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09 julho, 2010

"Raízes e Antenas", o Livro, é pré-apresentado no FMM de Sines


Se tudo correr bem, o livro "Raízes e Antenas - Mistérios e Maravilhas da World Music" será editado em finais de Agosto ou princípios de Setembro. Escrito por António Pires (pois...), com paginação de Rodrigo Madeira e editado pela MediaXXI, "Raízes e Antenas" recupera os 200 cromos que foram "colados" neste blog durante alguns anos. O livro terá a sua pré-apresentação dia 31 de Julho, às 17h00, no Centro de Artes de Sines, integrada no programa de actividades paralelas do FMM de Sines:

http://fmm.com.pt/programa/iniciativas-paralelas/pre-apresentacao-do-livro-raizes-e-antenas-misterios-e-maravilhas-da-world-music-de-antonio-pires/

02 abril, 2009

Cromos Raízes e Antenas L


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo L.1 - Khaled


Outrora conhecido como Cheb Khaled («cheb» significa «jovem» e não é um nome próprio, sendo comum a outros artistas norte-africanos como Cheb Mami ou Cheb i Sabbah), o cantor, compositor e multi-instrumentista argelino Khaled é um dos artistas mais representativos do género tradicional rai, na sua forma modernizada. De nome completo Khaled Hadj Brahim (nascido a 29 de Fevereiro de 1960, em Sidi-El-Houri, Argélia), Khaled mistura na sua música as raízes do rai com muitos outros géneros como o jazz, o funk, a pop, o r'n'b, as electrónicas, onde instrumentos tradicionais como o ney (flauta) ou a darabuka se fundem com sintetizadores, instrumentos eléctricos e uma secção de metais. Khaled - que toca banjo, acordeão, bateria, teclados, guitarra... - começou a sua carreira com apenas catorze anos, no grupo Les Cinq Étoiles e, ainda na Argélia, foi perseguido pelo teor da sua música, considerada demasiado ocidentalizada e com letras impróprias. Fixou-se em França em 1986 e, a partir daí, a sua fama nunca mais parou de crescer. Audição aconselhada: «Khaled» (1992), «1, 2, 3 Soleils» (1999; em parceria com Rachid Taha e Faudel) e «Ya-Rayi» (2004).


Cromo L.2 - Los de Abajo


Exemplo maior entre os maiores de uma música viva, dinâmica, empenhada politicamente e onde muitas músicas se cruzam sem que, por isso, a música final perca um pingo de identidade própria, o grupo Los de Abajo (formado na capital mexicana, Cidade do México, em 1992) é capaz de misturar ska, punk, cumbia, mariachi, son jarocho e muitos outros géneros de uma forma fluida, natural, orgânica. Também activos social e politicamente, ao longo do seu trajecto Los de Abajo defenderam causas como a do EZLN (Ejército Zapatista de Liberación Nacional), dos Jóvenes en Resistencia Alternativa e a dos presos políticos de Atenco. Gostando de caracterizar o seu som como «tropipunk», Los de Abajo já se encontraram criativamente com o catalão Macaco e, mais recentemente, com Neville Staples (Fun Boy Three) e a dupla Neil Sparkes/Count Dubulah (os Temple of Sound), no álbum de remisturas «LDA v The Lunatics» (2006). Outro álbum aconselhado: o histórico «Cybertropic Chilango Power» (2002).


Cromo L.3 - Gigi Shibabaw


Gigi (aka Ejigayehu Shibabaw) é uma cantora e compositora etíope que chegou à fama internacional através da mão de Bill Laswell - Gigi, aliás, viria a casar com este activíssimo produtor e músico - e de outro nome mítico da música, Chris Blackwell, patrão da editora Palm Pictures e o antigo responsável pela fama de muitos grandes artistas de reggae (como Bob Marley), quando liderava a Island Records. E, apesar de ter chegado a gravar anteriormente nos Estados Unidos, Gigi chegou ao sucesso internacional com os álbuns editados pela Palm Pictures: «Gigi» (2001), «Zion Roots» (assinado pelo grupo Abyssinia Infinite; 2003) e «Gold & Wax» (2006), onde à música de raiz - muitas vezes inspirada pelas Genna, celebrações do Natal na Etiópia - se juntam electrónicas, dub, funk, rock ou jazz (em «Gigi», ela foi acompanhada por nomes graúdos do jazz como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Pharoah Sanders). Outros artistas com quem já se cruzou: Buckethead, Karsh Kale, Tabla Beat Science, Nils Petter Molvaer, Foday Musa Suso e Jah Wobble.


Cromo L.4 - The Zydepunks


Nova Orleães, é sabido, foi há cerca de cem anos o berço ideal de uma música nova, o jazz, onde muitas outras músicas - africanas e europeias - namoravam entre si: os blues, o gospel, o ragtime, as valsas, o klezmer, etc, etc... E é, agora, o berço de uma banda singular, os Zydepunks - onde também muitas músicas convergem: o zydeco e o cajun originários da Louisina, o punk, a country, a música cigana dos Balcãs, a música «celta» revista pelos Pogues, o klezmer... e cantando em seis línguas diferentes. Criados em 2003, os Zydepunks usam um baixo eléctrico (mas não guitarras) e baseiam o seu som num violino e num acordeão endiabrados, voz e bateria. E - conta a lenda - são capazes de dar concertos absolutamente arrebatadores. Formados por Denise Bonis (violino, voz), Juan Christian Küffner (acordeão, rabeca, voz principal), Joe Lilly (bateria, voz), Scott Potts (baixo, voz) e Eve (acordeão, melódica, voz), os Zydepunks lançaram até agora os álbuns «9th Ward Ramblers», «...And The Streets Will Flow With Whiskey», «Exile Waltz» e «Finisterre».

