Mostrar mensagens com a etiqueta Colectâneas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Colectâneas. Mostrar todas as mensagens

10 novembro, 2008

«Todos Cantam Zeca Afonso» - Uma Colectânea de Homenagem


Aqui há uns bons anos, a colectânea «Filhos da Madrugada» mostrava uma série de versões de temas de José Afonso feitas de propósito para esse disco produzido por Manuel Faria. Versões de grupos como os Madredeus, GNR, Sitiados, Vozes da Rádio, Os Tubarões, Delfins, Diva, Opus Ensemble, Xutos & Pontapés, Mão Morta ou Brigada Victor Jara. E, só o ano passado - a propósito da passagem do vigésimo aniversário sobre a morte de José Afonso -, surgiram inúmeros álbuns de tributo, feitos por variadíssimos grupos e artistas, à arte e ao génio do autor de «Grândola Vila Morena». E a somar a isso tudo, a Farol lança hoje, dia 10 de Novembro, mais uma colectânea de homenagem, «Todos Cantam Zeca Afonso», que abrange diversas épocas (há gravações dos anos 70, como as de Tonicha e Amália, mas também algumas saídas dessa fornada de homenagens de 2007) e diversos géneros musicais. O alinhamento completo do disco é:


1. José Mário Branco/Amélia Muge/João Afonso – «Maio Maduro Maio»

2. Cristina Branco – «Canção de Embalar»

3. Fernando Machado Soares – «Maria Faia»

4. Mariza – «Menino Do Bairro Negro»

5. Tonicha – «Resineiro Engraçado»

6. Jacinta – «Se Voaras Mais Ao Perto»

7. Teresa Silva Carvalho – «Vejam Bem»

8. Frei Fado D'El Rei – «A Morte Saiu À Rua»

9. Paula Oliveira & Bernardo Moreira – «Os Índios Da Meia-Praia»

10. Carla Pires – «Traz Outro Amigo Também»

11. Uxía – «Verdes São Os Campos»

12. Sons da Fala – «Venham Mais Cinco»

13. Lua Extravagante – «Adeus Ó Serra Da Lapa»

14. Lena d'Água – «Era Um Redondo Vocábulo»

15. Rosa Madeira – «Menina dos Olhos Tristes»

16. João Afonso – «Bombons De Todos Os Dias»

17. Couple Coffee & Band – «Vampiros»

18. Carlos do Carmo – «Menino D'Oiro»

19. Amália Rodrigues – «Grândola Vila Morena»

20. Júlio Pereira – «Viva O Poder Popular»

05 julho, 2007

«...A Menina Dança?» - Apresentação no MusicBox



«...A Menina Dança? - New Roots From Portugal» é uma colectânea de edição limitada produzida e editada pela turma de Produção e Marketing Musical, da Restart, turma a que tive o prazer de dar aulas, no início deste ano lectivo, no módulo de História da Indústria Discográfica. O lançamento do álbum - que é apresentado como uma «compilação de grupos portugueses que partem das suas raízes (portuguesas) para construir a sonoridade que os caracteriza, dando assim origem a uma linguagem musical baseada nas tradições mas...com os olhos postos no futuro» - decorre dia 12 de Julho, no MusicBox, ao Cais do Sodré, em Lisboa, com concertos dos Chuchurumel e dos O'QueStrada (na foto, de Rui Palha), sessões de DJing com Luís Varatojo (A Naifa) e António Pires (Raízes e Antenas) e VJing por Chris & Candy. A colectânea inclui os temas «Viva!» (Sam the Kid), «Música» (A Naifa), «O meu Coração Abandonado» (Viviane), «Rodada» (Dead Combo), «Se Esta Rua Fosse Minha» (O'QueStrada), «Era Não Era do Tamanho de um Pardal» (Gaiteiros de Lisboa), «Deus te Salve Ó Rosa» (Chuchurumel), «Vozes» (Megafone), «Assobio» (Dead Combo), «Oxalá Te Veja» (O'QueStrada), «Aqui Há Gato» (Gaiteiros de Lisboa), «Confidências da Minha Rua» (Viviane), «Señoritas» (A Naifa), «Canção das Maias» (Chuchurumel), «Aboio» (Megafone) e «Discos Entre Caminhos (Remix)» (Phil Louis). Mais informações aqui.

06 janeiro, 2007

Discos 2006 - Os Melhores do Raízes e Antenas


Exercício sempre falível, pessoal e passageiro (as escolhas de agora podem não ter sido as de há alguns meses e as que não serão daqui por algum tempo), aqui ficam alguns topes avulsos do Raízes & Antenas construídos a partir de discos editados durante o ano de 2006. E sem regras muito rígidas (no Top nacional, por exemplo, entre muitos álbuns de estúdio com temas originais, também se encontram um EP dos Buraka Som Sistema, um álbum dos Nobody's Bizness gravado ao vivo e uma colectânea de Rodrigo Leão, esta porque os temas originais que inclui seriam suficientes, de tão bons que são, para lhe garantir um lugar neste Top de qualquer maneira). Como é óbvio, há discos que não ouvi e, por isso, não podem constar nestas listas e outros de que já me esqueci, não havendo, em relação a estes, quaisquer desculpas... Resta referir que por vezes as secções também não são tão óbvias quanto parecem (por exemplo: o primeiro lugar no Top do Brasil é do grupo semi-belga semi-brasileiro Think of One; os Toubab Krewe são norte-americanos e estão no Top de África; e Bruce Springsteen está no Top das Américas e não no de Rock) e que muitos dos discos incluídos nestas listas já foram criticados neste blog, outros ainda o serão nos tempos mais próximos e outros nem por isso...


20 ÁLBUNS DA EUROPA CONTINENTAL

1 - Accordion Tribe - «Lunghorn Twist»
2 - Ojos de Brujo - «Techarí»
3 - Mari Boine - «Idjagiedas»
4 - KAL - «Asphalt Tango»
5 - Moussu T e lei Jovents - «Forever Polida»
6 - Gjallarhorn - «Rimfaxe»
7 - Kepa Junkera - «Hiri»
8 - OMFO - «We Are the Shepherds»
9 - Amparanoia - «La Vida Te Da»
10 - Klezmofobia - «Tantz!»
11 - Haydamaky - «Ukraine Calling»
12 - Darko Rundek & Cargo Orkestar - «Mhm A-Ha Oh Yeah Da-Da (Migration Stories and Love Songs)»
13 - Di Grine Kuzine - «Berlin Wedding»
14 - Gogol Bordello - «Gypsy Punks»
15 - Kachupa Folk Band - «Gabrovo Express»
16 - Kerekes Band - «Pimasz - Magyar Funk»
17 - Ludovico Einaudi - «Divenire»
18 - Ilgi - «Saules Meita»
19 - Abnoba - «Vai Facile»
20 - Juan Mari Beltran - «Orhiko Xoria»


