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13 dezembro, 2006

Rachid Taha, Akli D. e Cheb i Sabbah - Três Argelinos na Diáspora


Há alguns anos, Rachid Taha disse-me em entrevista (encontrável algures neste blog...) que «o meu país é a minha música... e a minha música é o meu país», frase mais que natural saída de um cantor, músico e compositor que se sente mais à vontade num território mítico em que não há fronteiras nem «papéis», a música, do que entre dois países, no caso dele, a Argélia e a França. Festejando o lançamento do seu novo álbum «Diwan 2», aqui deixo também textos acerca de discos recentes de Akli D. (na foto) e Cheb i Sabbah, dois outros argelinos que há muitos anos também emigraram para França.


RACHID TAHA
«DIWAN 2»
Wrasse Records/Universal Music

«Diwan 2» é a continuação lógica, oito anos depois, de «Diwan», álbum em que Rachid Taha homenageava muitos dos músicos e cantores que ouvia na sua infância. Em «Diwan 2» o tributo continua - há aqui versões de temas de Mohamed Mazouni, Missoum Abdlillah/Blaoui Houari, Ahmed Wabhy e Dahmane El Harrachi, entre outros - mas com uma qualidade e uma inventividade muito maiores do que no primeiro álbum do «díptico Diwan». Em «Diwan 2» podemos ouvir rai misturado com reggae, rock com gnawa, música mandinga (anda uma kora à solta em «Agatha», original de Francis Bebey), punk com música egípcia, e por aí fora, numa festa pegada, variadíssima (não há um único tema que se assemelhe a outro, neste álbum...), que nos agarra do princípio ao fim do álbum. Menos rock e pesado do que «Tékitoi», o seu fabuloso álbum anterior, e quase não recorrendo a electrónicas, «Diwan 2» continua no entanto a conter temas que podem assaltar facilmente os ouvidos mais «ocidentalizados» (como «Josephine» ou «Ah Mon Amour», os dois originais de Taha incluídos no álbum, o primeiro também co-assinado por Steve Hillage, companheiro de Taha há muitos anos). Mas, paradoxalmente, é quando ele se aproxima mais da tradição - mesmo que uma tradição misturada com outros elementos - como em «Ecoute Moi Camarade», «Agatha», «Mataouel Dellil» ou «Maydoum», que se consegue começar a imaginar qualquer coisa muito estranha que é: «e se o rock tivesse nascido em Alger e não em... Memphis»?... Isso é que era!! (9/10)


AKLI D.
«MA YELA»
Because Music

Também a habitar em França desde há muitos anos, Akli D. (Akli Dehlis) é muito menos conhecido do que Rachid Taha, mas está agora a mergulhar definitivamente no circuito da chamada world music (e a sua presença na última WOMEX é disso prova). Originário da região da Kabilia, no norte da Argélia, Akli D. cresceu a ouvir a riquíssima música da sua região (já falada neste blog), rock norte-americano e francês, reggae e m'balax. Akli D. chega a França no início dos anos 80, por alturas da revolta dos berberes na Kabilia, onde começa por tocar nas ruas e no metro, acompanhado pelo seu banjo (!). Muitos anos depois fará parte dos grupos El Djazira e Les Rebeuhs des Bois, antes de começar a editar a solo. Para o seu novo álbum, «Ma Yela», Akli D. contou com a ajuda preciosa de Manu Chao, que o produziu e nele introduziu algumas das suas marcas habituais (cf. em «DDA Mokrane»). Um álbum em que se ouve uma deliciosa mistura de música châabi da Kabilia - e outros géneros berberes -, folk norte-americana, reggae e blues, jazz manouche e afro-beat... Com letras de intervenção - Akli D. fala de imigrantes ilegais e dos direitos das mulheres muçulmanas -, mas também com letras em que o amor, a paz e a harmonia são o mote principal, «Ma Yela» é mais um luminoso álbum em que muitos e variados géneros se encontram para criar uma música nova e em que já não faz sentido falar de géneros específicos. (8/10)


CHEB I SABBAH
«LA KAHENA»
Six Degrees Records

Igualmente argelino, o respeitadíssimo músico, compositor e DJ Cheb i Sabbah tem uma já longa carreira na mistura de ritmos de dança ocidentais com música do Norte de África, música sufi e música indiana. Tendo também deixado a Argélia natal em direcção a França ha dezenas de anos, Cheb i Sabbah trabalhou com o Living Theatre, com o trompetista de jazz Don Cherry e com o grande cantor paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, antes de saltar para a ribalta com os seus álbuns «Shri Durga» (1999), «MahaMaya - Shri Durga ReMixed» (2000), «Krishna Lila» (2002) e «As Far As» (2003). Há um ano editou este «La Kahena - Les Voix du Maghreb» (já saiu, entretanto, o álbum de remisturas baseado neste disco, «La Ghriba»). Para «La Kahena», Cheb i Sabbah foi para Marrocos gravar com cantores (principalmente, cantoras) e músicos locais, em busca das raízes da sua música. E o resultado é um disco espantoso de ritmo e harmonia, de transe e elegância, de raiz e de modernidade, em que a música árabe, berbere, gnawa e até orações, se fundem naturalmente com drum'n'bass, dub, beats hip-hop... Para além de Cheb i Sabbah e da «crew» marroquina, também outros músicos bastante conhecidos participam em «La Kahena», como Bill Laswell, Richard Horowitz e dois «irmãos» de Cheb nestes cruzamentos das electrónicas com as suas músicas tradicionais: o turco Mercan Dede e o indiano Karsh Kale. Um cruzamento que, no caso destes três - e daí a irmandade - é sempre feito com um respeito e uma paixão enorme pela tradição, por muitos outros elementos que a sua música contenha. (8/10)

