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01 maio, 2012
MUN’Danças 2012 – Festival de Danças no Mondego
Em ano «sabático» do Andanças, os bailantes de bichos-carpinteiros nos pés têm uma boa alternativa ao festival organizado pela PédeXumbo: o novo MUN'Danças, que decorre em dois locais diferentes e em semanas consecutivas: Torres do Mondego e Aldeia Viçosa. O comunicado:
«MUN'DANÇAS
ANTECIPADA DE BILHETES
Vem aí um novo festival de dança e música contemporâneas com ligações às tradições -
portuguesas e de outras partes do mundo:
MUN’Danças 2012 – Festival de Danças no Mondego:
O festival MUN’Danças decorre de 26 a 29 de Julho na Praia Fluvial de Torres do Mondego
(Coimbra) e na Praia Fluvial de Aldeia Viçosa (Guarda) entre 1 e 3 de Agosto, seguido de FESTA
DA ALDEIA no dia 4 de Agosto.
CONCERTOS E BAILES FOLK:
Pé na Terra | Mándragora | Mu | Toques do Caramulo | Karrossel | Uxu Kalhus | A Barca dos
Castiços | Mosca Tosca | Martina Quiere Bailar (Espanha) | Realejo | MagMell | Monte Lunai
| Ósmavati | Girasol | Sons Libres (França) | Xtramonio (Espanha) | Spakkabrianza (Itália) |
Docakene (Burkina Faso /Costa do Marfim) | Les Zeóles (França) | Beltaine (Polónia)
OFICINAS DE DANÇA:
Alexandre Matias l Danças Europeias e 'Toscas'
Diana Azevedo l Danças Europeias e Portuguesas
Daniel Peces l Danças Castellanas
Monica Savá l Danças Italianas
Lisou l Danças Francesas e Bascas
Patrícia Vieira l Danças Irlandesas
Eva Azevedo + Paulo das cavernas l Danças Africanas
Rute Mar l Danças Europeias
Anzoumana Kaba l Danças tribais Africanas
Pablo Dias l Forró
OFICINAS DE MÚSICA:
Amadeu Magalhães - cavaquinho; percussão e gaita de foles.
Musicos de Xtramonio: Bouzouki- Jose Luis Dou; Gaita escocesa/biniou bretón- Pachu Cuesta;
Bombarda Bretona- Javier Chacon; Bodhran- Jose Manuel Benito
OFICINAS INFANTIS e OFICINAS DE PERMACULTURA: Sílvia da Floresta
OFICINAS DE MEDITAÇÃO E RELAXAMENTO
2012 TEM CARTAZ E PROGRAMAÇÃO FECHADOS E INICIOU A VENDA
REALIZADORES: Tiago Pereira (tradições orais) | Daniel Pinheiro (natureza)
MERCADOS:
- Artesanato tradicional e contemporâneo;
- Frescos locais e alimentos biológicos
- Mercado solidário
Outras actividades:
Actividades no rio | passeios na natureza e nas paisagens culturais | visitas a aldeias |
palestras | Tertúlias culturais I Mostra de vídeos I Ateliers de som e imagem
BILHETES:
Os bilhetes já se encontram disponíveis para venda no site e o pagamento pode ser
efectuado através de transferência bancária e com descontos significativos. Quem obter o
bilhete geral (Coimbra + Guarda) até 13 de Maio pagará apenas €90 o que permitirá uma
poupança de €38 face ao preço praticado a partir de 15 de Julho. Os detentores de bilhete
geral terão acesso gratuito aos bailes e concertos do dia 4 de Agosto, na FESTA DA ALDEIA.
Apenas até 13 de Maio, quem obter o bilhete geral para as Torres do Mondego
(Coimbra) pagará €56, tendo em conta que o preço aumentará consoante a data de
aproximação ao festival subindo para o valor total de €80. Quanto ao bilhete para Aldeia
Viçosa (Guarda), até 13 de Maio o preço em vigor é de €41 aumentando substancialmente
este preço até aos €58.
Quanto aos bilhetes pontuais, os seus preços variam para cada dia, entre 4-5€
(oficinas), 16-20€ (preço 'noite', para concertos e bailes) e 20-25€ (preço 'dia', que inclui
oficinas + concertos e bailes).
Mais informações em:
Festival MUN'Danças 2012
http://mundancasfestival.wordpress.com/
APD-PPM, Associação de Projecto e Desenvolvimento do Parque Patrimonial do Mondego
www.parquepatrimonialmondego.com»
Siga o MUN’Danças e confirme a sua presença no FACEBOOK do festival:
https://www.facebook.com/pages/Festival-de-dan%C3%A7as-no-Mondego/247181955332194
07 julho, 2011
Festival Celta de Viana do Castelo - Update!