10 ÁLBUNS DA FOLK BRITÂNICA

1 - Bert Jansch - «The Black Swan»
2 - Bellowhead - «Burlesque»
3 - Kathryn Tickell & Corrina Hewat - «The Sky Didn't Fall»
4 - Uiscedwr - «Circle»
5 - Tim Van Eyken - «Stiffs Lovers Holymen Thieves»
6 - The Devil's Interval - «Blood and Honey»
7 - Waterson:Carthy - «Holy Heathens and the Old Green Man»
8 - Karine Polwart - «Scribbled In Chalk»
9 - Rachel Hair - «Hubcaps & Potholes»
10 - Chumbawamba - «A Singsong and a Scrap»

20 ÁLBUNS DE ÁFRICA

1 - Ali Farka Touré - «Savane»
2 - Mayra Andrade - «Navega»
3 - Rachid Taha - «Diwan 2»
4 - Tartit - «Abacabok»
5 - Ba Cissoko - «Electric Griot Land»
6 - Natacha Atlas - «Mish Maoul»
7 - Nuru Kane - «Sigil»
8 - Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra - «Boulevard De L’Independance»
9 - Gigi - «Gold & Wax»
10 - Etran Finatawa - «Introducing...»
11 - Toubab Krewe - «Toubab Krewe»
12 - Souad Massi - «Mesk Elil»
13 - K'naan - «The Dusty Foot Philosopher»
14 - Vieux Farka Touré - «Vieux Farka Touré»
15 - Afel Bocoum & Alkibar - «Niger»
16 - Lura - «M'Bem di Fora»
17 - Akli D - «Ma Yela»
18 - Cheikh Lô - «Lamp Fall»
19 - El Tanbura - «Between The Desert And The Sea»
20 - Maghrebika - «Neftakhir»


10 ÁLBUNS DA ÁSIA

1 - Mercan Dede - «Breathe»
2 - Boom Pam - «Boom Pam»
3 - Fun-Da-Mental - «All Is War»
4 - Karsh Kale - «Broken English»
5 - Yashila - «Drive East»
6 - Burhan Oçal & Istanbul Oriental Ensemble - «Grand Bazaar»
7 - Anoushka Shankar - «Rise»
8 - The Idan Raichel Project - «The Idan Raichel Project»
9 - Asha Bhosle - «Love Supreme»
10 - Susheela Raman - «Music For Crocodiles»


10 ÁLBUNS DO BRASIL

1 - Think Of One - «Tráfico»
2 - Cordel do Fogo Encantado - «Transfiguração»
3 - Seu Jorge - «The Life Aquatic Studio Sessions»
4 - Cibelle - «The Shine of Dried Electric Leaves»
5 - Caetano Veloso - «Cê»
6 - Forro In The Dark - «Forro In The Dark»
7 - Badi Assad - «Wonderland»
8 - Tom Zé - «Danç-Êh-Sá»
9 - Marisa Monte - «Universo Ao Meu Redor»
10 - Chico Buarque - «Carioca»

10 ÁLBUNS (DO RESTO) DAS AMÉRICAS

1 - Lila Downs - «La Cantina: Entre Copa Y Copa»
2 - Cristóbal Repetto - «Cristóbal Repetto»
3 - Tanya Tagaq - «Sinaa»
4 - Bruce Springsteen - «We Shall Overcome - The Seeger Sessions»
5 - Los de Abajo - «LDA V The Lunatics»
6 - Free Hole Negro - «Superfinos Negros»
7 - Susana Baca - «Travesias»
8 - Charanga Cakewalk - «Chicano Zen»
9 - Senõr Coconut - «Yellow Fever»
10 - Ska Cubano - «Ay Caramba!»


10 COLECTÂNEAS

1 - Vários - «World Circuit Presents»
2 - Vários - «Electric Gypsyland 2»
3 - Vários - «The Rogue's Gallery»
4 - Vários - «The Rough Guide To Planet Rock»
5 - Vários - «No Child Soldiers»
6 - Vários - «Angola»
7 - Vários - «Congotronics 2»
8 - Vários - «Acorda!»
9 - Vários - «Roots Of Rumba Rock: Congo Classics 1953-1955»
10 - Vários - «Musiques Métisses - Océan Indien»


20 DISCOS DE PORTUGAL

1 - Dazkarieh - «Incógnita Alquimia»
2 - A Naifa - «3 Minutos Antes de A Maré Encher»
3 - Dead Combo - «Quando a Alma não é Pequena»
4 - Uxu Kalhus - «A Revolta dos Badalos»
5 - Brigada Victor Jara - «Ceia Louca»
6 - Gaiteiros de Lisboa - «Sátiro»
7 - Buraka Som Sistema - «From Buraka To The World»
8 - Lúmen - «Fogo Dançante»
9 - Sérgio Godinho - «Ligação Directa»
10 - Rodrigo Leão - «O Mundo»
11 - Nobody's Bizness - «Ao Vivo Na Capela da Misericórdia»
12 - Arrefole - «Veículo Climatizado»
13 - Houdini Blues - «F de Falso»
14 - Aldina Duarte - «Crua»
15 - Kussondulola - «Guerrilheiro»
16 - Célio Pires - «Molinos de l Brosque»
17 - Ovo - «Ovo»
18 - José Peixoto com Maria João - «Pele»
19 - Claud - «Contradições»
20 - Garoto - «Garoto»


10 ÁLBUNS DE ROCK & DERIVADOS

1 - Joanna Newsom - «Ys»
2 - Beirut - «Gulag Orkestar»
3 - Final Fantasy - «He Poos Clouds»
4 - Tom Waits - «Orphans: Brawlers, Bawlers and Bastards»
5 - Sufjan Stevens - «Avalanche»
6 - A Hawk and A Hacksaw - «The Way The Wind Blows»
7 - Scott Walker - «The Drift»
8 - Mi and L'au - «Mi and L'au»
9 - Sonic Youth - «Rather Ripped»
10 - Beck - «The Information»

24 dezembro, 2006

Colectâneas de Natal - Um Mundo de (Algumas) Canções


O que era suposto estar aqui era a terceira parte da série «Prendas no Sapatinho», com a caixa de quatro CDs «Angola», que só não está porque deve andar nataliciamente encalhada em alguma estação dos correios. Não faz mal, porque assim tenho um bom motivo para aconselhar algumas colectâneas de canções de Natal interpretadas por artistas da chamada world music e de «territórios» contíguos. São pequenas fichas, entradas, aperitivos...













Vários - «World Christmas» (Blue Note Records): Canções de Natal de vários países interpretadas por artistas de «world» e de jazz do calibre de Papa Wemba, John Scofield, Angélique Kidjo, Cesária Évora, Deep Forest com Lokua Kanza, Vocal Sampling, Gilberto Gil com Caetano Veloso ou Joshua Redman com Marcus Miller.















