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29 junho, 2009

Med de Loulé - Rokia N'Roll!


Ainda mal refeito de mais cinco dias no Med de Loulé, as primeiras memórias fotográficas que me saltam aos olhos (às meninges?) nem são musicais: são, primeiro que tudo, os amigos - os de Lisboa e de outros lugares (Aveiro, Porto, Algarve, Alentejo...), uns que vou vendo durante o ano, outros que só encontro ali... E, depois, relâmpagos fugazes que me mostram um piano coberto a crochet ao lado de uma tarântula de pano e lantejoulas e coração de plástico negro; uma menina feliz de tranças loiras, com margaridas e purpurina a darem ainda mais brilho ao seu cabelo; uma «sevilhana» de óculos de fundo de garrafa que desmaia à minha frente; a tribal e magnificamente bem coreografada dança do fogo dos Satori; um rapazinho que regateia o preço do djembé - «são 70 euros?», «75!», «70», «75!»...; o reencontro com a Alandra, a cadela mais bonita do mundo a seguir à minha, claro; ou as imperiais e as sopas de tomate e as sardinhas albardadas que nos são servidas à hora da ceia, por pura simpatia...

E, a música... Sem ordem cronológica aparente (nem outra, sequer), mas com uma ordem que vem da ordem do coração: Rokia Traoré, em mais um fabuloso concerto afro-rock, mais conciso mas nem por isso menos intenso, que passou por temas do último álbum - exemplos: as maravilhosas «Zen» e «Kounandi» ou a versão de «The Man I Love» - e seguiu até ao habitual encore final de homenagem aos seus heróis, desta vez com a «Mama Africa» Miriam Makeba ao lado de apontamentos de temas do recém-falecido Michael Jackson. Os Moriarty e a sua (aliteração!) arte, a arte de saber transformar uma simples sequência de três canções - as versões de «Enjoy The Silence» (Depeche Mode), «Chocolate Jesus» (Tom Waits) e o seu original «Jimmy» - em algo tão valioso quanto um concerto inteiro. Os meus queridos (todos eles!) Mu e as suas músicas europeias transmutadas numa celebração das músicas de todo o mundo e, raios, com muito rock lá dentro, também. O mesmo rock que assombrou, e ainda bem!, outros momentos do Med deste ano: os Led Zeppelin em versão África mandinga - e tudo isto é elogioso - de Justin Adams e Juldeh Camara (aquele riti, espécie de njarka/espécie de violino de uma corda só é arrepiante de belo) ou os tangófilos e tangófonos Bajofondo de um oscarizado de Hollywood, Gustavo Santaolalla, a guitarrar alegremente na sua banda ao lado de outros génios do violino e bandoneón; ou um dos maiores ícones da bateria rock, o agente Stewart Copeland (ele o autor de um dos álbuns fundadores da world music, o fabuloso «The Rhythmatist»), a partilhar tarantelas e pizzicas italianas e rebemtikas gregas com um grupo onde, felizmente, o Sting não está mas onde o Andy Summers nem destoaria. E, só para destoar, onde também se esperava algum rock infectado pela world (ou vice-versa), ele não apareceu: o Med fechou com o acordeonista Kimmo Pohjonen e, dando uma volta muito bem-vinda ao seu som, neste concerto não houve rock progressivo nem electrónicas nem experimentalismos já gastos mas, sim, momentos de uma beleza imensa que devem mais a Philip Glass ou a Debussy do que a qualquer dos géneros já visitados por este visionário finlandês.

Outros momentos bons de recordar: Camané, as suas sílabas e o seu trio/caixinha de música maravilha. Os cada vez melhores Diabo a Sete e a sua reinvenção júliopereiriana (mas não só!) de uma música nossa, portuguesa. A, igualmente, reinvenção de outros temas nacionais pela cantora Filipa Pais com o bandolinista Edu Miranda. Os Ojos de Brujo e uma festa cada vez mais global, dançante, profissional. O vozeirão de Ricardo Ribeiro - apesar de não tão vozeirão quanto nos seus fados mas em bonita pose Nusrat Fateh Ali Khan - ao lado de Rabih Abou-Khalil. O à-vontade. domínio de palco e beleza astral de Lura, num dos mais quentes concertos do Med. Um calor que se estendeu ao fabuloso DJ set travestido, mas com muita pinta!, de concerto protagonizado por DJ Click (na foto; cortesia Câmara Municipal de Loulé) mais os seus músicos ciganos e judeus e as suas bailarinas e/ou cantoras. Ou os surpreendentes Ramudah, uma banda lisboeta de jazz ambiental (e com caixa-de-ritmos!) que soa muito melhor que parece esta descrição.