Depois de Uxía, Mu, DJ Raquel Bulha, Tanira e Ogham já terem actuado no Festival Celta de Viana do Castelo está na altura -- e porque há vários acrescentos ao cartaz (incluindo uma sessão de DJ especialmente dedicada às sonoridades "celtas" por... António Pires) -- de dar conta do que ainda aí vem:
08 JULHO SEXTA-FEIRA | ASSEMBLY POINT [Coimbra/Ferrol/Cork; na foto]
www.myspace.com/assemblytrio
Luís Peixoto é um multi-instrumentista especializado en instrumentos de corda portugueses. Já trabalhou com grupos de renome internacional como Stockholm Lisboa Project ou Dazkarieh e participou da gravação de “Tirán”, o muito aclamado último álbum do gaiteiro galego Anxo Lorenzo. Luís Peixoto conta ainda inúmeras participações em espectáculos de alguns dos mais conceituados nomes da folk internacional tais como Kepa Junkera, Flook, Galandum Galundaina ou Quadrilha.
Fernando Barroso é também um multi-instrumentista especializado em instrumentos de corda com aplicação à música tradicional. Fundou várias bandas no panorama folk da Galiza e já colaborou com inúmeras formações e intérpretes de renome. Ministrando diversos cursos e workshops de instrumentos de corda, Fernando Barroso tem ainda lugar na formação dos colectivos Riobó e Coanhadeira.
Eoghan Neff é um violinista e musicólogo premiado internacionalmente. Já gravou e já andou em digressão com inúmeras produções do maior prestígio como Riverdance, The London Metropolitan Orchestra, NeffBros, ou Anxo Lorenzo. O seu último trabalho “Amalgamare” consiste numa improvisação livre na companhia de um monge organista da Abadia de Glenstal, Cyprian Love. Participou ainda na gravação da banda sonora original do oscarizado “The Eagle” de Kevin Mcdonald.
Quando a torre se começou a desmoronar, um português com o seu bandolim, um galego com o seu bouzouki e um irlandês com o seu violino, encontraram-se e, sem trocar palavra, começaram a tocar.
Resta esperar pelo muito aguardado álbum de estreia de Assembly Point, com lançamento agendado para o final do ano, e pelo privilégio de o poder escutar em primeira mão em Viana do Castelo.
09 JULHO SÁBADO
22h30 | ANXO LORENZO [Pontevedra]
www.anxolorenzo.com
Anxo Lorenzo é um artista que possui todas as qualidades para chegar à essência da sua própria música, moldá-la à vontade e criar novas formas.
O seu último álbum, "Tiran", é inspirado numa longa viagem musical que o levou a encontrar milhares de lugares e melodias que compartilhou com músicos de diferentes países. Pesa no entanto que esta viagem sempre começa e termina na Galiza.
Na sua extensa experiência como gaiteiro, Anxo Lorenzo tem colaborado em vários projectos de fusão musical com uma variedade enorme de estilos, da música electrónica ao jazz, rock, pop ou flamenco. Será assim possível afirmar que a sua gaita-de-foles é um instrumento sem fronteiras que parece não impor limites à sua experimentação.
Anxo Lorenzo visita Viana do Castelo com uma banda preenchida de músicos de renome e elevada experiência acumulada no campo da música tradicional e popular. Nada mais que Xosé Liz acompanhando no bouzouki, Álvaro Iglesias no baixo, Luis Peixoto no cavaquinho, bandolim e percussão e do carismático irlandês Eoghan Neff no violino.
23h55 | PÉ NA TERRA [Porto]
É sem medo de superstições que os Pé na Terra apresentam “13” ao vivo. Conquistando o seu espaço na nova música tradicional com apenas cinco anos de carreira, os Pé na Terra apostam tudo na desmitificação do número do azar num conceito intimamente ligado ao imaginário tradicional e às histórias dos nossos antepassados.
www.penaterra.com
Composto por 13 temas, o novo álbum dos Pé na Terra representa uma série de vivências que o grupo desfrutou durante os últimos dois anos de estrada, em Portugal ou no resto da Europa, dando origem a novas experiências e despertando novos caminhos musicais.
O grupo cruza temas tradicionais tais como o “Vira dos Seis” ou a “Farrapeira” com composições originais onde se denota a sua paixão pela inovação e a ingerência de outros géneros musicais como o rock mais progressivo.
Os Pé na Terra transportam para o palco uma folia contagiante governada por gaitas-de-foles efusivas, acordeões românticos e um ritmo de bateria que convida qualquer um a um pezinho de dança.
É através desta energia vibrante que os Pé na Terra nos levam para esse lugar místico e positivo onde a música é muito mais que números de sorte ou azar!
01h20 | BAILENDA [Penafiel]
Os Bailenda são um quarteto folk formado no Verão de 2009 dedicado à música tradicional portuguesa entre outras regiões ibéricas e com algumas incursões pelo folk bretão e irlandês.
www.myspace.com/bailenda
No espectáculo “Transfolka-te” são usados instrumentos como o bouzouki, o violino, a concertina, o bandolim, a sanfona, o rabel, a gaita-de-foles combinados com programações e electrónica ao vivo.
É de assinalar a confluência de vários géneros musicais que se devem às distintas origens dos elementos da banda, vindos do folclore, da música antiga, da música clássica, do rock e das linguagens mais experimentais da música contemporânea.
O reportório vocal, pleno de trovadorismo, situa-se entre os romances novelescos, as canções de embalar e as canções de trabalho. A nível instrumental são tocadas danças tradicionais, temas de origem medieval e composições próprias.
Ao vivo são usadas recolhas da tradição oral e projecção de imagens. As gravações de campo normalmente ilustram a região, cidade ou aldeia onde acontece o espectáculo. Deste modo, concretiza-se a relação entre as memórias das gentes com as paisagens sonoras locais numa inovadora percepção dos sons e da música.
Enquanto trabalham no seu cada vez mais ansiado álbum de estreia, os Bailenda compõem e interpretam a banda sonora de “Sabor de Despedida”, um documentário acerca do impacto da construção da barragem no Rio Sabor recentemente exibido na RTP.
AFTER HOURS | LUÍS REI [Crónicas da Terra]
cronicasdaterra.com
Luís Rei é um adepto das chamadas músicas do mundo e da folk desde o início dos anos noventa.
Assíduo frequentador de festivais da altura, como o Intercéltico do Porto, os Encontros de Tradição Europeia, as Cantigas do Maio, o Folk Tejo e o Festima, foi editor da Revista Voice e colaborador regular do Jornal O Independente e da Revista Visão.
Iniciou há já treze anos a conceituada webzine Crónicas da Terra, um espaço de reflexão e de divulgação musical das músicas do mundo e das suas múltiplas ramificações.
É também da sua iniciativa o programa de rádio Terra Pura com emissão semanal na Rádio Zero, Rádio Universitária do Minho, Rádio Universitária de Coimbra, entre outras.
10 JULHO DOMINGO | MANDRÁGORA [Porto]
www.myspace.com/mandragorafolk
Remontam a 1999 os primeiros encontros entre a música de Filipa Santos, Ricardo Lopes e Pedro Viana. Em 2000 o trio dá-se a conhecer como Mandrágora com a gravação de 3 temas que conquistam o 2º lugar nos prémios maqueta na categoria folk, seguindo-se a estreia ao vivo, já com Luís Martinho e Nuno Silva, no 1º Festival Intercéltico de Sendim.
Nos anos seguintes o grupo actua com diferentes formações um pouco por todo o país e também no estrangeiro tendo sido escolhida para representar Portugal no 2º Encontro Europeu de Jovens Músicos Tradicionais no Eurofolk 2002 em Parthenay, França.
O álbum “Mandrágora” é então editado em 2005 tendo sido muito bem recebido pela imprensa e comunidade on-line, vindo também a ser galardoado com o Prémio Carlos Paredes, atribuído anualmente ao melhor disco português de música instrumental não erudita.
Segue-se a entrada de Sérgio Calisto e mais tarde João Serrador. O quinteto começa a trabalhar no seu segundo álbum e posteriormente efectua uma residência musical em Langonnet, sobre a orientação de Jacky Molard, da qual resulta uma tournée na Região da Bretanha com os convidados Simone Alves e Guilhaume Le Guernne.
O lançamento do segundo álbum “Escarpa” recebe mais uma vez rasgados elogios da crítica especializada chegando mesmo a melhor do ano nas publicações A Trompa e Sopa de Pedra.
13 JULHO QUARTA-FEIRA | ALBALUNA [Lisboa]
www.myspace.com/albalunapt
Albaluna integra elementos de várias áreas do universo musical e tem como máxima a fusão de ambientes e paisagens, sendo a base a sonoridade folk.
Partindo de instrumentos tradicionais de diversas partes do mundo e conjugando-os com a evolução de outros mais recentes surgem novas interpretações de repertório nacional e internacional. A banda pretende divulgar um conceito que transporte o ouvinte para territórios perdidos no tempo.
O percurso dos Albaluna passa já por um vasto território. No último ano a banda percorreu o país de Norte a Sul, tendo actuado nas ilhas (Açores e Madeira) e contando também com algumas prestações internacionais em países como Itália, Lituânia e Alemanha. No seu momento actual fica sobretudo a promessa do lançamento do primeiro trabalho de originais da banda.
15 JULHO SEXTA-FEIRA | BELLÓNMACEIRAS [Corunha]
www.bellonmaceiras.com
O quinteto BellonMaceiras propõe uma nova forma de entendermos as músicas do mundo a partir da Galiza.
O projecto foi fundado em 2005, a partir da união musical do gaiteiro e sanfoneiro Daniel Bellón e do acordeonista Diego Maceiras. O seu profundo conhecimento da música tradicional da Galiza e a sua proximidade artística às culturas de outros países conferem-lhes a facilidade em misturar sem medo, fundindo ritmos e melodias de diferentes lugares na busca da identidade do grupo.
Mantendo-se sempre livres de quaisquer espartilhos estilísticos rígidos, é a contribuição musical de cada músico que marca o som particular do quinteto. Com total liberdade para interpretar composições próprias ou para dar a conhecer músicas de outros, sem preconceitos ou visões padrão que possam forçar o quinteto a seguir uma linha.
Estas são, sem dúvida, as principais características definidoras do quinteto BellónMaceiras: A fusão de estilos sem complexos e o virtuosismo e versatilidade de Daniel Bellón na gaita e saxofone, Diego Maceiras no acordeão, Juan Cabe na guitarra, Juan Tinaquero no baixo e Miguel Lamas na bateria.
Bom exemplo de tudo isto será o enorme êxito da sua participação no Festival de Cosquín, na Argentina, na concepção do espectáculo “A Viaxe”, em colaboração com Dulce Pontes e o pianista Juan Carlos Cambas.
16 JULHO SÁBADO
22h30 | GALANDUM GALUNDAINA [Miranda do Douro]
www.galandum.co.pt
Galandum Galundaina é um grupo de música tradicional mirandesa, criado com o objectivo de recolher, investigar e divulgar o património musical, as danças e a língua das terras de Miranda.
Em 15 anos de existência o grupo desenvolveu vários trabalhos. Para além da edição de três discos e um DVD ao vivo, também são de sua responsabilidade a padronização da gaita-de-foles mirandesa e a organização do Festival Itinerante de Cultura Tradicional "L Burro i l Gueiteiro".
Os álbuns editados têm tido uma excelente apreciação pela crítica especializada. Em 2010, para além da atribuição do Prémio Megafone, o álbum “Senhor Galandum” foi reconhecido pelos jornais Público e Blitz como um dos dez melhores álbuns nacionais.
Do roteiro do grupo fazem parte alguns dos mais importantes festivais de música tradicional e world music em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Cuba, Cabo Verde, Brasil, México e Malásia.
Ao longo dos últimos anos o grupo interessou-se pela construção de instrumentos musicais de raiz tradicional e actualmente grande parte dos instrumentos usados em concerto são da sua autoria. Desta forma, os Galandum Galundaina obtêm sonoridades e afinações que lhes conferem um estilo muito próprio.
Paulo Preto, Paulo Meirinhos, Alexandre Meirinhos e Manuel Meirinhos dedicam parte da sua vida a recolher, estudar e divulgar as mais diversas formas de música tradicional da pequena região do nordeste trasmontano, tentando dar um toque de modernidade aos seus trabalhos, sem jamais descorar os ritmos e timbres dos instrumentos e vozes.
O património cultural do nordeste trasmontano constitui de facto um elemento muito importante da identidade cultural local, uma fonte de riqueza e um factor de desenvolvimento. Miranda do Douro faz fronteira com Castela e Leão, regiões que comungam de uma cultura muito idêntica no que concerne à música e à etnografia, provando que a cultura não tem felizmente fronteiras.
23h55 | DAZKARIEH [Lisboa]
Após um caminho de dez anos de vida, os Dazkarieh conseguiram criar um som inconfundível.
www.dazkarieh.com
É o som do passado pelos instrumentos antigos e acústicos e é o som do presente que se ecoa quando se transforma em distorção pura. É a tradição portuguesa, mas também uma tradição dos nossos dias que provocam uma explosão sonora, ainda que plena de intimismo.
Quatro músicos em palco são o elo de ligação entre passado, presente e futuro. É uma viagem pelo imaginário sonoro de Portugal e do Mundo e uma energia avassaladora que não deixa ninguém indiferente.
“Hemisférios”, o quarto trabalho da banda, é um disco duplo em que num dos discos se encontram as suas composições originais e no outro temas da tradição oral Portuguesa tratados com a já inconfundível assinatura do grupo. O disco foi considerado pela crítica como o melhor do grupo até à data. A digressão que acompanhou o lançamento consistiu em mais de 50 concertos em importante salas e festivais de Portugal, Alemanha, Áustria, Polónia, Espanha e Malásia. Segue-se agora o “Ruído do Silencio” e a expectativa de um espectáculo vibrante em Viana do Castelo.
01h20 | CHARANGA [Lisboa]
A Charanga é o Francisco Gedeão, o Alberto Baltazar e o Quim Ezequiel. Conheceram-se no 14º Festival de Grupos Folclóricos de Freixo-de-Espada-à-Cinta e fundaram este projecto de música electrónica fortemente ligado às raízes da cultura popular portuguesa.
charangacharanga.net
Alberto tinha conseguido uma extraordinária máquina moderna de fazer música e viu em Francisco um companheiro com quem partilhar o segredo. Quando experimentavam o objecto avançado, Quim passava pelas redondezas com a sua gaita-de-fole, e, incontrolavelmente atraído pelos sons da máquina, deu consigo numa cave escura, longe de olhares críticos, com dois estranhos hipnotizados pelo processo criativo. Desde então tocam juntos, evangelizando o povo com a sua mensagem trans-temporal.
A Charanga é música e performance, portuguesa e internacional, moderna e antiga, revolucionária e tradicional, rural e cosmopolita, analógica e digital, festiva e introspectiva, orgânica e maquinal.
E, como não podia deixar de ser, a Charanga é e faz tudo isto segundo as lições do povo, que rima para recordar e representa para comunicar, materializando as suas actuações em espectáculos multidisciplinares que combinam a música com a performance e a ilustração visual videográfica.
AFTER HOURS | ANTÓNIO PIRES [Raízes e Antenas]
raizeseantenas.blogspot.com
António Pires trabalhou no jornal Blitz durante vinte anos tendo sido chefe de redacção durante doze. Publicou inúmeros textos no Se7e, Expresso, A Capital, Revista de Cinema, Face, Mini International e Autores.
Frequentou durante três anos o Curso de História da Faculdade de Letras de Lisboa e completou o Curso de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema. Tornou-se então jornalista freelancer e o distinto responsável pelo influente blogue Raízes e Antenas. Colabora ainda com as revistas Time Out Lisboa e Magazine.HD e com o Jornal i e é o autor dos livros «As Lendas do Quarteto 1111», "Raízes e Antenas - Mistérios e Maravilhas da World Music" e "Portugal - As Grandes Canções de Sempre".
António Pires celebra o seu aniversário em Viana do Castelo com algumas músicas do mundo celta exclusivamente seleccionadas para esta sessão de after hours.
17 JULHO DOMINGO | MARFUL [Corunha]
www.marful.info
Marful está muito perto de personificar o que de melhor que se podia passar à música galega na última década. Pelo menos é o que dizem os fãs do grupo.
O colectivo revolucionou a música galega, tendo-se inclusivamente convertido numa banda de culto entre a intelectualidade do seu país e arredores.
A música de Marful expressa ideias, proclama sentimentos, descreve paisagens, narra histórias. A música de Marful é uma exaltação à abstracção.
Por meio de dois aclamados trabalhos discográficos, os Marful situam-se no centro do panorama folk internacional, tendo actuado no Festival de Músicas do Mundo de Sines, Celtic Connections, Ortigueira e tendo sido o primeiro grupo a representar a Galiza no Womex, porventura a mais conceituada mostra de músicas do mundo da actualidade.
Com o seu primeiro disco, “Marful”, Ugia Pedreira na voz, Marcos Teira na guitarra, Pedro Pascual no acordeão e Pablo Pascual no clarinete devolvem á música galega as melodias e ritmos que invadiam os salões de baile nos anos 20 e 30 fazendo uso de arranjos cuidados e de uma postura em palco manifestamente irreverente.
O último álbum, “Manual de sedución”, encerra os salões de baile e concentra-se no cinema. Pasodobles, swings, mambos, valsas e quatro músicos que conhecem o real e o imaginário. Nem são emigrantes nem turistas. São quatro exploradores que sabem onde fica o ponto de partida da viagem mas não fazem a mínima ideia sobre onde ela possa terminar.
SESSÕES DE CINEMA DOCUMENTAL
9 e 16 JULHO | 22h | O TOQUE DA GAITA DE FOLES
de Luís Margalhau (Portugal, 2010, 22min)
doc100imagens.blogspot.com
É na oficina “Os Sons da Música”, situada no litoral Oeste, em Porto Rio, Concelho de Torres Vedras, que Mário Estanislau e Victor Félix dão vida e voz a gaitas-de-foles, sanfonas, cavaquinhos e bandolins.
Fomos beber da sabedoria de gente simples e acompanhamos o dia-a-dia de quem põe toda a sua alma, engenho e arte na criação e manutenção das gaitas-de-foles.
As imagens e os depoimentos espelham a relação dos artesãos com o fruto da sua criação e a cumplicidade que estabelecem com aquela peça artesanal que, depois de pronta, se transforma numa ferramenta inseparável do músico, num instrumento popular que enche de alegria ruas e palcos.
07 junho, 2011
Festival de Música Celta de Viana do Castelo (Ou o Eixo Portugal-Galiza)