Vários - «Christmas Around The World» (Putumayo): Fórmula semelhante ao do anterior com interpretações, em várias línguas, de canções de Natal, interpretadas por Steve Schuch & The Night Heron Consort, New York Twoubadou, Sheryl Cormier & Cajun Sounds, Cuba L.A., Banks Soundtech Steel Orchestra, Los Reyes, Pepe Castillo ou Kali.















Vários - «A Putumayo Christmas: World, Folk, Blues, Jazz and Soul» (Putumayo): O título diz quase tudo o que esta colectânea tem lá dentro. Protagonistas: John Gorka, Ottmar Liebert, Machel, Michael Doucet, Otis Redding, Koko Taylor, Son Seals e Loreena McKennitt, entre outros.















Vários - «Christmas: Around the World» (National Geographic). A mesma fórmula, com um leque «geográfico» bastante alargado. Inclui interpretações dos Berrogüetto, Nina Postolovskaya, Ivan Lins, Asne Valland Nordli, Tairona, Tarun Bhattacharya, Mondo Caribe, Big D Nui e Folk Scat, entre outros.















Vários - «Nomad Christmas» (Nomad Records): Entre o jazz e as músicas «locais» de cada um dos intervenientes (Índia, Cuba, Brasil...), esta colectânea inclui participações de Simon Shaheen, Glen Velez, Tarun Bhattacharya, Fernando Melo, Luiz Bueno, Folk Scat, Robbie Link e Mike Richmond, entre outros.















Vários - «Celtic Christmas» (Windham Hill Records): O mais limitado em espaço geográfico e «musical» abrangente (a música «celta»), é no entanto um regalo de se ouvir. Inclui temas interpretados por Phil Cunningham com Manus Lunny, Triona Ni Dhomhnaill, Liam O' Flynn, Luka Bloom, Nightnoise, Carlos Nuñez ou Loreena McKennitt.


Feliz Natal*Merry Christmas*Joyeux Noël*Feliz Navidad*God Jul*Saint Dan Fai Lok*Vrolijk Kerstfeest*Maligayang Pasko*Hyvaa Joulua* Milad Majid*Froehliche Weihnachten*Shub Naya Baras*Kala Christouyenna*Afishapa*E Ku Odun*Mele Kalikimaka*Mo'adim Lesimkha*Gledileg Jol*Boldog Karácsonyt*Selamat Hari Natal*Nollaig Shona Dhuit*Buon Natale*Kurisumasu Omedeto*Nollaig Chridheil Huibh*Mboni Chrismen*Sung Tan Chuk Ha*Linksmu Kaledu*Selamat Hari Natal*Meri Kirihimete*Craciun Fericit*Cestitamo Bozic*Vesele Vianoce*Nadolig Llawen*Pozdrevlyayu s Prazdnikom Rozhdestva*Zalig Kerstfeest*Webale Krismasi*Gajan Kristnaskon

22 novembro, 2006

«No Child Soldiers» - Desmobilizem As Crianças!


São carne para canhão. Tenra e barata. Muitas vezes esfomeada. Outras vezes com sede de vingança. Crianças entre os seis e os dezassete anos que brincam às guerras nas guerras a sério. Do lado de bandos rebeldes ou dos exércitos governamentais, sem direito a soldo nem ao remorso dos seus comandantes. Muitos morrem. Outros ficam estropiados. Outros viciados nas drogas que os chefes lhes dão para melhor os controlar. Muitos outros ficam com danos psicológicos irreversíveis. Neste momento são mais de 300 mil - 300 mil, santo Deus! - em todo o mundo. E há outras estatísticas: mais de um milhão de crianças passou por esta experiência; mais de dois milhões de crianças morreram em consequência de guerras nos últimos anos; mais de seis milhões ficaram estropiadas ou foram gravemente feridas; há dez milhões de crianças refugiadas, órfãs ou seriamente traumatizadas por guerras recentes. Os números, cruéis, estão no livreto do álbum «No Child Soldiers», que reúne inúmeras vedetas da música africana numa causa comum: a desmobilização das crianças-soldados. O resultado das vendas do disco - uma ideia da organização francesa Aikah a que se associaram outras entidades - reverte para organizações de desmobilização e reinserção de crianças-soldados. A fotografia que encima este texto é de Antony Njuguna, da Reuters.


VÁRIOS
«NO CHILD SOLDIERS»
O+ Music/Harmonia Mundi

Apesar do problema das crianças-soldados ser universal - do Sri Lanka à Palestina, da América Latina ao Afeganistão - «No Child Soldiers», o álbum, é totalmente protagonizado por artistas africanos, nascidos no mesmo continente em que há dezenas de milhar (centenas de milhar?) de crianças-soldados. E o tema é logo referido no início do álbum, no hino afro-reggae-soul ««Benamou (Enfants Soldats)», composto por Ange Yao e Madéka, em que intervêm também vários dos protagonistas deste álbum - Alpha Blondy, Angélique Kidjo, Lokua Kanza, Ben Okafor, Aicha Koné, Charlotte M'Bango, Monique Séka, Mama Keita, Diane Solo e Bibi); canção que é repegada, numa versão reduzida, no final. E o álbum, riquíssimo, está cheio de excelentes artistas e temas africanos. Vejamos... Tété num tema bluesy, «Le Meilleur des Mondes», que faria inveja a Ben Harper. O enorme Geoffrey Oryema nos afro-blues luminosos do clássico «Yé Yé Yé». Outro «monstro», Alpha Blondy, no reggae quente e interventivo de «Peace In Liberia». Aicha Koné cruzando a música mandinga com swing eléctrico em «Kanawa». Madeleine «Madéka» Kouadio numa canção lindíssima, puxada a violino e percussões, «Miwa». Angélique Kidjo a fazer a ponte sonora entre África, Cuba, Jamaica e Estados Unidos no festivo «Mutoto Kwanza». Os balafons a servir de cama à fabulosa voz de Rokia Traoré em «Sakanto». Outro clássico incontornável, «Tekere», do nobre trânsfuga Salif Keita. Koras, percussões e secção de metais em roda livre no absolutamente dançável «Sinebar», de Youssou N'Dour. E ainda, para compor o ramalhete, temas de Corneille, Ben Okafor, Mama Keita, Bibie, Extra Bokaya e Lokua Kanza. Tudo por uma causa urgente, num álbum muito, muito bom. Só falta aqui Emmanuel Jal... (9/10)

Links:

No Child Soldiers
UNICEF
Amnistia Internacional
Handicap International

18 novembro, 2006

«Planet Rock» - Levámos Todos Com Uma Pedra na Cabeça


Se há alguns dias falei de «Rhythms del Mundo», em que artistas e grupos de rock anglo-saxónicos se deixam «contaminar» por géneros cubanos, desta vez falo de «The Rough Guide To Planet Rock», álbum em que músicas «locais» são mergulhadas em cadinhos borbulhantes de rock e funk e psicadelismo e punk e... E o resultado destas experiências vagamente científicas - entre muitos outros, andam por aqui os Tinariwen, Albert Kuvezin & Yat-Kha (na foto), Ba Cissoko, Dengue Fever, Konono Nº1, Gogol Bordello, Etran Finatawa e os portugueses Donna Maria - é muitas vezes uma maravilha completa.


