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11 setembro, 2010

Colectânea de Textos no jornal "i" (IX)


Os Pós-Tradicionalistas (Parte 327)
por António Pires, Publicado em 5 de Novembro de 2009

Já por várias vezes, nesta coluna, se referiram variadíssimos exemplos de bandas e artistas que estão a pegar na nossa música tradicional (e noutras à volta) para com ela criarem uma nova música. E, desta vez, vou falar de cinco outras propostas, todas elas com discos fresquíssimos no mercado. Partindo da ideia-base "Se Carlos Paredes não é pós-rock, então o que andamos aqui a fazer?", os Laia (na foto) atiram-se no seu disco "Viva Jesus e mais alguém" ao pós-rock (dos Cult of Luna aos Tortoise ou aos Godspeed You Black Emperor!), mas com uma guitarra portuguesa, adufes e bombos a sublinharem, bem, a portugalidade da sua música. Por sua vez, os respeitadíssimos Danças Ocultas regressam, em muitos temas do seu novo álbum "Tarab", a sonoridades, ambientes e paisagens mais próximas da tradição portuguesa (embora sem nunca esquecer, em nenhuma nota das quatro concertinas, outras paragens do mundo). Desta vez sem a "muleta" dos convidados exteriores ao grupo, os Danças Ocultas têm aqui o seu melhor trabalho de sempre! Finalmente, referência breve a três outros álbuns: a surpreendente e muito bem conseguida primeira incursão a solo de Sebastião Antunes (Quadrilha), "Cá Dentro"; o novo álbum dos transgressores marafados Marenostrum, "Arraia Miúda", que ainda é melhor que o primeiro; e o hiper-dançável "In Temporal", dos Monte Lunai (danças tradicionais europeias, vivas e actuais).



Valete, Bento e... os outros
por António Pires, Publicado em 12 de Novembro de 2009

Sou benfiquista (mais daqueles "doentes pelo Benfica" que daqueles "fanáticos pelo Benfica"), mas tenho imenso respeito pelo Paulo Bento, tanto como treinador como enquanto pessoa, e não me importaria nada de o ver treinar o meu clube daqui por muitos anos (depois de o Jorge Jesus ter ganho tantos troféus nacionais e internacionais que o Real Madrid e o Manchester estejam dispostos a dar por ele uma enorme pipa de massa ao SLB). Mesmo assim, achei imensa graça ao tema "Baza Correr com o Paulo Bento", do rapper Valete (na foto), que há mais de um ano já pedia a demissão do treinador do Sporting. Curiosamente, trata-se de um caso raríssimo de contestação, pelo menos activa e concretizada, do meio musical português a algo relativo ao mundo do futebol. Mais normal é a glorificação de alguns dos seus jogadores: desde o longínquo "Quem Tem Eusébio", de Artur Ribeiro, aos mais recentes "Não me Mintas", em que Rui Veloso (com letra de Carlos Tê) canta "voar como o Jardel entre os centrais", e "Adivinha Quem Voltou", dos Da Weasel, em que Pacman diz "finto como o João Pinto, marco golo na baliza". E, mais ainda, a glorificação dos clubes através de hinos originais ou adaptados: dos clássicos "Ser Benfiquista" (Luís Piçarra) e "Marcha Sporting" (Maria José Valério) a "Os Filhos da Nação", dos Quinta do Bill (adaptado para "Os Filhos do Dragão" e tornando-se assim o hino oficioso do FCP), "Sou Benfica", dos UHF, ou "Leão de Fogo" (hino do 100.o aniversário do SCP), dos Delfins.



O que aprendo a dar aulas
por António Pires, Publicado em 19 de Novembro de 2009

Desde há seis anos, tenho o privilégio de dar aulas de História da Indústria Discográfica no curso de Produção e Marketing Musical, na Restart. Nos primeiros anos, a maioria dos alunos era formada por pessoas que, apesar de amarem profundamente a música, não cantavam nem tocavam instrumentos, querendo usar o curso como trampolim - mais do que legítimo - para se integrarem no meio editorial ou, em alternativa, na produção de espectáculos. Mas, nos últimos anos, a tendência inverteu-se e verifiquei que cada vez mais eram os músicos e cantores que, descrentes de uma indústria discográfica em crise, procuravam este curso para assim gerirem melhor as suas próprias carreiras musicais, criando editoras próprias ou aprendendo os mecanismos necessários para as suas edições de autor. Este ano, fez-se o pleno: os 13 alunos da turma são todos músicos e/ou cantores, DJ ou já músicos/editores. E com um leque de referências vastíssimo: de um guitarrista de um grupo pimba alentejano a um DJ e produtor de tecno, de músicos punk hardcore e doom metal a uma cantora de formação clássica e outra que trabalha com o Filipe La Féria desde os 12 anos, de dois cabo-verdianos que injectam outras músicas nas kizombas, mornas e coladeiras a um outro que faz rock e música para crianças. E, com todos os meus alunos - vendo a sua alegria, fé e orgulho no que fazem -, aprendo que a indústria até pode estar em crise mas que a música nunca estará.

20 junho, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (V)


Os poetas que vão ao rock
por António Pires, Publicado em 06 de Agosto de 2009

O rock e a poesia sempre andaram de mãos dadas. E, em muitos casos, com resultados que fazem do rock a melhor plataforma "editorial" para os poemas dos seus autores, sejam eles também os seus cantores/intérpretes ou não. Mais especificamente, há poetas para quem a música foi o veículo encontrado para assim darem a conhecer o seu trabalho a muito mais gente do que aquela que habitualmente lê poesia: Leonard Cohen, Laurie Anderson, Gil Scott-Heron ou Ursula Rucker (para além de um número infindável de MC do hip-hop) são apenas alguns exemplos.

Em Portugal, nos últimos meses, três poetas "de raiz" - ou, se se preferir, três escritores que também são poetas - editaram temas em que se revelam como declamadores ou cantores. Tiago Gomes - já há muito ligado ao circuito musical, quer como letrista (A Naifa/Linha da Frente), quer como performer/diseur (Os Inspectores), lançou com Tó Trips (Dead Combo) um álbum dedicado a Jack Kerouac, "Vi-os Desaparecer na Noite", com textos de "On the Road" adaptados ou "improvisados" por Tiago Gomes. Jacinto Lucas Pires editou o EP de estreia d'Os Quais (na foto), "Meio Disco", onde também canta, e muito bem!... E valter hugo mãe surpreende igualmente com a sua voz - muito semelhante à de Antony Hegarty - no tema "Meio Bicho e Fogo" da banda Governo, em que é acompanhado por músicos dos Mão Morta. É tão bom ouvi-los quanto lê-los, ou um bocadinho ainda melhor.




Nova música tradicional portuguesa
por António Pires, Publicado em 13 de Agosto de 2009

Desde há alguns meses, nesta coluna, têm sido referidos vários nomes de artistas e grupos portugueses que cruzam, sem complexos, o fado com outras linguagens musicais (de Mísia aos Deolinda e OqueStrada) ou a chamada música ligeira portuguesa dos anos 60 e 70 com a modernidade (Real Combo Lisbonense, Rui Reininho, David Fonseca). Hoje chegou a vez de uma outra tendência actual, e mais que saudável, de mistura de uma música enraizadamente portuguesa - do interior, das aldeias, de um canto antigo, e agora de novo tão actual - com o rock e seus derivados.

