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05 janeiro, 2007

José Castro - O Mistério do Homem-Árvore


Um dos projectos mais fascinantes da música portuguesa dos últimos anos - projecto que, infelizmente, passou despercebido a quase toda a gente - tem como protagonista o cantor, músico e compositor José Castro (na foto, de André Szankowski). Aqui recupero uma entrevista com ele, publicada originalmente no BLITZ em Fevereiro de 2005, a propósito do seu único álbum até à data, «Tree of Life».


JOSÉ CASTRO

«Tree of Life» é um álbum estranho que tanto inclui pop electrónica como temas épicos à Peter Gabriel, guitarra portuguesa e acordeão, música brasileira, cabo-verdiana e, eventualmente, mensagens ecologistas. Estranho mesmo, mas um pouco menos quando se ouvem as explicações de José Castro.

Numa das canções de «Tree of Life», «Melting Man», José Castro canta sobre um «homem que derrete antes de ficar árvore», conceito que é desenvolvido visualmente nas fotografias do disco. E é essa «fusão» que assombra todo o álbum: homem/natureza, magia/realidade, músicas de agora/sonoridades ancestrais. «Tree of Life» é um disco conceitual - o primeiro de uma trilogia -, onde poderiam constar os nomes de Peter Gabriel, Brian Eno e David Byrne. Mas não; consta lá o de José Castro, cantor e compositor português que reconhece a sua admiração por esses nomes, «pelo rock progressivo, pela música ambiental» e por músicas étnicas.

Mas as suas raízes, curiosamente, estão em áreas bastante distantes: «na adolescência fiz parte de bandas de hardcore e de death-metal, sempre a tocar bateria. Depois passei para a guitarra. E foi há quatro, cinco anos, que comecei a desenvolver este projecto a solo». Um projecto cujo conceito foi sendo desenvolvido ao longo dos anos e que teve como molas fundamentais alguns momentos da vida de José Castro: «Fiz um filme, na sequência de um curso de vídeo, chamado "A Porta do Bosque", baseado em textos de Jorge Guimarães. Era um diálogo de uma árvore com o Homem e as suas diferenças. E, depois, em Londres, fui jardineiro de profissão». Essa ligação temática da sua obra às árvores pode fazer pensar em ideais ecologistas mas José Castro diz que «isto não é uma coisa ecológica, embora tenha essa vertente. A ideia é o Homem "estar parado" - como as árvores - mas nem é tanto parar para pensar, é mais parar para sentir». Musicalmente, José Castro diz que «tudo pode entrar na minha música, desde que faça sentido e seja verdadeiro. A música começa com uma raiz e desenvolve-se a partir daí. No tema "Mocambo", que tem a ver com a Madragoa, faz sentido que haja ali uma guitarra portuguesa».

No álbum, José Castro toca muitos instrumentos (de guitarra a percussões passando por tubos PVC, banjo indiano, bandolim, baixo, flautas...) e participam - entre outros - o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião/Madredeus/Tjak...) e Bernardo Couto em guitarra portuguesa. Ao vivo, José Castro é acompanhado por uma banda de amigos - «com os quais aprendo imenso; eles são todos melhores músicos do que eu» - formada por Bernardo Barata (guitarra), com quem José Castro já tinha tocado «nas tais bandas de hardcore», músicos dos TV Rural e dos Oioai e «uma pianista de formação clássica nos teclados», Joana Vaz. As sementes estão lançadas.

28 novembro, 2006

Blasted Mechanism - A Saga Continua...


De dois em dois anos, no início do ano. É este o relógio biológico, místico, criativo dos Blasted Mechanism. Sim, vem aí um novo álbum, previsto para os primeiros meses de 2007, do colectivo de Karkov, Ary, Valdjiu, Sync, Zymon e Winga. Enquanto o disco não chega, aqui ficam duas entrevistas com a banda a propósito dos seus dois últimos álbuns, «Namaste» e «Avatara», originalmente publicadas no BLITZ em Fevereiro de 2003 e Março de 2005, respectivamente.


BLASTED MECHANISM
O DIVINO QUE VIVE EM NÓS

Quem são os 22 bebés-diamantes que irão conduzir a Terra a um futuro melhor e mais brilhante? Quem são os músicos africanos que iluminam alguns temas do novo álbum, «Namaste», dos Blasted Mechanism? E o que é que os Blasted têm a ver com a cultura rave? Porque é que parece haver algo de muito importante a acontecer num armazém de uma aldeia chamada Abóboda? E o que é que Bilal e Giger têm a ver com isto tudo?... As respostas seguem já a seguir, nesta entrevista em que respondem Karkov, Valdjiu e Ary e que tem como mote «Namaste» e tudo à sua volta (do Divino ao mais humano).

O que é que significa «Namaste» (NR: leia-se «Namastê»)? Tem alguma coisa a ver com a palavra em sânscrito que significa «o Divino que vive em ti»?

É isso mesmo. E é uma saudação. Para nós, é uma saudação à Humanidade, como se nós nos curvássemos perante a Divindade dos seres humanos. Em 1986 os Blasted criaram um conceito, uma história ficcional, que tem tido desenvolvimentos. Houve uma raça de seres de outro planeta que aportou à Terra. Houve o desenvolver de seres vindos de um ambiente aquático e que povoaram a Terra. Agora, há seres que estão espalhados pelo planeta e que ninguém sabe quem são - os bebés-diamantes - que poderão levar o planeta a uma nova dimensão. Os bebés-diamantes, que têm sido estudados pela cultura nepalesa, são mentes altamente predispostas para fazer a mudança da Humanidade, uma mudança de modo de vida, de mentalidades, de conceitos. Na nossa ficção, os Blasted anunciam a chegada, preparam o terreno, dessas crianças-diamantes... E esta ficção poderá passar para uma narrativa, em banda-desenhada, proximamente.

O novo álbum começa a ter características mais electrónicas a partir do tema 6, até parecendo um velho LP com dois lados. Esse «lado B» - que é mais «Mechanism» apesar de continuar a ser «Blasted» - parece ser a continuação lógica do álbum de remisturas «Mix00» e até de alguns concertos vossos mais recentes. O álbum de remisturas fez mesmo os Blasted repensarem a sua música?

Essa parte dos dois lados está correcta: gostávamos que as pessoas tenham tempo para entrar no ambiente do disco, para fazer uma viagem que tenha um princípio, um meio e um fim coerentes. O álbum de remisturas foi importante porque nos deu a oportunidade de exprimirmos aquilo que queríamos fazer em estúdio, experimentando. As remisturas foram muito feitas por nós próprios, em estúdio, com uma forma diferente da produção clássica; e com algumas pessoas exteriores a ajudar.

Mas os vossos concertos mudaram a partir daí...

O «Mix00» foi um disco de transição porque, finalmente, conseguimos misturar ambientes musicais que já queríamos recriar há muito tempo e que não conseguiam saltar só com o baixo, a bateria, a guitarra, a voz... Mas, mesmo antes de termos feito as remisturas, nós já ouvíamos aqueles ambientes atrás das músicas. Depois, em cima do palco, com a energia rock inerente à banda, conseguimos transformar esses temas em grandes paredes, grandes massas, de som.

Vocês nunca foram apenas um grupo rock - desde o início que há outras músicas na vossa música. Mas em «Namaste» ainda está mais presente o recurso a músicas de diversas proveniências (África ou Índia, por exemplo, mas também a electrónica, o funk, o dub, o ragga...). Os Blasted estão, definitivamente, cada vez mais fartos do rock?

Os Blasted nunca foram rock. Nós acabamos por nos servir do formato rock para dispararmos para todo o lado. Nós temos uma formação rock mas extravasamos para outros lados. O que se mantém rock, neste momento, é mais a energia dos espectáculos ao vivo. E nesse caldeirão rock nós damos um espelho do que é o mundo - mas longe da world music -, do que são outras músicas.

Essa vossa aproximação a sonoridades vindas de várias partes do mundo parte de que tipo de necessidade? Uma necessidade estética - no sentido de precisarem de diversificar a vossa música - ou uma necessidade que tem a ver com a vontade de comunicar algo de diferente: uma mensagem de abertura ou uma postura política e de intervenção?

Tem a ver com a nossa vontade de transmitirmos um conceito, de chegarmos a mais pessoas, de irmos à procura de outras sonoridades. Nós não somos uma banda de intervenção social ou política - se bem que, se tivéssemos gravado o álbum agora e devido à conjuntura mundial, talvez tivéssemos ido mais por aí -, mas temos as nossas convicções e temos temas em que mostramos as nossas ideias. O tema «I Believe» (NR: em que Karkov canta: «I believe in the power of people», etc.) é um manifesto de quem tem necessidade de uma mudança. Aqui, o cantor é um pregador que faz um alerta ao acordar das consciências.

E pode dizer-se que os Blasted, acima de tudo, pretendem fazer uma música tribal, xamânica, de festa e comunhão?

Sim. Nós criamos um cerimonial, uma celebração de festa, de comunhão; que obedece à conjugação de forças que nós extravasamos para a nossa ficção (NR: ver resposta à primeira pergunta). Principalmente ao vivo, pretendemos fazer uma celebração - e desde sempre que se celebram as divindades através da música e da dança - e descobrir a Divindade que existe em nós e em quem assiste aos nossos espectáculos. Às vezes, costumamos fantasiar acerca dessa celebração e imaginamos que as pessoas que estão à nossa frente começam a dançar e a formar padrões de dança, como se fossem espirais ou fractais, surgindo um cone de energia enorme que nos envolve e suga a todos - Comunicação!!!... O público dos Blasted procura mais a felicidade e a harmonia do que algo obscuro e pouco perceptível. E isso vem um bocado da cultura rave e das novas drogas, como o ecstasy. É xamânico, é um cerimonial... Mas nos nossos concertos também há momentos menos agradáveis, que pretendem consciencializar as pessoas de que nem tudo é tão bom assim. Nós encontramo-nos, também, no público. O nosso concerto no último Sudoeste foi de um carinho absoluto: nós gostamos muito de vocês e vocês gostam muito de nós. Houve ali um brilho incrível.

Onde é que foram descobrir os músicos africanos que cantam e tocam em «Taman Taman» e «Bolivian Feel» e, já agora, podem falar também um pouco das outras pessoas que também participam no disco?

Nesses temas quem participa são o Mestre José Brahima Galissa (voz e kora) e o Mestre Kabun (percussões), que vêm do Ballet Nacional da Guiné... O Galissa é musicólogo, é um mestre da cultura mandinga. Neste momento, estão cá músicos e bailarinos fabulosos - mais de trinta - que pertenceram ao Ballet Nacional da Guiné e que agora estão em Portugal a trabalhar nas obras. Estes dois músicos que participaram no nosso disco são músicos excepcionais, pessoas que têm uma maneira muito especial de estar na vida. Temos um grupo de músicos que, aqui, vai às Índias e à música klezmer que é a Bigodes Band, um trio de bombardino, acordeão e clarinete-baixo, em que participa o Luís Bastos, que já tinha colaborado no «Plasma». Aliás, é curioso que antigos membros dos Blasted lançaram também as suas sementes: o Miguel Cardona foi formar os Coldfinger; o Alex partiu para os Terrakota... Tivemos o Virgul, dos Da Weasel, num toast; o Salvatori, no didgeridoo. E tivemos quatro bateristas: o João Lencaster, que foi dos Blasted e que depois partiu mundo fora, e que é um fabuloso baterista, mais jazz e drum'n'bass; o Pantera, dos Montecara, mais dub e reggae; o Pedro Leal, que colabora com o Carlos Zíngaro, e aqui tocou guitarra e um kit de bateria bastante estranho; e o Fred Stone, que nos acompanha ao vivo. Nós tínhamos que diversificar as nuances rítmicas e foi necessário trabalhar com pessoas diferentes. Depois, o trio de produção Toolateman (Valdjiu, Ary e Dominique Borde; com Karkov a fazer o trabalho de «rato de biblioteca» e as letras) tratou isto tudo. Estivemos um ano em estúdio a trabalhar com todas as pessoas e a tratar estas nuances todas. Isto, em termos financeiros, não tem preço.

Já parecem os Pink Floyd, vocês...

Só não estamos é num barco no meio do Tamisa (risos).

E como é que vão ser os novos concertos?