VÁRIOS
«THE ROUGH GUIDE TO PLANET ROCK»
World Music Network/Megamúsica

«Planet Rock» é mais uma excelente colectânea da série «The Rough Guide To...», desta vez compilando grupos de várias zonas do globo que partem de músicas próprias, tradicionais, para depois se lançarem de cabeça a vários géneros de rock ou de músicos rock dos mais variados países que, num momento ou noutro, descobriram ou redescobriram as suas próprias músicas tradicionais - não se sabendo muito bem qual a ordem destes factores em cada um deles - e também projectos multinacionais em que a mistura de influências se faz a partir da origem de cada um dos seus músicos. O álbum começa muito bem, com os Dengue Fever, grupo recente de Los Angeles com uma cambojana como vocalista - e a sua música parece directamente saída do «Bom-Dia Vietname», com um rock sixties, misto de garage e psicadelismo, mas cantado em... khmer - e Les Boukakes - bando de franceses, argelinos e tunisinos que misturam, em festa, guitarras em distorção com rai e gnawa. Seguem-se, muito bem, os malianos Tinariwen com a sua música tuaregue infectada por blues ácidos e os Ba Cissoko (da Guiné-Conakry), com koras electrificadas e o fantasma de Jimi Hendrix a assombrar a música mandinga. E depois, uma surpresa, os fantásticos norte-americanos Hip Hop Hoodios, que misturam hip-hop, klezmer, ritmos latino-americanos, jazz, guitarras eléctricas em voo livre etc, etc... (nos HHH juntam-se músicos dos Klezmatics, Orishas, Midnight Minyan e da banda de apoio de Carlos Santana), que colam muito bem com os Balkan Beat Box - aqui num tema que tanto deve à música cigana do centro europeu quanto ao gnawa, ao klezmer e à electrónica - e com os Yat-Kha - numa estranhíssima versão «vozes de Tuva em molho country-punk» de «In A Gadda da Vida», dos Iron Butterfly (retirada do álbum «Re-Covers», com versões de variadíssimos temas rock ocidentais visitados por Albert Kuvezin e os seus Yat-Kha). Depois, mais surpresas: os fabulosos Alms For Shanti (banda indiana que sucedeu aos Indus Creed) misturando canto konokol, gaitas em fogo, rock e breakbeats; Yela, cantora da Ilha da Reunião que junta smooth jazz a ritmos locais como o maloya; e os portugueses Donna Maria, num fado-tango-electrónica discreta (qualquer canção d'A Naifa ficaria aqui bem melhor, mas pronto...). O ritmo volta a acelerar com os Transsilvanyans, grupo berlinense em que se juntam húngaros e alemães e que parecem uma Marta Sebestyen pop acompanhada por uns Muzsikas electrificados e em alta velocidade; os Haydamaky, numa canção lindíssima que liga a tradição ucraniana ao reggae e à soul; e a maravihosa cantora palestiniana Rim Banna, num tema que parece um misto de Talking Heads, Material (de Bill Laswell) e música árabe - a banda que a acompanha, para aumentar ainda mais esta parte boa da globalização, inclui um ucraniano e alguns noruegueses. A recta final da colectânea fica reservada para os Etran Finatawa (do Niger) e a sua mistura sempre bem conseguida de música tuaregue e wodaabe com blues eléctricos; o ritmo infernal dos kissanges e tralha percutida dos congoleses Konono Nº1; e o punk ucraniano, balcânico e interventivo dos incontornáveis Gogol Bordello. «Planet Rock» é especialmente aconselhado, claro, aos amantes de rock que desconfiam de outras músicas e aos amantes de músicas tradicionais que desconfiam do rock. (9/10)

10 novembro, 2006

«Rhythms del Mundo» - O Rock Vai a Cuba


Coldplay (na foto), U2, Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs, Sting, Jack Johnson, Franz Ferdinand e Radiohead, todos, de uma maneira ou de outra, presentes neste álbum que também é protagonizado pela Sra. Omara Portuondo, inclui as última gravações do enorme Ibrahim Ferrer e tem lá dentro muitos dos músicos do «Buena Vista Social Club». O álbum não é nenhuma maravilha mas tem uma boa causa à mistura e também vale por isso.


VÁRIOS
«RHYTHMS DEL MUNDO»
Universal Music


O início é delicioso: «Clocks», dos Coldplay, com a voz e o piano originais e o resto em metais e percussões em divagações salseiras. A continuação, porém, com Jack Johnson em registo baladeiro/son fraquinho indicia logo que a fórmula vai ser, quase sempre, esta e limitada: a mistura nem sempre feliz de temas de sucesso de artistas anglo-saxónicos com ritmos cubanos, aqui representados por muitos dos intervenientes em «Buena Vista Social Club»: Barbarito Torres, Amandito Valdes, Virgilio Valdes, Angel Terri Domech, Manuel «Guajiro» Mirabal, Orlando «Cachaito» Lopez e Demetrio Muniz. Para além, claro, do saudoso Ibrahim Ferrer (numa versão arrepiante de «As Time Goes By», cantado em espanhol) e de Omara Portuondo (em «Killing Me Softly», também cantada em espanhol, e, em duo com Ferrer, numa segunda versão ainda melhor que a primeira de «As Time Goes By»). E são de Omara e Ibrahim os melhores momentos do disco... De resto, o rock rugoso dos Arctic Monkeys pouco é infectado por Cuba; Dido com os Faithless não estão aqui a fazer nada; a versão de Coco Freeman com os U2 de «I Still Haven't Found What I'm Looking For» (em espanhol) é forçada; os Maroon 5 são assustadores; e Sting não consegue, uma vez mais, salvar a canção «Fragile» (aqui «Fragilidad»). Mas no disco ainda há bastantes coisas boas, a juntar a Omara, Ferrer e os Coldplay: a versão «cubanizada» de «Modern Way», dos Kaiser Chiefs, não é nada má (com metais em brasa a sublinhar o refrão); Vanya Borges dá outro sentido - um melhor sentido - a «Ai No Corrida», de e com Quincy Jones; Aquila Rose e Idana Valdes são excelentes em «Hotel Buena Vista»; Coco Freeman e os Franz Ferdinand assinam uma deliciosa versão, também em espanhol, de «The Dark of The Matinee»; e Abel «Lele» Rosales, dos históricos Los Van Van, agarra pelas tripas - e aqui isto é um elogio - «High and Dry», dos Radiohead, transformando-a na banda-sonora de um filme latino-americano estranho, escuro e trágico. (6/10)

(Cerca de três euros obtidos com a venda de cada álbum será destinado pela Artists' Project Earth a organizações e programas de ajuda a zonas afectadas por desastres naturais; o site da APE pode ser encontrado aqui)

24 outubro, 2006

«Rogue's Gallery» - 43 Canções no Baú do Morto e Uma Garrafa de Rum


Um dos melhores álbuns deste ano chega-nos através de uma ideia de Gore Verbinsky e Johnny Depp (pois, o realizador e a estrela d'«Os Piratas das Caraíbas»), com produção artística e musical do enorme Hal Willner (ele que é sempre o homem certo para os projectos arrojados e as grandes homenagens, sejam a Edgar Allan Poe, Nino Rota, Thelonious Monk ou Kurt Weill). O álbum chama-se «Rogue's Gallery», tem como sub-título «Pirate Ballads, Sea Songs & Chanteys» e inclui interpretações de muita da melhor gente que a folk e o rock têm para oferecer.