12 outubro, 2006

Balkan Beat Box, Charanga Cakewalk e Toubab Krewe - F de Falso


Segundo os sábios ensinamentos de Orson Welles no filme «F Is Fake» (ensinamentos repegados no último álbum dos Houdini Blues), muitas vezes aquilo que parece não o é, mesmo que o eco de uma realidade qualquer seja muito parecido com a realidade ela mesmo e, por vezes, seja ainda mais real que o real. Mas o F de que se fala aqui - a propósito de álbuns dos projectos Balkan Beat Box (na foto), Charanga Cakewalk e Toubab Krewe - é de Falso, sim, mas também de Festa, de Folia, de Fusão, de Felicidade e de... Fãs.

BALKAN BEAT BOX
«BALKAN BEAT BOX»
Essay Recordings

Os Balkan Beat Box são dois israelitas radicados há muito em Nova Iorque, Ori Kaplan e Tamir Muskat, que com a ajuda de mais um punhados de excelentes músicos fazem neste seu álbum de estreia uma estranha e excitante fusão de música dos... Balcãs (estão lá as secções de metais típicas da música cigana do leste europeu), sim - o nome da banda não engana muito, apesar de tudo -, mas onde há muitas outras coisas metidas a este barulho bom: beats tecno, trance, hip-hop, rock e funk qb, ska, dub, klezmer, um cheiro «misterioso» a vozes búlgaras (em «Bulgarian Chicks»), flamenco, música mandinga, música árabe, turca e gnawa (esta no fabuloso «Hassan's Mimuna»). E sem deixar até de fazer apelos à paz e à concórdia entre os povos (em «La Bush Resistance»). E, sempre, com uma enorme fluência orgânica entre as várias componentes deste som. Devem ser excelentes ao vivo. O F é de Falso, mas é também de Fanfarras. (8/10)


CHARANGA CAKEWALK
«CHICANO ZEN»
Triloka/Artemis Records

Charanga Cakewalk é o projecto de um texano de origem mexicana, Michael Ramos (teclista e acordeonista de John Mellencamp, Paul Simon, The Bodeans e The Rembrandts), que se estreou em disco sob esta designação com «Loteria de La Cumbia Lounge» e lançou há alguns meses o segundo álbum, «Chicano Zen». Um álbum que faz por vezes lembrar Esquivel, no sentido de adaptar músicas tradicionais latino-americanas (principalmente mexicanas) a um cocktail dançante e, usemos um palavrão ou dois, obviamente agradável e simpático. Um Esquivel moderno e actual. Mas, outras vezes, está muito perto da tradição (como na deliciosa «La Miga Hormiga», «Amor Profundo», «No Soy Feliz»...) e aí sente-se um apego e uma paixão enorme pelas raízes. Na receita entram, em doses variadas, exotica, lounge, chill-out, rancheras, mariachis, boleros, cumbias, polkas, merengues e quase tudo faz, quase sempre, sentido. No lote de vozes convocadas para este álbum estão as de Lila Downs, Ruben «El Gato Negro» Ramos, Patty Griffin, Martha Gonzalez (dos Quetzal) e Davíd Garza. O F é de Falso, mas é também de Fascinação. (7/10)


TOUBAB KREWE
«TOUBAB KREWE»
Upstream Records

Ouve-se e, por vezes, muitas vezes, não se acredita no que se ouve: os Toubab Krewe são um grupo norte-americano, formado por cinco músicos brancos, mas a música que fazem tem como base a música mandinga e parece, parece mesmo!, mandinga muitas vezes. Andam por aqui koras, ngonis e percussões da África Ocidental à mistura com guitarras eléctricas, baixo, bateria. E o resultado dos ensinamentos colhidos em numerosas viagens a África e - certamente - na obra de Ali Farka Touré, Toumani Diabaté ou Ba Cissoko encaixam como uma luva nas outras influências que o grupo expõe com humildade: os blues, o hard-rock (com os Led Zeppelin, muito naturalmente, à cabeça), o prog, a country, o reggae, a surf music, a música cubana... E tudo isto feito com um amor e um talento inacreditáveis. O quinteto foi formado apenas em 2005, este é o primeiro álbum dos Toubab Krewe, mas a coerência e inventividade destes rapazes pressuporia que eles andam a fazer isto há muito, muito mais, tempo. Que o façam, pelo menos, por muito mais... porque aqui o F é de Falso, mas é também de Futuro. (8/10)

20 setembro, 2006

Mercan Dede, Bajofondo Tango Club, «Electric Gypsyland 2» - Dança Ainda Mais Dança


Três álbuns saídos este ano mostram à saciedade que nem todas as fusões de música electrónica (se se quiser, música de dança no sentido da actual expressão anglo-saxónica «dance music») com géneros mais tradicionais de músicas...de dança são foleiras ou inúteis: «Bajofondo Remixed», dos Bajofondo Tango Club (na foto), «Breath», de Mercan Dede, e a colectânea «Electric Gypsyland 2». Ou quando a música de dança o é, duplamente.