Que belo programa! A edição de 2011 do Festival Celta de Viana do Castelo faz, de facto, a ponte perfeita entre o Minho e a Galiza, irmanando ainda mais as músicas dos dois lados da fronteira (uma fronteira que, como se sabe, é muito mais política que histórica, linguística ou cultural). O comunicado oficial:
"FESTIVAL DE MÚSICA CELTA | 2 - 17 JULHO | VIANA DO CASTELO | CAPITAL DA CULTURA DO EIXO ATLÂNTICO 2011
De 02 a 17 de Julho, paralelamente à já tradicional Feira do Livro de Viana do Castelo, este ano na sua 31ª edição dedicada à literatura luso-galaica, decorre o Festival de Música Celta no Jardim da Marina, que integra várias representações oriundas desta região transfronteiriça e que pretende, acima de tudo, afirmar o carácter actual e diverso das culturas de cariz tradicional. Este Festival de Música Celta conta com a presença de vários nomes de grande relevo na música de raízes desta região, bem como de algumas propostas em plano emergente que caminham a passos largos para a sua afirmação.
A voz inconfundível da galega Uxía inaugura o palco do festival no dia 2 de Julho, com a apresentação em primeira mão de “Meu Canto”. A tradição rejuvenescida dos Galandum Galundaina, a sonoridade mais modernista dos galegos Marful, a fusão galaico-portuguesa dos Assembly Point ou a energia emanada da banda de Anxo Lorenzo estão também entre os principais destaques da programação do festival.
PROGRAMAÇÃO
02 Jul | sáb | UXÍA (Galiza) + MU (Portugal)
03 Jul | dom | TANIRA (Portugal)
06 Jul | qua | OGHAM (Portugal)
08 Jul | sex | ASSEMBLY POINT (Portugal/Galiza/Irlanda)
09 Jul | sáb | ANXO LORENZO (Galiza) + BAILENDA (Portugal)
10 Jul | dom | MANDRÁGORA (Portugal)
13 Jul | qua | ALBALUNA (Portugal)
15 Jul | sex | BELLONMACEIRAS (Galiza)
16 Jul | sáb | GALANDUM GALUNDAINA (Portugal) + CHARANGA (Portugal)
17 Jul | dom | MARFUL (Galiza; na foto)
INFORMAÇÕES
local: Anfiteatro do Jardim da Marina | Avenida Marginal, Viana do Castelo | GPS: 41.692499, -8.825562
início dos espectáculos: 22h30 | entrada livre
organização: Câmara Municipal de Viana do Castelo | www.cm-viana-castelo.pt
produção: Núcleo de Apoio às Artes Musicais | www.naam.pt"
11 junho, 2008
Folk e World Feitas em Portugal - Relatório de Existências

Os últimos meses têm sido riquíssimos em edições de música portuguesa que navega pela música tradicional, seja ela portuguesa ou de outras proveniências - e muita dela também pelo rock ou pelo hip-hop ou por onde quer que seja... - mas toda ela feita em Portugal. Hoje, fala-se aqui dos discos, novos, dos Gnomon, Pé na Terra, Fadomorse, Mu, Kumpa'nia Al-gazarra, Tucanas, Mandrágora, Melech Mechaya, Dead Combo, Projecto Fuga (na foto), Joana Pessoa e Navegante. Uma dúzia inteira de discos!!
DEAD COMBO - «LUSITÂNIA PLAYBOYS» (Dead & Company/Universal Music Portugal)

E, ao terceiro álbum, os Dead Combo têm um disco que roça a perfeição. A sua linguagem está completamente estruturada e com um léxico cada vez mais próprio... Continuam por lá, é certo, as referências primordiais a Morricone, a Badalamenti e Ry Cooder, a Carlos Paredes e ao fado de Lisboa, mas avançando cada vez mais para outras paisagens sonoras onde se encontram a música «exotica» (na extraordinária e encantatória versão de «Like a Drug», dos Queens of The Stone Age, com a cantora Ana Lains a brilhar lá em cima), o son cubano transformado em fado e Durutti Column (em «Cuba 1970») ou a recolha de Michel Giacometti do «Canto de Trabalho» dos pescadores de Ovar usada como mote para uns blues ácidos (em «Canção do Trabalho D.C.»). A presença de convidados ilustres como Howe Gelb, Kid Congo Powers, Nuno Rafael, Carlos Bica ou Alexandre Frazão ajudam a dar a este «Lusitânia Playboys» os «efeitos especiais» que um filme destes precisa.
FADOMORSE - «FOLKLORE HARDCORE» (Hepta Trad/Compact Records)
O Hugo Correia é um génio, um louco, um Frank Zappa de alguma forma reencarnado num rapaz transmontano que tanto gosta de músicas tradicionais de várias proveniências como de jazz, de rock, de hip-hop, de música clássica?... Se calhar é isso tudo, mas ainda bem... Hiper-activo, mentor, músico e compositor de não se sabe bem quantos projectos musicais - Só Vicente, Triste Sistre, Upsz Jazz, DeusSémen, Vipassana, entre outros -, Hugo Correia tem nos Fadomorse o seu projecto mais conhecido. Um projecto que, ao fim de vários álbuns, cristaliza em «Folklore Hardcore» o melhor que antes já tinha «ameaçado» fazer. E se nos discos anteriores, o cacharolete interminável de referências musicais dos Fadomorse dava por vezes uma amálgama confusa e atabalhoada, neste novo álbum tudo - e quando se diz tudo é mesmo tudo, de recolhas de temas tradicionais ao hip-hop, de gaitas-de-foles a sitares, de uma voz feminina que parece a Dulce Pontes sem os trejeitos a citações dos Procol Harum ou do «Avé Avé Maria» até ao kuduro arraçado de música transmontana e galega (!!) ou ao drum'n'bass arraçada de ragas indianas e riffs punk hardcore (!!!) - faz sentido e contribui por igual para um álbum fresco, inventivo e surpreendente. E com um sentido de humor, felizmente, incorrigível.
GNOMON - «GNOMON» (Edição de Autor)

É um EP de estreia com apenas três temas (embora o terceiro tenha vários «actos»), mas que deixam água na boca para o que vem aí a seguir. Os Gnomon são um grupo de Joane que vai à música tradicional portuguesa e à folk - e vai lá tanto via nomes portugueses como José Afonso, Trovante, Brigada Victor Jara e Banda do Casaco como via folk britânica da tendência mais psicadélica, jazzy e progressiva - sem medos nem preconceitos. Soam de alguma forma a anos 60 e 70, mas soam muito bem. Neste EP promocional estão os temas «Paz do Gerês», «Uvas do Monte» e os lindíssimos «actos» de «Rosa dos Ventos». Os Gnomon são Tiago Machado (guitarra acústica), Carlos Ribeiro (guitarra eléctrica), Mário Gonçalves (bateria), Carlos Barros (percussão), Rui Ferreira (piano, acordeão e cavaquinho), David Leão (flauta transversal e gaita-de-foles) e João Guimarães (baixo eléctrico) e deles se espera agora um álbum inteiro.
JOANA PESSOA - «FLUIR» (iPlay)

O trabalho de renovação da música portuguesa de raiz tradicional já passou por várias fases - de José Afonso à Banda do Casaco, dos Ocaso Épico aos Madredeus, dos Trovante aos Sitiados, de Né Ladeiras e dos Gaiteiros de Lisboa aos Chuchurumel ou aos Xaile... - e tem agora, em Joana Pessoa, mais uma tentativa de tornar o antigo... novo. Uma tarefa que neste álbum de estreia da cantora, produzido por Rodrigo Serrão, fica pela metade: há nele uma tentativa honesta de revitalização de temas tradicionais já conhecidos noutras vozes («Este Linho É Mourisco», «Altinho» ou o romance «Oh Laurinda, Linda Linda») e de uma versão de José Afonso («Era Um Redondo Vocábulo»), mas às vezes as programações electrónicas, a secção de cordas ou uma guitarra portuguesa deslocada dão ao «todo» um lado artificial que o «todo» não merecia. (texto originalmente publicado na revista «Time Out Lisboa»)
KUMPA'NIA AL-GAZARRA - «KUMPA'NIA AL-GAZARRA» (Edição de Autor)

A vida da Kumpania Algazarra (ou, se não nos perdermos entre apóstrofos e hífens, Kumpa'nia Al-gazarra) tem sido feita nas ruas, em praças, em festivais - um dos primeiros concertos do grupo, no Andanças, foi um marco deste festival - e muita da sua arte perde-se quando transposta para o formato CD. É que se uma fotografia do Homem-Estátua da Rua Augusta não é muito diferente de assistir a uma performance do Homem-Estátua da Rua Augusta, num CD perde-se boa parte daquilo que a Kumpania Algazarra é ao vivo: a espontaneidade, a interacção com as pessoas, a improvisação, a dança compulsiva. Mas, felizmente, o fundamental da arte da Kumpania até está preservado neste álbum de estreia do grupo: a sua alegria a fazer música, o seu domínio de instrumentos - muitos sopros, acordeão, contrabaixo, percussões, voz -, o seu sentido de humor (oiça-se, por exemplo, «Supercali», uma balcanice cantada em português com o «Mary Poppins» como referência), as suas influências vindas de vários pontos do globo, mas perfeitamente digeridas por este bando de portugueses (e alguns estrangeiros): a música cigana dos Balcãs, o son cubano, o afro-beat, o ska, o reggae, o swing, o klezmer, o gnawa, o rock da antiga esfera soviética (da Rússia, da Ucrânia, da ex-Jugoslávia), tudo separado ou tudo junto em alguns «cocktails» de música inesperada e excitante. Um belo exemplo é «Maribor», onde vários géneros convivem facilmente e como se sempre tivessem estado assim unidos. Os Kumpania Algazarra podem facilmente agradar a fãs dos Clash, Madness, Fela Kuti, Klezmatics, Gogol Bordello, Buena Vista Social Club, Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra, Fanfare Ciocarlia, Blasted Mechanism, Manu Chao, Bob Marley, Rachid Taha, Nogu Svelo ou Leningrad. Isto é, a tudo quanto é festa pegada. (texto originalmente publicado na revista «Time Out Lisboa»)
MANDRÁGORA - «ESCARPA» (Hepta Trad/Compact Records)

