Mostrar mensagens com a etiqueta Artur Paredes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artur Paredes. Mostrar todas as mensagens

04 abril, 2011

Colectânea de Textos no jornal "i" - XXIV


Em busca das arcas perdidas...
Publicado em 18 de Fevereiro de 2010

A Movieplay vai editar, dia 1 de Março, uma colecção de fado com dezenas de temas inéditos em CD "descobertos" no acervo da antiga editora Alvorada, etiqueta da Rádio Triunfo. O trabalho de recuperação do tesouro foi feito por José Manuel Osório e, nos três volumes de "Os Fados da Alvorada", estão gravações de Amália Rodrigues, José Afonso, Artur Paredes (na foto), Carlos Paredes, Luís Piçarra, João Villaret, Tereza Siqueira (mãe de Carminho), Maria de Lurdes Resende e Madalena Iglésias, entre muitos outros. Trata-se de mais um passo importantíssimo - a juntar-se a outros - para a preservação da nossa memória musical. Mas ainda há muito por fazer. Há alguns dias, no âmbito de um trabalho não estritamente musical, um amigo meu "descobriu" (e continuo a usar as aspas porque estas coisas já lá estão, à espera de ver de novo a luz) valiosíssimas gravações ao vivo de artistas e grupos importantes do pré e pós-25 de Abril que é urgente dar a conhecer. Numa conversa recente com um etnomusicólogo veio à baila o facto de dezenas de horas de recolhas feitas por Michel Giacometti (e mais algumas feitas por Ernesto Veiga de Oliveira) nunca terem sido disponibilizadas em disco, quer em vinil quer em CD. Se juntarmos a isto o facto, entre outros, de não ter sido dada continuidade à colecção Do Tempo do Vinil (que previa, por exemplo, o lançamento em CD do primeiro álbum a solo de José Cid), vemos que esse trabalho de recuperação é gigantesco mas absolutamente necessário.


E as arcas já reveladas...
Publicado em 25 de Fevereiro de 2010


Um leitor deste jornal fez-me chegar, simpaticamente, via email, o reparo de que uma frase contida na minha última crónica - "o facto de dezenas de horas de recolhas feitas por Michel Giacometti (e mais algumas feitas por Ernesto Veiga de Oliveira) nunca terem sido disponibilizadas em disco, nem em vinil nem em CD" - poderia induzir em erro e ser entendida como a afirmação de que nada daquilo que Giacometti recolheu alguma vez esteve disponível em disco. Tem razão, mas não era essa, obviamente, a minha intenção: o que eu quis dizer era que, para além das muitas horas já editadas, há ainda muitas outras que nunca foram passadas a disco. Como a semana passada se falou aqui de "arcas perdidas" de gravações de música tradicional portuguesa, fala-se hoje de algumas (e apenas de algumas) daquelas que já foram abertas e estão disponíveis em suporte CD: "Música Regional Portuguesa", recolhas de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça (Strauss/PortugalSom), cinco CD; "Portugal Raízes Musicais", recolhas de José Alberto Sardinha (BMG/JN), seis CD; "Música Tradicional dos Açores" (Açor), quatro caixas de CD; "Musical Traditions of Portugal" (Smithsonian/Folkways), CD com 30 temas; "Música Tradicional - Terra de Miranda" (Saga, numa colecção que inclui também regiões espanholas); "Voix de Femmes de Portugal" (Ethnic); variadíssimos CD com recolhas de Mário Correia (Sons da Terra), etc. Conclusão: há muita música de raiz tradicional rural já revelada, mas há muito mais ainda por revelar.

Um outro mapa necessário
Publicado em 04 de Março de 2010


Não quero alongar-me muito sobre o estado do ensino da Música nas escolas oficiais, realidade que, sublinho, apenas conheço pela rama, mas da qual tenho a percepção, talvez errada talvez não, de que é extremamente pobre se comparada com a de muitos outros países, principalmente no que toca ao ensino das nossas músicas tradicionais - carência que é, em parte, colmatada pela existência de escolas privadas ou associações em que esse ensino existe, vivo e dinâmico. Estou convicto, no entanto, de que essa realidade poderá mudar, pelo menos um bocadinho, se todas as salas de aula em que se ensina Música ostentassem na parede, com orgulho e galhardia, o belíssimo Mapa Etno-Musical de Portugal. Espelho imediato da diversidade, da riqueza e da originalidade de géneros musicais, instrumentos tradicionais, formações vocais ou antigos saberes do povo português, o Mapa Etno-Musical é uma criação do músico Júlio Pereira, com a ajuda de João Luís Oliva, Sara Nobre e Henrique Cayatte, e nele estão, de forma simples e imediata, retratados variadíssimos instrumentos musicais portugueses, uns conhecidos e outros que poderão abrir imediatamente o apetite a miúdos e professores: mas que raio é um rajão ou uma viola campaniça, que música é essa do aboio ou do leva-leva? No site do Instituto Camões, onde o mapa também está alojado, podem ainda ouvir-se os sons respectivos. Apesar de não ser exaustivo, o mapa é bem capaz de aguçar a curiosidade por muita da nossa música.