Nós passámos uma fase, os últimos três anos, em que praticamente só trabalhámos nós os três e estivemos sem banda, praticamente sempre a ensaiar e a gravar em estúdio. Agora, o Luís Simões (dos Saturnia) começou a tocar ao vivo connosco, em guitarra eléctrica e sitar eléctrica... Ele fez uma remistura para o «Mix00» e vai também entrar para o núcleo de composição de um próximo disco; e temos desde há algum tempo um baterista brasileiro, o Fred Stone. Nenhum dos temas do novo álbum foi antes tocado ao vivo e estamos a ensaiar intensivamente para passarmos as canções para o formato ao vivo.

Vocês pensam integrar-se, falando de uma forma simplista, nalgum tipo de movimento ou consideram-se um absoluto OVNi no panorama musical?

Os Blasted estão a tentar potenciar o talento de outros artistas, tanto em termos de estúdio como de sala de ensaios (NR: os Blasted transformaram um armazém, na Abóboda, perto de S.Domingos de Rana, em estúdio, sala de ensaios e escritório da sua editora, a Toolateman). Nós, por exemplo, fazemos o «Salvem a Música Portuguesa» à nossa maneira: temos uma editora, a Toolateman, para a qual já gravaram ou vão gravar o Mercado Negro (NR: projecto de Messias, dos Kussondulola), o José Brahima Galissa (NR: guineense, cantor e tocador de kora, que participa em «Namaste»), os Montecara (NR: reggae), os Cartel 70 (NR: ragga/drum'n'bass), os Ylang Top (NR: projecto paralelo de Valdjiu) e, possivelmente, um duo romeno de acordeão e violino. Queremos que as coisas funcionem de igual para igual entre a editora e os músicos. Procuramos novos talentos, pessoas que poderão também vir ou não colaborar com os Blasted; criar, talvez, um pequeno movimento... (NR: para além de alguns destes nomes, pela sala de ensaios passam também, sem ligação à editora, os Toranja ou os Dazkarieh). E a primeira edição da Toolateman é este novo álbum dos Blasted - neste caso muito bem casada com a Metrodiscos e com a EMI, que distribui e promove o disco.

Há alguma possibilidade de o vosso disco ter distribuição internacional?

Temos uma empresa inglesa que está a trabalhar connosco activamente, a Other Kind, que nos levou ao Atlantic Waves. Estivemos na Holanda, no festival Eurosonic, em Londres. E há possibilidades - já com contactos feitos - de o nosso álbum ser editado nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Austrália.

Vai haver remisturas de temas do vosso novo álbum?

Vai. Mas neste caso gostávamos de enviar os temas a remisturadores de top: os Thievery Corporation, os Groove Armada, o Lee Perry, o Mad Professor, os Air, os Daft Punk, os Gotan Project, os Sofa Surfers... Se for feito, será um projecto completamente externo a nós. E é uma tentativa de criar uma rede maior, conhecer novas pessoas, abrir novas portas...

Os Blasted sempre se preocuparam com uma série de coisas paralelas à música: a imagem, as luzes, os fatos e por aí fora. Desta vez, os novos fatos parecem saídos do imaginário de HR Giger...

E do Bilal, também. E do George Lucas (NR: leia-se «Guerra das Estrelas»). Nós partilhamos muitos interesses e muita informação entre nós. E é natural que as influências externas de vários tipos de arte possam estar adjacentes ao projecto. Mas isto só existe porque temos uma grande equipa a trabalhar connosco: o Cristóvão Veríssimo, que faz as luzes e que, como trabalhou em teatro, partilha connosco esse lado mais cénico; o Nuno Elias e o Frederico Gouveia, que fizeram e desenharam os fatos e as máscaras; o Dominique Borde - engenheiro-de-som que é nosso sócio na Toolateman e traz um background muito grande de França, tendo trabalhado com o Sakamoto, o Peter Gabriel, o Eric Serra, fez som para o Luc Besson; o Paulo Prazeres, que é o realizador do teledisco, «Are You Ready»; a Desorgan, que está a fazer o nosso site (NR: já acessível em www.blastedmechanism.clix.pt); o Tó Trips (NR: dos Lulu Blind e artista gráfico), que fez a capa e os anúncios; e os outros todos.


BLASTED MECHANISM
AGARRA O RAGGA, GARRA NAS RAGAS

Depois de «Namaste» (ou, em sânscrito, «o Divino que vive em ti»), os Blasted Mechanism dão-nos mais um capítulo da saga que começaram a escrever há alguns anos: «Avatara» (ou, em sânscrito, «o Descendente de Deus incarnado»). Se calhar, não é mesmo por acaso que que o novo álbum da banda está cheio de sitars, unindo raggas jamaicanos às ragas indianas.

Os álbuns conceituais estão fora de moda - é coisa dos anos 60 e 70, pensa-se, dos Beatles de «Sgt. Pepper's...» e das sagas do Rick Wakeman... -, mas, então, se isso é verdade, porque é que há uma banda portuguesa - os Blasted Mechanism - que, desde os primeiros discos, desenvolve sempre o mesmo conceito, disco após disco, espectáculo após espectáculo, como se toda a sua carreira fosse um livro - religioso? místico? new-age? de ficção científica? - e cada etapa mais um capítulo de uma história que parece interminável? E porque é que há cada vez mais tantas músicas na música dos Blasted, do reggae ao rock progressivo, das ragas indianas às novas electrónicas, de percussões africanas ao hip-hop?

Valdjiu e Ary - os dois Blasted que falam nesta entrevista - começam por explicar o que liga, tematicamente, o novo álbum, «Avatara», ao anterior, «Namaste» e em que fase da «grande narrativa» Blasted é que estamos agora. Diz Valdjiu: «"Avatara" é um conceito que transporta, em si, o espírito daquilo que os Blasted sentem em relação à vida e à música. "Avatara" está presente em muitas culturas ancestrais e actuais, inclusive na portuguesa. Significa "Aquele que vem"...». Tem, portanto, algo de messiânico e de sebastiânico, até... «Sim, é o "Encoberto" e é alguém que vem transmitir uma nova consciência cósmica. Chegámos ao "Avatara" através de uma filosofia chamada Eubiose...». Na ficção dos Blasted, «Avatara» surge na sequência lógica da «fase da recolha e da tutoria dos bébés-diamantes (presente em "Namaste"), que vieram para sincronizar o Homem com o mecanismo cósmico». E acrescenta Ary: «Traduzido à letra, "Avatara", é um Messias, mas para nós é mais a ideia da concretização de uma "conspiração", aqui no bom sentido, que tem como objectivo, através do "Avatara", termos todos a consciência global de que temos que mudar a maneira como encaramos o tempo, o calendário, e como mecanizamos a nossa vida ao ponto de perdermos quase completamente o nosso lado espiritual».

Digo-lhes que há poucos dias tinha entrevistado outro artista português, José Castro - a propósito do álbum «Tree of Life» - e que ele tem algumas ideias paralelas aos Blasted: «o Homem precisa de parar para sentir; como as árvores». Os Blasted não conhecem José Castro, mas revêem-se na ideia: «É isso mesmo. A ideia é parar o tempo. A forma de estar mais harmoniosa está presente nas árvores, que comunicam inclusive entre elas... São pontos fixos, de uma grande longevidade, que largam sementes para se espalhar no vento... No "Avatara", agora falando mais da (nossa) ficção, se viemos tutorizar e preparar as crianças-diamante, há que preparar agora o cenário para o "alinhamento": a compreensão de que o tempo tem que deixar de existir. Enquanto o Homem estiver ligado ao calendário pobre que é o gregoriano, há-de estar sempre ligado à robotização, a um mecanismo dependente de terceiros, nunca dele próprio. Como dizia o Agostinho da Silva, o importante não é ter, é ser». E acrescentam que «ser um artista, um músico, é um privilégio que nos permite pensar mais no ser do que no ter. Estamos um pouco à parte, em contra-corrente, a puxar as coisas para o outro lado... E também vemos o resultado disso no público. Há fãs nossos que mudaram de vida, que nos dão conta de que, a partir do concertro X - e apanhando coisas do ar, "I believe", "are you ready?", "children of the re-evolution" - foram investigar o calendário maia, apanharam a onda "namaste", e mudaram a sua forma de viver».

Os Blasted vêem-se, então, como gurus de alguma coisa?... «Não somos nós, porque estas ideias já vêm de trás. A religião que se pratica agora é a religião do consumo, do ter. É curioso porque fomos filmar o nosso teledisco a Marrocos e não fomos lá porque é "giro", mas porque, apesar de tudo, o Islamismo é uma religião que é mais espiritual do que algumas das outras. Eles param cinco vezes ao dia (para rezar). E parar é reflectir, é repor os nossos níveis de bem-estar. Lá, em alguns sítios, eles têm a consciência de "Avatara", de não olhar para o relógio, nem para o ontem nem para o amanhã. O problema da Europa é que não está em 2005, já está em 2006: o espírito das pessoas está num amanhã constante, num objectivo... um crédito no banco, ter mais e mais...». E fala-se de Enki Bilal: «O Bilal (célebre autor de BD) tem um filme, "O Imortal", em que ele vê as pessoas, no futuro, não com um nome e uma nacionalidade mas como números de grandes corporações globais. Imaginemos: o meu bilhete de identidade não é português, é da Sonae...».

Essa transmissão da «mensagem», que já afectou alguns dos fãs dos Blasted, é uma das razões para o grupo ter adoptado, no novo álbum, quase por completo a língua inglesa, em detrimento do dialecto «karkoviano»: «Foi uma necessidade que o Karkov (vocalista e letrista) teve para fazer passar uma mensagem concreta. Essa preocupação já existiu no "Namaste" e é agora ainda mais premente. Assim fica mais fácil a compreensão deste imaginário Blasted. Mas não estamos presos a isso. Se calhar o próximo álbum é todo em karkoviano. Somos "deuses" do nosso próprio universo, por isso podemos criá-lo à nossa medida. E isto só há-de acabar, se calhar, um dia, quando já não tivermos mais nada para dizer. Com um final feliz (risos)».

E enquanto esse final não se vislumbra no horizonte (digamos, temporal), há outras coisas a saber sobre os Blasted. Por exemplo, que «Avatara» é o primeiro álbum do grupo a ter lançamento mundial através da editora alemã A-Label e que, através de um agente europeu, «o novo álbum foi já apresentado em duas cidades da Suiça e duas da Alemanha. Eram públicos que nunca tinham visto Blasted e no início dos espectáculos ficaram um bocado a olhar, mas depois deixaram-se levar. E, digamos assim, aquele gajo que estava lá à frente a tirar-nos a onda toda rapidamente se tornou um aliado de festa. Em Munique foi uma grande festa mesmo». E, dizem, é bom que o «Avatara» possa chegar a muito mais pessoas. Mais a mais porque «finalmente, os Blasted são outra vez uma banda», com a entrada de Luís Simões (dos Saturnia e com o pseudónimo Zymon nos Blasted Mechanism) na sitar e na guitarra eléctrica, ainda na digressão de «Namaste» e entrando para o núcleo de compositores de «Avatara» - «o Luís é uma pessoa única, completamente fora, e é super-perserverante no seu trabalho de músico. E é um grande conhecedor de muita música que os Blasted não conheciam, inclusive de música portuguesa que nós não conhecíamos -- os anos 60, 70, rock progressivo, psicadélico...»; o percussionista Nuno Patrício (Dumdumba, Dazkarieh, Uxu Kalhus...; aka Winga), «pela necessidade de voltar ao tribalismo das peles, ao ritmo, a África... e ele toca imensos instrumentos diferentes, das steel-drums a uma trompa tibetana de seis metros de comprimento»; e o baterista Fred Stone (Sync), que já acompanha a banda há alguns anos.

Os Blasted como «banda» - e também por serem uma «banda» - são, neste álbum, mais orgânicos de que em discos anteriores e - apesar de imensas ramificações musicais presentes no disco - parece, muitas vezes, um encontro de raggas jamaicanos com ragas indianas. «Há um calor vindo de África e das suas ramificações em músicas jamaicanas, americanas, com a sensualidade oriental que não vem só da sitar, vem também das melodias e das harmonias. Há aqui uma mescla de coisas que, no fundo, sempre foram influências dos Blasted e que, agora, ao vivo, têm muito mais potencial. Há muito mais actividade física, ao vivo, paralelamente a cenários e projecções de imagens em que exploramos o nosso universo (conceito presente nos concertos da digressão de apresentação do álbum)».