Oiço este segundo álbum dos Mandrágora e não consigo deixar de pensar como seria bom ler um texto do Fernando Magalhães sobre ele. Porque está aqui, neste álbum, tudo o que o Fernando mais gostava: um amor imenso à música tradicional portuguesa mas um amor que não se fecha em si próprio, antes abrindo-se a muitas, tantas, outras músicas: a folk galega, inglesa, irlandesa, escocesa e escandinava, o rock progressivo e psicadélico, as derivações jazz, as doses certas de experimentalismo, aventura e arrojo. «Escarpa», dos Mandrágora, eleva este grupo portuense ao patamar dos grandes grupos folk europeus da actualidade. E é justo que eles lá estejam! Para além de Filipa Santos (flautas, saxofone e gaita-de-foles), Ricardo Lopes (percussões, flautas e throat-singing), Pedro Viana (guitarra clássica), Sérgio Calisto (violoncelo, moraharpa, bouzouki e nyckelharpa) e João Serrador (baixo), em «Escarpa» colaboraram Simone Bottasso (acordeão diatónico), Matteo Dorigo (sanfona), a cantora Helena Madeira, do Projecto Iara, no hipnótico e selvático «Turbilhão», e Francisco Silva (aka Old Jerusalem) a dar a voz e a guitarra à deliciosa canção - canção mesmo! - que é «Abaixo Esta Serra».
MELECH MECHAYA - «MELECH MECHAYA» (Edição de Autor)

Que se saiba nenhum dos almadenses Melech Mechaya é judeu, mas isso também não interessa nada (não é preciso ser jamaicano para fazer reggae ou de Liverpool para se fazer música influenciada pelos Beatles): a verdade é que o grupo toca klezmer e que o toca muitíssimo bem!! Eles ao vivo são uma maravilha e neste EP de estreia, com cinco temas, está apenas uma amostra daquilo que eles são: festivos, inventivos, dançantes, por vezes doidos varridos, a irem à música dos judeus do centro e norte europeu como se esta fosse a coisa mais natural para quem vive na margem sul do Tejo. Em três temas originais do grupo - «Noite Tribal», «Zemerl Biffs» e «Fresta Fresca» - e duas versões - «Bulgar de Odessa» (Ucrânia) e «Miserlou» (o tema grego que Dick Dale popularizou) -, o quinteto passa pelo klezmer e por alusões a outras músicas suas irmãs, da música árabe à música cigana dos Balcãs, com uma facilidade e uma alegria contagiantes. Não é tão bom ouvir o EP quanto é vê-los ao vivo, mas já é uma aproximação.
MU - «CASA NOSTRA» (Edição de Autor)

De onde é que vem esta música que não se sabe bem de onde vem?... Nos Mu - e, recorde-se, Mu era o nome de um mítico continente perdido, terra de atlantes, sereias e outros seres míticos - a música parece vir de todo o lado e de um lado só deles, dali de dentro, das suas almas e dos seus corações. Se calhar, os Mu recriam sem o saber temas tradicionais de Mu, o continente do Oceano Pacífico onde se teriam cruzado povos ainda agora existentes e outros que deixaram de existir, seres verdadeiros e imaginários, se é que a verdade e a imaginação não são uma e a mesma coisa, como o são na música dos Mu. Porque uma música que tem tanto de verdade como de... imaginação. E uma alegria e um brilho imensos, um encanto permanente tanto nos temas originais - mas que reflectem tantas e tantas músicas de tantos e tantos lugares! - como nas versões de tradicionais russos ou húngaros. A música dos portuenses Mu serve para dançar, serve agora ao segundo álbum (este «Casa Nostra» em que tem como colaboradores Helena Madeira, do Projecto Iara, o grupo de percussões Semente e Quico Serrano como produtor) como já servia ao primeiro, mas serve também para ensinar a ouvir - a ouvir a sua música e a de muitos outros. E isso é o que torna os discípulos mestres.
NAVEGANTE - «MEU BEM MEU MAL» (Tradisom/iPlay)

«Meu Bem Meu Mal», o novo álbum dos Navegante - ainda e sempre liderados por José Barros, embora tenha deixado cair o seu nome do nome do grupo -, é sem dúvida o melhor de sempre deste projecto. E o facto de José Barros ter contado com José Manuel David (dos Gaiteiros de Lisboa) como cúmplice principal nos arranjos e na produção deste disco foi um trunfo importante. Assim como o alargadíssimo leque de convidados presentes: de vários dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Rui Júnior, as txalapartistas bascas Ttukunak, Manuel Rocha, Janita Salomé, João Afonso, Edu Miranda, etc, etc... Mas isso não impede, mais uma vez, uma certa sensação de frustração quando se ouve o álbum de início ao fim e se fica com a sensação de que muitas destas canções - tanto os originais de José Barros quanto os tradicionais adaptados - poderiam, e deveriam, ir muito mais longe em arrojo e aventura. Oiçam-se as excepções, como por exemplo «Sábado d'Aleluia», onde o universo é muito mais Gaiteiros de Lisboa do que Navegante, ou o divertido e fresquinho «Fado do Tu Cá Tu Lá» (um dos dois temas co-compostos por Barros e Amélia Muge), para se perceber o que quero dizer.
PÉ NA TERRA - «PÉ NA TERRA» (Açor)

É tão bonito e fresquinho este álbum de estreia dos Pé na Terra! Um álbum em que se sente um amor enorme pela tradição - quer seja a tradição portuguesa (presente em «Menino Ó» e «Maria Faia») quer por outras tradições de outros lugares (e andam por aqui valsas e chapeloises) quer pela «tradição» que já é a música de José Afonso (a lindíssima e, no final, arrojada versão rock de «Balada do Sino) - e uma vontade de, tomando balanço nessa tradição, avançar para temas originais mas que cheiram a terra, a raízes, a aldeias (aldeias portuguesas, sim, mas também aldeias perdidas no interior da Galiza, de França, das ilhas britânicas...). Depois, Cristina Castro é uma excelente cantora e acordeonista, Ricardo Coelho é um fabuloso gaiteiro e flautista - e neste álbum ele usa gaitas de várias proveniências, low whistle, requinta, gralha, numa panóplia de instrumentos interminável - e o resto da banda - Hélio Ribeiro (guitarras), Adérito Pinto (baixo), Tiago Soares (bateria e percussões variadas) e a convidada permanente Silvana Dias (violoncelo) - dá uma consistência única ao som final do grupo. Abertos, livres de preconceitos e hiper-criativos, os Pé na Terra são já uma das mais importantes bandas folk portuguesas.
PROJECTO FUGA - «01» (Fuga/Compact Records)

E que bela surpresa esta!! «01», o primeiro álbum do Projecto Fuga foi um «work in progress» que juntou um trio «nuclear» - Pedro Pereira (principal compositor e teclados, samples, guitarras...), Maria Pedro (principal letrista) e Milton Batera (bateria) com muitíssimos e diferenciados músicos e cantores convidados: Celina da Piedade (acordeão e voz), JP Simões, o guineense José Galissá (kora e voz), Teresa Gabriel), a brasileira Fernanda Takai (Pato Fu), o cantor nigeriano Enjel Eneh, Ana Deus e Adolfo Luxúria Canibal, entre outros. E em «01» há lugar para tudo o que se possa imaginar: há uma valsinha deliciosa, há alusões à música brasileira e a Fausto (em «De Fugida»), à música árabe, ao jazz, à música africana, ao rock de tendência sixties («Verso Inverso», com a voz de Pedro Bonifrate, dos Supercordas) e de outras tendências, ao fado («Outro Tema»), aos blues («Dakun Baby») e até a algum experimentalismo. «01» não é um álbum homogéneo - e ainda bem! - nem é sempre bom... Mas quando é bom é mesmo muito bom!
TUCANAS - «MARIA CAFÉ» (Spot/Farol)

Muitas delas saídas dos Tocá Rufar, as raparigas das Tucanas sempre foram umas excelentes percussionistas - e sempre tiveram nas percussões a sua base de trabalho primordial (percussões tradicionais ou por elas inventadas, os próprios corpos como instrumento de percussão...) -, mas, a pouco e pouco, também as harmonias vocais foram tomando um papel importantíssimo no seu processo de composição. Finalmente, e para acabar de compor o ramalhete, a adição da acordeonista Marina Henriques deu-lhes a «carpete» melódica e harmónica que muitos dos seus temas precisavam. E este intróito todo é necessário para explicar o grau de excelência, de virtuosismo e de criatividade que «Maria Café», o primeiro álbum das Tucanas, conseguiu atingir. Um grau elevadíssimo, mesmo que não tivesse sido necessário gravar tantos temas para o conseguir. Em «Maria Café», as Tucanas passeiam alegremente pela música africana (anda por lá o batuque cabo-verdiano e muitas outras alusões a África), a música brasileira e latino-americana - mesmo quando a latino-americana se une à... música cigana dos Balcãs (na versão de «Peruano» com a Kumpa'nia Al-gazarra) -, os bailes tradicionais europeus (oiça-se o delicioso final de «Domingão/Niará») e o divertimento puro e simples («Kazoo», com Carmen Miranda incorporada), seguindo os ensinamentos do O Ó Que Som Tem - e está lá Rui Júnior (também seu mestre nos Tocá Rufar) - e das Zap Mama, dos Stomp e de Bobby McFerrin. E seguindo-os muito bem!
22 maio, 2008
Toubab Krewe, Boom Pam, Mandrágora, Bailarico Sofisticado... Todos no FMM de Sines