BAJOFONDO TANGO CLUB
«BAJOFONDO REMIXED»
Surco Records/Universal

O tango foi um dos primeiros ritmos de dança, digamos, tradicionais a ter uma grande aceitação fora do país em que nasceu, a Argentina (e do Uruguai ali ao lado), para se espalhar por todo o mundo. E, de música de paixões violentas nas ruas e prostíbulos de Buenos Aires cantada por homens do calibre de Carlos Gardel, saltou para forma de arte maior - e para salões e grandes salas de concerto - com o génio de Astor Piazzolla. Reinventando-se. É, talvez por isso, quase natural que o tango seja um dos géneros mais recorrentes nas manobras fusionistas de uma enorme geração de novos músicos, argentinos e não só, que vão ao tango e o lançam para um presente feito de electrónica e novos ritmos de dança. Gotan Project, Tango Crash, Narcotango, Tangheto e os Bajofondo Tango Club estão na linha da frente dessa renovação. E os Bajofondo um bocadinho à frente do pelotão, mercê da junção de alguns cérebros maiores da música sul-americana: o compositor, guitarrista e produtor argentino Gustavo Santaolala (ele que é um dos mais importantes produtores de rock latino e o homem da banda-sonora de «Brokeback Mountain»), o compositor, produtor e DJ uruguaio Juan Campodónico, o teclista, DJ e compositor Luciano Supervielle, o violinista Javier Casalla, o bandoneonista Martín Ferres, o contrabaixista Gabriel Casacuberta e a vocalista (e video-jockey) Verónica Loza, e, sempre, mais uma mão cheia de colaboradores (como a fabulosa cantora Adriana Varela). E, se nos dois álbuns de originais do grupo, «Bajofondo Tango Club» e «Supervielle» (este assim chamado porque teve no teclista o seu principal compositor), os Bajofondo já tinham levado o tango a viajar por muitos e excitantes novos territórios, nomeadamente o hip-hop, neste «Bajofondo Remixed» - que inclui remisturas de temas dos dois álbuns -, ainda há lugar para o rap em «Miles de Pasajeros (Omar Remix)», mas também para muitos outros géneros - electro espacial, house, dub, drum'n'bass ou um chill-out suavezinho - às mãos de remisturadores como Alexkid, Capri, Lalann, Bad Boy Orange, Mercurio, Omar, Romina Cohn, Marcello Castelli, Boris Dlugosh, Twin, Calvi & Neil, Androoval ou Nortec y Zuker. E é quase sempre muito boa de se ouvir, eventualmente de se dançar, esta re-releitura da já de si releitura do tango dos Bajofondo - a quem interessar, «bajofondo» quer dizer «underground». (7/10)


VÁRIOS
«ELECTRIC GYPSYLAND 2»
Crammed Discs/Megamúsica

Quando apareceu, há três anos, «Electric Gypsyland» foi uma muito boa surpresa. O álbum incluía temas dos Taraf de Haidouks, Koçani Orkestar e Mahala Rai Banda remisturados por DJ Shantel, Señor Coconut, Mercan Dede (de quem se falará a seguir), Arto Lindsay, DJ Dolores e Juryman, entre outros, e aquilo foi uma festa para quem gosta de dançar ao som da música cigana balcânica, aqui com um toque de modernidade, sim, mas com um respeito enorme pela música original. Em «Electric Gypsyland 2», o conceito continua - aqui os temas remisturados são também dos Taraf de Haidouks, Koçani Orkestar e Mahala Rai Banda, mais um do francês Zelwer - mas com alguns desvios surpreendentes (como a releitura dos electrofolk Tuung de «Homecoming» dos Taraf De Haidouks; a fabulosa remistura dos Animal Collective para «Oi Bori Sujie», da Koçani Orkestar; o lindíssimo trabalho do argelino Smadj sobre «Mi Bori San Korani» dos Koçani Orchestra - com a adição de oud e kanun a fazer a ponte com a música árabe -; dos neo-klezmers Oi Va Voi sobre «A Rom and A Home», dos Taraf de Haidouks; a bossa-novização dada pelos Nouvelle Vague a «Morceau d'Amour», da Mahala Rai Banda; ou a subida ao nordeste brasileiro por Cibelle em «Maxutu», da Koçani Orchestra) e alguns momentos de festa e folia completas (oiçam-se as remisturas dos Balkan Beat Box para «Red Bula» da Mahala Rai Banda; da Forty Thieves Orkestar sobre «The Man Who Drinks» da Mahala Rai Banda; a africanização dos ShrineSynchroSystem - com Tony Allen na bateria e Sekou Kouyate, dos Ba Cissoko, em kora - em «Neacsu In Africa», dos Taraf de Haidouks; o trabalho dos ucranianos Yuriy Gurzhy e Wladimir Kaminer que transformam um tema de Zelwer numa skazada klezmer-balcânica divertidíssima e com alusões aos Gogol Bordello; ou «Spoitoresa», da Mahala Rai Banda revisto por Russ & Roc). Outra surpresa do álbum é «Ismail Oro», da Koçani Orchestra, remisturado pelos ressuscitados para a ocasião 23 Skidoo (aqui chamados 43 Skidoo, isto é Sam Mills e Fritz Catlin), acompanhados pela cantora indiana Susheela Raman, mulher de Mills. Ah, e uma adição feliz: o novo «Electric Gypsyland» traz também um CD-bónus com os temas originais. (9/10)