Nota: A primeira série dos «Cromos Raízes e Antenas» termina aqui. São 50 «carteirinhas» de quatro Cromos cada, o que soma o bonito número de 200 entradas. Os meus agradecimentos a quem sugeriu nomes, fez reparos, emendou gralhas e asneiras... Se tudo correr bem, uma nova série se seguirá...

26 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLIX.1 - Serge Gainsbourg


Polémico, provocador, alcoólico, pianista, pederasta, poeta genial, namorado de algumas das mulheres mais bonitas do mundo, realizador de cinema, fumador compulsivo, pintor, actor, compositor de muitas e desvairadas músicas (e com flirts... musicais variadíssimos, da chanson ao rock, ao reggae e ao jazz), Serge Gainsbourg (de verdadeiro nome Lucien Ginsburg, nascido a 2 de Abril de 1928; falecido a 2 de Março de 1991) foi uma das personagens mais importantes da música francesa do Séc.XX. Nascido numa família de judeus russos exilados em França, Gainsbourg iniciou a sua carreira como pianista em bares mas, durante os anos 60 e 70, firmou o seu nome como um dos cantores e, principalmente, compositores mais criativos da sua geração. Compôs - e com elas por vezes fez duetos e com elas, muitas vezes, se envolveu sentimentalmente - para cantoras e actrizes como Brigitte Bardot, Jane Birkin, Juliette Gréco, Françoise Hardy, Catherine Deneuve, Vanessa Paradis e, para disfarçar, para alguns homens como Alain Bashung ou Jacques Dutronc. Canções inesquecíveis: a sexualmente explícita «Je T'Aime... Moi Non Plus», «Bonnie and Clyde», «La Javanaise» ou a sua versão reggae, «Aux Armes et cetera», do hino francês.


Cromo XLIX.2 - «Il Canto di Malavita»


Envolta em controvérsia quando foi editada em Itália (e também, junto da comunidade italo-americana, nos Estados Unidos) por alegadamente fazer a apologia da Máfia, a colectânea «Il Canto de Malavita - La Musica Della Mafia» não deixa, por isso, de ser um extraordinário mostruário de uma música antiga, secreta, também ela cheia de códigos internos - à semelhança da organização que canta - e, sempre, de uma grande beleza. Feitas de raiva e tristeza, vingança e amor, sangue e honra, interpretadas muitas vezes num calão próprio, as canções de «Il Canto di Malavita» (editada em 2000 pela PIAS) foram resgatadas às ruas, casas e caves da Calábria pelos produtores Francesco Sbano, Maximillian Dax e Peter Cadera. Em «Il Canto di Malavita» ouvem-se ecos de tarantelas e canções napolitanas, rembetika e fado, amplificados pela voz de alguns intérpretes extraordinários como El Domingo, F. Cimbalo, Franco Caruso ou Salvatore Macheda. Uma segunda colectânea com a mesma temática, «Omertà, Onuri e Sangu — La Musica della Mafia Vol.2», foi editada dois anos depois.


Cromo XLIX.3 - DJ Dolores


Na música do brasileiro DJ Dolores, os géneros musicais do seu país, tradicionais ou não - frevo, baião, forró, maracatú, emboladas, música brega, ciranda, tropicalismo, samba, bossa-nova e muito mais... - cruzam-se com géneros exteriores - reggae, funk, rock, hip-hop, dancehall, surf music, klezmer, dub, house... - como se tivessem surgido, desde sempre!, para se cruzarem assim. DJ Dolores (de seu verdadeiro nome Helder Aragão) é DJ, produtor, compositor, chefe de «orquestra» - são inesquecíveis as suas actuações com a Orquestra Santa Massa - e faz isso tudo por igual e muitíssimo bem. Começando a sua carreira, no Recife, como designer gráfico, produtor de cinema e autor de bandas-sonoras, foi como DJ que o seu nome se tornou mundialmente conhecido, tendo - para além da sua obra em nome próprio - feito remisturas para nomes como os Taraf de Haidouks, Gilberto Gil, Fernanda Porto ou Tribalistas. Audição aconselhada: os álbuns «Contraditório» (2002), «Aparelhagem» (2005) e «1 Real» (2008).


Cromo XLIX.4 - L'Ham de Foc



Objecto raro e originalíssimo no meio da folk feita em Espanha, o duo valenciano L'Ham de Foc atirou-se com saber e mestria - e sempre ao longo dos seus vinte anos de existência - a uma música que vai beber a sua inspiração à música medieval, árabe, grega e sefardita transportando-as para a modernidade, podendo ser encontrados vários pontos de contacto entre o grupo e os Dead Can Dance, os Hedningarna ou até os Corvus Corax. Criados em 1998, em Valência, pela cantora e multi-instrumentista Mara Aranda e o multi-instrumentista Efrén López, os L'Ham de Foc fizeram um percurso sempre ascendente nos meandros da folk europeia, mercê da sua coerência na utilização apenas de instrumentos acústicos - sanfonas, alaúdes, sitar, harpa, vários saltérios e gaitas-de-foles a inúmeras percussões, europeias, asiáticas ou norte-africanas (num total de mais de trinta instrumentos). Em 1999 editaram o álbum de estreia, «U», seguido por «Cançó de Dona i Home» (2002) e «Cor de Porc» (2005). Desfeita a dupla, os seus membros encontram-se agora ligados a grupos como os Aman Aman, Sabir, Saba, Capella de Ministrers, Mara Aranda & Solatge ou Al Andaluz Project. (1)

(1) - Texto adaptado de um outro escrito por mim para o Festival MED de 2007.

