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12 abril, 2012

Gaiteiros de Lisboa e a recuperação do GAC no MusicBox


Quando se aproxima mais um aniversário da Revolução de 25 de Abril, o Musicbox, no Cais do Sodré, apresenta mais uma edição do original e desviante festival "Lisboa, Capital, República, Popular". A notícia fresquinha, sacada ao Juramento Sem Bandeira, do camarada Vítor Junqueira:

«De 19 a 21 deste mês, o Musicbox volta a receber o festival "Lisboa, Capital, República, Popular". Na quarta edição, o destaque vai para a recuperação de canções do GAC (Grupo de Acção Cultural) por músicos da nova geração, para o regresso aos concertos dos Gaiteiros de Lisboa e para os Ladrões do Tempo, a banda que reúne Zé Pedro, Tó Trips, Pedro Gonçalves, Paulo Franco e Samuel Palitos. Como sempre, vai também ser editado o jornal de distribuição gratuita, este ano com a manchete "Ser Solidário", que serve ainda de tema geral ao debate que decorrerá no Povo, no primeiro dia do festival, com a participação de dois bloggers (Francisco Silva e Pedro Marques Lopes) e a moderação de Nuno Miguel Guedes, coordenador da edição do jornal.

Quinta-feira, 19:
Ladrões do Tempo
Luís Varatojo (DJ set na 1ª parte)

Sexta-feira, 20:
Toca'Andar
Omiri
Gaiteiros de Lisboa (na foto)

Sábado, 21
GAC - VOZES NA LUTA
Filho da Mãe, Manuel Fúria, Cão da Morte, Vicente Palma, Bob da Rage Sense, Bruno Vasconcelos, Inês Pereira, Diego Armês, Afonso Cabral, Hélio Morais + Quim Albergaria e Elisa Rodrigues + Júlio Resende c/ banda residente: Flak, Nuno Pessoa e Filipe Valentim.»

04 janeiro, 2008

Auto-Promoção (ou World DJing no Éden Glorioso -Parte 3)


Não, ao contrário do que se pode julgar pela imagem, ainda não é desta que vou pôr música na Quinta da Regaleira. Mas é lá perto, no já incontornável CaféVinil, junto à biblioteca e muito próximo da estação dos comboios de Sintra. Desta vez num registo que vai dar primazia à folk europeia, da Península Ibérica à Rússia, passando pelas ilhas britânicas, França, Alemanha, Itália, Grécia, Balcãs, Escandinávia... A minha sessão de DJ (muito originalmente intitulada... «Raízes e Antenas») decorre no dia 12 de Janeiro, integrada numa programação que inclui ainda sessões de Diogo & Jo@na («Projecto Abébia») no dia 5, Flak (dos Micro Audio Waves, numa sessão de nome... «Micro Audio Waves») no dia 19 e Luís Varatojo (d'A Naifa, com a sessão «Rock Rendez Vous») no dia 26. Também durante este mês de Janeiro, o CaféVinil apresenta a exposição de fotografia «Clandestino», de Alexandre Nobre. Mais informações aqui.

10 novembro, 2007

Auto-Promoção (ou World DJing no Éden Glorioso - Parte 2)


Há mais algumas sessões de DJ no horizonte - das quais irei dando conta ao longo do tempo e assim que se confirmarem - mas, para já, a próxima é sábado, 17 de Novembro, dia em que o autor deste blog vai pôr música no CaféVinil (já quase em regime de «residência»), em Sintra: world music, muita e variada, e desta vez com uma vertente ainda mais dançante do que das vezes anteriores. O resto da programação de DJing do CaféVinil - que fica muito perto da estação dos comboios e ainda mais perto da Biblioteca - durante este mês é preenchida por uma sessão de Luís Varatojo («Do Vinil ao MP3»), hoje, dia 10, à noite, e outra de Gito («Surfing Thing»), dia 27. Ao longo do mês continua a ser possível visitar a exposição «Comer Com os Olhos», de Teresa Cavalheiro. Mais informações aqui.