Os Toubab Krewe (na foto), um bando de ianques branquelas apaixonados por Ali Farka Touré e a música mandinga da África Ocidental, também vão ao FMM de Sines, actuando lá no dia 24 de Julho, tal como se pode ver no seu myspace. Mas ainda há mais nomes a juntar ao cartaz: segundo o Juramento Sem Bandeira, do camarada Vítor Junqueira, também os fabulosos surf-rockers-klezmer-balcanizados Boom Pam actuam no FMM no último dia, 26 de Julho, seguindo-se-lhes nessa noite uma sessão de DJing com o Bailarico Sofisticado - o próprio Vítor mais o Pedro Marques e o Bruno Barros e um convidado, digamos, especial... António Pires. Dias antes, ainda segundo o Juramento Sem Bandeira, os portugueses Dead Combo, acabadinhos de editar o seu álbum «Lusitânia Playboys», actuam no FMM a 22. Já o camarada Luís Rei, através das suas Crónicas da Terra, anuncia para o FMM a presença, na última noite, de Koby Israelite, discípulo de John Zorn na editora Tzadik, e, a 24, os nossos Mandrágora - cujo novo álbum «Escarpa» é uma excelente confirmação - acompanhados por três músicos bretões da Kreiz Breizh Akademy: o violinista Jacky Molard, a cantora luso-francesa Simone Alves e Guillaume Guern. Ah!, e o Vítor fez um cartaz delicioso alusivo à actuação conjunta dos três bailariquentos com o dono aqui deste tasco (para meu grande orgulho e alguma, hermmmm, perturbação):
14 fevereiro, 2008
Mandrágora - Segundo Álbum a Caminho

O grupo portuense Mandrágora vai editar o seu segundo álbum, «Escarpa», dia 9 de Maio, informa o nosso camarada Rui Dinis, d'A Trompa. Fazedores de uma folk que vai às raízes tradicionais portuguesas para as fundir com jazz, rock progressivo e algum experimentalismo, os Mandrágora - Filipa Santos (flautas, saxofone e gaita-de-foles), Ricardo Lopes (percussões, flautas e throat-singing), Pedro Viana (guitarra clássica), Sérgio Calisto (violoncelo, moraharpa, bouzouki e nyckelharpa) e João Serrador (baixo) - terão em «Escarpa» a colaboração de Simone Bottasso no acordeão diatónico, Matteo Dorigo na sanfona, Helena Madeira (Projecto Iara) na voz e Francisco Silva (Old Jerusalem) na voz e guitarra. «Escarpa» sucede ao álbum de estreia dos Mandrágora, homónimo, lançado em 2005, e é editado pela Hepta Trad.
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28 setembro, 2007
OuTonalidades - Ou Como Criar Um Festival Itinerante

De 4 de Outubro a 22 de Dezembro, variadíssimos espaços por esse país fora acolhem inúmeros concertos de diferentes áreas musicais (e também teatro e cinema), mas com destaque para a folk e a música tradicional, em mais um festival OuTonalidades, da Associação d'Orfeu, desta vez espalhado de norte a sul de Portugal. O programa é extensíssimo e complexo - podem consultar-se horários, locais e grupos/artistas, com tudo bem explicadinho, aqui - mas neste post ficam as indicações básicas: os agrupamentos, músicos e outros artistas envolvidos e os locais que os acolhem. No festival estão presentes os Mandrágora, Xoán Curiel, Espírito Nativo, Ventos da Líria, Melech Mechaya, T3+Uns, Quarteto de Sofia Ribeiro, Stockholm Lisboa Project, Politonia, Arrefole (na foto), Comcordas, «4 Curtas e Uma Húngara» (cinema com música improvisada ao vivo), Talitha Kum, Andarilhos, Fábrica de Sonhos, Pi Sem Pé (teatro), Muito Riso Muito Siso (teatro), Sesto Senso, Agustin Portalo («One Man Band»), Gui Duvignau, Fados do Andarilho, Mu, João Gentil & Luís Formiga, Sweet Punk Jazz, Lufa-Lufa, Maré Jazz e Plasticina. Todos espalhados pelo Cine-Teatro de Estarreja, Casa da Eira de Paços de Ferreira, Piazzolla Café-Bar de Cantanhede, ACERT de Tondela, Pizzaria Suprema de Águeda, Teatro Municipal da Guarda, Espaço d'Orfeu de Águeda, Sítio do Cefalópode de Lisboa, Espaço Celeiros de Évora e Alaúde Bar do Fundão. Para dar um novo sentido à palavra «festival».
29 maio, 2007
Granitos Folk - De Regresso ao Contagiarte...

Juro que amanhã falo sobre umas coisas que vão acontecer na minha cidade, em Lisboa. Mas, para já e já hoje, volto a falar do Contagiarte e da quarta edição do festival Granitos Folk, que decorre de 6 a 9 de Junho neste espaço multicultural da cidade do Porto. Apostando apenas em grupos folk/tradicionais portugueses, o Granitos deste ano apresenta um programa interessantíssimo que junta alguns quase-veteranos destas lides a alguns jovens grupos de elevado potencial. Dia 6, o festival abre com os portuenses Pé na Terra (vencedores do recente concurso Folk and Roll e fazedores de uma música que tanto os leva à tradição portuguesa como ao reggae e ao rock) e Mandrágora (um dos mais importantes grupos portugueses a fundir a folk com o rock progressivo e sons vindos de muitos e desvairados lugares; na foto). Dia 7 é a vez dos belíssimos cantares e sons tradicionais rejuvenescidos da Serra do Caramulo pelos Toques do Caramulo (de Águeda) e do jazz manouche e inventivo dos Comcordas (de Castelo Branco). Dia 8, alguns dos músicos dos Comcordas repetem a presença em palco com um outro projecto, os Ventos da Liria, que vão à música «celta», ao tango e à música balcânica, numa noite em que também actua o grupo de danças tradicionais No Mazurka Band (com viras, corridinhos, chulas, pingacho, mas também valsas, rumbas e paso-dobles). Na última noite, sábado, há mais festa e dança com dois grupos que fazem das danças tradicionais europeias o seu trampolim para uma comunhão absoluta com o público bailante à sua frente: os Mosca Tosca e os Bailebúrdia. Mas, para quem isto não chega, ainda há sessões de DJ de folk e world music, todas as noites, com os DJs Osga, Sérgio, Moustache, Innyanga e Goldenlocks. Assim haja fôlego, coração e uma mezinha qualquer para as bolhas nos pés...
04 setembro, 2006
Festa do «Avante!» - Uma Música em Atalaia

Estar de atalaia é o mesmo que estar atento, vigilante, sentinela de algo de novo, que acontece ou está para acontecer. E é uma coincidência feliz que a Festa do «Avante!» - órgão oficial do Partido Comunista Português - se realize, desde há muitos anos, numa quinta com este nome. Porque a Festa continua a ser um óptimo ponto de descoberta e de observação (ainda outra maneira de dizer atalaia) da música que se faz em Portugal e noutros sítios. A 30ª edição da Festa do «Avante!» teve momentos altos suficientes para que permaneça por muito tempo na memória dos festeiros, avantereiros aventureiros. Aqui ficam algumas notas soltas sobre alguns dos concertos de folk/trad/world, o que se lhes quiser chamar...
Logo a começar, na sexta-feira, os Djumbai Jazz do cantor guineense Maio Coopé - com José Galissa numa kora deliciosa e baixo, bateria, saxofone, duas coralistas-dançarinas, percussionista... - instalaram a festa com uma mistura explosiva de afro-beat, mbalax, funk e música mandinga. Cor, dança, alegria. Uma festa que continuou, horas depois, ainda no Auditório 1º de Maio, com o fado cada vez menos fado da, paradoxalmente, cada vez mais fadista - no canto, na voz, no espírito, na presença - Cristina Branco, num concerto lindíssimo (apesar do som dos foguetes e da música de carrinhos-de-choque de um bar próximo terem estragado, de vez em quando, o ambiente) e em que não se sentiu a ausência de Custódio Castelo (bem substituído por outro guitarrista - Paulo Parreira?) e onde o pianista Ricardo Dias (da Brigada Victor Jara) dá um toque de modernidade e sensibilidade absolutas. E fim de festa, na primeira noite, com os Andarilhos, banda sem pretensões que faz versões de música tradicional e levou a dança aos resistentes no Café-Concerto.
O segundo dia, sábado, começou muito bem, no 1º de Maio, com os Mandrágora, diferentes - para melhor - dos Mandrágora que tinha visto pela última vez em Loulé: a banda tem agora um baixo eléctrico (em substituição do acordeão) e o som do grupo portuense está agora mais rude, mais rock, mais swingante. Nalguns temas mais lentos o baixista ainda tenta encontrar o seu espaço, mas quando aquilo acelera ele leva o resto da banda atrás de si. E isso é bom. Ainda no Auditório, A Naifa (na foto, de Mário Pires, da Retorta) deu o melhor concerto de todos os que vi nesta Festa: um concerto triunfal, com a banda de Mitó, João Aguardela, Luís Varatojo e, agora, Samuel Palitos na bateria, a saírem de palco, depois da sua versão de «Tourada» em encore, debaixo de uma tempestade de aplausos. E razões para os aplausos não faltaram: Mitó cantou como nunca a ouvi cantar (toda ela confiante, confidente, sensual, solta e livre e feliz), Aguardela está um mestre no baixo eléctrico, Varatojo está cada vez mais um melhor executante de guitarra portuguesa e Samuel Palitos deu um toque perfeito de fúria punk a alguns temas, que assim ganharam corpo e densidade rítmica. Depois, o reportório privilegiou o segundo álbum e nem faltou o irónico para a ocasião - mas bastante bem aceite - «Señoritas» ou o cada vez mais arrepiante, arrepiante mesmo!, «Todo o Amor do Mundo Não Foi Suficiente».
Não vi - só ouvi de perto, numa fila à espera de uma sandes de leitão... - os escoceses Peatbog Faeries, mas aquilo soa quase sempre bem - principalmente nos solos do violino - e às vezes mal, quando um rock manhoso entra pelos jigs e reels fora e arrasa aquilo tudo. Manhosice que não existe, e ainda bem, nos Gaiteiros de Lisboa, que deram mais um concerto magnífico (no palco 25 de Abril), que começou com a loucura de «Ciao Xau Macau» e continuou com temas do novo álbum (destaque, óbvio, para aqueles em que Manuel Rocha, da Brigada Victor Jara, entrou muito bem com o seu violino - «Comprei Uma Capa Chilrada» e «Chamarrita do Pico» -, e para as picantíssimas «As Freiras de Sta. Clara») e outros mais antigos que levaram ao coro ou ao espanto ou ao mosh ou ao pulo muitos dos fãs dos Xutos & Pontapés (que actuariam a seguir): «Mbira do Norte», «Subir Subir», «Quando o Judas Teve Sarampo» ou, já no encore, «Trângulo Mângulo».
Infelizmente só consegui ver parte do concerto dos Taraf de Haidouks: o espectáculo destes ciganos romenos estava magnífico, tal como sempre, mas o calor, a quantidade de gente amontoada num espaço cada vez mais exíguo (o Auditório 1º de Maio) para alguns concertos, os feedbacks constantes, fizeram-me zarpar para um bar próximo, com amigos e cervejas frescas. E, depois, já perto das três da manhã, para uma surpresa: os já mencionados Manuel Rocha (em violino) e Ricardo Dias (aqui em acordeão) tocavam «standards» de música tradicional portuguesa e de José Afonso («As Sete Mulheres do Minho», «Milho Verde», etc, etc, etc...), em cima de uma das mesas do restaurante de Coimbra, para deleite e festa e coro de dezenas de pessoas. E isto é tão bonito!!
No domingo falhei os concertos da tarde mas cheguei a tempo de confirmar, mais uma vez, o poder - dir-se-ia magnético - dos fabulosos Babylon Circus, no Palco 25 de Abril: centenas de pessoas aos saltos e em dança constante durante o seu concerto feito de tantas músicas quanto é lícito imaginar. Saí, estavam eles a cantar que a caravana passa, pelo meio de milhares de pessoas em direcção ao concerto de Sérgio Godinho, no 1º de Maio, a abarrotar lá dentro e com mais algumas centenas de pessoas a assistir de fora: um concerto em que Godinho - acompanhado por uma banda rejuvenescida e com músicos de escola de rock inteligente - fez apelo à memória de muitos dos rapazes e raparigas que o conheceram via «Os Amigos do Gaspar» (e isso foi perfeitamente audível no coro, lindíssimo, que recebeu a canção «É Tão Bom»), mas sem esquecer temas emblemáticos da sua carreira - todos eles também com direito a coro - como «Balada da Rita», «Arranja-me Um Emprego», «Quatro Quadras Soltas» ou «Com Um Brilhozinho nos Olhos», altura em que furei pela multidão pé ante pé, com licença, com licença, até ao Avan'Teatro para me despedir da Festa ao som dos Roncos do Diabo.
E foi uma bela despedida: a última vez que os vi (há dois anos, no Andanças) ainda se chamavam Gaitafolia e este grupo de gaiteiros e percussionista lisboetas ainda não tinham este sentir bárbaro, selvagem e, ao mesmo tempo, hiper-afinado que têm hoje. Uma versão violentíssima da «Saia da Carolina», um tema chamado «Quero É Que Tu Te Fodas» (é mesmo assim que se chama?) e um fandango asturiano, entre outros, puseram dezenas de pessoas (as que este pequeno espaço suportava e outras lá à porta) a dançar e a suar em bica, apesar do sol já não brilhar há algumas horas. De referir, a finalizar, que faltaram à chamada a fabulosa cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, as brasileiras Mawaca e os inicialmente também previstos espanhóis Amparanoia, nomes que bem podiam aparecer na edição 31 da Festa, para alegria de todos nós...
10 julho, 2006
Folk em Portugal - Há Um Ano Era Assim

