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15 julho, 2010

Batida - Sincretismo Sem Secretismo



Os Batida vão protagonizar, na madrugada de dia 31 de Julho, o concerto de encerramento do FMM de Sines deste ano. É mais que justo: o grupo luso-angolano é uma das maiores revelações musicais dos últimos anos da música que se faz em Lisboa mas que tem as suas raízes em África. Hoje, neste blog, recupero uma entrevista que fiz com eles o ano passado, quando saiu o álbum «Dance Mwangolé», originalmente publicada na «Time Out Lisboa».


As pontes que a Batida faz

Entre Lisboa e Luanda, os Batida gravaram um dos álbuns mais importantes de sempre da música portuguesa e angolana: "Dance Mwangolé". António Pires investigou, junto de DJ Mpula e Ikonoklasta, as coordenadas deste mapa do tesouro onde entram o kuduro, mas não só, e antigas gravações de música angolana.

Apesar de, nas últimas décadas, terem surgido novas expressões musicais em vários países da Europa continental – mercê da modernização de músicas tradicionais através do seu diálogo com géneros modernos, ou de músicas híbridas criadas em zonas essencialmente portuárias, de cruzamento de vários povos e culturas (Lisboa, Barcelona, Paris, Marselha, Istambul, Berlim...) – não nasceu, pelo menos de forma visível, nenhum novo género musical importante ou relevante para a história da música actual. Pelo contrário – e quase sempre tendo como base várias tipologias da música negra, anglo-saxónicas ou não –, Nova Iorque assistiu ao nascimento do hip-hop; Kingston ao do dancehall; Joanesburgo ao do kwaito; Londres ao do grime; Rio de Janeiro ao do baile funk; Luanda ao do kuduro... E o início do mapa Batida fica assim feito. Mas com um acrescento fundamental e o toque que torna este disco o documento histórico que ele realmente é: o mergulho nos arquivos da Valentim de Carvalho, em busca de samples e de bases dadas por antigas gravações de música angolana, velhos sembas e merengues, ritmos dados por reco-recos ou por berimbaus de Cabinda.

DJ Mpula – da Rádio Fazuma e iniciador deste processo todo – e Ikonoklasta – do seminal Conjunto Ngonguenha – são, nesta conversa, os porta-vozes dos Batida. E não, dizem eles, quando todo este processo começou não tiveram consciência da ponte de gerações e do sincretismo quase perfeito de várias músicas angolanas em que "Dance Mwangolé" viria a tornar-se. DJ Mpula diz: “Curiosamente, eu rejeitava a música angolana que os meus pais ouviam, o que acaba por ser normal numa criança ou num adolescente, geralmente mais atraído por coisas como o hip-hop ou o punk...”. Mas, se o respeito que tanto Mpula quanto Ikonoklasta têm por formas mais antigas de música angolana cresceu bastante nos últimos muitos anos, os Batida são a cristalização definitiva desse respeito pelos “cotas”.

Diz Ikonoklasta que “o Conjunto Ngonguenha sempre procurou fazer um hip-hop fortemente personalizado e enraizado na música angolana, logo um hip-hop angolano” (e o álbum “Ngonguenhação”, editado em 2004 era um passo decisivo neste sentido). Anos depois, DJ Mpula e Ikonoklasta (ambos angolanos), Beat Laden (português) e mais uma série de cúmplices – Sacerdote, Roda (no design dos elementos visuais do colectivo), Limão (no vídeo), o remisturador brasileiro DJ Chernobyl, a lenda da música angolana Carlos Burity, os grupos e artistas samplados no disco e ainda “clips” sonoros actuais presentes no documentário paralelo “É Dreda Ser Angolano” fazem a banda-sonora deste surpreendente e fabuloso "Dance Mwangolé".

DJ Mpula faz questão de dizer que “este não é um disco de kuduro! Há lá kuduro, mas há lá também os ritmos antigos e outros mais novos como o kwaito, o kwassa kwassa do Congo, o dancehall, o baile funk, etc... Não andámos à procura da variedade pela variedade, mas entre as “recolhas”, a intervenção nossa e dos MCs, as remisturas, as participações especiais, acabou tudo por ficar assim”.

