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16 fevereiro, 2012

Madredeus: Nova Formação e... O Regresso à Essência


Sejam bem-vindos de novo (e boa sorte para a Beatriz, que eu conheço desde bebé)! O comunicado oficial:

«Madredeus apresenta "Essência"
Celebrando o 25º aniversário


No ano em que o Madredeus celebra o 25º aniversário, estão previstas uma série de iniciativas:

O regresso do grupo com uma nova formação:
Beatriz Nunes - Voz
Pedro Ayres Magalhães - Guitarra Clássica
Carlos Maria Trindade - Sintetizadores
Jorge Varrecoso - Violino
António Figueiredo - Violino
Luis Clode - Violoncelo


Uma tour mundial - Primeiras confirmações:

14 de Abril | Centro Cultural e de Congressos | Caldas da Rainha | Portugal - Ante-estreia
16 Abril | Barbican Centre| Londres | Inglaterra
26 Abril | Is Sanat | Istambul |Turquia
27 Maio | Casa da Musica | Porto | Portugal - *bilhetes já à venda*
31 Maio | CCB |Lisboa | Portugal - *bilhetes já à venda*
12 Junho | Festival Rio Loco |Toulouse | França
13 Junho | Festival Rio Loco |Toulouse |França
09 Outubro | Konzerthaus | Viena | Austria
11 Outubro | Philharmonie | Luxemburgo | Luxemburgo
14 Outubro | Glocke | Bremen | Alemanha
20 Outubro | Philharmonie | Colónia | Alemanha
27 Outubro | Konzerthaus | Dortmund | Alemanha
30 Outubro| AVO Session | Basel | Suiça
01 Novembro | Prinzregententheater | Munique | Alemanha
Um novo disco:
"Essência" - a ser editado em Portugal a 2 de Abril pela Sony Music


Diz a metafísica que a essência de uma coisa se constitui das suas propriedades imutáveis, daquilo que permanece e que nada, nem o tempo, altera. Terá certamente sido com esta noção por perto que Pedro Ayes Magalhães escolheu a palavra Essência para título do novo álbum do Madredeus, uma colecção de treze canções seleccionadas de um cancioneiro de quase duas centenas que o grupo construiu ao longo de um quarto de século recheado de sucessos.
O sucesso do Madredeus, no entanto, não se pode medir apenas em números: nem de discos vendidos, nem de países arrebatados em incontáveis digressões, nem de ovações de pé ou até de prémios que procuraram distinguir o carácter profundamente único da música que o grupo foi oferecendo ao mundo nestes 25 anos. O sucesso pode também ser mensurável com outra régua - a que mede o alcance da música, a permanência na memória, a vocação universalista.
Jorge Varrecoso, violinista da Orquestra do São Carlos que agora integra também a nova formação do Madredeus, terá dado o primeiro passo na direcção desta Essência quando propôs a Pedro Ayres que se vestisse o repertório clássico deste ensemble com novos arranjos. Primeiramente para um novo espectáculo, que depois desembocou naturalmente neste novo registo.
A guitarra clássica de Pedro Ayres de Magalhães e os sintetizadores de Carlos Maria Trindade juntam-se então às cordas de Varrecoso e ainda António Figueiredo e Luís Clode. A voz de Beatriz Nunes foi a derradeira peça nesta nova equação de câmara proposta para a música do Madredeus. Trata-se, explica Pedro Ayres, de "recriar através de um novo ensemble: a melodia fica muito mais apoiada, mas preservámos muito, a melodia, o ritmo, as passagens harmónicas". Ou seja, a essência.
As treze músicas eleitas percorrem os registos Os Dias da Madredeus (1987), Existir (1990), Espírito da Paz (1994), O Paraíso (1997), Movimento (2001) e Metafonia (2008) detendo-se sobretudo na primeira década dos Madredeus. A selecção, que é afinal uma amostra da nova vida dos Madredeus em palco, recaiu sobre clássicos absolutos e tesouros um pouco mais secretos como "Ao Longe o Mar", "O Pomar das Laranjeiras", "Palpitação", "A Sombra", "A Confissão", "O Navio", "Coisas Pequenas" ou, entre outros temas, "Adeus e Nem Voltei".
São canções que representam o melhor do Madredeus, a essência profunda da sua magia singular que feita música conquistou o mundo. "As palavras", garante ainda Pedro Ayres, "não perdem nada e a Beatriz respeita a mise en scéne original das frases". Porque há de facto marcas imutáveis nesta música. O fundador e líder do Madredeus tem o cuidado de sublinhar o palco como "habitat natural" destas composições que foram sendo aperfeiçoadas ao vivo, através da sua execução em frente de culturas diferenciadas, através das múltiplas formas de apreensão, de fruição, de sentir que o Madredeus foi encontrando ao longo do seu percurso pelos cinco continentes.
Ou seja, Essência resulta da evolução histórica do Madredeus, de 25 anos de uma vida intensa, sobretudo em cima dos palcos. E Pedro Ayres fala da modernidade do reportório, de como todas as músicas se foram "tornando peças da nossa nave". Peças diferentes que cumprem diferentes papeis nesse drama essencial que a música do Madredeus contem, entre o apelo universal, o âmago português, as melodias e o passo que cada tema exige. De todos esses cruzamentos, emerge uma nova ideia para o Madredeus, que aqui revisita com uma nova alma um repertório que todos vão poder reencontrar sob outra luz e com um novo alento.


www.madredeus.com
www.facebook.com/MadredeusOfficial»

21 setembro, 2009

Cacharolete de Discos - Tinariwen, Tony Allen e Madredeus


Mais três textos meus recuperados ao acervo da «Time Out Lisboa» nos último meses: as críticas aos novos álbuns dos Tinariwen, de Tony Allen e dos Madredeus & A Banda Cósmica (na foto).


TINARIWEN
«IMIDIWAN: COMPANIONS»
Independiente/Megamúsica

Apesar de existirem como banda desde 1982 - na altura ainda eles faziam parte das milícias tuaregues apoiadas e armadas por Muammar Khadafi e, segundo a história oficial, andavam com uma metralhadora a tiracolo num ombro e uma guitarra eléctrica no outro -, a verdade é que «Imidiwan: Companions» é apenas o quarto álbum em CD dos tuaregues malianos Tinariwen (sim, houve outras gravações durante os anos 80 e 90, mas só saíram em, hermmm, cassete). Mas basta uma audição deste disco para se perceber que «Imidiwan» é uma obra-prima absoluta, ainda maior que as anteriores, em que aos momentos de groove imenso (como se Jimi Hendrix gravasse com Booker T. and The M.G.'s e com Ali Farka Touré como cantor solista) se sucedem canções que podiam ser de Ry Cooder, fase «Paris, Texas», mas em que os desertos norte-americaos são substituídos pelo deserto do Saara. Perfeito! (*****)


