Mostrar mensagens com a etiqueta Mali. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mali. Mostrar todas as mensagens

18 fevereiro, 2013

Resistência Maliana Invade FMM de Sines!

Em ano de regressos prometidos dos maiores nomes da música que já passaram pelas catorze edições anteriores do Festival, e numa altura em que a situação no Mali merece toda a nossa atenção, faz todo o sentido que sejam estes os primeiros nomes confirmados para 2013 (texto pilhado directamente do blog Grandes Sons, do camarada João Gonçalves): «Mali em Sines: Amadou & Mariam, Bassekou Kouyaté e Rokia Traoré no FMM 2013 Berço de formas ancestrais dos blues e do rock e pátria de alguns dos mais criativos músicos do mundo, o Mali é um país fundamental da geografia da música popular contemporânea. Num momento em que a guerra e o fundamentalismo ameaçam um património imperecível da humanidade, o FMM Sines faz questão de que as primeiras três confirmações oficiais da sua 15.ª edição cheguem do coração sonoro de África. Amadou & Mariam Amadou & Mariam são um dos grupos africanos mais aclamados na cena internacional. Representam a abertura da música do Mali ao cruzamento com géneros que, sendo hoje assumidos como criações ocidentais, têm afinidades antigas com a África Ocidental: o blues especialmente, mas também a sua descendência no rock e no funk, por exemplo. Estão juntos como casal desde o final dos anos 1970, quando Amadou, um guitarrista rodado em orquestras de hotéis, conhece a jovem cantora Mariam no instituto de cegos de Bamako. Depois de um percurso longo em África, tornam-se conhecidos de um público mais alargado com os primeiros discos com edição internacional, na viragem do século, e sobretudo com a edição de “Dimanche a Bamako”, em 2004. Este disco, produzido por Manu Chao, um dos mais vendidos de sempre da música africana, trouxe-os pela primeira vez ao FMM Sines, em 2005. Em 2013, voltam ao festival com outro disco, “Folila”, nomeado para o Grammy na categoria World Music este ano, e concebido em torno de duas sessões de gravação, uma mais “cruzada”, realizada em Nova Iorque, e outra mais próxima das raízes, realizada em Bamako, exemplo perfeito da sua música simultaneamente antiga e moderna, retro e futurística, orgânica e eletrónica. Bassekou Kouyaté & Ngoni Ba Ao contrário de Amadou & Mariam, em que as miscigenações globais são mais ostensivas, Bassekou Kouyaté vive mais perto da fonte dos blues africanos. O seu disco de estreia, “Segu Blue”, baseado em textos sobre a resistência do império Bamana à ocupação colonial, foi considerado o melhor de 2007 nos prémios da BBC e Bassekou, ele próprio, foi eleito o melhor artista africano do ano. Em 2008, esteve pela primeira vez no FMM Sines, num concerto no Centro de Artes de Sines. Natural de uma aldeia perto da cidade de Segu, nas margens do Níger, Bassekou pertence à elite musical do Mali, tendo trabalhado ao lado de génios como Ali Farka Touré e Toumani Diabaté. Com Ngoni Ba forma um quarteto acústico de “ngoni” (tipo de alaúde africano), o instrumento de que é um dos maiores embaixadores e que voz da sua mulher, Amy Sacko, acompanha em disco e em palco. Depois do segundo álbum, “I Speak Fula”, lançado em 2009 e nomeado para um Grammy, regressa ao FMM Sines para apresentar o disco que acaba de lançar no início de 2013, “Jama Ko”, gravado por Howard Bilerman (Arcade Fire, Godspeed You! Black Emperor, Coeur de Pirate). Rokia Traoré Uma cantautora que derruba todos os estereótipos da figura da “diva africana”, Rokia Traoré (na foto) representa a expressão mais cosmopolita e vanguardista da música contemporânea do Mali. Filha de um diplomata, teve oportunidade de viajar e isso sente-se sua música, onde se ouve a voz dos “griots”, mas também o jazz, a soul, o rock, a pop, os blues, em formações musicais quase sempre pouco convencionais para a música africana. Desde o seu primeiro disco, “Mouneïssa” (1998), que é amada pelo público e pela crítica. “Wanita” (2000) foi premiado pela BBC e eleito álbum do ano pela fRoots e “Bowmboï” (2003) foi novamente premiado pela BBC. Foi com estes discos na bagagem que se estreou em palcos portugueses no FMM Sines, em 2004. “Tchamanché”, de 2008, o disco com que entrou sem complexos nos blues e no rock, trouxe-a de volta a Sines nesse mesmo ano, para aquele que foi considerado quase unanimemente o melhor concerto da 10.ª edição do festival. A terceira vinda ao festival, este ano, é marcada pelo lançamento mundial de um disco novo, “Beautiful Africa”, produzido por John Parish, agendado para abril próximo. O festival em 2013 O FMM Sines – Festival Músicas do Mundo é o maior evento de “world music” e outras músicas realizado em Portugal. Em 2013, o festival acontece entre os dias 18 e 27 de julho e celebra a sua 15.ª edição. O alinhamento desta edição comemorativa incluirá alguns dos projetos que mais marcaram o FMM ao longo da sua história e artistas que nunca vieram ao festival e que representam o presente e o futuro das músicas com raízes (mas não grilhetas) na tradição. A estética do cruzamento e da abertura e a ética da convivência e da justiça continuarão a orientar a programação. A dimensão de festa que o festival sempre teve e irá manter não se esgotará em si mesma, procurando contribuir com uma riqueza de expressões, pontos de vista e realidades que ajudem a compreender e a agir sobre o mundo em que vivemos.»

11 novembro, 2012

Amadou & Mariam - Na Gulbenkian, Às Escuras

Vai ser, por certo, uma experiência única: a admirável dupla maliana Amadou & Mariam (na foto, de Marie Dagnaux), vai apresentar na Gulbenkian, em Lisboa, dia 18 deste mês, o espectáculo «Eclipse», em que os espectadores vão ouvir música -- e percepcionar outras sensações -- completamente às escuras. Como este é um espectáculo especial há algumas regras que é necessário seguir. Está tudo explicado aqui em baixo: «Domingo, 18 Nov 2012, 19:00 - Grande Auditório AMADOU BAGAYOKO (voz, guitarra) MARIAM DOUMBIA (voz) MAMANI KEITA (voz) YAO DEMBELE (baixo elétrico) YVO ABADI (bateria) ALI KEITA (balafon) MADOU DIABATE (kora) IDRISSA SOUMAORO (teclados) Músicas do Mundo: Eclipse AVISO Informamos que o espetáculo ECLIPSE decorre na total escuridão e terá a duração de 75 minutos. Por razões de segurança, toda a sala foi equipada com um sistema de visão noturna. Em caso de emergência, desconforto, indisposição, ou desorientação que provoque a necessidade de sair da sala, deverá o espetador agitar no ar o programa. Um assistente irá imediatamente ao seu encontro e prestará o auxílio necessário. Para garantir o sucesso do espetáculo é obrigatório respeitar e aceitar as seguintes regras: 1. Todos os objetos, sacos, malas ou casacos deverão ser entregues no Bengaleiro; 2. Todos os equipamentos passíveis de emitir luz, som ou vibração (telemóveis, relógios, etc.) deverão estar desligados. 3. É proibida a entrada na sala de qualquer dispositivo de gravação vídeo ou som; 4. Após o início do espetáculo não será possível a entrada ou reentrada na sala. ECLIPSE é um espetáculo que pretende exacerbar a estimulação dos sentidos como o olfato e a perceção da temperatura ambiente, que poderá oscilar entre 15º e 30º Celsius; Desejamos que apreciem esta experiência multissensorial. A Fundação Calouste Gulbenkian reserva o Direito de Admissão perante o não cumprimento das determinações referidas. A dupla formada pelos malianos Amadou Bagayoko e Mariam Doumbia há muito que se tornou um dos nomes mais fortes do circuito da world music. Mas se já não é novidade a capacidade de estabelecer pontes com a música ocidental (Manu Chao, Damon Albarn, TV on the Radio), o espetáculo Eclipse aproxima-nos como nunca antes das suas canções: totalmente às escuras, neste espetáculo multissensorial ser-nos-á contada a história do casal amblíope e ouviremos as suas composições tal como eles – com a dispensa da imagem.»

01 abril, 2009

Rokia Traoré - Concertos no Porto e em Lisboa


Depois do maravilhoso espectáculo na noite de encerramento do FMM de Sines do ano passado, a cantora maliana Rokia Traoré regressa ao nosso país para espectáculos no Porto (Casa da Música, dia 27 de Maio) e Lisboa (Lux, um dia depois), ainda em apresentação do novo álbum «Tchamantché». O comunicado da organização:


«Rokia Traoré Ao Vivo

É uma das vozes mais importantes do continente africano, mas é a universalidade que faz dela uma artista de eleição.

Rokia Traoré em Portugal numa produção Mandrake.

Rokia Traoré alcançou, definitivamente, um estatuto só ao alcance dos artistas mais prodigiosos. Com «Tchamantché», o 4º álbum de originais, a cantora, compositora e guitarrista do Mali arrastou o culto para fora das fronteiras tradicionais da «world-music» e agarrou com elegância a crítica e público de todos os quadrantes.

