
O Ocidente (e quando falo em «ocidente» falo da Europa e dos Estados Unidos) sempre teve um grande fascínio pelos sons vindos do, em sentido lato, Oriente. E aqui o Oriente pode assumir a forma do Japão, da China, da Índia ou, um pouco mais perto de nós, da Turquia e dos países do norte de África. Hoje, no Raízes e Antenas, há lugar para a fusão de músicas (e músicos) ocidentais com músicas (e músicos) do norte de África e da Turquia: o álbum de colaboração dos DuOud - o duo de Smadj e Mehdi Haddab (na foto) - com Abdulatif Yagoub, Bodyshock e Maghrebika com Bill Laswell.
DUOUD & ABDULATIF YAGOUB
«SAKAT»
Indigo Records
Os DuOud são um maravilhoso exemplo de como as músicas tradicionais se podem misturar na perfeição com programações electrónicas, efeitos de estúdio, estilos «ocidentais» (dub, breakbeats, rock vindo de guitarras eléctricas, etc, etc...), sempre sem perder a essência e a verdade da música de raiz e a pureza dos seus instrumentos: as vozes, os sopros, as percussões, as cordas. DuOud, trocadilho - e se se reparar bem, DuOud pode ler-se de trás para a frente - com as palavras «duo» e «oud» (o alaúde árabe), é o grupo de dois músicos residentes em Paris, o tunisino Jean-Pierre Smadja (também conhecido como o DJ, produtor e engenheiro-de-som Smadj) e o argelino Mehdi Haddab (também dos Ekova). E, apesar de ambos tocarem oud - o que está bem presente no seu álbum de estreia, «Wild Serenade» -, para este segundo disco, «Sakat», os dois convocaram o cantor e mestre do alaúde Abdulatif Yagoub e ainda Ahmed Taher (que toca mismar, um instrumento de sopro), músicos que os DuOud «descobriram» no Iémen, durante uma digressão pelo norte de África. E foi no Iémen que o duo gravou, com Yagoub, Taher e os seus percussionistas, vários temas tradicionais que depois trabalharam e pós-produziram em Paris. Mas fizeram-no com tal paixão e arte que o resultado final nunca sufoca a música de raiz, antes sublinhando-a e levando-a para lugares belos e inesperados. Faz lembrar, só por vezes, o que Brian Eno e David Byrne fizeram em «My Life In The Bush of Ghosts»; e isso é bom! (9/10)MAGHREBIKA
«NEFTAKHIR»
Barraka el Farnatshi/Barbarity
Embora não seja tão bom quanto «Sakat», o primeiro álbum de estreia dos Maghrebika, «Neftakhir», é também um feliz encontro entre músicos e produtores «ocidentais» - o germano-suiço Pat Jabbar (fundador da editora Barraka el Farnatshi, colaborador da cantora Sapho e o «descobridor» dos históricos Aisha Kandisha's Jarring Effects) e o «maior trabalhador do mundo da música depois de Frank Zappa» Bill Laswell (tal é a quantidade de discos e projectos em que se ele mete) - com dois argelinos radicados na Suiça, Abdelkader Belkacem e Abdelaziz Lamari, mais alguns músicos do norte de África e ainda as cantoras das B-Net Marrakech (cinco mulheres berberes que já tinham antes colaborado com Rachid Taha e Cheb I Sabbah). E o resultado do encontro é uma viagem, em primeira classe, por géneros norte-africanos - o rai, o gnawa, o shabee... - polvilhados por electrónicas variadas (lounge, trip-hop, dub, até o tecno - cf. em «Matkhafsh»), tudo locomovido pelo baixo eléctrico de Laswell. E se bem que, comparativamente com o álbum dos DuOud, as electrónicas e os efeitos de estúdio tenham em «Neftakhir» um peso maior, o álbum dos Maghrebika ouve-se quase com o mesmo agrado, sendo muitas vezes também viciosamente dançável. (8/10)BODYSHOCK
«THE BELLYDANCE PROJECT»
Caravan Records
Claramente o menos interessante deste lote de três discos, «The Bellydance Project», dos Bodyshock - projecto de um homem só, o compositor, produtor e autor de bandas-sonoras Rabih Merhi - poderá ser, no entanto, um rebuçadinho para muitos DJs em busca de músicas exóticas/orientais propulsionadas a ritmos das pistas de dança ocidentais. Com inúmeras alusões à música turca, à música árabe, até à música indiana (em «Namaste») e à rembetika grega (em «Athena») - e fazendo uso de imensos instrumentos tradicionais (alaúdes, bendires, darabukas, bouzouki, ney, etc, etc), os géneros e os intrumentos tradicionais são depois mergulhados num caldo de efeitos electrónicos, sintetizadores, beats que nem sempre resultam - o primeiro tema, «Sahara Spirit», é simplesmente horrível! - mas que por vezes até conseguem passar mais ou menos despercebidos, lá mais para o fim do disco. E, para fazer alguma justiça ao título, quase todos os temas até são bons para exercícios variados de «dança-do-ventre». (5/10)