TONY ALLEN
«SECRET AGENT»
World Circuit/Megamúsica

Já velhote - quase com 70 anos! -, o baterista nigeriano Tony Allen teve nesta década o reconhecimento que há muito merecia. Fez parte dos The Good The Bad and The Queen (ao lado de Damon Albarn, dos Blur, e do ex-The Clash Paul Simonon), gravou com Sébastien Tellier, os Air e Charlotte Gainsbourg, os gurus da world music não se cansam de dizer que, se não fosse Tony Allen não haveria afro-beat, no que têm toda a razão já que Allen, na verdade, pôs o «beat» onde o seu patrão de muitos anos, Fela Kuti, pôs o «afro». E no seu novo álbum, «Secret Agent», Tony Allen deturpa uma das regras sagradas do afro-beat - o tamanho dos temas é quase pop (quatro, cinco minutos) em vez dos longos dez, quinze minutos que são normais no género - para fazer um excelente álbum de canções, sejam cantadas por ele ou pela maravilhosa Orobiyi Adunni (aka Ayo, a autora do magnífico álbum «Joyful»). (****)


MADREDEUS & A BANDA CÓSMICA
«A NOVA AURORA»
Farol

Nove meses depois da edição de «Metafonia», o álbum de renovação/rejuvenescimento/reinvenção dos Madredeus – na sua formação alargada Madredeus e A Banda Cósmica, com duas novas e excelentes cantoras e vários instrumentos eléctricos – chega o «segundo» álbum, «A Nova Aurora». E, se alguns dos bons sinais deixados pelo anterior nele continuam – uma muito maior abertura do som do grupo em termos tímbricos, estilísticos, de género (as idas às músicas do Brasil e de Cabo Verde, aos blues e ao Havai, à África Continental e à Europa dita celta, para além de se manterem, a espaços, as bases de ligação à música portuguesa e à «matriz» melódica dos Madredeus antigos) - alguns outros, os piores, também neste «A Nova Aurora» saem reforçados: uma perigosíssima aproximação ao rock sinfónico, à new age, a algumas facilidades pop que não são, de todo, necessárias num grupo com o nome e o peso e a marca Madredeus. Disco conceptual – que fala de uma nova era de harmonia em todo o universo, em letras que fazem uma estranha ponte entre «Eram os Deuses Astronautas?», Paulo Coelho e o Padre António Vieira -, «A Nova Aurora» começa com uma bela canção, «Não Estamos Sós”» (entre o «Zen» da Rokia Traoré e Madredeus vintage, com uma harpa a soar a kora mandinga). O segundo tema, «Suspenso no Universo», remete directamente, mas sem destoar, para os Heróis do Mar. E, lá para a frente, «Vai Sem Medo» é José Afonso em formato cocktail lounge, o que – por estranho que pareça - até soa bastante bem. Mas também há muitos outros temas (com letras declamadas - !!! -, guitarras eléctricas pinkfloydianas da pior fase, teclados gongóricos à Jean Michel Jarre ou... a rockalhada completamente escusada que encerra o álbum, «Baloiçando nas Estrelas») que fazem «A Nova Aurora» desequilibrar-se para uma «twilight zone» qualquer em que ficamos sem perceber que música é, afinal, esta. (**)

13 outubro, 2008

Madredeus (Modificados) Renascem... Onde Nasceram


Há quase um ano, neste blog - quando se soube da saída de Teresa Salgueiro, José Peixoto e Fernando Júdice dos Madredeus -, e quando muito se especulou acerca da viabilidade de uns Madredeus reformulados, principalmente de uns Madredeus reformulados... sem Teresa Salgueiro, escrevi: «Sempre gostei mais dos Madredeus da primeira fase: a riqueza tímbrica dada por um leque alargado de instrumentos - a voz de Teresa, a guitarra de Pedro, o sintetizador de Rodrigo, o acordeão de Gabriel Gomes, o violoncelo de Francisco Ribeiro (numa mistura inusual de instrumentos clássicos, eléctricos e populares que depois se tornou quase um paradigma de muitas bandas portuguesas e estrangeiras) -, a simplicidade melódica das primeiras composições e o arrebatamento de uma música nova dos primeiros anos nunca depois foi igualado. E, nos últimos anos dos Madredeus, notava-se o cansaço daquilo tudo: da «fórmula», dos músicos, da voz de Teresa. E, se calhar, a saída de José Peixoto (extraordinário guitarrista), de Fernando Júdice (baixista da melhor escola) e da diva-musa-cantora Teresa Salgueiro foi o melhor que poderia ter acontecido aos Madredeus».

E, em jeito de voto para o futuro, escrevi também: «Há uma lenda que circula no meio musical português e que dá conta da existência de um baú - de uma espécie de «arca do tesouro» - em que Pedro Ayres tem guardadas centenas de canções originais, à espera de ver a luz do dia. Não se sabe se é verdade - é essa a força das lendas! - mas acredito que sim, que esse baú existe e, se não com centenas, com algumas dezenas de composições. Na minha humilde opinião, Pedro Ayres Magalhães é o maior e melhor compositor português dos últimos vinte anos. E, para além de compositor, um homem de ideias, de luzes, de missões a cumprir. Acredito - e faço votos para - que os Madredeus vão continuar, rejuvenescidos, com música e músicas novas - músicas saídas do cérebro de Pedro Ayres e de Carlos Maria, ele também um compositor talentoso -, com outra voz, com outros músicos. E com um novo sopro de vida. A música portuguesa precisa deles. Precisou há vinte anos. Precisa agora, ainda».

Agora, a notícia: os Madredeus continuam com Pedro Ayres e Carlos Maria Trindade ainda ao leme, com duas novas vozes - as de Mariana Abrunheiro e Rita Damásio -, e um leque alargado de instrumentistas acompanhantes, a Banda Cósmica, onde se realça a presença de instrumentos nunca usados pelo grupo como a guitarra eléctrica, a bateria, a harpa, as percussões ou o violino. E o regresso faz-se com um duplo-álbum, «Metafonia» (na foto) e uma série de concertos no lugar mítico em que o grupo nasceu: o Teatro Ibérico, em Lisboa, dias 6, 7, 8, 13, 14 e 15 de Novembro. A seguir, a apresentação do álbum e os pormenores do novo grupo e o alinhamento completo de «Metafonia»:


«Madredeus & A Banda Cósmica

METAFONIA

Edição dia 20 de Outubro

(Distribuição Farol)

METAFONIA é um duplo CD, editado independentemente por Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade

Os Madredeus começaram a ensaiar a introdução da harpa na sua oficina de composição em Dezembro de 2007, e a preparar os arranjos do novo e antigo reportório, enquanto procediam a audições para novas cantoras. Após o trabalho com a harpa de Ana Isabel Dias, convidaram a percussão afro de Ruca Rebordão e depois a secção rítmica, com Sérgio Zurawski na guitarra eléctrica, Gustavo Roriz na guitarra-baixo e contrabaixo e Babi Bergamini na bateria. Jorge Varrecoso integra estes CD’s como violinista convidado. O progresso dos arranjos musicais acompanhou o trabalho com diversas vozes até às sessões de gravação. A escolha final das canções foi decidida pelas excepcionais interpretações de Rita Damásio e Mariana Abrunheiro.

