Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Guajiro Mirabal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Guajiro Mirabal. Mostrar todas as mensagens

28 outubro, 2008

Ry Cooder e o Buena Vista Social Club - O Meu Coração É Cubano


Ouvir agora o álbum gravado ao vivo pelo colectivo Buena Vista Social Club no Carnegie Hall em Nova Iorque é voltar a sentir o mesmo arrepio que se teve quando se ouviu pela primeira vez o álbum de estúdio do «grupo» e se viu pela primeira vez o documentário de Wim Wenders com o mesmo nome. Há algumas semanas, na «Time Out Lisboa», foram publicados estes meus dois trabalhos a propósito dessa edição: uma entrevista com Ry Cooder (na foto), produtor do «Buena Vista Social Club», e uma crítica ao álbum ao vivo recentemente editado pela World Circuit.


RY COODER
O MEU CORAÇÃO É CUBANO

Este título é mentira. Ou é só uma semi-mentira. Nunca, ao longo desta entrevista, Ry Cooder disse a frase. Mas sente-se - no decorrer de toda a conversa que tem como mote a edição em disco do mítico concerto do Buena Vista Social Club no Carnegie Hall, em Nova Iorque - que Cooder está quase, quase a dizê-la.

Quem viu o filme «Buena Vista Social Club», de Wim Wenders, sabe bem do que se está a falar aqui: o concerto que juntou velhas e novas glórias da música cubana - as mesmas que protagonizaram o disco homónimo editado um ano antes - no palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, em Julho de 1998. O encantamento, o espanto, de muitos daqueles músicos e cantores perante a grandeza da cidade; o encantamento, o espanto, de quem os ouvia no concerto - «gringos», centenas de «gringos», rendidos à verdade e à beleza daquela música antiga que vinha dali de tão perto, de Cuba, e dali de tão longe - a Cuba inimiga de Fidel. No centro do palco, mas lá atrás, de óculos e discreto, está Ry Cooder - o padrinho da iniciativa, produtor do álbum que então começava a tornar-se no maior best-seller da história da world music e um exemplo maior de que a música pode muitas vezes derrubar muros políticos e ultrapassar fronteiras geográficas.

No início deste processo está uma ideia de Nick Gold, director da editora World Circuit, que, recorda Ry Cooder nesta conversa, «queria gravar um álbum de colaboração entre guitarristas africanos - nunca cheguei a saber quem eles eram! - com músicos cubanos. Mas os músicos africanos nunca conseguiram os vistos para poder ir a Cuba na altura e tivemos que mudar o foco do disco». O próprio Ry Cooder teve que deslocar-se a Cuba através do México, devido ao embargo norte-americano à ilha. «Mas tivemos a felicidade de conseguir juntar em estúdio os melhores músicos e cantores cubanos que, em 1996, ainda podíamos encontrar. E todo o processo de gravação foi muito improvisado, gravando com quem ia aparecendo no estúdio. Não houve um plano». Questionado sobre se se teria apercebido, durante as gravações em Havana, de que estava envolvido num disco que viria a tornar-se histórico, Ry Cooder diz que «não. Estava ali a divertir-me, a conhecer pessoas maravilhosas - e, acima de tudo, a aprender com elas - e a tentar fazer o meu trabalho o melhor possível». O resultado comercial deste disco que deu a conhecer ao mundo artistas como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo ou Omara Portuondo foi uma coisa que surpreendeu Ry Cooder e o próprio Nick Gold. Diz Ry Cooder que «o Nick, optimista como é (risos), apontou as vendas para a ordem dos cem mil. E acho que já vendeu mais de oito milhões de exemplares até agora...».

Passados todos estes anos, alguns dos músicos presentes em «Buena Vista...» já não se contam no reino dos vivos (Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Pio Levya, Rubén González...). Ry Cooder relembra-os com saudade e diz-se «um homem de sorte por tê-los conhecido. Tenho um grande orgulho por ter estado com eles, por tê-los visto tocar e cantar. Tenho tido a sorte de tocar e colaborar com muita gente ao longo destes anos, gente deste calibre, com quem aprendi imenso». Em sentido contrário, as gravações em Havana tiveram consequências perversas na vida de Ry Cooder, cidadão norte-americano: «O Departamento de Estado - cheio de reaccionários anti-cubanos - ameaçou-me com a prisão, escreveu-me uma carta a dizer que eu estava "sob suspeita". Isto não teria acontecido se o disco ("Buena Vista...") não tivesse tido sucesso, mas como estava a ter aquela visibilidade toda, isso virou-se contra mim. Felizmente, tive o apoio do presidente Clinton que, apesar do embargo, não se opunha a trocas culturais com Cuba». Essa abertura de Clinton possibilitou a realização do concerto do colectivo Buena Vista Social Club no Carnegie Hall, cujo registo discográfico é por estes dias posto à venda, e a deslocação de Ry Cooder a Cuba para a gravação de discos em nome individual de algumas das estrelas reveladas pelo álbum original. Mas este estado de graça terminou em 2001, quando George W Bush e a sua administração - a quem Ry Cooder chama «evil clowns» - chegaram ao poder. E deixa o desejo de que, nas próximas eleições, seja o Partido Democrata a vencer.