Filhos de José Afonso, das recolhas de Michel Giacometti e de outros, da Brigada Victor Jara e dos Gaiteiros de Lisboa, de Júlio Pereira e de Rui Júnior, do festival Andanças e do Intercéltico do Porto, grupos como os Dazkarieh, Assobio, Uxu Kalhus, Fadomorse (na foto), Toques do Caramulo, Pé na Terra, Marenostrum, Mandrágora ou Diabo a Sete (entre muitos outros) mantêm viva, porque renovada, a memória da música tradicional portuguesa. Há quem electrifique os instrumentos e da tradição faça uma bela distorção (Dazkarieh); há quem inclua mil músicas - do hip-hop ao funk e a Frank Zappa - nesta nova música portuguesa (Fadomorse ou Uxu Kalhus); há quem recupere o rock progressivo para revificar a nossa e outras músicas (Mandrágora).

E há cada vez mais gente do rock, do rock mesmo, a seguir as mesmas ou semelhantes pisadas: B Fachada, Diabo na Cruz, Virgem Suta ou Ludo. Mas estes ficam para a próxima semana.


Nova música tradicional portuguesa (II)
por António Pires, Publicado em 20 de Agosto de 2009

Se a semana passada se falou de grupos que partem da música tradicional portuguesa para chegar ao rock, aqui fala-se de outros grupos e artistas, que partem do rock para chegar à música tradicional, uma linhagem que teve em nomes do passado como o Conjunto Mistério (nos anos 60), a Banda do Casaco (nos 70), António Variações (nos 80) e os Sitiados (anos 90), exemplos maiores de gente que tinha um pé na modernidade e outro na memória da música portuguesa rural.

Actualmente, uma nova fornada de nomes vem juntar-se a este clube: os algarvios Ludo, que fazem uma excelente e actualíssima pop, mas deixam bem expressa a sua portugalidade no início do EP "Nascituro", com uns bombos que partem de Lavacolhos para o espaço. Os Virgem Suta, que na canção "Vovó Joaquina" mergulham na tradição via António Variações (e... Ornatos Violeta). João Coração, que finaliza o seu magnífico álbum "Muda Que Muda" (em que passa pelos Talking Heads, Jorge Palma, a country-americana...) com "Abre a Janela", uma canção em que se ouve música tradicional portuguesa revista por Fausto e Júlio Pereira. B Fachada, com a sua releitura brilhante do centenário - e sangrento, como muitos outros poemas do romanceiro nacional - romance "D. Filomena". E, acima de todos, os Diabo na Cruz (na foto), um supergrupo nacional que junta Jorge Cruz, B Fachada e Bernardo Barata, entre outros, na união definitiva e quase perfeita do melhor rock com a tradição portuguesa que se pode ouvir. Bastam os quatro temas do "Dona Ligeirinha EP" para nos rendermos a essa evidência.

06 junho, 2010

Ollin Kan - As Culturas da Resistência em Vila do Conde


A edição portuguesa deste ano do festival Ollin Kan está quase a começar. Aqui ficam o comunicado oficial e o programa completo:


«OLLIN KAN, o lugar do movimento, volta novamente a Portugal, à cidade de Vila do Conde, nos dia 10, 11 e 12 de Junho de 2010.

O Festival Internacional das Culturas em Resistência Ollin Kan é uma aproximação a um outro olhar, aquele que resistiu e defendeu as suas heranças e alternativas culturais, sendo um dos festivais mais importantes do mundo.

O Festival Ollin Kan é assim um encontro vigoroso entre os povos que nos brindam com músicas e danças provenientes de todos os continentes.

Sonoridades provenientes do mundo/espaço árabe, flamenco, do fado, da música celta, do reggae, da rumba, da salsa, dos sons jarochos, do Caribe, da música mandinga, do samba, da bossa nova, do tango, da música dos Balcãs e todas as expressões de raiz na sua forma mais pura e nas suas múltiplas fusões com o mundo moderno.

Organizado pela Câmara Municipal de Vila do Conde e pela produtora independente Bartilotti Produções, o Festival Ollin Kan, abre a sua primeira sede alternativa em território europeu.

Com o apoio da produtora independente Bartilotti Produções, o Festival Ollin Kan, abre a sua primeira sede alternativa em território europeu.

Foi o início da internacionalização de um festival que se tornou itinerante, levando consigo a mensagem do mundo alternativo a diversas cidades e países do Planeta; Mali, Colômbia, Portugal e México.

O Festival Ollin Kan Portugal terá lugar em Vila do Conde de 10 de Junho a 12 de Junho de 2009.

Os concertos realizam-se no Centro Histórico, no Cais da Alfândega, junto à Nau Quinhentista, com 2 palcos que funcionarão alternadamente das 22h00 às 02h00.

EM TODOS OS LOCAIS OS CONCERTOS TÊM ENTRADA LIVRE.

10.Junho.2010 _ das 22.00h às 2.00h

Toques Do Caramulo (Portugal)
Pibo Marquez (Venezuela)
Rare Folk (Andaluzia)
Che Sudaka (Colômbia / Argentina)



11.Junho.2010 _ das 22.00h às 2.00h

Angela Maria (Peru)
Cacique 97 (Portugal / Moçambique)
Malick Pathé Sow (Senegal)
Moya Kalongo (Moçambique)




12.Junho.2009 _ das 22.00h às 2.00h

Elisabeth Vatn (Noruega; na foto)
Seistanto Mundo (Portugal / México)
Bilan (Cabo Verde)
Marenostrum (Portugal)
Batucada Sound Machine (Nova Zelândia)»

11 julho, 2008

Festival Al'Buhera - Outras Músicas em Albufeira


E mais um festival: o Festival Al'Buhera - Encontro de Culturas, que decorre em Albufeira de 23 a 27 de Julho, com um cartaz bastante diversificado: Xaile, Lura, Marenostrum, A Banda Alhada, Oojami (na foto) e Lila Downs. Toda a informação, já a seguir:


«Festival Al'Buhera
Encontro de Culturas

Entre 23 e 27 de Julho, impõe-se uma visita ao centro de Albufeira. O Festival Al'Buhera está diferente e vai proporcionar 5 noites de grande riqueza cultural.

Uma Feira de Artesanato, Mostras Gastronómicas e variadíssimos espectáculos a decorrer na Praça dos Pescadores, Avenida 25 de Abril e Largo Eng.º Duarte Pacheco, compõem este Festival que irá, certamente, ocupar um espaço próprio no futuro da animação de época balnear, em Albufeira.

Mostra de Artesanato
Todos os dias das 20h00 às 24h00

23 de Julho - Quarta - 22h30
Xaile (Portugal)

Eis uma das maiores revelações da música nacional dos últimos anos. Lília, Marie e Bia são instrumentistas e donas de pessoalíssimas vozes e personalidades.
O trio faz-se acompanhar por um grupo de músicos que contribui para um espectáculo cheio de festa e de mistério, de força e de sentimento, com uma linguagem poética e musical, totalmente portuguesa porém universal, que ao mesmo tempo que nos enche os olhos e os ouvidos, também nos anima a alma.