A nova formação dos Madredeus pretendeu inventar uma concepção nova de música cantada em português para grandes espectáculos, inspirada na diversa tradição das suas próprias composições, e nos arranjos da música popular da Europa, da África Ocidental e do Brasil.

A Pedro Ayres Magalhães (Guitarra Clássica) e Carlos Maria Trindade (Sintetizadores) juntaram-se:

Mariana Abrunheiro - Voz
Rita Damásio – Voz
Ana Isabel Dias - Harpa
Sérgio Zurawski - Guitarra Eléctrica
Gustavo Roriz – Guitarra Baixo
Ruca Rebordão – Percussão
Babi Bergamini – Bateria
Jorge Varrecoso – Violino
Sofia Vitória, Cristina Loureiro e Marisa Fortes – Coros

METAFONIA, foi gravado nos estúdios Música Nómada em Pavia, no Alentejo, entre 4 e 29 de Agosto de 2008.

Misturado nos Garate Studios, em Andoain, País Basco (Espanha), entre 1 e 14 de Setembro de 2008.

Engenheiros de som - Jorge Barata e Jonathan Miller

Masterizado por Andrew Jackson,Tube Audio,Ltd,Londres

Direcção Musical e Produção de Pedro Ayres Magalhães»

Alinhamento:

CD1 - Inéditos

01. Vou (larga o navio)
02. O Eclipse (Habitas no meu pensamento)
03. A profecia atlântica
04. Uma caipirinha
05. Um amor assim, o que será
06. Inventar (meditar no contratempo)
07. Voava na noite
08. A comunhão das vozes
09. Dança de Outono
10. Lisboa do mar
11. A estrada da montanha
12. Uma pausa

CD2 - Clássicos

01. O mar
02. Ao crepúsculo
03. O navio
04. O paraíso
05. Coisas pequenas
06. Agora - Canção aos Novos
07. Anseio (Fuga apressada)

11 dezembro, 2007

Madredeus - Uma Homenagem ao Passado e Um Voto Para o Futuro


Há alguns dias, Teresa Salgueiro anunciou oficialmente a sua saída dos Madredeus para se dedicar à sua carreira a solo, uma carreira que, em apenas um ano, se repartiu por três projectos: um álbum com canções brasileiras, «Você e Eu», outro com clássicos de sempre da música mundial, «La Serena», e, mais recentemente, a obra de grande fôlego «Silence, Night & Dreams», do compositor polaco Zbigniew Preisner. Paralelamente, Pedro Ayres Magalhães, o líder, guitarrista e principal compositor do grupo, confirmou a saída de Teresa Salgueiro e adiantou ainda que também o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice (ambos envolvidos no Sal) lhe tinham comunicado a sua saída do grupo no Verão deste ano. Nos Madredeus restam, portanto, Pedro Ayres e o teclista Carlos Maria Trindade (velhos companheiros dos longínquos tempos dos Corpo Diplomático e dos Heróis do Mar), que, aparentemente, querem seguir com os Madredeus como um projecto vivo e actuante, pondo Pedro Ayres a hipótese de o grupo continuar com outros músicos... e uma outra cantora. Acho bem!

Há quem não imagine os Madredeus sem Teresa Salgueiro... Mas porque não? Se bem me lembro, a Resistência, outra invenção de Pedro Ayres que contava com uma série de homens a cantar (Tim, Miguel Ângelo, Olavo Bilac, Fernando Cunha, o próprio Pedro Ayres...) até começou, na sua primeira encarnação, com três cantoras (a Filipa Pais, a Anabela Duarte e a Teresa Salgueiro, que protagonizaram o primeiro concerto da Resistência na Feira do Livro de Lisboa, em 1990). E, quer se queira quer não, os Madredeus sempre foram mais Pedro Ayres - e, no início, mais Pedro Ayres e Rodrigo Leão - do que Teresa Salgueiro, uma excelentíssima cantora, sim!, mas sempre posta ao serviço de uma ideia de música. Uma ideia que pôs a música tradicional portuguesa (da música urbana, o fado, a músicas rurais) em contacto com muitas outras músicas: a pop, a bossa-nova, a música cabo-verdiana, a escola minimal-repetitiva, a elegância posta ao serviço da world music tal como estabelecido pela Penguin Cafe Orchestra. E, numa altura em que se começava a falar, exactamente, de world music, os Madredeus levaram a música portuguesa aos maiores palcos mundiais, com um profissionalismo e - muitas vezes - uma capacidade de sacrifício notáveis. Há quem, na música e na cultura portuguesa, tenha visto passar os comboios. Os Madredeus não; apanharam-no logo e não só ocuparam a carruagem da frente como foram muitas vezes a locomotiva para que outros pudessem vir atrás: Dulce Pontes, Cristina Branco, Mariza, etc, etc... devem aos Madredeus terem depois tirado bilhetes de primeira classe para essas mesmas viagens. E nem Amália, a maquinista-pioneira deste comboio, levou alguma vez a música portuguesa tão longe quanto eles.

Sempre gostei mais dos Madredeus da primeira fase: a riqueza tímbrica dada por um leque alargado de instrumentos - a voz de Teresa, a guitarra de Pedro, o sintetizador de Rodrigo, o acordeão de Gabriel Gomes, o violoncelo de Francisco Ribeiro (numa mistura inusual de instrumentos clássicos, eléctricos e populares que depois se tornou quase um paradigma de muitas bandas portuguesas e estrangeiras) -, a simplicidade melódica das primeiras composições e o arrebatamento de uma música nova dos primeiros anos nunca depois foi igualado. E, nos últimos anos dos Madredeus, notava-se o cansaço daquilo tudo: da «fórmula», dos músicos, da voz de Teresa. E, se calhar, a saída de José Peixoto (extraordinário guitarrista), de Fernando Júdice (baixista da melhor escola) e da diva-musa-cantora Teresa Salgueiro foi o melhor que poderia ter acontecido aos Madredeus.

Há uma lenda que circula no meio musical português e que dá conta da existência de um baú - de uma espécie de «arca do tesouro» - em que Pedro Ayres tem guardadas centenas de canções originais, à espera de ver a luz do dia. Não se sabe se é verdade - é essa a força das lendas! - mas acredito que sim, que esse baú existe e, se não com centenas, com algumas dezenas de composições. Na minha humilde opinião, Pedro Ayres Magalhães é o maior e melhor compositor português dos últimos vinte anos. E, para além de compositor, um homem de ideias, de luzes, de missões a cumprir. Acredito - e faço votos para - que os Madredeus vão continuar, rejuvenescidos, com música e músicas novas - músicas saídas do cérebro de Pedro Ayres e de Carlos Maria, ele também um compositor talentoso -, com outra voz, com outros músicos. E com um novo sopro de vida. A música portuguesa precisa deles. Precisou há vinte anos. Precisa agora, ainda.