VÁRIOS
«ROGUE'S GALLERY»
Anti- Records

Se se quiser, «Rogue's Gallery» não é bem um disco. É mais um filme em que as cenas se sucedem sem cessar (parece um trava-línguas e é), com personagens míticas que incluem piratas da perna de pau e corsários enlouquecidos pelo brilho do ouro, marinheiros mirrados pelo escorbuto e as suas noivas deixadas num porto qualquer, capitães bêbados de rum e de sal, um Neptuno que faz soprar tempestades sobre os galeões e as sereias que seduzem os marujos prestes a naufragar, rapazes aventureiros em busca de fortuna e de amor. E um mapa do tesouro com um X brilhante lá no meio. Os actores?... Baby Gramps, Nick Cave, Bryan Ferry (a solo e num fabuloso dueto com Antony), Loudon Wainright III, Gavin Friday, Martin Carthy, Mary Margaret O'Hara, Jack Shit e Lou Reed (também com Antony a espreitar por trás) estão todos soberbos na interpretação destas canções trazidas pelo mar. E, lá pelo meio, ainda há muitas outras boas interpretações - embora não ao nível das referidas -, por Bono, Van Dyke Parks, Joseph Arthur, David Thomas, Teddy Thompson, Eliza Carthy, Lucinda Williams, Ed Harcourt e Stan Ridgway, entre outros. O álbum, repete-se, é fabuloso, não só na escolha destas canções antigas como na selecção do elenco (eu também meteria Tom Waits, Shane MacGowan e PJ Harvey ao barulho, que não estão neste álbum mas poderiam muito bem estar...) e nos ambientes e arranjos musicais que os rodeiam. Aqui, só Richard Thompson (surpreendentemente!), Akron/Family, Andrea Corr e Sting falham o X deste magnífico mapa. (8/10)

07 outubro, 2006

Funk, Disco e Rock Latinos dos Anos 70 - Revolución!


O excelente artigo de Mário Lopes, no «Y» de ontem, sobre Sly & The Family Stone e sobre o funk como expressão das reivindicações negras nos Estados Unidos, fez-me recuperar dois discos mais ou menos recentes sobre um movimento paralelo, se bem que com muito menor exposição pública: o rock chicano e o funk e disco-sound latinos (mesmo que feito em França ou na Bélgica!) da década de 70. Um bom cheirinhos disto tudo está nestas duas colectâneas de que aqui se fala - «Revolucion - The Chicano's Spirit» e «Latin Funk Flavas» -, que agrupam nomes como El Chicano, Sapo, Azteca, Tierra, Flash & The Dinamics, Massada, Candido, Kongas ou Joe Bataan (na foto).


VÁRIOS
«REVOLUCION - THE CHICANO'S SPIRIT»
Follow Me Records

Muitas vezes o facto é esquecido, mas a verdade é que um dos primeiros heróis do rock'n'roll era de origem mexicana: Ritchie Valens, o jovem cantor de «La Bamba», morto no mesmo acidente de aviação onde também pereceria Buddy Holly. E que um dos vencedores absolutos de Woodstock tinha também sangue mexicano: Carlos Santana. Quem não o esqueceu foi a geração de bandas que despontou imediatamente a seguir, nos Estados Unidos mas nunca esquecendo a raiz mexicana, latina, da sua música, e a ela juntando, muitas vezes, as características de reivindicação política e de identidade própria que também caracterizavam o funk (maioritariamente) negro e até boa parte do rock (maioritariamente) branco da altura. «Revolucion - The Chicano's Spirit» agrupa gravações de bandas de imigrantes mexicanos das grandes metrópoles californianas (Los Angeles e San Francisco), nascidas nos guetos latinos (os «barrios»). Nele encontram-se temas de grupos e artistas bastante representativos do «género»: Coke Escovedo, El Chicano, Juan Carlos Caceres, Tierra, Malo, Sapo, Massada... E os temas, cantados em inglês e espanhol, têm ecos de salsa, de boogaloo, de rumbas e de formas musicais mexicanas mas há, aqui, essencialmente, rock, funk, psicadelismo, blues revistos pelos Doors em contexto mariachi, ou referências óbvias ao mix «afro-latino» de Carlos Santana e várias tentativas (umas mais bem conseguidas, outras menos) de emular a sua guitarra eléctrica. Mas em «Mazatlan», dos Azteca - o melhor tema da colectânea -, há blues, funk, soul, jazz de fusão, psicadelismo e latinismo q.b. para poder ser um clássico ao nível dos de um Jimi Hendrix, de uns Doors ou de uns Jefferson Airplane... (7/10)


VÁRIOS
«LATIN FUNK FLAVAS»
Salsoul/Bethlehem

Com os Tierra (também presentes em «Revolucion...») como elo de ligação entre estas duas colectâneas, «Latin Funk Flavas» - da editora norte-americana Salsoul (o nome não é inocente: a sílaba «sal» vem de... salsa, enquanto «soul» não é preciso explicar...) - faz um apanhado de temas antigos da editora, lançados nos anos 70, quando o funk e o disco-sound reinavam nas discotecas. E a compilação é um desfile inacreditável de canções festivas e absolutamente dançáveis (aqui não há intervenção política) que fazem a ponte perfeita entre esses ritmos norte-americanos e ritmos vindos de mais a sul, sem complexos nem barreiras: salsas, sambas, rumbas, mambos, cha-cha-chas (e experimentalismos e fusionismos entre todos estes géneros)... No rol estão o histórico afro-filipino de Nova Iorque Joe Bataan (um dos primeiros campeões de vendas da Salsoul, aqui em três temas, um deles uma versão de Gil Scott-Heron), o percussionista Candido, os misteriosos District of Columbia, os espantosos franceses Kongas (com dois temas fresquíssimos e completamente surpreendentes, «Anikana-O» e «Kongas Fun»), os belgas Chocolat's (eles e os Kongas parecem anunciar, com alguns anos de avanço, vários caminhos do pós-punk nova-iorquino!), Gary Criss (com um tema, «Rio de Janeiro», que está entre Sérgio Mendes, a banda-sonora do «Shaft» e algo de deliciosamente foleiro), The Anvil Band, Jimmy Castor, os «chicanos» Tierra (aqui com um irresistível «Baila, Simon») e The Salsoul Orchestra (com o escaldante «Ritzy Mambo»). (8/10)

