupo, que reencarnou em 2008 como Madredeus & A Banda Cósmica -, os Madredeus contam com centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro e com um pico de glória: a música e participação no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders.


Cromo XX.3 - Cheikha Rimitti



Antes de Khaled, Cheb Mami ou Rachid Taha terem feito a ligação entre o género argelino rai e as músicas ocidentais, a fabulosa cantora argelina Cheikha Rimitti (de verdadeiro nome Saadia El Ghizania, nascida a 8 de Maio de 1923, em Tessala, falecida a 15 de Maio de 2006, em Paris), cultivou este género, o rai, na sua forma mais pura e excitante mas também, em anos mais recentes, com outras fusões, como quando gravou com Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Órfã, a jovem Saadia iniciou a sua carreira musical aos 15 anos, quando se estreou como cantora e dançarina num grupo de música tradicional argelina. Atrevendo-se a cantar temas brejeiros e de uma sexualidade implícita - interditos às mulheres em público -, a sua fama começou a espalhar-se por toda a Argélia durante a segunda guerra mundial. Compositora prolífica - estimando-se o seu espólio em cerca de 200 canções originais -, Cheikha gravou o seu primeiro disco em 1952 e chegou à fama internacional apenas nos anos 80. Ainda a tempo de a conhecermos e amarmos.


Cromo XX.4 - Peter Gabriel



Cantor, músico, compositor e performer único, Peter Gabriel (aqui numa pintura de Neal Hamilton) é uma das mais importantes personagens do longo e belo filme de amor entre o rock e a world music. Começando a sua carreira como vocalista do fundamental grupo de rock progressivo Genesis, em 1967, Gabriel (Peter Brian Gabriel, nascido a 13 de Fevereiro de 1950 em Chobham, no Surrey, Inglaterra) envereda em 1976 por uma carreira a solo que o levaria gradualmente à descoberta de muitas músicas e de muitos músicos que existem por esse mundo fora. O pico dessa descoberta é o álbum «Passion», de 1989 (banda-sonora do filme «A Última Tentação de Cristo») e o seu álbum-irmão «Passion - Sources», compilação de música da Arménia, Egipto, Senegal, Índia, Irão, Marrocos, etc, que o inspirou para o álbum de originais. A criação do festival WOMAD, da editora Real World e da organização de direitos humanos Witness fizeram, e fazem, o resto da sua história.

24 maio, 2007

Arraiais do Mundo e Avis a Rasgar - Dos Bailes Tradicionais ao Reggae, ao Trance e ao Gnawa



Já não têm conto as iniciativas (festivais, encontros de danças tradicionais, etc, etc...) que ocupam o calendário nacional... e ainda bem. Desta vez, a notícia é dedicada ao Arraiais do Mundo, que decorre em Tavira no primeiro fim-de-semana de Junho e ao festival Avis a Rasgar, um mês e meio depois.

Em Tavira, no Algarve, a Associação Pé de Xumbo e a Câmara Municipal de Tavira promovem o Arraiais do Mundo, dias 1, 2 e 3 de Junho, com uma programação que «coloca um ênfase especial nas tradições portuguesas, mas numa vertente virada para o futuro». O programa inclui danças e músicas algarvias com as Moças Nagradas e Velhos da Torre e bailes tradicionais com os grupos Uma Coisa em Forma de Assim, Uxu Kalhus (na foto, de Mário Pires, da Retorta) e Monte Lunai, para além de passeios, oficinas de danças europeias, um mercado e um campeonato de petanca (um jogo tradicional provençal).

Um pouco mais a norte, Avis (no Alentejo) assiste ao festival Avis a Rasgar, nos dias 13, 14 e 15 de Julho, um festival que aposta fortemente no reggae e seus derivados, no rock, no trance e até no gnawa. Localizado nas margens da albufeira do Maranhão, o Avis a Rasgar vai acolher concertos de reggae e derivados e também de rock no Palco Culturas do Mundo - Tony Rebel (Jamaica), Warrior King (Jamaica), Blasted Mechanism (Portugal), Peste & Sida (Portugal), Canãman (Espanha), Ras Issakar Natanja aka de French Lion (França), OliveTree (Portugal), Da Steppers (Portugal) e vários soundsystems -, de trance e «cultura psicadélica» no Open Air Psyart & Humanic Vision - Michelle Adamson (Reino Unido), Ultravoice (Israel), Switch (Israel), Loopus in Fábula (Itália), Nexus (Portugal) e High Pulse (Portugal), entre outros - e de chill-out e outros géneros musicais (como os Gnawa Bambara, de Marrocos) nos Coffee Break Beats, onde também terão lugar workshops de dança, artesanato, medicinas alternativas, yoga, percussão e massagens.

23 maio, 2007

Jacky Molard, Norkst e Erik Marchand - Novos Sons da Bretanha (e do Mundo)



A Bretanha, zona «celta» do hexágono francês, tem uma história musical riquíssima bem representada nas tradicionais Bagads (as fanfarras «armadas» de gaitas-de-foles, bombardas e tambores) ou em artistas e grupos que estiveram na vanguarda - umas vezes melhor, outras vezes pior - da reinvenção da folk bretã como Alan Stivell, Tri Yann, Dan Ar Braz, Gwendal, Kornog ou Strobinell. Uma recente fornada de discos vinda da editora Innacor - e com dois dos projectos presentes no FMM de Sines -, mostra como a música da Bretanha (e dos outros locais que estes músicos visitam) está viva e em permanente renovação: Norkst, Jacky Molard Acoustic Quartet (na foto) e Erik Marchand.


ERIK MARCHAND
«UNU DAOU TRI CHTAR»
Innacor Records

O cantor e clarinetista parisiense de ascendência bretã Erik Marchand tem uma longuíssima carreira na renovação da música feita na região onde estão as suas raízes mais profundas. Apaixonado desde muito novo pelas músicas das festoù-noz (os bailes populares da Bretanha), Marchand fez recolhas no terreno, aprendeu a tocar biniou (gaita-de-foles) e o canto tradicional bretão, estabeleceu-se na Bretanha e envolveu-se em inúmeros projectos musicais, nomeadamente o importante grupo Gwerz, várias parcerias com Thierry «Titi» Robin e colaborações com o projecto Celtic Procession de Jacques Pellen e grupos de Tarafs ciganos da Roménia. E todo este «background» de Marchand ajuda a compreender melhor a riqueza e diversidade da música contida no seu recente álbum «Unu Daou Tri Chtar», em que é acompanhado pelo violinista francês Jacky Molard (outro nome de proa da música bretã) e dois músicos ciganos: o saxofonista romeno Costica Olan (no sax tradicional taragot) e o acordeonista sérvio Viorel Tajkuna. E o resultado, irresistível e muitas vezes dançável, é uma mistura orgânica de música cigana do Leste europeu (Roménia, Sérvia, Moldávia), klezmer, música tradicional bretã e até uma homenagem a Jacques Brel (na versão de «Jaures»), tudo sempre muito bem cantado e tocado. (8/10)


JACKY MOLARD
«ACOUSTIC QUARTET»
Innacor Records

Também com uma carreira musical bastante longa (cerca de trinta anos), o violinsita Jacky Molard - que deixa a sua marca, forte, no referido álbum de Erik Marchand (e com quem também trabalhou durante muitos anos nos Gwerz) - tem neste disco em nome próprio, «Jacky Molard Acoustic Quartet», uma presença naturalmente mais efectiva, tanto como instrumentista quanto como compositor ou arranjador dos temas tradicionais que o quarteto interpreta. Com Molard (violino) estão neste álbum Yannick Jory (saxofones alto e soprano), Hélène Labarrière (contrabaixo) e Janick Martin (acordeão diatónico). Quarteto aberto a muitas músicas - das danças tradicionais bretãs (que comungam de muitos pontos comuns com as danças irlandesas e escocesas, numa irmandade «celta» que é conhecida), ao jazz de vanguarda (há alguns momentos noisy e bastante experimentais no álbum, a competir de igual para igual com outros extremamente líricos e «paisagísticos», com um swing imparável em «Just Around The Window» ou com um reel «celta» saído da Knitting Factory, «Aky's Reel»), à música erudita e a outros sons, com o klezmer e a música cigana de Leste (cf. em «Nishka Bania») em evidência. Molard é um violinista fabuloso (tanto quando se atira à tradição como quando vai à improvisação, em que se aproxima bastante do nosso Carlos Zíngaro) e o resto do grupo é também muitíssimo bom. (9/10)


NORKST
«KREIZ BREIZH AKADEMI»
Innacor Records

Uma espécie de «big band» nascida na Kreiz Breizh Akademi (academia de música tradicional da Bretanha) - e daí o título do álbum -, os Norkst (ou 'Norkst') agrupam uma infinidade de alunos e professores desta academia, sob a direcção de Erik Marchand, que também contou com a colaboração de Thierry «Titi» Robin, Ross Daly, Hasan Yarimdunia e alguns outros nas composições e arranjos e com Jacky Molard nas misturas do disco (isto está tudo ligado, como se pode ver). Com Simone Alves (portuguesa? brasileira?), Eric Menneteau e Christophe Le Menn como vocalistas, os Norkst têm a música e os cantos tradicionais (kan ha diskan, desgarrada, gwerzioù...) da Bretanha como ponto de partida para uma música aberta e livre em que se junta a improvisação e os solos do jazz às «taksimleri» da música oriental - há por aqui várias sugestões de música turca e paquistanesa, por exemplo -, a música medieval e renascentista (cf. em «Before Bac'h») e algumas vezes uma abordagem rock dos temas interpretados (cf. em «Ton Doubl»). Tudo feito com inúmeros instrumentos: harpa, biniou (gaita-de-foles), violinos, acordeão cromático e diatónico, clarinete, percussões, as estridentes bombardas tradicionais, contrabaixo, guitarras e flautas. E com uma alegria, uma fruição e uma liberdade extraordinárias. (9/10)

22 maio, 2007

FMM de Sines - E Agora, Tudo!