MERCAN DEDE
«BREATH»
Doublemoon

O músico, compositor e DJ turco Mercan Dede é um dos mais notáveis fusionistas de música de tradicional com as novas linguagens electrónicas. No seu novo álbum, «Breath», Mercan Dede - que pudemos ver numa rara aparição em palcos nacionais no festival Sons do Atlântico, em Lagoa - continua a assombrar com o seu bom-gosto nas opções estéticas tomadas (nunca, mas nunca, a sua mistura de influências e sonoridades descamba para uma mistela foleira qualquer) e, nos quinze temas do álbum, há sempre lugar para uma verdade maior - a presença de belíssimas vozes femininas e masculinas, incluindo as de Aynur Dogan e Azam Ali e, pela primeira vez, a dele próprio; o recurso a instrumentos tradicionais como a ney, o saz, sanfona, kanun, violino, oud e percussões variadas, tudo tocado por gente de verdade e não samplado - e para uma utilização equilibrada de músicas tradicionais (de inspiração sufi e outras de origem turca, música árabe, música indiana e paquistanesa...) com ritmos e texturas electrónicos, quase sempre em downtempo ou midtempo ou incorporando elementos jazzísticos (como no tema-título). É mais música para ouvir, para reflectir, se se quiser para meditar - os temas de Mercan Dede têm muitas vezes um carácter quase sagrado - do que propriamente para dançar. Mas é na sua esmagadora maioria muito boa e nada impede que alguns temas sejam usados numa sessão de dança do ventre ou, ficcionando, numa reconstituição futurista de danças dervixes adaptadas d'«A Casa Dourada de Samarcanda», de Hugo Pratt. «Breath» é a terceira parte de uma tetralogia dedicada aos quatro elementos - na Turquia, «Breath» tem como título «Nefes», que significa «ar», e segue-se aos álbuns «Nar» («fogo») e «Su» («água»). (8/10)

15 setembro, 2006

Música Cigana dos Balcãs - Novos Caminhos


A Música Cigana dos países do leste europeu é um alfobre riquíssimo de ritmos, melodias, orquestras de metais em alta velocidade, alguns violinos que mais parecem metralhadoras sónicas, vozes dulcíssimas ou rudes e vindas do fundo dos tempos. E uma história, antiga, que só há poucas décadas começou a ter visibilidade fora das fronteiras (tantos anos fechadas) da Roménia, Hungria ou dos novos países que faziam parte da Jugoslávia. Nos últimos anos, esta música antiga começou a fundir-se, naturalmente, com outras músicas, exteriores, estrangeiras, modernas. Aqui deixo a crítica a três álbuns recentes de alguns dos fusionistas mais radicais que têm como raiz a música cigana do Leste: KAL, Gogol Bordello (na foto) e Shukar Collective. E isto numa altura em que também já andam por aí um álbum do grupo inglês de música de dança Basement Jaxx, «Crazy Itch Radio», que também vai lá beber inspiração e o segundo volume do álbum de remisturas «Electric Gypsyland».


KAL
«KAL»
Asphalt Tango/Megamúsica

Originários da Sérvia, os Kal são liderados pelo cantor e guitarrista cigano Dragan Ristic, cuja visão musical tanto lhe permite mergulhar na tradição genuína da música romani como experimentar outros territórios como o drum'n'bass, o jazz, ska, klezmer, música turca ou o hip-hop, todos presentes em «Kal» em doses pequenas e equilibradas, especiarias de exotismo e/ou modernidade que nunca estragam, antes sublinham, o carácter autêntico e antigo desta música. Este primeiro álbum do grupo com difusão internacional foi produzido por Mike Nielsen (Underworld, Jamiroquai, Natacha Atlas...), que soube - na mesma linha - balancear os dois lados do som Kal - a tradição e o futuro. Em «Kal» há violinos em voo picado, um acordeão que navega, por vezes, em diracção à Argentina, uma voz que tanto cavalga a tradição como se atira a estilizações de crooner ou de jazz, e vários temas fantásticos como «Boro Boro» (este com uma bonita voz feminina), o alegre e divertido instrumental «Mozzarella» ou o Piazzolla-meets-Havai-music-in-Belgrade «Gurbetski Tango». (9/10)


SHUKAR COLLECTIVE
«URBAN GYPSY»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

