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01 agosto, 2007

FMM de Sines - «Os Gamíadas» (ou Um Proto-Poema Semi-Épico - Conclusão)



Das Descobertas, Batalhas e Combates na Praia e no Castelo

Qual fero Adamastor, com as suas ameaças
Recebemos anónimas mensagens (do Cristiano)
Mas não perdes pela demora, oh Dragão das Taças
Havemos, oh celta falso, de nos encontrar p'ró ano!


Com Clash, oud, darabuka e sabedoria
Eis agora o enorme mouro, o Rachid Taha
Que gosta muito mais do galo champanhe
Do que da menta da sua terra: o bom chá


Ele há teutões que não batem bem do coco
Ele há helvéticas que põem o povo louco
Ele há bretões que fazem soar a bombarda
Ele há saxões que da folk fazem atoarda
Ele há romanos que dão grande chavascal
E, todos, todos, todos, não se saíram nada mal!


Oh África, África, nossa Terra-Mãe Comum
Ulularam as Tartit, cantou bem a Sangaré
E cantou o cota Ahmed e ainda mais um:
O glorioso K'naan, que ao 50 Cent bate o pé
Ao 50 Cent bate o pé, aos Limp Bizkit também
O jovem K'naan, que foi salvo por sua mãe
E se lerem isto em rap, do rap façam lição
Mas se for em baile mandado, talvez sim, talvez não
Talvez sim, talvez não, talvez cheguemos ao Brasil
Com o bandolim do Hamilton que do Pereira faz mil
Ou talvez ao Harry Manx, blues com sabor a caril
Blues com sabor a caril, que são ali do Canadá
Oh América, América, oh América coisa má
Diz um quarteto de saxofones que é do melhor que há...


Descobrimos das orientais electrónicas os odores
Quando arribámos ao mar bravo do Japão
O que nos salvou foi o indiano dos tambores
Deus das tablas Gurtu, que toca aquilo à mão


Dos odores do reggae houve um cheirinho
Um cheirinho que não era mesmo nada mau
Mas este cheirinho de que todos nós gostámos
Não era do Bitty McLean... Era do manhanhau


E que povos tão estranhos são estes Gogol Bordello
Comunistas! Ciganos! Punks! Até um preto no baixo!
Na refrega, no mosh, nosso Pedro perde óculos e cabelo
Calma, filho, calma: enrola aí um que eu já os acho


No fragor da batalha, com o castelo em chamas
Estalar de fogo, um cheiro a pólvora pelo ar,
Já todos ansiamos pelas nossas pátrias camas
Mas a cama pode esperar! Havemos todos de bailar!


A Festa, A Festa... e Dedicatória Final aos Amigos


O escriba zarolho e seu amigo Gonçalo
Com muitos discos e apenas dois pratos
Puxaram a dança até ao cantar do galo
Passando, enfim, da teoria aos actos


Há muitos milhares de pessoas a dançar
Ao grande som do Bailarico Sofisticado
Festejamos todos juntos o gosto de viajar
E abraçamos os amigos: muito obrigado!


(Cheia está a Lua e já vai nascendo o Sol
Deixa-me dormir agora dentro do teu lençol)


Em Sines, ao lado da do Vasco da Gama
Ergueremos estátua ao Almirante Seixas
Que já o supera em engenho, arte e fama
E a todos deixa sem mágoas nem queixas


Na foto (do grande João Gonçalves): os bailadores ao som do Bailarico Sofisticado, num último adeus ao festival, já o sol tinha nascido sobre a Avenida da Praia Vasco da Gama, em Sines

31 julho, 2007

FMM de Sines - «Os Gamíadas» (ou Um Proto-Poema Semi-Épico em Construção)



Prólogo


Ao fim de tarde na praia Vasco da Gama
Já vemos garbosos navios a atracar
São cervejas, manhanhaus e caipirinhas,
Ao som de Bob Marley e de tanto, tanto mar...

São p'ra cima de vinte, os marinheiros
Espalhados por toda esta semana
Em três caravelas, três!!!, senhores,
Mesmo que não haja assim tanta cama

Não faz mal, diz o Capitão Vítor
Algum canto se há-de arranjar
E de canto em canto lá vamos
Passando estes dias a cantar*

Tanto cantámos na noite de sábado
Que a Tenente Cristina discursou
E com tanto empenho e brio o fez
Que a todos os amotinados calou!


As Primeiras Descobertas da Tripulação


À noite no promontório de Porto Covo
Solta-se a música em grande folguedo
E só os Deti Picasso, apesar da miúda,
Fizeram uma música de fugir de medo

De resto, tudo ficou bem por aqui:
O Darko Rundek e o violinista travesti
O franciú da guitarra com a Mamani
A loucura ska-trad dos Haydamaky
As gaitas dos Galandum (sopra-me aqui!)
Os Etran Finatawa, do Niger que parece Mali
E até os Djabe... em inglês: da Hungary

(Mas... o Rão Kyao, esse, coitado, era melhor continuar no fado)

No novo Centro de Artes de Sines
Havia gente por dentro e por fora
E todos os concertos foram bons
Indepentemente do estilo e da hora

Nas Ttukunak a txalaparta partiu
Ah, grandes gémeas do País Basco
Foi tal o vigor que delas se viu
São por certo marujas do Gama, o Vasco!

O Marcel parece um Cohen judeu
E a bela Lula aos matraquilhos perdeu
Mas quando cantou, Deus meu!,
Até o Boy George no fado meteu

O Jacky Molard mais a sua banda
Misturam bem a tradição com o jazz
Mas foi no convés da nau SMURSS
Que mostraram como a música se faz


(E agora um Breve Interlúdio à la «Ilha dos Amores»):


Comemos frango de freak-à-séria
Nas esplanadas das tasquinhas
E bebemos um néctar tão perfumado
Que vinha das melhores vinhas**

Descobre o freak que há em ti
Disse-lhe ela com todo o respeito
E enrolou-lhe um charro de erva
Enquanto da relva fez seu leito***

E lá vem Ana; e lá vem Pedro
Anunciar, taram!, o seu noivado
Não estivéssemos todos bêbados
E tínhamos logo caído p'ró lado

Há um doce triângulo amoroso
Do mais bonito que pode haver
O Manuel, a Petra e o Luís
Todos estão nos blues com prazer

Sem esquecer a cadela Naika
Que outro triângulo (quadrado?) insinua
Ela, o Luís e a sua querida Petra
Mais o Árabe, lindo, a uivar à Lua

O amor, o amor, o amor é tão bonito
Que outras histórias se poderiam contar
Mas como gosto dos meus amigos
O melhor é ver, ouvir e... assobiar

(fim do interlúdio à la «Ilha dos Amores»)


Notas:

(*reparem bem, por favor, no elegante jogo de aliterações entre as palavras «canto» - de «um sítio qualquer onde descansar o esqueleto, nem que seja o hall de entrada, quando não estamos a ver concertos e a embebedar-nos violentamente» - e «canto», do verbo «cantar»)

(**reparem bem, bis, no subtil jogo fonético da palavra «vinha» - do verbo vir - com a palavra «vinhas» - de videiras, aquelas plantas que dão uvas, das quais se faz vinho, etc, etc...)

(***reparem bem, tris, na inteligente ligação entre os diferentes significados de «erva» e de «relva», que apesar de serem por vezes sinónimas são vegetais que nem sempre têm a mesma origem, utilidade e função...)

(Na foto: Vasco da Gama, nossa inspiração comum... Amanhã no Raízes e Antenas: As descobertas das costas de África, das Américas e da Índia na segunda e última parte de «Os Gamíadas»)