Momentos fracos? Também os houve, claro: a Orquesta Buena Vista Social Club, e apesar da marca registada que acompanha o seu nome, é apenas um eco pálido e esbatido da banda original reunida por Ry Cooder e Juan de Marcos González. E Pitingo, actualmente uma das maiores vedetas da música espanhola, é afinal um rapazinho birrento e, pior!, tem uma versão de uma das mais peganhentas e irritantes músicas de sempre: «Mamy Blue». Mas não chegou para estragar um festival que esteve quase sempre cheio de gente. E de gente feliz.

28 maio, 2009

Med de Loulé 2009 - A Ementa Principal


E mais uma grande notícia! Os dois palcos principais do Med de Loulé - que se realiza mais uma vez em finais de Junho - incluirão concertos de Rabih Abou-Khalil (Líbano) com o fadista Ricardo Ribeiro (Portugal), Moriarty (Estados Unidos) e Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai), no dia 24; Eneida Marta (Guiné-Bissau), Ojos de Brujo (Catalunha) e Horace Andy & Dub Asante (Jamaica), no dia 25; Donna Maria (Portugal), Orquestra Buena Vista Social Club (Cuba), Pitingo (Espanha) e DJ Click (França), no dia 26; Siba e a Fuloresta (Brasil), Camané (Portugal), Lura (Cabo Verde) e o duo de Justin Adams & Juldeh Camara (Inglaterra/Gâmbia), no dia 27; Kluster - um dos inúmeros projectos de Kimmo Pohjonen (na foto, de Vertti Teräsvuori) - com o Proton String Quartet (Finlândia), Stewart Copeland (o ex-baterista dos Police) com La Notte Della Taranta (Inglaterra/Itália/Grécia) e, finalmente, Rokia Traoré (Mali). De lamentar, apenas, a ausência forçada da cantora argentina Mercedes Sosa, devido a doença. Entretanto, para os sempre activos e cheios de música palcos secundários do Med estão confirmados oficialmente os Mu e Filipa Pais, mas as Crónicas da Terra avançaram já com outros nomes: Son De Nadie, N’Sista, Phillarmonic Weed, Mariária e Oco.

12 maio, 2009

Mercedes Sosa e Bajofondo Tango Club - A Argentina em Força no Med de Loulé


Depois da confirmação dos catalães Ojos de Brujo, chegam mais dois nomes para o Med de Loulé: o da mítica cantora argentina Mercedes Sosa (um dos maiores expoentes da «nueva canción» de intervenção da Amárica Latina) e o regresso do grupo liderado pelo multi-oscarizado Gustavo Santaolalla, Bajofondo Tango Club (na foto), que há dois anos deram por lá um belíssimo espectáculo. O comunicado da organização:

«Bajofondo Tango Club e Mercedes Sosa na edição 2009 do Festival Med

A organização do Festival Med continua a apostar no talento latino para a edição deste ano. Depois de Ojos de Brujo, o primeiro nome anunciado para o cartaz, a organização confirma agora presença de dois nomes grandes da world music de origem argentina: Bajofondo Tango Club e Mercedes Sosa.

Esta é a sexta edição do Festival Med, um dos mais conceituados festivais nacionais de world music, que volta a invadir o centro histórico de Loulé. De 24 a 28 de Junho, a cidade transforma-se num palco de manifestações culturais e de fusão de culturas.

Depois de nomes como Solomon Burke, Jimmy Cliff, Balkan Beat Box, Amadou & Mariam, Tinariwen e Caravan Palace terem passado pelo palco Med em edições anteriores, este ano, a organização garante “o maior e mais internacional cartaz de sempre”.

O alinhamento dos palcos principais será apresentado, na íntegra, a 28 de Maio. Até lá, estão já confirmados os Ojos de Brujo, os Bajofondo Tango Club e Mercedes Sosa, três nomes fortes do circuito internacional da world music.



Os Ojos de Brujo, uma das principais bandas embaixadores do novo flamenco, sobem ao palco do Med a 25 de Junho (5ª feira), naquela que será a primeira actuação do colectivo de Barcelona em terras lusas depois de integrarem o cartaz do Festival Sudoeste, em 2007, e em que a banda irá dar a conhecer “Aocaná”, o seu mais recente álbum, editado este ano.