A 9ª edição do Festival Músicas do Mundo de Sines - que decorre de 20 a 28 de Julho - foi oficialmente apresentada há poucas horas e é, mais uma vez, promessa de grandes, grandes concertos, nos vários palcos que lhe vão servir de cenário (Porto Covo e, em Sines, o Castelo, a Avenida da Praia e o Centro de Artes). Com organização da Câmara Municipal de Sines, a programação do FMM deste ano inclui concertos dos Galandum Galundaina (Portugal), Darko Rundek & Cargo Orkestar (Sérvia/França) e Etran Finatawa (Níger), dia 20, em Porto Covo; Don Byron (a fazer versões de Junior Walker, Estados Unidos), Mamani Keita & Nicolas Repac (Mali/França) e Deti Picasso (Arménia/Rússia), dia 21, em Porto Covo; Djabe (Hungria), Rão Kyao & Karl Seglem (Portugal/Noruega) e Haydamaky (Ucrânia), dia 22, em Porto Covo; Marcel Kanche (França) e Ttukunak (País Basco), dia 23, no Centro de Artes; Lula Pena (Portugal) e Jacky Molard Acoustic Quartet (Bretanha), dia 24, no Centro de Artes; Trilok Gurtu & Arkè String Quartet (Índia/Itália), Bellowhead (Inglaterra) e Kasai All Stars (Congo), no Castelo, e Oki Ainu Dub Band (Japão), na Av. da Praia, dia 25; Harry Manx (Canadá), na Av. da Praia, e Carlos Bica & Azul (com o DJ Ill Vibe, Portugal/Estados Unidos/Alemanha), Tartit (Mali) e Mahmoud Ahmed (Etiópia) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, Bitty McLean com Sly Dunbar & Robbie Shakespeare (Inglaterra/Jamaica), dia 26; Aronas (Nova Zelândia/Austrália), na Av. da Praia, e Hamilton de Holanda Quinteto (Brasil), World Saxophone Quartet (com as sonoridades do álbum «Political Blues»; Estados Unidos) e Rachid Taha (Argélia/França; na foto) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, La Etruria Criminale Banda (Itália), dia 27; Norkst (Bretanha), na Av. da Praia, e Erika Stucky & Roots of Communication (Suiça), K'naan (Somália) e Gogol Bordello (Estados Unidos/Ucrânia) no Castelo, e de volta à Av. da Praia, Senõr Coconut (Chile/Alemanha), dia 28. Para dançar até de madrugada, os últimos quatro dias de festival têm também, na Av. da Praia, sessões de DJ por, huuuum, António Pires & Gonçalo Frota (dia 25), Raquel Bulha & Álvaro Costa (dia 26), DJ Mankala & Freestylaz (dia 27) e Bailarico Sofisticado (dia 28). E ainda há uma exposição de fotografia de Kiluanji kia Henda, «Ngola Bar», um ciclo de cinema dedicado ao tema «Música e Trabalho» - que inclui alguns episódios da mítica série «Povo Que Canta», de Michel Giacometti -, conversas com alguns dos artistas presentes e workshops para crianças coordenados, também, por alguns dos artistas (exemplo: dia 23, as irmãs Maika e Sara Gómez, as Ttukunak, dirigem um workshop de txalaparta). É um programa fabuloso! Mais informações aqui.

21 maio, 2007

Breve Crónica do Folk and Roll (ou Quando os Adversários São as Claques)



Os Pé na Terra (foto de Hugo Lima) foram os vencedores do primeiro concurso Folk and Roll, que decorreu ontem à noite no Contagiarte. Justos vencedores, diga-se, em decisão unânime do júri. Assim como unânime foi o segundo prémio, para os Pulga na Palha. Mas, como referiu o organizador e anfitrião Osga, ganharam todas as bandas presentes. Como, aliás, começaram a ganhar logo que todas elas começaram a chegar a este maravilhoso espaço portuense: todos eles se conhecem, todos eles já tocaram alguma vez uns com os outros, há muitos que participam em projectos comuns, ou pelo menos já se cruzaram por aí em andanças e Andanças várias. E, desde a hora de almoço até ao final da noite, bem noite, eram mais os beijinhos e abraços e desejos mútuos de boa sorte do que qualquer indício de competição entre todos eles. Tanto ou tão pouco que - durante o «concurso», aqui já com aspas, porque de concurso já não se tratava - as claques de cada uma das bandas acabaram por ser compostas pelos membros das outras bandas. E, sempre, com um amor enorme entre eles todos.

Derreados de uma viagem complicada e atribulações várias, os lisboetas Tanira abriram, e muito bem, o Folk and Roll com a sua mescla lindíssima de música erudita e popular, renascentista dos salões nobres e das danças do povo, actual porque tão bem integrada no enorme movimento de recuperação das danças tradicionais europeias. A presença da viola de gamba baixo dá um toque único ao som dos Tanira, toque que é, paradoxalmente, complementado por um baixo eléctrico que contribui para a pulsão rock de alguns dos momentos. E, a pairar por cima da base rítmica, há violino, bouzouki e o Gonçalo em gaita-de-foles, viola d'arco e uillean pipe (maravilhosamente bem tocada num tradicional irlandês). A seguir, os Tor, do Fundão, em que pontificam os divertidíssimos gémeos Marco e Bruno (e com a contrabaixista Sara, dos Mu, a estrear-se com eles neste concurso), levaram jigs e reels extraordinariamente bem tocados ao concurso, escola feita no antigo projecto dos dois, os Salamander. Num dos temas, os Tor - nome das formações rochosas da serra da Gardunha - contaram com a colaboração da flautista inglesa Alice. E se a proposta dos Tor não é original é, sem dúvida, de uma paixão e uma alegria raros entre nós. Depois, os portuenses Pé na Terra surpreenderam com uma versão maravilhosa da «Balada do Sino» (tradicional/José Afonso). Surpresas que continuaram quando à música de sabor tradicional português adicionam outros elementos como o reggae, o rock, uma valsinha irresistível, ska e punk (inclusive num tema que vai de Trás-os-Montes aos Pogues num instantinho). Projecto de Cristina (voz e acordeão) e Ricardo (gaitas-de-foles, flauta, gralha, etc...), mas também com a presença fundamental de um guitarrista, um baixista e um percussionista novinho mas seguríssimo (Tiago), os Pé na Terra - que têm pontos de contacto sonoros com Uxu Kalhus - irão, de certeza, muito longe. Logo a seguir, os Pulga na Palha apresentaram a melhor proposta a nível cénico do festival. Liderados por duas raparigas - uma portuguesa, a outra espanhola de ascendência galega -, mas também com dois músicos repescados aos Pé na Terra (o Ricardo e o Tiago), os Pulga na Palha apresentaram-se com roupas bárbaras e uma atitude fortíssima: eles tocam música medieval de várias origens (França, Itália...) com a ajuda de gaitas-de-foles e percussões várias (incluindo as qraqabas da música gnawa e os tambores tradicionais portugueses) e, muitas vezes, o som que fazem é tão selvagem que pode pedir meças aos grupos punk mais pintados. São de uma vivacidade, alegria e verdade incríveis. Finalmente, os Ra.In foram «a carta fora do baralho» disto tudo mas foram também interessantíssimos. Colectivo alargado de músicos e convidados, os Ra.In fazem «chill-out progressivo» mas a designação é redutora para tudo aquilo que, e de muito bom, se passa no palco. No grupo há electrónica e samples (samples de coisas tocadas pelos músicos do grupo) mas também muitos instrumentos acústicos - chegou a haver três guitarras clássicas ao mesmo tempo em palco, para além de djembés, didgeridoo, pau de chuva, crótalos... -, duas vozes femininas (Diana, dos Mu, e a cantora de jazz Ester) e uma música viva que navega pelo trance, o rock progressivo, alusões à world music... É por vezes tribal, outras vezes telúrico, outras vezes ambiental. Acabaram o mini-concerto todos a rir.