19 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLVIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLVIII.1 - Rupa and The April Fishes


Ainda só têm um álbum editado no circuito internacional, mas são já uma das maiores promessas - OK, são já uma certeza! - daquilo que de melhor e mais abrangente se pode esperar de um grupo de «world music». E, aqui, o termo até está bem aplicado. Com base em San Francisco, Estados Unidos, Rupa and The April Fishes são liderados pela compositora, cantora e guitarrista Rupa, sendo os April Fishes formados por Marcus Cohen (trompete), Isabel Douglass (acordeão e voz), Aaron Kierbel (percussões), Safa Shokrai (contrabaixo) e Ara Anderson (trompete). Com influências que vêm da música indiana (Rupa, que é médica de profissão, tem as suas raízes no Punjab e viveu alguns anos em França), do tango, da canção francesa, do jazz (inclusive na sua variante cigana à Django, o jazz manouche), da cumbia, da pop... Rupa and The April Fishes lançaram em 2008 o álbum de estreia «eXtraOrdinary rendition», e já fazem parte, por direito próprio, do firmamento mais brilhante da música actual.


Cromo XLVIII.2 - Franco


Franco (aka Franco Luambo, François Luambo Makiadi e L'Okanga La Ndju Pene Luambo Lwanzo Makiadi; nascido a 6 de Julho de 1938, em Sona Bata, no Congo Belga, actual Zaire; falecido a 12 de Outubro de 1989) foi o mais importante compositor, cantor e guitarrista congolês do Séc. XX. Ao longo da sua carreira, deixou - em discos a solo ou com os grupos OK Jazz e TPOK Jazz - mais de mil canções gravadas, espalhadas por cerca de 150 álbuns. Com um estilo muito pessoal de tocar guitarra - era cognominado «O Feiticeiro da Guitarra» -, Franco misturou na sua música sonoridades africanas, jazz, ritmos latino-americanos (muito em especial a rumba), funk e soukous. Um fenómeno musical desde a adolescência - Franco gravou o seu primeiro single, «Bolingo Na Ngai Beatrice», com apenas 15 anos -, em 1956 fundou o OK Jazz (mais tarde rebaptizado TPOK Jazz), que rapidamente se tornou o grupo mais importante do Congo e com o qual tocou até à sua morte. Era um ídolo no seu país (e noutros países de África) e o seu funeral foi acompanhado por dezenas de milhares de pessoas.


Cromo XLVIII.3 - DJ Click


Membro do colectivo electro-jazz-world UHT, director da editora No Fridge, DJ e remisturador apaixonado por inúmeras músicas do mundo - e como ele as conhece bem! -, o francês DJ Click é um dos melhores, talvez mesmo o melhor, exemplo de como se podem transportar muitas músicas tradicionais para um futuro em que a música de judeus e muçulmanos, de ciganos espanhóis e do leste da Europa, de negros, de brancos e de mestiços de várias origens conseguem conviver, cruzar-se e obrigar toda a gente a dançar numa nave espacial utópica e cheia de músicas novas. E em que músicas novas como o dub, o electro ou o drum'n'bass e músicas antigas como o gnawa, o klezmer ou a música cigana dos Balcãs têm o mesmo espaço e importância. Com DJ Click já se cruzaram (em remisturas ou colaborações) nomes como Mitsoura, Gnawa Njoum Experience, Transglobal Underground, Rachid Taha, Leontina Vaduva, Burhan Öçal, Recycler, Tziganiada ou Estelle Goldfarb. (1)


Cromo XLVIII.4 - Pentangle


Um dos mais importantes grupos da folk britânica de sempre, os Pentangle nasceram em 1967, em Londres, à volta de Bert Jansch e John Renbourn - dois guitarristas geniais que já tinham um passado comum na folk -, uma cantora apaixonada pela tradição, Jacqui McShee, e dois músicos de jazz, Danny Thompson (baixo) e Terry Cox (bateria). E o resultado desse encontro foi explosivo: canções que iam à folk, aos blues, ao psicadelismo, ao jazz, ao rock progressivo ou à música barroca; canções que se encaixavam perfeitamente na música do seu tempo mas que também deixavam - pelo grau de abertura que demonstravam - muitas pistas para o futuro. Os Pentangle separaram-se em 1973 e ressurgiram nos anos 80, tendo passado inúmeros outros músicos pelas suas várias formações. E em 2007 os cinco membros fundadores voltaram a reunir-se para receber o Prémio Carreira dos Folk Awards atribuídos pela BBC Radio 2 e, no ano seguinte, fizeram uma digressão de enorme sucesso pelas Ilhas Britânicas. Audição aconselhada: os álbuns «The Pentangle», «Sweet Child», «Basket of Light» e «Solomon's Seal».

(1) - Texto adaptado de uma prosa anterior minha acerca do álbum «Flavour», de DJ Click.

13 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLVII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLVII.1 - Billy Bragg


Não são raros os exemplos de punks britânicos que se viraram depois para a folk ou para a «world» - os Pogues, os Chumbawamba e até Joe Strummer (dos Clash) são alguns desses exemplos, entre muitos outros... -, mas Billy Bragg é, sem dúvida, um dos maiores expoentes dessa tendência. Billy Bragg (Stephen William Bragg, nascido a 20 de Dezembro de 1957, nos subúrbios de Londres, Inglaterra) começa a sua carreira em 1977, na banda punk Riff Raff, com a qual não obtém sucesso. Mas em 1981 inicia uma profícua trajectória musical a solo em que os seus extraordinários dotes de cantautor (inspirado pela folk britânica e norte-americana mas sem nunca esquecer o seu passado punk) e o seu activismo político anti-fascista e anti-racista também o levaram a colaborações memoráveis com músicos dos R.E.M., Johnny Marr (The Smiths), Michelle Shocked, Kirsty MacColl ou, mais recentemente, o projecto The Imagined Village. É uma referência incontornável.