A música de Rokia Traoré, sublime na sua transversalidade, não se limita aos ritmos tradicionais do Mali, vai mais além: o Funk, o Blues, o Jazz e o Rock, são géneros em destaque numa sonoridade original e muito sofisticada. Ao vivo, Rokia Traoré começa lentamente a conquistar a audiência com ritmos jazz para, gradualmente, dar lugar a ritmos mais festivos que facilmente passam do palco para a plateia.

A guitarra eléctrica «Gretsch», a harpa, o «N’Goni» (guitarra maliana), a voz sussurrante, as letras na língua Bambara, os instrumentos clássicos, tudo em perfeita harmonia, criam uma atmosfera fabulosa que não deixa ninguém indiferente e, muito menos, parado.

A festa fica marcada para os próximos dias 27 de Maio, na Casa da Música, Sala 2, no Porto, e 28 de Maio em Lisboa, no Lux. Pela primeira vez, Rokia Traoré apresenta-se em Portugal em concerto próprio e o entusiasmo é enorme para ver e ouvir esta genial intérprete, tantas vezes elogiada pelo seu conterrâneo Ali Farka Touré.

PORTO | CASA DA MÚSICA – SALA 2 | 27 MAIO – 21H30 | 22 EUROS

LISBOA | LUX | 28 MAIO – 22H00 | 22 EUROS»

09 setembro, 2008

Rokia Traoré, Toumani Diabaté e Richard Bona - África Cada Vez Mais Global


Em tempo de regresso às lides, aqui ficam hoje três textos publicados originalmente na revista «Time Out Lisboa» há alguns meses, sobre os discos mais recentes de três nomes incontornáveis da música africana: Rokia Traoré (na foto), Richard Bona e Toumani Diabaté. E todos eles passaram por cá também durante o Verão para concertos em festivais ou em espectáculos em nome próprio.


TOUMANI DIABATÉ
«THE MANDÉ VARIATIONS»
World Connection/Megamúsica

Ouvir a música de Toumani Diabaté - assim, em estado puro, só os seus dedos a percorrerem a kora (a harpa dos países da região mandinga) - é como escutar o som da água de um rio que corre (e esse rio tanto pode ser o Niger como o Mississippi como o Tejo, pelas sonoridades que cada um deles imediatamente congrega, ou até um rio algures no Extremo Oriente - oiça-se o primeiro tema, «Si Naani»). Um rio de caudal largo mas em que cada gota, cada som, cada nota, que sai dos dedos mágicos de Toumani tem o mesmo valor de outra (sua) gota qualquer. Cúmplice de músicos tão diferentes quanto Ali Farka Touré (ao qual é dedicado um dos temas de «The Mandé Variations») ou Bjork, os Ketama ou Taj Mahal, Toumani Diabaté mostra-se neste disco - e sem a companhia da sua Symmetric Orchestra - em toda a sua essência e mostra aquilo que é desde há muito tempo: o maior intérprete de kora do mundo e um músico e compositor extraordinário. Uma obra-prima. (******)


ROKIA TRAORÉ
«TCHAMANTCHÉ»
Universal Music France

Apenas dez anos de carreira musical foram suficientes para que Rokia Traoré se estabelecesse como um dos nomes maiores da música africana actual e uma cantautora com uma voz própria e pessoalíssima. Requisitada para colaborações com gente tão diferente quanto o Kronos Quartet, com quem se apresentou em Lisboa a semana passada e que também participou no seu álbum «Bowmboi», ou grupo de hip-hop senegalês Daara J, Rokia atinge no seu novo álbum «Tchamantché» um patamar de excelência difícil de igualar por muitos dos seus pares. Equilibrando muitíssimo bem - «Tchamantché» quer dizer exactamente «equilíbrio» em língua bambara - a música de inspiração pan-africana com muitas outras músicas, dos blues e do jazz ao rock e ao hip-hop (oiça-se a «human beat box» em «Zen»), e instrumentos tradicionais africanos como o n'goni e as percussões com instrumentos exteriores como a guitarra eléctrica Gretsch - que ela própria toca - ou a harpa. E o resultado é um disco variadíssimo, cantado em bambara, francês (a canção «Zen» poderia fazer parte do reportório de Camille) e inglês (o standard de jazz «The Man I Love», numa versão maravilhosa), em que África está sempre presente – canções como «Dounia», a fabulosa «Kounandi» (diálogo de voz, n'goni, guitarra eléctrica e uma harpa a fazer de kora) a mais festiva «Koronoko» ou a politicamente interventiva «Tounka» só poderiam sair da pena de uma africana -, mas filtrada pelo génio de uma compositora que já viu muito mundo e já ouviu muita música. E que, sem complexos nem barreiras nem fronteiras, faz do mundo casa sua e de muita música a sua música. (*****)



RICHARD BONA
«BONA MAKES YOU SWEAT - LIVE»
Emarcy/Universal Music


Assim como a música africana influenciou decisivamente o jazz e os blues, e a partir daí, toda a música moderna anglo-saxónica, também muitos e respeitados músicos africanos foram ao "ocidente" buscar boa parte da sua inspiração musical: Fela Kuti foi a James Brown; Ali Farka Touré a John Lee Hooker; Abdullah Ibrahim (aka Dollar Brand) a Thelonious Monk. E Richard Bona vai a... Jaco Pastorius. Mas, um «mas» enorme!, o camaronês Bona é um baixista fabuloso que não precisa de referências para se impor; é um cantor maravilhoso; e é um amante de música que consegue neste álbum - gravado ao vivo na Hungria, em 2007 - mostrar bem as suas raízes africanas, em ritmos e melodias (oiça-se a balada «Kivu & Suninga»), e muitas outras paixões: da salsa a Stevie Wonder, de Joe Zawinul a John Legend... (*****)

17 maio, 2008

Rokia Traoré no FMM de Sines


A extraordinária cantora, compositora e guitarrista maliana Rokia Traoré (na foto, de Richard Dumas) é um dos nomes confirmados para a noite de encerramento da edição 2008 do FMM de Sines, dia 26 de Julho. Antes disso, na próxima terça-feira, dia 20, no Centro Cultural de Belém, Rokia sobe ao palco como convidada do Kronos Quartet, mas será em Sines que irá mostrar a, entre alguns mergulhos no passado, a música do novo álbum, dedicado à memória de Ali Farka Touré, «Tchamantché». O comunicado da organização do FMM reza assim: «A maliana Rokia Traoré, uma das mais originais cantautoras da música mundial, está presente, dia 26 de Julho, na décima edição do Festival Músicas do Mundo de Sines (FMM Sines), onde apresentará ao vivo o seu novo disco, “Tchamanché”. Rokia Traoré é uma cantautora que derruba todos os estereótipos da “diva africana”. Filha de um diplomata, teve oportunidade de viajar e isso sente-se. Conhece os "griots", mas também o jazz, a música clássica, o rock, os blues, a música indiana. Tudo isso está nas suas canções, pérolas de depuração acústica. Desde o seu primeiro disco, “Mouneïssa” (1998), que é amada por público e crítica. "Wanita" (2000) foi premiado pela BBC e eleito álbum do ano pela fRoots. O quase perfeito “Bowmboï” (2003), que contou com a colaboração dos Kronos Quartet, foi novamente premiado pela BBC. No âmbito deste último trabalho, Rokia estará em Lisboa no próximo dia 20 de Maio para uma participação especial no concerto que o quarteto dará no Centro Cultural de Belém.... No espectáculo que realizará em Julho no Castelo de Sines, o palco histórico da “world music” em Portugal, Rokia apresentará o seu novo disco, “Tchamanché”, pela primeira vez ao vivo no nosso país. Com lançamento mundial marcado para o próximo dia 19 de Maio, “Tchamanché” significa uma nova encarnação da sua carreira, em que entra de forma ainda mais assumida na área dos blues e do rock. Nesta fase, Rokia está apaixonada pela sua “Gretsch”, a guitarra eléctrica clássica preferida pelas bandas de “rockabilly” dos anos 60 e 70. Em “Tchamanché” cruza-a de forma orgânica com instrumentos tradicionais como o “n’goni” e instrumentos da música clássica ocidental, como a harpa. As canções, quase todas com letras na língua Bambara, abordam temas tão diferentes quanto a imigração ilegal de África para a Europa e a força das festas de rua africanas, havendo também espaço para “covers” pessoalíssimos, como o que faz do clássico “The Man I Love”, popularizado por Billie Holiday. O maior festival de “world music” do país, o FMM Sines apresentará 40 concertos na sua edição de 2008. Serão distribuídos por quatro palcos: Centro de Artes, Castelo e Avenida Vasco da Gama, na cidade de Sines, e palco de Porto de Covo».

