
A música folk escandinava assiste, desde há muitos anos, a uma constante renovação e reinvenção, sempre feita a partir das raízes mais profundas das suas músicas tradicionais mas sempre, também, com os olhos postos no futuro. Hedningarna, Garmarna, Vasen, Varttina e Kimmo Pohjonen são apenas alguns exemplos dessa revolução. Outros quatro nomes fundamentais - a veterana Mari Boine, os Gjallarhorn (na foto), as Suden Aika e os mais novinhos Frigg, todos com álbuns recentes - contribuem bastante para esta belíssima e eterna aurora boreal.
MARI BOINE
«IDJAGIEDAS»
Lean/Universal Music Norway
A cantora e compositora norueguesa Mari Boine é a maior embaixadora da música do povo sami, da Lapónia, levando a todo o mundo este canto ancestral, o yoik, por vezes próximo do dos índios norte-americanos e dos esquimós, e sempre, sempre, extremamente belo. Dada a conhecer noutros países da Europa e nos Estados Unidos pelo álbum «Gula Gula» (1989), editado pela Real World, a música de Mari Boine tem-se afastado, em termos de arranjos, da tradição pura e dura, nunca temendo incluir na sua música elementos do jazz, do rock ou das electrónicas. No seu novo álbum, «Idjagiedas», o seu canto parece voltar a um estado de pureza inicial (as canções foram escritas na sua maioria por Rauni Magga Lukkari e Karen Anne Buljoe, duas importantes poetisas bastante empenhadas - tal como Mari Boine - nos direitos do povo sami), mas a sua envolvência está aberta a muitas outras formas musicais: andam por aqui electrónicas mas nunca em demasia e, entre outros instrumentos, uma guitarra eléctrica nas mãos do mago do jazz Terje Rypdal, koras, darabukas e kissanges vindos de África, um cavaquinho (!) e duas vozes femininas adicionais a contribuir decisivamente para o efeito final (estas duas principalmente no estranho e lindíssimo tema bleep-hop-experimental «Uldda Nieida»). Mas todo o álbum está, sempre, num nível altíssimo. (9/10)FRIGG
«KEIDAS»
North Side Records
Grupo instrumental em que se juntam músicos noruegueses e finlandeses, os Frigg mostram ao segundo álbum uma maturidade e um bom-gosto raramente atingíveis. Com três (por vezes quatro) violinos incendiários, o septeto parte da música tradicional da Kaustinen (na Finlândia) e Nord-Trondelag (Noruega) para se atirar a polskas, valsas e outras danças tradicionais, adicionando-lhes pitadas de jazz, country, música do Québec e folk de inspiração «céltica», com a ajuda dos violinos e de outros instrumentos como bandolim, contrabaixo, bouzouki, nickelharpa, viola d'arco, saltério, guitarra, órgão de igreja, algumas percussões e uma gaita-de-foles no último tema. Sempre com uma alegria, um saber e um sentido de divertimento enormes (a que também não falta bastante sentido de humor: o tema-título «Keidas», que significa «oásis», tem como comentário «don't look back in Tanger», trocadilho com o famoso tema dos... Oasis). E sempre, também, com um apuramento técnico ao alcance de pouquíssimos músicos - a conferir, por exemplo, na velocidade estonteante de «Fantomen» ou «Solberg» -, fruto dos seus estudos na respeitadíssima Academia Sibelius e junto de Mauno Jarvela, dos JPP, pai de dois dos membros dos Frigg. (8/10)GJALLARHORN
«RIMFAXE»
Vindauga Music/Westpark Music
Finlandeses - mas com as canções a serem interpretadas em sueco -, os Gjallarhorn são, cada vez mais, o projecto pessoalíssimo da fabulosa cantora (e flautista) Jenny Wilhelms. Neste quarto álbum, «Rimfaxe», quase todos os músicos, à excepção, claro, de Jenny, têm pouco tempo de grupo - até Tommy Mansikka-Aho, que com o seu didgeridoo dava os drones mágicos de muita da música dos Gjallarhorn, foi recentemente substituído por Goran Manssonjoined num estranho, mas por vezes com um efeito próximo do didgeridoo, «sub contrabass recorder». Mas isso não impede que a música dos Gjallarhorn - quarteto que é completado por Adrian Jones (violino e bandola) e Petter Berndalen (percussões) - continue a ser uma maravilha onde vale quase tudo e tudo é bem-vindo. Da pop do tema-título às recriações da música tradicional sueca (ou nascida na região da Finlândia em que o sueco é a língua dominante) à maneira dos Hedningarna (como no segundo tema, «Kokkovirsi»), de uma folk que evoca Sandy Denny e os Fairport Convention em «Systrarna» ao rock progressivo de «Blacken», do encantamento hipnótico de «Hymn» à beleza pura de ««Norafjelds», do estranhíssimo mas vibrante «aboio» de «iVall» à música irlandesa em «Graning» (cantada por Jenny em gaélico)... Muitos dos temas do álbum vêm directamente da Idade Média mas, através dos Gjallarhorn, já estão num futuro qualquer. (9/10)SUDEN AIKA
«UNTA»
Zen Master/Rockadillo Records
Ouvir «Unta», das Suden Aika, é ouvir um rio que corre e salta sem parar, quatro sereias a tirar férias das coisas más que as sereias fazem usualmente, o som de mil pássaros escondidos numa floresta cerrada estranhamente cheia de sol, o reflexo de raios estelares a baterem num vitral com imagens rendilhadas de cavaleiros heróicos, sangrentos e galãs, runas decifradas em canto gregoriano... As finlandesas Suden Aika são quatro cantoras - Tellu Turkka (ela que já foi Tellu Virkkala, quando cantava nos suecos Hedningarna; também em moraharpa, sanfona, saltério, oud e percussões), Liisa Matveinen (que substituiu Tellu nos Hedningarna e que com ela - depois do regresso de Tellu ao grupo sueco - protagonizou duelos vocais inesquecíveis; também em saltério), Nora Vaura (também em flauta) e Katariina Airas. «Unta» é o terceiro álbum das Suden Aika, grupo que se formou a partir do álbum a solo com o mesmo nome que Tellu protagonizou depois da sua saída (e antes do seu regresso, depois seguido por nova saída...) dos Hedningarna, álbum em que Liisa Matveinen já colaborava e que marcou o início de uma profícua colaboração entre as duas: os «duelos» nos Hedningarna e a composição repartida pelas duas dos temas das Suden Aika. E «Unta», apesar de ter alguns momentos fracos, é na sua maior parte de uma beleza única, frágil e incisiva. (7/10)