Cromo XLVII.2 - Cornershop

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A cantora Sinéad O'Connor teve o seu pico de projecção mediática quando queimou uma fotografia do Papa João Paulo II. E o grupo indo-britânico Cornershop - uma referência às «lojas de esquina» dos imigrantes indianos e paquistaneses em Inglaterra - deram visibilidade à sua música quando queimaram uma foto de Morrissey, depois deste cantor ter assumido ideias racistas (inclusive nas letras de algumas canções). Surgidos em Leicester, Inglaterra, em 1992 - e ainda hoje em actividade -, os Cornershop, desde sempre liderados por Tjinder Singh e Ben Ayres, caracterizam-se por uma fusão consistente de canções infecciosamente pop, algumas electrónicas e referências discretas à música indiana (instrumentos como a sitar, harmonium, dholaki, tamboura e tablas fazem parte do seu «kit» habitual). O seu tema «Brimful of Asha» (de 1997; uma homenagem a Asha Bhosle) e a respectiva remistura de Fatboy Slim vão ficar para sempre na história da world music.


Cromo XLVII.3 - Naftule Brandwein


Ouve-se, agora, Woody Allen a tocar jazz no seu clarinete e sente-se, sem a menor dúvida, que aquele clarinete deve tudo à música klezmer. Ou ouvia-se, antes, o clarinetista Benny Goodman ou o início do «Rhapsody In Blue», de Gershwin, e sentia-se que as bases destas músicas estavam nas suas raízes judaicas. Actualmente não há banda de klezmer que não tenha um clarinete. E, em todas elas, são nítidas as influências do maior clarinetista klezmer de todos os tempos: o lendário Naftule Brandwein. Tendo nascido em Przemyslany (no actual território da Ucrânia), em 1884, no seio de uma família de músicos judeus, emigrou para os Estados Unidos em 1908. Conhecido como «O Rei da Música Judaica», gravou variadíssimos discos de 78 rpm durante os anos 20. E embora a sua carreira tenha decaído desde essa altura e até à sua morte, em 1963, a sua música foi depois recuperada, amada e emulada por todas as novas vagas de músicos klezmer.


Cromo XLVII.4 - Krakabs


As krakabs (ou quaquabou, chkacheks, krakebs e garbag) apresentam-se, ao lado do gimbri (ou guembri, um baixo acústico rectangular), como o instrumento mais emblemático da música gnawa, sendo utilizado por grupos como os Nass Marrakech, Gnawa Impulse ou na banda acompanhante da grande Hasna El-Becharia, entre muitos outros. Também conhecidas como castanholas de metal, as krakabs são o instrumento de percussão fundamental para a criação (e sustentação) dos ritmos transe-hipnóticos do gnawa, género - e também a designação da comunidade sufi que o pratica - do sul de Marrocos, criado pelos descendentes dos escravos da África Ocidental levados para o lado norte do Sahara pelos árabes. Fazendo parte da família dos idiofones, as krakabs são crótalos feitos de ferro, em forma de 8, e o seu som tenta imitar o galope de um cavalo.

07 novembro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLVI.1 - Extra Golden


Quando uma tese de doutoramento acaba por dar origem a uma das melhores e mais excitantes bandas da actualidade, é caso de dar graças aos céus por haver universidades norte-americanas que aceitam trabalhos sobre... a música benga do Quénia. Foi o que aconteceu a Ian Eagleson (ele que pertencia a um grupo rock chamado Golden), quando foi para Nairobi terminar a sua tese sobre este tema e conheceu um músico local, Otieno Jagwasi, da Orchestra Extra Solar Africa. Foi com ele - e com Alex Minoff (também dos Golden e Weird War, ex-Six Finger Sattelite) - que Ian gravou em 2004 o primeiro álbum dos Extra Golden, «Ok-Oyot System» (editado em 2006). Infelizamente, Otieno morreu, tendo sido substituído por Opiyo Bilongo, com quem foi gravado o segundo álbum, «Hera Ma Nono» (2007), ao qual se seguiu «Thank You Very Quickly» (2009). Mesmo com uma história trágica por trás, a música dos Extra Golden é uma celebração de vida, de alegria e de multiculturalismo no melhor que esta palavra tem.


Cromo XLVI.2 - Rizwan-Muazzam Qawwali



Depois da morte de Nusrat Fateh Ali Khan - o nome maior da música qawwali do Paquistão - outros intérpretes dessa música sagrada inspirada pelo sufismo emergiram como eventuais substitutos da sua arte. Uma substituição impossível. Mas que há continuadores talentosos e genuínos, lá isso há. Faiz Ali Faiz, Asif Ali Khan & Party ou Fareed Ayaz são alguns dos nomes mais bem posicionados para preencher esse vazio. Mas os Rizwan-Muazzam Qawwali - formados por dois jovens sobrinhos de Nusrat Fateh Ali Khan - estão há alguns anos a reclamar o legado do tio e a assinar uma carreira tão consistente que podem mesmo bem ser eles os legítimos herdeiros do génio de Nusrat. Com três álbuns editados até agora - «Sacrifice To Love», «A Better Destiny» e «Day of Colours» - e com colaborações em discos de Adrian Sherwood e Temple of Sound, os Rizwan-Muazzam Qawwali são uma lufada de ar fresco nesta música centenária.