05 julho, 2007

«...A Menina Dança?» - Apresentação no MusicBox



«...A Menina Dança? - New Roots From Portugal» é uma colectânea de edição limitada produzida e editada pela turma de Produção e Marketing Musical, da Restart, turma a que tive o prazer de dar aulas, no início deste ano lectivo, no módulo de História da Indústria Discográfica. O lançamento do álbum - que é apresentado como uma «compilação de grupos portugueses que partem das suas raízes (portuguesas) para construir a sonoridade que os caracteriza, dando assim origem a uma linguagem musical baseada nas tradições mas...com os olhos postos no futuro» - decorre dia 12 de Julho, no MusicBox, ao Cais do Sodré, em Lisboa, com concertos dos Chuchurumel e dos O'QueStrada (na foto, de Rui Palha), sessões de DJing com Luís Varatojo (A Naifa) e António Pires (Raízes e Antenas) e VJing por Chris & Candy. A colectânea inclui os temas «Viva!» (Sam the Kid), «Música» (A Naifa), «O meu Coração Abandonado» (Viviane), «Rodada» (Dead Combo), «Se Esta Rua Fosse Minha» (O'QueStrada), «Era Não Era do Tamanho de um Pardal» (Gaiteiros de Lisboa), «Deus te Salve Ó Rosa» (Chuchurumel), «Vozes» (Megafone), «Assobio» (Dead Combo), «Oxalá Te Veja» (O'QueStrada), «Aqui Há Gato» (Gaiteiros de Lisboa), «Confidências da Minha Rua» (Viviane), «Señoritas» (A Naifa), «Canção das Maias» (Chuchurumel), «Aboio» (Megafone) e «Discos Entre Caminhos (Remix)» (Phil Louis). Mais informações aqui.

26 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 4º Fascículo
























Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
CORDAS UMBILICAIS

Pode um instrumento musical espelhar - com o seu som, o seu timbre, a sua respiração e movimento e vibração - a alma de um povo? Pode. Ouve-se um didgeridoo na Austrália, um berimbau no Brasil, uma kora no Senegal, uma flauta de Pã nos Andes, um tambor taiko no Japão, e sabemos que aquele instrumento específico está a ser tocado pela alma certa, mesmo que possa ser tocado por «corpos» de toda a gente em todo o mundo.

Pode a guitarra portuguesa espelhar a alma do povo português? Pode. Há guitarra portuguesa de Lisboa e guitarra portuguesa de Coimbra e guitarra portuguesa do Porto e Braga. E há gente a tocá-la em todo o país. E há um género (dois?, se falarmos de Lisboa e de Coimbra separadamente) que lhe está colado como uma segunda pele, o Fado - ou, dizem os mais críticos, em vez de uma pele, um casaco grande e grosso que por vezes lhe abafa o respirar. E há intérpretes e compositores que fizeram da guitarra portuguesa um instrumento maior. João Maria dos Anjos, Antero Alte da Veiga, o clã Paredes - Gonçalo, Artur e Carlos -, Armandinho, Raúl Nery, António Portugal, António Brojo, Fontes Rocha, Augusto Hilário, Pedro Caldeira Cabral, António Chaínho e muitos, muitos outros... E, mais recentemente, há músicos mais novos que se atiram à guitarra sem complexos e com vontade de a levar para o futuro como Ricardo Rocha, Paulo Parreira, Custódio Castelo ou Paulo Soares... E algumas mulheres, como Marta Costa, perderam o medo de tocar este instrumento difícil e extremamente exigente em termos físicos (a posição; a dureza das cordas...). E há gente do rock a virar-se para ela: na invenção e recriação física do instrumento através das «guitarras portuguesas mutantes» de Nuno Rebelo; na paixão com que Luís Varatojo (ex-Peste & Sida e Despe e Siga) trocou a guitarra eléctrica pela guitarra portuguesa e contribuiu para fazer A Naifa; na aventura que é usar guitarra portuguesa no heavy-metal (os Thragedium, cujo líder, Eclipse, também toca guitarra portuguesa). E os ecos do instrumento não ficam por aqui. Mesmo que não estejam lá, fisicamente, estão nos samples de Sam The Kid ou nas guitarras eléctricas dos Dead Combo, de The Legendary Tiger Man e de Gonçalo Pereira (cf. na versão de «Movimentos Perpétuos», de Carlos Paredes, no álbum «Upgrade»).