Em «Avatara» estão presentes vários convidados, entre os quais a cantora Maria João: «ela canta num dialecto africano, mas não a convidámos só por causa dessa ligação a África, foi mais pela liberdade como ela encara a música, pelo experimentalismo, pela improvisação. Ela improvisou, nós não, e isso abre portas que nós nunca abriríamos. Ela é fantástica... é um sintetizador humano, faz sons inimagináveis com a voz». E outros: «o clarinetista Luigi Lust (Luís Bastos), que já colabora connosco há alguns anos - foi ele o grande responsável pela nossa entrada no klezmer...», outro colaborador habitual, Salvatori Tiliba (aka Henrique Figueira; coros; responsável pelo projecto de imagem ao vivo), e duas contribuições de fora da «família»: o grupo hip-hop Dealema «numa música que tinha uma cadência old-school, e os Dealema foram muito rápidos e profissionais, escrevendo uma coisa muito gira - uma espécie de um tributo - e é um choque ouvir o disco, chegar ali e ouvir uns gajos em português»; e o DJ NelAssassin, que «é um mágico dos pratos».

Ainda antes do álbum saiu o DVD dos Blasted, «um documento para os fãs, os coleccionadores. Tem muitos espectáculos, principalmente de 2000 a 2003, tem telediscos, imagens de bastidores... Tem N coisas que, de outra maneira, os fãs teriam que ir roubar a cassetes VHS. Deu uma grande trabalheira mas também deu muito prazer». E, para o futuro próximo, a estrutura editorial dos Blasted, a Toolateman, prevê a edição de álbuns dos Cartel 70 (ragga/drum'n'bass/hip-hop) e do DJ Dimitrivzki (o alter-ego dos Blasted para remisturas), e o apoio editorial a dois projectos guineenses, Tama La e Bela Nafa, e a um outro, euro-africano, Kandoo (projecto paralelo de Valdjiu).

17 novembro, 2006

Katia Guerreiro e Mafalda Arnauth - O Mar...


Mafalda Arnauth (na foto em cima) e Katia Guerreiro (na foto em baixo) são duas das fadistas da, digamos, nova geração que melhor têm sabido gerir uma carreira que começou, nas duas (e em quase todas as outras fadistas da, digamos outra vez, nova geração), sob o signo de Amália Rodrigues mas que, gradualmente, estão a dar provas convincentes de que podem e sabem libertar-se desse «espectro» e também abraçar novos géneros, abordar instrumentações alternativas, cantar outros poetas e dar novas roupagens ao fado. Em Novembro do ano passado saíram os últimos álbuns das duas cantoras, altura em que esta entrevista com Katia Guerreiro foi publicada no BLITZ, assim como uma crítica conjunta aos álbuns da duas: «Tudo ou Nada», de Katia Guerreiro, e «Diário», de Mafalda Arnauth. Ambos com o mar, aqui tão perto, como mote e inspiração.


KATIA GUERREIRO
AO SERVIÇO DA POESIA

Depois de «Fado Maior» e «Nas Mãos do Fado», Katia Guerreiro dá-nos agora o seu álbum mais pessoal, «Tudo ou Nada». Aqui, o leque de poetas que canta é alargado e a fadista co-compõe algumas canções (apesar de não pretender ser compositora). Katia, na primeira pessoa.


No seu site oficial aparece logo a abrir uma frase que diz «fado puro e simples». Acha que essas duas palavras são as melhores para definir o seu trabalho? E isso tem alguma coisa a ver com o facto de, por exemplo, não usar os chamados «floreados» na voz?

E também porque sou uma pessoa simples, já não tão pura quanto gostava porque a vida obriga-nos a perder alguma dessa pureza. Mas a minha simplicidade acaba por se reflectir na minha interpretação e naquilo que canto. E tenho como bandeira a minha simplicidade interpretativa, não fazer floreados nem andar à procura de coisas para impressionar. O que pode impressionar é a palavra, e a palavra tem que ser dita de forma simples e sentida.

Como se fosse mais uma intérprete – das palavras dos outros – do que uma cantora?

Sim, sem dúvida. Estou ao serviço da palavra... e da música.

É por isso que, depois no primeiro álbum, ter interpretado essencialmente fados clássicos, no segundo ter ido à procura de alguns poetas, nomeadamente António Lobo Antunes e, no novo, interpretar Lobo Antunes, Sophia de Mello Breyner, Maria Luísa Baptista...

São poetas que me fazem sentir coisas, que me fazem sentir, muito intimamente, coisas que são normais cada um de nós sentirmos, mas que só eles sabem dizer. E a minha interpretação vai ao encontro das suas palavras. Com verdade, tristeza, alegria, cor, saudade, amor, paixão... Canto tudo isso, que é o que nós somos. Os poetas que eu canto são também os poetas que leio, que leio muito. Este álbum é dedicado a Sophia de Mello Breyner. Ela é uma poetisa que me revela em palavras aquilo que sou capaz de sentir, de ser. Tenho uma enorme saudade do ar que ela nos fazia respirar. Era uma mulher muito especial... Com o Lobo Antunes há uma empatia enorme entre nós. Gosto imenso do António: é um homem de uma sensibiliudade imensa que se revela, essencialmente, nestes poemas. Não tanto nos seus romances. A poesia é um acto de confissão: a si próprio [ao poeta] e ao mundo, num momento de grande intimidade. Quando canto, com público à minha frente, também estou a revelar-me ao mundo. Sou a portadora de todas estas palavras...

Podemos falar de alguns «objectos estranhos» do seu álbum? Por exemplo, há um tema com piano, tocado pelo Bernardo Sassetti...

A ideia inicial era convidar o Bernardo para compor e tocar no disco. Mas ele andava muito ocupado com o seu próprio álbum e não teve tempo para compor. Mas veio tocar neste tema, «Minha Senhora das Dores», que é um momento de grande intimismo, de grande privacidade, e uma guitarra, uma viola e um contrabaixo seriam excessivos. Este tema é um canto à minha mãe, pedindo-lhe desculpa e mostrando a minha gratidão. O Bernardo gravou comigo e nem ensaiámos, quase que saiu à primeira. Segui a minha intuição de que iria resultar e resultou.

Canta também um tema inédito de Dulce Pontes, «Dulce Caravela». É uma homenagem mútua, uma troca de flores entre colegas?

É muito uma troca de flores entre colegas. E que acontece porque entendo o que ela faz. Como ela se entrega daquela forma quando canta, toca, compõe. No meu álbum anterior, «Nas Mãos do Fado», eu interpretava um tema dela, «O Que For Há-de Ser», e esse foi o meu primeiro contacto com a Dulce. Houve uma empatia imediata e agora quis muito ter um tema dela porque ela tem uma forma de compor muito própria. Ela compôs este tema para mim e deu-me toda a liberdade interpretativa. Durante muito tempo o tema chamou-se «Dulce», mas acabei por lhe chamar «Dulce Caravela», que faz todo o sentido e é uma homenagem que eu lhe presto.

Se calhar o mais estranho de todos: também canta um tema de música ligeira, a «Menina do Alto da Serra». Acha que conseguiu transformá-lo num fado ou ele já tinha, à partida, algo de fadista?

Uma vez, num programa de televisão, o maestro Victorino d’Almeida disse que «tudo pode ser fado, mas o fado não pode ser tudo». E ele demonstrou, na prática, que uma melodia de fado tocada com uma intenção clássica será sempre um fado, mas qualquer peça clássica pode ser tocada como fado e passar a ser um fado. E tocou uma peça de Mozart ou de Bach de uma forma fadista, e passou a ser um fado. E tocou uma melodia de um fado, dando-lhe uma faceta clássica, que continuou a ser um fado. Quando eu canto a «Menina do Alto da Serra», sentindo-a como um fado, passou a ser um fado.

Também canta um tema do Vinicius de Moraes, «Saudades do Brasil em Portugal», que ele compôs para a Amália. É um poema extraordinário, quase pessoano...

E também é um fado. Ouvi-o cantado pela Amália e toda ela era fado. Ela transformava tudo em fado. Depois ouvi-o cantado por um brasileiro, o Zé Renato, acompanhado por guitarra portuguesa, e não deixou de ser fado. E ouvi a interpretação do próprio Vinicius. Mas quando o interpreto, a minha referência é a interpretação da Amália.

Neste novo álbum, a Katia tem dois ou três temas co-compostos por si e pelos seus músicos. A composição é, cada vez mais, um caminho necessário para si?

Não, não. De todo. Isto aconteceu espontaneamente. Não tenho qualquer pretensão de ser compositora. Nunca aconteceu e, desta vez, só acontece porque os músicos já tinham arrancado com uma melodia e, depois, a minha interpretação leva para uns caminhos ligeiramente diferentes. Não tenho nenhuma pretensão de assinar coisas – no álbum anterior tinha um poema meu e neste não aparece nenhum. E o meu nome só está na capa porque sou eu que canto. Aliás, é uma injustiça que o nome dos meus músicos – cuja presença é de tal forma forte e que são muito importantes nisto tudo – não apareça também na capa. Às vezes receio que surja um anúncio que diz «Banda de Katia Guerreiro procura vocalista» (risos)... Nós somos um bloco unido, e eles têm a liberdade de criar e de puxar por mim.

A Katia é médica de profissão. É, agora, ao fim de cinco ou seis anos de carreira musical, mais uma médica que canta fado ou uma fadista que, por acaso, tem a medicina como profissão?

Sou uma médica que se cruzou com o fado e se apaixonou pelo fado. E tenho feito um tremendo esforço para manter estas duas grandes paixões na minha vida. Têm sido cinco anos de grande luta interior, e finalmente estou a colher os frutos de todos os sacrifícios que tenho feito. Cada vez mais, as pessoas acreditam que vou continuar a ser médica e vou continuar a ser fadista. Não me vejo sem a medicina nem sem o fado. A medicina é a minha ligação àquilo que a vida é na realidade.


OS DISCOS...




KATIA GUERREIRO
«TUDO OU NADA»
Som Livre
(7/10)







MAFALDA ARNAUTH
«DIÁRIO»
Universal Music Portugal
(7/10)




Há um desejo de cosmopolitismo cada vez maior nos fadistas portugueses. E isso é bom. Descoberta, talvez, de que o fado é uma «música do mundo» (semi-piada), de que o fado pode ter muitas outras músicas a conviver consigo, ou por afinidades estilísticas ou sentimentais ou de gosto pessoal – e nós sabemos lá de onde veio o fado ou de onde vieram os fados (do norte de África?, do Brasil?, da zona mandinga da África Ocidental?, de outras zonas da Europa?, etc, etc...) -, podendo imaginar-se que o fado influenciou, ou foi influenciado – num jogo de espelhos com espelhos com espelhos... -, o tango, a milonga, o flamenco, a música árabe, a morna, o choro, a música napolitana.

Ou então, os fadistas de agora só redescobriram o que Amália fez com canções de variadíssimas proveniências – italianas, espanholas, francesas... – transformando-as em fado, fado mesmo, ou o que Carlos Paredes fez com o «Summertime», de Gershwin, subvertendo-o genialmente na «Canção Verdes Anos», ou aquilo que Carlos do Carmo pensava fazer no projecto que nunca se concretizou «Um Homem no Mundo» (e no qual repegou, em parte, no recente «Nove Fados e Uma Canção de Amor» (álbum de 2002 onde há um fado africano, «Fado Mulato», e um fado-tango, «Dois Portos»). Juntemos a isto as ousadias de Paulo Bragança em «Amai» (das quais a versão de «Sorrow’s Child», de Nick Cave, não será a menor), a intencionalidade de Rão Kyao no seu cruzamento do fado e da música do norte de África, as aventuras de Mísia, Anamar ou Cristina Branco nas fugas, deliberadas, em direcção – não todas mas cada uma por si - a tangos, boleros, mornas, rumbas e milongas, ou a canções em francês e inglês (principalmente nos últimos álbuns destas três cantoras, respectivamente, «Drama Box», «Transfado» e «Ulisses»). Como se houvesse uma certeza absoluta: que o fado não nos pertence só a nós e que nós não pertencemos só ao fado.

