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14 novembro, 2007

Bonde do Rolê, M.I.A. e Mexican Institute of Sound - Das Margens Para o Centro


Vêm de lugares exóticos como o Sri Lanka, o Brasil e o México e fazem das músicas mais excitantes da actualidade, contaminando géneros locais com sonoridades globais (e vice-versa), num caldeirão em que o hip-hop, o punk, as electrónicas, o baile funk ou a cumbia têm lugar reservado. M.I.A. (na foto), Bonde do Rolê e Mexican Institute of Sound: para ouvir sem preconceitos («listen without prejudice», como diria o outro)...


M.I.A.
«KALA»
XL Recordings

Depois do fabuloso álbum «Arular» (dedicado ao pai, cujo nome é Arul, aka Arular), a MC, cantora, produtora e compositora M.I.A. volta ao ataque, literalmente, com «Kala» (desta vez, o nome da sua mãe), um álbum em que ela regressa aos «statements» políticos do anterior e a uma missão que ela leva muito a sério: fazer uma música universal, aberta, cheia de referências e prenhe de sentido. Uma música em que o hip-hop, o reggaeton, o grime, o baile funk, o electro, o punk dos Clash, ritmos africanos, didgeridoos e beats violentíssimos, melodias sacadas a filmes indianos e do Sri Lanka se harmonizam num todo único, variadíssimo, sempre dançável e exemplo máximo de como se pode fazer uma música que pode conter em si tantas mas tantas músicas. M.I.A. (que significa «missed in action») chama-se na realidade Mathangi Arulpragasam, nasceu em Londres mas os seus pais são do Sri Lanka (o pai de M.I.A. foi um destacado guerrilheiro Tamil e fundador da Eelam Revolutionary Organisation of Students), país ao qual voltaram depois do nascimento de M.I.A. - a causa Tamil está, aliás, sempre presente nas suas letras, tendo M.I.A. abraçado a causa dos seus pais de corpo e alma. Regressada a Londres, M.I.A. iniciou a sua carreira como pintora, designer, fotógrafa e, principalmente, uma cantora e compositora de enorme sucesso que tem agora em «Kala» (em que participam Timbaland, Diplo, Switch, Afrikan Boy, Blaqstarr...) um pico de criatividade fabuloso. (9/10)


BONDE DO ROLÊ
«WITH LASERS»
Domino Records

Os Bonde do Rolê são um divertidíssimo trio brasileiro de Curitiba que junta os ritmos saídos directamente do baile funk carioca com samples de guitarras eléctricas vindas do metal e letras que fariam corar o Quim Barreiros («Esfrega daqui e roça de lá/arranha a aranha pra chapa esquentar/pega daqui e lambe de lá/arranha a aranha pra chapa esquentar»; «James Bond dá o cu; James Bond chupa rôla...»; «Meu ursinho de pelúcia, eu roçava na infância...», entre muitos outros exemplos e com uma boa dose de gemidos sugestivos a ajudar...). A fórmula é simples e absolutamente irresistível! Pegue-se no álbum «With Lasers», ponha-se a rodar e é um nunca mais acabar de dança, risos, boa-disposição: «Dança do Zumbi», «Solta o Frango», «Divine Gosa», «Marina Gasolina», «Bondallica» (este, obviamente, inspirado nos Metallica) levam o baile funk para territórios mais orgânicos, mais rock, mais «universais». E são um achado de criatividade. Os Bonde do Rolê - os DJs e MCs Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot e a vocalista Marina Vello - foram «descobertos» por Diplo (ele também presente no álbum de M.I.A.) e cruzam agora os palcos de todo o mundo. Com justiça. (8/10)