24 de Julho - Quinta - 22h30
Lura (Cabo Verde)

Dona de uma voz e talento repletos de elementos poderosos e estimulantes, Lura é actualmente uma das principais embaixadoras da cultura de Cabo Verde. A sua voz mistura-se nas gentes e na música daquele povo. Uma oportunidade para contactar de perto com uma cultura à qual estamos ligados pela nossa História.


25 de Julho - Sexta - 22h00
Marenostrum (Portugal)

Band'Alhada (Portugal)

Os Marenostrum são uma banda fundada em 1994, oriunda do sotavento algarvio. Os seus instrumentistas apostam numa sonoridade que funde algumas características da música popular portuguesa e em particular do Algarve (corridinho e baile mandado), com influências bem diversas, que vão desde a música árabe do Magreb até às tradições celtas, Klezmer e de Cabo Verde.

O Grupo Band'Alhada surgiu, em Albufeira, em meados dos anos 90, em torno de Zé Maria, antigo elemento da Brigada Victor Jara. Juntaram-se ao som dos adufes, sarronca, ferrinhos, pandeireta e bombos, as harmonias da viola clássica, da braguesa, do cavaquinho, dos acordeões, do baixo e do bandolim, para transmitir uma dinâmica diferente aos cantares tradicionais.

26 de Julho - Sábado - 22h30
Oojami (Inglaterra / Turquia)

Oojami, é um projecto original de Necmi Cavli, natural de Bodrum – um popular resort turco, situado no Mar Egeu. Nos anos noventa, Necmi emigrou para Londres. Nos últimos 6 anos, os Oojami produziram 3 álbuns e tocaram centenas de vezes um pouco por todo o mundo. Recentemente, Necmi começou a escrever bandas-sonoras para grandes filmes de Hollywood e a sua música foi licenciada pela EMI Arabia – a maior editora do Médio Oriente.

27 de Julho - Domingo - 22h30
Lila Downs (México)

De volta a Albufeira está aquela que é certamente uma das maiores artistas latino-americanas: Lila Downs. Nascida no México, a cantora não renega as suas raízes “rancheras”. Em palco, Lila encarna os personagens que habitam as suas canções de uma forma muito cénica, não apenas através da sua poderosa linguagem corporal mas também através da sua extraordinária habilidade como mímica aliada à sua fabulosa capacidade vocal».

15 agosto, 2007

Sons do Atlântico - A Rainha, os Plebeus e os Infantes



O Sons do Atlântico, no lindíssimo promontório de N.Sra. da Rocha, em Lagoa, é ainda um festival pequeno - em número de assistentes - mas já bastante consistente em termos artísticos e com argumentos suficientes para se impor como mais uma etapa incontornável no roteiro de festivais de Verão da chamada world music. E se, o ano passado, o alinhamento do festival foi mais arriscado e aventuroso - apostando em nomes como Mercan Dede e Mercedes Péon, ambos a assinar concertos de nível altíssimo -, o elenco deste ano, embora alinhando nomes mais consensuais, foi também de altíssima qualidade. A começar logo no primeiro dia, com uma Lura deslumbrante, «animal de palco», a arrancar coros e aplausos de uma plateia cheia, cativando muitos cabo-verdianos e toda a gente das outras nacionalidades. Uma Lura segura, dona de uma voz maravilhosa, boa dançarina, a distribuir bem pelo espectáculo coladeiras, mornas, batuques e funanás, apelando a canções do novo álbum (como o tema-título «M'Bem Di Fora», «Ponciana» ou o lindíssimo «Bida Mariadu») mas também a sucessos mais antigos, como a inevitável «canção de embalar» «Na Ri Na» ou «Vazulina». Foi Lura, sem dúvida, a rainha absoluta do festival. Na noite seguinte, os Macaco, plebeus da Catalunha e de outros lugares, deram outro concerto fabuloso, conquistando toda a gente com a sua garra, alegria, inventividade - uma inventividade imensa que lhes permite misturar como ninguém inúmeros géneros musicais, e de uma maneira que soa sempre consistente, madura, original... Pontos altos do concerto - no meio de muitos mais, entre os quais os coros e coreografias que arrancaram do público em muitos momentos do espectáculo - foram os diálogos do guitarrista, nessa altura no oud árabe, consigo próprio em ecrã, do percussionista, bis (consigo próprio em ecrã), e a banda toda unida numa batucada quando alguém desligou o gerador a meio de uma canção e deixou de haver electricidade no recinto. Outros plebeus em alta, estes irlandeses, os Kíla encerraram o festival com mais uma demonstração de profissionalismo enorme e assinando momentos de altíssima música, quando o bodhran dialogava em alta velocidade com o violino ou as uilleann pipes num molho de folk progressiva - e aqui, a palavra «progressiva» é mais que um elogio! - ou quando aos jigs e reels se juntavam, aqui e ali, alusões à música árabe, à música latino-americana ou quando, como no final, protagonizam uma espantosa aproximação aos espirituais zulus da África do Sul. E, se os concertos dos três cabeças-de-cartaz foram muito, muito bons, os músicos e cantores das «primeiras partes» cumpriram bem o papel de infantes, mais do que de pagens ou acólitos: a cantora guineense Eneida Marta (com um super-grupo pan-africano onde pontifica Ibrahima Galissá na kora) e os seus n'gumbés e tinas; o jovem grupo andaluz Cadencia - ao qual se augura um futuro brilhante! - e o seu flamenco enfeitado de muitas músicas; e os cada vez mais consistentes algarvios Marenostrum, ali reforçados por um quarteto de saxofones que levou a música do grupo para caminhos originais e inesperados. Haja festival!

08 agosto, 2007

Festival Sons do Atlântico - É Já Este Fim-de-Semana!



A edição deste ano do Festival Sons do Atlântico, que decorre em Porches, Lagoa, começa já na sexta-feira. E, para refrescar a memória, aqui fica novamente o programa do festival: dia 10 de Agosto há concertos da luso-cabo-verdiana Lura e da guineense Eneida Marta, dia 11 podemos assistir ao flamenco (e muito mais à volta) dos andaluzes Cadencia e ao concerto do grupo catalão, padrinho da designação deste blog, Macaco, e dia 12 aos espectáculos dos algarvios Marenostrum e dos irlandeses de música «celta» nada ortodoxa Kíla (na foto). O Raízes e Antenas vai lá estar e fica desde já prometida a respectiva reportagem para o início da próxima semana.