26 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 4º Fascículo
























Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
CORDAS UMBILICAIS

Pode um instrumento musical espelhar - com o seu som, o seu timbre, a sua respiração e movimento e vibração - a alma de um povo? Pode. Ouve-se um didgeridoo na Austrália, um berimbau no Brasil, uma kora no Senegal, uma flauta de Pã nos Andes, um tambor taiko no Japão, e sabemos que aquele instrumento específico está a ser tocado pela alma certa, mesmo que possa ser tocado por «corpos» de toda a gente em todo o mundo.

Pode a guitarra portuguesa espelhar a alma do povo português? Pode. Há guitarra portuguesa de Lisboa e guitarra portuguesa de Coimbra e guitarra portuguesa do Porto e Braga. E há gente a tocá-la em todo o país. E há um género (dois?, se falarmos de Lisboa e de Coimbra separadamente) que lhe está colado como uma segunda pele, o Fado - ou, dizem os mais críticos, em vez de uma pele, um casaco grande e grosso que por vezes lhe abafa o respirar. E há intérpretes e compositores que fizeram da guitarra portuguesa um instrumento maior. João Maria dos Anjos, Antero Alte da Veiga, o clã Paredes - Gonçalo, Artur e Carlos -, Armandinho, Raúl Nery, António Portugal, António Brojo, Fontes Rocha, Augusto Hilário, Pedro Caldeira Cabral, António Chaínho e muitos, muitos outros... E, mais recentemente, há músicos mais novos que se atiram à guitarra sem complexos e com vontade de a levar para o futuro como Ricardo Rocha, Paulo Parreira, Custódio Castelo ou Paulo Soares... E algumas mulheres, como Marta Costa, perderam o medo de tocar este instrumento difícil e extremamente exigente em termos físicos (a posição; a dureza das cordas...). E há gente do rock a virar-se para ela: na invenção e recriação física do instrumento através das «guitarras portuguesas mutantes» de Nuno Rebelo; na paixão com que Luís Varatojo (ex-Peste & Sida e Despe e Siga) trocou a guitarra eléctrica pela guitarra portuguesa e contribuiu para fazer A Naifa; na aventura que é usar guitarra portuguesa no heavy-metal (os Thragedium, cujo líder, Eclipse, também toca guitarra portuguesa). E os ecos do instrumento não ficam por aqui. Mesmo que não estejam lá, fisicamente, estão nos samples de Sam The Kid ou nas guitarras eléctricas dos Dead Combo, de The Legendary Tiger Man e de Gonçalo Pereira (cf. na versão de «Movimentos Perpétuos», de Carlos Paredes, no álbum «Upgrade»).

A guitarra portuguesa, dizem alguns historiadores, evoluiu a partir de uma fusão da cítara com a guitarra inglesa e faz parte de uma imensa família de cordofones. Pelo som, e pelo sentimento, é irmã do oud (o alaúde árabe), é prima do bouzouki grego (que, por uma estranha emigração, foi adoptado também pelos irlandeses) e do bandolim siciliano, e é vizinha da guitarra espanhola - tão vizinha que, geralmente, para cada guitarra portuguesa há uma viola - uma guitarra espanhola - ali mesmo ao pé. Mas as ligações genealógicas dos cordofones podem ir mais além no tempo e longe no espaço: podem ir ao shamisen das gueixas japonesas, à sitar indiana, à balalaika russa, ao ukelele havaiano (neto dos cavaquinhos portugueses), à kora dos griots mandingas, às violas de lata dos blues do Mississippi.

São cordas que prendem a música, as canções, à terra onde nascem, como cordões umbilicais que nunca são cortados, como fios de Ariadne que nos servem de bússola permanente, como uma teia de relações que se prendem - e nos prendem - a um tempo, a um espaço, a uma poesia, a um gosto, a um destino. E à alma dos povos que as dedilham.