Menos interessante do que o álbum homónimo dos Kal, o álbum «Urban Gypsy» dos Shukar Collective perde-se demasiado na repetição da fórmula em que esta banda da Roménia embarcou há alguns anos: a interpretação de antigas canções ursari (dos ciganos que exibiam ursos amestrados nas feiras romenas, prática violenta entretanto caída em desuso mas ainda existente em alguns países, tal como o grupo refere no livreto), com uma base electrónica, jazzy e experimental. Andam por aqui ritmos house, mid-tempo e drum'n'bass, algum dub, algum industrial e temas mais ambentiais, à mistura com as canções dos ursari, cantos próximos do konnokol indiano, daraboukas e colheres percutidas. E, se o resultado disto tudo, durante as primeiras canções do álbum, impressiona pela vivacidade e até coerência interna, o agradável efeito de surpresa vai desaparecendo à medida que o álbum vai avançando para a sua conclusão e se vai notando alguma repetição de processos. Fazendo justiça aos Shukar Collective, a sua música nunca descamba para o lado azeiteiro, mas, paradoxalmente, às vezes quase que apetecia que descambasse, para nos divertirmos mais um bocadinho. (6/10)


GOGOL BORDELLO
«GYPSY PUNKS»
SideOneDummy

Diversão é coisa que não falta, bem pelo contrário, nos Gogol Bordello. Banda de ucranianos imigrados em Nova Iorque (não são balcânicos mas a música que fazem é lá que vai buscar a essência), liderada por uma espécie de Shane MacGowan tresloucado de nome Eugene Hutz, os Gogol Bordello são qualquer coisa como os Pogues em versão cigana, os Clash armados em surfistas prateados a deslizar a 300 à hora sobre o Muro de Berlim, Manu Chao a voar sobre a música de todo o antigo Bloco de Leste em vez de o fazer sobre os países da América Latina. Nos Gogol Bordello há skazadas, punkalhadas, surfbillyzadas, metaladas, espaço para o rap e para algumas frases em espanhol. Sexo, bebedeiras, revolução, a condição dos imigrantes. Palavras de ordem em inglês e ucraniano. Gritos oi em luta com violinos supersónicos, baladas assassinas sobre acordeões afogados em vodka, folias e tragédias variadas. E «Gypsy Punks» é um álbum quase sempre muito bom, apesar de se deixar ir abaixo um bocadinho nos últimos temas (à excepção do extraordinário «Underdog World Strike»). Ah, só um pormenor: a produção é de Steve Albini (pois, o produtor de álbuns dos Nirvana, Sonic Youth, etc, etc...). (7/10)

30 agosto, 2006

Tjak - Portugueses na Circum-Navegação


Uma aventura rara na música portuguesa foi encetada há alguns anos por três músicos, Gabriel Gomes, Victor Bandeira e Pedro Sotiry, reunidos no colectivo Tjak: fazer música electrónica envolvida em samples de músicas étnicas recolhidas em vários locais do globo. O resultado foi um álbum, «Viajando», e alguns concertos. Aqui fica uma entrevista e a crítica ao álbum, textos publicados originalmente no BLITZ em Novembro de 2003. É uma pena não se saber o que andam a fazer agora...


TJAK!

E, de repente, há um novo projecto nacional que cruza - com saber e respeito - as novas linguagens electrónicas com músicas e sons e ambientes vindos de África, de Bali (na Indonésia), do Tibete, da Amazónia. Na viagem embarcam Gabriel Gomes, Victor Bandeira e Pedro Sotiry. E o destino - por enquanto - é o álbum «Viajando».

Há um país imaginário, chamado Tjakistan, que é habitado por três músicos portugueses (ou então por milhões de pessoas em todo o planeta). E as fronteiras - linhas que «separam, mas também unem» - desse país começaram a ser desenhadas em 1960, quando Victor Bandeira começou a «recolher objectos de artes primitivas. Esses objectos estão todos no Museu Nacional de Etnologia. E também fiz gravações audio, filmes e fotografias para documentar as cerimónias a que esses objectos estavam associados. Esse trabalho esteve esquecido no Museu durante muitos anos, até que agora estes dois amigos [Gabriel Gomes e Pedro Sotiry] propuseram que me juntasse a eles para, a partir destes samples, fazermos música».

E a motivação primeira para a música dos Tjak «é a viagem motivada por esses sons. É essa a base de trabalho», diz Gabriel Gomes. «Algumas coisas estavam muito sujas, com muitos ruídos, e limpei-as». E Pedro Sotiry conclui: «Depois, era um jogo: o sample influenciava umas coisas e, depois, a evolução da música necessitava de outros samples de que íamos à procura. O que é curioso é que há carcterísticas comuns consoante as regiões: quase todos os samples vindos de África estão entre fá sustenido e si; os da Amazónia estão entre sol e dó. Há um ambiente harmónico comum a regiões definidas».