A guitarra portuguesa, dizem alguns historiadores, evoluiu a partir de uma fusão da cítara com a guitarra inglesa e faz parte de uma imensa família de cordofones. Pelo som, e pelo sentimento, é irmã do oud (o alaúde árabe), é prima do bouzouki grego (que, por uma estranha emigração, foi adoptado também pelos irlandeses) e do bandolim siciliano, e é vizinha da guitarra espanhola - tão vizinha que, geralmente, para cada guitarra portuguesa há uma viola - uma guitarra espanhola - ali mesmo ao pé. Mas as ligações genealógicas dos cordofones podem ir mais além no tempo e longe no espaço: podem ir ao shamisen das gueixas japonesas, à sitar indiana, à balalaika russa, ao ukelele havaiano (neto dos cavaquinhos portugueses), à kora dos griots mandingas, às violas de lata dos blues do Mississippi.

São cordas que prendem a música, as canções, à terra onde nascem, como cordões umbilicais que nunca são cortados, como fios de Ariadne que nos servem de bússola permanente, como uma teia de relações que se prendem - e nos prendem - a um tempo, a um espaço, a uma poesia, a um gosto, a um destino. E à alma dos povos que as dedilham.

20 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 2º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


A INCLINADA GERAÇÃO (II)
TOCAR GUITARRA PORTUGUESA É DOLOROSO

No ano passado, quando Ricardo Rocha editou o seu álbum a solo «Voluptuária», o guitarrista referiu em várias entrevistas uma relação de amor/ódio com o instrumento. Relação que ele agora clarifica: «Quando falo um bocado mal da guitarra, isso tem a ver simplesmente com a parte técnica e a parte física do instrumento. É um instrumento que exige não só boas condições técnicas como uma boa condição física para tocar, pela tensão e dureza das cordas. Tudo aquilo exige uma forma muscular muito boa para se conseguir tocar, porque tudo é duro, muito tenso. Isso dificulta a técnica, a articulação. É uma grande canseira. É um desporto radical». E também Marta Costa refere a dificuldade que é tocar o instrumento: «É difícil para qualquer pessoa, mas para uma mulher é ainda mais difícil. Temos uma pele mais fina do que a dos homens, temos que criar calos nos dedos, as cordas são muito finas e têm uma tensão enorme - é um bocado doloroso. Quando os calos chegam está tudo bem».

INFLUÊNCIAS, REFERÊNCIAS, OS PAREDES E ARMANDINHO...

E quem é que ouvem os guitarristas da nova geração? Quais são as suas principais influências e referências?... Diz Ricardo Rocha: «O Carlos Paredes e o Pedro Caldeira Cabral são uma referência pela sua actividade de solistas. Mas há outras pessoas que são uma referência fundamental na linguagem da guitarra tradicional: Jaime Santos, Domingos Camarinha, Armandinho, são guitarristas fundamentais para quem aprende guitarra portuguesa e se interessa pelo instrumento. Eles tocavam com uma complexidade enorme e já ninguém toca aquela linguagem, porque é muito difícil».

Por sua vez, Paulo Soares contrapõe com a escola de Coimbra: «A minha grande influência é, sobretudo, dos Paredes, porque na música deles - Artur e Carlos - existe uma energia anímica e de aproveitamento sonoro do instrumento que não encontramos em mais nenhum guitarrista. E sempre procurei essa energia. Mas também admiro muito o trabalho de Octávio Sérgio, que podemos pôr ao lado do de Carlos Paredes, em termos de qualidade da composição e da adaptação ao instrumento. O Pedro Caldeira Cabral faz um trabalho extraordinário, com influências da música erudita, e isso leva-nos a sofisticar o uso que se faz da guitarra». E lança algumas farpas ao estilo de Lisboa: «Historicamente, houve uma tentativa de se adaptar a construção do instrumento ao uso e ao estilo de cada cidade. Mas essas diferenças estão a atenuar-se cada vez mais e de uma forma geral é o modelo físico de guitarra de Coimbra que tende a prevalecer. Mas do ponto de vista da técnica, e da forma como o reportório se desenvolveu, as principais diferenças são que a guitarra de Lisboa procurou muitos rodriguinhos, muitos ornamentos, cantar as melodias mas ornamentá-las com um certo jeito malabarista, algum virtuosismo exibicionista, que caracterizava o Armandinho, que serve de modelo inicial a esse estilo de guitarra. Na guitarra de Coimbra, temos outra atitude, representada pelo Artur Paredes, onde não são os efeitos sonoros que estão em causa, mas a sonoridade intrínseca, completa, cheia, do instrumento e da música que nele se faz».