O júri - que acabou por ser constituído por Quico (músico, produtor e técnico de som), Rui Oliveira (actor, encenador, director artístico do Contagiarte), Osga (músico e organizador do concerto) e, hummm, António Pires (jornalista) - atribuiu os prémios que já foram referidos no primeiro parágrafo, ficando as outras três bandas, ex-aequo, em terceiro. Ah, e o «misterioso» cabaz do primeiro prémio (para além da abertura do Granitos Folk) era constituído por apetitosíssimos produtos de agricultura biológica, da mesma «mercearia» que também forneceu o lauto jantar que antecedeu o «concurso». Uma garrafa azul que os Pé na Terra também licitaram e uma garrafa de licor misteriosamente aparecida por ali também contribuíram, e de que maneira, para um final de festa - com jams várias - inesquecível.

19 maio, 2007

Festival MED - Tantos Mares em Loulé!



A 4ª edição do Festival MED de Loulé apresenta o melhor cartaz de todas as que até agora se realizaram, com concertos de importantes grupos e artistas vindos de variadíssimas zonas do globo e não só da baía do Mediterrâneo, mote primeiro do festival. E ainda bem! De 27 de Junho a 1 de Julho, a zona do antigo castelo de Loulé acolhe concertos, no primeiro dia, da cada vez mais madura e coerente Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) e da interventiva cantora curda Aynur (Turquia; na foto); no segundo, da ex-vocalista dos Transglobal Underground e diva da música de fusão Natacha Atlas (Bélgica/Egipto), do fusionista de punk, reggae e música latino-americana Sergent Garcia (França) e do principal misturador da música das fanfarras balcânicas com a electrónica, DJ Shantel (Alemanha); no terceiro há lugar para a música tuaregue infectada pelos blues e o rock dos Tinariwen (Mali), o misto único de melancolia e festa dos Taraf de Haidouks (Roménia) e a música da Kabilia revista à luz de vários géneros ocidentais do cantor Akli D. (Argélia); no quarto é a vez do genial e incatalogável cantor e compositor Vinicio Capossela (Itália), da mescla de muitas músicas modernas com a música latino-americana dos Yerba Buena (Estados Unidos) e do duo valenciano de folk, música medieval, música grega e tudo à volta L´Ham de Foc (Espanha); e, para fim de festival, dois projectos que juntam músicas tradicionais do seu país com a electrónica - o tango trazido para a contemporaneidade pelos Bajofondo Tango Club, de Gustavo Santaolalla (Argentina) e o flamenco-chill dos Chambao (Espanha). E, claro, nas ruas circundantes e nos outros palcos ainda há lugar para muitos outros concertos (principalmente de novos grupos de música tradicional, folk e de fusão portugueses), sessões de DJ a puxar a dança, inúmeras bancas de artesanato, restaurantes de variados sabores mediterrânicos, workshops e animação de rua. Mais informações aqui.

18 maio, 2007

A Hawk and A Hacksaw - Com os Amigos Húngaros em Braga


O duo norte-americano A Hawk and A Hacksaw (na foto) e o Hun Hangár Ensemble (que agrupa alguns músicos recrutados pelo duo na Hungria) apresentam-se, amanhã, dia 19 de Maio, no Theatro Circo de Braga. O princípio da história é bonito e os leitores mais atentos deste blog já o conhecem (ver crítica ao álbum «The Way The Wind Blows», dos A Hawk and A Hacksaw, um pouco mais abaixo, neste blog): o multi-instrumentista Jeremy Barnes (Neutral Milk Hotel) e a violinista Heather Trost, desde o início dos A Hawk and A Hacksaw que têm demonstrado o seu amor pela música balcânica, amor que teve a sua expressão maior exactamente em «The Way The Wind Blows», disco em que contaram com a colaboração de músicos da Fanfare Ciocarlia e de Zach Condon, do projecto Beirut. Mas a continuação ainda é mais bonita: no ano passado, Heather e Jeremy deslocaram-se a Budapeste, na Hungria, e lá fizeram amizade com músicos locais, ligados à música tradicional, ao jazz, ao minimalismo. Com eles - Bela Agoston (gaita-de-foles, clarinete e saxofone), Ferenc Kovacs (trompete e violino), Zsolt Kurtosi (contrabaixo) e Balázs Unger (cimbalom), que respondem agora pelo nome colectivo de Hun Hangár Ensemble -, o duo criou um projecto que tanto interpreta temas tradicionais da música balcânica (Hungria, Roménia e Sérvia) e da tradição klezmer como alguns originais de Jeremy. O resultado disto tudo é, para já, um disco (em que Zach Condon também participa), um DVD e uma digressão - a mesma que passa agora por Braga - em que o duo se faz acompanhar apenas pelos amigos húngaros e por um baterista escocês, Alex Nielson. Mais informações aqui.

17 maio, 2007

Blasted Mechanism, Terrakota, Tora Tora Big Band - Fusão, Fusão (Sem Confusão)



Uns vão mais ao rock e às electrónicas, outros mais ao reggae, outros mais ao jazz, mas estes três grupos portugueses (ou de músicos de variadíssimas nacionalidades radicados em Portugal) têm sempre muitas outras músicas deste mundo como elementos fundamentais da sua música, nela integrados com propriedade e saber. E, diga-se, também por isso são dos melhores grupos musicais que existem no nosso país. Para conferir em disco e, ainda mais, nos fabulosos concertos que todos eles - os Blasted Mechanism, os Terrakota (na foto) e a Tora Tora Big Band - dão.


BLASTED MECHANISM
«SOUND IN LIGHT»
Toolateman/Universal Music Portugal

Já não é novidade para ninguém que os Blasted Mechanism são uma das mais amadas e acarinhadas bandas, digamos, rock, em Portugal, donos de um culto e de uma paixão que arrasta atrás de si dezenas de fãs por todo o lado. A sua história, já com cerca de quinze anos, é feita de uma música híbrida, excitante, verdadeira (e verdadeira mesmo quando se possa pensar em eventuais «artifícios» como os fatos ou as encenações), que já os levou a milhentos caminhos musicais, do rock ao trance ou à música balcânica; de uma mensagem que faz, sempre, as pessoas pensar (por muitos mistérios e esoterismos que contenha); de uma ideia global de música, imagem, palavra e ideologia. Uma arte global. E «Sound in Light», o novo álbum, é mais um capítulo daquela que, esperamos, seja a «never ending story» dos Blasted. Neste álbum - e falando apenas do CD «oficial», não do segundo que é possível descarregar da net -, os BM apuram, com subtileza e «savoir faire», vários caminhos já trilhados e avançam por alguns outros, fundindo coerentemente rock tribal e charangas balcânicas, banghra e punk, glam e guitarra portuguesa, som mestiço e rock progressivo, transes hipnóticos, dub, psicadelismo, shoegazing e variadíssimos delírios globais. E, ainda por cima, se garimparmos bem pelo meio dos arranjos quase «wall of sound» de cada tema, encontraremos, sempre, grandíssimas canções! (9/10)


TERRAKOTA
«OBA TRAIN»
Gumalaka/Matarroa

Grupo-irmão (ou, pelo menos, primo) dos Blasted Mechanism - alguns dos Terrakota estiveram no início dos Blasted, o novo álbum foi gravado no Toolateman, estúdio pertença dos BM, e os dois grupos partilham o mesmo engenheiro-de-som (Dominique Borde) -, os Terrakota assinam em «Oba Train», o seu terceiro álbum oficial, o melhor disco que alguma vez fizeram. Em «Oba Train» a música dos Terrakota está mais encorpada, coerente, realista (no sentido de «mais próxima das realidades musicais que visitam»), riquíssima em variações, nuances e inesperadas misturas. E com um cada vez maior domínio dos muitos instrumentos «étnicos» que os músicos tocam e da voz (nunca Romi cantou tão bem como neste disco!). Sempre com uma fortíssima carga política e interventiva nas suas canções (que falam de corrupção, emigração, racismo... e em variadíssimas línguas), os Terrakota viajam por variadíssimos territórios musicais, muitas vezes unindo dois ou mais continentes diferentes: salsa, música mandinga, som mestiço, hip-hop (com a ajuda de Ikonoklasta, do Conjunto Ngonguenha, e Conductor, do Conjunto Ngonguenha e dos Buraka Som Sistema), uma sitar a dar colorações indianas, a utilização de separadores-unificadores (à maneira de Manu Chao ou Radio Zumbido), gnawa, flamenco, variadíssimo ritmos jamaicanos (com o inesperado U-Roy a «toastar» num tema) e africanos, etc, etc... Uma viagem que é de viajante e não de turista - e acho que se percebe perfeitamente qual é a diferença. (9/10)