Um dos momentos mais marcantes do álbum é quando uma voz anónima termina o fortíssimo e hiper-dançável “Bazuka” com a frase, aproximadamente, “Tenho dois estilhaços da guerra. Um aqui e outro na cabeça. Era só isso”. E tanto Mpula como Ikonoklasta dizem que nunca pensaram “em fazer um disco com estas características que não fosse, de certa forma, de intervenção e que não falasse dos problemas de Angola: os resquícios da guerra, a corrupção, etc...”. É que, para completar o ramalhete de "Dance Mwangolé", ainda faltava esta parte!

19 setembro, 2007

Tarrachinha - A Música Mais Sexy do Mundo (e Outras Músicas de Angola)


A paz em Angola - depois de décadas de guerra (primeiro a guerra contra as tropas portuguesas, depois uma guerra fratricida igualmente sangrenta) - proporcionou o desenvolvimento de variadíssimas e riquíssimas formas musicais e a sua divulgação interna e externa. Não que muita música não se fizesse e gravasse antes - vejam-se as gravações contidas na caixa «Angola», já referida há alguns meses neste blog, ou na recente compilação «Os Reis do Semba», todas feitas durante os anos finais de dominação portuguesa - ou as inúmeras gravações de artistas de kizomba editadas ainda durante a guerra civil. Mas, nos últimos anos, outros géneros foram nascendo e crescendo com uma força imparável: a versão muito própria e angolana do hip-hop e também o kuduro e a tarrachinha. De todos estes estilos, antigos ou modernos, damos conta a seguir.

O espantoso documentário «Mãe Ju» (na foto que encima este texto), realizado por Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves, é um espelho quase perfeito do que é um alfobre de novas músicas - assim como se fosse uma Factory de Manchester transposta para um bairro pobre de Luanda e reconvertida numa espécie de barracão com bola de espelhos incorporada, o botequim da Mãe Ju. Realizado paralelamente à preparação da exposição «Agora Angola» (foto das noivas, ao lado), «Mãe Ju» mostra os fazedores e dançarinos de kuduro e da mais recente tarrachinha no local em que, segundo eles, estas músicas nasceram e se desenvolveram. Nele estão nomes como DJ Znobia, Puto Português, Gata Agressiva, Nacobeta, Come Todas ou Bobani King, nomes de ponta do bem conhecido kuduro mas também da tarrachinha. E o que é a tarrachinha (ou tarraxinha ou tarracha)?... É tão só um kuduro despido de muita da sua carga interventiva, com beats mais lentos e letras de forte carga erótica, mas igualmente electrónico e feito com samples. Mas o resultado é inacreditável: a música é quente, erótica, pulsante; dançada quase como se o casal (homem e mulher) mexessem apenas as ancas, corpo colado ao outro corpo, «roça roça» ou «esfrega esfrega» - nas palavras dos protagonistas - ou, em palavras de escritor, José Eduardo Agualusa, no seu recente e maravilhoso livro «As Mulheres do Meu Pai»: «É uma dança de um erotismo violento. Supera em muito tudo o que vi (e vi bastante) nos bailes funk das favelas cariocas. A moça enrosca-sa ao peito do rapaz, segurando-o pela nuca, e vai-se atarraxando a ele com lentíssimos movimentos dos quadris».