16 junho, 2007

Festival Sons do Atlântico - Com Lura, Macaco e Kíla



O Crónicas da Terra, do camarada Luís Rei, está cheio de novidades (passem por lá!). Uma das mais sumarentas é a que se relaciona com a edição deste ano do Festival Sons do Atlântico, em Porches, Lagoa, de 10 a 12 de Agosto. Segundo avança o CdT, a edição deste ano do festival conta com concertos da luso-cabo-verdiana Lura e da guineense Eneida Marta na primeira noite, o flamenco (e muito mais à volta) dos andaluzes Cadencia e do grupo catalão, padrinho da designação deste blog, Macaco (na foto; liderado pelo cantor homónimo) na segunda, e dos algarvios Marenostrum e dos irlandeses de música «celta» nada ortodoxa Kíla, na última noite. A exemplo do ano passado, deve poder contar-se com outros concertos, durante o dia, no recinto do festival - o promontório da capela de Nossa Senhora da Rocha - com bandas portuguesas, exposições, artesanato e muito boa gastronomia.

07 junho, 2007

Águeda - Um Cheirinho do Festival Temático de Músicas do Mundo



A Associação d'Orfeu não pára e está já a preparar o seu festival temático das Músicas do Mundo, marcado para meados de Julho, no Largo 1º de Maio, em Águeda. Um festival que inclui vários «festivais» e ainda outros acontecimentos culturais a que eles preferem chamar )estival - assim mesmo, com um parêntesis no lugar do F e uma alusão directa ao Verão. Para já, para já, a d'Orfeu tem asseguradas as presenças no Festival Temático do grupo Talisman (formado por músicos da Ucrânia, Moldávia, Bielorrúsia e Alemanha), que actuam dia 16 de Julho na secção dedicada às «Músicas do Mundo Cigano», dos algarvios e fusionistas Marenostrum, dia 17, na secção «Mestiçal Peninsular», e do grupo folk italiano Abnoba (na foto), dia 18, na «Cimeira do Fole». Outros nomes se seguirão... E, imediatamente antes disso, a d'Orfeu apresenta, dias 13 e 14, o projecto Rio Povo, «uma criação inter-associativa efémera, com dois espectáculos a ter lugar em pleno Rio Águeda, marcando de forma indelével a síntese entre a tradição local (fortemente associada ao rio, na sua função cultural transmissora entre a serra e o litoral) e o discurso artístico contemporâneo que se lhe quer associar pela acção e reacção dos novos agentes culturais», numa confluência de várias estruturas, organizações e associações de Águeda, incluindo uma «orquestra, coros, uma banda filarmónica, tocatas, músicos, actores, dançarinos e bailarinos, outros performers e ainda toda uma série de recursos visuais e multimédia (vídeo-projecção sobre volumes, pintura em tempo real e pirotecnia),numa produção de grande impacto». Mais informações sobre esta iniciativa aqui.

10 julho, 2006

Folk em Portugal - Há Um Ano Era Assim


Os textos que se seguem foram publicados originalmente no BLITZ em Junho do ano passado, num dossier que pretendia tomar o pulso ao estado da folk em Portugal. Um ano depois continuam a fazer sentido. Isto se descontarmos o facto de alguns dos discos indicados no texto como tendo edição iminente na altura ainda não terem sido editados um ano depois: Uxu Kalhus (com edição prevista para breve através da HeptaTrad), Brigada Victor Jara (na foto - com álbum também para breve, na Universal) e Realejo (não se sabe quando). Deles trataremos brevemente, juntamente com outros entretanto publicados (dos Lumen, Andarilhos, Moçoilas e Ginga). A juntar aos textos e às críticas publicados no dossier estão também duas críticas (a álbuns dos Mu e dos Chuchurumel) publicadas posteriormente.


DOSSIER FOLK/TRADICIONAL PORTUGUESA
INTRODUÇÃO

E, de repente, a primeira metade de 2005 está cheia de discos novos de grupos portugueses de música tradicional ou folk ou inspirada nas raízes ou o que se lhe quiser chamar. Este ano, e até agora saíram discos dos Galandum Galundaina, Marenostrum, Mandrágora, Roldana Folk, Trovas ao Vento, Notas & Voltas e Belaurora. E para breve está prevista a edição de álbuns dos Mu, Uxu Kalhus, Realejo, Brigada Victor Jara e Moçoilas, entre outros. E se os cépticos poderão dizer que isto não é um «movimento», o que dizer então de fenómenos como os festivais Andanças e Entrudanças - que, no conjunto, movimentam milhares de pessoas que dançam músicas tradicionais -, da proliferação de festivais de world music ou étnica ou o que se lhe quiser chamar (desde o histórico Intercéltico do Porto e da visibilidade dada a estas áreas pela Festa do Avante aos mais recentes em Aveiro, Sendim, Sines, Loulé, Coimbra, Águeda, o itinerante Sete Sóis Sete Luas, etc, etc...); o que dizer das centenas de jovens «recrutados» para as orquestras de tambores tradicionais portugueses (Tocá Rufar, Tocándar, Bardoada, etc, etc); da proliferação de grupos, muitos deles não consultados neste dossier porque ele se limita aos lançamentos desta altura (por isso, e só por isso, ficam de fora os Gaiteiros de Lisboa, Dazkarieh, Segue-me à Capela, Monte Lunai, At-Tambur, Toques do Caramulo, Cramol, Gaitafolia, Chuchurumel, Beltane, etc, etc, ou artistas como Né Ladeiras, Amélia Muge, Janita...); dos encontros de gaiteiros e de tocadores que se organizam todos os anos com participantes de todas as idades e de várias regiões do país; da Associação d'Orfeu; do concurso para novas bandas Arribas Folk; do facto, simples e natural, do último festival Termómetro Unplugged ter uma percentagem esmagadora de grupos destas áreas na final; do trabalho de editoras discográficas (a Açor, a Tradisom, a Sons da Terra...) vocacionadas para as músicas de raiz; ou os sites que se debruçam sobre o fenómeno (o at-tambur, o crónicas da terra, etc); ou da reedição em CD de velhos LPs de grupos como os Terra a Terra ou os Raízes; ou a passagem pela RTP (embora escondida e sem promoção) do novo «Povo Que Canta»?

Nas páginas que se seguem, alguns dos grupos referem as razões do «boom», quem está na sua origem, e algumas das suas características - que vão desde os projectos de recolha na sua região (os Galandum Galundaina e os Belaurora) aos grupos urbanos que recriam a música portuguesa pondo-a em confronto com outras músicas, de variadíssimas proveniências.

ELES ANDAM AÍ...

O BLITZ enviou a vários grupos de música folk/tradicional (não englobando aqui o fado) um questionário comum a que responderam os Belaurora, Galandum Galundaina, Roldana Folk, Mu, Brigada Victor Jara, Marenostrum, Realejo, Uxu Kalhus e Mandrágora. As suas respostas dão uma visão global do que é o «movimento» em Portugal, da sua diversidade estilística e instrumental e dos seus «gurus».