TORA TORA BIG BAND
«TORA TORA CULT»
Music Mob


E mais um raccord, óbvio, entre estas três bandas: o italiano Francesco (contrabaixo) e os portugueses Davide (bateria) e Junior (percussões) são peças fundamentais dos Terrakota e da... Tora Tora Big Band, um colectivo transnacional que ainda integra músicos vindos do Brasil, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos. São seis nações e doze músicos, mas os números ainda se inflacionam mais se às contas juntarmos os convidados presentes em «Tora Tora Cult», o segundo álbum do colectivo, e as músicas por onde eles passam. Quase todos com escola feita no jazz - e o nome de família Big Band não engana -, a Tora Tora Big Band não se fecha no swing que a designação indicia (embora haja swing e outras formas de jazz com fartura) e abre-se convictamente a outras músicas. Mais global ainda do que o álbum de estreia, homónimo, o novo álbum da TTBB leva-os do jardim do Éden a vários «jazzes» (como o jazz de fusão à Herbie Hancock, com uma «mano» dada pela espanholíssima cantora Silvia, dos Bad Lovers & Hysteria Ibérica) e também à música brasileira («Velho Samba», com a cantora Kika Santos, que também «protagoniza» o fabuloso «Elephants Run»), ao reggae, à música africana (com o cantor moçambicano André Cabaço a brilhar em «Moca Man»), a uma milonga fumarenta, uma valsa saída do Metro do Martim Moniz e remisturas electrónicas, no disco-bónus, a dar um final feliz a isto tudo. (9/10)

Nota: o concerto de lançamento do álbum dos Terrakota é na Aula Magna, em Lisboa, dia 31 deste mês.

16 maio, 2007

Festival Mestiço - Um Porto Para a World, o Hip-Hop, o Kuduro...



E com este são três posts seguidos dedicados a concertos no Porto (ou a inveja, felizmente saudável, de um «mouro» a falar): segundo adianta o sempre atento Crónicas da Terra, a segunda edição do Festival Mestiço decorre no parque de estacionamento da Casa da Música, dias 7, 8 e 9 de Junho, com um programa variadíssimo e invejável. Ora veja-se só: na primeira noite actuam os turco-austríacos Coup de Bam (que fundem electrónica com música tradicional turca), o francês Sergent Garcia (e a sua «salsamuffin», mistura de rock, reggae e ritmos latino-americanos; na foto) e o alemão Shantel com a sua Bucovina Club Orkestar (música cigana dos Balcãs com electrónicas). Na segunda noite há concertos do fabuloso grupo franco-magrebino Orchestre National de Barbès (fusão de rai, gnawa, funk, jazz...), dos luso-italo-africanos Terrakota (com a sua música global) e de um contingente alargado de hip-hop com Sagas & Family Complow, Ikonoklasta & Amigos e Nigga Poison. Na terceira noite as coisas acalmam um bocadinho com o flamenco-chill dos espanhóis Chambao (liderados pela carismática cantora Mari) e a cantora brasileira Fernanda Abreu, mas promete-se festa rija com os kuduristas angolanos Nacobeta, Puto Português e Gata Agressiva. Mais informações aqui.

15 maio, 2007

Folk and Roll - Os Finalistas (e Nova Data)



O Concurso Folk and Roll, que se realiza no Contagiarte, Porto, saltou para o dia a seguir ao previsto: não será a 19 mas a 20 de Maio (próximo domingo, à noite). E entretanto já são conhecidos os finalistas desta primeira edição do concurso: os grupos Tor (do Fundão), Tanira (Lisboa), Pulga na Palha (Porto), Ra.in (Vila Nova de Gaia) e Pé na Terra (Ermesinde). O primeiro prémio do concurso - aberto a «projectos musicais na área da World Music, Tradicional ou Folk, sem trabalhos discográficos editados» -, recorde-se, dará direito a uma actuação no Festival Granitos Folk e a um misterioso «cabaz de produtos tradicionais»; com todos os grupos a ter como prémio de participação a gravação em CD e DVD (áudio e vídeo) da sua actuação, assim como o respectivo registo fotográfico. Do júri do concurso fazem parte Hugo Osga (músico dos Mu e organizador do concurso), Rui Oliveira (director artístico do Contagiarte e da Acaro), Avelino Tavares (Discantus/Mundo da Canção), Carlos Bartilotti (manager e produtor) e, hmmmm, António Pires (jornalista).

(a foto que encima este post é de Mário Pires, da Retorta)

14 maio, 2007

Acoustic Africa - Uma África Global na Casa da Música



O interessantíssimo projecto Acoustic Africa - que reúne o cantor e guitarista Habib Koité (do Mali), o cantor, guitarrista e compositor Vusi Mahlasela (da África do Sul) e a cantora Dobet Gnahoré (da Costa do Marfim; na foto) - apresenta-se em concerto no próximo sábado, dia 19, na Casa da Música, Porto. Experiência de fusão de músicas originárias de diferentes lugares - e géneros - do continente africano, mas também com pontes para os blues e o funk, mas sempre numa vertente acústica, o projecto nasceu do recentemente editado, através da Putumayo, álbum homónimo (que incluía participações destes três artistas e ainda de Eneida Marta, Rajery, Angélique Kidjo, Diogal, Faya Tess & Lokua Kanza, Laye Sow, Gabriela Mendes, Manecas Costa e Djélimady Tounkara). E o concerto na Casa da Música é uma oportunidade única de ver três artistas em conjunto que, individualmente, também justificariam um concerto em nome próprio: Habib Koité é um fabuloso guitarrista (da sua guitarra ele extrai sonoridades próximas das da kora e do n'goni, tornando a sua técnica pessoalíssima) que colaborou com Toumani Diabaté e lidera desde há alguns anos a banda Bamada; Vusi Mahlasela é um dos mais importantes cantores e compositores sul-africanos, com um longo historial no canto de intervenção política, sempre com os cantos tradicionais da sua Pretória natal como inspiração primeira do seu trabalho; e Dobet Gnahoré é uma fantástica nova cantora (tem apenas 24 anos), revelação absoluta da nova geração musical da Costa do Marfim. Mais informações aqui.

12 maio, 2007

Ena Pá 2000, Kumpa'nia Al-gazarra, Tchakaré Kanyembé - Música (e Muito Mais) no Moinho de Ananil



Os primeiros dias de Junho prometem muita música, exposições, performances, sessões de DJ, vídeo e «estórias» no Moinho de Ananil, perto de Montemor-o-Novo e junto à paisagem deslumbrante do rio Almansor. Nos dias 1, 2 e 3 de Junho, a 3ª edição do evento cultural Ananil conta com concertos (ou DJ sets) de uma das mais divertidas (a mais divertida, mesmo?) trupes cómico-musicais nacionais, os Ena Pá 2000 de Manuel João Vieira (na foto), do semba-reggae dos Tropical Roots, da folia pan-europeia da Kumpa'nia Al-gazarra, da música italiana dos Anonima Nuvolari, do afro-beat dos portuenses Tchakaré Kanyembé, dos espanhóis Global Beats e Andreu Jacobs, do DJing do Zzaj Collective e Sérgio Gomes Breaks. Oficinas de DJing e de Fanzines e Ilustração, um mercado biológico, actividades de animação e educação ambiental, jogos tradicionais, yoga, oficinas de música, dança e construção de instrumentos, cinema acompanhado por música ao vivo (o filme «Baraka», com música a cargo de Juan Desmanes & The Voodoo Child) e teatro de marionetas integram também a suculenta programação deste festival. Mais informações aqui.

11 maio, 2007

Fanfare Ciocarlia, Beirut e A Hawk and A Hacksaw - A Raiz... e as Antenas



Há muitos músicos que vão às raízes da música dos locais em que nasceram e, de antenas apontadas para o exterior, juntam-lhes influências de outros lugares, muitas vezes distantes. Esse movimento é feito geralmente das «periferias» para o «centro», com músicos asiáticos, africanos, sul-americanos ou do continente europeu a ir ao rock, ao hip-hop ou às electrónicas e a mesclá-los com as suas músicas tradicionais. Mas também há exemplos contrários, como no caso dos norte-americanos Beirut e A Hawk and A Hacksaw, que se apaixonaram pela música cigana dos Balcãs. E com a bênção directa, pelo menos num dos casos, da Fanfare Ciocarlia (na foto), cujo recentíssimo novo álbum é também aqui apresentado.