26 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XX.1 - Robert Johnson



Mito maior dos blues, o cantor e guitarrista norte-americano Robert Johnson (de nome completo Robert Leroy Johnson, nascido a 8 de Maio de 1911 em Hazlehurst, Mississippi, falecido a 16 de Agosto de 1938), foi um compositor, músico e cantor tocado pela mão de Deus, apesar de, como alegadamente conta a lenda, ele ter vendido a alma ao diabo numa encruzilhada, de modo a poder ser o maior guitarrista do mundo. Lenda faustiana à parte, a verdade é que Robert Johnson fez a ponte entre os blues rurais do delta do Mississippi e outros sons que ia ouvindo na rádio, lançando as sementes daquilo que vinte anos depois da sua morte viria a ser o rock'n'roll. Morto muito jovem (na idade «fatal» dos 27 anos), Johnson deixou apenas 29 canções originais gravadas, mas as suficientes para que se tornasse o ídolo de gente como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Phish, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Rolling Stones, White Stripes ou os nossos Nobody's Bizness.


Cromo XX.2 - Madredeus



Os Madredeus foram, nos últimos vinte anos, a maior exportação da música portuguesa, numa escala só comparável à da diva Amália Rodrigues, muitos anos antes deles. Criados em 1985 pelo guitarrista Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o teclista Rodrigo Leão (Sétima Legião), a eles juntaram-se o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro, que gravaram um ano depois «Os Dias da Madredeus», um álbum que lançava logo as pistas pelas quais a música do grupo se viria a reger depois: uma mistura de fado, música popular portuguesa e os ensinamentos globais da Penguin Cafe Orchestra. Apesar de ao longo dos anos terem tido profundas alterações na formação - numa segunda fase, Leão, Gomes e Ribeiro saíram, entrando o teclista Carlos Maria Trindade, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice; e numa terceira, Teresa Salgueiro, Peixoto e Júdice deixaram o grupo, que reencarnou em 2008 como Madredeus & A Banda Cósmica -, os Madredeus contam com centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro e com um pico de glória: a música e participação no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders.


Cromo XX.3 - Cheikha Rimitti



Antes de Khaled, Cheb Mami ou Rachid Taha terem feito a ligação entre o género argelino rai e as músicas ocidentais, a fabulosa cantora argelina Cheikha Rimitti (de verdadeiro nome Saadia El Ghizania, nascida a 8 de Maio de 1923, em Tessala, falecida a 15 de Maio de 2006, em Paris), cultivou este género, o rai, na sua forma mais pura e excitante mas também, em anos mais recentes, com outras fusões, como quando gravou com Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Órfã, a jovem Saadia iniciou a sua carreira musical aos 15 anos, quando se estreou como cantora e dançarina num grupo de música tradicional argelina. Atrevendo-se a cantar temas brejeiros e de uma sexualidade implícita - interditos às mulheres em público -, a sua fama começou a espalhar-se por toda a Argélia durante a segunda guerra mundial. Compositora prolífica - estimando-se o seu espólio em cerca de 200 canções originais -, Cheikha gravou o seu primeiro disco em 1952 e chegou à fama internacional apenas nos anos 80. Ainda a tempo de a conhecermos e amarmos.


Cromo XX.4 - Peter Gabriel



Cantor, músico, compositor e performer único, Peter Gabriel (aqui numa pintura de Neal Hamilton) é uma das mais importantes personagens do longo e belo filme de amor entre o rock e a world music. Começando a sua carreira como vocalista do fundamental grupo de rock progressivo Genesis, em 1967, Gabriel (Peter Brian Gabriel, nascido a 13 de Fevereiro de 1950 em Chobham, no Surrey, Inglaterra) envereda em 1976 por uma carreira a solo que o levaria gradualmente à descoberta de muitas músicas e de muitos músicos que existem por esse mundo fora. O pico dessa descoberta é o álbum «Passion», de 1989 (banda-sonora do filme «A Última Tentação de Cristo») e o seu álbum-irmão «Passion - Sources», compilação de música da Arménia, Egipto, Senegal, Índia, Irão, Marrocos, etc, que o inspirou para o álbum de originais. A criação do festival WOMAD, da editora Real World e da organização de direitos humanos Witness fizeram, e fazem, o resto da sua história.

03 janeiro, 2007

Teresa Salgueiro e Sal - Madredeus em Novos Caminhos


Os Madredeus entraram agora em «ano sabático», segundo as palavras de Pedro Ayres Magalhães ao desmentir a dissolução do grupo, e começam a saber-se novidades sobre os novos projectos de alguns dos elementos do grupo. Para já, a mais «bombástica» é a do novo rumo da carreira da cantora Teresa Salgueiro (na foto, de Daniel Blaufuks), que estreia nos próximos dias em S.Paulo, Brasil, o seu reportório dedicado à bossa-nova e à música popular brasileira, reportório que também integra o seu primeiro álbum a solo (se considerarmos que «Obrigado» era um álbum de colaborações e duetos e não um verdadeiro disco a solo), com edição marcada para Março. A outra, mais discreta mas não menos excitante (pelo que promete musicalmente), é a do projecto «Sal», com José Peixoto e Fernando Júdice a bordo.

Teresa Salgueiro apresenta-se ao vivo no Golden Cross Jazz Club/Tom Jazz, em S.Paulo, dias 10, 11, 12 e 13 de Janeiro, interpretando «standards» de bossa-nova e de MPB compostos por Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Pixinguinha, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Dolores Duran, Luiz Bonfá, Ismael Neto, Antonio Maria, Carlos Lyra e Henricão, entre outros, sendo acompanhada pelos músicos João Cristal (piano), Nailor Proveta (saxofone e clarinete), Marcos Paiva (baixo acústico), Paulo Dafilin (guitarra), Daniel de Paula (bateria) e Maria Diniz e Adriana Dré nos coros. Os mesmos músicos que participam no álbum em que Teresa Salgueiro interpreta 22 temas brasileiros e que a EMI portuguesa edita em Março deste ano. Em Abril, Teresa Salgueiro inicia uma digressão mundial com espectáculos baseados neste alinhamento.

Entretanto, os seus colegas José Peixoto (guitarra) e Fernando Júdice (baixo acústico) - eles que já tinham protagonizado o álbum «Carinhoso», também dedicado à música brasileira (chorinhos) - estão envolvidos num novo projecto de nome Sal, em que também participam a fadista Ana Sofia Varela e o percussionista Vicky. O projecto apresenta-se dia 4 de Março na Casa da Música, Porto, e segundo o press-release inserido no site desta sala de espectáculos, «Sal cruza música de raiz ibérica com a dimensão atlântica do percurso lusófono» e «surge como herdeiro de um legado fadista, recusando‑se a sê‑lo pela diferença da instrumentação e (por) um sentimento onde o convívio da diferença se alia despreocupadamente à mestiçagem da forma».