Os textos que se seguem foram publicados originalmente no BLITZ em Junho do ano passado, num dossier que pretendia tomar o pulso ao estado da folk em Portugal. Um ano depois continuam a fazer sentido. Isto se descontarmos o facto de alguns dos discos indicados no texto como tendo edição iminente na altura ainda não terem sido editados um ano depois: Uxu Kalhus (com edição prevista para breve através da HeptaTrad), Brigada Victor Jara (na foto - com álbum também para breve, na Universal) e Realejo (não se sabe quando). Deles trataremos brevemente, juntamente com outros entretanto publicados (dos Lumen, Andarilhos, Moçoilas e Ginga). A juntar aos textos e às críticas publicados no dossier estão também duas críticas (a álbuns dos Mu e dos Chuchurumel) publicadas posteriormente.
DOSSIER FOLK/TRADICIONAL PORTUGUESA
INTRODUÇÃO
E, de repente, a primeira metade de 2005 está cheia de discos novos de grupos portugueses de música tradicional ou folk ou inspirada nas raízes ou o que se lhe quiser chamar. Este ano, e até agora saíram discos dos Galandum Galundaina, Marenostrum, Mandrágora, Roldana Folk, Trovas ao Vento, Notas & Voltas e Belaurora. E para breve está prevista a edição de álbuns dos Mu, Uxu Kalhus, Realejo, Brigada Victor Jara e Moçoilas, entre outros. E se os cépticos poderão dizer que isto não é um «movimento», o que dizer então de fenómenos como os festivais Andanças e Entrudanças - que, no conjunto, movimentam milhares de pessoas que dançam músicas tradicionais -, da proliferação de festivais de world music ou étnica ou o que se lhe quiser chamar (desde o histórico Intercéltico do Porto e da visibilidade dada a estas áreas pela Festa do Avante aos mais recentes em Aveiro, Sendim, Sines, Loulé, Coimbra, Águeda, o itinerante Sete Sóis Sete Luas, etc, etc...); o que dizer das centenas de jovens «recrutados» para as orquestras de tambores tradicionais portugueses (Tocá Rufar, Tocándar, Bardoada, etc, etc); da proliferação de grupos, muitos deles não consultados neste dossier porque ele se limita aos lançamentos desta altura (por isso, e só por isso, ficam de fora os Gaiteiros de Lisboa, Dazkarieh, Segue-me à Capela, Monte Lunai, At-Tambur, Toques do Caramulo, Cramol, Gaitafolia, Chuchurumel, Beltane, etc, etc, ou artistas como Né Ladeiras, Amélia Muge, Janita...); dos encontros de gaiteiros e de tocadores que se organizam todos os anos com participantes de todas as idades e de várias regiões do país; da Associação d'Orfeu; do concurso para novas bandas Arribas Folk; do facto, simples e natural, do último festival Termómetro Unplugged ter uma percentagem esmagadora de grupos destas áreas na final; do trabalho de editoras discográficas (a Açor, a Tradisom, a Sons da Terra...) vocacionadas para as músicas de raiz; ou os sites que se debruçam sobre o fenómeno (o at-tambur, o crónicas da terra, etc); ou da reedição em CD de velhos LPs de grupos como os Terra a Terra ou os Raízes; ou a passagem pela RTP (embora escondida e sem promoção) do novo «Povo Que Canta»?
Nas páginas que se seguem, alguns dos grupos referem as razões do «boom», quem está na sua origem, e algumas das suas características - que vão desde os projectos de recolha na sua região (os Galandum Galundaina e os Belaurora) aos grupos urbanos que recriam a música portuguesa pondo-a em confronto com outras músicas, de variadíssimas proveniências.
ELES ANDAM AÍ...
O BLITZ enviou a vários grupos de música folk/tradicional (não englobando aqui o fado) um questionário comum a que responderam os Belaurora, Galandum Galundaina, Roldana Folk, Mu, Brigada Victor Jara, Marenostrum, Realejo, Uxu Kalhus e Mandrágora. As suas respostas dão uma visão global do que é o «movimento» em Portugal, da sua diversidade estilística e instrumental e dos seus «gurus».
Quando se fala de folk, de música tradicional, de músicas étnicas, de world music, de música popular, chega-se geralmente à conclusão que qualquer destes termos é bastante limitativo, não passando cada um deles de uma «gaveta» ou «etiqueta» fácil para o enquadramento da música de um grupo ou artista. O BLITZ quis ser um pouco mais objectivo e perguntou «o que é que na vossa música é especificamente de raiz tradicional portuguesa?». Os açorianos Belaurora respondem que «praticamente tudo o que interpretamos é de raiz tradicional. Aliás, mais de 90 por cento do nosso repertório é mesmo música tradicional, recriada pelo grupo». Paulo Meirinhos, dos transmontanos Galandum Galundaina vai pelo mesmo caminho: «A nossa música baseia-se exclusivamente na música tradicional das Terras de Miranda, tanto em relação ao repertório como aos instrumentos musicais que usamos. Temos o privilégio de termos nascido e crescido neste meio tradicional rico em cultura e desde pequenos nas nossas aldeias (Fonte de Aldeia e Sendim), ouvimos os gaiteiros nas festas e em casa, ao lume, as músicas. A música que fazemos vem-nos no sangue». Já os Roldana Folk, do Porto, dizem que utilizam «padrões rítmicos tradicionais portugueses, nomeadamente o dos Zés Pereiras e as versões dos temas mirandeses "La Çarandilhera" e "Cirigoça"». Paulo Machado e José Francisco Vieira, dos Marenostrum, referem «os ritmos ou géneros musicais como o corridinho e o baile mandado»; e Vasco Ribeiro Casais, d'Uxu Kalhus, diz que «são os temas que intrepertamos como "Erva Cidreira", "Malhão", "Mat'aranha", "Regadinho" e também alguns instrumentos». Por sua vez, os Mandrágora afirmam que «nada na nossa música é estritamente tradicional, servindo esta, acima de tudo, de inspiração. O facto de todos os membros da banda ouvirem e apreciarem música tradicional acaba por se reflectir no som que criamos». E Manuel Rocha, dos pioneiros Brigada Victor Jara - com álbum novo, comemorativo de 30 anos de carreira do grupo de Coimbra, a sair brevemente -, diz que transformam os temas recolhidos: «A matéria-prima que "transformamos" é a melodia e o texto. Claro que a natureza da canção (ou do tema instrumental) é assumido como condicionante do arranjo (não há que pôr muita "festa" numa cantiga de embalar)».
As recolhas de música tradicional - feitas por Michel Giacometti (na foto), José Alberto Sardinha, etc. - são fundamentais para muitos deles. Manuel Rocha diz que «a maior parte do nosso trabalho baseia-se em recolhas de M. Giacometti. Usamos ainda recolhas de Margot Dias, do GEFAC, de Ernesto Veiga de Oliveira entre outros, e algumas (poucas) nossas». Giacometti é também referido pelos Marenostrum - «Na primeira fase de vida do grupo, fazíamos versões de música tradicional e usámos recolhas de Giacometti, entre as quais se conta um corridinho do Algarve» - e por Fernando Meireles, dos Realejo (também com novo disco a caminho): «Giacometti, Sardinha, e também Lopes Graça, Ernesto Veiga de Oliveira, Júlio Gomes, enfim, o que se cruzar connosco e for do nosso agrado». Meirinhos refere que «o repertório que apresentamos e em que nos baseamos, é principalmente do nosso ambiente familiar onde sempre se cantaram as músicas tradicionais. E sempre contactámos com os velhos gaiteiros para pedir conselhos. Na medida do possível, ouvimos gravações antigas do José Alberto Sardinha, Domingos Machado e mais recentes do Mário Correia onde contactamos com músicos que já não existem e repertórios menos conhecidos». Sardinha é ainda referido pelos Roldana Folk - «No último trabalho discográfico fizemos uso de recolhas do José Alberto Sardinha» - e Mandrágora - «Apesar de fazermos maioritariamente originais, desde sempre tivemos uma ou outra música inspirada em recolhas, nomeadamente de José Alberto Sardinha. Actualmente, tocamos uma versão nossa da "Galandum"». Já os Belaurora dizem: «Usamos essencialmente recolhas publicadas por outros, como Tavares Canário (1901), Padre José Luís de Fraga e Júlio Andrade (1960), Pedro Homem Machado (anos 90), Ten. Francisco José Dias (anos 80) e outros. Alguns temas resultaram de recolha directa feita pelo grupo». E Uxu Kalhus referem os ranchos folclóricos como fonte principal de recolha.Como áreas geográfico-musicais prefenciais, os Belaurora referem, naturalmente, os Açores, os Marenostrum, o Algarve, e os Galandum Galundaina «as Terras de Miranda e algum repertório da zona de Bragança e Vinhais». Miranda e restantes Trás-os-Montes são também referidos como zonas de preferência dos Roldana Folk, Mandrágora e até da Brigada Victor Jara. Diz Manuel Rocha que «a região mais "sedutora" será, porventura, Trás-os-Montes. Pela variedade de romances, cantigas de trabalho, de festa. Mas julgo que, de algum modo, fomos "usando" cantigas de todo o território português continental e insular». Sem uma área definida de interesse principal estão os Realejo - «Sempre adaptamos as músicas por elas se nos apresentarem interessantes do ponto de vista melódico e rítmico» -, Uxu Kalhus (com álbum de estreia previsto para breve) e os portuenses Mu (cujo álbum de estreia, «Mundanças», está prestes a ser editado). Osga, dos Mu, afasta a música que fazem das raízes portuguesas referindo que tocam, essencialmente, originais mas acrescentando que «estamos abertos a toda a música. Inconscientemente temos muita influência dos países do leste europeu, talvez por a nossa acordionista conhecer muito bem esse universo musical».
FUSÕES, INFLUÊNCIAS, GLOBALIZAÇÕES