(Mais informações em www.myspace.com/ojosdebrujo)



Os Bajofondo Tango Club estrearam-se no Med há dois anos, com um concerto que encerrou a 4ª edição do festival, a 1 de Julho de 2007. A performance do colectivo liderado por Gustavo Santaollalla encantou ao ritmo do tango electrónico, tanto que a organização abriu a excepção e voltou a convidar os Bajofondo para integrar o alinhamento deste ano. O “colectivo de compositores, cantores e artistas”, como se auto-intitula, apresentará “Mar Dulce”, o último trabalho (2007), numa actuação agendada para o primeiro dia do Med, 24 de Junho.

(Mais informações em www.myspace.com/bajofondomardulce)


Conhecida como A Diva Argentina, Mercedes Sosa é considerada uma das maiores vozes do mundo. De renome mundial, é reconhecida como a artista dos povos oprimidos. Com seis décadas de carreira e mais de quatro dezenas de álbuns editados, La Negra (como também é apelidada, fruto dos longos e lisos cabelos negros) interpreta um vasto repertório, tendo gravado temas em variadíssimos estilos e com dezenas de músicos de renome, como Milton Nascimento, Fagner e Silvio Rodríguez.

Considerada pelo jornal The Times como “uma das titãs da música da América Latina, pioneira da nova canção” (um movimento que combina melodias tradicionais, política e apontamentos de pop anglo-americano), Mercedes Sosa sobe ao palco do Med a 27 de Junho, para apresentar “Cantora”, o seu mais recente trabalho.

(Mais informações em www.myspace.com/mercedessosa)


Sobre o Med

Organizado e promovido pela Câmara Municipal de Loulé, o Festival Med, já na 6ª edição, é um evento de world music inspirado na cultura mediterrânica, que transforma o centro histórico de Loulé num desfile de manifestações culturais.

Decorada de cores quentes, Loulé oferece todos os anos, durante cinco dias, um alinhamento de experiências multifacetadas, onde a música dá o mote. Sendo este, assumidamente, um festival de world music, pelo palco MED já desfilaram nomes de peso do circuito internacional.

As artes plásticas, a gastronomia, o artesanato, o teatro e a animação de rua completam a oferta».

Mais informações, aqui.

02 julho, 2007

Festival MED - O Tapete Voador, a Cadela Light Designer e a Maior Banda Rock do Mundo



Foi preciso ir ao último MED de Loulé para ver um verdadeiro tapete voador, cruzar-me todos os dias com quatro ovelhas num campo de papel de parede, conhecer uma cadela que é light designer, gostar de iogurte pela primeira vez na minha vida e ver a maior banda rock do mundo.

Para além da música, que é o prato principal, o Festival MED tem sempre mil outras coisas a acontecer. Pelo recinto passeiam figuras fascinantes: uma «andaluza» que conta a lenda das amendoeiras em flor com um dedal-princesa-nórdica e um dedal-príncipe-mouro perante um grupo de crianças fascinadas, uma «rainha egípcia» (Nefertiti?) em busca de par para o seu gato ou um «turco» que possui tapetes coçados, mas valiosíssimos, porque voam mesmo! Ou uma cadela loira, lindíssima e devotíssima ao seu dono (o técnico italiano responsável pela iluminação dos vários palcos do festival), que o segue por todo o lado, que entra em stress quando ele sobe à teia dos palcos e que transporta ao pescoço uma acreditação oficial que diz «Staff - Alandra, Light Designer». E há outras figuras que não se mexem mas encantam na mesma: dois dançarinos apanhados a meio de um complicado passo de corridinho algarvio, duas crianças e o seu cão a brincar numa praia do Mediterrâneo ou quatro ovelhas que nos sorriem sobre um padrão de papel de parede. E figuras híbridas, que se encontram algures entre a realidade, a arte e a ficção, como as marionetas que fazem de uma corda de roupa o seu mercado de trocas e vendas, as pulgas invisíveis que saltam de uma caixa de fósforos fosforescente ou o improvável casal burocrata de gravata/flor verde e amarela. E, por falar em flor, atrevi-me pela primeira vez na minha vida a juntar iogurte - matéria láctea que nunca entra na minha dieta - ao kebab, num dos muitos e excelentes restaurantes do recinto. Tinha muito picante por cima e aquilo até resultou bem. Até agora, tudo o que aqui foi escrito é a mais pura das verdades; mesmo que não pareça. E isso é importante dizer, para se perceber que também é verdade o que se vai escrever a seguir: no MED de Loulé tocou a maior banda de rock do mundo. Adeus Rolling Stones. Adeus U2. Adeus Metallica. Adeus aos outros todos em que se esteja a pensar. Olá Tinariwen!