27 setembro, 2006

World Circuit - Vinte Anos de Encantamento


Há algum tempo, a propósito de «Savane», de Ali Farka Touré, referi que mais dia menos dia iriam aparecer gravações inéditas do génio do Mali... Pois elas aí estão, na colectânea «World Circuit Presents...» - com edição marcada para meados de Outubro -, comemorativa dos 20 anos desta importante editora de world music, que deu a conhecer a muita gente a arte de Ali Farka, dos músicos cubanos recuperados no projecto Buena Vista Social Club (na foto), de Oumou Sangare, Toumani Diabaté, Sierra Maestra e Afel Bocoum, entre muitos outros...


VÁRIOS
«WORLD CIRCUIT PRESENTS...»
World Circuit/Megamúsica

Se não fosse pelo resto - que é muito -, esta colectânea já valeria pelos dois autênticos rebuçados a derreterem-se na boca dos fãs de Ali Farka Touré que são a versão ao vivo de «Amandrai» (oito minutos de encantamento puro; Jimi Hendrix em abençoados drunfos em vez de coca...) e um inédito absoluto, outtake das sessões de gravação de «In The Heart of The Moon» com Toumani Diabaté, o tema «Du Du» (com uma kora fadista de Toumani e uma guitarra de Ali Farka em círculos e pontilhismos minimais...). Mas «World Circuit Presents...», disco-duplo, tem ainda outros inéditos que os coleccionadores agradecem: um avanço do álbum dos quenianos Shirati Jazz que vem aí, um inédito do mestre do gnawa Mustapha Baqbou, outro da cantora mauritana Dimi Mint Abba e uma gravação «no terreno» de Afel Bocoum (com uma guitarra mágica e grilos ao fundo...). E temas emblemáticos - embora não inéditos - de artistas da World Circuit estão também no rol. Temas do colectivo Buena Vista Social Club, Cheick Lô, Radio Tarifa, Afro Cuban All Stars, Abdel Gadir Salim, Oumou Sangare, Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra, Ali Farka Touré com Ry Cooder, Orchestra Baobab e Los Zafiros, para além de algumas pérolas do fundo de catálogo da editora: temas do cubano Ñico Saquito, do trompetista argelino Bellemou Messaoud ou do grupo vocal Black Umfolosi, do Zimbabwe.

A World Circuit - liderada por Nick Gold, que tem no fantástico engenheiro-de-som Jerry Boys o seu braço-direito - começou por ser uma pequena agência de concertos. Mas quando cresceu como editora fê-lo de uma forma honesta e límpida, dando sempre aos músicos contratados excelentes condições de gravação, patrocinando parcerias frutuosas com outros produtores e músicos (Ry Cooder, Pee-Wee Ellis, Youssou N'Dour...) e abrindo-lhes, muitas vezes, as portas para digressões de sucesso em todo o mundo. Dar os parabéns à World Circuit é pouco. (8/10)

28 agosto, 2006

Zouk, Kizomba & Som da Kabilia - Géneros Menores?


Assim como há músicas híbridas, na chamada world music, que são bem aceites neste circuito - desde o neo-flamenco de uns Ojos de Brujo aos punks de Tuva Yat-Kha, dos cruzamentos das novas electrónicas com a tradição de DJ Dolores ou Mercan Dede a mil outras experiências de fusão -, há outros géneros que não são considerados nobres o suficiente para integrarem os circuitos habituais de difusão das chamadas músicas do mundo como o kuduro, o baile funk, o reggaeton, o kwaito sul-africano, o zouk das Caraíbas, a kizomba angolana e cabo-verdiana ou a música popular da Kabilia, na Argélia. Três colectâneas editadas há pouco tempo reunindo temas dos três últimos géneros referidos são uma boa porta de entrada nestes estilos musicais. A adesão, ou não, a cada um deles (ou a todos) só depende de quem os ouvir... ou de quem os dançar.

VÁRIOS
«ZOUK ME LOVE»
Ngola Música/Maxi Music

O zouk é um estilo nascido nas Caraíbas (principalmente nas ilhas de Martinica e Guadalupe) que mistura ritmos locais com a pop anglo-saxónica e francesa, a soul, o reggae, a música africana e, mais recentemente, o hip-hop e o novo r'n'b norte-americano. Tendo como figuras de ponta nos anos 80 e seguintes os incontornáveis Kassav, rapidamente o género se dividiu em vários sub-géneros como o zouk lambada e o zouklove. E é bastante popular nos países de origem e também em Angola e Cabo Verde - países onde o zouk contribuiu para o aparecimento da kizomba - e junto de comunidades imigrantes caribenhas e africanas em Lisboa, Paris, Amesterdão ou Londres. «Zouk Me Love», colectânea de artistas de zouklove, género mais romântico e lento do que o zouk propriamente dito, é uma boa mostra deste género, maioritariamente cantado em francês mas por vezes com desvios - como acontece no tema «Tudo Pa Bo», de Suzanna Lubrano, cabo-verdiana radicada na Holanda - para o inglês e o creoulo cabo-verdiano. Destaque para «Fanm'Fo», excelente tema de Valerie Odina, Lea Galva e Danielle Renee-Corail, para a entrada mais que natural de um flow hip-hop em «Wooh She's Who», de Shydeeh, e a festa quentíssima e quase salseira de «Bagaill La Bandé», de Jean-Philippe Marthely, Jean-Luc Guanel e Marius Priam que fecha o álbum. (6/10)