Há letras - e sons! - de tarrachinhas que fariam o «Je T'Aime Moi Non Plus», de Serge Gainsbourg, ou o «I Feel Love», de Donna Summer, parecerem aulas de catequese. E há, percebe-se bem vendo o filme (e ouvindo-se muita da música contida nos discos de que se fala a seguir), que há uma linha invisível que une muitas das músicas angolanas: o semba tem uma continuidade óbvia na kizomba e esta na tarrachinha; o hip-hop à angolana evoluiu naturalmente para o kuduro, na mesma medida em que, noutros locais, o hip-hop influenciou decisivamente o kwaito sul-africano, o baile funk brasileiro ou o reggaeton latino-americano. Na Mãe Ju é possível um kuduro feito ao vivo dar lugar, naturalmente, a uma tarrachinha ou uma kizomba ter como contraponto imediato uma... tarrachinha. E atrevo-me a dizer - embora sem grau absoluto de certeza - que a tarrachinha é o culminar perfeito, a súmula quase completa de todas estas músicas já referidas: do semba e da kizomba pelo lado do calor, do sexo, do contacto. E do hip-hop e do kuduro pela parte «mecânica» de como a tarrachinha é feita. Desses outros géneros, aqui representados por quatro discos recentes e disponíveis em Portugal (via lojas ou sites), fazem-se curtas fichas a seguir:

Na sequência lógica da caixa «Angola» - e com as mesmas estruturas envolvidas (os arquivos da Valentim de Carvalho, a pesquisa da equipa da Difference Music e com distribuição da Som Livre) - surge agora uma maravilhosa colecção de sembas gravados durante os últimos anos de dominação portuguesa. Infelizmente parco em informação de carácter musicológico - tal como já acontecia na caixa «Angola» -, o livreto do disco aponta porém os locais em que o semba (género musical antigo, já referenciado em Angola desde há séculos) resistia a outras músicas, importadas, durante os anos 50 do séc. XX: os musseques, bairros pobres de Luanda, onde o semba era preservado, amado e dançado, evoluindo naturalmente com a chegada de instrumentos novos, eléctricos. Nas gravações presentes em «Os Reis do Semba» - álbum que reúne 50 temas de numerosos grupos e artistas angolanos dos anos 60 e 70 - as guitarras eléctricas e os órgãos competem com percussões acústicas na criação de uma música que faz a ponte entre as músicas tradicionais angolanas com as músicas anglo-saxónicas emergentes, abrindo espaço para a criação posterior da kizomba.

Mais de 50 mil exemplares!!! Foi isso que vendeu a colectânea «O Midjor di Kizomba», editada o ano passado pela Farol - e não se pense que foram só africanos a comprar o disco. Na continuação, o recente «O Midjor di Kizomba 2», a Farol volta a apostar em alguns dos nomes já presentes na primeira compilação e juntou-lhe alguns outros. Artistas angolanos, cabo-verdianos e imigrados na Europa, todos juntos em mais um caldeirão de dança pura, na festa desta música que tem as suas raízes no semba, os ramos no zouk das Antilhas e algumas folhas já a serem «contaminadas» pelo hip-hop ou o R&B. Artistas como Philipe Monteiro, Paulinha, Irmãos Verdades, Roger, Miss S, Isidora, Contu Nobo, Mel, Micas Cabral, Scarlette... E, como bónus, um DVD com mais aulas de como bem dançar kizomba e vídeos de dois dos artistas presentes (Roger e Paulinha).

Banda-sonora de um documentário que ainda aí vem, a colectânea «É Dreda Ser Angolano» (edição da U-hu Fazmisso! Filmes, com o apoio da Rádio Fazuma) contém parte da música captada nas gravações feitas para o documentário em Luanda. O ponto de partida, contam, é o Conjunto Ngonguenha (que aqui dão voz ao tema-título), mas nela estão também muitos outros nomes que protagonizaram o álbum «Ngonguenhação», do Conjunto Ngonguenha, e outros MCs e Djs emblemáticos da cena hip-hop angolana. A lista de participações na compilação é impressionante: Conjunto Ngonguenha, Conductor, Ikonoklasta, Keita Mayanda (os três do Conjunto Ngonguenha), Phay Grand, MCK, Cocas o FSM, Leonardo Wawati, Das Primeiro e Os Turbantes. E, ouvindo-se o álbum (à venda no site da Fazuma pelo preço simbólico de cinco euros), fica a certeza de que o hip-hop em Angola é uma voz livre na luta contra a corrupção e outros males da sociedade e, por outro lado, uma música que, apesar de ser devedora do hip-hop norte-americano, nela estão contidas - em samples, em ritmos, em cadências - muita música local: sembas, kizombas e, obviamente, kuduro (o último tema, d'Os Turbantes, é kuduro puro e duro).