O território em que os Tjak se inscrevem - digamos, fusão de electrónica com world music (com as aspas todas nestas palavras todas) - não é virgem, mas também ainda não é muito explorado. «As únicas referências que nós tínhamos eram os Transglobal Underground, os Banco de Gaia... Pouco mais. As nossas grandes influências foram as nossas vivências musicais anteriores», dizem, acrescentando que «tudo isto foi um processo muito intuitivo. Há um álbum do Miles Davis, dos anos 70, o "On The Corner", em que usa sitar, tambura, tablas, mas reinventando a maneira de tocar desses instrumentos». E complementam um pouco mais da história do grupo: «Há dois anos atrás começámos a ensaiar por cima dos samples, a improvisar... Só depois arranjámos e estruturámos os temas. As nossas músicas não tinham 12 minutos; tinham 25, 30 minutos. Chegámos a fazer um espectáculo com temas muito longos. Os temas do disco são um concentrado daquilo que existia».

E que música é esta?... A resposta vem rápida e honesta: «Começámos como um projecto chill-out, mas apercebemo-nos ao longo dos espeectáculos que já não éramos chill-out, que aquilo que fazíamos provocava emoções. Pelo menos, as pessoas que estavam deitadas sentavam-se e olhavam para nós (risos)... E outras dançavam, o que não era o nosso objectivo inicial». Ao vivo, a música dos Tjak surge mais orgânica, mais viva, mais verdadeira. «Já tivemos o Pedro Wallenstein a tocar contrabaixo, um percussionista chileno, uma cantora [Carla Galvão]... Mesmo no disco, o acordeão do Gabriel [que se tornou conhecido como acordeonista dos Sétima Legião e, depois, dos Madredeus] está lá, embora embrenhado no resto da música. E tivemos o José Galissa, na kora, como um "sample vivo", e a Carla Galvão a cantar».

A questão que fica para o futuro é se os Tjak permenecerão sempre assim. Eles também não sabem. Mas têm algumas certezas: «Quando se acabarem os samples - e há ainda milhares de samples diferentes recolhidos pelo Victor -, ficará pelo menos um "país" que nós estamos a criar, o Tjakistan. Ainda não sabemos para onde vamos, mas vamos continuar a funcionar intuitivamente e sempre com a componente ao vivo como muito importante». Por outro lado, diz Gabriel, «convenci os Tjak a fazer um single, um tema de quatro minutos, ainda mais concentrado (risos). E vai haver remisturas de dança, feitas por mim. Vai ficar uma coisa mais pobre, mais minimal, mas não quero cair no foleirismo...».


TJAK
«VIAJANDO»
Tjakistan/Última

Electrónica com gravações de world music? Talvez, nem sempre, tem dias. Tem os (sempre) maus dias dos Deep Forest, mas os (quase sempre) bons dos 1 Giant Leap. Tem as remisturas feitas com estilo de temas de Nusrat Fateh Ali Khan pelos Massive Attack ou, mais recentemente, de brass-bands ciganas em «Electric Gipsyland», mas também há desastres como quando se mexe sem saber nem bom-gosto em temas dos Madredeus ou Cesária Évora. E há, em Portugal, experiências bem conseguidas como o projecto Megafone (de João Aguardela) ou os Sétima Legião do álbum «Sexto Sentido», estes dois trabalhando sobre recolhas de música tradicional portuguesa.

Agora, os Tjak - Gabriel Gomes (precisamente dos Sétima Legião - e ex-Madredeus, e d'Os Poetas e do Projecto OM..., aqui sem acordeão mas em sintetizadores e programações), Victor Bandeira (etnólogo e o «fornecedor» dos samples de músicas étnicas presentes no álbum) e Pedro Sotiry (ligado ao jazz e ao teatro, aqui em teclados e programações) - lançam «Viajando», um álbum em que a electrónica é entendida como uma base inventiva, pulsante, sempre activa, para músicas vindas da Ásia, África, América do Sul...

A música dos Tjak pode ser ouvida como chill-out - nada contra! - mas é mais, muito mais, um roteiro de viagens alternativas, onde uma trompete jazz pode coabitar com sons de pássaros e vozes vindas dos confins da China, e onde o ritmo é entendido como apenas mais um elemento dinâmico de toda a música. Os temas são muito longos, para dar espaço a todas as surpresas, as menores das quais não serão o extraordinário trabalho na kora do mestre guineense José Galissa ou a hipnose dada por um tema onde uma procissão de monges do Tibete encontra Sun Ra, uma banda funk em ácidos e o krautrock dos Can. (7/10)

16 agosto, 2006

Sons do Atlântico - CeltiMouros Aos Pulos na Lagoa


O festival Sons do Atlântico, que decorreu em Lagoa, no passado fim-de-semana, merecia - pela qualidade dos concertos apresentados e pela envolvência do local - muito mais público do que aquele que teve. O local é lindíssimo (na ermida de N.Sra. da Rocha, a cerca de 30 metros do Oceano Atlântico... e a 30 metros na horizontal - é só um «pulinho» e vamos ao banho) e o festival teve dignas actividades paralelas a juntar aos concertos: teatro de rua, uma interessante exposição de gaitas-de-foles, comidas e bebidas variadas, artesanato, cordofones populares portugueses, concertos mais pequenos no palco secundário... O problema é que o promontório da Sra. da Rocha é um istmozinho rodeado por hectares e hectares de hotéis e urbanizações de luxo que dão como resultado um público de festival maioritariamente formado por algumas centenas de turistas bifes de meia-idade que não estão para se levantar das cadeiras e dançar as violentas muiñeiras de Mercedes Peón (na foto), o elegante sufi-house de Mercan Dede ou o zydeco rude de Lisa Haley. Mas que ele e elas mereciam que isso tivesse acontecido, lá isso mereciam...