VÁRIOS
«O MIDJOR DI KIZOMBA»
Farol Música

Basta ouvir esta colectânea de kizomba a seguir à de zouk para, facilmente, constatar a proximidade, quase de irmãos, destes dois géneros. Nascida em Angola - misturando semba, merengue, zouk e géneros anglo-saxónicos - mas também bastante popular e praticada em Cabo Verde, a kizomba foi popularizada por Bonga, primeiro, e Don Kikas, depois, até chegar à expressão que tem actualmente, com dezenas (centenas?) de artistas a aderir ao género. «O Midjor di Kizomba», colectânea lançada agora pela editora portuguesa Farol e apontada às comunidades imigrantes africanas de expressão portuguesa (e a todos os outros que a queiram ouvir), agrupa 16 temas recentes de kizomba feito por artistas angolanos e cabo-verdianos e é um bom espelho deste ritmo quente, sensual e - também à semelhança do zouk - para dançar a dois, bem agarradinhos. O primeiro tema, «Ná-Ri-Ná», de Denise, é lindíssimo, com o funaná e a coladeira cabo-verdianos a meterem-se facilmente pela kizomba dentro. Já o segundo, «Alta Segurança», de Philip Monteiro, é kizomba a sério, cheia de sintetizadores e reverberação açucarada na voz do cantor, tendências repetidas por outro nome histórico da kizomba, os Irmãos Verdades, em «Amar-te Assim». E o resto da colectânea é um desfilar coerente de temas que oscilam, sempre, entre a modernidade (produções cheias e luxuosas e até aproximações ao hip-hop, como em «I Want You Back», de Katinga MC) e a tradição: ouvem-se sembas e merengues aqui e ali, ouve-se mais Cabo Verde acolá (o funaná quase em estado puro de «Nha Madrinha», de Jorge Neto), ouve-se uma pitada de São Tomé misturada com Angola (no tema do falecido Camilo Domingos, «Dicena»). Um vídeo sobre como dançar bem kizomba surge como bónus neste CD. (7/10)

VÁRIOS
«KABYLIE NON-STOP - Vol.1»
Night&Day/Megamúsica

Prima do zouk e da kizomba - na mistura de elementos da música ocidental com géneros locais - a música popular da Kabilia (região do norte da Argélia) está próxima do rai, da música berbere (e os seus característicos gritos ululantes, que aparecem em quase todos os temas deste género musical) e de outras zonas do norte de África e, em igual medida, da pop anglo-saxónica e francesa. É uma música alegre, saltitante, óptima para dançar à sombra de uma tamareira (ou outra árvore qualquer) e com um chá de menta na mão. Nesta colectânea, «Kabylie Non Stop - Vol.1», com música escolhida e misturada pelos DJs Fayçal e Youcef, podem ouvir-se muitos temas representativos do género como os incontornáveis «Anzor L'Wali», de Hassiba Amrouche, «Nana Ala», de Mohamed Allahoua, o delicioso «Byiy Anasay», de Alilou, «Yemma», do histórico Takfarinas, o excelente «Sidi Lqurci», de Ouerdia, «Ça Va, Ça Va», de Nadia Baroud; mas também temas mais próximos da música tradicional (sem instrumentos ocidentais) dos Freres Khalfa, «Idbalen», com as gaitas-de-foles da região, bendires e darabukas, e da veterana e respeitadíssima Cherifa (na foto que encabeça este post), «Echah Arnouyas», que está bastante perto da tradição kabiliana, da música clássica egípcia e do flamenco; e ainda remisturas de temas como «Ines Ines», de Massa Bouchafa, e «Sniwa Difengalen», de Ali Irsane. (7/10)

07 junho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane» (parte 2)


Continuando a recuperação de textos antigos sobre Ali Farka Touré, cujo novo álbum, «Savane», é editado no dia 17 de Julho, aqui fica mais um texto, este a propósito de «Niafunké» (e de outros álbuns de música africana). Apareceu, sem título, na secção «world extra», do BLITZ.

WORLD EXTRA
(publicado originalmente no ano 2000)

Quando Don Johanson, um respeitadíssimo arqueólogo, descobriu o esqueleto mais completo de um Australopithecus Afarensis, em Hadar, na Etiópia, estava a ouvir no seu gravador «Lucy In The Sky With Diamonds», dos Beatles, uma das suas canções preferidas. O esqueleto, do sexo feminino -- e, na altura, o hominídeo mais antigo que já se tinha encontrado --, foi por isso baptizado com o nome de Lucy e tornou-se uma vedeta entre os estudantes de História de todo o mundo.

A ironia da situação estava em que, procurando as origens da espécie humana em África -- onde elas estão, de facto, até prova em contrário --, se estava ao mesmo tempo a ouvir uma das melhores criações artísticas do século XX, uma música feita por brancos (a pop e o rock'n'roll) mas completamente devedora da música negra (os blues, os rhythm'n'blues, o jazz...). Como se um fio invisível unisse as várias etapas da pilhagem a que o continente africano foi sujeito ao longo dos séculos (dos milénios?) por povos exteriores. Dos escravos que foram de Angola, Guiné, Costa do Marfim, para o Brasil, levados pelos portugueses, ou das relíquias faraónicas que foram roubadas pelos franceses, até à música que saiu de África para Cuba, Brasil ou Estados Unidos para quase nunca mais voltar.

Este texto fala de pilhagens, mas também de reapropriações e de viagens de ida e volta, sabe-se lá de onde para onde, de quem para quem (o genial guitarrista Ali Farka Touré e a colaboração dos Masters Musicians of Jajouka com Talvin Singh). E também de alguma música que esteve escondida durante décadas, como é o caso das reedições de Fela Kuti, da música da cabo-verdiana Nácia Gomi ou da colecção «African Renaissance», com gravações dos arquivos da rádio oficial sul-africana. Os discos de que aqui se fala - e que podem ser descobertos facilmente em qualquer boa discoteca - são importantes, não como documentos (históricos ou outros) mas como obras de arte absolutamente acabadas, passe o quase-paternalismo e quase neo-colonialismo da frase. São assim porque o são. Só isso. Breve resenha, em jeito de ficha analítica de arqueólogo amador.

Ali Farka Touré - «Niafunké» (World Circuit/Megamúsica, 1999). Origem: Mali. Ali Farka Touré é um guitarrista de blues. Dito isto assim, de uma forma crua, parece não ter importância. Há guitarristas de blues em todo o lado. Do Mississippi a França, guitarristas de blues é o que não falta. Mas Touré é diferente de todos os outros. Ele toca e só por tocar duas ou três frases nós apercebemo-nos imediatamente de onde vem aquela música que pensávamos durante muitos anos vir dos negros da América. Vem deles, é claro, mas vem principalmente dali, do coração de África. Touré ouviu os grandes mestres dos blues (John Lee Hooker é muitas vezes apontado como uma influência) mas também ouviu muita da música que se faz na zona sub-sahariana em que nasceu. E a mistura das duas culturas é espantosa. Como se víssemos duas verdades parciais mas já estivéssemos a olhar para a verdade absoluta. Uma verdade simples: os blues nasceram em África, sem dúvida. «Niafunké» - mais rude e mais puro que o álbum gravado com Ry Cooder, o igualmente genial (embora diferente) «Talking Timbuktu» - é bem prova disso. E se o início do último tema faz lembrar os Pink Floyd de «Wish You Were Here» isso é só um gesto de ladroagem (consciente?, duvido) que é, no fundo, um acto de justiça poética em relação à contínua prática de gatunagem da música ocidental.