Finalmente, e em «raccord», o último disco deste lote é o CD que reúne os melhores temas de dois discos de Dog Murras - um dos expoentes máximos do kuduro -, editado pela Frikyiwa de Frédéric Galliano, o mesmo que editou «Frédéric Galliano Presents Kuduro Sound System». E «Um Golpe na Obscuridade», assim se chama este álbum de Dog Murras, é uma surpresa para quem poderá ter do kuduro a ideia de esta ser uma música primitiva, simplista, até boçal. Dog Murras é um MC de voz potentíssima, grave e marcante, uma voz que está sempre ao serviço das mensagens fortemente politizadas do cantor. E, na sua música, há inúmeras referências a músicas tradicionais angolanas, batuques a servir de contraponto às programações electrónicas, coros que só poderiam sair de Angola. É um disco extraordinário, para pôr ao lado, nos escaparates da modernidade - de uma modernidade feita de elementos locais e/ou globais -, dos álbuns de M.I.A., dos Konono Nº1, dos Bonde do Rolê e, claro, dos Buraka Som Sistema. A descobrir com urgência.

25 janeiro, 2007

Músicas Mestiças em Lisboa - Espelhos de Espelhos de Espelhos


A Lisboa - cidade que foi durante séculos capital de um império colonial em África e na América do Sul - chegam todos os dias muitas pessoas vindas de países que falam português. Um português híbrido, vivo, mestiço, em constante mutação. Falado por gente de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Brasil... E, entre eles, muitos músicos que, em Lisboa e com outros músicos, africanos, brasileiros e portugueses, misturam as músicas de raiz dos seus países com muitos e variados géneros: jazz, funk, soul, disco, electro, tecno, hip-hop, drum'n'bass, reggae, tudo junto num caldeirão em ebulição permanente de criatividade e liberdade. Num jogo de espelhos interminável. Aqui em baixo fala-se do magnífico documentário «Lusofonia, A (R)evolução», do novo álbum dos Cool Hipnoise (na foto) e da caixa «Angola».


O recente documentário «Lusofonia, A (R)evolução» - produzido pela Red Bull Music Academy, com guião de Artur Soares da Silva e João Xavier - é um espelho perfeito de uma nova realidade que está em construção em Lisboa: a criação de uma música híbrida, viva, mutante, que vive dos cruzamentos e da fusão de músicas africanas com música portuguesa (nomeadamente o fado) e com géneros anglo-saxónicos. Produto óbvio de 500 anos de convívio, miscigenação e trocas entre Portugal, África e Brasil, a nova música feita na capital portuguesa, uma cidade cada vez mais cosmopolita, está aberta a centenas de influências e incontáveis fusões possíveis. No documentário fala-se de «hip-hop em crioulo, música de dança com samples de kuduro, letras em português sobre estruturas contemporâneas» e de muitas outras misturas em desenvolvimento em Lisboa e nos seus arredores onde se concentram as comunidades africanas.