«Tudo ou Nada», novo álbum de Katia Guerreiro, e «Diário», novo álbum de Mafalda Arnauth, são dois discos também com um pé bem assente no fado – no caso de Katia como receptáculo e intérprete fiel das palavras e da música dos outros, no caso de Mafalda como autora de muitas das letras e compositora de muitas das músicas - e com o outro a tactear caminhos, novos em ambos os casos, em busca de cosmopolitismo. Há muito fado – se quisermos, há sempre fado – em ambos os discos. E é sempre bom. Mas também há uma busca de outras vias, digamos trans-musicais, digamos marítimas. Mafalda canta Vinicius de Moraes («O que Tinha Que Ser...», com um saxofone stangetziano), Katia também («Saudades do Brasil em Portugal», que o brasileiro compôs para Amália). Mafalda canta uma milonga («Milonga do Chiado»), «La Bohéme» de Charles Aznavour, o espantoso «Rasgo de Luz», do basco Fran Lasuen (que foi dos Oskorri) e, no final, os seus músicos tocam Paredes e Gardel e Bach e Armandinho. Katia canta acompanhada ao piano (pelos dedos mágicos do pianista de jazz Bernardo Sassetti) «Minha Senhora das Dores». E oiça-se como Katia Guerreiro canta «Dulce Caravela», inédito de Dulce Pontes, ou como Mafalda Arnauth canta «Por Onde Me Levar o Vento», e saberemos também que o fado vai, um dia, voltar ao mar, «para enfim seguir viagem».

11 novembro, 2006

José Mário Branco - As Cantigas São Muitas Armas


Se há alguns, poucos, génios na música portuguesa, José Mário Branco é um deles. Pelos poemas que canta, pela música que faz e sempre fez, pela intenção com que escreve e canta e faz música, pela coragem de nunca, jamais, ter tido medo de dizer e fazer e cantar o que muito bem entende. Aqui recupero duas entrevistas com José Mário Branco publicadas originalmente no BLITZ, uma feita para a secção «52 Personalidades da Música Portuguesa» (de Dezembro de 2004), outra a propósito do seu último álbum, «Resistir É Vencer» (de Maio do mesmo ano). A foto que acompanha este post é de Lia Costa Carvalho - cujo excelente blog pode ser visitado aqui e a quem agradeço a sua cedência.

52 PERSONALIDADES
JOSÉ MÁRIO BRANCO

José Mário Monteiro Guedes Branco nasce a 25 de Maio de 1942 no Porto. A sua relação mais activa com a música começa em meados dos anos 60, em Paris, cidade onde se exilou para fugir à guerra colonial. Elege os álbuns «Fura Fura», de José Afonso, e «Crónicas da Terra Ardente», de Fausto, como marcos incontornáveis das últimas duas décadas (e meia, já que o álbum de José Afonso é anterior a 1984). E o filme «O Padrinho», de Francis Ford Coppola, o livro «Narciso e Goldmundo», de Herman Hesse, e a pintura de Edward Hopper como obras marcantes para a sua vida.

Ao contrário do que costuma ser normal nestas entrevistas, a conversa com José Mário Branco começa de olhos postos no futuro. Neste momento, José Mário Branco está empenhado na organização de uma audiência, dia 20 de Março, em Lisboa, do Tribunal Mundial sobre o Iraque, um tribunal de opinião que - na linha do Tribunal Russell, reunido em Estocolmo em 1967 a propósito da Guerra do Vietname - se propõe julgar os crimes de guerra dos governos americano, inglês (e, neste caso, português) no Iraque, para além de também apontar o dedo a empresas e à comunicação social, que, segundo José Mário Branco, tem «envolvido a guerra no Iraque numa teia de mentiras». E em dois concertos de apoio ao Tribunal - Concerto à Memória de Cem Mil Mortos -, no início de Março, em Lisboa e Porto, para os quais estão confirmados, para já, Sérgio Godinho, Fausto, Pedro Abrunhosa e Camané.

E isto é importante, porque a vida artística de José Mário Branco nunca esteve desligada do seu lado interventivo, político, actuante. «É uma coisa de geração. A resistência dos povos da União Soviética ao nazismo alemão provocou na Europa uma viragem à esquerda. E há toda uma linha de gente da cultura e das artes que se manifestou das mais variadas formas e que nos formou, à minha geração, em que não se pode separar a questão estética da questão ética: um artista é uma pessoa que cria a partir de um determinado conceito estético mas a que está indissoluvelmente ligado também um conceito ético». Atrevo-me a perguntar-lhe se alguma vez faz música apenas para o seu umbigo, por prazer, sem pensar na sua «função». E ele responde: «Esse sentido da função social do artista não é de forma nenhuma incompatível com o grande prazer, nem sequer com a liberdade, de criar. Não funciona como condicionamento da criação artística; funciona como a atmosfera em que ela nasce e cresce. Não existe qualquer contradição entre esses dois termos».

José Mário Branco começa por escrever canções em francês, mas em 1969 começa a compor em português. Nesse mesmo ano edita «Seis Cantigas de Amigo», um EP com poemas de autores medievais portugueses musicados por ele. O EP foi lançado pela editora de Michel Giacometti, Arquivos Sonoros Portugueses. Um ano depois sai o single «Ronda do Soldadinho», em edição de autor e com o disco a ser financiado pelo sistema de pré-venda. Por essa altura, José Mário Branco e Sérgio Godinho - com quem colaborou assiduamente nesses primeiros anos de carreira dos dois - tocavam muitas vezes ao vivo para as comunidades de emigrantes e exilados portugueses e para os públicos autóctones em França, Alemanha, Suiça, Reino Unido e os países do Benelux e da Escandinávia. «Éramos pessoas formadas para resistir contra o fascismo em Portugal e contra a guerra colonial. Eu, o Sérgio, o Tino Flores, o Luís Cília, que vivíamos no estrangeiro, ou cantores que viviam em Portugal e que iam lá fora, como o Zeca Afonso, o Fanhais, o Vitorino... E só em França havia 800 mil portugueses, dos quais dez por cento eram desertores à tropa e à guerra».

Em 1971, a Sassetti edita o primeiro álbum de José Mário Branco, «Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades», que ficaria como um marco importantíssimo da música portuguesa. A propósito do lançamento deste LP, José Mário conta que foi também por causa dele que passou a existir censura prévia aos discos. Antes, os censores deixavam sair os discos e depois retiravam-nos do mercado ou, na rádio, mutilavam-nos, riscando no vinil as faixas que consideravam subversivas ou destruindo completamente os discos: «A Sassetti lançou o meu primeiro álbum e o primeiro EP de Sérgio Godinho, "Romance de Um Dia na Estrada", numa sessão com público no antigo Cinema Roma (agora Fórum Lisboa), com comentários canção a canção do José Duarte e uma entrevista que o Adelino Gomes nos foi fazer a Paris. E tudo isto foi transmitido em directo pela rádio. A Censura foi apanhada de surpresa e foi por causa disso que começou a haver censura prévia aos conteúdos, em que as editoras discográficas enviavam os poemas das canções a editar». Só depois os censores davam ou não o seu aval à publicação das canções. Ainda antes da revolução de 1974, José Mário faz arranjos e/ou produz discos de José Afonso («Cantigas do Maio» e «Venham Mais Cinco») e de José Jorge Letria, e edita o seu segundo LP («Margem de Certa Maneira», 1972).

Imediatamente a seguir à revolução regressa a Portugal, onde funda no dia 1 de Maio de 1974 o GAC - Grupo de Acção Cultural «Vozes na Luta», com quem protagoniza um espantoso trabalho de reformulação da música tradicional portuguesa - embora a maioria dos temas fossem originais de José Mário (e depois também de João Lóio), a base musical estava muito próxima da música tradicional enquanto os poemas eram retratos interventivos da situação política e social no nosso país. No GAC, José Mário colabora em dois álbuns, «A Cantiga é Uma Arma» (1975) e «Pois Canté!!» (1976). «Empenhei-me politicamente [o GAC estava ligado à UDP] e artisticamente nesse grupo de agit-prop que, numa primeira fase, foi um aglomerado de individualidades mas que depois se tornou num coisa mais colectiva e participativa com a entrada de dezenas de pessoas mais jovens que vieram do Coro da Juventude Musical Portuguesa. O GAC chegou a ter mais de 60 elementos. Encarou a música em estreita relação com a nossa música tradicional rural e com as lutas sociais que estavam a acontecer».

Depois da sua experiência no GAC, José Mário regressa a uma paixão antiga, que já lhe vinha dos tempos em que fazia teatro em Paris: entra para a Comuna, onde faz canções para a peça «A Mãe», de Brecht (que daria origem ao disco homónimo). Mas ao fim de algum tempo, sai da Comuna juntamente com Manuela de Freitas (sua mulher), com quem fundaria o Teatro do Mundo, grupo que existiria durante oito anos, apesar de nunca ter tido uma «sala própria». E no final dos anos 70 faz música para filmes («Confederação», «O Ladrão do Pão», «Gente do Norte»). E é com o Teatro do Mundo que produz, no Teatro Aberto, os espectáculos que dariam origem ao álbum «Ser Solidário» e ao máxi-single «FMI» (ambos editados em 1982). E apesar do álbum ser espantoso (incluindo um inesperado êxito de rádio, «Qual é a Tua, ó Meu?», e as primeiras incursões de José Mário pelo fado), é «FMI» que fica na memória da maioria das pessoas, principalmente de quem teve a sorte de assisitir à sua apresentação ao vivo nesses espectáculos. «O "FMI" é muito mais teatro do que outra coisa qualquer. É um monólogo cadenciado, ritmado... Há quem diga que foi o primeiro rap português. Vem na tradição do teatro alemão, de Bertolt Brecht e Helene Weigel. Não fazia o "FMI" todas as noites. Só fazia quando estava naquele estado e quando o próprio público também estava naquele estado». E apesar da sua relação com o teatro já vir detrás, José Mário reconhece que é por essa altura que começa a incluir uma maior carga de «interpretação» nos seus concertos, «essa visão do teatro como acto de presença, de verdade, de despojamento face ao público, que não tem nada a ver com exibicionismo; é o reverso do exibicionismo».

Em 1984, ano de nascimento do BLITZ, José Mário estava a trabalhar activamente na UPAV, União Portuguesa de Artistas de Variedades, cooperativa a que também pertenciam artistas tão variados quanto Rodrigo, Duo Ouro Negro, Carlos do Carmo, Alexandra, Paulo de Carvalho, Amélia Muge ou Maria Guinot. E «foi um acto de resistência frentista, amplo e recuado de um grupo de artistas em defesa da indústria da música portuguesa e numa época em que a quota de mercado da música portuguesa baixa de 65 por cento para 8 por cento. E que também tem a ver com uma época horrível, os anos 80 - com o Reagan, a Thatcher, o Cavaco, o neo-liberalismo, o pós-modernismo... essa "noite" de que falo no meu disco "A Noite" (1985)». A UPAV edita, até ao seu final, em princípio dos anos 90, muitos discos destes e de outros artistas, incluindo dois de José Mário («A Noite» e «Correspondências», este de 1991).

Na última década e meia, José Mário editou o álbum «Ao Vivo» em 1997, o «best of» «Canções Escolhidas» (1999) e, já este ano, o disco de originais «Resistir É Vencer» - fortemente marcado e influenciado, diz, pela sua viagem a Timor-Leste. Fez música para cinema e para teatro (alguns dos temas do novo álbum foram «repescados» da banda-sonora da peça «Gulliver»), produziu discos de vários artistas (Camané, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Canto Nono), esteve durante três anos envolvido no projecto «Maio Maduro Maio», em que, juntamente com Amélia Muge e João Afonso, homenageava José Afonso. Mas há uma outra razão para ter editado tão pouco em nome próprio: «O facto de ter feito poucos discos próprios nos últimos anos tem a ver com um aspecto que está presente na minha obra desde o princípio, que é uma profunda ligação da questão do som com a questão do teatro, isto é, da presença. Ao gravar estamos a mediatizar e ao mediatizar estamos a criar uma barreira entre a nossa emoção e a eventual emoção do público. E tento sempre que, nos discos, soe "ao vivo"».