13 maio, 2008

Festival Med de Loulé - Amadou & Mariam, Deolinda e Solomon Burke juntam-se a Balkan Beat Box


Dos Balkan Beat Box já se sabia, mas sabem-se agora mais três nomes que fazem parte do Festival Med de Loulé, que decorre de 25 a 29 de Junho: o do grande mestre da soul music Solomon Burke (na foto) e o do fabuloso casal de malianos Amadou & Mariam, para além dos nossos Deolinda (ver calendário no post que lhes é dedicado, algumas páginas abaixo, neste blog). Segundo um comunicado da Pure.Ativism, «esta iniciativa, promovida e organizada pela Câmara Municipal de Loulé, já na 5ª edição, visa divulgar a cultura dos países mediterrânicos e do mundo, proporcionando o contacto com as várias manifestações culturais, com especial relevo para a música... Em termos musicais, este festival aposta claramente na divulgação de artistas e conceito “world music”, tendo como critério base a excelência dos projectos musicais e a manifestação das suas origens. Durante cinco dias, o Med apresenta mais de 40 nomes, entre bandas e DJs, num cartaz que integra ritmos de Espanha, Itália, Marrocos, Portugal, Jamaica, Mali, entre muitos outros países... Mais do que uma mostra musical, este festival pretende ser um palco para outras manifestações culturais, afirmando-se como uma janela para o mundo, um local onde se podem conviver de perto com outras culturas, experienciar hábitos diferentes e provar os “sabores mediterrânicos”. De 25 a 29 de Junho, Loulé veste-se de cores quentes e, pelas ruas, será possível assistir a teatro e animação de rua, demonstrações originais de artes plásticas, provar iguarias gastronómicas».

04 março, 2008

Bassekou Kouyate, KTU e Justin Adams & Juldeh Camara no FMM de Sines


À medida que os dias passam, mais e mais nomes vão chegando para encher - e bem! - o cartaz da 10ª edição do FMM de Sines. Desta vez, e via Crónicas da Terra e Juramento Sem Bandeira chegam-nos mais três nomes de peso para o alinhamento final: o maliano Bassekou Kouyate (na foto, de Manfred Schweda), o extraordinário intérprete de n'goni que acompanhou Ali Farka Touré, fez parte da Symmetric Orchestra de Toumani Diabaté e editou o ano passado o álbum, com o seu grupo Ngoni Ba, «Segu Blue» (ver crítica ao disco, no Raízes e Antenas, aqui); o regresso dos KTU, incendiário projecto do acordeonista finlandês Kimmo Pohjonen acompanhado pela secção rítmica dos King Crimson (o baixista Trey Gunn e o baterista Pat Mastelotto); e a estreia em Portugal do duo de Justin Adams (guitarrista que já colaborou, ou ainda colabora, com Brian Eno, Jah Wobble, Natacha Atlas, Tinariwen, Sinéad O'Connor, Robert Plant...) com Juldeh Camara, um griot da Gâmbia que canta e toca o violino de uma corda só ritti, ambos acompanhados pelo percussionista Salah Dawson Miller, que fez parte dos míticos 3 Mustaphas 3. Datas das actuações: Bassekou Kouyate a 17 de Julho (em Porto Covo); Justin Adams & Juldeh Camara a 23 de Julho; KTU a 25 de Julho.

03 março, 2008

Toumani Diabaté - Akora É a Vez do Porto e de Lisboa


Depois de dois concertos memoráveis em Sines e no Seixal, Toumani Diabaté (na foto, de Mário Pires, da Retorta) vem akora - pois, o trocadilho é tão parvo que decidi usá-lo duas vezes! - tocar à Casa da Música, Porto, dia 28 de Maio, e à Culturgest, em Lisboa, dia 31 do mesmo mês, segundo avançam as Crónicas da Terra. O mestre maliano da kora - a harpa mandinga - apresenta-se desta vez em solo absoluto, sem a Symmetric Orchestra, interpretando temas do seu recentíssimo álbum «The Mandé Variations», todo ele dedicado inteiramente e em exclusivo aos sons da kora. Um facto raro numa carreira cheia de colaborações riquíssimas - de Ali Farka Touré a Taj Mahal, dos Ketama a Bjork - e em que é preciso recuar quase vinte anos para se encontrar outro álbum de Toumani exclusivamente dedicado à kora, «Kaira».

18 outubro, 2007

Tinariwen e Vieux Farka Touré - O Deserto Aqui Tão Perto


E mesmo que não se possa ir ao deserto, o deserto pode vir até nós: é já amanhã, dia 19, que a fabulosa banda de músicos tuaregues Tinariwen (na foto) regressa a Lisboa para um concerto integrado na extensão que passa pela Europa e pelos Estados Unidos do Festival au Désert. Mas, como é sabido, não vêm sozinhos: na primeira parte terão o músico e cantor maliano Vieux Farka Touré, filho de Ali Farka Touré mas já senhor de uma voz própria e que o destaca da sombra tutelar do seu pai. Prevê-se mais uma noite inesquecível de música africana, desta vez no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, num fim-de-semana a que o CCB chama 3=6 (3 Dias, 6 Concertos, Muitas Músicas) e que inclui ainda espectáculos do flautista português Rão Kyao acompanhado pelo intérprete chinês de peipá Yanan (amanhã, no Pequeno Auditório), da pianista clássica Anne Kaasa (sábado, no Pequeno Auditório), do pianista de jazz Chick Corea (sábado, no Grande Auditório), do fadista Pedro Moutinho (domingo, no Pequeno Auditório) e da pop inteligente e encantatória do antigo vocalista dos Japan, David Sylvian (domingo, no Grande Auditório). Ainda antes do concerto em Lisboa, os Tinariwen e Vieux Farka Touré apresentam-se hoje, dia 18, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.

23 setembro, 2007

Tinariwen e Vieux Farka Touré - Para Ficarmos Todos Com Areia Dentro dos Bolsos



Os leitores deste blog sabem do amor que tenho aos tuaregues Tinariwen (podem procurar por aqui críticas aos discos «Amassakoul» e «Aman Iman» e a reportagem do fabuloso concerto que eles deram no MED de Loulé) e o respeito com que recebi o álbum de estreia, homónimo, de Vieux Farka Touré (na foto), filho do grande Ali Farka (ver crítica ao álbum algures neste blog, em conjunto com o disco de Afel Bocoum & Alkibar). E agora a boa notícia: tanto os Tinariwen quanto Vieux Farka Touré (este em estreia no nosso país) vêm dar concertos a Portugal, integrados na digressão de promoção ao Festival au Désert - que todos os anos decorre em Janeiro, no Mali - e desta vez tem uma extensão na Europa e Estados Unidos. Os concertos estão marcados para dia 18 de Outubro no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, e um dia depois no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Ainda não há muitos mais detalhes sobre o assunto (preços, etc.) mas ficamos, para já, com a certeza de que vamos ficar com os bolsos cheios de areia - na expressão mais que feliz de alguém que viu os Tinariwen mas que já não me lembro quem foi...

13 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXV.1 - Ali Farka Touré



Um dos maiores músicos e cantores das últimas décadas, Ali Farka Touré (Ali Ibrahim «Farka» Touré, nascido a 31 de Outubro de 1939, em Kanau, Mali, de etnia djerma/songai, e falecido a 7 de Março de 2006 em Bamako, Mali) foi o homem que fez a ponte entre a música tradicional da África ocidental e os blues, demonstrando - na prática e não só na teoria - onde nasceu a grande música negra norte-americana. Instrumentista de génio - na njarka e nas guitarras acústicas e eléctricas-, Ali Farka foi também um homem de acção, tendo contribuído decisivamente para o desenvolvimento da sua localidade de residência, Niafunké (o seu nascimento, vida e morte sempre balizados pelas margens do rio Niger). Para a história ficam muitos álbuns gravados a solo ou em parceria com gente como Ry Cooder, Toumani Diabaté ou Taj Mahal, e um concerto extraordinário e inesquecível no África Festival, em Lisboa, em 2005.


Cromo XXV.2 - Blowzabella



Pergunte-se a qualquer músico (ou quase) do circuito de recuperação das danças tradicionais europeias qual o grupo que mais o influenciou e a resposta só pode ser uma: os Blowzabella, grupo inglês nascido em 1978, em Whitechapel, Londres, pelas mãos de dois gaiteiros e flautistas (o australiano Bill O’Toole e o inglês Jon Swayne). Destes dois, foi Swayne que continuou a banda ao longo destas três décadas, tendo os Blowzabella sofrido numerosas mudanças de formação até ao actual line-up, um super-grupo formado, veja-se só, por Andy Cutting, Jo Freya, Paul James, Gregory Jolivet, David Shepherd, Barn Stradling e o próprio Jon Swayne. Ferozmente acústicos, usando e abusando de gaitas-de-foles, sanfonas e violinos, muitos tradicionais recuperados e muitíssimos originais entretanto compostos pelo grupo recriaram e criaram um reportório que agora é comum a milhares de outros músicos. Siga a dança!

Cromo XXV.3 - Esquivel



Esquivel - ou Esquivel!, com ponto de exclamação -, de nome completo Juan García Esquivel (nascido em Tampico, Tamaulipas, México, a 20 de Janeiro de 1918, falecido a 3 de Janeiro de 2002) foi um dos maiores representantes da música exotica e da música lounge, baptizado com epítetos como «The King of Space Age Pop» ou «The Busby Berkley of Cocktail Music». Pianista, fortemente influenciado pela música do seu país e de outros territórios da América Latina, Esquivel era também um apaixonado pelo jazz e pelo experimentalismo sonoro, nomeadamente com as possibilidades da emergente estereofonia. Tudo junto contribuiu para a sua criação de uma música nova e excitante que ficou conhecida como «Space Age Bachelor Pad Music». Em meados dos anos 90, e depois de décadas de apagamento, Esquivel foi reabilitado por muitos novos músicos das correntes electrónicas e ambientais que viram nele um dos seus maiores gurus.