Bons exemplos disso são o DJ, produtor e compositor Sam The Kid, português branco de sotaque africano, que inclui na sua música samples de música brasileira e africana, do fadista Carlos do Carmo e de James Brown; Sara Tavares, portuguesa de origem cabo-verdiana que foi recentemente nomeada na categoria Revelação para os Prémios World Music da BBC; ou os excitantes e recentes Buraka Som Sistema, um colectivo multicultural que faz aquilo a que eles chamam kuduro progressivo (ver crítica ao EP «From Buraka To The World» mais em baixo, neste blog). Os Buraka Som Sistema - que integram três angolanos, um português e um português de origem indiana e moçambicana - pegam no kuduro angolano (uma música urbana devedora do tecno, do hip-hop, do baile funk brasileiro e de ritmos tradicionais angolanos), limam-lhe as arestas mais duras, produzem-no, retiram-lhe parte da carga interventiva das letras de origem e servem-no de uma forma nova e extremamente atraente para os ouvidos ocidentais. Deste grupo faz parte Kalaf, poeta e «diseur» angolano e uma das vozes mais activas no circuito musical lisboeta - para além do seu projecto a solo e dos BSS tem participações em discos dos Cool Hipnoise, Spaceboys, Bulllet, 1-Uik Project (agora One Week Project), dos ingleses Up, Bustle & Out e no disco de spoken-word «Secret Voice, No Time For Silence» (ao lado de Ursula Rucker). E é também esta característica - de muita gente a colaborar com muita gente de origens diversas - que faz a actual riqueza da música produzida em Lisboa. Uma cidade que tem como símbolo musical o fado, música que muito provavelmente tem uma origem africana antes de passar pelo Brasil (o lundum) e se transformar, no séc. XIX, no português fado. No documentário, Sara Tavares diz logo a abrir: «no estrangeiro há muita gente que não sabe que há portugueses pretos». Assim como, geralmente, se desconhece, citando João Gomes, teclista dos Cool Hipnoise, que «toda a gente em Portugal tem contacto com o merengue, a marrabenta e com ritmos cabo-verdianos (mornas, coladeiras, funanás...). Qualquer lisboeta ouviu música diferente de alguém de Milão ou de Paris ou de outra qualquer cidade europeia».

Cool Hipnoise que foram, em meados dos anos 90, protagonistas de uma música de fusão que ia ao hip-hop e à soul, à música africana e brasileira e que têm agora um novo álbum, «Cool Hipnoise» (Metrodiscos/Som Livre), em que a mestiçagem de vários géneros está ainda mais presente que no passado. Oiça-se «Caótica República», em que há ecos de Manu Chao ou Amparanoia; o reggae-electro de «Dois Dias»; o ragga-soul (a carburar em steel-drums) de «Kita Essa Dama»; o funk-afro-beat de «Katinga»; o «blaxploitation» solarengo de «Dias da Confusão»; o disco-sound divertidíssimo e lá pelo meio infectado por África de «Escanifobética»; o funk ácido de «Tudo a Nu»; a súmula perfeita disto tudo que é «Dá-me Dá»; ou o delírio hip-hop hiper-realista da faixa-bónus... Os Cool Hipnoise - agora um colectivo alargado formado por Francisco Rebelo, Tiago Santos, João Gomes, Marga Munguambe, Milton Gulli, Marcos Alves e Hugo Menezes - tiveram no álbum a colaboração de Virgul (Da Weasel), Luís Simões (Saturnia/Blasted Mechanism), Sam The Kid, Regula e de membros da Tora Tora Big Band, entre outros.

Os Cool Hipnoise - que no seu projecto paralelo Spaceboys se atiram a misturas de kuduro, electrónica, funk e jazz - surgiram paralelamente ao explodir definitivo do hip-hop em Lisboa e arredores, feito por brancos e negros, através de nomes como General D (que cruzou sabiamente a música africana com o rap nos dois álbuns que editou antes de se desligar das lides musicais), Da Weasel (actualmente um dos grupos de maior sucesso em Portugal) e os grupos presentes numa colectânea pioneira, «Rapública», que deu a conhecer Boss AC (outro campeão de vendas em Portugal), Zona Dread (de onde saiu D Mars), Family (de Melo D, primeiro vocalista dos Cool Hipnoise) e os fugazes Black Company. E à constatação de que o reggae poderia ser uma música de sucesso, através dos Kussondulola e da sua mistura de ritmos jamaicanos com sembas e merengues angolanos.