Cromo XLVI.3 - Banco de Gaia


Há inúmeros exemplos de má (e de péssima!) música electrónica que usa samples de músicas de vários lugares do mundo só porque soam a exótico, a diferente, a estranho ou a «moderno». E há tantos que nem haverá espaço aqui para referir um que seja. Mas, no outro extremo, há também alguns belos exemplos de como a electrónica pode ir à world music para com ela se fundir na perfeição. Um desses - e dos melhores - exemplos é o do compositor e músico inglês Toby Marks (mais conhecido pelo pseudónimo Banco de Gaia), que desde o início dos anos 90 junta várias tipologias de música electrónica (ambient, house, dub...) com música asiática e música do norte de África e de outros lugares do planeta, sempre com um talento e um bom-gosto notáveis. Audição aconselhada: os álbuns pioneiros «Maya» (1994), «Last Train to Lhasa» (1995) e «Big Men Cry» (1997).


Cromo XLVI.4 - Russendisko


Em Berlim (Alemanha), 1999, dois imigrantes oriundos da ex-União Soviética, Wladimir Kaminer - ele também jornalista e escritor, inclusive de um livro de nome... «Russendisko» (editado em Portugal pela Cavalo de Ferro), onde conta esta história, entre outras - e o DJ Yuriy Gurzhy começam a organizar festas para imigrantes de Leste com o nome Russendisko. Festas que depois se alargaram a uma crescente legião de fãs formada também por alemães e pessoas de outras nacionalidades, subitamente apaixonadas pelo ska, o punk, o klezmer ou a pop feita por grupos da Rússia, da Ucrânia, da Geórgia e de outros novos países saídos da separação da União Soviética, como os Leningrad, os RotFront ou os Nogu Svelo. E, a partir de 2003, há colectâneas Russendisko espalhadas por todo o mundo: «Russendisko Hits», «Russendisko Hits 2» e «Radio Russendisko» são as mais aconselháveis.

06 outubro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLV


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Cromo XLV.1 - Sun Ra


Um dos mais importantes, originais e desviantes nomes do jazz, Sun Ra (nascido a 22 de Maio de 1914 no Alabama, Estados Unidos, como Herman Poole Blount mas adoptando depois como nome oficial Le Sony'r Sun Ra; falecido a 30 de Maio de 1993) foi compositor, teclista e líder de grandes e pequenas orquestras de jazz, nomeadamente da sua pessoalíssima Sun Ra Arkestra. Auto-baptizando-se com o nome de um deus egípcio, com uma filosofia de vida muito própria - teve sempre uma visão afro-centrista das questões sociais e políticas e dizia que tinha nascido no... planeta Saturno -, pioneiro no uso de sintetizadores no jazz, Sun Ra passeou a sua arte livremente pelo be-bop, pelo free jazz, pelo experimentalismo, passando muitas vezes por diversificadas alusões às músicas do mundo, nomeadamente à música africana, asiática e latino-americana, principalmente nos últimos anos da década de 50 e os primeiros da década de 60.


Cromo XLV.2 - Dissidenten


Na vanguarda da fusão do rock e das electrónicas com músicas de variadíssimas paragens do planeta Terra, os alemães Dissidenten iniciaram a sua carreira em 1981, em Berlim, com uma formação que incluía Friedo Josch (teclas, instrumentos de sopro), Uve Müllrich (voz, guitarra, baixo e oud) e Marlon Klein (voz, bateria, percussões, teclas). E, ao longo da sua carreira de quase trinta anos, este trio - que continua ainda agora a conduzir os destinos do grupo - cruzou a sua música com inúmeras outras músicas e inúmeros outros músicos, passando pela Índia, por Marrocos, por Espanha, pelo Havai, pela música dos índios norte-americanos... e por grupos e artistas como o Karnataka College Of Percussion, Jil Jilala, Nass El Ghiwane, Royal Orchestra of Rabat, Trilok Gurtu, Manu Gallo, Tomás San Miguel e por DJs como Shantel ou Badmarsh. Uma celebração global!


Cromo XLV.3 - Sheng


Conta a lenda que o sheng - também conhecido como «órgão de boca chinês» - serviu de inspiração para a harmónica, o acordeão e o harmonium. Uma lenda que tem tudo para ser verdadeira se atendermos à complexidade deste instrumento, inventado na China há cerca de cinco mil anos. O sheng tradicional consiste numa câmara - feita de madeira ou marfim - onde o tocador sopra, ligada a vários tubos feitos de bambu. Cada tubo tem um orifício e, no seu interior, uma palheta livre, proporcionando o conjunto dos tubos uma variedade de timbres notável. Usado em grandes orquestras - nomeadamente nas que acompanham a Ópera chinesa -, em pequenas formações ou por intérpretes a solo, o sheng - que, em tempos mais recentes evoluiu dos seus 17 tubos originais para variações com 21, 24 ou 36 tubos - continua a ter um lugar ímpar na música chinesa e de outros países do Extremo Oriente, havendo actualmente inúmeras escolas que ensinam a sua arte.