No futuro próximo, e para além da sua actividade política, José Mário vai apresentar recitais a solo em que inclui temas do novo álbum (excepto os que exigem a presença de coros e de grandes massas orquestrais) e está a preparar um espectáculo especial em que apresentará temas instrumentais e canções que compôs para cinema (desde os temas dos filmes dos anos 70 até temas para filmes mais recentes como «Agosto», de Jorge Silva Melo, ou «O Rio do Ouro», de Paulo Rocha).


JOSÉ MÁRIO BRANCO
UM AMOR GIGANTE

O que ele andou para aqui chegar... 13 anos depois de «Correspondências» chega uma nova carta há muito aguardada. O envelope é vermelho e o selo ainda está colado à esquerda. Parece coisa do passado, mas não é. Porque «resistir» é já «vencer» e ainda há um amor gigante na sua vida: a música (e todas as palavras que ele quer lá dentro).

A primeira pergunta é inevitável: porquê uma espera tão grande por um novo álbum de originais [o novo «Resistir É Vencer»] de José Mário Branco?...

Nunca estive parado. Estou sempre a fazer coisas de que gosto imenso e que não se traduzem necessariamente em discos: música para teatro, música para cinema; canções feitas para outros cantarem, para além de produções e direcções de álbuns de artistas com que me identifico e me apaixonam mesmo. E isso alia-se a outro factor e que tem sido uma constante ao longo destes 30 anos: os discos, quando saem, têm que ser frutos amadurecidos que têm o seu tempo de gestação próprio. Não são discos de canções, apesar de terem canções: são discos que obedecem a um conceito-base, como um romance com vários capítulos...

No novo disco ouvem-se muitas canções recuperadas de peças de teatro - como «Gulliver» (oito) e «A Morte do Palhaço» (uma). Como é que estas e as outras canções, mais recentes, «encaixaram» nesse conceito que procurava?

Quando faço um disco quero saber em que estado é que eu estou: como é que me sinto, como é que está o mundo, como é que estão as pessoas, a vida. Tenho sempre uma «pastinha» de canções para fazer e uma auto-encomenda de temas que têm que ver com a actualidade: tenho que fazer uma canção sobre «isto». Um exemplo disso, no novo álbum, é a «Canção dos Despedidos», que foi provocada por notícias de telejornais: ver aquelas mulheres do norte, de 50 e tal anos, despedidas das fábricas de têxteis e calçado, a perguntar «e agora o que é que faço?». E isto porque uns senhores quaisquer que ninguém sabe quem são decidiram que, se mudassem a fábrica para Marrocos, poupavam cinco tostões. E isto porque a função social das empresas foi deitada ao lixo...

Essa letra poderia fazer parte do reportório de uma banda punk... e lembrou-me as manifestações anti-globalização um pouco por todo o mundo...

Essas manifestações anti-globalização, em Seattle, em Génova (...), são espontâneas, desorganizadas, e assistiu-se a algum desvario... e depois pagam, como se diz, os justos pelos pecadores, porque estavam lá centenas de milhar de pessoas a manifestar-se pacificamente. E isso exprime uma revolta, e chamo-lhe revolta porque é um sentimento de indignação perante uma situação sem, forçosamente, ter uma solução. E não perdem legitimidade por isso. Essa canção pode, efectivamente, lembrar determinadas formas de protesto - prefiro a palavra «protesto» à palavra «intervenção», no sentido da «canção de protesto» dos anos 60, com o Bob Dylan, o Woody Guthrie, o Pete Seeger...

O álbum chama-se «Resistir É Vencer», uma frase inspirada na resistência timorense. Como é que se consegue, ainda, resistir noutros lados? Em Portugal? Na Europa? No Mundo?

É preciso ver que esse lema não significa «se tu resistires tu vais vencer» mas sim «resistir é já uma vitória». E resistir a quê? Resistir ao inimigo, aos imensos «muros de Berlim» que ainda aí continuam, aos obstáculos que nos aparecem no caminho, mas também resistir aos muros e obstáculos que estão dentro de nós. É uma referência à nossa luta contra os nossos próprios limites. E isso é muito palpável em qualquer criação artística, nomeadamente na música: o compositor é aquele que ouve a música antes dos outros; é a luta contra o silêncio, é organizar os sons desorganizados que estão dentro da nossa cabeça e depois transmiti-los aos outros. Porque é que ainda canto estas canções?... Vivo bem, tenho uma boa casa, tenho um carro à porta, o frigorífico cheio de comida, de que é que me queixo?... Queixo-me porque percebi que ser de esquerda é não conseguir viver bem com a dor dos outros. É não conseguir ser feliz. Porque acordo, olho para o espelho e o que vejo é uma pessoa dorida com a dor...

É como que uma passagem definitiva do «ser solitário» para o «ser solidário» de que falava no seu disco de início dos anos 80...

Sim, a minha zanga com o mundo é agora muito mais concreta, mais palpável: as notícias dos despedimentos, as notícias das guerras...

Na sua canção «Poder» tem um pequeniníssimo momento em que a banda toca o hino dos Estados Unidos. Aquilo não está ali por acaso...

É claro que não. A letra dessa canção é sarcástica, caricatural, fala do Poder e de um «herói», mas de um herói arquetípico, de pessoas que assim se exibem no nosso mundo, sejam o George W. Bush ou o Bin Laden, que está do outro lado ou do mesmo lado, sejam os heróis fabricados de Hollywood ou o Nun'Álvares Pereira... Mas essa canção fala do Poder também por causa das desilusões que nós tivemos sempre que a Esquerda chegou ao Poder, da perversão da Esquerda quando Poder. Eu que venho de uma juventude iluminada por valores de solidariedade, amor, generosidade, radicalidade - que foram ensinados na origem pela história de Cristo, mais do que por Marx -, e essa radicalidade confronta-se com uma questão: como é que coisas tão belas na sua origem dão origem às maiores perversões? Como é que foi possível uma coisa tão espantosa como a revolução soviética transformar-se, em cinco anos, num pesadelo? Ou como é que a igreja católica dá origem à Inquisição?...

Na canção «Onofre» defende, digamos assim, que uma das formas de resistência que nós ainda possuímos é desligar o botão da televisão (pôr o «on» em «off», trocadilho de «Onofre»). Mas já referiu, nesta conversa, que escreveu a «Canção dos Despedidos» depois de ter visto uma notícia na televisão...

Essa canção exprime aquilo a que chamaria a «tentação esquizóide». Entender a resistência como um fechamento pessoal sobre si próprio, zangar-me com o mundo e, então, correr a cortina e isolar-me do mundo. O isolamento da vida real, que às vezes é tão feia e tão agressiva - e a mediocridade é a coisa mais agressiva que existe. É um isolamento de ouriço-cacheiro, de deixar os picos de fora para evitar mais agressões... E chama a atenção para a responsabilidade dos meios de comunicação, sobretudo das televisões, que são os mais poderosos de todos e têm um poder que não é democrático. É o segundo maior poder do mundo, depois do militar, porque condiciona as consciências. E está entregue a mãos privadas... Na sua origem não está nenhum voto expresso, democrático, das pessoas. Não temos possibilidade de escolha... Mas essa canção diz: «lembra-te que não és obrigado a comer merda se a puserem à tua frente».

A inclusão da canção «Onofre» evitou, de alguma maneira, a inclusão neste álbum da canção «Menina dos Meus Olhos», que também fala da televisão?

A «Menina dos Meus Olhos» é mais demonstrativa, mais explicativa, mais sarcástica. A «Onofre» é mais zangada, mais directa... É curioso que a música do «Onofre» é das mais antigas que eu fiz, ainda em França, há 30 anos, e fui recuperá-la agora, com outra letra.

Quem são os anões de que fala a canção «O Papão do Anão»?

Atenção que os anões da canção não são pessoas baixas mas sim «anões da alma». E de uma coisa que já se viu muito em Portugal, nomeadamente durante o cavaquismo, que é: progredir, vencer por cima dos cadáveres dos outros. E daquela tendência que há nas pessoas pequenas de alma que é: já que não conseguimos ser grandes, então vamos ser todos pequenos, vamos ser todos anões.

Neste álbum colaboraram outros dois nomes maiores da música portuguesa: Fausto e Sérgio Godinho. Revê-se nessa «irmandade»?... E em que pé é que está a ideia de fazer um espectáculo conjunto dos três?

Para já é só ainda um projecto. Cada um de nós tem a sua carreira, os seus espectáculos, os seus compromissos... Mas é daquelas coisas que, como se costuma dizer, não gostaria de morrer sem que esse espectáculo conjunto acontecesse. Mas um espectáculo em que fizéssemos músicas originais, não seria um espectáculo do género: «olha ali aqueles três velhinhos a olhar para o passado». Mas há uma questão óbvia de geração e de referência: de uma ou de outra forma somos os três originários da mesma semente que foi o Zeca Afonso... «Pão-Pão» é uma canção bastante à maneira do Sérgio e, no caso do Fausto, é ainda mais evidente: fiz aquela canção a pensar no Fausto, aquela falsa chula, aquele balanço, o estilo... e convidei-o a vir cantar uma parte da letra.

A faixa escondida do álbum - um pequeno poema de Sophia de Mello Breyner Andresen - faz-me pensar, talvez pela maneira como o diz, num mini-mini-mini-«FMI»...

Sim, porque os grandes poetas têm essa capacidade de em poucas palavras dizer tudo. E esse poema da Sophia, que é o primeiro poema do seu primeiro livro, consegue sintetizar uma vida em cinco linhas... Sou muito marcado pelos grandes poetas portugueses, tenho uma relação quotidiana com a Sophia, o Antero de Quental, o Ruy Belo, o Fernando Pessoa, o Camões... E não só portugueses.

Mais do que com os músicos ou compositores?... Neste álbum tem uma canção, «Amor Gigante», em que cita compositores clássicos como Shostakovitch, Prokofiev, Debussy e Ravel. E a música erudita também está muito presente no resto do álbum...

Essa canção foi feita para o «Gulliver», e entra numa parte da peça em que o Gulliver, depois de ter deixado o país dos anões, chega ao país dos gigantes e é ele o anão. Ele apaixona-se por uma menina gigante e há um desfasamento físico entre eles que torna impossível aquele amor. E é como eu me sinto em relação à música: eu sou pequenino e a música é gigante. É por isso que aparecem, na canção, citações desses compositores, de peças para quartetos de cordas, exactamente para ilustrar como sou pequenino junto desses gigantes. Dentro da música erudita, as composições para quartetos de cordas são as minhas preferidas, porque geralmente são as mais perfeitas, mais buriladas... Para a gravação deste álbum, tive a sorte de ter um sobrinho [Luís Morais] a estudar violino em Viena, e foi com um quarteto de cordas de que ele faz parte que gravei parte do álbum.

Nos últimos anos trabalhou (compôs, gravou ou produziu) com Camané, Amélia Muge, Gaiteiros de Lisboa, Canto Nono... Até, recentemente, colaborou com um grupo punk, os Peste & Sida, numa versão de «Década de Salomé», de José Afonso... Há ideias para o que vem a seguir ou vai concentrar-se apenas na transposição para concerto deste novo álbum?

Sim, e todos esses trabalhos me deram muito prazer. Os Peste & Sida, por exemplo, convidaram-me para pôr voz e eu fui lá ao estúdio, com o maior prazer. E o Canto Nono tem feito um trabalho espantoso - e ganhou agora um prémio [o prémio da Contemporary A Capella Society] nos Estados Unidos, em que competiram com grupos profissionais americanos, ingleses, alemães... Também colaborei na gravação de um disco de um coro infantil do Porto, disciplinadíssimo, afinadíssimo, Os Gambozinos, que entram agora no meu disco e nos meus concertos... Mas não, neste momento não tenho projectos paralelos: agora [passados os espectáculos especiais em Lisboa e no Porto] vou trabalhar na transposição para um grupo pequeno das canções deste disco e, depois, nesse espectáculo conjunto com o Sérgio Godinho e o Fausto.

08 novembro, 2006

Ronda dos Quatro Caminhos - Por (Várias) Terras do Cante


Seguramente um dos melhores álbuns dos últimos anos da música tradicional portuguesa, «Terra de Abrigo» foi o motivo para esta entrevista com a Ronda dos Quatro Caminhos, originalmente publicada no BLITZ em Julho de 2003. A imagem que ilustra este texto é de José Miguel Oliveira («descoberta» no blog da Ronda dos Quatro Caminhos, aqui).