Os Tinariwen (na foto; de Mário Pires, da Retorta) deram o melhor concerto do MED deste ano. E chamar-lhes «a maior banda rock do mundo» - mais ainda do que chamar-lhes «a melhor banda rock do mundo» - não é nenhum exagero. Basta assistir a um concerto desta nova fase da banda do Mali, a fase pós-«Aman Iman» - e o concerto em Loulé foi disso exemplar - para se perceber o elevadíssimo grau de verdade que a sua música atingiu. Uma verdade feita de muitas verdades, é certo, porque nela convivem muitas guitarras eléctricas e as sombras de Robert Johnson, de Jimi Hendrix ou dos Jefferson Airplane com a(s) música(s) que os tuaregues atravessam nas suas viagens - a música árabe, a música gnawa, a música mandinga, a sua própria música... -, mas ainda mais verdadeira por isso: a música de um povo que viaja por vários territórios geográficos mas também pelos territórios que as rádios e as televisões lhes dão a conhecer. E se umas e outras músicas estão ligadas por laços fortíssimos, históricos, como os blues e o rock o estão à zona de que são originários os Tinariwen, essa verdade, então, deixa de ser apenas verdade para passar a ser A Verdade. Uma Verdade maior da maior banda rock da actualidade (e quem não acredita ainda pode tirar as teimas, dia 5, quando os Tinariwen actuarem no S.Jorge, em Lisboa, ou dia 6, no Festival Évora Clássica).

O concerto dos Tinariwen foi o melhor de todo o MED. Mas houve outros que estiveram lá quase. O do italiano Vinicio Capossela, com a sua «orquestra» de cordofones (um «bandolinzinho», bouzouki, guitarra eléctrica, banjo, ele próprio na guitarra «dobro» quando não estava ao piano ou a assumir personagens míticas com a ajuda de máscaras...), a voar com o seu vozeirão de barítono entre o romantismo mais desesperado, a fúria incontida ou o humor sardónico, tudo servido sobre bases inesperadas que foram do alt.country dos Calexico ao caos sónico dos Sonic Youth, passando pela música do «Quo Vadis» ou do «Ben-Hur». O dos Bajofondo Tango Club, que encerraram o festival com o seu tango modernizado, orgânico, vivo, inventivo, pulsante, imaginário e que instalaram a festa entre o público (parte do qual foi convidado pela banda a subir ao palco para dançar); Gustavo Santaolalla tem neste projecto pessoal (onde canta e toca guitarra eléctrica) um laboratório de experiências que deixou de ser ciência para passar a ser arte (no que é coadjuvado belissimamente por músicos de primeira água - o violinista, o bandoneonista, o contrabaixista, o pianista e DJ... - e uma VJ extremanente original. O do Sergent Garcia, com a sua máquina de dança e intervenção política («Free your mind and your ass will follow», dizia George Clinton), onde nunca se percebe onde começa uma e acaba a outra, sendo por isso possível dançar uma cumbia enquanto se apoia os zapatistas mexicanos ou entrar num ragga estonteante enquanto se critica o Bush. E o de Aynur, onde a cantora curda da Turquia (ou turca só porque não a deixam ser curda de nacionalidade) arrebatou toda a gente, logo a abrir o festival, com a sua voz belíssima, canções tradicionais e um grupo de músicos soberbos em que sobressaíam o saz (que ela própria também tocou num momento a solo), o nay, o violino e as percussões árabes; e com uma enormíssima vantagem em relação ao concerto que dela vi na WOMEX de Sevilha: em Loulé não tinha sintetizadores a atrapalhar-lhe o brilho intenso da voz.