Cromo XXV.4 - Nouvelle Vague



Os Nouvelle Vague são um dos melhores exemplos de como a pop pode coabitar pacificamente, de forma coerente e com frutos saborosos, com a chamada world music. A fórmula é simples: pegar em temas punk, new wave e pós-punk, todos eles emblemáticos, de finais dos anos 70 e dos anos 80 - de gente como os Joy Division, The Clash, Buzzcocks, Blondie, Depeche Mode, Tuxedo Moon, Dead Kennedys, The Cure, XTC, Echo and The Bunnymen, Cramps, etc, etc... - e afogar tudo em arranjos que vão beber essencialmente à bossa-nova brasileira mas também, pontualmente, a outros géneros latino-americanos. O resultado é quase sempre de elevadíssimo bom-gosto e faz justiça aos seus inventores, na primeira metade desta década: os franceses Marc Collin e Olivier Libaux, bem acolitados por excelentes cantoras como Anaïs Croze, Camille, Phoebe Killdeer, Mélanie Pain ou Marina Celeste.

13 julho, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXIII.1 - Carmen Miranda



Possivelmente a primeira diva global de fora da esfera anglo-saxónica, a portuguesa de nascimento mas brasileira de alma Carmen Miranda (nascida a 9 de Fevereiro de 1909 em Marco de Canaveses, Portugal, com o nome Maria do Carmo Miranda da Cunha - Carmen viria da paixão do seu pai pela ópera; falecida a 5 de Agosto de 1955) conquistou fãs em todo o mundo através do seu trabalho de actriz e cantora. Considerada como uma pioneira do tropicalismo, pelo seu cruzamento de música brasileira com sonoridades mais «sofisticadas», e inserindo-se na perfeição no conceito de música «exotica» que precedeu o conceito de «world music», dela ficaram canções inesquecíveis como «Pra Você Gostar de Mim» («Taí»), «O Que É Que a Baiana Tem», «Chattanooga Choo Choo» ou «South American Way», para além de treze filmes rodados em Hollywood.


Cromo XXIII.2 - Amadou & Mariam



O casal mais famoso da música maliana, Amadou & Mariam, é um belísimo exemplo de como as contrariedades da vida podem ser ultrapassadas e como se pode ser feliz apesar delas - e basta vê-los em palco para se perceber o amor que os une e o amor que os une, também, na música, belíssima, que fazem. Amadou (Amadou Bagayoko, nascido em Bamako, a 24 de Outubro de 1954) e Mariam (Mariam Doumbia, nascida igualmente em Bamako, a 15 de Abril de 1958) conheceram-se na escola para cegos desta cidade e a paixão comum pela música - ela mais do lado das cantoras malianas e das variedades francesas, ele mais do lado dos blues e do rock de Jimi Hendrix, Led Zeppelin ou John Lee Hooker, e já com carreira feita em alguns grupos - leva-os ao casamento e a uma carreira riquíssima em que pontificam os álbuns «Sou Ni Tilé», «Tje Ni Mousso», «Dimanche à Bamako» e «Welcome To Mali», onde têm cruzado a sua música com a de Manu Chao ou a de Damon Albarn, entre outros.


Cromo XXIII.3 - Moussu T e Lei Jovents



Cidade portuária - feita de cruzamentos de povos e culturas -, Marselha é o cadinho perfeito para a criação de músicas híbridas, excitantes, vindas de muitos lugares. E o projecto Moussu T e Lei Jovents é um excelente exemplo dessa abertura, unindo música da Provença e música negra, seja ela norte-americana, africana, brasileira ou das Antilhas. Liderado por Moussu T (aka Tatou, ex-Massilia Sound System) do grupo fazem também parte Blu (igualmente ex-Massilia Sound System) e o percussionista brasileiro Jamilson, aos quais se juntam vários outros cúmplices para as gravações e/ou os concertos. Cantando quase sempre em língua occitana (também se ouvem por lá palavras em português e na gíria portuária de Marselha), o grupo dedicou o seu primeiro álbum, «Mademoiselle: Marseille» (2005), ao escritor jamaicano Claude McKay, que glosou nos seus poemas a cidade portuária de Marselha. Seguiram-se-lhe «Forever Polida», «Inventé a la Ciotat» e «Home Sweet Home».


Cromo XXIII.4 - Steelpan



Também conhecido como steeldrum - o que não é propriamente correcto porque este instrumento não é um tambor, sendo antes um idiofone -, o steelpan é uma fabulosa invenção dos músicos de Trinidad e Tobago, nos anos 30 do séc. XX, que de bidões de gasolina fizeram um instrumento musical riquíssimo em notas, timbres e nuances - o topo do bidão é trabalhado de modo a que se obtenham as notas musicais que se desejam. E foram mais longe: juntando vários steelpans eles criaram orquestras (que chegam, por vezes, a reunir dezenas de músicos), as steelbands, capazes de interpretar temas tradicionais (como o calipso), canções rock, sinfonias clássicas ou a nossa «Coimbra». As steelbands tornaram-se um símbolo de Trinidad e Tobago (duas ilhas próximas da Venezuela) e, todos os anos, há competições entre variadíssimas steelbands que enchem de espectadores os estádios de futebol.

13 abril, 2007

Tinariwen e Bassekou Kouyate - O Mali em Guitarras Eléctricas e N'gonis



Do riquíssimo alfobre que é a cena musical do Mali, os primeiros nomes que nos vêm à memória são os de Ali Farka Touré, Toumani Diabaté, Salif Keita, Afel Bocoum, Oumou Sangaré, Issa Bagayogo, Amadou & Mariam, Boubacar Traoré, Tartit, Rokia Traoré... De um não mais acabar de nomes e estilos diferentes. Mas, desde há alguns anos, outro nome está a impor-se como fundamental e diferente nesse cacharolete, o dos tuaregues Tinariwen (na foto). E, agora, um outro nome em crescimento imparável, o do mestre do n'goni Bassekou Kouyate.

TINARIWEN
«AMAN IMAN»
Independiente/Megamúsica

Os primeiros trabalhos discográficos dos Tinariwen chegados à ribalta internacional, «The Radio Tisdas Sessions» e «Amassakoul», mostravam já, claramente, as potencialidades destes tuaregues armados de guitarras eléctricas e da sua música feita de gnawa, de música árabe, da tradição própria (tuaregue) e de outras músicas apanhadas em rádios a pilhas: os blues, o rock psicadélico, o rock ácido da Costa Oeste dos Estados Unidos dos anos 60. Mas nenhum deles tinha o fulgor, a chama, a verdade que está presente no novo álbum «Aman Iman» (que tem como sub-título revelador «Water Is Life»). Em «Aman Iman», os Tinariwen fazem uma música muito mais verdadeira, directa, activa, «in your face», e dão-nos uma lição de música sem fronteiras nem grilhetas nem auto-censura de espécie nenhuma. «Aman Iman» é um álbum que se ouve do princípio (o tema de abertura, «Cler Achel», é o resumo perfeito de tudo o que vem depois e parece uma jam de Jimi Hendrix com os Jefferson Airplane se todos eles tivessem nascido no Sahara, com Grace Slick incluída) ao fim (o tema de fecho, «Nak Assarhagh», é uma balada mágica e hipnótica, belíssima) sempre com um sorriso nos lábios, uma ginga em partes secretas do corpo e um tremor constante na alma, como se esta música nova, novíssima, fosse já uma nossa velha conhecida. «Aman Iman» é um álbum de rock? Seria, se o rock ainda fosse isto: aquilo por que vale ainda a pena viver e... viver fazendo disso uma forma de arte. (10/10)


BASSEKOU KOUYATE & NGONI BA
«SEGU BLUE»
Out Here Records

É tão estranho, este disco! Estranho porque há ali sons, sonoridades, sentimentos, estímulos, que nos parecem tão distantes (de onde vêm aquelas cordas todas?, e de onde vem aquela voz feminina inesperada, a de Amy Sacko, a mulher de Bassekou Kouyate?)... Porque vêm de algo distante, desconhecido, estrangeiro a todos nós, os que estamos habituados a ouvir a música do Mali feita por Ali Farka Touré (o nosso tio, amado tio, falecido mas presente tio, que nos reconciliou com os blues, o fado, a morna, com uma raiz qualquer que nos une a todos de uma maneira que ninguém sabe explicar muito bem qual é)... mas que vem, em Bassekou Kouyate e na sua banda de n'gonis, com um eco de reconhecimento - sim, apesar da distância e da estranheza - aqui tão próximo, quase linear na sua, nesta, proximidade. Ouvimos «Segu Blue» e estamos a ouvir o álbum «Cavaquinho» de Júlio Pereira, ou um fado qualquer de vez em quando, ou alguma coisa gravada no nordeste do Brasil (com cordas lá dentro) ou um banjo tocado por Earl Eugene Scruggs ou uma (espanto!)... tuna de Castelo Branco dos anos 70 (não universitária, portanto) feita de mil cordas e mil sentimentos e mil sons. O n'goni - também chamado gaaci ou ganbare - tem apenas três ou quatro cordas (consoante a região de onde é originário) e sublinha as narrativas de amor e de guerra nas mãos dos griots. E o xamane Bassekou Kouyate, companheiro de Ali Farka em «Savane» e de Diabaté na Symmetric Orchestra, transporta-nos a uma outra dimensão, esta, sempre tão distante e tão próxima de nós... E é nela que queremos estar. (8/10)

07 dezembro, 2006

Afel Bocoum e Vieux Farka Touré - O Legado de Ali


Ali Farka Touré morreu, mas o seu espírito, o sopro mágico da sua arte, vive - mais ou menos presente - na música de muita gente. Na música de bluesmen do outro lado do Atlântico como Corey Harris ou na dos portugueses Terrakota, nos franceses Lo'Jo, nos norte-americanos Toubab Krewe ou nos malianos, seus conterrâneos apesar de etnia diferente, Tinariwen. E, claro, na música do seu protegido Afel Bocoum (na foto) e do seu filho Vieux Farka Touré, que edita agora o seu álbum de estreia.