RONDA DOS QUATRO CAMINHOS

A comemorar 20 anos de carreira, a Ronda dos Quatro Caminhos lançou agora o seu melhor álbum até à data, «Terra de Abrigo» - um disco em que se cruzam coros alentejanos com uma orquestra, o cante com o fado, o flamenco e a música árabe. A entrevista com Carlos Barata.

Obra de grande fôlego, «Terra de Abrigo» começa por atrair pela estranheza -- um disco de cante alentejano com orquestra?... Pensa-se em Chieftains com orquestra, em Milladoiro com orquestra, pensa-se até em Lopes-Graça e em Manuel de Falla. Depois, vai-se ouvir e aquilo resulta bem, com uma dignidade e uma qualidade inesperada. Carlos Barata - orquestrador, regente de coros, acordeonista, adufeiro... - explica a génese do processo: «A ideia é antiga. A Ronda sempre trabalhou muito com violino e, num disco ao vivo, gravámos com três violinos. Depois fizemos um espectáculo em Évora com um coro alentejano e a orquestra do Conservatório de Évora. Aquilo soou muitíssimo bem e abalançámo-nos a embarcar na aventura que foi este disco».

Em «Terra de Abrigo» convivem vários coros alentejanos - uns mais urbanos, outros mais rurais, uns mais jovens, outros com pessoas mais velhas... - com uma orquestra (ou melhor, a secção de cordas da Orquestra Sinfónica de Córdova, Espanha). E a ideia-base, musical e estética, foi «valorizar o cante alentejano com outras frequências - geralmente mais graves -, sem tocar na sua simplicidade e na sua riqueza. E foi difícil conseguir esse equilíbrio».

Outro dos vectores fundamentais deste álbum é a tentativa de criação de um universo comum ao sul de Portugal, de Espanha e do norte de África. Mas, segundo Barata, este não é um disco de tese, sendo a junção desses elementos um acaso feliz: «Não há aqui teoria nenhuma - o álbum não tem um conceito original, elaborado, apesar de haver um mote geral: a bacia mediterrânica. Ao longo da gravação do disco tivemos alguns encontros felizes, como por exemplo, o guitarrista de flamenco José António Rodriguez, e esses músicos acabaram por gravar connosco». Outros convidados em «Terra de Abrigo» são a fadista Katia Guerreiro - «que cantou um tema alentejano como se fosse um fado» -, Pedro Caldeira Cabral - «que tocou a viola campaniça, alentejana, como se fosse um alaúde árabe» -, a marroquina Amina Aloui e a cantora de flamenco Esperanza Fernandez.

A Ronda tem agora 20 anos de carreira - sempre com António Prata ao leme (Carlos Barata está na Ronda há pouco menos de 10 anos...) - e este disco é o ponto alto das «comemorações» da efeméride, «uma aventura, uma "maluqueira" em que nós nos metemos; pelas difculdades de produção do álbum; pela reunião de muita gente à volta deste disco; e até por questões técnicas - por exemplo, alguns locais em que nós gravámos alguns dos coros». Mas seguem-se mais algumas «maluqueiras»: estão já previstos concertos com vários dos convidados e com a Orquestra daqui por alguns meses. E, com a fasquia colocada tão alto, Barata ainda não sabe o que vai ser o próximo álbum da Ronda: «Já tenho algumas ideias. E o António Prata também já tem algumas. Mas até podemos voltar a fazer um álbum menos complexo, com música tradicional portuguesa de várias proveniências». Para descansar um pouco.

03 novembro, 2006

Paulo Bragança - As Agruras do Fado Mudado


Não sei por onde anda e bem que gostava de saber (e, por onde quer que ande, que Deus o proteja e o abençoe sempre). A última vez que estive com ele foi para esta entrevista (publicada originalmente no BLITZ em Dezembro de 2001), a propósito do álbum «Lua Semi-Nua» (onde tinha a colaboração de José Cid, João Aguardela, Amadeu Magalhães e Pedro Caldeira Cabral), álbum que passou praticamente despercebido a toda a gente mas que merecia ser tão conhecido quanto «Amai», o outro álbum de ruptura, reavaliação e revolução do fado assinado por Paulo Bragança.


PAULO BRAGANÇA
ISTO É A MINHA VIDA

«Lua Semi-Nua» é o segundo capítulo de «Amai», podendo a carreira de Paulo Bragança ser dividida em duas metades óbvias da mesma tangerina: os discos de fado «puro» - «Notas Sobre a Alma» (1992) e «O Mistério do Fado» (1996) - e os discos de ruptura, de aventura, de risco, em que o fado é mais um dos caminhos percorridos, linha vocal e mote de alma dos trabalhos - «Amai» (1994) e «Lua Semi-Nua» (2001). No novo álbum, Bragança assina letras e músicas, havendo outras de José Cid (produtor e teclista) e versões de Jorge Palma, Ala dos Namorados ou do «Fado Falado», aqui transformado em «Fado Mudado», ou do clássico coimbrão «Samaritana».

Bragança tem ideias bem definidas sobre o seu trabalho e a sua carreira: «Isto não é só música, não é só uma carreira. Isto é a minha vida. E a minha vida entra, sempre, para o bem e para o mal, pela minha carreira. No tempo que passou entre os discos, tive uma fase muito complicada da minha vida, nomeadamente devido à morte do Rui Vaz (produtor de "Amai"). Ele foi a pessoa perfeita para trabalhar comigo. E faz-me muita falta». No entanto, «Lua Semi-Nua» é quase uma continuação de «Amai», mesmo em termos de produção e arranjos: «Sim, porque eu, o Rui e o José Cid trabalhámos muitos anos juntos e temos ideias muito semelhantes. Mas o José surpreendeu-me com esta produção - ele é muito versátil e conseguimos trabalhar muito bem».

Versatilidade. É uma das palavras-chave para este álbum. O fado de Lisboa, o fado de Coimbra, Trás-os-Montes, a Galiza, as Beiras estão bem representados, por vezes cruzados, neste álbum onde o trip-hop, a pop e até um estranhíssimo tema de/com João Aguardela (Sitiados e Megafone) também têm lugar. «Esses vários caminhos são o espelho de uma eterna insatisfação, a procura de uma música que não é só fado. Ainda não cheguei à essência absoluta, ao limpar de pó, do universo da música portuguesa: fado, música tradicional, folclore... Interessa-me chegar a outros lados, mas por enquanto ainda estou na música portuguesa. Sou fadista - e isso foi uma coisa que não escolhi, está-me no sangue - mas não canto só o fado. Diz o "Fado da Adiça": não é fadista quem quer, só é fadista quem calha; e a mim calhou-me ser fadista. Se eu pudesse, não o era».

O álbum anterior, «O Mistério do Fado», era «um álbum de fado tradicional, completamente tradicional. Para mostrar aos puristas que também sou capaz de cantar os vários fados clássicos, só com guitarra e viola. Querem fado? Tiveram o fado». Os puristas do fado de Lisboa raramente viram com bons olhos um fadista como Bragança: maquilhado, andrógino, com roupas diferentes e, muitas vezes, com uma postura iconoclasta, «punk», perante a tradição. O mesmo pode acontecer agora, mas em Coimbra, quando se ouvir a «Samaritana» com beats trip-hop/drum'n'bass: «O fado de Coimbra está estagnado há trinta anos. É uma vergonha ouvir sempre os mesmos fados, cantados da mesma maneira. Para quê?». Igualmente surpreendente é a abordagem que Bragança faz ao «Fado Falado», de João Villaret, com a letra adaptada para o mote «Fado Mudado», que fala de drogas duras e do Casal Ventoso. E, diz Bragança, para poder «mudar» o fado, «tive que passar por lá».

18 outubro, 2006

José Peixoto - Para Além dos Madredeus


Agora que o futuro dos Madredeus está em aberto - a sua agência espanhola, Syntorama, anunciou o final do grupo e o início da carreira a solo de Teresa Salgueiro; Pedro Ayres Magalhães nega o fim mas confirma 2007 como «ano sabático» dedicado aos projectos individuais dos seus integrantes -, recupero aqui duas entrevistas com José Peixoto, o genial guitarrista dos Madredeus e o mais prolífico dos seus músicos, e com os seus dois companheiros nestas aventuras: o igualmente Madredeus Fernando Júdice (com José Peixoto, na foto) no projecto que deu origem ao álbum «Carinhoso» (2002) e a cantora Filipa Pais no duo que produziu «Estrela» (2004). Entre os dois ficou «Aceno» (2003) e, depois disso, o guitarrista também já nos ofereceu «Cacus», em parceria com o violinista Carlos Zíngaro (2005), e «Pele», em parceria com a cantora Maria João (2006).


CARINHOSO
UM CHORINHO (FELIZ)

Dentro de uma viagem podem coabitar muitas viagens. No caso destes dois músicos, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice, as viagens dos Madredeus também lhes serviram para iniciar uma outra, rumo à música de Pixinguinha e de outros chorinhos brasileiros. No regresso a casa, há um disco, «Carinhoso», onde ao lado de vários instrumentais surgem três temas cantados (Maria João, Manuela Azevedo, dos Clã, e Luís Represas são as vozes presentes). Um disco de amor com final feliz.

Como é que dois músicos portugueses se apaixonam pela música de um compositor brasileiro?

Fernando Júdice - Isso acontece um bocado por acaso. E o factor «acaso» é importante na génese deste projecto. O que nós queríamos de início era alguma coisa que nos entretivesse nas nossas viagens, nos tempos livres. Nós vamos ocupando os tempos livres a tocar, nos quartos de hotel...

Não vão para os copos e coisas assim?

José Peixoto - Não, não. Se o fizéssemos não podíamos depois trabalhar de manhã.

F.J. - E temos famílias. A nossa vida é mais virada para o dia do que para a noite, senão quando chegamos a casa o choque é muito grande. E precisávamos de praticar nas guitarras... Depois de muito procurar, sem encontrar nada que nos agradasse, estávamos em S. Paulo, no Brasil, e o Zé apareceu com um livro de chorinhos. Tinha dois do Pixinguinha, mas o resto não era dele. Pegámos em duas músicas ao acaso e começámos a tocar. Um deles chama-se «Chorando em S.Paulo», o que fazia sentido, e imediatamente sentimos empatia com aquela música e que era uma boa matéria-prima. Aquilo dava-nos espaço para imaginar coisas e funcionava bem com os nossos dois instrumentos. No meio do livro estava o «Carinhoso», do Pixinguinha, e isso foi definitivo. O tema bateu de uma maneira! No dia seguinte voltámos à mesma loja e comprámos um livro só com coisas do Pixinguinha. Isto foi o início do processo.

J.P. - A revelação dessa música fez-nos procurar mais coisas dele. Não houve qualquer ideia prévia, do género «vamos tocar Pixinguinha».

Querem falar um pouco da importância do Pixinguinha no contexto da música brasileira? A obra dele, cá, não é muito conhecida...

J.P. - E nós também fomos constatando a sua importância à medida que íamos descobrindo a música dele. O Pixinguinha é uma figura incontornável na música brasileira, sendo considerado por muitos como o pai da música popular brasileira. Antes do Pixinguinha, a composição e orquestração eram muito importadas da Europa ou da América. E o Pixinguinha deu-lhe um carácter regional, brasileiro, que até aí não tinha. Há como que uma divisão temporal - Antes de Pixinguinha e Depois de Pixinguinha.

Pode dizer-se, então, que o Pixinguinha deu «brasileiridade» à música brasileira?

J.P. - Exacto. E ele conjugava esse talento de compositor e orquestrador com o de instrumentista. De tal maneira que influenciou definitivamente muitos outros músicos brasileiros nestas três áreas. Também era muito bom improvisador. Ele sintetizou o choro, a forma do choro, naquilo que ele se tornou, estando também na génese de vários movimentos musicais, como a bossa-nova. Todos foram beber ao Pixinguinha. O Hermeto Pascoal, o Egberto Gismonti... E até um compositor erudito como o Villa-Lobos dizia que o mestre dele era o Pixinguinha.

F.J. - O Villa-Lobos dizia que tinha sido formado na Universidade de Pixinguinha. Ele foi o primeiro brasileiro a levar a música brasileira para fora do Brasil. Com excelentes críticas em França - era para ficar a tocar um mês em Paris, ficou seis.