Bons concertos - mas sem atingirem o brilho dos já referidos - foram os de Natacha Atlas, ainda dona de uma voz belíssima e apresentando um reportório - grandemente baseado no último álbum, «Mish Maoul» - de um assinalável bom-gosto (desde antigos temas românticos egípcios ou libaneses até bossa-nova, uma canção folk inglesa e uma homenagem a... Nina Simone); de Sara Tavares, que cada vez mais faz mais e melhor a ponte entre várias músicas tradicionais e da contemporaneidade, para além de se sentir cada vez mais à-vontade em cima do palco (e o uso frequente da palavra «mais» aqui foi apenas uma coincidência); e dos Yerba Buena, profissionalíssimos na sua função de fazer chegar ao público uma música - feita de ritmos latino-americanos, hip-hop, funk, soul... - que lhe é atirada directamente aos pés e ao rabo, obrigando-o a dançar do princípio ao fim (e isto é um elogio). A meio caminho entre o bom e o mau concerto ficaram Akli D. - que deu um espectáculo muito pior do que na WOMEX de Sevilha, talvez porque vários problemas familiares assolaram um dos músicos da banda, um estado de espírito que também assombrou o resto dos seus amigos -; os L'Ham de Foc, fabulosos quando estavam a interpretar os seus temas de geografias e épocas distantes entre si mas que cortaram o ritmo ao concerto para afinar os instrumentos durante penosos minutos; e os Chambao, que têm em Mari uma cantora de elevadíssimos recursos que merecia uma banda melhor e mais empenhada do que aquela que a acompanha (e bastou assistir ao magnífico e contrastante encore para se perceber como o concerto poderia ter sido muito melhor). E pelo mau ficaram-se, surpreendentemente, os Taraf de Haidouks que, apesar de terem apresentado vários temas do seu novíssimo álbum «Maskarada» (em que pontificam peças clássicas de compositores como Bartók, Ketèlbey, Albéniz ou Manuel de Falla, todos inspirados na música cigana e, através dos Taraf, de volta a «casa»), se mostraram desconcentrados, desmotivados e alterados.

O texto já vai longo, mas - sem esquecer a referência a coisas óbvias como o aumento do recinto (que chega agora à igreja matriz de Loulé, ao lado da qual está um dos palcos principais), ao facto de por lá terem passado nestes dias muitos milhares de pessoas, com enchentes em pelo menos três dos dias) e à má notícia que foi o cancelamento da actuação de DJ Shantel - ainda há espaço para mais algumas notas finais: as belas surpresas que foram o trance orgânico, acústico e selvagem dos OliveTree; a consistência dos Rosa Negra com o seu fado sofisticado e que viaja pelo Mediterrâneo fora; a excelência dos espanhóis Estambul, fusão conseguidíssima de jazz com música árabe, turca e balcânica; e o como resultou belíssimo o cruzamento da música bem escolhida por Raquel Bulha com os desenhos feitos e projectados em tempo real pelo autor de BD José Carlos Fernandes - que, do vazio de um papel branco, fez nascer émulos de Nusrat Fateh Ali Khan, Lila Downs, Tinariwen, odaliscas e opulentas mulheres africanas. São outras figuras, umas vivas, outras mortas, umas reais, outras imaginárias - ou a meio caminho -, umas cinéticas, outras plasmadas... Mas todas Verdadeiras.

26 junho, 2007

Festival MED de Loulé Começa Já Amanhã!



A edição deste ano do Festival MED de Loulé começa já amanhã, dia 27, e continua até dia 1 de Julho, na zona do antigo Castelo de Loulé, com inúmeros concertos de artistas e grupos de várias zonas do Globo e de diversos géneros musicais. Dos artistas cabeças-de-cartaz do festival já antes o Raízes e Antenas tinha dado conta, mas desta vez fica-se aqui a saber todos os nomes do Med, separados por dias e palcos de actuação. Palco da Cerca: Aynur (Turquia) dia 27; Natacha Atlas (Egipto/Bélgica) dia 28; Akli D (Argélia) e Taraf de Haidouks (Roménia) dia 29), L'Ham de Foc (Espanha) e Yerba Buena (Estados Unidos; na foto) dia 30; Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) dia 1. Palco da Matriz: Quarteto de Cordas Intermezzo (Portugal) e Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) dia 27; Trio de Metais do Alentejo (Portugal) e Sergent Garcia (França) dia 28; Trio Lusitano (Portugal) e Tinariwen (Mali) dia 29; Eudoro Grade (Portugal) e Vinicio Capossela (Itália) dia 30; Duo Flacord (Portugal) e Chambao (Espanha) dia 1. Palco do Castelo: In-Canto (Portugal) dia 27; Estambul (Espanha) e DJ Shantel (Alemanha/Balcãs) dia 28; Toques do Caramulo (Portugal), Uxu Kalhus (Portugal) e DJ Single Again (Portugal) dia 29; Rosa Negra (Portugal), OliveTree (Portugal) e DJ Raquel Bulha (Portugal) dia 30; Amálgama - Tablao do Fado (Portugal) dia 1. Palco da Bica: Jazz Ta Parta (Portugal) e Al-Driça (Portugal) dia 27; Nanook (Portugal) dia 28; Quarteto Alma Lusa (Portugal) dia 29; Fadobrado (Portugal) dia 30; Cherno More Quartet (Bulgária/Síria/Sudão) e Duo Angola Brasil (Portugal) dia 1. Palco Classic (na Igreja Matriz): com alguns dos nomes já referidos em dose «reforçada». Exposições de artes plásticas relacionadas com a temática do festival, artesanato, gastronomia do Mediterrâneo, workshops, teatro, animação de rua, marionetas, performances e uma zona chill-out integram também o programa do festival. E há reportagem prometida neste blog lá mais para segunda-feira (ou terça, se o cansaço apertar).