FANFARE CIOCARLIA
«QUEENS AND KINGS»
Asphalt Tango/Megamúsica

Uma das mais amadas e respeitadas bandas de metais da música cigana do leste europeu, a Fanfare Ciocarlia - que continua a ter como base de operações a aldeia de Zece Prajani, na Roménia - convidou para este novo álbum muitos outros cantores e músicos «romani» (ciganos) do resto da Europa. E o resultado é uma celebração festiva, explosiva muitas vezes, da cultura cigana, comum a romenos, franceses, búlgaros ou macedónios, mesmo que as suas formas musicais sejam aparentemente bastante diferentes - da folia rítmica das secções de metais balcânicas ao flamenco ou à tristeza funda e indisfarçável do canto da «rainha» Esma Redzepova (mesmo que numa canção aparentemente alegre como é «Ibrahim»). «Queens and Kings», o novo álbum da Fanfare Ciocarlia, é uma viagem, em caravana, por uma rota imaginária em que os ciganos, desde a Idade Média, foram absorvendo músicas que os rodeavam (por exemplo, o flamenco - tido como música cigana por excelência - foi uma criação conjunta de ciganos, sim, mas também de judeus e muçulmanos, todos irmanados na fuga à Inquisição espanhola), mas mantendo sempre, intactos, traços comuns e ancestrais. No álbum (dedicado a Ioan Ivancea, o clarinetista e patriarca da Fanfare, falecido o ano passado) colaboram Redzepova, Ljiljana Butler, Mitsou (ex-Ando Drom/Mitsoura), Florentina Sandu (neta do mítico Nicolae Neacsu, dos Taraf de Haidouks) - ambas num tema fabuloso, «Duj Duj» -, Saban Bajramovic, Jony Iliev, os Kaloome e os Kal, entre outros. E termina com uma versão divertidíssima do clássico rock «Born To Be Wild», dos Steppenwolf. (9/10)


A HAWK AND A HACKSAW
«THE WAY THE WIND BLOWS»
The Leaf Label


Traço de união perfeito entre estes três discos, «The Way The Wind Blows», dos A Hawk and A Hacksaw, começa com o som de guizos de cavalos que puxam uma carroça e os metais de alguns dos músicos da Fanfare Ciocarlia (e a trompete de Zach Condon, o menino-Beirut, a ajudar), dando o mote para um álbum lindíssimo, lírico, muitas vezes melancólico mas com uma luz interior fortíssima. Os A Hawk and A Hacksaw são um duo originário de Albuquerque, Novo México, Estados Unidos, formado por Jeremy Barnes (também dos Neutral Milk Hotel; no acordeão, piano, percussões e voz) e Heather Trost (violino e viola d'arco). E em «The Way The Wind Blows», terceiro álbum do duo, com a ajuda dos músicos já referidos e alguns outros, dão-nos uma música híbrida mas sempre consistente em que a inspiração da música cigana europeia (dada pela presença em vários temas dos músicos da Fanfare Ciocarlia mas também com ligações directas aos húngaros Muzsikás ou aos romenos Taraf de Haidouks, por via dos jogos de acordeão e violino feitos pelo duo) se cruza com a free-folk de Devendra Banhart, a folk «paisagística» dos Espers ou a folk psicadélica dos Vetiver. Ora mais festiva (quando a Fanfare está presente), ora mais intimista e nostálgica, a música que está em «The Way The Wind Blows» é sempre muitísimo boa. Como curiosidade, refira-se que há um tema chamado «Oporto»... com rãs a coaxar e charanga balcânica mas sem relação «audível» com a cidade portuguesa. (8/10)



BEIRUT
«GULAG ORKESTAR»
Ba Da Bing! Records

Igualmente originário do Novo México, mais propriamente de Santa Fe, o jovem músico e compositor Zach Condon é a força criativa por trás do projecto Beirut que, em «Gulag Orkestar», tem também a contribuição dos dois A Hawk and A Hacksaw (Jeremy Barnes e Heather Trost) e mais alguns músicos que ajudam à feitura de uma música-irmã da dos A Hawk and A Hacksaw. Mas com algumas, e fundamentais, diferenças: a música de Zach Condon é sempre mais aberta, positiva e «alegre» (mesmo que ele cante sobre as maiores tristezas da vida). E como ele canta! A voz de Zach (que, se não me engano, teria 19 anos quando gravou este álbum, em 2005) é um encanto absoluto - uma voz bem timbrada, pessoalíssima, que faz lembrar aqui e ali Chet Baker (na fase pré-heroína), Scott Walker (na fase pré-loucura) e Antony (sem o falsete). Condon é compositor, cantor, multi-instrumentista (ele toca trompete, cavaquinho, piano, órgão, bandolim, percussões e piano) e a música, embora fortemente influenciada pelas sonoridades balcânicas, passa também por muitas outras paisagens sonoras, dos mariachis mexicanos e de uma suave pop electrónica («Scenic World») a valsas parisienses (oiça-se a lindíssima «Mount Wroclai»), à música da Penguin Cafe Orchestra e a Michael Nyman (principalmente as bandas-sonoras feitas para os filmes de Peter Greenaway). Uma maravilha constante. (9/10)

10 maio, 2007

Viseu a 15 do 6 - Maratona de Música no Viriato (e Redondezas)



O Crónicas da Terra deu as primeiras informações. E agora foi o Juramento Sem Bandeira que as completou: nos dias 15 e 16 de Junho o Teatro Viriato, em Viseu, apresenta uma maratona de música (36 horas de programação!) que inclui concertos do fabuloso grupo brasileiro Cordel do Fogo Encantado, do interessantíssimo projecto Mountain Tale (que reúne o coro feminino búlgaro Angelite, o grupo de Tuva Huun-Huur-Tu e o o grupo russo Moscow Art Trio), da divertidíssima trupe de música italiana retro Anonima Nuvolari (na foto, de Rui Palha) e os blues sentidos e antigos dos Nobody's Bizness; uma homenagem ao músico viseense José Valor (Centro de Pesquisas Ruído Branco/Lucretia Divina/Major Alvega), falecido em 2004; uma sessão de DJ dos Dezperados (acompanhada por projecções vídeo dos Daltonic Brothers) e, a encerrar, outra sessão de DJ - esta previsivelmente avassaladora, como todas as que eles assinam - do colectivo Bailarico Sofisticado. Os palcos do festival repartem-se pelo Teatro Viriato, o Adro da Sé, o Largo Mouzinho de Albuquerque, o Parque Aquilino Ribeiro e as ruas da cidade. Mais informações aqui.

09 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XIX.1 - Penguin Cafe Orchestra



Projecto pessoal saído da mente genial, compulsiva e perfeccionista do músico e compositor inglês Simon Jeffes (nascido em 1949, falecido em 1997), a Penguin Cafe Orchestra foi a súmula perfeita de pop, música erudita, minimalismo e músicas vindas de variadíssimos lugares do mundo, desde a inspiração da música dita celta ao exotismo da música havaiana ou indiana. Fundada em 1973 por Jeffes (instrumentos de cordas) e pela violoncelista Helen Liebmann, a Penguin Cafe Orchestra passou 24 anos - até à morte do líder e ao fim, natural, do grupo - a encantar o mundo com uma música que tanto podia incluir cavaquinhos e acordeões como caixinhas-de-música, um harmonium (que deu nome a uma das composições mais famosas do grupo) ou o som de uma marcação telefónica a servir de base rítmica. Audição aconselhada (pelo resumo que faz da obra do grupo): o álbum «Preludes, Airs & Yodels» (1996).

Cromo XIX.2 - Alpha Blondy



Quando em 1980, um ano antes de morrer, Bob Marley tocou na festa da independência do Zimbabué, em Harare, cumprindo o sonho antigo de tocar em África, estaria longe de imaginar que o reggae iria invadir o continente nas décadas seguintes, não só como música importada mas também de criação local. Nomes como Tiken Jah Fakoly, Kussondulola, Askia Modibo, The Mandators, Lucky Dube ou Ismael Isaac são disso prova insofismável. Mas, à frente de todos eles e como precursor do cruzamento do reggae com músicas africanas está o cantor Alpha Blondy, da Costa do Marfim. Alpha Blondy (de seu verdadeiro nome Seydou Koné, nascido a 1 de Janeiro de 1953, em Dimbokoro) estudou nos Estados Unidos e começou a sua frutuosa carreira quando regressou ao seu país natal, onde, desde o primeiro álbum, «Jah Glory» (1983), é uma vedeta nacional. Uma fama que, desde há muito, alastrou mais que justamente a outras paragens, em África e não só.


Cromo XIX.3 - Sanfona



Desaparecida durante alguns séculos, a sanfona é um caso raro de instrumento musical recuperado e acarinhado depois do seu «tempo natural» ter, aparentemente, passado há muito. Inventado durante a Idade Média (provavelmente no século IX, na Galiza, sob o nome de organistrum) e popular até ao século XVIII, a sanfona está agora a viver a sua segunda vida mercê da adesão à sua sonoridade - desde há cerca de trinta anos - de músicos como o francês Valentin Clastrier, os suecos Hedningarna, variadíssimos músicos da folk britânica, dos países do Leste da Europa, da Galiza e de Portugal - onde tem como cultores apaixonados Fernando Meireles (Realejo) ou Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa). O seu som característico - em que cordas são friccionadas não por um arco mas por meio de uma roda, sendo o timbre modificado através de um teclado básico - e em que à melodia se associam outras cordas a vibrar em bordão contínuo (drone), dá-lhe muita da sua magia.