Vocês encontram algum ponto de contacto entre o chorinho e a música portuguesa, nomeadamente o fado?

F.J - Não, não me parece. Há muitas teorias sobre a génese do fado e há uma, especificamente, sobre as ligações do fado ao Brasil. Mas provavelmente o fado não tem uma origem, tem várias. E não há nenhuma teoria definitiva.

J.P. - Mas talvez essa ligação exista em termos emocionais. A saudade, a tristeza, o fado dos portugueses degredados no Brasil podem ter estado presentes na origem do chorão, que deu origem ao choro e ao chorinho. Só os nomes dizem tudo. Há quem defenda que o choro é uma música negra com uma melodia branca. Pode haver uma raiz comum...

F.J. - Mas se isso existe é dessa forma subliminar. Musicalmente não há uma ligação directa, nem uma derivação directa. A música vem da alma e, a esse nível, pode sempre haver ligações.

No álbum não surgem apenas temas do Pixinguinha. Há dois ou três de outros compositores...

J.P. -- Um é o «Chorando em S.Paulo», porque foi o primeiro que tocámos e se revelou uma música extraordinária. E o outro é o célebre «Tico Tico no Fubá», que apesar de não ser do Pixinguinha, ele gravou em dueto: o Pixinguinha no saxofone e o Lacerda, flautista.

Como é que vocês passaram de «estudos de técnica instrumental» - como referem os vossos press-releases - para uma obra de arte, que é o disco?

F.J. - Foi uma coisa que aconteceu com naturalidade. A nossa ideia não era fazer um disco, mas quando nos centrámos naquelas músicas, começámos a gravá-las, até para referência nossa, quando tínhamos o arranjo de cada música feito. E começámos a gostar daquilo que estávamos a fazer, para além de termos recebido opiniões entusiásticas de amigos nossos a quem nós mostrávamos aquilo. A ideia do disco foi crescendo gradualmente, derivando do resultado do nosso trabalho. A própria ideia dos cantores só surgiu quando já estávamos quase a começar a gravar o álbum...

Porque é que convidaram aqueles cantores e não outros para colaborar? A Maria João trabalhou muitas vezes com o José Peixoto; o Luís Represas e o Fernando Júdice foram colegas nos Trovante durante muitos anos. A Manuela Azevedo é que é uma surpresa.

J.P. - Foi fácil. Como eram três canções, eu escolhi um, o Fernando escolheu outro, e o terceiro escolhíamos os dois. E foram um bocado óbvias as nossas escolhas pessoais, por causa do passado comum da Maria João comigo - apesar de há dez anos não fazer nada com ela - e do Luís Represas com ele. Com a Maria João havia a certeza de que o resultado iria ser bom...

F.J. - E para mim era óbvio que só podia ser a voz do Luís que cabia naquela canção («Lamentos»). Sempre o ouvi cantar música brasileira, como segunda paixão, fora do Trovante.

J.P. - Entretanto, descobrimos que quer eu quer o Fernando éramos grandes admiradores da voz da Manuela Azevedo. Nós não a conhecíamos pessoalmente mas desafiámo-la e ela aceitou. E foi ela que decidiu que ia cantar a música («Carinhoso») em português de Portugal e não do Brasil, ao contrário dos outros dois que cantaram naturalmente em «brasileiro». Achámos um pouco estranho, mas ela fez o primeiro «take» e ficou - estava tão bom que não era preciso dizer mais nada.

Porque é que não convidaram a vossa colega de Madredeus, Teresa Salgueiro? E, já agora, o que é que os outros pensam disto? Acham bem? Acham mal?

F.J. - Não sei se acham bem ou mal, mas naturalmente acham bem.

J.P. - Acham bem, quanto mais não seja porque há um ano e meio que levam connosco nos camarins a tocar estas coisas (risos).

F.J. - A questão da Teresa... A Teresa é uma cantora extraordinária. E é uma pessoa com quem dá um prazer enorme ter a cantar ao lado. Mas isto foi uma coisa feita num contexto perfeitamente marginal ao nosso trabalho nos Madredeus. E quando se pôs a questão dos cantores, já muito tarde neste processo, todo este universo musical estava construído e definido. Quando começámos a falar em cantores, quisemos, quase naturalmente, puxar isto para um contexto exterior ao nosso universo normal de trabalho. Não evitámos a Teresa.

J.P. - Não há nenhuma obrigação, dentro dos Madredeus, de estarmos sempre a trabalhar uns com os outros. E uma das coisas mais gratificantes da actividade artística é podermos descobrir coisas novas e trabalhar com pessoas diferentes. Se temos o privilégio de trabalhar, quase diariamente, com a Teresa, não é uma rejeição não trabalharmos com ela numa coisa destas.

Apesar de já terem tocado com muita gente e passado por estilos diferentes, vocês têm os dois formação de jazz. Como é vocês se sentem num projecto com pauta escrita? Houve algum espaço para a improvisação neste trabalho?

J.P. - Houve espaço para a composição do arranjo. Improvisação não, porque até chegar àquela forma cristalizada já o Pixinguinha devia ter feito todas as improvisações possíveis. Nós tínhamos uma linha melódica e uma cifra, e não nos desviámos disso - tocámos exactamente o que lá estava -, mas com essa criatividade nos arranjos.

F.J. - Apesar de haver uma melodia escrita e uma cifra harmónica, podemos ter um espaço de manobra considerável, que é o tal espaço em que se constrói o arranjo; em que se pode seguir a harmonia que ali está mas também se pode alterar ligeiramente de acordo com a construção do arranjo que vai sendo construído. Tu ouves um disco genuíno de choros brasileiros, e o nosso não se parece nada com eles, porque a linguagem é outra, a instrumentação é outra, a nossa alma é outra. Aquilo surge na nossa cabeça de uma maneira particular.

O José Peixoto também é compositor, o Fernando Júdice - tanto quanto eu sei - não tanto. Porque é que avançaram para um disco de versões em vez de fazer um de originais?

J.P. - Porque os livros que nós comprámos já lá tinham a música escrita. Se estivessem em branco (risos)... Isso tem a ver com a primeira pergunta. Isto tem tudo a ver com o facto de querermos qualquer coisa com que nos entretêssemos a tocar. Nunca nos passou pela cabeça fazermos uma coisa de raiz, de originais. Não era esse o objectivo.

Como é que está a carreira a solo de José Peixoto?

J.P. - Está boa. Em princípio, vou gravar um novo álbum agora. E apesar de ser uma coisa marginal e com pouca visibilidade, enquanto eu tiver saúde vai continuar.

E haverá alguma vez um álbum de Fernando Júdice?

F.J. - Essa é uma questão que não se põe.

Vai haver continuidade para este projecto? Concertos? Um novo disco?

J.P. - Não sabemos. Assim como não pensávamos fazer um disco, também ainda não pensámos o que vai ser o futuro. Não há espectáculos pensados.

F.J. - Vai ser difícil fazermos espectáculos, até pelo tipo de ocupação que nós temos, com os Madredeus. E isto é uma coisa pequena, especial, com pouco reportório...

J.P. - Isto tem um carácter amador. A eventual profissionalização deste projecto iria mudar tudo, mas isso não está no nosso horizonte.



SINTETIZADOR
FILIPA PAIS/JOSÉ PEIXOTO

Trabalharam juntos na Lua Extravagante, cruzaram-se fugazmente no álbum Aceno, encontraram-se agora a tempo inteiro para um álbum completo: «Estrela».

«Estrela» é um álbum de canções compostas por José Peixoto (guitarrista dos Madredeus e dono de uma já considerável discografia a solo) que só precisavam de uma voz. E a escolha do músico recaiu em Filipa Pais (que foi da Lua Extravagante e editou dois álbuns a solo; nos últimos anos também envolvida em espectáculos do grupo de teatro O Bando). Diz Peixoto: «Conhecemo-nos nos concertos e na gravação do disco da Lua Extravagante [início dos anos 90]. E houve logo ali um entendimento que deu pistas para a vontade futura de fazermos qualquer coisa em conjunto. Essa vontade existiu sempre, mas o encontro foi sendo sucessivamente adiado... até que aconteceu», e acrescenta Filipa: «Voltámos a encontrar-nos para o álbum dele, "Aceno", em que canto dois temas... E no final do ano passado começámos a trabalhar neste álbum, "Estrela"».

Pergunto a Peixoto se existiu desde o início da composição destes temas a consciência de que estas seriam canções para uma voz e não instrumentais. Diz que sim: «Tenho logo a noção de quando uma peça é instrumental e quando não é. A própria estrutura melódica conduz-me à forma canção ou não». Já Filipa, diz ela, sentiu-se «muito confortável nestas canções. Aqui estou a cantar num registo mais grave, mais intimista, mas há muito tempo que queria experimentar este registo da minha voz». Pelo meio do processo surge também o poeta João Monge (autor de letras para os Trovante, Ala dos Namorados e Rio Grande), responsável pelos textos cantados em «Estrela» - Filipa conta, arrepiada com a coincidência, que só descobriu depois que vive na mesma casa em que Monge passou a sua infância e juventude.

Outros cúmplices activos no processo foram o produtor Mário Barreiros e os outros músicos participantes: Mário Delgado (guitarra, steel-guitar, sitar eléctrica...), Yuri Daniel (contrabaixo) e Quiné (percussões). Peixoto diz que «já tínhamos trabalhado com todos eles, mas nunca tínhamos estado todos juntos como estamos aqui. E já sabia que trabalhando com eles ia ter boas surpresas. São pessoas criativas, que acrescentaram coisas e optimizaram aquelas canções».

O álbum vive de universos sonoros bastante variados - da música tradicional ao psicadelismo, do jazz à pop, de ambientes de Norte de África ao Brasil... E não é nada fácil «encaixá-lo» em prateleiras ou géneros. José Peixoto diz que não se preocupa muito com isso, «mas é capaz de caber naquele grande saco, lato e abrangente, da world music. Se formos por exclusão de partes, isto não é jazz, não é música tradicional, não é música erudita...». Já Filipa diz, divertida, que chama a esta música «pop cota». E Peixoto acrescenta entre risos que o próximo disco dos dois será o «pós-cota». Outra promessa: as canções do álbum já foram «testadas» ao vivo em showcases nas FNACs e num festival em Castro Verde, mas haverá mais concertos assim que as agendas dos dois - ou dos cinco - o permitirem.

10 outubro, 2006

Waldemar Bastos - Paz, Pão, Amor


Um dos melhores cantores e compositores angolanos da actualidade - ia escrever «o melhor», e só não o escrevo porque isto é sempre relativo... -, Waldemar Bastos, editou no início deste ano o seu álbum «Renascence» em Portugal. Aqui recupero a entrevista com ele, a propósito desse álbum, feita em Janeiro.


WALDEMAR BASTOS
CANTO UNIVERSAL

Um ano depois de ter sido editado na Holanda (e noutros países), o novo álbum de Waldemar Bastos, «Renascence», chega agora ao mercado português. Um álbum em que o compositor, cantor e músico angolano reflecte a nova realidade do seu país - a Paz – e um som cada vez mais universal.

O seu primeiro álbum, «Estamos Juntos», foi gravado no Brasil. «Angola Minha Namorada» e «Pitanga Madura» foram gravados em Portugal. «Pretaluz» foi gravado em Nova Iorque (com produção de Arto Lindsay) e editado pela Luaka Bop, de David Byrne. «Renascence» é editado pela holandesa World Connection. Não são muitas mudanças para uma carreira só?

Não. São mais as contingências da vida. Não acho que isso me tenha prejudicado, antes pelo contrário. Tenho feito os discos que gosto de fazer. Também não me preocupo muito com essa noção de «carreira». Estou mais preocupado com o que dou às pessoas... Saí do Brasil porque o Brasil não estava aberto a músicas de outras proveniências. Em Portugal, a EMI-VC não soube posicionar os meus discos no mercado internacional... Depois, o David Byrne convidou-me a gravar para a Luaka Bop e estou-lhe muito agradecido por isso. Agora estou na World Connection, em que o presidente da companhia fala directamente comigo, ao telefone. Há uma ligação mais directa.

Pode dizer-se que o seu novo álbum, «Renascence», é mais alegre, luminoso e aberto do que os anteriores? E que isso se deve ao facto de Angola ter, finalmente, encontrado o caminho da paz?