Master Musicians of Jajouka - «Master Musicians of Jajouka - Featuring Bachir Attar», produzido por Talvin Singh (por enquanto só um CD-sampler, com quatro temas e duas entrevistas; Point Music/Universal, 2000). Origem: Marrocos. Novo álbum de um colectivo lendário na cena «world music». Descobertos, digamos assim, por Brian Jones - o igualmente mítico guitarrista dos Rolling Stones - em 1968, com quem gravou o álbum «Brian Jones presents The Pipes of Pan at Jajouka» (a edição original, em LP, não tinha título mas foi assim designada na reedição em CD), o disco obrigou o Ocidente a conhecer a música do norte de África, as suas percussões hipnóticas, as suas vozes melismáticas, as suas gaitas afinadas nos limites dos agudos. A vontade de psicadelismo, de algum misticismo (movido a drogas várias, é verdade) e de transe levou Brian Jones para Marrocos; como outros (George Harrison e, por arrasto, os outros Beatles, foram para a Índia). O curioso é que, trinta anos depois, há um indiano radicado em Londres a produzir um disco do mesmo grupo marroquino. O novo álbum dos Masters Musicians of Jajouka tem a supervisão de Talvin Singh (uma das figuras de proa da frente asiática em Inglaterra, juntamente com os Asian Dub Foundation ou os Transglobal Underground). E mostra a mesma música (com o gaiteiro Bachir Attar como solista) de antigamente, mas com o acrescento (dado por Singh) de modernos ritmos de música de dança. Os puristas podem torcer o nariz, mas os frequentadores de festas bailantes, nomeadamente as de trance psicadélico, vão-lhe chamar um figo. Segundo Talvin Singh, a música de Marrocos e da Índia, apesar dos milhares de quilómetros de distância entre os dois países, tem uma raiz comum, a música que, da Pérsia, seguiu para outras partes do mundo (e a influência da religião muçulmana também não deve ser alheia ao facto, acrescento). Diáspora, separação, descoberta, viagem. A música sempre viveu assim, da liberdade de ir de um lado para o outro...

Fela Kuti - «King of Afrobeat - The Anthology» (caixa de três CDs Barclay/Universal, 2000). Origem: Nigéria. Fela Anikolapu (ou Ransome) Kuti foi um visionário da música africana e, se se ouvir com atenção estes três discos (e os álbuns completos que estão agora a ser vendidos na colecção «Fela - The Authentic Collection», que reúne dois álbuns num CD) de muita da música que se fez depois dele. Estudou música em Londres, no Trinity College, viveu nos Estados Unidos a euforia do rock e do funk, para além de ter sido atingido em cheio pelas ideias do Black Power (o que reforçou ainda mais os seus ideais políticos já bem firmes desde a sua juventude). Quando voltou à Nigéria, na viragem dos anos 60 para os anos 70, começou a criar, com o seu grupo, Africa '70, as raízes daquilo que ficou conhecido como afro-beat. Baseados no jazz, no funk, no rock, no psicadelismo revisto por Sun Ra, e com uma forte intervenção política e social, os temas de Fela Kuti caracterizavam-se por longas introduções instrumentais, com a voz a aparecer só depois de estar muito bem definida a base rítmica e melódica, muito longe da obrigatoriedade de um refrão pop antes da chegada sequer ao primeiro minuto. Uma voz masculina com marcantes coros de vozes femininas e uma base instrumental «ocidental» - guitarras eléctricas, baixo, bateria, teclas, saxofone (e em quase todos estes instrumentos Fela era perito), ao lado de maracas e congas. As suas letras - cantadas em várias línguas, numa tentativa de pan-africanismo - falavam de pobreza, de corrupção, de guerra. Mas também de revolta e de esperança. Fundou uma «república» só sua, com as suas inúmeras esposas. Foi preso e torturado pelo governo nigeriano em 1984. A sua mãe foi assassinada pelos soldados que o perseguiam. Morreu de SIDA em 1997. Isto é curto para retratar a vida de Fela Kuti. Como é curto dizer que a sua música, influenciada-pela-música-ocidental-influenciada-pela-música-africana, abriu depois caminho a coisas tão diferentes como o disco-sound ou o drum'n'bass, o rap (ele que, por sua vez, tinha ficado impressionado com a obra dos Last Poets) ou grupos como os Talking Heads, os Material ou os King Crimson de inícios dos anos 80. Pulsação, encanto, fusão, futuro, liberdade, negritude.

Nácia Gomi -- «Nácia Gomi Cu Sê Mocinhos» (CD Sons D'África, 2000). Origem: Cabo Verde. Nácia Gomi é uma senhora de 75 anos que só agora está a ser revelada ao mundo. Compositora da maior parte dos temas que canta, Nhá Nácia canta o finaçon, feito de voz e batuques, uma música que remete tanto para as polifonias sul-africanas como para o griot da África Central como para os cantos melismáticos do norte de África, e, por muito estranho que possa parecer, para alguns cânticos dos índios norte-americanos. Diz ela que nunca dançou um alegre funaná. Compreende-se: o finaçon é uma música profundamente triste, feita de ladaínhas hipnóticas, circulares e telúricas que aceleram para um transe final. Deus vive ali perto, apesar da aparência desolada da paisagem e da carga histórica que rodeia o sítio em que Nácia vive, o Tarrafal.

Vários - «African Renaissance» (colecção de CDs Eagle Records/Música Alternativa, 2000). Origem: África do Sul. Quarenta anos depois de terem sido efectuadas as gravações - e com o fim do apartheid - estão agora disponíveis as recolhas feitas por técnicos e produtores da rádio sul-africana (South African Broadcasting Corporation). É música perdida nos tempos (a maior parte dos músicos presentes nestes CDs nunca teve qualquer tipo de reconhecimento público sob o regime bóer) e uma enorme miríade de estilos e géneros. Gravados nos anos 50, estes são temas protagonizados por zulus, vendas, tswanas, xhosas, swazis... E aqui podem-se ouvir cantos polifónicos zulu, temas devedores do rock'n'roll e do swing (estes temas um desenvolvimento do género local marabi, nascido nos anos 20 e que misturava as big-bands do jazz com as músicas locais), temas próximos dos merengues e dos sembas angolanos. Há canções gospel mas com os gritos femininos hiper-agudos que são mais conhecidos dos cantares berberes, do lado oposto (a norte) do continente; canções parecidas com o «Lion Sleeps Tonight» (talvez o tema sul-africano mais famoso de que os americanos se apropriaram); delírios rítmicos de percussões em explosão contínua. Diamantes em estado bruto.

É conhecida a romaria que bateristas e percussionistas ocidentais fizeram até África, à procura do ritmo: Ginger Baker, que gravou em 1971 com Fela Kuti. E, depois, Stewart Copeland (dos Police) ou Mickey Hart (dos Grateful Dead), para já não falar nos bateristas de jazz. Mas se calhar está na altura de guitarristas, baixistas, teclistas, cantores, saxofonistas, etc., seguirem o mesmo caminho. Lucy já não é o mais antigo hominídeo descoberto. Os diamantes financiam guerras no continente. Mas ao céu ainda chegam as vozes de África inteira.