18 outubro, 2006

José Peixoto - Para Além dos Madredeus


Agora que o futuro dos Madredeus está em aberto - a sua agência espanhola, Syntorama, anunciou o final do grupo e o início da carreira a solo de Teresa Salgueiro; Pedro Ayres Magalhães nega o fim mas confirma 2007 como «ano sabático» dedicado aos projectos individuais dos seus integrantes -, recupero aqui duas entrevistas com José Peixoto, o genial guitarrista dos Madredeus e o mais prolífico dos seus músicos, e com os seus dois companheiros nestas aventuras: o igualmente Madredeus Fernando Júdice (com José Peixoto, na foto) no projecto que deu origem ao álbum «Carinhoso» (2002) e a cantora Filipa Pais no duo que produziu «Estrela» (2004). Entre os dois ficou «Aceno» (2003) e, depois disso, o guitarrista também já nos ofereceu «Cacus», em parceria com o violinista Carlos Zíngaro (2005), e «Pele», em parceria com a cantora Maria João (2006).


CARINHOSO
UM CHORINHO (FELIZ)

Dentro de uma viagem podem coabitar muitas viagens. No caso destes dois músicos, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice, as viagens dos Madredeus também lhes serviram para iniciar uma outra, rumo à música de Pixinguinha e de outros chorinhos brasileiros. No regresso a casa, há um disco, «Carinhoso», onde ao lado de vários instrumentais surgem três temas cantados (Maria João, Manuela Azevedo, dos Clã, e Luís Represas são as vozes presentes). Um disco de amor com final feliz.

Como é que dois músicos portugueses se apaixonam pela música de um compositor brasileiro?

Fernando Júdice - Isso acontece um bocado por acaso. E o factor «acaso» é importante na génese deste projecto. O que nós queríamos de início era alguma coisa que nos entretivesse nas nossas viagens, nos tempos livres. Nós vamos ocupando os tempos livres a tocar, nos quartos de hotel...

Não vão para os copos e coisas assim?

José Peixoto - Não, não. Se o fizéssemos não podíamos depois trabalhar de manhã.

F.J. - E temos famílias. A nossa vida é mais virada para o dia do que para a noite, senão quando chegamos a casa o choque é muito grande. E precisávamos de praticar nas guitarras... Depois de muito procurar, sem encontrar nada que nos agradasse, estávamos em S. Paulo, no Brasil, e o Zé apareceu com um livro de chorinhos. Tinha dois do Pixinguinha, mas o resto não era dele. Pegámos em duas músicas ao acaso e começámos a tocar. Um deles chama-se «Chorando em S.Paulo», o que fazia sentido, e imediatamente sentimos empatia com aquela música e que era uma boa matéria-prima. Aquilo dava-nos espaço para imaginar coisas e funcionava bem com os nossos dois instrumentos. No meio do livro estava o «Carinhoso», do Pixinguinha, e isso foi definitivo. O tema bateu de uma maneira! No dia seguinte voltámos à mesma loja e comprámos um livro só com coisas do Pixinguinha. Isto foi o início do processo.

J.P. - A revelação dessa música fez-nos procurar mais coisas dele. Não houve qualquer ideia prévia, do género «vamos tocar Pixinguinha».

Querem falar um pouco da importância do Pixinguinha no contexto da música brasileira? A obra dele, cá, não é muito conhecida...

J.P. - E nós também fomos constatando a sua importância à medida que íamos descobrindo a música dele. O Pixinguinha é uma figura incontornável na música brasileira, sendo considerado por muitos como o pai da música popular brasileira. Antes do Pixinguinha, a composição e orquestração eram muito importadas da Europa ou da América. E o Pixinguinha deu-lhe um carácter regional, brasileiro, que até aí não tinha. Há como que uma divisão temporal - Antes de Pixinguinha e Depois de Pixinguinha.

Pode dizer-se, então, que o Pixinguinha deu «brasileiridade» à música brasileira?

J.P. - Exacto. E ele conjugava esse talento de compositor e orquestrador com o de instrumentista. De tal maneira que influenciou definitivamente muitos outros músicos brasileiros nestas três áreas. Também era muito bom improvisador. Ele sintetizou o choro, a forma do choro, naquilo que ele se tornou, estando também na génese de vários movimentos musicais, como a bossa-nova. Todos foram beber ao Pixinguinha. O Hermeto Pascoal, o Egberto Gismonti... E até um compositor erudito como o Villa-Lobos dizia que o mestre dele era o Pixinguinha.

F.J. - O Villa-Lobos dizia que tinha sido formado na Universidade de Pixinguinha. Ele foi o primeiro brasileiro a levar a música brasileira para fora do Brasil. Com excelentes críticas em França - era para ficar a tocar um mês em Paris, ficou seis.

Vocês encontram algum ponto de contacto entre o chorinho e a música portuguesa, nomeadamente o fado?

F.J - Não, não me parece. Há muitas teorias sobre a génese do fado e há uma, especificamente, sobre as ligações do fado ao Brasil. Mas provavelmente o fado não tem uma origem, tem várias. E não há nenhuma teoria definitiva.

J.P. - Mas talvez essa ligação exista em termos emocionais. A saudade, a tristeza, o fado dos portugueses degredados no Brasil podem ter estado presentes na origem do chorão, que deu origem ao choro e ao chorinho. Só os nomes dizem tudo. Há quem defenda que o choro é uma música negra com uma melodia branca. Pode haver uma raiz comum...

F.J. - Mas se isso existe é dessa forma subliminar. Musicalmente não há uma ligação directa, nem uma derivação directa. A música vem da alma e, a esse nível, pode sempre haver ligações.

No álbum não surgem apenas temas do Pixinguinha. Há dois ou três de outros compositores...

J.P. -- Um é o «Chorando em S.Paulo», porque foi o primeiro que tocámos e se revelou uma música extraordinária. E o outro é o célebre «Tico Tico no Fubá», que apesar de não ser do Pixinguinha, ele gravou em dueto: o Pixinguinha no saxofone e o Lacerda, flautista.

Como é que vocês passaram de «estudos de técnica instrumental» - como referem os vossos press-releases - para uma obra de arte, que é o disco?

F.J. - Foi uma coisa que aconteceu com naturalidade. A nossa ideia não era fazer um disco, mas quando nos centrámos naquelas músicas, começámos a gravá-las, até para referência nossa, quando tínhamos o arranjo de cada música feito. E começámos a gostar daquilo que estávamos a fazer, para além de termos recebido opiniões entusiásticas de amigos nossos a quem nós mostrávamos aquilo. A ideia do disco foi crescendo gradualmente, derivando do resultado do nosso trabalho. A própria ideia dos cantores só surgiu quando já estávamos quase a começar a gravar o álbum...