Farpas que são repegadas por Varatojo: «Não posso dizer que tenha influências, porque tenho tão pouca experiência no instrumento que não consigo avaliar se a minha maneira de tocar tem mais a ver com este ou aquele. Gosto de ouvir alguns guitarristas, mas gosto de descobrir os meus próprios caminhos... Gosto das coisas simples e a guitarra portuguesa tocada de uma forma clássica é uma coisa muito rendilhada, muito barroca, muito promenorizada, e gosto de "passar isso a ferro" e fazer umas coisas um bocado mais cubistas. Já fazia isso com a guitarra eléctrica». Por sua vez, Marta, humilde, refere: «Gosto muito do Mário Pacheco, do Fontes Rocha, do Ricardo Rocha - que ao seu estilo é genial. E é mais a essas pessoas com quem me dou a quem eu me agarro. Tenho poucos CDs, é uma vergonha...».

O PRESENTE E O FUTURO

Neste momento, e entre outros projectos, Nuno Rebelo (na imagem, um dos esboços de uma «guitarra portuguesa mutante») está envolvido no grupo Mark Lewis & The Standards, mas As Guitarras Portuguesas Mutantes!!! continuam vivas, quanto mais não seja através da projecção de filmes originalmente feitos para o projecto a serem exibidos num festival em Atenas. Para além disso, diz Rebelo, «não está nada encerrado no capítulo As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!; é bem possível que volte a acontecer. É preciso apenas chegar o momento certo e a ocasião ideal».

Ricardo Rocha está a trabalhar em originais para um novo álbum, embora ainda não saiba quando será editado: «Eu também acompanho o Carlos do Carmo, mas prefiro ficar sozinho a gravar, nem sequer é a tocar em público». E, diz, sente «uma solidão e uma tristeza muito grande» por ser dos poucos a compor para o instrumento: «E isso só se passa em Portugal. Portugal é único em tudo: na decadência, na miséria e na pobreza. Existir aqui um instrumento como este, único no mundo, e só haver um ou dois compositores que o encaram de uma forma solística e compor e fazer peças para o instrumento a solo. E mesmo noutras gerações, houve só o Pedro Caldeira Cabral e o Carlos Paredes e pouco mais. É caricato e absurdo».

Paulo Soares tem um álbum na forja: «Tenho um álbum gravado, mas não gostei da captação de som e vou gravá-lo outra vez. O disco tem a ver com toda a guitarra de Coimbra, desde o Gonçalo Paredes até aos dias de hoje, incluindo composições minhas». Para já, dedica-se a «recitais a solo, acompanhado por uma viola, com um reportório baseado na guitarra de Coimbra, e também com composições mais recentes, algumas minhas. E também tenho feito alguns espectáculos com a Orquestra de Câmara de Coimbra e com a Orquestra do Norte». O ano passado fez um espectáculo, no encerramento do Festival da Guitarra, integrado em Coimbra - Capital da Cultura, estreando um concerto para guitarra portuguesa e orquestra da autoria de Fernando Lapa.

Por estes dias, Luís Varatojo continua a apresentar ao vivo o projecto A Naifa - que partilha com João Aguardela, a cantora Mitó e o baterista Vasco Vaz - e os temas do álbum «Canções Subterrâneas», cujos originais «foram todos construídos, de base, por mim na guitarra portuguesa e pelo João no baixo eléctrico. As minhas partes de composição nasceram na guitarra portuguesa, e isso foi propositado porque acabei por descobrir ali uma série de coisas, inclusive fazer acordes que não estão correctos mas que me soam bem e que não soariam dessa maneira se tivesse composto noutro instrumento qualquer... A guitarra portuguesa é um instrumento acústico, mas eu electrifico-a e uso efeitos, tanto em estúdio como ao vivo... Mantenho algumas características acústicas - o timbre e a ressonância -, mas dando algum cunho eléctrico ao instrumento». E num próximo álbum do projecto, lá continuará a guitarra portuguesa, também, à sua maneira, mutante.