MEXICAN INSTITUTE OF SOUND
«PIÑATA»
Mico/Cooking Vinyl

Produto de uma surpreendente escola mexicana de excelentes DJs que misturam electrónicas com músicas latino-americanas - ouçam-se também os óptimos Nortec Collective, por exemplo -, o Mexican Institute of Sound é a criação de um geniozinho, Camilo Lara, que neste seu segundo álbum, «Piñata» (o primeiro tinha sido «Méjico Máxico»), continua no seu laboratório a misturar de forma inteligente e bastante original géneros completamente diferentes entre si: cumbia, música ranchera (com um vira lá pelo meio, em «Para No Vivir Desesperado»), cha-cha-cha, hip-hop, dub e, por vezes, também baile funk (especialmente presente em «La Kebradita», a fazer o «raccord» com os discos anteriores - e através, se bem que de forma enviesada, da vocalista brasileira Pat C, que canta em dois temas do álbum). E apesar de, por vezes, o trabalho de estúdio estar demasiado presente - no mau sentido - na sua música, de outras estamo-nos completamente nas tintas para que esta música seja «artificial» (feita de samples, de colagens electrónicas...), tal é o apelo dançável que contém. Uma música experimental, arrojada, moderna, muitas vezes a desenhar bandas-sonoras perfeitas para «fiestas» globais e em que os preconceitos não têm lugar. No tema «A Todos Ellos» (no livreto chamado «Por Los Caídos») há uma sentida homenagem aos seus heróis: Johnny Cash, William Burroughs, Nusrat Fateh Ali Khan, Jaco Pastorius, Ian Dury, Ritchie Valens, Nick Drake, James Brown, Jack Kerouak, Joey Ramone, Kurt Cobain, Compay Segundo, Camaron de la Isla, Klaus Nomi, Ali Farka Touré, entre muitos outros... Arrepiante! (8/10)

Nota: os Bonde do Rolê tocam hoje à noite no Santiago Alquimista, em Lisboa, com primeira parte dos nova-iorquinos Holy Hail.

22 agosto, 2006

Cacharolete de Discos (Parte 127)


E mais uma selecção de críticas a álbuns saídos há alguns meses, publicadas originalmente no BLITZ. Desta vez, Salif Keita, SambaSunda (na foto), Susheela Raman, DJ Marlboro (e o baile funk das favelas brasileiras) e uma colectânea comemorativa da importantíssima editora africana Syllart.



SALIF KEITA
«M’BEMBA»
Universal

Cantor maliano rodeado de vozes e cordas que o levam ao céu.

O novo álbum de Salif Keita continua a sua viagem de regresso às raízes da música mandinga – tendência já registada no álbum «Moffou» (2002) –, depois de ter flirtado durante muito tempo com géneros, digamos, ocidentais (o jazz, o funk...). Em «M’Bemba» ainda há alguns traços dessa «ocidentalização» - como no segundo tema, o lindíssimo «Laban», com um baixo eléctrico suavemente funk – mas é maioritariamente ocupado por música que só pode vir dali, do Mali e das zonas limítrofes. Rodeado por uma banda fabulosa (onde se inclui Kante Manfila na guitarra acústica) e por alguns convidados de luxo como o cantor de reggae Buju Banton (num tema fortíssimo, «Ladji», que faz naturalmente a ponte entre o Mali e a Jamaica) ou Toumani Diabaté (em kora no maravilhoso tema-título), Keita assina um álbum que é uma festa de vozes (a dele e de coros femininos), cordas (muitas) e percussões. (8/10)

SAMBASUNDA
«RAHWANA’S CRY»
Network/Megamúsica

Da Indonésia conhecemos, geralmente, os gamelões (orquestras de xilofones de metal ou de bambu, gongos e outras percussões), a música de Bali (o «kecak» ou «canto dos macacos») e pouco mais. É, por isso, uma surpresa grande depararmo-nos com um álbum como «Rahwana’s Cry». Oriundos do oeste da ilha de Java, os SambaSunda são uma imensa trupe (cerca de quinze elementos) liderada por Ismet Ruchimat, compositor de boa parte dos temas do grupo. E, sem nunca recorrer a instrumentos «modernos» (guitarras eléctricas, sintetizadores...), conseguem criar uma música viva, alegre e de uma modernidade absoluta, cheia de groove e transe e melodias lindíssimas, misturando vários géneros do arquipélago e recorrendo quase sempre a instrumentos locais (o violino e o djembé são excepções). Ah, e têm também uma excelente voz feminina (Rita Tila). (8/10)

VÁRIOS
«20 YEARS HISTORY - THE VERY BEST OF SYLLART PRODUCTIONS»
Syllart/Sono/Megamúsica