21 junho, 2007

Bajofondo Tango Club - Em Digressão Nacional



Este blog já tinha dado notícia da presença dos Bajofondo Tango Club no Festival MED de Loulé, dia 1 de Julho. Mas a notícia alargou e a presença do grupo argentino/uruguaio no nosso país também, já que o colectivo liderado por Gustavo Santaollala também vai tocar, antes, em Guimarães (Teatro Vila Flor, dia 29 de Junho) e Sta. Maria da Feira (Europarque, dia 30) e, depois, em Torres Novas (Teatro Virgínia, dia 2 de Julho) e Lisboa (Garage, dia 4). Citando o comunicado de imprensa: «Bajofondo Tango Club é o nome do colectivo argentino que combina a tradição do tango com a modernidade da electrónica (...). Saído da mente genial do argentino Gustavo Santaolalla, criador dos temas de bandas-sonoras de "Os diários de Che Guevara", "21 Gramas", "Amor Cão" e "O Informador" e vencedor de Óscar das bandas-sonoras de "Brokeback Mountain" e "Babel", os Bajofondo Tango Club são um super-grupo que funde o tango com outras músicas, nomeadamente a electrónica, uma tendência comum a outros nomes como os Gotan Project, Tango Crash ou Tanghetto. A figura de proa dos Bajofondo Tango Club é, sem dúvida, Gustavo Santaolalla - músico, produtor de inúmeros grupos rock e hip-hop latino-americanos, compositor de aclamadas e premiadas banda-sonoras -, mas o projecto não se resume a ele. Com Santaolalla estão outros músicos e DJs com história vasta em nome próprio na música argentina e uruguaia: o compositor, produtor e DJ uruguaio Juan Campodónico, o teclista, DJ e compositor Luciano Supervielle, o violinista Javier Casalla, o bandoneonista Martín Ferres, o contrabaixista Gabriel Casacuberta e a vocalista (e video-jockey) Verónica Loza. Nos dois álbuns de originais editados até agora ("Bajofondo Tango Club", de 2002, e "Bajofondo Presents: Supervielle", de 2004, aos quais há a juntar o álbum de remisturas "Bajofondo Remixed", de 2006) colaboraram cantores como Cristóbal Repetto ou Adriana Varela. Não apenas um concerto (mercê das imagens manipuladas por Verónica Loza), no espectáculo dos Bajofondo Tango Club pode esperar-se, e sempre misturadas com um bom-gosto irrepreensível, a profundidade do tango e as novas tendências electrónicas: house, drum'n'bass, trip-hop, electro. Ou como uma dança antiga pode conviver também (e tão bem) com novos ritmos».

19 maio, 2007

Festival MED - Tantos Mares em Loulé!