Quando se fala de folk, de música tradicional, de músicas étnicas, de world music, de música popular, chega-se geralmente à conclusão que qualquer destes termos é bastante limitativo, não passando cada um deles de uma «gaveta» ou «etiqueta» fácil para o enquadramento da música de um grupo ou artista. O BLITZ quis ser um pouco mais objectivo e perguntou «o que é que na vossa música é especificamente de raiz tradicional portuguesa?». Os açorianos Belaurora respondem que «praticamente tudo o que interpretamos é de raiz tradicional. Aliás, mais de 90 por cento do nosso repertório é mesmo música tradicional, recriada pelo grupo». Paulo Meirinhos, dos transmontanos Galandum Galundaina vai pelo mesmo caminho: «A nossa música baseia-se exclusivamente na música tradicional das Terras de Miranda, tanto em relação ao repertório como aos instrumentos musicais que usamos. Temos o privilégio de termos nascido e crescido neste meio tradicional rico em cultura e desde pequenos nas nossas aldeias (Fonte de Aldeia e Sendim), ouvimos os gaiteiros nas festas e em casa, ao lume, as músicas. A música que fazemos vem-nos no sangue». Já os Roldana Folk, do Porto, dizem que utilizam «padrões rítmicos tradicionais portugueses, nomeadamente o dos Zés Pereiras e as versões dos temas mirandeses "La Çarandilhera" e "Cirigoça"». Paulo Machado e José Francisco Vieira, dos Marenostrum, referem «os ritmos ou géneros musicais como o corridinho e o baile mandado»; e Vasco Ribeiro Casais, d'Uxu Kalhus, diz que «são os temas que intrepertamos como "Erva Cidreira", "Malhão", "Mat'aranha", "Regadinho" e também alguns instrumentos». Por sua vez, os Mandrágora afirmam que «nada na nossa música é estritamente tradicional, servindo esta, acima de tudo, de inspiração. O facto de todos os membros da banda ouvirem e apreciarem música tradicional acaba por se reflectir no som que criamos». E Manuel Rocha, dos pioneiros Brigada Victor Jara - com álbum novo, comemorativo de 30 anos de carreira do grupo de Coimbra, a sair brevemente -, diz que transformam os temas recolhidos: «A matéria-prima que "transformamos" é a melodia e o texto. Claro que a natureza da canção (ou do tema instrumental) é assumido como condicionante do arranjo (não há que pôr muita "festa" numa cantiga de embalar)».

As recolhas de música tradicional - feitas por Michel Giacometti (na foto), José Alberto Sardinha, etc. - são fundamentais para muitos deles. Manuel Rocha diz que «a maior parte do nosso trabalho baseia-se em recolhas de M. Giacometti. Usamos ainda recolhas de Margot Dias, do GEFAC, de Ernesto Veiga de Oliveira entre outros, e algumas (poucas) nossas». Giacometti é também referido pelos Marenostrum - «Na primeira fase de vida do grupo, fazíamos versões de música tradicional e usámos recolhas de Giacometti, entre as quais se conta um corridinho do Algarve» - e por Fernando Meireles, dos Realejo (também com novo disco a caminho): «Giacometti, Sardinha, e também Lopes Graça, Ernesto Veiga de Oliveira, Júlio Gomes, enfim, o que se cruzar connosco e for do nosso agrado». Meirinhos refere que «o repertório que apresentamos e em que nos baseamos, é principalmente do nosso ambiente familiar onde sempre se cantaram as músicas tradicionais. E sempre contactámos com os velhos gaiteiros para pedir conselhos. Na medida do possível, ouvimos gravações antigas do José Alberto Sardinha, Domingos Machado e mais recentes do Mário Correia onde contactamos com músicos que já não existem e repertórios menos conhecidos». Sardinha é ainda referido pelos Roldana Folk - «No último trabalho discográfico fizemos uso de recolhas do José Alberto Sardinha» - e Mandrágora - «Apesar de fazermos maioritariamente originais, desde sempre tivemos uma ou outra música inspirada em recolhas, nomeadamente de José Alberto Sardinha. Actualmente, tocamos uma versão nossa da "Galandum"». Já os Belaurora dizem: «Usamos essencialmente recolhas publicadas por outros, como Tavares Canário (1901), Padre José Luís de Fraga e Júlio Andrade (1960), Pedro Homem Machado (anos 90), Ten. Francisco José Dias (anos 80) e outros. Alguns temas resultaram de recolha directa feita pelo grupo». E Uxu Kalhus referem os ranchos folclóricos como fonte principal de recolha.

Como áreas geográfico-musicais prefenciais, os Belaurora referem, naturalmente, os Açores, os Marenostrum, o Algarve, e os Galandum Galundaina «as Terras de Miranda e algum repertório da zona de Bragança e Vinhais». Miranda e restantes Trás-os-Montes são também referidos como zonas de preferência dos Roldana Folk, Mandrágora e até da Brigada Victor Jara. Diz Manuel Rocha que «a região mais "sedutora" será, porventura, Trás-os-Montes. Pela variedade de romances, cantigas de trabalho, de festa. Mas julgo que, de algum modo, fomos "usando" cantigas de todo o território português continental e insular». Sem uma área definida de interesse principal estão os Realejo - «Sempre adaptamos as músicas por elas se nos apresentarem interessantes do ponto de vista melódico e rítmico» -, Uxu Kalhus (com álbum de estreia previsto para breve) e os portuenses Mu (cujo álbum de estreia, «Mundanças», está prestes a ser editado). Osga, dos Mu, afasta a música que fazem das raízes portuguesas referindo que tocam, essencialmente, originais mas acrescentando que «estamos abertos a toda a música. Inconscientemente temos muita influência dos países do leste europeu, talvez por a nossa acordionista conhecer muito bem esse universo musical».

FUSÕES, INFLUÊNCIAS, GLOBALIZAÇÕES

Num mundo globalizado e em que a informação circula livremente, é quase impossível fazer uma música «pura». Entre os grupos consultados pelo BLITZ, alguns tentam manter-se fiéis às raízes. Mas outros admitem facilmente a fusão com outros géneros musicais, desde o rock e jazz a músicas tradicionais de outros países. Os Belaurora dizem que só usam «música tradicional dos Açores», mas os Galandum confessam a dificuldade em manter essa «pureza»: «Neste projecto tentamos ser de alguma forma livres de outras influências, o que é muito difícil». Já Manuel Rocha refere que «nunca calhou andarmos intencionalmete por outros lados. Só neste disco incluíremos uma cantiga sefardita (da diáspora hebraica mediterrânica) que no-la "deu" o João Paulo Esteves da Silva», mas acrescenta: «O processo de aculturação a que nos deixamos sujeitar leva-nos sempre os dedos para outros "dizeres" musicais. Também fomos, aqui e ali "infectados" pelo vírus "celta", aquela estirpe que faz o público saltar...». Os outros assumem abertamente a fusão. Os Realejo falam de «músicas étnicas europeias». Os Roldana Folk «de ritmos de outros lugares do mundo distantes entre si e do recurso a linhas melódicas inspiradas em estéticas musicais tradicionais de outras culturas (árabe, sul-americana, europeia); jazz, rock, pop, fado, barroco, folclore europeu (Balcãs, Irlanda), samba, bossa». Os Mu das «recolhas que fizemos de temas tradicionais de países como a França, Croácia, etc. Tocamos desde valsas, mazurcas até músicas ciganas e nesses mesmos temas tocamos instrumentos de lugares tão distintos como as tablas da Índia ou o didgeridoo da Austrália». Os Marenostrum incluem na sua música «motivos e elementos rítmicos e melódicos de músicas étnicas de vários lugares: Norte de África, klezmer e Cabo Verde. De uma outra forma, pela energia com que tocamos certos temas e pelo prazer que temos em improvisar, temos que reconhecer que a nossa música também integra o rock e a música improvisada». Já os Mandrágora referem que «a nossa música resulta, principalmente, da forma de tocar de cada um, visto que todos os membros da banda têm gostos e influências musicais bastante diferentes». E Uxu Kalhus dizem que não têm «qualquer tipo de barreira», usando «jazz, funk, metal, música barroca, pop, mandinga, gnawa, árabe, ska, etc».