Cromo XIX.4 - Banda do Casaco



Se houve grupo que ousou ir às raízes mais profundas da música portuguesa e, arrancando-as à terra, as usou como parte maior de um «bouquet» onde também podiam entrar os cardos do rock, as flores do jazz ou folhagens vindas da música erudita, esse grupo foi a Banda do Casaco. Invenção de Nuno Rodrigues (ex-Música Novarum) e António Pinho (ex-Filarmónica Fraude), pela Banda do Casaco passaram - entre 1974 e 1984 - músicos como Celso de Carvalho, Carlos Zíngaro, Rão Kyao, Tó Pinheiro da Silva, Zé Nabo ou o baterista Jerry Marotta (que acompanhou Peter Gabriel durante alguns anos) e vozes como as de Né Ladeiras, Concha, Gabriela Schaaf, Helena Afonso ou (em gravações recolhidas no terreno) a cantora Ti Chitas (de Penha Garcia). Letras arrojadas, uma paixão, digamos, bipolar pela música tradicional, rock progressivo, experimentalismo, invenção e uma visão de futuro rara fizeram da Banda do Casaco o mais revolucionário grupo português de sempre.

08 maio, 2007

Tucanas - Finalmente, O Primeiro Álbum!



São cinco mulheres - Ana Cláudia Gonçalves, Catarina Ribeiro, Mónica Rocha, Sara Jónatas e Marina Henriques - e fazem das vozes, de inúmeras percussões e do acordeão (este nas mãos da Marina) uma música viva, pulsante, alegre, divertida e orgânica. Chamam-se Tucanas, têm já numerosíssimas provas dadas em concertos, e estão agora - depois de várias «ameaças» não concretizadas - a gravar o seu primeiro álbum no Estúdio de Vale de Lobos, pertença de Rui Veloso. Como co-produtor, as Tucanas têm Carlos Miguel, como engenheiro-de-som Rui Guerreiro e como arranjadora das vozes Joana Machado, para além de contarem com vários convidados que elas preferem manter em segredo (mas se se for ao myspace delas, o segredo é capaz de ser desvendado nos próximos dias). Nesse mesmo myspace - e através do «diário de bordo» que elas mantêm por lá - fica-se a saber do andamento das gravações e de como já registaram, em audio e por vezes em vídeo, temas como «Robot» (uma peça de percussão corporal), «Mãos de Calor», «Tucana», «Tempo», «Fusão», «Peruano», «Molhar o Pé», «Dacanas», «Domingo», «Estruturas», «Body», «Lócus» e «Surdim». Ficamos ansiosamente à espera.

07 maio, 2007

The Folk Songs Trio - Viagens Intermináveis



O compositor, músico e construtor de instrumentos luso-angolano Victor Gama (na foto; mentor dos Instrumentos Pangeia e incansável investigador das músicas africanas, nomeadamente no seu projecto Odantalan), o contrabaixista norte-americano William Parker (que colaborou com luminárias do jazz como Cecil Taylor, David S. Ware e Peter Brötzmann, mas também com músicos de outras áreas como DJ Spooky) e o percussionista, também norte-americano, Guillermo E. Brown (que tocou com Matthew Shipp, David S. Ware e tem feito várias incursões nas electrónicas e no hip-hop) embarcaram numa aventura, The Folk Songs Trio, que os levou a recolher música e ambientes sonoros em cinco cidades portuguesas - Lisboa, Torres Vedras, Porto, Braga e Guarda. É o resultado destas recolhas (efectuadas pelos músicos mas também por associações e escolas de música locais), juntamente com a música feita pelos três - William Parker em contrabaixo, instrumentos de sopro tibetanos e de cordas africanos, Victor Gama em toha, arha, acrux e kissange, e Guillermo E. Brown em percussões electrónicas, laptop e voz - que pode ser visto em concerto nas cidades que serviram de base ao projecto: Lisboa (Culturgest, 10 de Maio), Torres Vedras (Teatro-Cine, 11 de Maio), Porto (Fundação de Serralves, 12 de Maio), Braga (Theatro-Circo, 18 de Maio) e Guarda (Teatro Municipal, 19 de Maio); concertos que são caracterizados no texto de apresentação como um cruzamento de jazz de vanguarda, hip-hop, músicas tradicionais, minimalismo e electrónica. Paralelamente, o site do Folk Songs Project - que apresenta mapas interactivos com os locais em que foram realizadas as recolhas - permite também aos visitantes misturar os ambientes com a música do trio e assim criar composições próprias.

04 maio, 2007

World Music - Enciclopédias e Afins...



Aqui há dias, uma frequentadora do Raízes e Antenas, Un-Dress, deixou escapar num comentário a palavra «enciclopédia», referindo-se ao conteúdo deste blog. Não levei a mal, pelo contrário - até senti uma pontinha de orgulho. Mas respondi-lhe honestamente escrevendo que quanto mais se sabe destas músicas do mundo mais se tem consciência de que falta muito mas muito mais para saber - e acrescento, tanto das músicas como do mundo. Passando por cima das alusões socráticas (salvo seja), pode usar-se uma frase batida e dizer que aquilo que conhecemos destas músicas - imensas, aos milhares, em géneros, intérpretes, instrumentos, cruzamentos... - é apenas uma pequeníssima ponta de um imenso iceberg. Mas a palavra enciclopédia ficou-me. E, como adoro enciclopédias, dicionários, prontuários, glossários, aqui fica uma pequena resenha do que existe em papel e que pode ajudar quem quer mergulhar nas águas profundas destas músicas. E, se não se quiser em papel, há sempre a internet inteira para pesquisar (inclusive nalguns links aqui ao lado).

A minha primeira enciclopédia de world music foi-me oferecida pelo Avelino Tavares no Natal de 1994 (obrigado Avelino!). É a inglesa «World Music - The Rough Guide», da Rough Guides, com distribuição da Penguin. Naquela altura era apenas um volume mas, desde há alguns anos, e com o crescimento das entradas e informações, a enciclopédia da Rough Guides está agora dividida em vários volumes: «The Rough Guide to World Music Vol. 1 (Africa, Europe and the Middle East)», «The Rough Guide to World Music Vol. 2 (Latin and North America, Caribbean, India, Asia and Pacific)», editados na viragem do século, e, ainda mais especializado, foi recentemente editado «The Rough Guide to World Music - Africa and the Middle East (Vol.1»). Os livros da série são excelentes: não se fechando no formato «enciclopédia» (com entradas de nomes avulsos e por ordem alfabética), estes livros fazem antes o enquadramento geográfico, estilístico e muitas vezes social dos artistas e géneros de que falam, incluindo nas edições mais recentes discografias divididas por países, críticas aos melhores discos dos artistas referidos ou referências às editoras mais importantes de cada género. Se tivesse que aconselhar alguma, aconselharia esta(s) de caras, pelo manancial de informação disponível.

Já pelo rigor dessa informação - e a minha maneira de aferir o rigor de um livro deste género é «vamos lá ver o que é que eles escrevem sobre música portuguesa» (geralmente há entradas reservadas a Amália Rodrigues e aos Madredeus), e se o que escreverem está correcto, então acho que posso confiar também no resto (leia-se, naquilo que eu NÃO conheço) -, a melhor é uma enciclopédia francesa, «Les Musiques du Monde», editada pela Larousse (sim, a mesma dos dicionários), que apesar de não ter o volume informativo dos «Rough Guides», muito longe disso, é bastante rigorosa e é uma boa porta de entrada nestas músicas com raízes e antenas. Também bastante interessante e mais alargada do que esta é a norte-americana «World Music - The Essential Album Guide» (MusicHound/Visible Ink Press), que para além de numerosíssimas entradas também apresenta caixas com informações complementares sobre géneros musicais, instrumentos ou a presença da world music em filmes. Uma secção enorme sobre música jamaicana (ska, reggae, rocksteady...) é outro dos motivos de interesse desta enciclopédia. Finalmente, e não sendo uma enciclopédia, um dos meus livros preferidos desta área é «World Music - A Very Short Introduction» (Oxford), de Philip V. Bohlman, que é muito mais do que aquilo que o título poderia indiciar. Mais do que uma simples «pequenina introdução», o livro é um ensaio sério, musicológico, sobre a evolução da percepção ocidental perante as músicas vindas de outros lugares, sob uma perspectiva etnológica, política e histórica. Está muito bem escrito e é um manancial de informação, não tanto sobre os nomes actuais da world music mas dos que ficaram para trás, das primeiras tentativas de fixação das músicas tradicionais, das primeiras aventuras do fonógrafo, da música exotica, etc, etc. Boas leituras!