Porque é que convidaram aqueles cantores e não outros para colaborar? A Maria João trabalhou muitas vezes com o José Peixoto; o Luís Represas e o Fernando Júdice foram colegas nos Trovante durante muitos anos. A Manuela Azevedo é que é uma surpresa.

J.P. - Foi fácil. Como eram três canções, eu escolhi um, o Fernando escolheu outro, e o terceiro escolhíamos os dois. E foram um bocado óbvias as nossas escolhas pessoais, por causa do passado comum da Maria João comigo - apesar de há dez anos não fazer nada com ela - e do Luís Represas com ele. Com a Maria João havia a certeza de que o resultado iria ser bom...

F.J. - E para mim era óbvio que só podia ser a voz do Luís que cabia naquela canção («Lamentos»). Sempre o ouvi cantar música brasileira, como segunda paixão, fora do Trovante.

J.P. - Entretanto, descobrimos que quer eu quer o Fernando éramos grandes admiradores da voz da Manuela Azevedo. Nós não a conhecíamos pessoalmente mas desafiámo-la e ela aceitou. E foi ela que decidiu que ia cantar a música («Carinhoso») em português de Portugal e não do Brasil, ao contrário dos outros dois que cantaram naturalmente em «brasileiro». Achámos um pouco estranho, mas ela fez o primeiro «take» e ficou - estava tão bom que não era preciso dizer mais nada.

Porque é que não convidaram a vossa colega de Madredeus, Teresa Salgueiro? E, já agora, o que é que os outros pensam disto? Acham bem? Acham mal?

F.J. - Não sei se acham bem ou mal, mas naturalmente acham bem.

J.P. - Acham bem, quanto mais não seja porque há um ano e meio que levam connosco nos camarins a tocar estas coisas (risos).

F.J. - A questão da Teresa... A Teresa é uma cantora extraordinária. E é uma pessoa com quem dá um prazer enorme ter a cantar ao lado. Mas isto foi uma coisa feita num contexto perfeitamente marginal ao nosso trabalho nos Madredeus. E quando se pôs a questão dos cantores, já muito tarde neste processo, todo este universo musical estava construído e definido. Quando começámos a falar em cantores, quisemos, quase naturalmente, puxar isto para um contexto exterior ao nosso universo normal de trabalho. Não evitámos a Teresa.

J.P. - Não há nenhuma obrigação, dentro dos Madredeus, de estarmos sempre a trabalhar uns com os outros. E uma das coisas mais gratificantes da actividade artística é podermos descobrir coisas novas e trabalhar com pessoas diferentes. Se temos o privilégio de trabalhar, quase diariamente, com a Teresa, não é uma rejeição não trabalharmos com ela numa coisa destas.

Apesar de já terem tocado com muita gente e passado por estilos diferentes, vocês têm os dois formação de jazz. Como é vocês se sentem num projecto com pauta escrita? Houve algum espaço para a improvisação neste trabalho?

J.P. - Houve espaço para a composição do arranjo. Improvisação não, porque até chegar àquela forma cristalizada já o Pixinguinha devia ter feito todas as improvisações possíveis. Nós tínhamos uma linha melódica e uma cifra, e não nos desviámos disso - tocámos exactamente o que lá estava -, mas com essa criatividade nos arranjos.

F.J. - Apesar de haver uma melodia escrita e uma cifra harmónica, podemos ter um espaço de manobra considerável, que é o tal espaço em que se constrói o arranjo; em que se pode seguir a harmonia que ali está mas também se pode alterar ligeiramente de acordo com a construção do arranjo que vai sendo construído. Tu ouves um disco genuíno de choros brasileiros, e o nosso não se parece nada com eles, porque a linguagem é outra, a instrumentação é outra, a nossa alma é outra. Aquilo surge na nossa cabeça de uma maneira particular.

O José Peixoto também é compositor, o Fernando Júdice - tanto quanto eu sei - não tanto. Porque é que avançaram para um disco de versões em vez de fazer um de originais?

J.P. - Porque os livros que nós comprámos já lá tinham a música escrita. Se estivessem em branco (risos)... Isso tem a ver com a primeira pergunta. Isto tem tudo a ver com o facto de querermos qualquer coisa com que nos entretêssemos a tocar. Nunca nos passou pela cabeça fazermos uma coisa de raiz, de originais. Não era esse o objectivo.

Como é que está a carreira a solo de José Peixoto?

J.P. - Está boa. Em princípio, vou gravar um novo álbum agora. E apesar de ser uma coisa marginal e com pouca visibilidade, enquanto eu tiver saúde vai continuar.

E haverá alguma vez um álbum de Fernando Júdice?

F.J. - Essa é uma questão que não se põe.

Vai haver continuidade para este projecto? Concertos? Um novo disco?

J.P. - Não sabemos. Assim como não pensávamos fazer um disco, também ainda não pensámos o que vai ser o futuro. Não há espectáculos pensados.

F.J. - Vai ser difícil fazermos espectáculos, até pelo tipo de ocupação que nós temos, com os Madredeus. E isto é uma coisa pequena, especial, com pouco reportório...

J.P. - Isto tem um carácter amador. A eventual profissionalização deste projecto iria mudar tudo, mas isso não está no nosso horizonte.



SINTETIZADOR
FILIPA PAIS/JOSÉ PEIXOTO

Trabalharam juntos na Lua Extravagante, cruzaram-se fugazmente no álbum Aceno, encontraram-se agora a tempo inteiro para um álbum completo: «Estrela».

«Estrela» é um álbum de canções compostas por José Peixoto (guitarrista dos Madredeus e dono de uma já considerável discografia a solo) que só precisavam de uma voz. E a escolha do músico recaiu em Filipa Pais (que foi da Lua Extravagante e editou dois álbuns a solo; nos últimos anos também envolvida em espectáculos do grupo de teatro O Bando). Diz Peixoto: «Conhecemo-nos nos concertos e na gravação do disco da Lua Extravagante [início dos anos 90]. E houve logo ali um entendimento que deu pistas para a vontade futura de fazermos qualquer coisa em conjunto. Essa vontade existiu sempre, mas o encontro foi sendo sucessivamente adiado... até que aconteceu», e acrescenta Filipa: «Voltámos a encontrar-nos para o álbum dele, "Aceno", em que canto dois temas... E no final do ano passado começámos a trabalhar neste álbum, "Estrela"».

Pergunto a Peixoto se existiu desde o início da composição destes temas a consciência de que estas seriam canções para uma voz e não instrumentais. Diz que sim: «Tenho logo a noção de quando uma peça é instrumental e quando não é. A própria estrutura melódica conduz-me à forma canção ou não». Já Filipa, diz ela, sentiu-se «muito confortável nestas canções. Aqui estou a cantar num registo mais grave, mais intimista, mas há muito tempo que queria experimentar este registo da minha voz». Pelo meio do processo surge também o poeta João Monge (autor de letras para os Trovante, Ala dos Namorados e Rio Grande), responsável pelos textos cantados em «Estrela» - Filipa conta, arrepiada com a coincidência, que só descobriu depois que vive na mesma casa em que Monge passou a sua infância e juventude.