A 4ª edição do Festival MED de Loulé apresenta o melhor cartaz de todas as que até agora se realizaram, com concertos de importantes grupos e artistas vindos de variadíssimas zonas do globo e não só da baía do Mediterrâneo, mote primeiro do festival. E ainda bem! De 27 de Junho a 1 de Julho, a zona do antigo castelo de Loulé acolhe concertos, no primeiro dia, da cada vez mais madura e coerente Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) e da interventiva cantora curda Aynur (Turquia; na foto); no segundo, da ex-vocalista dos Transglobal Underground e diva da música de fusão Natacha Atlas (Bélgica/Egipto), do fusionista de punk, reggae e música latino-americana Sergent Garcia (França) e do principal misturador da música das fanfarras balcânicas com a electrónica, DJ Shantel (Alemanha); no terceiro há lugar para a música tuaregue infectada pelos blues e o rock dos Tinariwen (Mali), o misto único de melancolia e festa dos Taraf de Haidouks (Roménia) e a música da Kabilia revista à luz de vários géneros ocidentais do cantor Akli D. (Argélia); no quarto é a vez do genial e incatalogável cantor e compositor Vinicio Capossela (Itália), da mescla de muitas músicas modernas com a música latino-americana dos Yerba Buena (Estados Unidos) e do duo valenciano de folk, música medieval, música grega e tudo à volta L´Ham de Foc (Espanha); e, para fim de festival, dois projectos que juntam músicas tradicionais do seu país com a electrónica - o tango trazido para a contemporaneidade pelos Bajofondo Tango Club, de Gustavo Santaolalla (Argentina) e o flamenco-chill dos Chambao (Espanha). E, claro, nas ruas circundantes e nos outros palcos ainda há lugar para muitos outros concertos (principalmente de novos grupos de música tradicional, folk e de fusão portugueses), sessões de DJ a puxar a dança, inúmeras bancas de artesanato, restaurantes de variados sabores mediterrânicos, workshops e animação de rua. Mais informações aqui.

20 setembro, 2006

Mercan Dede, Bajofondo Tango Club, «Electric Gypsyland 2» - Dança Ainda Mais Dança


Três álbuns saídos este ano mostram à saciedade que nem todas as fusões de música electrónica (se se quiser, música de dança no sentido da actual expressão anglo-saxónica «dance music») com géneros mais tradicionais de músicas...de dança são foleiras ou inúteis: «Bajofondo Remixed», dos Bajofondo Tango Club (na foto), «Breath», de Mercan Dede, e a colectânea «Electric Gypsyland 2». Ou quando a música de dança o é, duplamente.


BAJOFONDO TANGO CLUB
«BAJOFONDO REMIXED»
Surco Records/Universal

O tango foi um dos primeiros ritmos de dança, digamos, tradicionais a ter uma grande aceitação fora do país em que nasceu, a Argentina (e do Uruguai ali ao lado), para se espalhar por todo o mundo. E, de música de paixões violentas nas ruas e prostíbulos de Buenos Aires cantada por homens do calibre de Carlos Gardel, saltou para forma de arte maior - e para salões e grandes salas de concerto - com o génio de Astor Piazzolla. Reinventando-se. É, talvez por isso, quase natural que o tango seja um dos géneros mais recorrentes nas manobras fusionistas de uma enorme geração de novos músicos, argentinos e não só, que vão ao tango e o lançam para um presente feito de electrónica e novos ritmos de dança. Gotan Project, Tango Crash, Narcotango, Tangheto e os Bajofondo Tango Club estão na linha da frente dessa renovação. E os Bajofondo um bocadinho à frente do pelotão, mercê da junção de alguns cérebros maiores da música sul-americana: o compositor, guitarrista e produtor argentino Gustavo Santaolala (ele que é um dos mais importantes produtores de rock latino e o homem da banda-sonora de «Brokeback Mountain»), o compositor, produtor e DJ uruguaio Juan Campodónico, o teclista, DJ e compositor Luciano Supervielle, o violinista Javier Casalla, o bandoneonista Martín Ferres, o contrabaixista Gabriel Casacuberta e a vocalista (e video-jockey) Verónica Loza, e, sempre, mais uma mão cheia de colaboradores (como a fabulosa cantora Adriana Varela). E, se nos dois álbuns de originais do grupo, «Bajofondo Tango Club» e «Supervielle» (este assim chamado porque teve no teclista o seu principal compositor), os Bajofondo já tinham levado o tango a viajar por muitos e excitantes novos territórios, nomeadamente o hip-hop, neste «Bajofondo Remixed» - que inclui remisturas de temas dos dois álbuns -, ainda há lugar para o rap em «Miles de Pasajeros (Omar Remix)», mas também para muitos outros géneros - electro espacial, house, dub, drum'n'bass ou um chill-out suavezinho - às mãos de remisturadores como Alexkid, Capri, Lalann, Bad Boy Orange, Mercurio, Omar, Romina Cohn, Marcello Castelli, Boris Dlugosh, Twin, Calvi & Neil, Androoval ou Nortec y Zuker. E é quase sempre muito boa de se ouvir, eventualmente de se dançar, esta re-releitura da já de si releitura do tango dos Bajofondo - a quem interessar, «bajofondo» quer dizer «underground». (7/10)