Na primeira noite, a mais radical renovadora da música galega, Mercedes Peón, deu um excelente concerto em que à música de raiz (galega mas também com mergulhos na música medieval, no flamenco e na música árabe) juntou, quase sempre, uma boa dose de rock, de funk, por vezes de metal. E isto percebe-se bem: o vozeirão de Mercedes, a sua gaita com pedaleira de efeitos vários, a sua técnica de percussão bruta das pandeiretas ou de um estranho instrumento terrivelmente eficaz em termos rítmicos (uma chapa de metal percutida por uma pedra) não se compadeceriam, jamais, com um envolvimento acústico e domesticado. O concerto - maioritariamente dedicado ao seu novo álbum (com destaque para temas como o notável «Neniñué», o delicadíssimo, quase canção de embalar, «Ese Es Ti», e o violentíssimo «Ajrú») - terminou, em encore, com uma versão selvagem do mais antigo «Isué», e com, por fim, algumas dezenas de pessoas a dançar.

Na segunda noite, o turco Mercan Dede (ele que trata das electrónicas, samples, flauta, percussões) deu um espectáculo fantástico onde a sua música - sempre com uma raiz turca, sufi, árabe e, a espaços, indiana e andaluza (uma trompete puxou um dos temas claramente para o flamenco) - namora abertamente com a house, o ambient, o drum'n'bass ou o tecno. E aquilo resulta quase sempre magnificamente bem, embora de vez em quando se sinta alguma facilidade nos arranjos (eu e o Luís, do Crónicas da Terra murmurámos por vezes a palavra «azeite» seguida da frase «...mas este é do bom»). Destaques, ao longo do concerto, para alguns solos cristalinos de quanun (uma espécie de saltério), para um percussionista que faz maravilhas com a darabuka e, obviamente, para uma extraordinária bailarina que, por duas vezes, hipnotizou o público com as danças circulares dos dervixes (a dança sagrada dos sufis, reservada aos homens), em transe absoluto.

Na última noite, a norte-americana Lisa Haley foi ao fundo dos pântanos povoados de crocodilos e cobras d'água da Louisiana para trazer consigo o húmus do zydeco e do cajun: parte rock'n'roll, parte blues, parte jazz, parte música francesa (principalmente no acordeão-gingão), parte folk irlandesa. E tudo lá em cima, com uma energia e uma alegria inacreditáveis. Lisa é um mulherão de voz rouca, bagaceira, e violino (mais, muito mais rabeca) roufenho e incendiário, acompanhada por uns compinchas armados de guitarras Gibson e baixos Fender e também com ar de bons-viventes. Zydeco e cajun a rodos, mais dança do que nas outras noites, apelos à paz no mundo e pelas vítimas do Katrina, algumas piadas de teor alcoólico e uma versão divertidíssima de «When The Saints Go Marchin'In» encerraram, bem, esta edição do Sons do Atlântico.

No palco principal do festival também actuaram, todas as noites, grupos portugueses: os Mu com as suas danças tradicionais europeias, alguns temas novos que não estão no álbum «Mundanças» e muita alegria; a Orquestrinha do Terror com o seu interessante jazz, por vezes etno-jazz, por vezes mais free-jazz, por vezes num interessante exercício de jazz aplicado a imagens em movimento (foram três as curtas-metragens que acompanharam neste concerto); e as Moçoilas, grupo algarvio à capella que teve um concerto em crescendo na última noite, com temas do reportório tradicional algarvio e alentejano mas também de outros lugares, de José Afonso, do GAC, das próprias Moçoilas e de Amélia Muge (um delicioso rap)... e com muitos apartes divertidos nos entretantos.

09 agosto, 2006

(Outro) Cacharolete de Discos



E mais uma recuperação de algumas críticas de discos: uma colectânea dos Dropkick Murphys (a que interessa mais porque a primeira da série - «Singles Collection Volume 1» - é de temas mais facilmente encontráveis em álbum do que estes), DJ Dolores (na foto), Daby Balde e uma compilação de música balcânica.


DROPKICK MURPHYS
«SINGLES COLLECTION VOLUME 2 - 1998-2004»
Hellcat Records/Edel

O canal por cabo Mezzo apresentou a semana passada um excelente documentário sobre a música de intervenção irlandesa - que tem as suas raízes nas canções que surgiram durante a Grande Fome do séc. XIX e, mais recentemente, no reforço da ocupação militar inglesa no final dos anos 60 do séc.XX. São canções ancoradas na tradição irlandesa e com uma forte carga lírica anti-Inglaterra, pró-independência da Irlanda e de apoio à resistência e, muitas vezes, ao IRA (um dos hinos apresentados é de Bobby Sands). O documentário passa depois para o lado de lá do Atlântico, onde a comunidade imigrante de origem irlandesa nos Estados Unidos representa 40 milhões de pessoas, grande parte dela ainda com um enorme grau de ligação à terra-mãe (as paradas do dia de S.Patrício com cartazes que dizem «England out of Ireland»; um casal de rappers que misturam hip-hop com música irlandesa...).