AFEL BOCOUM & ALKIBAR
«NIGER»
Contre-Jour Belgium

Afel Bocoum não é nenhum jovem. Nasceu em 1955, em Niafunké, e integrou durante mais de dez anos a banda acompanhante do seu tio Ali Farka Touré - depois de ter sido seu roadie e, como ele diz em entrevistas, «lhe ter servido o chá» -, que o «adoptou» como discípulo dilecto. Tirou depois o curso de engenheiro agrónomo e dedicou-se durante bastante tempo à agricultura. Nos anos 80 formou o grupo Alkibar mas o seu primeiro álbum, exactamente intitulado «Alkibar», foi apenas lançado em 1999, já ele tinha ultrapassado os 40 anos de idade. Muitos fãs de pop e rock tomaram contacto com o seu nome através de «Mali Music», álbum gravado a meias com Damon Albarn, dos Blur. E «Niger», o álbum editado este ano por Bocoum, é mais um passo seguríssimo de uma carreira feita à sombra de Ali Farka, sim - no recente concerto da Womex, Afel apareceu de óculos e chapéu preto como o seu mentor -, mas que o confirma como um compositor talentoso e igualmente exímio no cruzamento da música tradicional da África Ocidental com os blues. O primeiro tema do álbum, «Ali Farka», é um lamento, uma despedida, que fala do seu melhor amigo, Ali Farka Touré, já doente e, na estrofe seguinte, já morto mas ainda presente. É uma despedida arrepiante, comovente, belíssima. E no resto do álbum, esse espírito inicialmente invocado perpassa todas as canções. Canções cantadas por Afel em sonrai, peul e tamasheq (dos tuaregues) - três das mais importantes línguas do Mali, unindo assim várias das suas etnias, também à semelhança do que fazia Ali Farka. Canções em que se ouvem, bem presentes, njarkas e njurkels - em diálogo permanente com a guitarra de Bocoum -, a cabaça percutida e os djembés. Por vezes, coros femininos e masculinos. E, em «Niger», o tema-título, uma surpresa: flauta e harpa céltica, respectivamente nas mãos de Paddy Keenan (da Bothy Band) e Liam O'Maonlai (dos Hothouse Flowers), para além da guitarra de Habib Koité. Ouve-se tão bem, este álbum! (8/10)


VIEUX FARKA TOURÉ
«VIEUX FARKA TOURÉ»
Modiba Productions/World Village

Se no novo álbum de Afel Bocoum não há lugar para a electricidade, já no álbum de estreia de Vieux Farka Touré - assim chamado em honra do seu avô, o pai de Ali Farka (o verdadeiro nome de Vieux Farka Touré é Bouriema Touré) - a electricidade jorra muitas vezes... mas isso não é um problema, bem antes pelo contrário. O álbum é surpreendentemente bom e o pai de Vieux está lá bem presente, no espírito de muitas canções mas também em «matéria», com Ali Farka a colaborar com o filho, e finalmente a dar-lhe a sua bênção, em duas canções - «Tabara» e «Diallo». Assim como o estão o «padrinho» Toumani Diabaté, que toca kora em «Touré de Niafunké» e «Diabaté» (dois temas lindíssimos!!!), e o espantoso cantor Issa Bamba, em «Courage». E não se pense que o disco de Vieux é uma cópia a papel-químico do trabalho do seu pai. Não! O álbum é uma festa de géneros e ritmos diferentes, de temas acústicos e outros mais eléctricos, do Mali e não só. Nele estão a música dos povos sonrai, peul, tuaregue e mandinga e também reggae (cf. em «Ana»), uma pulsão rock rara e ecos de soul, funk e, claro, blues. No álbum ouvem-se koras, njarkas, ngonis, talking-drum, cabaças e djembés, mas também guitarras eléctricas, baixos eléctricos, um órgão, um cravo (!), flauta, uma secção de metais... A história de Vieux é curiosa (mesmo pensando que muitas vezes as biografias dos artistas e grupos é muitas vezes romanceada): o pai tentou que ele não seguisse a carreira musical - chegou mesmo a proibí-lo de o fazer - e foi Toumani Diabaté que integrou Vieux na sua banda há alguns anos e convenceu Ali Farka a aceitar o «destino» do filho. Vieux tocou depois com o pai e, no interim, colaborou (e colabora) com a campanha da UNICEF «Fight Malaria», que pretende erradicar a malária do continente africano (dez por cento das vendas deste álbum revertem para a organização maliana Bée Sago, associada da UNICEF nessa luta). (8/10)

23 setembro, 2006

Tartit e Etran Finatawa - A Magia da Música Tuaregue (e Wodaabe)


Os Tinariwen são, provavelmente, o grupo de música tuaregue mais conhecido no Ocidente. Mas antes deles já os Tartit (na foto) tinham mostrado ao mundo estas melodias hipnóticas e estes ritmos concêntricos, em círculo e espiral, que nos sugam lá para dentro para deles dificilmente sair. O seu novo álbum, «Abacabok», é editado por estes dias. E, depois dos Tinariwen - e com semelhanças evidentes com eles -, surgem agora os Etran Finatawa, estes uma interessante junção de músicos tuaregues com músicos de etnia wodaabe. O seu álbum de estreia, «Introducing Etran Finatawa», foi editado há alguns meses.


TARTIT
«ABACABOK»
Crammed Discs/Megamúsica

Imagine-se uma brisa de vento quente, um movimento suave e lento, como se toda a areia do deserto levasse a eternidade inteira a escorrer na garganta de uma ampulheta. E imagine-se agora que este estilhaçar do conceito de tempo é feito de notas musicais raras e belas, de vozes - quase sempre cinco vozes femininas (que cantam ou que gritam e ululam, batem palmas e tocam percussões) - e de instrumentos de cordas que estão nas mãos de quatro homens velados por panos azuis indigo: o imzad (violino de uma corda) e, aqui e ali, guitarras eléctricas. É assim a música dos tuaregues Tartit: como um chamamento que vem dos confins do tempo, como uma melopeia de despedida ao amante ou ao irmão que parte na caravana, como um grito de igualdade entre homens e mulheres (os tuaregues, que pertencem à imensa família berbere, são dos poucos povos do norte de África que, apesar de tendencialmente muçulmano, permite às mulheres escolher marido e divorciar-se), como uma luz apontada a um futuro mítico em que todos os povos do mundo terão uma voz que é ouvida. E é sempre de uma beleza imensa, tanto na sua (aparente) lentidão hipnótica como (oiça-se o final de «Achachore I Chachare Akale», com a colaboração de Afel Bocoum e da sua banda) quando acelera em direcção às estrelas. Ou quando faz a ponte - uma ponte frágil, feita de areia e de barro - entre a música gnawa e os blues de Ali Farka Touré (os Tartit vivem em Timbuktu, no Mali). Ou quando, como em «Tihou Beyatene», há um travelling de aproximação a uma música perigosa, urgente, insidiosa, com uma respiração que vem do fundo dos tempos e onde duas vozes parecem conter toda a sabedoria do universo. A mesma respiração, em uníssono, que se ouve em «Al Afete», com vozes e uma flauta, numa oração pela paz, e no incandescente tema final, «Inbahwa», tocado só com imzad. (9/10)