Cromo XLV.4 - Tito Puente


Nome maior da música latino-americana do séc. XX, Tito Puente (nascido Ernesto Antonio Puente Jr, a 20 de Abril de 1923; falecido a 31 de Maio de 2000) foi um dos músicos e compositores a dar maior visibilidade mundial a géneros como o mambo, a salsa ou o jazz latino e, também, aos tímbales - seu instrumento de eleição, embora tenha usado também o vibrafone, congas, piano, saxofone e clarinete. Nascido e criado em Nova Iorque, Estados Unidos, filho de pais porto-riquenhos, ao longo da sua extensa carreira - composta por mais de cem álbuns gravados e inúmeras actuações em todo o mundo - foi muitas vezes considerado como «o rei da música latino-americana», arrecadou variadíssimos prémios (incluindo cinco Grammys) e a sua música integrou vários filmes e séries televisivas, nomeadamente «Os Reis do Mambo», «Os Simpsons» e «Calle 54». «Dance Mania», o seu álbum de 1958, é absolutamente imprescindível.

25 setembro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLIV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLIV.1 - Björk


Cantora, compositora, instrumentista, mulher de olhos e ouvidos abertos para as músicas e o mundo, Björk Guðmundsdóttir - nascida a 21 de Novembro de 1965 em Reykjavík, na Islândia - é uma das mais geniais e fundamentais artistas pop da actualidade. E uma artista que à pop - ou o que lhe queiram chamar, do rock indie às electrónicas - não se confina, abrindo o espaço da sua música à música erudita, ao experimentalismo, à world music. Tem colaborações com nomes como Hector Zazou - cantando um tema tradicional nórdico no álbum «Chansons des Mers Froids»» (1995) -, a cantora esquimó Tanya Tagaq - no álbum «Medúlla» (2004), o seu disco onde a tradição dialoga com a modernidade absoluta -, ou, mais recentemente, com o mestre maliano da kora Toumani Diabaté e os congoleses Konono Nº1 - ambos presentes em «Volta» (2007). Oiça-se «Earth Intruders», deste álbum, e oiça-se assim a world do futuro.


Cromo XLIV.2 - Gaiteiros de Lisboa


Os Gaiteiros de Lisboa (foto de Mário Pires) são o mais importante grupo de música tradicional portuguesa - e da sua renovação - dos últimos vinte anos. Com uma sabedoria funda, feita de muitos anos de estudo e de prática da música, mas com o génio suficiente para da tradição fazer uma outra coisa - viva, actual, sentida, muitas vezes divertida e selvagem, de outras de uma beleza etérea e profunda - os Gaiteiros de Lisboa nasceram em 1991, com um núcleo base formado por Paulo Marinho, Carlos Guerreiro, José Manuel David, Rui Vaz, José Salgueiro (recentemente susbstituído por José Martins) e, na altura, José Mário Branco. Já sem José Mário, o grupo alargou-se a outros músicos, como Pedro Casaes e Pedro Calado. E, ao longo destes anos, mostraram que - entre originais e adaptações de temas tradicionais, com instrumentos «normais» ou por eles construídos - a música portuguesa de raiz pode dar as árvores que se quiser.


Cromo XLIV.3 - «Éthiopiques»


Garimpeiro de discos de vinil antigos, aventureiro apaixonado pela música africana, Francis Falceto - da editora Buda Musique, baseada em Paris - é o responsável por uma das mais maravilhosas colecções que a world music já viu: a série «Éthiopiques», dedicada à reedição em CD de gravações feitas nos anos 60 e 70 por músicos da Etiópia e da Eritreia e o lançamento de alguns álbuns de originais gravados recentemente para a editora. Uma série que já ultrapassou os vinte volumes e que, entre colectâneas e álbuns inteiros dedicados a artistas específicos, deu a conhecer ao mundo artistas como Mahmoud Ahmed, Mulatu Astatke, Alemayehu Eshete, Asnaketch Worku, Tilahun Gessesse, Orchestra Ethiopia, Alemu Aga ou Getachew Mekurya. Para além da série «Éthiopiques», a Buda tem ainda outras colecções relevantes: «AfricaVision», «Ethiosonic», «Zanzibara», «Musique du Monde», «Stars de la World», «Voix du Passé», «Transes Européennes» e «Echos».

Cromo XLIV.4 - Ali Hassan Kuban



Nome pioneiro da fusão da música ocidental - nomeadamente do jazz e do funk, mas também da música cubana - com a música norte-africana, Ali Hassan Kuban (nascido em Gotha, na Núbia, em 1929; falecido em 2001) deu a esta zona do Egipto uma visibilidade musical que nunca alguém tinha conseguido até então. Dono de uma voz de excepção e um homem do seu tempo, embora sempre com um pé firme na tradição da sua região e do seu povo, Hassan Kuban introduziu guitarras eléctricas, teclas, acordeão e uma secção de metais na sua música durante os anos 50. Cantor, clarinetista, tocador de gibra (gaita-de-foles local), Ali Hassan Kuban viu o seu valor ser reconhecido internacionalmente durante os anos 90, quando actuou em festivais como o WOMAD, Midem ou o festival de jazz de Montreal. Álbuns mais relevantes: «From Nubia To Cairo» (1980), «Walk Like A Nubian» (1994) e «Nubian Magic» (1995).

21 abril, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLIII.1 - Ryuichi Sakamoto


Saído de um dos mais importantes grupos electro-rock japoneses dos anos 70, a Yellow Magic Orchestra, Ryuichi Sakamoto - nascido a 17 de Janeiro de 1952, em Nakano, Tóquio - rapidamente se destacou como um dos mais marcantes compositores e músicos dos últimos trinta anos, tendo a sua obra para disco, filmes (a sua banda-sonora de «Feliz Natal, Mr.Lawrence», onde também é actor ao lado de David Bowie, é maravilhosa) ou outros suportes passado pelo rock, o experimentalismo, a world music (nele convivem vários elementos tradicionais nipónicos mas também música árabe, indiana, africana ou brasileira), as electrónicas ou a ópera. Ao longo do seu riquíssimo percurso musical já trabalhou com David Byrne, David Sylvian, Thomas Dolby, Iggy Pop, Youssou N'Dour, Brian Wilson, Alva Noto, Arto Lindsay ou Jaques Morelenbaum (com quem gravou canções de António Carlos Jobim). Um génio absoluto.