22 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 3º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
DISCOGRAFIA BÁSICA

A guitarra portuguesa está, quase sempre, escondida atrás de um fadista ou de uma fadista. E não são muitos os registos discográficos existentes que dêem ao instrumento o protagonismo absoluto. O BLITZ foi à procura dos discos que julga serem os que mais e melhor justiça fazem à nossa guitarra:

António Brojo e António Portugal - «Variações Inacabadas» (CD 1994 EMI). Dois dos mais importantes guitarristas de Coimbra colaboram num álbum que foi deixado inacabado devido ao falecimento dos dois intervenientes. Neste disco, Brojo e Portugal interpretam temas próprios e de Artur Paredes, Gonçalo Paredes, Augusto Hilário e Flávio Rodrigues, entre outros.

António Chaínho - «A Guitarra e Outras Mulheres»(CD 1998 Movieplay). Acompanhante de fadistas como Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo e Carlos do Carmo, entre outros, Chaínho mostra neste disco que também é um talentoso compositor de originais. É aqui acompanhado por cantoras como Teresa Salgueiro, Marta Dias, Elba Ramalho ou Filipa Pais e músicos como Fernando Alvim, Vinicius Cantuária, Greg Cohen, Peter Sherer e Eyvind Kang.

Artur Paredes - «Artur Paredes» (LP 1961 Alvorada, CD 2003 Movieplay). Filho de Gonçalo Paredes e pai de Carlos Paredes, Artur Paredes foi «o génio revolucionário da guitarra coimbrã» (diz José Niza). Neste disco, Artur Paredes interpreta originais seus acompanhado por Carlos Paredes (também na guitarra portuguesa) e Arménio Silva (viola).

Carlos Paredes - «Guitarra Portuguesa» (LP 1968 Columbia, CD 1987 EMI-VC) e «Movimento Perpétuo» (LP 1971 Columbia, CD 1988 EMI-VC). Se Artur Paredes, pai de Carlos, revolucionou a guitarra coimbrã, Carlos Paredes revolucionou toda a música nacional e fez da guitarra portuguesa um instrumento maior na galáxia dos sons. Génio absoluto, Carlos Paredes - acompanhado nestes dois álbuns pela viola de Fernando Alvim - lança as sementes do futuro para o instrumento em temas imortais por si compostos e interpretados («Canção Verdes Anos», «Movimento Perpétuo», «Mudar de Vida»...).

Domingos Camarinha e Santos Moreira - «Guitarras Portuguesas» (LP 1960 Decca, CD 2001 EMI-VC). O guitarrista Domingos Camarinha (neste disco acompanhado à viola por Santos Moreira) foi acompanhante e autor de músicas para Amália Rodrigues e um dos mais importantes intérpretes de guitarra de Lisboa. Neste álbum toca temas de Lisboa mas também de Coimbra e do folclore nacional.

José Nunes - «O Melhor de José Nunes» (CD 2001 EMI-VC). Acompanhador de fadistas (nomeadamente Amália) mas também solista, José Nunes foi o melhor exemplo de como a guitarra portuguesa é mesmo... portuguesa. Nascido no Porto, é tido como um genial fusionista entre os estilos de Coimbra e Lisboa. Neste disco interpreta temas seus e de outros (Raul Ferrão, Max, populares...).

Pedro Caldeira Cabral - «Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII» (CD 2003 Tradisom). Instrumentista, investigador, especialista em música antiga, Pedro Caldeira Cabral (na foto) é também um apaixonado pela guitarra portuguesa. Neste disco duplo, Cabral vai em busca de formas clássicas/eruditas (embora não se resuma a isto) interpretadas em guitarra portuguesa: pavanas, sonatas, tocatas, minuetos...

Ricardo Rocha - «Voluptuária» (CD 2003 Vachier & Associados) e «Tributo à Guitarra Portuguesa» (CD 2004 Público/Vachier & Associados). O mais talentoso guitarrista de Lisboa da nova geração, Ricardo Rocha tanto inova, revoluciona e leva a guitarra para novos e inexplorados territórios (no álbum em solo absoluto - excepto quando é acompanhado por cravo e violino - e maioritarimente com composições suas, «Voluptuária») como é respeitoso e reverente na transmissão de temas de compositores do passado como Armandinho, José Nunes, Domingos Camarinha, José Cavalheiro ou Jaime Santos (em «Tributo à Guitarra Portuguesa», em que é acompanhado pela viola de Paquito).

Vários - «Guitarra Diversa» (CD 2004 Músicactiva). Álbum editado com o apoio de Coimbra - Capital Nacional da Cultura, inclui participações de Ricardo Rocha, Pedro Caldeira Cabral, Nuno Rebelo, Cândido Lima e Paulo Soares.

Vários - «Guitarras do Fado - Ao Vivo na Aula Magna» (CD 2001 EMI-VC). Inclui gravações ao vivo de Fontes Rocha, Carlos Gonçalves, Mário Pacheco, Manuel Mendes, Paulo Parreira e Ricardo Rocha.