Mas a presença da música africana em Lisboa vem muito de trás. Nos anos 60, artistas africanos como o Duo Ouro Negro ou Eduardo Nascimento têm enorme sucesso em Portugal. Nos anos 70, o cantor angolano Bonga salta para a ribalta e uma dinâmica comunidade artística cabo-verdiana começa a formar-se em Lisboa, no bairro de S.Bento. Dela emergem ao longo dos anos 70 e 80 nomes como Dany Silva, Tito Paris, Celina Pereira, Bana ou Ana Firmino (mãe do rapper Boss AC). Já na música portuguesa, a influência de África é notória em cantores como José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho ou da cantora de jazz Maria João. E no caso de Sérgio Godinho e de Maria João, a sua mistura também atinge muitas vezes o Brasil, também porto estético preferencial de Eugénia Melo e Castro e, mais recentemente, de JP Simões. Mas já antes, esse contacto existia intimamente: «Barco Negro» (uma das canções mais famosas de Amália Rodrigues, a diva do fado, é uma canção brasileira de Caco Velho). E o caminho inverso também aconteceu, com poetas e cantores brasileiros - Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Fafá de Belém, Joanna, Ney Matogrosso... - a comporem ou a incluírem fados no seu reportório.

Paradoxalmente, muita da música africana criada e nascida em Lisboa e arredores passou para o «formato» disco em editoras cabo-verdianas ou francesas, só muito raramente em editoras portuguesas - durante muitos anos as editoras nacionais tiveram a ideia de que «a música africana não vende». Um panorama que recentemente teve o seu contraponto, tanto mais irónico quanto raro, na fabulosa caixa «Angola - As 100 Grandes Músicas dos Anos 60 e 70», em que estiveram envolvidas a Valentim de Carvalho (que forneceu as fitas originais das canções), a Difference Music (que editou) e a Som Livre (que distribui). Uma caixa onde se encontram cem preciosos temas de artistas angolanos perdidos algures nos armazéns da VC e agora, felizmente, resgatados para a luz do dia. Possivelmente, muitos deles provocarão um sorriso aberto motivado pela ingenuidade dos arranjos presentes mas muitos outros (e até aqueles) têm lá dentro os germes de muita da música actual - e não só em Angola. A caixa inclui um livro com uma breve História de Angola, das suas línguas, da sua música. Só falta informação mais específica (e algumas fotos) sobre os artistas presentes.

Nos últimos anos, a proliferação de projectos híbridos, mestiços, multiculturais em Lisboa levou a inúmeros e incrivelmente diversos novos projectos onde há lugar para o novo-fado de Mariza (portuguesa de origem moçambicana e a maior embaixadora do fado na actualidade); a música cabo-verdiana modernizada de Lura e Sara Tavares; o hip-hop interventivo de Chullage, Nigga Poison, SP & Wilson ou Conjunto Ngonguenha; o reggae afro-jamaicano dos Mercado Negro e de Prince Wadada; a música brasileira de Cyz e dos Couple Coffee (Brasil que também está bem representado em Lisboa por dois espantosos músicos de jazz: o baterista Alexandre Frazão e o saxofonista Alípio Carvalho Neto); para um baterista como N'dú (da banda de Tcheka e Sara Tavares), que funde funk e drum'n'bass com ritmos africanos; para projectos híbridos e em que se juntam portugueses, africanos e músicos de outras nacionalidades como o grupo de Lindú Mona, os Terrakota, os Tama Lá ou os Djumbai Jazz; para a música angolana mas cada vez mais universal de Waldemar Bastos; ou para o n'gumbé excitante do guineense Manecas Costa.

Um dos momentos mais marcantes de «Lusofonia, A (R)evolução» acontece quando surgem imagens intercaladas da revolução de 25 de Abril de 1974 e das actuais festas comemorativas dessa revolução: DJs como Nel'Assassin e outros cruzam beats de hip-hop com velhas canções de intervenção e samples de transmissões radiofónicas do dia 25 de Abril. Quase logo de seguida, Johnny (da Cooltrain Crew) diz: «Estamos a assistir ao nascimento de algo novo». Uma nova revolução que, idealmente, pode atingir 220 milhões de pessoas que falam português. De Portugal ao Brasil e aos países africanos de língua portuguesa, sim, mas também de outros lugares: Galiza, Macau, Timor-Leste, partes da Índia e todas a comunidades portuguesas e lusófonas espalhadas pelo mundo.