Manuel Rocha dá uma achega curiosa a este tema: «Sempre tivemos consciência (desde o primeiro registo) de estarmos a "roubar" a música rural, deslocando-a do seu lugar "natural" para a colocar em mãos alheias (as nossas). Mas a "fusão" ou "deslocalização" é inevitável, mesmo no contexto rural, no processo de transmissão oral». Noutros casos, a fusão de vários géneros foi crescendo ao longo do tempo para os Mu, os Marenostrum, os Realejo - «Foi crescendo porque o Realejo começou a frequentar festivais europeus», diz Meireles - e Uxu Kalhus - «Foi crescente de acordo com a entrada de novos músicos no projecto, mas deste o início do projecto que está presente e que é incentivada pelos membros do grupo», diz Casais. E para os Roldana Folk a fusão foi «mesmo um objectivo». Já para os Mandrágora, «a fusão entre diferentes estilos musicais, a existir, sempre foi inconsciente e involuntária, pois nunca foi nosso objectivo criar um estilo musical catalogável, muito menos directamente a partir de outros estilos já existentes».

INSTRUMENTOS DAQUI & DALI

Curioso é também verificar a diversidade de instrumentos que estes grupos usam, embora quase sempre em consonância com os géneros musicais por onde passeiam. Os Belaurora usam instrumentos tradicionais - «Viola da terra (Açores), violão, cavaquinho, bandolim, adufe, pandeiro...» - à mistura com outros - «Acordeão, violino, flauta, clarinete, flautim, contrabaixo» e, mais raramente, «violoncelo, fagote, tuba, saxofone, trompete e harmónica». Os Galandum usam «vários instrumentos musicais, alguns específicos da nossa região, como a gaita-de-fole mirandesa, com características bem definidas (timbre mais grave e aveludado). Usamos a flauta pastoril ou de tamborileiro e o músico toca em simultâneo um tamboril com a outra mão. Caixa de guerra, bombo, tamboril, pandeireta, pandeiro ou adufe, castanholas, conchas de Santiago, triângulo (ferrinhos)... E objectos de casa que quando bem explorados, conseguem-se sonoridades únicas como a garrafa, o cântaro ou bilha, a çaranda... Recentemente introduzimos no grupo a sanfona, que é um instrumento de origem medieval e permite-nos a abordagem de um repertório diferente como os rimançes. Utilizamos também a gaita-de fole-galega». Os Roldana Folk usam «bandola e paus mirandeses», mas também «flauta, tin-whistle, acordeão, guitarra, baixo, bateria, percussão e sequenciação (electrónica)». Os Mu usam os instrumentos portugueses «adufe e ferrinhos» e também «acordeão, serrote musical, didgeridoo, flauta, bombo, caixa, kazoos, colheres, pandeireta, tablas, percussões diversas, contrabaixo, violino, viola d'arco, udu» e um instrumento só deles, o «osgofone». Já os Marenostrum atiram-se a «bandolim, cavaquinho, adufe e caixa de guerra», mas também ao «acordeão, baixo eléctrico, guitarra acústica, bateria e um velhinho sintetizador analógico Korg». Uxu Kalhus utilizam «bombo e adufe» e «ralch fifen, acordeão, bouzouki, baixo eléctrico, guitarra eléctrica, bateria, flauta doce, flauta transversal, darbuka, bombo, djembé, tama, pandeiro, cabaça, etc». Os Realejo optam por «cavaquinhos, bandolins, adufes, sanfona» e pelos estrangeiros «concertina, gaita galega e guitarra folk». Os Mandrágora confessam que, «apesar de usarmos alguns instrumentos tradicionais portugueses (como bombo, adufe ou pandeireta), estes não são instrumentos centrais na nossa música», dando o protagonismo a «flautas, saxofone, gaita-de-foles, guitarras de seis e doze cordas, violoncelo, baixo eléctrico, moraharpa e percussões diversas». A maior panóplia de instrumentos vai, naturalmente, para a Brigada Victor Jara, que utiliza os nacionais «violas braguesa e beiroa, cavaquinho, bandolim, flautas de latão, de madeira e de cana, bombos e caixas da Beira Baixa e de Trás-os-Montes, gaita-de-foles, adufes, percussões de pequena dimensão (trancanholas, chincalho, ferrinhos, paulitos, conchas, pinhas, reco-reco, matracas da Semana Santa, etc.), concertina» e ainda «guitarras acústicas e semi-acústicas, violino, piano, sintetizador, alguns elementos de bateria de jazz, baixo acústico e eléctrico, acordeões de teclas e de botões».

O «BOOM» VISTO POR QUEM O FAZ

O recente aumento de números de gravações musicais destas áreas é encarado como natural e positivo por quase todos. «(Isto é) muito bom! Temos uma tradição musical fortíssima, com uma grande variedade de sonoridades, estilos, instrumentos. É importante recuperar todo este património musical tradicional e apresentá-lo da mesma forma que antes ou de outra diferente com arranjos novos, outros instrumentos», diz Paulo Meirinhos. Osga acrescenta uma simples frase: «Ufa, finalmente». Os Roldana Folk dizem que «é positivo. Demonstra uma maior sintonia, por parte especialmente de jovens criadores, com a cultura tradicional portuguesa e europeia, no sentido de afirmar uma identidade cultural genuína e, por isso, fortemente comunicativa». Já os Belaurora vêem o «boom» «com redobrado entusiasmo, já que é a mais perene das músicas que teima, por força e trabalho destes grupos, em perpetuar-se no tempo e nas consciências. Hoje é mais fácil gravar e editar e ainda bem pois, de contrário, muito do precioso trabalho que se vai produzindo voltaria ao esquecimento e à perda definitiva», enquanto Fernando Meireles acha que «é a evolução natural do que se vem passando por todo o mundo. Aqui na Europa já há muitos anos que estas músicas têm os seus locais de grande culto». Por sua vez, Casais diz que vê o movimento «com bons olhos; é sinal que as pessoas estão cada vez mais viradas para a sua tradição».