Marta Costa está no último ano de Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, mas, depois de terminado o curso, promete dedicar-se mais à guitarra do que às engenharias: «Desde pequena que gosto imenso de música». E esta frase de Marta ilumina na perfeição tudo o que ficou para trás e as declarações dos outros todos.

15 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 1º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
A INCLINADA GERAÇÃO

Ricardo Rocha. Paulo Soares. Marta Costa. Luís Varatojo (na foto - de Mário Pires, da Retorta). Nuno Rebelo. Cada um à sua maneira, todos eles se apaixonaram pela guitarra portuguesa. São uma nova geração de músicos que, pegando na tradição, dela se aproximam ou afastam consoante os gostos e personalidades e intenções próprias. O BLITZ falou com eles.

O que leva as pessoas a interessar-se por um instrumento difícil de tocar e raramente procurado pelos mais novos, mais interessados em guitarras eléctricas ou baterias, djembés ou «laptops»?... Cada caso é um caso, mas a verdade é que, como refere Paulo Soares, intérprete de guitarra de Coimbra, compositor, professor de guitarra portuguesa e autor de um manual («Método de Guitarra Portuguesa») dedicado ao ensino do instrumento, «o interesse na guitarra portuguesa está a crescer bastante entre os jovens. E o que é curioso é que em Coimbra quase ninguém se interessa pela guitarra de Lisboa, mas em Lisboa há muita gente interessada na guitarra de Coimbra, nomeadamente no Museu do Fado, onde na escola, 50 por cento dos pedidos de aprendizagem têm a ver com a música de Carlos Paredes, ou seja, com a guitarra de Coimbra. Mas há aprendizes dos dois géneros em todo o país». Paulo começou a tocar guitarra portuguesa na Tuna Académica da Universidade de Coimbra, em 1983, quando tinha 16 anos, e porque havia um grupo de fados: «Aprendi essencialmente como autodidacta, apesar de ter procurado mestres. Desses mestres, os mais importantes foram Jorge Gomes - pela forma como me apresentou a guitarra e me motivou - e Octávio Sérgio, que foi o último guitarrista a acompanhar o José Afonso. Mas também estudei e tenho estudado, através da audição e da observação dos mais diversos guitarristas, toda a obra da guitarra de Coimbra, apesar de não enjeitar estudar outras obras, mormente a de Pedro Caldeira Cabral e a guitarra de Lisboa. Mas o meu maior interesse é mesmo a guitarra de Coimbra, onde incluo a obra dos Paredes todos - Gonçalo, Artur e Carlos».

Dos outros, todos oriundos de Lisboa, Ricardo Rocha - um dos pouquíssimos novos intérpretes de guitarra portuguesa a fazer recitais a solo baseados nas suas próprias composições; autor do álbum «Voluptuária» -, chega à guitarra por influência familiar, tendo aprendido com o avô, Fontes Rocha: «Não aprendi numa escola, porque não havia essa escola. Nos conservatórios havia e há disciplinas de guitarra clássica e violoncelo, por exemplo, mas não de guitarra portuguesa. Uma pessoa para aprender tem que ter um interesse natural. É um tipo de aprendizagem que muitas vezes acontece de geração em geração». Marta Costa (um raríssimo exemplo de intérprete de guitarra portuguesa no feminino, que costuma tocar em espectáculos de Mário Pacheco e no Clube do Fado, onde acompanha fadistas como Joana Amendoeira, Ana Sofia Varela, Rodrigo Costa Félix, José da Câmara, Maria da Nazaré ou Alcindo Carvalho) também começa a tocar por influência familiar, se bem que aqui indirecta: «De inicio não gostava de fado nem conhecia a guitarra portuguesa. Desde os cinco anos que toco piano, mas o meu pai, que adora fado, convenceu-me a tocar guitarra portuguesa. Comecei a aprender com o Carlos Gonçalves, que foi guitarrista da Amália, há cinco anos, e comecei a descobrir o instrumento e a entusiasmar-me. Depois mostrei a minha evolução ao guitarrista Mário Pacheco, do Clube do Fado, e ele achou piada - nos últimos anos tenho estudado com ele».