Num mundo globalizado e em que a informação circula livremente, é quase impossível fazer uma música «pura». Entre os grupos consultados pelo BLITZ, alguns tentam manter-se fiéis às raízes. Mas outros admitem facilmente a fusão com outros géneros musicais, desde o rock e jazz a músicas tradicionais de outros países. Os Belaurora dizem que só usam «música tradicional dos Açores», mas os Galandum confessam a dificuldade em manter essa «pureza»: «Neste projecto tentamos ser de alguma forma livres de outras influências, o que é muito difícil». Já Manuel Rocha refere que «nunca calhou andarmos intencionalmete por outros lados. Só neste disco incluíremos uma cantiga sefardita (da diáspora hebraica mediterrânica) que no-la "deu" o João Paulo Esteves da Silva», mas acrescenta: «O processo de aculturação a que nos deixamos sujeitar leva-nos sempre os dedos para outros "dizeres" musicais. Também fomos, aqui e ali "infectados" pelo vírus "celta", aquela estirpe que faz o público saltar...». Os outros assumem abertamente a fusão. Os Realejo falam de «músicas étnicas europeias». Os Roldana Folk «de ritmos de outros lugares do mundo distantes entre si e do recurso a linhas melódicas inspiradas em estéticas musicais tradicionais de outras culturas (árabe, sul-americana, europeia); jazz, rock, pop, fado, barroco, folclore europeu (Balcãs, Irlanda), samba, bossa». Os Mu das «recolhas que fizemos de temas tradicionais de países como a França, Croácia, etc. Tocamos desde valsas, mazurcas até músicas ciganas e nesses mesmos temas tocamos instrumentos de lugares tão distintos como as tablas da Índia ou o didgeridoo da Austrália». Os Marenostrum incluem na sua música «motivos e elementos rítmicos e melódicos de músicas étnicas de vários lugares: Norte de África, klezmer e Cabo Verde. De uma outra forma, pela energia com que tocamos certos temas e pelo prazer que temos em improvisar, temos que reconhecer que a nossa música também integra o rock e a música improvisada». Já os Mandrágora referem que «a nossa música resulta, principalmente, da forma de tocar de cada um, visto que todos os membros da banda têm gostos e influências musicais bastante diferentes». E Uxu Kalhus dizem que não têm «qualquer tipo de barreira», usando «jazz, funk, metal, música barroca, pop, mandinga, gnawa, árabe, ska, etc».
Manuel Rocha dá uma achega curiosa a este tema: «Sempre tivemos consciência (desde o primeiro registo) de estarmos a "roubar" a música rural, deslocando-a do seu lugar "natural" para a colocar em mãos alheias (as nossas). Mas a "fusão" ou "deslocalização" é inevitável, mesmo no contexto rural, no processo de transmissão oral». Noutros casos, a fusão de vários géneros foi crescendo ao longo do tempo para os Mu, os Marenostrum, os Realejo - «Foi crescendo porque o Realejo começou a frequentar festivais europeus», diz Meireles - e Uxu Kalhus - «Foi crescente de acordo com a entrada de novos músicos no projecto, mas deste o início do projecto que está presente e que é incentivada pelos membros do grupo», diz Casais. E para os Roldana Folk a fusão foi «mesmo um objectivo». Já para os Mandrágora, «a fusão entre diferentes estilos musicais, a existir, sempre foi inconsciente e involuntária, pois nunca foi nosso objectivo criar um estilo musical catalogável, muito menos directamente a partir de outros estilos já existentes».
INSTRUMENTOS DAQUI & DALI
Curioso é também verificar a diversidade de instrumentos que estes grupos usam, embora quase sempre em consonância com os géneros musicais por onde passeiam. Os Belaurora usam instrumentos tradicionais - «Viola da terra (Açores), violão, cavaquinho, bandolim, adufe, pandeiro...» - à mistura com outros - «Acordeão, violino, flauta, clarinete, flautim, contrabaixo» e, mais raramente, «violoncelo, fagote, tuba, saxofone, trompete e harmónica». Os Galandum usam «vários instrumentos musicais, alguns específicos da nossa região, como a gaita-de-fole mirandesa, com características bem definidas (timbre mais grave e aveludado). Usamos a flauta pastoril ou de tamborileiro e o músico toca em simultâneo um tamboril com a outra mão. Caixa de guerra, bombo, tamboril, pandeireta, pandeiro ou adufe, castanholas, conchas de Santiago, triângulo (ferrinhos)... E objectos de casa que quando bem explorados, conseguem-se sonoridades únicas como a garrafa, o cântaro ou bilha, a çaranda... Recentemente introduzimos no grupo a sanfona, que é um instrumento de origem medieval e permite-nos a abordagem de um repertório diferente como os rimançes. Utilizamos também a gaita-de fole-galega». Os Roldana Folk usam «bandola e paus mirandeses», mas também «flauta, tin-whistle, acordeão, guitarra, baixo, bateria, percussão e sequenciação (electrónica)». Os Mu usam os instrumentos portugueses «adufe e ferrinhos» e também «acordeão, serrote musical, didgeridoo, flauta, bombo, caixa, kazoos, colheres, pandeireta, tablas, percussões diversas, contrabaixo, violino, viola d'arco, udu» e um instrumento só deles, o «osgofone». Já os Marenostrum atiram-se a «bandolim, cavaquinho, adufe e caixa de guerra», mas também ao «acordeão, baixo eléctrico, guitarra acústica, bateria e um velhinho sintetizador analógico Korg». Uxu Kalhus utilizam «bombo e adufe» e «ralch fifen, acordeão, bouzouki, baixo eléctrico, guitarra eléctrica, bateria, flauta doce, flauta transversal, darbuka, bombo, djembé, tama, pandeiro, cabaça, etc». Os Realejo optam por «cavaquinhos, bandolins, adufes, sanfona» e pelos estrangeiros «concertina, gaita galega e guitarra folk». Os Mandrágora confessam que, «apesar de usarmos alguns instrumentos tradicionais portugueses (como bombo, adufe ou pandeireta), estes não são instrumentos centrais na nossa música», dando o protagonismo a «flautas, saxofone, gaita-de-foles, guitarras de seis e doze cordas, violoncelo, baixo eléctrico, moraharpa e percussões diversas». A maior panóplia de instrumentos vai, naturalmente, para a Brigada Victor Jara, que utiliza os nacionais «violas braguesa e beiroa, cavaquinho, bandolim, flautas de latão, de madeira e de cana, bombos e caixas da Beira Baixa e de Trás-os-Montes, gaita-de-foles, adufes, percussões de pequena dimensão (trancanholas, chincalho, ferrinhos, paulitos, conchas, pinhas, reco-reco, matracas da Semana Santa, etc.), concertina» e ainda «guitarras acústicas e semi-acústicas, violino, piano, sintetizador, alguns elementos de bateria de jazz, baixo acústico e eléctrico, acordeões de teclas e de botões».
O «BOOM» VISTO POR QUEM O FAZ
O recente aumento de números de gravações musicais destas áreas é encarado como natural e positivo por quase todos. «(Isto é) muito bom! Temos uma tradição musical fortíssima, com uma grande variedade de sonoridades, estilos, instrumentos. É importante recuperar todo este património musical tradicional e apresentá-lo da mesma forma que antes ou de outra diferente com arranjos novos, outros instrumentos», diz Paulo Meirinhos. Osga acrescenta uma simples frase: «Ufa, finalmente». Os Roldana Folk dizem que «é positivo. Demonstra uma maior sintonia, por parte especialmente de jovens criadores, com a cultura tradicional portuguesa e europeia, no sentido de afirmar uma identidade cultural genuína e, por isso, fortemente comunicativa». Já os Belaurora vêem o «boom» «com redobrado entusiasmo, já que é a mais perene das músicas que teima, por força e trabalho destes grupos, em perpetuar-se no tempo e nas consciências. Hoje é mais fácil gravar e editar e ainda bem pois, de contrário, muito do precioso trabalho que se vai produzindo voltaria ao esquecimento e à perda definitiva», enquanto Fernando Meireles acha que «é a evolução natural do que se vem passando por todo o mundo. Aqui na Europa já há muitos anos que estas músicas têm os seus locais de grande culto». Por sua vez, Casais diz que vê o movimento «com bons olhos; é sinal que as pessoas estão cada vez mais viradas para a sua tradição».
Os Mandrágora consideram que «sempre houve grandes bandas e discos que ficarão na história da música portuguesa por muitos anos. Na nossa opinião, este "boom" de edições deve-se ao facto de haver, da parte das pessoas, um interesse crescente por este tipo de música (cansados que estão da música "a granel")», mas também alertam: «Temos esperança que este interesse genuíno do público seja acompanhado também por outros meios de comunicação social, nomeadamente rádios e televisões». No mesmo sentido, perguntam os Marenostrum: «Em que rádios podemos ouvir o nosso disco ou os discos dos At-Tambur, Dazkarieh, Roldana Folk, já para não falar de grupos de peso como a Ronda dos Quatro Caminhos, a Brigada Victor Jara, os Gaiteiros de Lisboa... Quando voltaremos a ouvir na rádio a voz da Né Ladeiras, a flauta do Rão Kyao, o bandolim do Júlio Pereira ou as percussões do Rui Júnior? Um "boom" ou movimento musical forte não se pode reduzir a algumas edições discográficas que se aguentam nas prateleiras das FNACs apenas algumas semanas e depois são devolvidas aos editores, porque não têm compradores informados e cultivados por falta de divulgação da rádio, da imprensa e da televisão». Manuel Rocha vai ainda mais longe e explica que «os movimentos "revivalistas" são um produto da globalização: são a afirmação da "localidade". Não deixam, de qualquer modo, de ser um grupo "marginal", preterido pelas editoras e pelos meios de comunicação, o que indicia o seu baixo valor comercial para a indústria portuguesa. Mas a indústria portuguesa ainda não entendeu sequer o fenómeno do "novo fado" (que, de resto, não existe já que o mais - diria mesmo o único - revolucionário dos fadistas portugueses, é o "velho" Carlos do Carmo) e o seu potencial exportador. De qualquer modo, os booms são bons ou maus consoante a música que produzem seja boa ou má (não o saberei definir mas julgo saber identificar)».