Outros cúmplices activos no processo foram o produtor Mário Barreiros e os outros músicos participantes: Mário Delgado (guitarra, steel-guitar, sitar eléctrica...), Yuri Daniel (contrabaixo) e Quiné (percussões). Peixoto diz que «já tínhamos trabalhado com todos eles, mas nunca tínhamos estado todos juntos como estamos aqui. E já sabia que trabalhando com eles ia ter boas surpresas. São pessoas criativas, que acrescentaram coisas e optimizaram aquelas canções».

O álbum vive de universos sonoros bastante variados - da música tradicional ao psicadelismo, do jazz à pop, de ambientes de Norte de África ao Brasil... E não é nada fácil «encaixá-lo» em prateleiras ou géneros. José Peixoto diz que não se preocupa muito com isso, «mas é capaz de caber naquele grande saco, lato e abrangente, da world music. Se formos por exclusão de partes, isto não é jazz, não é música tradicional, não é música erudita...». Já Filipa diz, divertida, que chama a esta música «pop cota». E Peixoto acrescenta entre risos que o próximo disco dos dois será o «pós-cota». Outra promessa: as canções do álbum já foram «testadas» ao vivo em showcases nas FNACs e num festival em Castro Verde, mas haverá mais concertos assim que as agendas dos dois - ou dos cinco - o permitirem.

26 setembro, 2006

Madredeus - Uma Viagem Interminável


Se se consultar o site dos Madredeus (na nova lista de links aqui ao lado, ainda à espera de mais acrescentos meus e de quem me esteja a ler), poderá verificar-se facilmente que o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães (e José Peixoto, Carlos Maria Trindade e Fernando Júdice) continua a levar a sua música, e a música portuguesa, a muitos lugares, numa digressão que parece não terminar, nunca. E que está ainda ligada ao álbum «Um Amor Infinito» - a propósito do qual recupero aqui uma entrevista com Pedro Ayres Magalhães, de Maio de 2004 - e àquele que foi registado nas mesmas sessões de gravação («Faluas do Tejo», editado em 2005). Depois disso, Teresa Salgueiro lançou o álbum a solo «Obrigado», no Natal do ano passado, mas de um disco novo - e do «fechar de ciclo» de que Pedro Ayres fala nesta entrevista - do grupo não se sabe nada...


MADREDEUS
OBRIGADO

O novo álbum dos Madredeus, «Um Amor Infinito», é ao mesmo tempo o fechar de um ciclo e um agradecimento aos seus fãs e à sua cidade de origem, Lisboa. A palavra a Pedro Ayres Magalhães...

«Um Amor Infinito» é o novo conjunto de canções dos Madredeus. Canções que falam, algumas delas, de Lisboa, cidade que assistiu ao nascimento do grupo mas que, ao longo de anos de viagens contínuas, só de vez em quando é morada habitual de alguns dos músicos dos Madredeus. Não por acaso, «Um Amor Infinito» tem um sub-título, em letras mais pequeninas, «Lisboa 2004». Diz Pedro Ayres (fundador, guitarrista e ainda o principal compositor do grupo): «É como se fosse a assinatura de um quadro... Nós temos o desidério de fazer uma música universal, de tocar para muitos públicos diferentes, mas as nossas obras correspondem a um período, como se fosse o período de um pintor ou de um escultor ou de um fotógrafo». E, antes ainda de explicar este reacender da paixão por Lisboa, Pedro explica o conceito de «período artístico»: «Isto pressupõe a existência de um atelier, de uma oficina, em constante aperfeiçoamento, e em que cada período cria um reportório para si próprio que tenta satisfazer melhor que o anterior as características estilísticas, históricas, do grupo, e as actuais». E Lisboa?... «Neste caso, o disco foi gravado em Lisboa - o nosso último disco que tinha sido gravado em Lisboa foi o «Existir» [1990] - e corresponde a uma mudança de estratégia do grupo: antes do «Movimento» tocávamos o ano todo ininterruptamente, e a partir do «Movimento», o grupo, para se manter unido, decidiu só tocar 15 dias por mês. E esta fase é aquilo que eu chamo "a fase do acampamento em Lisboa". E isso tornou-nos, de novo, cidadãos de Lisboa, porque há anos que não púnhamos cá os pés. Este disco tem treze canções, mas ficaram muitas de fora: em cada disco, que acaba por ser o reportório de concerto que vamos apresentar a seguir, preparamos sempre outras canções para o concerto que não entram no disco. E neste reportório estão canções inspiradas ou dedicadas a Lisboa, e estão também canções destinadas à juventude de todo o mundo, um pouco como a "Canção aos Novos", como agradecimento a todos aqueles que nos ouviram e acarinharam ao longo destes anos todos...».

O reportório de «Um Amor Infinito» é, na prática, o reportório do quinto concerto apresentar pelos Madredeus. Um disco - e a digressão que aí vem - que marca, também o fechar de um ciclo do grupo: «Temos a sensação de que o grupo vai ter que, depois disto, renovar-se de alguma forma. Neste disco atingimos a mais sofisticada criatividade que é possível dentro do contexto de desenvolvimento deste grupo. Não vejo isto como chegar aos nossos limites, mas mais como chegar aos limites do tempo... Nunca soubemos o nosso futuro, como ainda não sabemos... e quis escrever uma canção chamada "Um Amor Infinito" porque quis que ficasse na memória do nosso público como o agradecimento final dos Madredeus, a grande vénia ao extraordinário estímulo que recebemos de tantas minorias em tantos lugares do mundo - e falo em minorias porque o Madredeus é um grupo completamente fora do mainstream: é um grupo sem bateria, que canta em português... mas que foi recebido nos grandes teatros do mundo para apresentar todos os seus concertos... Os Madredeus, em quase todo o lado, são só conhecidos por algumas elites: veja-se, por exemplo, a relação da comunidade emigrante portuguesa com os Madredeus, que é praticamente nula; nós tocamos em Paris, por exemplo, e há portugueses mas há muitos mais franceses...».

O conceito por trás do álbum não se cinge, no entanto, às duas vertentes já referidas. O instrumental «O Olival» passa por músicas de várias épocas e vários lugares e tem, segundo Pedro Ayres, um objectivo que pode ser traduzível por palavras: «A oliveira é a árvore de Jerusalém, do Médio Oriente... O símbolo dos Templários era uma folha de oliveira e a minha inspiração para esse tema veio da linha de castelos templários ao longo da fronteira portuguesa... e seguindo essa linha percebe-se onde estava o agressor, percebe-se que não estava do lado de cá porque os castelos eram construídos para defesa. E fiz esse tema também para chamar a atenção para o estado de muitos desses castelos, que estão em ruínas, largados ao abandono, e que deveriam ser recuperados. Poderiam ser um chamariz turístico valiosíssimo, com gente de toda a Europa a vir visitar o roteiro dos castelos dos Templários: mais do que o vinho, mais do que a praia, mais do que o Manuelino...».