Cromo XLIII.2 - «Latcho Drom», de Tony Gatlif


Pesquisador incansável e apaixonado da cultura cigana, nomeadamente da sua música, o realizador de cinema argelino, e cigano, Tony Gatlif (de seu verdadeiro nome Michel Dahmani, nascido a 10 de Setembro de 1948, em Argel), concluiu em 1993 um filme absolutamente extraordinário: «Latcho Drom», a (longa) história de uma viagem que traça a diáspora do povo cigano a partir do Rajastão, na Índia, e a sua chegada a países distantes como a Roménia, França, Egipto, Turquia, Hungria, Eslováquia ou Espanha. Uma viagem que é feita, sempre, com a música e a dança como traço fundamental de união e de memória deste povo. «Latcho Drom» (que significa, em romani, «boa viagem») é, talvez, o pico mais alto da carreira de Gatlif - ele também compositor de música - que tem como outros filmes marcantes o igualmente inesquecível «Gadjo Dilo», «Vengo», «Exils» ou o recente «Transylvania».


Cromo XLIII.3 - Susana Baca


A cantora Susana Baca - de seu nome completo Susana Esther Baca de la Colina, nascida a 24 de Maio de 1944, em Chorrillos, Lima - é também uma respitadíssima compositora e estudiosa da influência da música africana no Peru. Paralelamente à sua carreira musical - que já nos deu álbuns fabulosos como «Vestida de Vida, Canto Negro de las Américas!», «Fuego y Agua», «Espíritu Vivo», «Lamento Negro» (com o qual ganhou um Grammy) ou «Travesías» - é também, juntamente com o seu marido Ricardo Pereira, a responsável pelo Instituto Negro Contínuo que, nos arredores de Lima, recorda as heranças culturais que os escravos vindos de África deixaram no seu país. Cantando lunduns, valsas, marineras, zamacuecas ou canções de Gilberto Gil e poemas de Pablo Neruda, a sua voz é sempre enorme e a sua vida um enorme exemplo.


Cromo XLIII.4 - Babatunde Olatunji


Mito maior da música africana - e do que a música africana tem de mais ancestral, as percussões -, Babatunde Olatunji nasceu a 7 de Abril de 1927 em Ajido, Lagos, na Nigéria, e morreu a 6 de Abril de 2003, nos Estados Unidos. E foi nos Estados Unidos que ele teve a parte principal da sua profícua carreira, iniciada nos anos 50 quando fez amizade com um dos maiores génios do jazz, John Coltrane, e com o A&R John Hammond, da Columbia Records, editora para a qual começou a gravar em 1957 (o seu álbum «Drums of Passion» é um clássico). Fundador do Olatunji Center for African Culture, em Harlem, Nova Iorque, e guru de inúmeros bateristas, percussionistas e outros músicos (de Bob Dylan a Santana, de Mickey Hart a Airto Moreira, de Quincy Jones a Stevie Wonder, de Max Roach a Muruga Booker), Olatunji foi também um activista dos direitos civis nos EUA, ao lado de Martin Luther King e, depois, de Malcolm X.

08 abril, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLII.1 - Fairport Convention


Os Fairport Convention - uma das mais importantes bandas da folk inglesa, se não a mais importante - foram formados em 1967 e contam agora nas suas fileiras com Simon Nicol, Dave Pegg, Ric Sanders, Chris Leslie e Gerry Conway, mas pelo grupo passaram muitas outras luminárias da folk como Dan Ar Braz, David Swarbrick, Paul Warren, Richard Thompson, Sandy Denny e Trevor Lucas, entre muitos outros. Misturando com segurança e uma linguagem ferozmente pessoal a música tradicional (ou de inspiração tradicional) inglesa com rock - os Fairport Convention são geralmente apontados como o primeiro grupo inglês de «folk eléctrico» -, a banda rapidamente atingiu um estatuto inultrapassável. Igualmente organizadores, desde 1977, do importante festival folk Cropredy Festival, o melhor espelho da sua arte encontra-se na caixa... «The Cropredy Box» (1998).


Cromo XLII.2 - «Anthology of American Folk Music»



Contendo temas gravados nos anos 20 e no início dos anos 30 do Séc. XX, e originalmente editada em seis LPs em 1952, a «Anthology of American Folk Music» - reeditada em 1997 numa caixa de três CDs duplos, através da Smithsonian Folkways Recordings - é um tesouro em que se encontram mais de oito dezenas de canções folk, country e blues, memórias «vivas» da história da música norte-americana e de nomes incontornáveis que esta colectânea deu a conhecer a um vasto auditório: The Carter Family, Leadbelly, Dick Justice, Mississippi John Hurt, Alabama Sacred Harp Singers, Clarence Ashley, The Memphis Jug Band, Blind Lemon Jefferson ou Robert Johnson, entre muitíssimos outros. A colectânea foi organizada pelo lendário etnomusicólogo, arquivista, realizador de cinema e pintor Harry Smith, que assim «pôs a render» - e ainda bem! - a sua vasta colecção de velhos discos de 78 rpms.