TRIBUTOS, GURUS, PIONEIROS
Todos os grupos contactados fizeram questão de apontar aqueles que eles consideram ser os grandes responsáveis por tudo o que está a acontecer agora. Dos Belaurora, as homenagens vão para a «Brigada Victor Jara, Maio Moço, José Afonso (na foto), Giacometti, os citados dos Açores, a que podem acrescentar-se o Professor Artur Santos e Emiliano Toste (da editora Açor)». Os Galandum consideram que «um grande contributo para este estado de coisas deve-se aos festivais que apresentam esta vertente da música tradicional. Os festivais têm influenciado muito os gostos de quem hoje trabalha nesta área. Fizeram ver uma forma diferente de música tradicional. Estou-me a lembrar do Festival Intercéltico do Porto e todos os outros que se seguiram, o Andanças, a Festa do Avante que sempre apostou muito nesta vertente da música». Para os Roldana Folk, «o desenvolvimento destas áreas em Portugal é, sobretudo sustentado por uma alta qualidade de composição, interpretação e performance musical, gerada por artistas como o Carlos Paredes, a Amália, entre tantos. Esta situação torna possível o aparecimento, mais recentemente de bandas/artistas como, por exemplo, os Gaiteiros de Lisboa que abrem um caminho de modernidade/novidade no espectro estético musical português». Por sua vez, os Mu referem «o festival Andanças» como «o principal motor de divulgação da cena tradicional europeia em Portugal» e «o site dos At-tambur, que também tem uma importância fundamental na divulgação dos eventos relacionados com música étnica», para além «do Mário Correia, com o Festival Intercéltico de Sendim e o Sons da Terra, a Gaitafolia e o Encontro Nacional de Gaiteiros, todas as bandas...». Os Marenostrum avançam com uma lista de homenagens - «Fernando Lopes Graça, Michel Giacometi, Afonso Albuquerque, Brigada Victor Jara, Danças Ocultas, Uxu Kalhus, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho e Lua Extravagante», enquanto os Mandrágora referem «musicólogos como Michel Giacometti, José Alberto Sardinha ou o Abade Baçal, bem como a influência de Fausto ou dos Gaiteiros de Lisboa no desenvolvimento não só destas áreas mas de toda a história musical portuguesa. Há que destacar também o papel de inúmeras associações culturais que, por gosto e até por teimosia, apostam em manter viva a nossa herança musical e cultural» e os Realejo falam de «Fausto, José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Brigada Victor Jara, Júlio Pereira, Trovante, Pedro Caldeira Cabral, Carlos Paredes, Ernesto Veiga de Oliveira, Giacometti, Lopes Graça, Alberto Sardinha». A Brigada Victor Jara insiste em Giacometti: «Embora contra-vontade (ele chamava a esta música "música em segunda mão") foi Giacometti que, editando a música do povo, deu-a a conhecer a toda a gente que não se revia no "ranchismo" da "política do espírito" do regime fascista (o onomasticamente doce Estado Novo). Depois foram os grupos musicais que, "urbanamente", divulgaram esta música em versão "domesticada". Pecado de que, também nós, teremos que prestar contas no Juízo Final. Mas valeu a pena». E Uxu Kalhus consideram que «os Gaiteiros de Lisboa fizeram um óptimo trabalho. De resto existem associações com a PédeXumbo, a Associação Gaita de Foles, a D'Orfeu e os sites Attambur.com e Crónicas da Terra, que têm feito uma boa divulgação e organização de eventos e que têm levado muita gente ao encontro da tradição».SETE DISCOS (E MAIS DOIS EM ACRESCENTO...)
Sete-álbuns-sete é o resultado da colheita de discos nas áreas da música tradicional portuguesa/folk que o ano de 2005 nos deu até agora. É pouco? Não é, se verificarmos que durante todo o ano de 2004 foram editados apenas três ou quatro. E para os próximos tempos anunciam-se mais uns quantos.
«Modas i Anzonas» (Açor/Megamúsica) é o novo álbum dos Galandum Galundaina, que mostram aqui uma evolução enorme em relação ao passado. As músicas das Terras de Miranda (lhaços, romances, modas locais...) continuam lá, e com um grau de pureza e verdade assinaláveis, mas o grupo apresenta agora uma variedade harmónica muito maior: a somar às gaitas, flauta pastoril e tambores, introduziram uma sanfona, mais percussões e atiram-se agora sem temor a jogos de vozes mais arrojados. Um hit de rádio obrigatório: «Dona Tresa».
Também bastante «localizados» na música da sua região, mas com uma abordagem mais comum a muitos grupos de MPP, os Belaurora fazem, no álbum «O Cantar Que nos Embala» (Açor/Megamúsica), versões simples e sem maneirismos de muitos temas de várias ilhas açorianas, não faltando aqui canções como «Chamarrita» (em duas versões diferentes), «Olhos Negros» ou «Samacaio».
No Algarve, os Marenostrum também pegam, no álbum «Almadrava» (Som Livre), em música da sua região (corridinhos, bailes mandados...), mas embrulham-nos em arranjos devedores de muitas outras músicas: a música árabe, o klezmer, o jazz, a música cabo-verdiana. O resultado é, na grande maioria dos casos, bastante entusiasmante e inovador (oiça-se, por exemplo, «Fado da Ilha», uma skazada fadista/klezmer e com picante africano).
Do Porto, os Mandrágora mostram no seu álbum «Mandrágora» (Zounds/Sabotage) como a folk em Portugal está a evoluir. Interpretando na sua grande maioria, originais - a excepção é a sua versão de «Galandum» -, os Mandrágora fundem folk, digamos, «céltica» (e uma excelente gaita-de-foles está lá para fazer a ligação) com bons delírios do rock progressivo, experimentalismos que os levam para territórios próximos dos Hedningarna, uma aproximação ao throat-singing de Tuva única em Portugal, e influências, benéficas, dos Sétima Legião (com Trás-os-Montes no pensamento). Só como exemplos, os temas «O Aranganho», «E Pia o Mocho» e «Trangalhadanças» são uma maravilha.
Também do Porto, os Roldana Folk fazem, em «Gincana» (Açor/Megamúsica), uma abordagem pop de muitos temas inspirados por várias músicas tradicionais: de raiz portuguesa, sim (cf. na excelente e surpreendente versão de «Cirigoça»), mas também a viajar em direcção ao Oriente, ao flamenco, aos Balcãs... Imagine-se um estranho cruzamento dos Mler Ife Dada com a Banda do Casaco e ter-se-á uma ideia vaga do que se pode ouvir aqui. «Templo do Som», «Arabiando», «Querer o Que Já Temos», «1,2,3» ou o animadíssimo «Balcânico» também são belíssimas surpresas deste disco.
De Guimarães, os Trovas ao Vento lançam agora o seu terceiro álbum, «Moinhos de Vento» (Tradisom/Megamúsica), com José Barros, dos Navegante, a dar uma ajuda na produção e arranjos. Aliando originais e alguns tradicionais, o grupo mostra um som despretencioso e baseado nas sonoridades dos instrumentos tradicionais. Uma bonita versão do tema medieval «Ai Ondas do Mar de Vigo», «Ponte das Bruxas» (com um violino lindíssimo), «Murinheira de Guimarães» (a fazer a ponte entre o Minho e a Galiza) e o arrepiante «Atirei C'uma Laranja» (com as cantadeiras de Briteiros) ficam como momentos mais altos deste álbum.
Finalmente, «Decantado» (Tradisom/Megamúsica), dos Notas & Voltas, é uma excelente prova de que a música tradicional é uma paixão comum a muita gente. Formados por trabalhadores do Banco de Portugal que têm a música como hobby, os Notas & Voltas têm aqui um álbum desigual e, por vezes, com demasiado «folclorismo» e excesso de instrumentação, mas têm também alguns belíssimos momentos: «Chin-glin-din» (de Trás-os-Montes), «Senhora dos Remédios/Nossa Senhora da Graça» (Beira Baixa) e «Cartinha de Amores» (Beira Alta). As adaptações e arranjos são de Vítor Reino (dos Maio Moço).CHUCHURUMEL
«NO CASTELO DE CHUCHURUMEL»
Ed. de Autor
Grupo folk da cidade do Porto vai ao campo.
A Banda do Casaco fê-lo com a cantora Ti Chitas; a Sétima Legião fê-lo no álbum «Sexto Sentido»; o projecto Megafone, de João Aguardela, fá-lo quase sempre. O aproveitamento de recolhas de temas tradicionais para inclusão em discos de grupos musicais urbanos - mesmo que, muitas vezes, de inspiração rural – é uma «fórmula» que pode resultar melhor ou pior consoante o talento e a arte de quem o faz. Em «No Castelo de Chuchurumel», o duo de Julieta Silva e César Prata (ambos em vozes e instrumentos tradicionais portugueses e estrangeiros, como a darabuka árabe ou a txalaparta basca, e programações) reinterpretam bem e com coragem temas tradicionais portugueses, entremeando-os (raramente «misturando-os») com recolhas no terreno. E o único problema do álbum é exactamente esse: estão aqui um excelente álbum folk dos Chuchurumel e um excelente álbum de recolhas, mas muitas vezes sem ligação aparente entre os «dois». (7/10)MU
«MUNDANÇAS»
Açor/Megamúsica
Grupo do Porto às voltas com as danças tradicionais europeias.
O recente boom de grupos influenciados pelas músicas tradicionais está a revelar alguns exemplos de inventividade absoluta e, até há alguns tempos, completamente inesperada. O grupo portuense Mu – dois rapazes e quatro raparigas – mergulha neste caldeirão (e no caldeirão-irmão dos grupos que fazem música para bailes tradicionais) de cabeça e sem temores, fundindo bem os seus originais, músicas de Leste (Rússia, Croácia, Macedónia...), da Suécia e dos países do centro da Europa (França, Bélgica), klezmer e sabores orientais (um imenso Oriente que vai de Marrocos à Índia). Com um picante adicional: o som do grupo está entre uma charanga manhosa e uma treinada formação de música clássica (com o equilíbrio entre os dois «lados» a personalizar fortemente a sua identidade). Um único senão: não há quase nada de português lá pelo meio. (8/10)
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