Os Mandrágora consideram que «sempre houve grandes bandas e discos que ficarão na história da música portuguesa por muitos anos. Na nossa opinião, este "boom" de edições deve-se ao facto de haver, da parte das pessoas, um interesse crescente por este tipo de música (cansados que estão da música "a granel")», mas também alertam: «Temos esperança que este interesse genuíno do público seja acompanhado também por outros meios de comunicação social, nomeadamente rádios e televisões». No mesmo sentido, perguntam os Marenostrum: «Em que rádios podemos ouvir o nosso disco ou os discos dos At-Tambur, Dazkarieh, Roldana Folk, já para não falar de grupos de peso como a Ronda dos Quatro Caminhos, a Brigada Victor Jara, os Gaiteiros de Lisboa... Quando voltaremos a ouvir na rádio a voz da Né Ladeiras, a flauta do Rão Kyao, o bandolim do Júlio Pereira ou as percussões do Rui Júnior? Um "boom" ou movimento musical forte não se pode reduzir a algumas edições discográficas que se aguentam nas prateleiras das FNACs apenas algumas semanas e depois são devolvidas aos editores, porque não têm compradores informados e cultivados por falta de divulgação da rádio, da imprensa e da televisão». Manuel Rocha vai ainda mais longe e explica que «os movimentos "revivalistas" são um produto da globalização: são a afirmação da "localidade". Não deixam, de qualquer modo, de ser um grupo "marginal", preterido pelas editoras e pelos meios de comunicação, o que indicia o seu baixo valor comercial para a indústria portuguesa. Mas a indústria portuguesa ainda não entendeu sequer o fenómeno do "novo fado" (que, de resto, não existe já que o mais - diria mesmo o único - revolucionário dos fadistas portugueses, é o "velho" Carlos do Carmo) e o seu potencial exportador. De qualquer modo, os booms são bons ou maus consoante a música que produzem seja boa ou má (não o saberei definir mas julgo saber identificar)».

TRIBUTOS, GURUS, PIONEIROS
Todos os grupos contactados fizeram questão de apontar aqueles que eles consideram ser os grandes responsáveis por tudo o que está a acontecer agora. Dos Belaurora, as homenagens vão para a «Brigada Victor Jara, Maio Moço, José Afonso (na foto), Giacometti, os citados dos Açores, a que podem acrescentar-se o Professor Artur Santos e Emiliano Toste (da editora Açor)». Os Galandum consideram que «um grande contributo para este estado de coisas deve-se aos festivais que apresentam esta vertente da música tradicional. Os festivais têm influenciado muito os gostos de quem hoje trabalha nesta área. Fizeram ver uma forma diferente de música tradicional. Estou-me a lembrar do Festival Intercéltico do Porto e todos os outros que se seguiram, o Andanças, a Festa do Avante que sempre apostou muito nesta vertente da música». Para os Roldana Folk, «o desenvolvimento destas áreas em Portugal é, sobretudo sustentado por uma alta qualidade de composição, interpretação e performance musical, gerada por artistas como o Carlos Paredes, a Amália, entre tantos. Esta situação torna possível o aparecimento, mais recentemente de bandas/artistas como, por exemplo, os Gaiteiros de Lisboa que abrem um caminho de modernidade/novidade no espectro estético musical português». Por sua vez, os Mu referem «o festival Andanças» como «o principal motor de divulgação da cena tradicional europeia em Portugal» e «o site dos At-tambur, que também tem uma importância fundamental na divulgação dos eventos relacionados com música étnica», para além «do Mário Correia, com o Festival Intercéltico de Sendim e o Sons da Terra, a Gaitafolia e o Encontro Nacional de Gaiteiros, todas as bandas...». Os Marenostrum avançam com uma lista de homenagens - «Fernando Lopes Graça, Michel Giacometi, Afonso Albuquerque, Brigada Victor Jara, Danças Ocultas, Uxu Kalhus, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho e Lua Extravagante», enquanto os Mandrágora referem «musicólogos como Michel Giacometti, José Alberto Sardinha ou o Abade Baçal, bem como a influência de Fausto ou dos Gaiteiros de Lisboa no desenvolvimento não só destas áreas mas de toda a história musical portuguesa. Há que destacar também o papel de inúmeras associações culturais que, por gosto e até por teimosia, apostam em manter viva a nossa herança musical e cultural» e os Realejo falam de «Fausto, José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Brigada Victor Jara, Júlio Pereira, Trovante, Pedro Caldeira Cabral, Carlos Paredes, Ernesto Veiga de Oliveira, Giacometti, Lopes Graça, Alberto Sardinha». A Brigada Victor Jara insiste em Giacometti: «Embora contra-vontade (ele chamava a esta música "música em segunda mão") foi Giacometti que, editando a música do povo, deu-a a conhecer a toda a gente que não se revia no "ranchismo" da "política do espírito" do regime fascista (o onomasticamente doce Estado Novo). Depois foram os grupos musicais que, "urbanamente", divulgaram esta música em versão "domesticada". Pecado de que, também nós, teremos que prestar contas no Juízo Final. Mas valeu a pena». E Uxu Kalhus consideram que «os Gaiteiros de Lisboa fizeram um óptimo trabalho. De resto existem associações com a PédeXumbo, a Associação Gaita de Foles, a D'Orfeu e os sites Attambur.com e Crónicas da Terra, que têm feito uma boa divulgação e organização de eventos e que têm levado muita gente ao encontro da tradição».

SETE DISCOS (E MAIS DOIS EM ACRESCENTO...)

Sete-álbuns-sete é o resultado da colheita de discos nas áreas da música tradicional portuguesa/folk que o ano de 2005 nos deu até agora. É pouco? Não é, se verificarmos que durante todo o ano de 2004 foram editados apenas três ou quatro. E para os próximos tempos anunciam-se mais uns quantos.

«Modas i Anzonas» (Açor/Megamúsica) é o novo álbum dos Galandum Galundaina, que mostram aqui uma evolução enorme em relação ao passado. As músicas das Terras de Miranda (lhaços, romances, modas locais...) continuam lá, e com um grau de pureza e verdade assinaláveis, mas o grupo apresenta agora uma variedade harmónica muito maior: a somar às gaitas, flauta pastoril e tambores, introduziram uma sanfona, mais percussões e atiram-se agora sem temor a jogos de vozes mais arrojados. Um hit de rádio obrigatório: «Dona Tresa».

Também bastante «localizados» na música da sua região, mas com uma abordagem mais comum a muitos grupos de MPP, os Belaurora fazem, no álbum «O Cantar Que nos Embala» (Açor/Megamúsica), versões simples e sem maneirismos de muitos temas de várias ilhas açorianas, não faltando aqui canções como «Chamarrita» (em duas versões diferentes), «Olhos Negros» ou «Samacaio».


No Algarve, os Marenostrum também pegam, no álbum «Almadrava» (Som Livre), em música da sua região (corridinhos, bailes mandados...), mas embrulham-nos em arranjos devedores de muitas outras músicas: a música árabe, o klezmer, o jazz, a música cabo-verdiana. O resultado é, na grande maioria dos casos, bastante entusiasmante e inovador (oiça-se, por exemplo, «Fado da Ilha», uma skazada fadista/klezmer e com picante africano).

Do Porto, os Mandrágora mostram no seu álbum «Mandrágora» (Zounds/Sabotage) como a folk em Portugal está a evoluir. Interpretando na sua grande maioria, originais - a excepção é a sua versão de «Galandum» -, os Mandrágora fundem folk, digamos, «céltica» (e uma excelente gaita-de-foles está lá para fazer a ligação) com bons delírios do rock progressivo, experimentalismos que os levam para territórios próximos dos Hedningarna, uma aproximação ao throat-singing de Tuva única em Portugal, e influências, benéficas, dos Sétima Legião (com Trás-os-Montes no pensamento). Só como exemplos, os temas «O Aranganho», «E Pia o Mocho» e «Trangalhadanças» são uma maravilha.