ETRAN FINATAWA
«INTRODUCING...»
World Music Network/Megamúsica

Embora ligeiramente menos interessante e menos rico em nuances que o novo álbum dos Tartit, «Introducing Etran Finatawa» (com o sub-título «Desert Crossroads: Tuareg and Wodaabe Nomads Unite»), álbum de estreia dos Etran Finatawa, é também uma excelente porta de entrada na música dos tuaregues e, neste caso, também dos wodaabe (tribo nómada, tal como os tuaregues, mas de origem, língua e culturas diferentes - os tuaregues são berberes e falam tamashek enquanto os wodaabe são de etnia fulani). Originários do Niger, os Etran Finatawa (nome que significa «as estrelas da tradição») são seis wodaabe e quatro tuaregues, unidos pelo mesmo gosto pela música e pelo mesmo desejo de paz entre todas as etnias que vivem ou viajam pelo rio Niger (Nota: não esquecer que o Festival do Deserto, no norte do Mali, é exactamente uma celebração pacífica de comunhão entre tribos daquela imensa região há ainda poucos anos desavindas). E um gosto pela música que os faz viajar livremente pela música tuaregue, sim, por solistas e coros ricos em harmonias (os cantos wodaabe são polifónicos e ricos em jogos de chamada-resposta), sim, mas também pelo rock ácido e pelos blues eléctricos, pela experimentação e pelo funk, numa linha às vezes próxima dos Tinariwen, outras mais perto de Ali Farka Touré. Isto é, nos Etran Finatawa há guitarras eléctricas, muitas, mas também há espaço para surpresas como as vozes em transe, as palmas a compasso e uma flauta em espasmos no belíssimo «Maleele», ou a fabulosa «Anadjibo», uma canção wodaabe que fala das dificuldades que um nómada tem para cumprir os preceitos da religião muçulmana (se o fiel pára a uma hora certa para rezar a Alá, a sua vaca foge-lhe; já se não rezar fica com a vaca, mas...) ou ainda a canção/dança mágica «Ronde». (8/10)

20 agosto, 2006

Ali Farka Touré - Por fim, «Savane»


Depois de neste blog ter recuperado vários textos dedicados a Ali Farka Touré, chega hoje a crítica a «Savane», o álbum editado há poucas semanas e gravado pouco antes da sua morte... Aqui fica o texto, com respeito, amor e admiração eternas.


ALI FARKA TOURÉ
«SAVANE»
World Circuit/Megamúsica

Um dia (um mês, um ano) destes, hão-de surgir dezenas de gravações de Ali Farka Touré. Gravações ao vivo, maquetas, «outtakes» de estúdio, etc, etc. A indústria discográfica costuma fazer render bem os seus mortos - no rock, no jazz, na clássica, na world... - e reembalar de diferentes formas, muitas vezes, as mesmas canções em alinhamentos diferentes, em caixas diferentes, em versões (só muito ligeiramente) diferentes... Mas não é esse o caso de «Savane», verdadeiro testamento musical de Ali Farka Touré, último álbum gravado pelo genial guitarrista, cantor e compositor maliano já numa fase em que ele sabia perfeitamente qual a doença que o consumia e da qual viria a morrer em Março deste ano. Um testamento escrito a muito sangue, sim, mas só a algum suor (parece sempre tão simples de fazer, sem esforço nem dor, a música de Ali Farka) e nenhumas lágrimas.

No pequeno filme que serve de material de promoção a «Savane», vê-se Ali Farka no estúdio, em concertos, a viajar nas margens do Rio Niger, em Niafunké... E ouve-se a sua voz a falar, com amor, com paixão inteira e eterna, por esta terra que ajudou a desenvolver. E da sua música - que fala de trabalho, de agricultura, de saúde, da família, de paz, de política (diz ele que «mais importante do que a música é a mensagem que ela carrega»). E deste álbum, «Savane», que lhe deu tanto prazer gravar. E da homenagem que faz, no disco, a Anassi Coulibaly, a quem ele agradece o facto de ter podido profissionalizar-se como músico. E nunca, nunca, da doença de que sofria ou da iminência da morte. Um sorriso, um cigarro, um chapéu, outro sorriso, a voz mais suave do mundo quando diz a palavra «Niafunké» e uma música que nunca morrerá.

O tema-título do álbum, «Savane» (cantado em francês), tem nele, bem fundo, blues, música mandinga, fado, música árabe, gnawa, música peruana, mariachis, música indiana e mil outras sugestões de músicas de todo o mundo... É quase um compêndio completo de world music e é justo que apareça no álbum derradeiro de Ali Farka Touré, ele que foi um dos maiores embaixadores das músicas do mundo. E o resto do álbum é uma maravilha completa, com as guitarras dengosas, circulares, baloiços das estrelas, de Ali a conduzirem a sua voz (e as vozes dos maravilhosos coros que se ouvem de vez em quando), as cordas dos n'gonis e da njarka que o acompanham, a voz de Afel Bocoum (que duela com ele num tema e faz coros em mais dois), as percussões de Fain Dueñas (Radio Tarifa) e de outros músicos, o saxofone de Pee Wee Ellis e a harmónica visceralmente delta-blues de Little George Sueref.

Para além do tema-título, também «Ewly», «Soko Yhinka» (a homenagem a Anassi Coulibaly), «Soya», «Machengoidi» (que lança pontes óbvias com a música dos tuaregues e o gnawa vizinho do norte), a blues, bluesíssima «Ledi Coumbe» (Robert Johnson a encontrar encruzilhadas no deserto), a belíssima e com a njarka em alta velocidade «Hanana», a litania hipnótica-repetitiva «Gambari Didi», «Banga» (e uma flauta que dança), a cadência lenta e encantatória de «N'jarou» (o dueto entre Ali Farka e Afel Bocoum) e a maravilhosa «Penda Yoro» (com a harmónica de Little George Sueref a encontrar as correntes escondidadas no Atlântico entre o o Mississippi e o rio Niger), se contam entre os momentos mais brilhantes de «Savane». (9/10)

19 julho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane» (parte 4)


«Savane», o novo álbum de Ali Farka Touré, é editado esta semana. E fica desde já prometido um texto a propósito assim que o tiver. Enquanto isso não acontece, aqui fica mais um texto (publicado no BLITZ o ano passado) que parte de dois discos de Ali Farka e fala depois de outros artistas africanos...

ÁFRICA EXTRA

Para quem descobriu o guitarrista e cantor Ali Farka Touré através de «Radio Mali» ou de «Talking Timbuktu», é uma alegria ter à sua disposição dois álbuns antigos do génio do Mali como os que estão reunidos no duplo-CD «Red & Green» (World Circuit/Megamúsica), lançados originalmente em 1979 (o da capa vermelha) e em 1988 (o da capa verde) pela editora francesa Sonodis. E é também uma alegria imensa verificar que o talento enorme que ele tem agora era também já uma realidade há 25 anos e há 15 anos. Blues mandingas, descarnados, circulares, puros, praticamente só com voz e guitarra acústica (e uma cabaça a dar a base rítmica) no primeiro álbum; blues mandingas mais elaborados mas mágicos, arrepiantes, hipnóticos, e com a voz e guitarra acústica de Touré a serem ajudadas por um griot (Boubacar Farana) e um tocador de n'goni no segundo. A guitarra eléctrica e a sensação viva de que a electricidade que fornece Chicago vem do outro lado do Atlântico, das margens do rio Niger, só viria depois... (8/10)

Como viriam depois os seguidores de Touré, como Afel Bocoum ou Lobi Traoré, este agora com um «best of», «Mali Blue» (Dixiefrog), que passa por vários álbuns de Traoré e onde tem como convidados vários outros nomes grandes do Mali (a começar pelo próprio Ali Farka Touré). E o ambiente do disco, independentemente do ano de edição original de cada tema (entre 1990 e 1998), passa muito pelas mesmas paisagens fusionistas da música mandinga sub-sahariana com os blues de Touré (e, em algumas canções de Traoré, também com funk e rock psicadélico). Com o sol - abrasador, intenso, de fazer doer os olhos - a nascer, todos os dias, nos dedos e nas cordas vocais destes homens... (7/10)

Alguns milhares de quilómetros mais a sul, o também guitarrista e cantor Shiyani Ngcobo dá-se a conhecer ao Ocidente através do álbum «Introducing Shiyani Ngcobo» (World Music Network/Megamúsica), onde este cantor sul-africano mostra o que é a maskanda, uma dança tradicional zulu onde a guitarra acústica convive com violinos de som rude, uma concertina prima das da Louisiana (cajun, zydeco, etc...), um igogogo (guitarra com caixa de lata) e um baixo eléctrico saltitante. (7/10)

E, uma semana depois do camarada Miguel Cunha ter escrito neste jornal sobre «Africa Shrine» - o álbum ao vivo de Femi Kuti -, agora surge «The Best of Femi Kuti» (Barclay/Universal), mas que não se assustem os fãs do homem - principalmente aqueles angariados depois do seu concerto em Sines - porque não há nenhuma canção repetida nos dois discos. E mais: este «best of» é mais uma prova absoluta de que o nigeriano Femi continua de forma digna e bastante talentosa o som estabelecido por seu pai, o grande Fela Kuti. O afro-beat do pai - a fusão perfeita de ritmos da África Ocidental com o funk, o jazz, a soul - e a intervenção política estão lá, mas estão lá também muitas outras coisas que Femi acrescentou ao caldeirão nos tempos mais recentes: as electrónicas, o reggae, o ragga, o hip-hop - e, não por acaso, há participações em vários destes temas de Mos Def, Jaguar Wright e Common. (8/10)