Cromo XLII.3 - Umm Kulthum


Antes, muito antes de o termo «world music» ter sido cunhado - em meados dos anos 80, numa reunião de editores, distribuidores e lojas, em Londres -, já muitos outros artistas e grupos tinham saltado fronteiras e espalhado músicas «locais» em lugares estrangeiros. E um dos mais importantes nomes desse fenómeno foi o da cantora, compositora e actriz egípcia Umm Kulthum (de nome completo Umm Kulthum Ebrahim Elbeltagi, aka Um Kalthoum, Oum Kalsoum e uma boa mão-cheia de outras grafias do seu nome diferentes), nascida a 31 de Dezembro de 1904, em Tamay ez-Zahayra, falecida a 3 de Fevereiro de 1975. Tendo ficado conhecida pelas suas longuíssimas canções (em espectáculos que duravam entre três a seis horas interpretava apenas três ou quatro temas diferentes), Umm tem, ou teve, entre os seus admiradores Charles De Gaulle, Jean-Paul Sartre, Maria Callas, Salvador Dalí, Bob Dylan, Led Zeppelin, Jah Wobble ou Bono.


Cromo XLII.4 - R. Carlos Nakai


Usada - e abusada - na chamada música «new age», a música para flauta dos índios norte-americanos é muito mais do que aquilo que esses discos de «meditação», «auto-ajuda» ou «contemplação» querem fazer parecer. E o melhor exemplo disso mesmo é a obra, de qualidade ímpar, do flautista R. Carlos Nakai, índio semi-navajo semi-ute, nascido a 16 de Abril de 1946, em Flagstaff, no Arizona. Iniciando a sua carreira discográfica em 1983, com o álbum «Changes», Nakai é o mais conhecido e admirado flautista índio norte-americano, vencedor de vários Grammys e um músico que, apesar de ancorado na música tradicional, está aberto a colaborações com muitos outros músicos de várias áreas (do jazz à música erudita, nomedamente com Philip Glass) e de outras origens geográficas (Nawang Khechog, do Tibete; a Wind Travelin’ Band, do Japão; Keola Beamer, do Havai...).

20 março, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLI.1 - José Afonso


José Afonso - mais popularmente conhecido como Zeca Afonso - foi, provavelmente, o mais importante cantor e compositor português do século XX. José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (nascido em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, falecido em Setúbal, a 23 de Fevereiro de 1987) foi um compositor musical atentíssimo a muita música que o rodeava - do fado de Coimbra à música moçambicana, das canções beirãs ao cante alentejano... -, criando uma música nova em que as suas palavras - ele também um poeta criativo, vanguardista, interventivo - tinham igualmente um peso extraordinário. Do seu álbum «Cantigas do Maio», editado em 1971, foi retirada a senha para a revolução de 25 de Abril de 1974: «Grândola, Vila Morena». E ele próprio - fortemente activo politicamente desde quase o início da sua carreira musical - tornou-se também um símbolo da revolução.


Cromo XLI.2 - Konono Nº1


Nascidos há cerca de trinta anos em Kinshasa, no Congo, tendo como membro fundador o músico Mawangu Mingiedi, os Konono Nº1 são um grupo de músicos, cantores e dançarinos cuja música se baseia nas tradições da etnia Bazombo - que habita numa zona próxima de Angola - mas com a particularidade de muitos dos seus instrumentos serem electrificados, nomeadamente os seus emblemáticos likembés (kissanges ou m'biras). Outros elementos imediatamente identificativos do seu som são os seus microfones rudimentares e os seus sistemas de amplificação (feitos a partir de pedaços de automóveis ou velhos altifalantes de rua), que contribuem igualmente para uma música de transe, repetitiva, eléctrica, originalíssima. O álbum «Congotronics» (Crammed, 2005) projectou-os para a ribalta internacional e Bjork convidou-os para colaborar com ela no álbum «Volta».


Cromo XLI.3 - June Tabor


Figura maior da música folk britânica, June Tabor (nascida a 31 de Dezembro de 1947, em Warwick, Inglaterra) iniciou a sua carreira em 1972 e, partir daí, nunca mais deixou de encantar o mundo com a sua voz pessoalíssima e a sua arte aberta a várias músicas que ela escolhe, sempre!, a dedo: a folk britânica, sim, mas também a canção francesa, standards de jazz e algum rock de bom-gosto, que ela reinventa e reinterpreta como ninguém. A solo - ou em grupos e parcerias como as Silly Sisters (ao lado de Maddy Prior), com o grupo de folk-rock Oysterband ou no projecto The Big Session (com a Oyster Band e outros músicos e cantores ingleses e norte-americanos) - a sua voz e a sua presença são sempre luminosas e marcantes. E a sua música, da melhor que alguma vez se pôde ouvir vinda da folk feita nas ilhas britânicas. Audição aconselhada: a caixa «Always» (2005).


Cromo XLI.4 - Tarnation


Apesar de antes e depois dos Tarnation, a cantora - e mentora, líder e principal compositora do grupo - Paula Frazer ter uma carreira em nome próprio, a verdade é que foi com este grupo, formado em San Francisco, em 1992, que ela se deu a conhecer em toda a sua plenitude musical. Apenas com três álbuns no curriculum - «I’ll Give You Something To Cry About» (1993), «Gentle Creatures» (1995) e «Mirador» (1997) -, estes discos chegaram para estabelecer os Tarnation como um dos grupos de ponta da renovação da country nos Estados Unidos; uma country infectada pela música mexicana, as bandas-sonoras de Ennio Morricone para westerns e algum rock alternativo. Tudo enfeitado pela voz única e pessoalíssima de Frazer. E, embora tenha continuado com uma carreira a solo de sucesso, Frazer «ressuscitou» de algum modo a ideia da banda no seu álbum «Now It's Time» (2007), assinado Paula Frazer and Tarnation.