QUANDO O ROCK
E A MÚSICA IMPROVISADA VÃO À GUITARRA PORTUGUESA

Com uma abordagem diferente da guitarra, menos purista e mais longe da tradição, estão dois nomes saídos do rock - Luís Varatojo (ex-Peste & Sida e Despe e Siga; que agora toca guitarra portuguesa n'A Naifa) e Nuno Rebelo (que foi dos Street Kids e dos Mler Ife Dada antes de enveredar pela nova música improvisada e por uma aventura chamada As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!). Varatojo começou a tocar guitarra portuguesa «há dois anos e pouco. E por dois motivos: um, a curiosidade, e outro, eu e o João (Aguardela) andávamos a discutir umas ideias em relação à Naifa e pareceu-me apropriado pegar na guitarra portuguesa para desenvolver este projecto», sendo essencialmente autodidacta: «Fiz uma tentativa de aprender com um mestre, conforme o método clássico, mas as aulas eram demasiado caras. E optei por averiguar e apanhar por aí alguns manuais, que são raros. O Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa disponibilizou-me fotocópias de um manual dos anos 50...». Mas a escola do rock e da pop ainda está lá: «A minha forma de tocar guitarra acaba por ser um misto da técnica mais clássica - porque faço os acordes e as posições dos dedos de acordo com essa linha - e o trabalho que tinha feito para trás com a guitarra eléctrica. Mas ainda tenho muito a desbravar...».

Ainda mais longe do convencional está Nuno Rebelo, que se meteu na aventura de transformar o próprio instrumento: «A exploração que eu andava a levar a cabo (e que continuo a desenvolver) na guitarra eléctrica integra-se, à escala internacional, num universo constituído por imensos guitarristas, cada qual com a sua linguagem e abordagem, ou seja, somos todos um entre muitos. Quis aplicar essa abordagem do instrumento à guitarra portuguesa, com a certeza de que seria um dos poucos senão o único a transfigurar este instrumento. Mas também confesso que me moveu o facto de estar a subverter um ícone da nação com uma carga de memória ligada ao passado, à tradição, à saudade. Quis pôr a guitarra portuguesa a olhar para o futuro». Nuno Rebelo chamou à sua aventura As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!: «Fiz as primeiras experiências e os primeiros concertos, a solo, em 1993 [ver CD "Way Out, New Music from Portugal – Vol 1", editado pela Ananana; o tema "Pink Pong" foi gravado num concerto solo de guitarra portuguesa mutante em 93]. O projecto As Guitarras Portuguesas Mutantes!!! aparece mais tarde, em 1998», no âmbito da Expo'98.

Questionado sobre a reacção de outros guitarristas às suas «invenções», Rebelo diz: «Os dois guitarristas que trabalharam comigo neste projecto foram o Júlio Pereira e o Ricardo Rocha. Ambos se dedicaram ao projecto com ânimo e abertura de espírito e penso que terá sido uma boa experiência para eles. O papel que lhes coube foi o de fazer a ponte entre a linguagem e técnicas da guitarra portuguesa tradicional e a "nova música" que eu pretendia fazer, ou seja, tocando em harmonias pouco usuais no repertório deste instrumento. Neste aspecto o cunho pessoal do Ricardo Rocha foi uma grande contribuição. Quanto ao Júlio Pereira, não sendo um especialista da guitarra portuguesa mas antes de outros cordofones nacionais, teve um papel mais discreto, mas igualmente importante, de contraponto à guitarra do Ricardo Rocha». Os restantes músicos do projecto «eram todos bateristas, os Tim Tim Por Tim Tum – Marco Franco, José Salgueiro, Alexandre Frazão e Acácio Salero. Cada um dispunha de duas guitarras portuguesas mutantes, colocadas na horizontal. Estas eram tocadas simultaneamente com baquetas, arcos de violino ou simplesmente com as mãos, numa abordagem percussionística».