Sem dúvida. Todos os angolanos sofriam com a guerra. Era impossível, numa situação daquelas, abstrair-me do que se passava no meu país. Tenho cerca de 50 anos e a guerra em Angola [primeiro, a guerra colonial; depois a guerra civil] esteve presente em quase todos eles. E quando vejo a paz, porque se vê no rosto das pessoas, isso despoleta um disco com estas características.

Voltou a Angola para o grande concerto, em 2003, que celebrou o fim da guerra em Angola (num espectáculo em que também participaram Jimmy Cliff, Youssou N’Dour, Roberto Carlos...). É escusado perguntar-lhe se foi um momento especial...

Foi, sem dúvida, especial. Eu não ia à minha terra, havia coisas que me limitavam. E chegar à minha terra em liberdade, em paz, cantar e ser aplaudido e acarinhado; tudo isso me fez ficar comovido e feliz.

Sente que a paz veio para ficar em Angola?... Pergunto isto porque, a olhos exteriores, parece que bastou a morte de um homem (Jonas Savimbi) para se chegar à paz...

A paz é uma realidade que não se vai alterar. E não acho que tenha sido por isso [a morte de Savimbi]... Havia era um cansaço muito grande. E houve um momento mágico, espiritual, que determinou que a paz se fizesse. É um lado que nos ultrapassa, talvez de dimensão divina.

Em 2000 participou no concerto «Don’t Forget Africa», organizado pela UNESCO e no projecto «Zero Landmine», a convite de Ryuichi Sakamoto. É impossível separar o Waldemar Bastos músico, cantor e compositor do homem politicamente empenhado que também é?

Não me considero um homem político, mas sim preocupado com a sociedade. E um artista que tenta dar o seu melhor para o desnevolvimento do seu país, do seu continente e do mundo em geral. Não faço música que se possa considerar política. Faço música enquanto arte. Mas o artista tem obrigações do ponto de vista social. E não posso ficar impávido e sereno perante o que se passa à minha volta. O primeiro disco em que participei que já atingiu a marca de disco de platina é o «Zero Landmine», que já vendeu dois milhões de exemplares no Japão e o dinheiro angariado já serviu para desminar campos em Moçambique e no Vietname.

Voltando ao novo álbum: nele participam músicos de vários países africanos, portugueses, turcos... O que é que procurou em «escolas» tão diferentes?

Não procurei. Aconteceu assim naturalmente. Tenho músicos na minha banda de nacionalidades muito diferentes, mas com «feelings» que encaixam. A secção de cordas é turca porque achei que os violinos deles ficavam bonitos ali. Mas foi intencional fazer aquele jogo de guitarras, com guitarristas que vêm de várias zonas de África (Angola, Guiné, Zaire). E essas pontes entre vários estilos musicais sempre aconteceram comigo. Desde quando era jovem e tinha uma banda que tocava de tudo (fandangos, tangos, merengues...). Sempre gostei de música africana mas também de músicas de outras zonas do mundo e de artistas como os Shadows, Jimi Hendrix, Booker T & The MG’s, Led Zeppelin ou Chicago. Às vezes, o colonizado fica com uma cultura mais rica porque tem a sua e ainda absorve a dos outros...

É curioso porque, neste álbum, as suas letras não falam apenas da «paz» ou da situação angolana (apesar de haver um tema chamado «Paz Pão e Amor»), mas também, e ainda mais, das coisas do dia-a-dia...

Porque às vezes é ainda mais importante falar de outras coisas. Por exemplo, na minha canção «Dongo» falo de um pescador e do seu barco [o dongo], de modo a que mais gente conheça esta forma de pesca ancestral...

04 outubro, 2006

Danças Ocultas - A Alma e Os Foles que Ela Sopra


O álbum «Pulsar», do extraordinário quarteto de concertinas Danças Ocultas, originalmente editado em 2004, está a ser reeditado com dois temas bónus registados ao vivo - «Queda d'Água», gravado no Festival Sons em Trânsito, Aveiro, em 2005, e «Moda Assim ao Lado», gravado no Fórum Lisboa, em 2004. A propósito da reedição, aqui ficam dois textos publicados há dois anos no BLITZ: a entrevista que tem como mote o álbum «Pulsar» e a crítica a esse disco.


DANÇAS OCULTAS
O PRAZER DA VIAGEM

«Pulsar», o novo álbum dos Danças Ocultas, descobre novos caminhos para a música do quarteto. Caminhos em que se cruzam outros companheiros de(sta) viagem. Uma viagem, por vezes, com (ou por) paragens inesperadas.

Seis anos depois de «Ar» e oito depois de «Danças Ocultas», o quarteto de Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel lança o seu álbum mais aguardado (foi muito tempo de espera e muita coisa a acontecer sem que acontecesse um... disco) e mais - pode usar-se a palavra neste contexto - inesperado (pelas surpresas que traz dentro). Seis anos intensos, de mudança, de evolução, de actuações aqui e ali (em Portugal e no estrangeiro), de composições para coreografias, de um «Alento» diferente dado por um livro... Nesta entrevista, Artur Fernandes ajuda a revelar o que estava oculto.

Os dois primeiros álbuns do grupo foram editados pela EMI. O novo é lançado pela Magic Music, com distribuição da CNM (Companhia Nacional de Música). Artur Fernandes explica porque saíram da multinacional: «Foi uma questão de eficácia. Desde 1998 que tocamos, com regularidade, na Europa central - Bélgica, Alemanha, Holanda, França. E, menos, em Itália, Inglaterra e Espanha. E foi sempre muito difícil ter licenciamento internacional nesses mercados. Fez-se uma edição em França, em 2002, mas foi um processo muito lento; demorou um ano. E andar a tocar lá fora sem o apoio de um disco é muito ingrato. Sentimos, portanto, essa necessidade de agilizar o mais possível a possibilidade de licenciamento internacional, o que é muito mais fácil através de uma editora independente do que através da EMI. A nossa saída da EMI foi cordial...». Neste momento, aliás, há «contactos adiantados com editoras em Espanha e França para a edição do novo disco nesses territórios».

Curiosamente, «Pulsar» - pelos meios de gravação que envolveu, pelos convidados convocados a aparecer, etc... - parece mais uma produção saída de uma multinacional do que de uma edição independente. E, diz Fernandes, «esse esforço de produção justifica também a demora na saída do disco...». Ao longo destes seis anos, «fomos compondo material, tivemos muitos espectáculos, conhecemos muita gente. E as ideias que temos sobre a música que fazemos vão, lenta e gradualmente, mudando. Talvez pelos nossos concertos em terras estranhas, de Marrocos à Alemanha, e as visitas a título pessoal ao Brasil, Índia, Estados Unidos, torna-nos mais cosmopolitas... Quando temos vinte anos pensamos que conhecemos tudo e depois é que vamos percebendo que estamos cada vez mais longe de saber tudo». As viagens alargaram, de facto, os horizontes - musicais e estéticos - do grupo. Paralelamente, os Danças Ocultas colaboraram com o coreógrafo Paulo Ribeiro e inspiraram o livro «Alento» (de Jorge Pires). E cruzaram-se com músicos de áreas diferentes: «por exemplo, com o Pascal Contet, um acordeonista que faz música contemporânea improvisada, com músicos de jazz, com o Edu Miranda [músico brasileiro que toca bandolim e guitarra em "Pulsar"]... E isto foi tornando o som dos Danças Ocultas mais cosmopolita».

Para Artur Fernandes, «os dois primeiros álbuns são um ensaio de como fazer música para concertina fugindo à sua conotação ou à sua memória. Seria uma composição pela negativa, enquanto o novo disco é uma construção pela positiva de mais reportório para este instrumento». Pergunto-lhe se não acha que, neste álbum, se afastaram bastante de umas possíveis raízes portuguesas presentes nos dois primeiros... «Acho que sim. Mas já nos dois primeiros álbuns talvez se reconhecessem mais os ambientes tradicionais portuguesas pelo timbre dos instrumentos do que propriamente pelas composições. No novo disco, os convidados não aparecem para divergir o som, para irmos para outras latitudes, mas mais pelas pessoas em si e pelo gosto que temos pela música que essas pessoas fazem... Nós nunca nos sentimos presos à nossa rua ou à nossa terra ou ao nosso país». Mas é verdade que há viagens no novo álbum... «O tema "Sirocco" foi inspirado por um concerto em Marrocos, em 1998, em que dissemos "temos que fazer qualquer coisa com esta escala maluca". E essa é talvez das músicas que mais sofreram evoluções, porque quando fazemos uma coisa estranha à nossa vivência temos medo que fique demasiado colada à sua origem, ao postal ilustrado, ao evidente. No tema com o Edu Miranda aconteceu a mesma coisa: não quisemos fazer um pastiche da música brasileira».

Por outro lado, com a inclusão dos vários convidados - e de uma variedade grande de instrumentos, desde a voz, como a do sírio Abed Azrié ou a de Maria João, o piano de Mário Laginha, os instrumentos «bárbaros» dos Gaiteiros de Lisboa, o sintetizador e o acordeão de Gabriel Gomes, contrabaixo e percussões várias... - a paleta tímbrica do grupo alargou-se: «Isso teve a ver com a necessidade de cada uma das composições. E a isso juntou-se a afinidade que já tínhamos com muitos deles - os Gaiteiros, o Rui Júnior, o Edu, o Gabriel... - e a afinidade nascente com outros, como a Maria João e o Mário Laginha ou o Abed Azrié, que conhecemos em Paris, em 2001 ou 2002: fomos para casa dele, comemos e bebemos, mostrou-me partituras dos trabalhos dele, e ficámos de vir a trabalhar no futuro». O que veio a acontecer, e com resultados lindíssimos, neste álbum.

Pergunto a Artur se o nome do álbum, «Pulsar», tem também a ver com uma muito mais forte componente rítmica no novo disco. E Artur diz que «essa é uma leitura nova do título. Mas tendo a concordar com ela. Os Danças Ocultas eram um grupo de "paisagem musical" e este disco tem de facto uma maior componente rítmica, independentemente de estarem lá o contrabaixo, a bateria ou as percussões».

Na transposição dos temas novos para o palco, vai haver o problema da falta de muitos dos convidados. Diz Artur: «Tivemos essa consciência, mas houve o cuidado de que o tipo de intervenção dos convidados não limitasse muito a transposição para o "ao vivo", porque este disco poderia ter sido feito sem convidados, para quatro músicos, com os mesmos temas. Mas sabemos que se poderá perder alguma coisa».


DANÇAS OCULTAS
«PULSAR»
Magic Music/CNM

E, depois de seis anos de espera, o terceiro álbum do quarteto de concertinas Danças Ocultas apanha-nos completamente desprevenidos pela sua riqueza tímbrica, pela variedade de territórios musicais visitados, pela quantidade (e qualidade) dos amigos/convidados para o disco, pela descoberta do «groove». «Pulsar», assim se chama o disco, significa - dizem os dicionários - «agitar», «palpitar», «latejar», «bater», e tem tudo a ver com ritmo -- a «pulsação», o brilho cadenciado da estrela com o mesmo nome. Em «Pulsar», os Danças Ocultas atiram-se à dança já não escondida - há contrabaixos, há percussões, há mais cadências/dolências mesmo nas concertinas («Tristes Europeus») e há montes de gente convocada para o festim servido por Artur Fernandes e companheiros: o sírio Abed Azrié, que canta e toca percussões num belíssimo tema dele, «Alchimie», misto de Médio Oriente, Índia e salão europeu do séc.XIX, e ainda com um piano discreto de Mário Laginha; o mesmo Laginha que, com Maria João, leva os Danças Ocultas para uma África que poderia ter sido imaginada por José Afonso, em «Fantasia»; o bandolinista e guitarrista Edu Miranda num «Porto Seguro» que é uma festa que passa por vários géneros brasileiros (do chorinho ao baião, digo eu); os Gaiteiros de Lisboa, na tanguédia/tancomédia/medieval/experimental que é «Casa do Rio»; ou Gabriel Gomes, que produz, toca acordeão e sintetizadores (tão subtis quanto elegantes). Mas também continua lá o sopro, o ar, o vento, que já lhes conhecíamos e amávamos: (Puls)ar. (8/10)