Ao longo de uma carreira longa e riquíssima de experiências em várias áreas musicais - do rock aos blues, passando pelas bandas-sonoras de vários filmes, as trocas com músicos extraordinários (a sua parceria com Ali Farka Touré também foi recordada com saudade durante a entrevista) -, Ry Cooder tem, nos anos mais recentes, flirtado de forma mais aberta com a música mexicana e com as suas ligações à música norte-americana (numa fabulosa trilogia de álbuns: «Chávez Ravine», «My Name Is Buddy» e «I, Flathead»), preparando-se agora para, de certa forma, continuar essa aventura produzindo um álbum que vai juntar o mais prestigiado grupo folk irlandês, The Chieftains, com músicos mexicanos.


BUENA VISTA SOCIAL CLUB
«AT CARNEGIE HALL»
World Circuit/Megamúsica

«Buena Vista Social Club», o álbum de estúdio - gravado em 1996, em Havana, com produção executiva de Nick Gold (o patrão da World Circuit), produção musical de Ry Cooder e com Juan de Marcos González como ligação no local aos outros músicos cubanos, novos ou antigos -, veio a ser o maior fenómeno de vendas da história da chamada world music, com mais de oito milhões de cópias vendidas pouco mais de dez anos sobre a sua edição. E, para além de ser um campeão de vendas, tornou-se também um paradigma para outras produções semelhantes - já há um disco chamado «Samba Social Club»; já há outras aproximações à «fórmula» feitas com músicos de outras latitudes, incluindo em Portugal com o projecto «Cabelo Branco É Saudade»... Mas nada disto - nem as vendas, nem o paradigma - são importantes quando se ouve, se ouve mesmo!, o álbum: um registo em que a verdade absoluta de uma música, e quase sempre de um género entre os muitos géneros cubanos, o son, transparece em cada nota, em cada palavra respirada, em cada silêncio...

E agora, os fãs do «Buena Vista...» original já podem deliciar-se, de novo, com a voz de Ibrahim Ferrer, de Omara Portuondo, de Pio Levya, de Compay Segundo ou de Eliades Ochoa, com o piano mágico de Rubén González e com a trompete falante de Manuel «Guajiro» Mirabal porque é editada, finalmente, a gravação do mítico concerto que este grupo de cantores e músicos cubanos - mais os outros que também por lá estão - deram no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1998; o mesmo do qual temos algumas imagens no documentário homónimo de Wim Wenders. E o que é que ganhamos neste álbum ao vivo que não há no original de estúdio?... Resposta fácil: uma maior dose de improvisação em alguns dos temas (oiça-se González brilhar no seu solo do tema-título «Buena Vista Social Club»), algumas canções que não estavam no original - como «Mandinga», ponte feita entre Cuba e a África Ocidental, uma deliciosa versão de "Quizás, Quizás" ou a belíssima "Silencio". E, acima de tudo, a certeza de que o álbum de estúdio não foi apenas um milagre de... estúdio mas que tudo aquilo, principalmente «ao vivo», é música da melhor e da mais genuína que alguma vez existiu. (******)

12 julho, 2006

Híbridos (Recuperados a 2004), Parte 2


Bis, bis, bis, bis...........

WORLD EXTRA

O álbum já tem um ano, mas só agora é distribuído em Portugal, à boleia da actuação do rapaz no próximo festival aveirense Sons em Trânsito - fala-se de Jim Moray e do seu disco de estreia, «Sweet England» (Niblick Is a Giraffe/Megamúsica), uma pedrada no charco, demasiadas vezes estagnado, da folk britânica. E um álbum que é uma surpresa constante e absoluta, já que Moray consegue de facto inovar a partir da tradição. E pegar em temas tradicionais, atirá-los contra a parede, transformá-los e cantar, produzir e tocar quase todos os instrumentos (é muito jogo para quem tinha apenas 19 ou 20 anos quando gravou o disco). Em «Sweet England» ouvem-se violinos nascidos nos campos do Yorkshire convivendo com programações de clube de dança selecto, pianos de recorte clássico a servir canções muito antigas, delírios psicadélicos às voltas com a country norte-americana e a música cigana com a música irlandesa e os Radiohead. Com este álbum, Moray ganhou os prémios de «Melhor Álbum» e «Revelação» dos BBC Folk Awards 2004. Foram merecidos. (8/10)