O produtor e editor Ibrahima Sylla é uma lenda da música africana. Senegalês de origem nobre, falante de várias línguas do seu país e dos países limítrofes (mandinga, bambara, wolof, foula...), irmão e primo-direito de 63 rapazes e raparigas, estudante de economeia e gestão em Paris, Sylla tinha a cabeça bem aberta - quando começa a trabalhar, durante os anos 70, no estúdio Golden Baobab, com a Orchestra Baobab ou a Étoile de Dakar (de Youssou N'Dour). A partir daí, produz, edita dezenas de artistas africanos e inventa, no princípio dos anos 80, o super-grupo Africando. A sua Syllart Productions - aqui representada numa caixa com 5 discos - agrupa muitos dos maiores artistas do Senegal, Mali, Congo, vai às raízes da música africana e atira-se ao futuro, em fusões com muitas outras músicas (o último CD inclui reggae, funk, hip-hop africanos...). Um documento incontornável da música africana. (9/10)

SUSHEELA RAMAN
«MUSIC FOR CROCODILES»
Narada/EMI

Cantora de origem indiana grava pela primeira vez com indianos... para fazer um disco ocidental.

Ao terceiro álbum, a cantora inglesa de origem indiana Susheela Raman dá o primeiro semi-passo em falso da sua carreira. Não que o álbum seja mau – não é! – mas porque é um álbum nitidamente desequilibrado. Tem uma primeira parte cantada em inglês, com ambientes entre Sade e Dido e com tablas e sitar a apimentarem o conjunto. É boa pop com caril mas pouco mais. As coisas melhoram bastante a meio do álbum (curiosamente com um tema jazzy-exotica-fumegante em inglês, «Meanwhile», a cheirar a Cassandra Wilson) antes de se atirar, e bem, a canções tradicionais do sul da Índia (e até a uma bonita balada em francês), sabiamente transpostas para a modernidade. A fechar, «Leela» é novamente cantado em inglês mas é uma chave perfeita para um álbum imperfeito. (6/10)

DJ MARLBORO
«FAVELA FUNK»
Different World/Musicactiva

O baile funk (também conhecido como funk carioca) nasceu nas favelas do Rio de Janeiro, ainda nos anos 70, então com sound-systems ao jeito jamaicano que debitavam soul, funk e disco-sound em festas comunitárias. Nos últimos anos, no entanto, o estilo conhecido como baile funk deve quase tudo aos ritmos e electrónicas sacados ao Miami Bass, mas com letras «rappadas» em português e um calor que só poderia sair do Brasil. E é um movimento imparável nesse país – à semelhança do que acontece com o reggaeton em Porto Rico, o kuduro em Angola ou o kwaito na África do Sul -, onde desceu da favela para as zonas de classe média do Rio de Janeiro, alastrou a outros pontos do Brasil («o nosso som é de raiz, saiu lá da favela e se espalhou pelo país», diz MC Gallo, em «Funk das Favelas»), e é dançado em festas frequentadas por milhares de pessoas, negras e brancas, ricas e pobres, nos bairros-de-lata ou nas discotecas cariocas ou paulistas da moda. E de que é feito o baile funk? Tal como «Favela Funk», colectânea escolhida por DJ Marlboro (um dos pioneiros e DJs mais respeitados do movimento) elucida bastante bem, é feito de electro, hip-hop, tecno, house, samba, música do nordeste do Brasil, dancehall jamaicano, disco-sound, ritmos africanos e samples variados. Aqui vale tudo, a começar por letras de consciencialização política e social («eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci») e a acabar em letras de forte carga erótica («a minha bochecha está ardendo», diz a Vanessinha do Picatchu, «se eu descer mais um pouquinho você vai ficar querendo...», responde o Krrasco... e não, não é das bochechas mais óbvias que eles falam) ou em descrições das festas ou da forma de dançar o género («bate o pé... bate o bumbum...»). A colectânea integra nomes (as designações são divertidíssimas) como Cidinho e Doca, Força do Rap, Os Tchutchukos, Bonde do Tigrão, Os Krrascos & Vanessinha do Picatchu, Ganga Jump ou Jah Mai. Para ouvir (e, claro, dançar) sem preconceitos de espécie nenhuma... (7/10)