03 maio, 2007

Xaile - Música Planetária Portuguesa



Xaile é um novo grupo musical português que, ao fim de dois anos de trabalho, está agora a revelar-se a pouco e pouco em concertos (com passagens pelo Incrível Club, em Almada, e pelos Recreios da Amadora; com uma actuação próxima marcada para o Maxime, em Lisboa, e com outras que de certeza se seguirão) e num álbum de estreia que é editado em Junho pela Universal. A convite desta editora, o texto de apresentação do Xaile que está a ser enviado para várias rádios e jornais é assinado pelo autor deste blog. Texto que aqui deixo na íntegra, com os votos de maiores felicidades à fabulosa equipa que dá corpo ao Xaile...

Raramente, na música portuguesa, se arrisca fazer da pop popular e do popular pop. Quando pop e popular deviam ser, sempre, sinónimo ou, pelo menos, palavra filha uma da outra. E quando isso acontece algo de importante acontece na música portuguesa. Aconteceu com a Banda do Casaco. Aconteceu com António Variações e os Heróis do Mar. Aconteceu com os Sétima Legião, os Ocaso Épico e os Madredeus. Aconteceu com os Trovante e, mais tarde, os Sitiados. Acontece, agora, com projectos tão diferentes como A Naifa, os Dazkarieh, os Chuchurumel, os Mirandum, Uxu Kalhus ou os Dead Combo, entre alguns poucos outros. Por caminhos diversos, através de abordagens diferentes, seguindo uma ou outras vias, todos eles procuram a essência da música portuguesa, abrindo-a a novas influências e avançando convictamente para o futuro.

Xaile, um novo grupo de música portuguesa - de «música planetária portuguesa», diz Johnny Galvão, um dos fundadores do grupo - inscreve-se facilmente nessa antiga e nova linhagem. Porque é música portuguesa de raiz e é muita, tanta, música à volta. Mas com tudo isto a fazer sentido, de canção para canção e tudo dentro da mesma canção, movimentos perpétuos de canções dentro de canções, dinâmicas, variações, surpresas constantes em que chulas e malhões, fado e cante alentejano podem coexistir com o hip-hop e o jazz e o funk. Em que ecos de José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto, Banda do Casaco e Madredeus namoram com a música dita celta em jigs, reels e airs (e a sua renovação através de nomes como Clannad, Enya ou Capercaillie), com o flamenco, a música árabe, africana ou brasileira. Sem barreiras, sem pudores, sem vergonha, o que também quer dizer, com um sentido pop raríssimo no nosso país. E com uma alegria, um brilho e uma criatividade constantes.

Depois, pormenor que está reservado para este terceiro parágrafo: à frente do Xaile estão três cantoras, três belíssimas cantoras, todas elas irmanadas num sonho comum, solidárias e complementares, tão diferentes mas tão iguais na maneira como se entregam à sua arte. Chamam-se Marie, Lília e Bia e são as três cantoras e instrumentistas e bailarinas. Marie, luso-francesa com um pé em Paris e outro no Algarve, a fazer um mestrado em Literatura Oral Tradicional, fez parte durante alguns anos dos Alambique, Dazkarieh e Avalon Ensemble. Hoje, faz investigação no Centro de Tradições Populares Portuguesas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e está de corpo e alma no Xaile, onde canta, toca gaita-de-foles galega, variadíssimas flautas de Bisel e adufe. Lília, portuense mas transmontana de coração, estudante de Artes do Espectáculo também na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem formação em dança, pertenceu a um rancho folclórico e participou em vários espectáculos de teatro e televisão. Teve várias propostas para gravações a solo mas prescindiu delas em favor do Xaile, grupo do qual diz ser «o meu sonho». No Xaile, Lília canta, toca harpa céltica e percussões. Bia é açoriana, arquitecta, e passou por grupos rock e tunas universitárias (refundou a Arquitectuna, na Faculdade de Arquitectura de Lisboa) e está no Xaile, com paixão, onde canta, toca guitarras, cavaquinho e percussões. E quem ouve o álbum de estreia do grupo percebe a química, a união, a diversidade e complementaridade destas três vozes, mas ao vivo tudo isto ainda é mais visível. Vêem-se as três juntas e pensamos nas finlandesas Vartinna, nas belgas Lais, nas galegas Leilia, nas «multinacionais» Zap Mama... Isto é, num grupo em que as vozes femininas, por muito boas que sejam individualmente, e são!, valem muito mais porque fazem todo o sentido quando ouvidas assim, em conjunto.

Marie, Lília e Bia são as três pontas do Xaile. Mas falta falar de quem teceu, primeiro, o tecido de que o Xaile é feito. Na base, na origem, da história estão dois músicos e compositores, Rui Filipe Reis e Johnny Galvão. Rui Filipe, compositor das músicas e co-letrista, produtor, arranjador e instrumentista (teclas, programações, acordeão) do Xaile, tem formação clássica em piano, trabalhou como instrumentista e arranjador durante vários anos com Dulce Pontes, participou em musicais com Pedro Osório e José da Ponte e, desde há dois anos, é um dos responsáveis pela produtora Raga, em que desenvolve projectos próprios de composição e produção. Johnny Galvão saiu de Portugal nos finais dos anos 60 e desenvolveu a maior parte do seu trabalho de instrumentista e produtor em Espanha (onde trabalhou na renovação do flamenco com Paco de Lucia e Manolo Sanlucar e no cruzamento do flamenco com outras linguagens, nomeadamente com Miguel Rios, o duo feminino Las Grecas, Los Chorbos ou no álbum «Delírios Ibéricos», que juntou Rão Kyao com os Ketama) e no Brasil (em que, nos anos 80, produziu trabalhos de vários grupos e artistas como Leo Jaime, no polémico álbum «PhodaC», e Raimundo Fagner). Johnny Galvão criou também música para teatro, cinema e publicidade, antes de regressar a Portugal. Nos últimos dois anos tem trabalhado com Rui Filipe na Raga, onde desenvolveram dois projectos em parceria: os Rosa Negra e o Xaile. No Xaile, Johnny Galvão é produtor, arranjador, guitarrista, co-compositor das músicas e autor das letras. Letras que remetem para um imaginário tradicional português. No Xaile, há frases, expressões, citações que ajudam imediatamente a situar a música num território mítico, nosso, feito de canções antigas, lenga-lengas, jogos infantis ou poesia popular. No Xaile escutam-se palavras nossas, tão nossas, na voz das três cantoras - «giroflé», «pouca-terra, pouca-terra», «vai de roda», «entre as brumas da memória», «sape gato lambareiro», «rei, capitão, soldado, ladrão»... - em novos contextos, com novos significados, em novas harmonias. E até, no único momento em que se usa uma língua estrangeira, o inglês - «Far away, far away from here...» -, as palavras são de Fernando Pessoa. Palavras ditas, no disco do Xaile, pelo inglês Russell Nash - cantor que com a sua banda homónima, Nash, teve bastante sucesso no Reino Unido, em 2001, com o álbum «The Chancer» e que se apresta agora para gravar um novo álbum para a Raga.

O álbum de estreia do Xaile, homónimo, é editado em Junho através da Universal Music Portugal. Do alinhamento, constitituído unicamente por originais, fazem parte os temas «Ai Linda, Ai Linda», «A Ver o Mar», «Assim-Assim», «Encontro Marcado», «Onde For o Amor», «Roda da Alegria», «A Minha Circunstância», «Aquele Maio», «Ao Luar», «Haja Saúde», «Até Me Encontrar», «Jardim Celeste», «Lá de Onde Eu Sou» e «Não te Vás Embora». O primeiro single, «Ai Linda, Ai Linda», começa por estes dias a rodar nas rádios. Para dar um novo significado à sigla MPP.

02 maio, 2007

Chuchurumel, Toques do Caramulo, Sons do Vagar - Por Onde Anda a Música Popular Portuguesa (II)



O ano de 2007 tem sido bastante produtivo em edições discográficas nacionais de várias áreas. E hoje aqui ficam mais três álbuns de três projectos de música tradicional, popular, folk, escolha-se a designação que se quiser: Chuchurumel (na foto), Toques do Caramulo e Sons do Vagar, todos grupos surgidos fora dos grandes centros urbanos e a ir convictamente às suas raízes, próximas ou um pouco mais distantes, para fazer uma música fortemente ancorada na tradição, mesmo que nem sempre de uma maneira ortodoxa (como no caso dos Chuchurumel ou, em menor escala, dos Toques do Caramulo).