VÁRIOS
«ELECTRIC GYPSYLAND 2»
Crammed Discs/Megamúsica

Quando apareceu, há três anos, «Electric Gypsyland» foi uma muito boa surpresa. O álbum incluía temas dos Taraf de Haidouks, Koçani Orkestar e Mahala Rai Banda remisturados por DJ Shantel, Señor Coconut, Mercan Dede (de quem se falará a seguir), Arto Lindsay, DJ Dolores e Juryman, entre outros, e aquilo foi uma festa para quem gosta de dançar ao som da música cigana balcânica, aqui com um toque de modernidade, sim, mas com um respeito enorme pela música original. Em «Electric Gypsyland 2», o conceito continua - aqui os temas remisturados são também dos Taraf de Haidouks, Koçani Orkestar e Mahala Rai Banda, mais um do francês Zelwer - mas com alguns desvios surpreendentes (como a releitura dos electrofolk Tuung de «Homecoming» dos Taraf De Haidouks; a fabulosa remistura dos Animal Collective para «Oi Bori Sujie», da Koçani Orkestar; o lindíssimo trabalho do argelino Smadj sobre «Mi Bori San Korani» dos Koçani Orchestra - com a adição de oud e kanun a fazer a ponte com a música árabe -; dos neo-klezmers Oi Va Voi sobre «A Rom and A Home», dos Taraf de Haidouks; a bossa-novização dada pelos Nouvelle Vague a «Morceau d'Amour», da Mahala Rai Banda; ou a subida ao nordeste brasileiro por Cibelle em «Maxutu», da Koçani Orchestra) e alguns momentos de festa e folia completas (oiçam-se as remisturas dos Balkan Beat Box para «Red Bula» da Mahala Rai Banda; da Forty Thieves Orkestar sobre «The Man Who Drinks» da Mahala Rai Banda; a africanização dos ShrineSynchroSystem - com Tony Allen na bateria e Sekou Kouyate, dos Ba Cissoko, em kora - em «Neacsu In Africa», dos Taraf de Haidouks; o trabalho dos ucranianos Yuriy Gurzhy e Wladimir Kaminer que transformam um tema de Zelwer numa skazada klezmer-balcânica divertidíssima e com alusões aos Gogol Bordello; ou «Spoitoresa», da Mahala Rai Banda revisto por Russ & Roc). Outra surpresa do álbum é «Ismail Oro», da Koçani Orchestra, remisturado pelos ressuscitados para a ocasião 23 Skidoo (aqui chamados 43 Skidoo, isto é Sam Mills e Fritz Catlin), acompanhados pela cantora indiana Susheela Raman, mulher de Mills. Ah, e uma adição feliz: o novo «Electric Gypsyland» traz também um CD-bónus com os temas originais. (9/10)


MERCAN DEDE
«BREATH»
Doublemoon

O músico, compositor e DJ turco Mercan Dede é um dos mais notáveis fusionistas de música de tradicional com as novas linguagens electrónicas. No seu novo álbum, «Breath», Mercan Dede - que pudemos ver numa rara aparição em palcos nacionais no festival Sons do Atlântico, em Lagoa - continua a assombrar com o seu bom-gosto nas opções estéticas tomadas (nunca, mas nunca, a sua mistura de influências e sonoridades descamba para uma mistela foleira qualquer) e, nos quinze temas do álbum, há sempre lugar para uma verdade maior - a presença de belíssimas vozes femininas e masculinas, incluindo as de Aynur Dogan e Azam Ali e, pela primeira vez, a dele próprio; o recurso a instrumentos tradicionais como a ney, o saz, sanfona, kanun, violino, oud e percussões variadas, tudo tocado por gente de verdade e não samplado - e para uma utilização equilibrada de músicas tradicionais (de inspiração sufi e outras de origem turca, música árabe, música indiana e paquistanesa...) com ritmos e texturas electrónicos, quase sempre em downtempo ou midtempo ou incorporando elementos jazzísticos (como no tema-título). É mais música para ouvir, para reflectir, se se quiser para meditar - os temas de Mercan Dede têm muitas vezes um carácter quase sagrado - do que propriamente para dançar. Mas é na sua esmagadora maioria muito boa e nada impede que alguns temas sejam usados numa sessão de dança do ventre ou, ficcionando, numa reconstituição futurista de danças dervixes adaptadas d'«A Casa Dourada de Samarcanda», de Hugo Pratt. «Breath» é a terceira parte de uma tetralogia dedicada aos quatro elementos - na Turquia, «Breath» tem como título «Nefes», que significa «ar», e segue-se aos álbuns «Nar» («fogo») e «Su» («água»). (8/10)