Essa preocupação com o passado e com a História de Portugal não é estranha a todo o percurso criativo dos Madredeus: «Sim, os Madredeus continuam a encenar a Saudade: são uma mulher [Teresa Salgueiro] sozinha em palco com os músicos lá atrás a fazer uma música que emula o mar, que emula o vento; e aquela mulher espera que alguma coisa aconteça, não se sabe muito bem o quê...». E acrescenta: «A música dos Madredeus é toda feita para a Teresa: ou quando ela canta, ou quando ela se cala... E todo o reportório dos Madredeus pode ser visto como se fosse uma colecção de vestidos para a Teresa. E numa certa época fica-lhe bem o amarelo, e noutra época fica-lhe bem o azul... Eu, como director artístico do grupo, tento ser sempre sensível quando escolho as canções que vamos levar para o palco e/ou para as gravações. Para além de que a identificação dos Madredeus ao passado é feito através da Teresa, e das duas guitarras clássicas, mas principalmente da Teresa».

A formação dos Madredeus continua a ser a mesma dos últimos anos: Teresa Salgueiro (voz), Pedro Ayres Magalhães (guitarra), José Peixoto (guitarra), Carlos Maria Trindade (sintetizadores) e Fernando Júdice (baixo acústico). E pergunto a Pedro Ayres se os Madredeus nunca sentiram a necessidade de recuperar a variedade tímbrica dos primeiros anos (quando também conviviam com acordeão e violoncelo)... Pedro responde que «os Madredeus vivem da exequibilidade e da independência do nosso grupo. Estes Madredeus vivem no limite daquilo que é possível organizar de forma independente. E a entrada de outros músicos punha-nos problemas até a nível logístico: quando viajamos compramos um bilhete de grupo para dez pessoas [os músicos e os técnicos], um a mais e ficaria muito mais caro. Pode parecer uma questão sem importância, mas não é, porque nós não temos subsídios de maneira nenhuma e temos que pensar nessas coisas... Essa liberdade permite-nos ir tocar a todos os pontos do mundo, o que de outra maneira - se fôssemos um grupo mais caro - já não nos seria permitido...». E acrescenta ainda outra razão: «O Madredeus é uma sociedade, não há músicos contratados, e somos um grupo ímpar, com cinco elementos, o que nos permite tomar decisões muito mais facilmente quando um dos elementos pode desempatar as questões... Nós não nos associámos para tocar até ao fim da nossa vida; associámo-nos para tocar até 2007, daqui por três anos; o que não quer dizer que não continuemos depois disso... E dentro de uns meses, em 2005, saímos de Lisboa com o nosso "submarino", vencemos mais uma vez o bloqueio à música não comercial e fazemos um concerto em que a música é tocada pelas nossas próprias mãos...». E depois?... «E depois já não é garantido que façamos um disco num estúdio, podemos fazê-lo em minha casa; e depois já não é garantido que lancemos um disco como o conhecemos até aqui: posso distribuí-lo na internet, com as pessoas a pagarem com cartão de crédito. Posso vir a fazer uma rádio, a Rádio Madredeus - porque a rádio não passa as nossas canções... Não sei. E é também por isso tudo que falo no fim de um ciclo».

Paralelamente, falo-lhe de rumores que circularam há alguns anos acerca da possibilidade de o grupo alargar o leque de instrumentos, nomeadamente com a entrada do flautista Rão Kyao. Pedro diz que é verdade: «Já pensámos em juntar outros músicos, pontualmente. O Rão Kyao, mas também já pensámos numa guitarra portuguesa e até num percussionista brasileiro com quem tocámos no Brasil e aquilo resultou muito bem, tal como resultou uma experiência que fizemos com a cantora peruana Tania Libertad... Nunca enjeitámos a ideia de colaborações: os concertos com a orquestra belga foram produzidos por nós, mas com um dispêndio de energia e de tempo muito maior... E o nosso grupo atingiu uma versatilidade que já não precisa de outros músicos». Uma das ideias primeiras dos Madredeus era até, em cada país por onde passassem, convidar músicos ou cantores locais para os seus concertos, mas, mais uma vez, a logística raramente o permitiu - «Era preciso chegarmos três dias antes, ensaiar, trabalhar com eles e por aí fora...» - e o calendário apertado das digressões - concertos diários em cidades diferentes, muitas vezes em países diferentes... - tem impedido este propósito.

09 setembro, 2006

Atlantic Waves - Montra Portuguesa em Londres


O extraordinário Festival Atlantic Waves - a maior mostra de música portuguesa (muitas vezes em excitantes cruzamentos com músicas, e músicos, de outras partes do mundo) - ocupa vários palcos londrinos na sua edição deste ano, comemorativa do 50º Aniversário da presença da Fundação Calouste Gulbenkian na Grã-Bretanha. O festival decorre durante todo o mês de Novembro, em várias salas da capital inglesa - Royal Albert Hall, South Bank Centre, Barbican, Union Chapel, The Spitz e St. Giles Cripplegate - e apresenta música feita por artistas do nosso país e do Reino Unido, Alemanha, Dinamarca, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Cabo Verde, Angola, Madagáscar, Tuva, Coreia do Sul, Japão e Austrália, em muitos casos em duetos e colaborações inesperadas.

Entre o elenco do festival contam-se concertos de Mariza (na foto) - com Carlos do Carmo, o maestro e violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum e o cabo-verdiano Tito Paris como convidados especiais -, Madredeus, Arditti Quartet (com o percussionista Pedro Carneiro), Carlos Bica (com Kang Tae Hwan, Miyeon e Park Je Chun), Maria João e Mário Laginha, Carlos Zíngaro e Carlos Santos (com Ned Rothenberg e Kang Tae Hwan); concertos de música africana com Sara Tavares, Tcheka e Modeste; música improvisada por David Maranha e Margarida Garcia (os dois com convidados, em vários concertos e formatos, como Arnold Dreyblatt, Mark Sanders, Hannah Marshall, Jacob Kirkegaard, Philip Jeck, Z’EV, Robert Rutman e Oren Ambarchi), Victor Gama (em duas propostas, com Thomas Köner, Asmus Tietchens e Max Eastley como convidados), Paulo Raposo (com Akira Rabelais), Alfredo Costa Monteiro (com John Duncan); e, a finalizar o festival, dois agrupamentos livres e inusitados na exploração da voz: Janita Salomé com a diva do canto politónico de Tuva Sainkho Namtchylak e a não menos extraordinária cantora Tanya Tagaq (cantos inuit do Canadá), e Maria João e Américo Rodrigues com Dokaka (Japão) e Shlomo (Reino Unido), dois respeitados nomes do beat-box vocal. Site oficial do festival: www.atlanticwaves.org.uk/