Como merecida é também a inclusão de Jim Moray noutro clube selecto, desta feita aquele que a Oysterband (na foto, com os amigos) «abriu» a um porradão de convidados para a gravação de «The Big Session - Volume 1» (WestPark/Megamúsica). Na gravação deste disco estão lá Moray, a Oysterband (John Jones e restante pandilha são os mentores do projecto) e, veja-se só, a enormíssima June Tabor, Eliza Carthy, os Show of Hands e os «primos» norte-americanos Brett e Rennie Sparks (isto é, os Handsome Family). E é um excelente álbum (gravado ao vivo perante uma pequena audiência) recheado de bons momentos: quando a folk britânica se cruza, naturalmente, com a alt.country do casal Sparks; quando June Tabor eleva a sua voz para uma versão superlativa de «Lowlands»; quando todos (todos, mesmo) cantam a capella «The New Jerusalem»; quando Moray transforma «The Cuckoo's Nest» num fabuloso tema de rock progressivo (!). Grande decepção, só uma: a versão de «Love Will Tear Us Apart», dos Joy Division, que começa muitíssimo bem com June Tabor mas continua muitíssimo mal na voz de John Jones. (9/10)

E por falar em versões estranhas e em canções tristes: imagine-se (depois de «Love Will Tear Us Apart») uma versão, deste vez em ritmo de salsa, alegre (!!) e saltitante (!!!), de outra canção desesperada: «Ne Me Quitte Pas», de Jacques Brel. Pois é, essa versão existe mesmo e foi gravada pelo salsero colombiano Yuri Buenaventura, que agora edita o seu «best of» «Lo Mejor de...» (Mercury/Universal). Uma colectânea onde há ainda lugar para outras surpresas: uma versão lounge-salsa-bossa de «Insensatez» (de Tom Jobim e Vinicius); uma outra - que puxa completamente o pé para a pista de dança - de «Mala Vida», de Manu Chao; uma colaboração bastante bem conseguida com os cubanos Orishas (rap-son-salsa-rumba); e um exercício de cruzamento da latino-americana salsa com o rai do norte de África, «Salsa Rai» (pois, o título não engana), em que Yuri contracena com o franco-argelino Faudel. (7/10)

E - fazer raccord, se faz favor - da salsa para o... rai: um dos nomes maiores deste género argelino, Cheb Mami, está de volta com um álbum ao vivo, «Live au Grand Rex - 2004» (Virgin/EMI), em que o cantor e compositor interpreta grandes sucessos da sua carreira («Parisien du Nord», «Meli Meli», «Zarartou») e aproveita para convidar alguns amigos. E o álbum começa muito bem, com Cheb Mami a cruzar a música árabe com a música «celta» da Bretanha francesa e ataca, depois, o rap-rai pulsante de «Parisien du Nord». Mas, depois, há muitos momentos em que os sintetizadores e as programações afogam aquilo quase tudo em proto-foleirada-etno (e o dueto com o italiano Zucchero é calamitoso). Salvam-se, nesta parte do disco, as colaborações com Moss e Hakim («Des 2 Côtés»), uma bonita versão de «Desert Rose» (de Sting) e um dueto lindísimo com a cantora indiana Susheela Raman. (5/10)

Também cantora e também indiana (outro raccord), Asha Bhosle é a mais respeitada (juntamente com a sua irmã, Lata Mangeshkar) das cantoras que dão voz às canções da indústria cinematográfica indiana, conhecida como Bollywood. E dão voz e não o corpo: as actrizes e dançarinas que aparecem nos filmes fazem playback sobre a trilha sonora previamente gravada pelas cantoras verdadeiras, como Asha. Em «The Very Best Of... The Queen of Bollywood» (Nascente/Megamúsica), Asha Bhosle protagoniza 26 das canções que gravou ao longo de mais de 40 anos de carreira (ela que gravou, dizem as estatísticas, cerca de 30 mil - sim, 30 mil! - canções). Mas chegam para se perceber que a voz de Asha - fresquinha fresquinha como um gelado de menta e açafrão - se sente tão à-vontade em temas clássicos indianos quanto em variadíssimos géneros importados do ocidente ao longo das últimas décadas: da música latino-americana ao rock'n'roll, do jazz ao funk, do disco-sound ao tecno. Muitos dos temas deste duplo-álbum são de RD Burman, um dos mais importantes directores musicais dos filmes de Bollywood e marido de Asha, mas o momento mais alto do disco é, sem dúvida, a versão acelerada de «Thodasa Pagla», do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan - e um belo exemplo de aproximação entre duas nações desavindas. (7/10)

E de uma senhora indiana que participou em centenas de filmes para um senhor cubano a quem bastou ter participado num filme - «Buena Vista Social Club», de Wim Wenders - para ficar mundialmente conhecido: o trompetista Manuel Guajiro Mirabal. E, como noutros casos não por acaso, o seu álbum de estreia em nome próprio (apesar de mais de 40 anos de carreira!) tem por título «Buena Vista Social Club Presents...» (World Circuit/Megamúsica). No disco - quase todo ele preenchido por temas compostos por Arsenio Rodríguez (aka El Ciego Maravilloso) - Guajiro surge acompanhado por uma equipa de luxo: Orlando Cachaíto Lopez, Manuel Galbán, Papi Oviedo e a voz de Carlos Calunga, entre outros, e como convidados outros «buena vistas» ilustres como o cantor Ibrahim Ferrer e o pianista Rubén González. E o álbum é uma festa irresistível, permanente e belíssima, feita de son, mambo, rumba, guajira, bolero, jazz... Aos 71 anos, é obra. (8/10)