Também do Porto, os Roldana Folk fazem, em «Gincana» (Açor/Megamúsica), uma abordagem pop de muitos temas inspirados por várias músicas tradicionais: de raiz portuguesa, sim (cf. na excelente e surpreendente versão de «Cirigoça»), mas também a viajar em direcção ao Oriente, ao flamenco, aos Balcãs... Imagine-se um estranho cruzamento dos Mler Ife Dada com a Banda do Casaco e ter-se-á uma ideia vaga do que se pode ouvir aqui. «Templo do Som», «Arabiando», «Querer o Que Já Temos», «1,2,3» ou o animadíssimo «Balcânico» também são belíssimas surpresas deste disco.

De Guimarães, os Trovas ao Vento lançam agora o seu terceiro álbum, «Moinhos de Vento» (Tradisom/Megamúsica), com José Barros, dos Navegante, a dar uma ajuda na produção e arranjos. Aliando originais e alguns tradicionais, o grupo mostra um som despretencioso e baseado nas sonoridades dos instrumentos tradicionais. Uma bonita versão do tema medieval «Ai Ondas do Mar de Vigo», «Ponte das Bruxas» (com um violino lindíssimo), «Murinheira de Guimarães» (a fazer a ponte entre o Minho e a Galiza) e o arrepiante «Atirei C'uma Laranja» (com as cantadeiras de Briteiros) ficam como momentos mais altos deste álbum.

Finalmente, «Decantado» (Tradisom/Megamúsica), dos Notas & Voltas, é uma excelente prova de que a música tradicional é uma paixão comum a muita gente. Formados por trabalhadores do Banco de Portugal que têm a música como hobby, os Notas & Voltas têm aqui um álbum desigual e, por vezes, com demasiado «folclorismo» e excesso de instrumentação, mas têm também alguns belíssimos momentos: «Chin-glin-din» (de Trás-os-Montes), «Senhora dos Remédios/Nossa Senhora da Graça» (Beira Baixa) e «Cartinha de Amores» (Beira Alta). As adaptações e arranjos são de Vítor Reino (dos Maio Moço).

CHUCHURUMEL
«NO CASTELO DE CHUCHURUMEL»

Ed. de Autor

Grupo folk da cidade do Porto vai ao campo.

A Banda do Casaco fê-lo com a cantora Ti Chitas; a Sétima Legião fê-lo no álbum «Sexto Sentido»; o projecto Megafone, de João Aguardela, fá-lo quase sempre. O aproveitamento de recolhas de temas tradicionais para inclusão em discos de grupos musicais urbanos - mesmo que, muitas vezes, de inspiração rural – é uma «fórmula» que pode resultar melhor ou pior consoante o talento e a arte de quem o faz. Em «No Castelo de Chuchurumel», o duo de Julieta Silva e César Prata (ambos em vozes e instrumentos tradicionais portugueses e estrangeiros, como a darabuka árabe ou a txalaparta basca, e programações) reinterpretam bem e com coragem temas tradicionais portugueses, entremeando-os (raramente «misturando-os») com recolhas no terreno. E o único problema do álbum é exactamente esse: estão aqui um excelente álbum folk dos Chuchurumel e um excelente álbum de recolhas, mas muitas vezes sem ligação aparente entre os «dois». (7/10)

MU
«MUNDANÇAS»

Açor/Megamúsica

Grupo do Porto às voltas com as danças tradicionais europeias.

O recente boom de grupos influenciados pelas músicas tradicionais está a revelar alguns exemplos de inventividade absoluta e, até há alguns tempos, completamente inesperada. O grupo portuense Mu – dois rapazes e quatro raparigas – mergulha neste caldeirão (e no caldeirão-irmão dos grupos que fazem música para bailes tradicionais) de cabeça e sem temores, fundindo bem os seus originais, músicas de Leste (Rússia, Croácia, Macedónia...), da Suécia e dos países do centro da Europa (França, Bélgica), klezmer e sabores orientais (um imenso Oriente que vai de Marrocos à Índia). Com um picante adicional: o som do grupo está entre uma charanga manhosa e uma treinada formação de música clássica (com o equilíbrio entre os dois «lados» a personalizar fortemente a sua identidade). Um único senão: não há quase nada de português lá pelo meio. (8/10)

04 julho, 2006

E Salta Loulé E Salta Loulé, Loulé!


Jump, jump, jump, jump... Dez (onze?, doze?) franceses tresloucados saltam em cima do palco, em uníssono. O público, muito público à sua frente, salta em uníssono com eles, os Babylon Circus (na foto), máquina de muita festa e muitas músicas: reggae, ska, klezmer, Balcãs, chanson, valsas parisienses... E os Babylon Circus foram os responsáveis por um, entre muitos outros e igualmente bons, delírios festivos da edição deste ano do Festival MED, de Loulé: os extraordinários Think of One (um bando de belgas e de brasileiras que têm em D.Cila, uma velhinha pequenina, a mestra de cerimónias perfeita para o seu cocktail molotov de música nordestina e bahiana com tudo o que de ocidental se possa imaginar - até um tema surf-forró!), os bem melhores ao vivo do que em disco Capercaillie (pela simples razão de que os escoceses, ao vivo, quase não usam electrónicas e vão muito mais directos «ao osso» dos jigs e reels), os cada vez melhores na mestiçagem de géneros Amparanoia, a simpatia contagiante e a música lindíssima de Manecas Costa, a genial fusão de rai, gnawa e outros géneros do norte de África com funk, jazz, prog, etc. da Orchestre National de Barbés (que acabou o concerto com uma surpreendente e fabulosa versão de «Sympathy For The Devil», dos Rolling Stones, cantada em francês, árabe e inglês) e os marafados Marenostrum, cada vez melhores e a melhor juntar variadíssimos géneros (dos algarvios ao «celta», ao reggae ou à música cabo-verdiana, neste concerto representada por Maria Alice - maravilhosa em «Bulimundo» - e o seu teclista, que se juntaram aos Marenostrum em alguns temas). Uma festa que, em duas noites, continuou animadíssima com excelentes e arriscadas sessões de DJ de Raquel Bulha e Luís Rei.

Num registo mais introspectivo, Cristina Branco, Yasmin Levy, Souad Massi e, num dos palcos secundários, os Dazkarieh (com nova vocalista) e os Mandrágora, deram também muito bons concertos. E se a isto juntarmos muita gente todos os dias (com enchentes enormes nas noites de sexta e sábado), mais bancas de artesanato e restaurantes (incluindo um de comida egípcia), a simpatia enorme das pessoas que trabalham no festival e muitos amigos, o balanço do 3º MED só pode ser mais que positivo. E o melhor que eu poderia esperar depois de duas semanas de «férias» deste Raízes & Antenas (eufemismo que aqui significa «estou desempregado mas, como não tenho internet, vou deixar este blog abandonado»). Férias passadas ali mesmo ao lado, em S.Brás de Alportel.