E agora algo completamente diferente (ou não tanto quanto isso): «African Dreams» (Ellipsis Arts/Megamúsica), uma deliciosa colectânea de canções de embalar que começa com uma versão lindíssima do tema tradicional zulu sul-africano «Lala Mbube» (conhecida no Ocidente desde os anos 60 sob a designação «The Lion Sleeps Tonight») e continua depois com uma colecção riquíssima de «lullabies» dos Camarões (em dose dupla, e com um deles, «A Muna - O Síeya Pe», cantado por Coco Mbassi, que devia ser obrigatório para todos os casais que querem dar aos seus filhos bébés um sono descansado e cheio de sonhos de algodão), Congo, Gâmbia («Kanu Dingo» e «Jango», ambas com uma kora tocada por Muhamadou Salieu Suso que é de uma beleza absoluta, infinita, universal), Uganda, Serra Leoa, Zimbabwe («Vana Maruva» e «Kutira», ambos com uma m'bira, ou kissange, em círculos hipnóticos e capazes de adormecer um ogre em 20 segundos), Madagascar, Nigéria (o hino africano «Sweet Mother», de Prince Nico Mbarga, aqui cantado por Floxie Bee), Etiópia, Congo e Cabo Verde («Eclipse», uma morna de B.Leza com um poema belíssimo cantado por Celina Pereira). (7/10)

16 julho, 2006

Toumani Diabaté - Antes de Sines


Antecipando a vinda de Toumani Diabaté ao Festival de Músicas do Mundo de Sines (dia 27 de Julho), aqui ficam dois textos publicados no BLITZ há alguns meses a propósito de «Boulevard de L’Independance», o álbum gravado com o super-grupo mandinga Symmetric Orchestra: a crítica ao álbum (publicada em Março) e uma entrevista com Diabaté, o «deus da kora», segundo as sábias palavras de Ali Farka Touré (publicada em Novembro).

TOUMANI DIABATÉ’S SYMMETRIC ORCHESTRA
«BOULEVARD DE L’INDEPENDANCE»

World Circuit/Megamúsica

O génio da kora em diálogo com o funk, o jazz, os blues... Brilhante.

Ouvir a kora (harpa mandinga) de Toumani Diabaté é, muitas vezes, ouvir um eco distante de uma guitarra portuguesa, não só pelo espectro tímbrico que é estranhamente comum aos dois instrumentos mas também pelo rol de emoções que facilmente saltam das suas cordas: alegria e tristeza, saudade e paixão, fúria e uma beleza absoluta. E Toumani está para a kora como Carlos Paredes para a guitarra portuguesa, Paco de Lucia para a guitarra de flamenco, Ravi Shankar para a sitar ou Jimi Hendrix para a guitarra eléctrica. Depois do extraordinário «In The Heart of The Moon» (a meias com o recentemente falecido Ali Farka Touré), «Boulevard de L’Independance» traz Toumani com a sua Symmetric Orchestra (onde convivem vozes masculinas e femininas, instrumentos eléctricos, saxofones, balafons e djembés) para um festim luxuoso de música mandinga com funk, soul, blues ou música cubana. Lindo! (8/10)

TOUMANI DIABATÉ
O DEUS DA KORA

Este ano já esteve cá como convidado especial de Ali Farka Touré - que lhe chama «o deus da kora» - e esta semana está de volta para dois concertos integrados no festival Sons em Trânsito [Nota: concertos que aconteceram com a Symmetric Orchestra mas sem a presença de Toumani, impedido de se deslocar a Portugal devido a doença]. Entrevista com o maliano Toumani Diabaté, mestre da harpa mandinga, também a prometer para breve um álbum com a Symmetric Orchestra.

Qual é, actualmente, a sua relação com a kora? Toca todos os dias?

Sim, toco todos os dias, muitas horas por dia. Passo mais horas a tocar kora do que a fazer outra coisa qualquer, incluindo dormir. Aprendi a tocar kora em criança com o meu pai e os mais velhos [nota: Toumani nasceu numa família de griots e o seu grande mestre foi seu pai, Sidiki Diabaté, que - à semelhança de Artur Paredes, pai de Carlos Paredes, com a guitarra portuguesa - autonomizou a kora como instrumento solista e não apenas como acompanhamento de cantores] e toquei kora a vida inteira. Ela faz parte da minha vida. É a minha vida.

Como é que vê o seu instrumento? Como uma mulher, um amigo, uma arma, uma extensão do seu corpo?

É um pouco disso tudo. E é até como um computador...

Um computador?!?

Sim, a kora é um instrumento com centenas, talvez milhares, de anos e ao longo dos séculos foi acumulando as memórias dos povos da zona mandinga de África. E é também um meio de comunicação, de transmissão de histórias. É melhor que um computador...

Acha então que não são necessárias palavras para contar histórias...

Sim, claro. Isso acontece quando se juntam alguns tocadores de kora. Nós falamos uns com os outros só tocando os nossos instrumentos e sabemos o que estamos a dizer. E, no Mali, eu toco a kora em vários sítios e toda a gente percebe qual é a história que estou a contar, sem palavras. A kora tem uma função social, religiosa...

Há alguns anos, gravou um álbum com Taj Mahal, um guitarrista americano de blues. Também acredita que os blues nasceram, há centenas de anos, na zona mandinga de África?

Sim, sem dúvida nenhuma. Nós aqui não lhes chamamos blues, claro, porque é a nossa música. Os africanos que foram levados para os Estados Unidos como escravos esqueceram, ao longo das gerações, os seus povos de origem, as suas línguas originais, mas conservaram a cultura. E os blues nasceram dessa memória...

Este ano, foi editado um álbum de uma parceria sua com Ali Farka Touré, In the Heart of the Moon. Foi importante essa colaboração?

Sim. Foi excelente juntar os dois estilos. O álbum demorou só algumas horas a gravar e foi um momento excelente, quase mágico. Aprendi muito com ele. Nós somos de zonas diferentes do Mali, mas compreendemo-nos e isso é o mais importante. Adoro esse álbum!

Lembra-se do concerto em Lisboa, com Ali Farka Touré, este Verão?

Oh sim! Foi o nosso melhor concerto da digressão! Foi muito bom e a audiência era maravilhosa. Gostei muito...

Está para breve a edição de um álbum seu com a Symmetric Orchestra. Como é que começou este grupo?

Esse grupo já existe há muitos anos. Editámos um álbum em 1991. A ideia da Symmetric Orchestra é «reconstruir» o Império Mandinga, em música e cultura, tal como existiu há centenas de anos, antes da colonização europeia. Na Symmetric Orchestra há músicos e cantores do Mali, Senegal, Guiné-Conakry, Gâmbia, isto é, os países actuais que, antes, estavam reunidos no Império Mandinga.

Já ouvi uma cópia incompleta do álbum e, para além da música mandinga, há muito jazz, blues, música cubana...

Porque está tudo ligado. A música cubana, por exemplo, também tem muitos elementos da nossa música. As raízes são as mesmas...

O que é que preparou para os concertos em Portugal?

Vou apresentar temas deste álbum da Symmetric Orchestra e também outros, de outros discos meus...

08 junho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane» (parte 3)



Para encerrar o «capítulo» Ali Farka Touré, de boas-vindas a «Savane», aqui ficam dois textos paralelos: um relativo a «In The Heart of The Moon» e discos editados na mesma altura que, de alguma forma, se relacionam com esta parceria de Ali Farka com Toumani Diabaté; o outro, de delírio (sublinha-se: delírio) proto-musicológico sobre uma eventual raiz original do fado: o Império Mandinga. Os dois textos foram originalmente publicados no BLITZ em Junho do ano passado.

ALI FARKA TOURÉ, TOUMANI DIABATÉ (& OS OUTROS)
AZUL ESCURO

«In the Heart of the Moon» (World Circuit/Megamúsica), é o aguardadíssimo álbum de colaboração entre o mestre dos blues malianos Ali Farka Touré (que a Europa «descobriu», principalmente, depois do álbum de colaboração com Ry Cooder, «Talking Timbuktu») e o respeitadíssimo tocador de kora, também maliano, Toumani Diabaté (igualmente com uma parceria célebre com um americano, Taj Mahal, no álbum «Kulanian»). E «In the Heart of the Moon» é um disco de uma beleza rara, feito a um mesmo tempo de simples e intrincadas filigranas de som, construídas pelos dedos ágeis de Ali Farka na guitarra (que dá a base simples) e de Toumani na kora (com um interminável caleidoscópio de sons a tiracolo).

Ali vive no norte do Mali, em Niafunké, paredes meias com o deserto do Sahara e é de cultura Arma, Songrai e Peul, enquanto Toumani é um griot (da linhagem antiga de contadores de histórias através da música) de etnia Mandé. Mas, apesar das diferenças culturais e étnicas, isso não impede que os dois, neste álbum, se entendam à primeira. O álbum foi gravado de improviso, em Bamako, nas mesmas sessões que resultaram em mais dois discos: um de Ali (aqui em guitarra eléctrica e voz) com dois tocadores de n'goni e outro de Toumani com a Symmetric Orchestra, ambos a editar nos próximos meses pela World Circuit.