Não sei se o documentário falava dos Dropkick Murphys (não o vi todo), mas se não falava, devia fazê-lo. Originários de Boston, estes americanos quase todos de origem irlandesa misturam muitas vezes a fúria do punk (nas vertentes oi e hardcore) com gaitas-de-foles, tin whistles, bandolins e letras de luta e contestação, mantendo a alma verde sobre um corpo de betão - e onde a influência dos Pogues (Shane MacGowan chegou a colaborar com eles) é evidente. Em «Singles Collection Volume 2 - 1998-2004», a banda dá-nos lados-B, versões e mais um conjunto de raridades (de singles, splits, colectâneas...), óptimo para juntar aos álbuns que já temos. Ouvir, por exemplo, «It's a Long Way To The Top (If you wanna rock'n'roll)», dos AC/DC, com uma gaita-de-foles a serpentear lá pelo meio é uma delícia. Mas há mais: vários originais e versões dos Creedence Clearwater Revival, The Misfits, Danzig ou Motorhead. Bem bom. (7/10)

DJ DOLORES
«APARELHAGEM»
Ziriguiboom/Crammed/Megamúsica

Teoria: E se todas as músicas fossem apenas uma e tivessem todas uma mesma raiz, perdida algures perto do Lago Vitória, no momento em que Lucy, a Australopithecus Afarensis, se encontrou com o Ardipithecus Ramidus e trocaram canções guturais, alguns ritmos percutidos num tronco e dançaram os dois?... E se as fronteiras de géneros e estilos não tivessem importância nenhuma mas tivessem todos a mesma importância relativa entre si? E se, coisa rara, muitas e desvairadas e diferentes músicas - às dezenas, sem vergonha e sem preconceitos -, se encontrassem num único disco?

Prática: «Aparelhagem», o novo projecto do brasileiro DJ Dolores e designação que também dá título ao novo álbum, sucedendo à Orquestra Santa Massa, mostra o DJ e compositor novamente à frente de uma aventura global que - com coerência, elevadíssimo bom-gosto e muito saber (e aqui está a grande mais-valia de DJ Dolores em comparação com muitos outros) -, funde músicas tradicionais e/ou populares brasileiras (frevo, baião, forró, maracatú, ciranda, emboladas, música brega, bossa-nova, tropicalismo, samba...) com formas exteriores: jazz, funk, drum'n'bass, rock, hip-hop, surf music, dub, reggae, electrónica noisy e experimental e até a música klezmer (Frank London, o extraordinário trompetista dos Klezmatics, participa nalguns temas). E é sempre, sempre, uma música para dançar até cair, sem pudores nem papas na língua - a mensagem política está lá, quando se quiser escutá-la -, através das palavras cantadas por Isaar, a vocalista da «Aparelhagem», ou ditas por Dolores nalguns interlúdios. (9/10)

VÁRIOS
«BALKAN GYPSIES - THE ROUGH GUIDE»
World Music Network/Megamúsica

A música cigana dos países do Leste da Europa foi, durante séculos, um segredo bem guardado (por contingências históricas, geográficas, políticas...). Mas nos últimos 20 anos a sua música está, cada vez mais, em todo o mundo: nas lojas de discos, em festivais, em filmes, na cabeça de muita gente. «The Rough Guide To The Music of Balkan Gypsies» é mais uma boa amostra que pode abrir as portas desta música riquíssima a quem não a conhece: da festa e alegria dos metais da Mahala Rai Banda, Boban Markovic Orkestar e Fanfare Ciocarlia às vozes cruzadas com violinos e acordeões dos Taraf de Haidouks, do diálogo de voz com o clarinete de Ivo Papapsov e o saxofone de Yuri Yunakov ao jazz-klezmer de Nikolae Simion, da espantosa voz da diva Esma Redzepova a extensões «óbvias» à Grécia, Albânia e Turquia. (7/10)

DABY BALDE
«INTRODUCING...»
World Music Network/Megamúsica

Cantor e guitarrista senegalês mistura koras com violino e acordeão. E dá-se bem.

Originário de Casamance, região do sul do Senegal paredes-meias com a Guiné-Bissau, a Guiné e a Gâmbia, o cantor e guitarrista Daby Balde apresenta-se internacionalmente com este álbum, «Introducing... Daby Balde», um disco aberto, alegre, vivo, em que Balde faz conviver koras e percussões com a sua voz e guitarra, coros femininos e alguns instrumentos menos habituais na música africana como o violino ou o acordeão. Instrumentos que aqui dão uma riqueza e variedade de timbres fundamental para a luminosidade desta música cantada por Daby em fula, mandinga, wolof e francês. O segundo tema, «Heli», tem um início igual ao do «Fadinho Simples» (António Chaínho e Marta Dias). Há, lá pelo meio, um blues-flamenco fabuloso, «Waino Blues». E há, sempre, música muito boa. (8/10)