CHUCHURUMEL
«POSTA RESTANTE»
Ed. de Autor/Luzlinar

O primeiro álbum dos Chuchurumel, «No Castelo de Chuchurumel», apontava já as pistas seguidas pelo duo de Julieta Silva e César Prata neste segundo trabalho, «Posta Restante». Mas com a diferença, fundamental, de que enquanto no primeiro disco essas pistas levavam a caminhos diferentes, raramente se cruzando ou intersectando - num dos caminhos havia recolhas de música no terreno, no outro o próprio trabalho do grupo, mas sem ligação óbvia entre os dois «universos» -, em «Posta Restante», pelo contrário, as recolhas encaixam-se na perfeição na música do grupo. Mais a mais, uma música que evoluiu imenso em invenção, experimentação, tentativa - quase sempre muito, muito bem conseguida - de levar uma música antiga, rural, rude na sua origem, para a modernidade, uma certa urbanidade global, um grau de sofisticação raro em projectos portugueses. Em «Posta Restante» - assim chamado porque cada canção é uma «carta» a pessoas conhecidas ou anónimas que lhes deram a conhecer a maioria destes temas (embora também haja alguns originais dos Chuchurumel) - podem ouvir-se guitarras sintetizadas em distorção, programações trip-hop, vozes arrancadas à terra (como a senhora de «Coquelhada Marralheira»), sanfonas, acordeão e gaitas-de-foles, gravações de vários ambientes - os disparos a dar a base de «Rico Franco» ou o ritmo do moinho de água são um achado -, aproximações a danças europeias e até ao fado. E sempre com um bom-gosto irrepreensível. (9/10)


TOQUES DO CARAMULO
«...É AO VIVO!»
D'Orfeu Associação Cultural

A coisa mais bonita que têm os Toques do Caramulo é que, partindo do reportório tradicional recolhido na Serra que lhes dá nome - o Caramulo -, o grupo liderado por Luís Fernandes transforma-as em canções de Portugal inteiro (às vezes da Europa inteira), mercê de uma elegância enorme nos arranjos e na apresentação final dessas canções. Uma elegância que passa por todo este álbum gravado ao vivo, em Águeda, terra-natal do grupo, que ali se desenvolveu no seio da valorosa Associação d'Orfeu. Nos Toques, as canções do sopé do Caramulo - recolhidas por Francisco Silva - são enfeitadas com acordeão, flautas, rabeca, contrabaixo, percussões, a muitíssimo boa voz de Luís Fernandes - que tem nela ecos de José Afonso, de Fausto, de Represas nos Trovante, ecos que se transmitem aos próprios ambientes musicais, muitas vezes também com incursões pela liberdade do jazz, os ensinamentos da Brigada Victor Jara ou vários elementos vindos da folk dita céltica ou das danças tradicionais do centro europeu. Num dos temas, «Debaixo da Oliveira», participa, dando à canção uma dimensão lindíssima e inesperada, o cantor, actor e performer belga Bernard Massuir. E como nota final, diga-se que raramente uma gravação ao vivo - e este é o álbum de estreia dos Toques! - consegue ter este ar tão perfeito e bem acabado. (8/10)


SONS DO VAGAR
«SONS DO VAGAR»
Associ'Arte

Se bem que menos arrojado e inventivo que os álbuns dos Chuchurumel e dos Toques do Caramulo, o disco de estreia, homónimo, dos alentejanos Sons do Vagar tem pelo menos o grande mérito de mostrar canções alentejanas menos conhecidas do grande público e fora do reportório geralmente visitado pelos coros de cante alentejano. Os Sons do Vagar são um trio formado por Isabel Bilou, Susana Russo (ambas excelentíssimas cantoras e também instrumentistas) e o multi-instrumentista Gil Nave, interpretando canções tradicionais recolhidas por Veiga de Oliveira, Giacometti, Lopes-Graça ou José Alberto Sardinha, interpretadas quase sempre de uma forma muito próxima do que essas recolhas mostravam, embora por vezes com alguns desvios saudáveis (como a concertina a acompanhar o «Ó Meu Menino Jesus», ao lado da tradicional sarronca). São canções religiosas (como «Canto ao S.João» ou o lindíssimo «O Vos Omnes», curiosamente também presente no álbum dos Chuchurumel), modas para viola campaniça, corridinhos tocados em flauta ou as alegres saias - os corridinhos da «raia» com o Algarve e as saias são raros exemplares de música obviamente para dançar da música alentejana. Isto tudo é um belo exemplo de como se pode preservar a memória musical com amor e rigor. E mais uma prova - como os outros aqui referidos - de que se podem editar discos sem se estar ligado a nenhuma editora, seja ela multinacional ou independente. Assim haja vontade. (7/10)

01 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XVIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XVIII.1 - 3 Mustaphas 3


Se alguma vez uma banda mereceu a designação «grupo de world music», essa banda respondeu pelo nome de 3 Mustaphas 3. Nascido em Inglaterra, em 1986, sob a liderança de Ben Mandelson (aka Hijaz Mustapha) e Colin Bass (aka Sabah Habas Mustapha), aos quais ao longo dos anos se foram juntando outros «Mustaphas» - nas suas biografias, obviamente falsas, os membros do grupo clamavam ser todos sobrinhos de um tal Patrel Mustapha, sendo alegadamente originários de Szegerely, algures nos Balcãs. E a sua música tinha influências balcânicas, sim, mas também de tudo e mais alguma coisa que se possa imaginar: country, rock, cajun, klezmer, música japonesa, turca, indiana e mexicana, muitas vezes com vários destes ingredientes - e muitos outros - na mesma canção. O resultado era quase sempre divertimento em estado puro e, muitas vezes, muito boa música. Audição aconselhada: o álbum «Soup of the Century» (1990).


Cromo XVIII.2 - Orfeu



Um dos mitos mais perenes da cultura ocidental, Orfeu era considerado na antiguidade greco-latina como o «pai das canções», o «maior músico e poeta» e o «inventor» ou, noutros casos, o «aperfeiçoador da lira». As narrativas clássicas contam que a sua música podia acalmar os animais, obrigar as árvores a curvarem-se, parar o curso dos rios ou fazer as rochas dançar. Se bem que nem todas estas narrativas lhe atribuam uma origem divina, algumas apontam-no como filho de Apolo, que lhe teria dado a lira que ele teria depois tão bem tocado. A Orfeu é também atribuído o ensino à Humanidade da medicina, da escrita e da agricultura, para além de ser astrónomo, adivinho e feiticeiro. Filho da musa Calíope e, eventualmente, de Apolo, teve como grande amor Eurídice, uma história triste e belíssima que mete descidas aos Infernos e a música sempre como pano de fundo de toda a tragédia.


Cromo XVIII.3 - Kassav




Quando, em 1979, um grupo de músicos - Pierre-Edouard Décimus, Georges Décimus, Freddy Marshall e Jacob Desvarieux - formam os Kassav, eles estavam a inventar o zouk e, sem o saber, também a contribuir para o desenvolvimento futuro da... kizomba. Nesse ano, os Kassav lançam o mítico álbum «Love and Ka Dance» e, depois, já com a emblemática Jocelyne Béroard a bordo (que entrou para as gravações do segundo álbum, «Lagué Mwen», de 1980), partem para a conquista do mundo. Originários de Guadalupe, nas Antilhas, os Kassav - nome que significa «bolacha de mandioca» - fazem uma mistura tórrida e absolutamente dançável de ritmos locais (como o merengue e o biguine) com o reggae, a salsa e o rock. O pico de popularidade dos Kassav - que continuam ainda a efectuar digressões em todo o mundo, nomeadamente em África, continente onde têm um culto enorme - aconteceu em 1985, com o álbum «Yélélé» e o single «Zouk la Sé Sèl Médickaman Nou Ni».


Cromo XVIII.4 - Can



Pelos Can passaram - e repare-se só no valor individual de cada um destes nomes para se ter uma ideia do que eles fizeram na banda alemã - Holger Czukay, Michael Karoli, Jaki Liebezeit, Irmin Schmidt, Malcolm Mooney, Damo Suzuki, Rosko Gee e Rebop Kwaku Baah (entre outros). Se calhar, dizer isto já chegava. Mas ainda se podem dizer mais coisas: por exemplo, que nunca uma categoria musical (neste caso, o krautrock, porque assim eram designadas a pontapé dezenas de bandas alemãs) foi tão redutora como no caso dos Can. Ou que, nos Can, conviviam tantas músicas - músicas de muitos lugares do mundo, músicas de um laboratório só deles, músicas sacadas ao fundo da alma e do corpo e de um imaginário, digamos, colectivo. Uma música viva que, com origem em Colónia, em 1968, chegou - pelo menos se assim o imaginarmos - aos clubes de free-jazz nova-iorquinos, a vielas esconsas de Bombaim e... a Alfa de Centauro. Ritmo, drone, liberdade, emoção... Álbuns aconselhados: «Tago Mago», «Ege Bamyasi», «Future Days» e «Saw Delight».