Em «In the Heart of the Moon» há alturas em que parece estarmos a ouvir um blues muito antigo, outras vezes um fado perdido em África (e o timbre da kora também ajuda à sensação), outras vezes uma morna ali vizinha, outras sons das Caraíbas. No concerto de Ali Farka Touré no Bozar, em Bruxelas, há algumas semanas, essas sensações são ainda mais evidentes, tanto quando Ali Farka toca e canta a solo ou com dois intérpretes de n'goni, como nos três temas, absolutamente mágicos, que protagonizou com Toumani. Neste concerto, Ali esteve três horas em palco, ora com a guitarra acústica, embalada pelos n'gonis, congas e cabaça, a passear - em transe - pelo Sahara e pelo Mali, ora em guitarra eléctrica nuns blues que viajam sobre campos de algodão americanos (e no psicadelismo, e no rock ácido...), ora com Toumani (e com um terceiro músico no baixo eléctrico) ajudando a fazer uma música maior do que a nossa imaginação alguma vez conseguiria desejar.

Um dia depois, numa conferência de imprensa, um jornalista europeu insiste em perguntar a Ali se a sua música é influenciada pelos blues. Ali só responde «eu faço música africana». Como se fosse um dado adquirido que os blues nasceram ali na sua terra ou lá muito perto. E diz mais coisas importantes, como a polémica frase «não há afro-americanos. Há negros na América mas eles já não sabem de que cultura, etnia, dialecto ou região descendem...».

Da mesma «família» de «In The Heart of The Moon» é o novo álbum de Boubacar Traoré, «Kongo Magni» (Marabi/Dwitza). Herói da música do Mali nos anos 60, esquecido depois e «recuperado» para a música em meados dos anos 80, Boubacar continua neste álbum belíssimo a fazer a ponte entre a música mandinga e os blues (e a presença irónica de uma harmónica em alguns temas ainda mais sublinha a herança). O acordeão de Régis Gizavo (de Madagáscar) leva ainda a música de Boubacar - e isto é tão bonito!! - para a Índia, o Nordeste brasileiro, o cajun e o zydeco.

Documento de uma altura de afirmação da música africana é a edição, agora, de um álbum perdido de colaboração entre dois malianos, o cantor Salif Keita e o guitarrista Kante Manfila, que gravaram as fitas originais deste «The Lost Album» (Cantos/Megamúsica) em 1980, na Costa do Marfim. Acompanhados por kora, balafon, um coro feminino, piano e trompete, o álbum flui naturalmente entre a música de raiz maliana (mas também pelo jazz e música cubana).

«Mandekalou - The Art and Soul of the Mande Griots» (Syllart/Megamúsica) é uma excelente introdução à música dos griots mandingas («mandé jéliou» em mandinga) e basta ouvir este álbum para perceber como esta música de transmissão oral de histórias e mitos - uma CNN ancestral - pode ser uma música de comunhão absoluta (neste disco encontram-se, a colaborar em conjunto, músicos e cantores de vários países e várias gerações).

Por sua vez, a colectânea «Le Blues Est Né en Afrique» (Cantos/Megamúsica) - só o título diz tudo -, é mais um manifesto na defesa da ideia da música oeste-africana como berço dos blues. Temas de cantores e/ou músicos (malianos, guineenses, senegaleses, congoleses...) como Idrissa Soumaoro, Salif Keita, Ismael Lo, Bambino, Tsahla Muana ou Kerfala Kanté «defendem», facilmente, a tese.

Finalmente, a colectânea «The Sahara» (World Music Network/Megamúsica) viaja pelo deserto - e suas «margens» - unindo as pontas da música gnawa, mandinga, tuaregue e outras. Este disco da excelente série The Rough Guide To... mostra a música feita pelos povos que habitam o Sahara - sim, há muitos milhares de pessoas que vivem neste imenso deserto - e nas suas vizinhanças, do gnawa de Hasna El Becharia aos blues ácidos dos tuaregues Tinariwen, passando pela música de luta e libertação de artistas ligados à Frente Polisário.


O FADO NASCEU NO MALI?


















Há um chavão anglo-saxónico quando se fala de fado (e também das mornas e do choro e chorinho brasileiros...): «são os blues portugueses» (como da morna dizem «são os blues cabo-verdianos»). E se eles, por portas e travessas, tivessem razão?... Esta é uma teoria empírica, não científica, não historiográfica, não etno-musicológica e que pode ser vista apenas como um delírio livre sobre factos dispersos... Mas vamos lá:

1 - Já há bastante tempo que é um dado histórico aceite por quase toda a gente que os blues - música negra que se foi desenvolvendo no delta do Mississippi no séc. XIX e inícios do séc. XX - têm a sua origem na África Ocidental - a zona do antigo império mandinga que passa pelo Senegal, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau e, principalmente, Mali --, teoria defendida por Samuel Charters (nomeadamente no seminal livro «The Roots of the Blues - An African Search») e, mais recentemente, pela série de filmes sobre os blues supervisionados por Martin Scorsese.

2 - Paralelamente, e apesar de terem provocado polémica no início, as teorias de José Ramos Tinhorão - nomeadamente no livro «Fado - Dança do Brasil Cantar de Lisboa (O Fim de um Mito)» - que defendem que o fado teve origem no lundum (ou lundu) brasileiro estão a ser cada vez mais aceites (vide livro de Rui Vieira Nery editado na colecção de discos de fado do jornal Público).

3 - Esta teoria defende que o fado é uma evolução do lundum, uma dança quente, dolente e erótica brasileira (com umbigadas - isto é, contactos da zona genital) nascida no grande caldeirão de culturas africanas que era a Bahia. Esta dança teria sido trazida para Lisboa e aqui teria evoluído para o fado actual, perdendo gradualmente a sua característica dançável, mas mantendo as outras características.

4 - É commumente aceite que o lundum tem origem nos escravos bantos, levados de Angola e Congo para o Brasil. Segundo a «Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura», o lundum é uma «dança também cantada, de origem africana, cuja raiz entronca no batuque... O Lundu tornou-se imensamente popular no séc. XVIII, tanto no nosso país (Portugal) como no Brasil, de onde veio». E no «Dicionário da História da Colonização Portuguesa no Brasil», o lundum é caracterizado como uma «dança popular brasileira, originária de manifestações musicais trazidas pelos escravos africanos da região de Angola e Congo».

5 - Mas (e aqui entra o «delírio)... e se o lundum não vem dos escravos bantos, mas sim dos escravos malês (ou das trocas entre os dois «grupos»)?... Razões para a minha dúvida: Apesar de haver uma maioria de escravos no Brasil de origem banto (Angola, Congo e Moçambique), na região da Bahia - recorde-se, defendida como o berço do lundum - a maior parte dos escravos era malê (uma corruptela de... Mali), escravos oriundos da zona mandinga, na sua maior parte muçulmanos (tal como ainda hoje a religião principal na zona ocidental de África, devido à sua proximidade com os povos muçulmanos do norte de África... o deserto do Sahara não foi barreira para a evangelização islâmica).

6 - A importância dos malês na Bahia é reconhecida por inúmeros historiadores. E marca do seu seu peso dentro da comunidade escrava é a história do Levante dos Malês, em 1835, uma importantíssima rebelião de escravos em Salvador. Ainda agora a cidade de Salvador celebra esta revolta: no carnaval da Bahia passou um bloco chamado Malê Debalê e um outro, Ilê Aiyê, que homenageou claramente o Mali. E o escritor Antônio Risério escreve, embora apontando algumas dúvidas: «o sucesso do bloco afro Malê Debalê, junto com a revalorização popular das revoltas islâmicas, criou uma espécie de mito em torno dos malês. Hoje na Bahia qualquer negro informado, alguns com certa ponta de esnobismo (compreensível, mas condenável), afirma ser descendentes dos malês».

7 - O lundum ainda é uma forma musical viva, não no Brasil ou em Portugal (ou nas ilhas dos Açores, onde foi importante durante o séc. XIX), mas no Peru (nomeadamente na música da diva peruana Susana Baca, que mantém nos arredores de Lima um instituto dedicado ao estudo da ligação da música africana com a música peruana, o Instituto Negro Continuum) e em Cabo Verde (aqui também chamado landu ou gandum), onde no passado se desenvolveu bastante, principalmente nas ilhas do barlavento e na Boavista. Segundo as teorias mais aceites, o lundum cabo-verdiano foi levado pelos brasileiros para o arquipélago e ali permaneceu. Mas fica outra pergunta: este lundum cabo-verdiano veio mesmo do Brasil? Ou veio de ali de muito mais perto (da Guiné-Bissau e de outros países mandinga), através dos escravos levados do continente ali mesmo ao lado? Ou poderá ser uma mistura das duas coisas?

8 - Repete-se. Esta «teoria» é empírica, delirante, feita de umas pontas soltas e, porventura, de outras mal atadas [não entro, por exemplo, na influência da música gnawa de Marrocos na música dos griots e outras manifestações mandingas - e, consequentemente, nos blues norte-americanos... A propósito, não há quem defenda que o fado poderá ter vindo do norte de África?]. Mas ao ouvir este conjunto de discos falados aqui ao lado, não deixo de sentir que há ali, muitas vezes, cordas que vibram naturalmente no meu coração português, digamos, fadista. Cordas vocais, cordas de kora (e como este instrumento soa tantas vezes a... fado) e, principalmente, cordas escondidas na alma.