Mostrar mensagens com a etiqueta Tango. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tango. Mostrar todas as mensagens

12 fevereiro, 2009

3 Marias - O Novo Tango da Invicta!


Todas elas e também ele - Cristina Bacelar (guitarra e voz), Fátima Santos (acordeão), Sara Barbosa (contrabaixo) e Zagalo (percussão) - são já conhecidos de outros projectos musicais do Porto, mas agora estão todos reunidos num novo grupo, 3 Marias (e, acrescente-se, um «Manolo»), que tem o seu álbum de estreia com edição marcada para Março, com produção de Quico Serrano (Salada de Frutas/Bandemónio/Frei Fado d'El Rei, Plaza...). No seu myspace, as 3 Marias apresentam assim o projecto: «Sendo o Tango uma mistura de vários ritmos, de diferentes tendências dentro deste género musical, este novo projecto do Porto opta pelo tango canção, onde a letra tem a mesma relevância que a parte instrumental, aliás característica deste estilo musical. As canções são cantadas em espanhol em português ou até mesmo outros idiomas. Assim, sente-se neste trabalho as influências de recursos clássicos do próprio tango misturados com o flamenco, boleros e outros imaginários musicais. A guitarra, a voz, o acordeão, o contrabaixo ou percussão, são os instrumentos que acompanham este trabalho de fusão. O grupo é constituído por Cristina Bacelar (guitarra e voz), Fátima Santos (acordeão), Sara Barbosa (contrabaixo) e Zagalo (Percussão). Estes elementos surgem de outros projectos musicais, tais como Frei Fado d'el Rei, Musa ao Espelho e Mu». E, nas próximas semanas, o grupo vai apresentar-se em concerto no Auditório de Espinho (21 de Fevereiro), Encontros Alcultur, Lagos (6 de Março), Auditório Municipal de Lagoa (7 de Março), Teatro Constantin Nery, em Matosinhos (8 de Março) e Café Lusitano, Porto (11 de Março).

22 outubro, 2008

Acordeões do Mundo - Abram-se os Foles em Torres Vedras


O Festival Internacional de Acordeões do Mundo, que começa este fim-de-semana em Torres Vedras, vai já na sua quinta edição. E, este ano, tem mais uma vez um programa hiper-apetecível. A informação completa, sacada directamente às Crónicas da Terra:

«O Município de Torres Vedras apresenta, entre os próximos dias 27 de Outubro e 10 de Novembro, a quinta edição do cada vez mais respeitado Festival Internacional de Acordeão. Além dos espectáculos musicais que este ano nos trazem a dupla finlandesa KRAFT de Pekka Kuusisto & Johanna Juhola (a 31 de Outubro, no Teatro-Cine), destaque para a residência artística que envolve o projecto Danças Ocultas, o gaucho Renato Borghetti e o búlgaro Martin Lubenov (e quem mais quiser participar, basta inscrever-se), que culminará, dia 7 de Novembro, com o espectáculo de diálogo entre estes três parceiros multinacionais do fole. Paralelamente, organização promove durante estes dias, ao fim da tarde (18h), as Merendas de Acordeão que resultam numa actuação e numa prova de vinhos, ou leitura de texto.

Eis o programa integral divulgado no site das Festas da Cidade de Torres Vedras:

Concertos
27 Outubro |Segunda | 21h30
Daniel Mille (França)
Teatro-Cine

Na galáxia dos músicos de jazz, Daniel Mille é um puro jazzman que junta em torno de si todos os públicos nos locais por onde passa. O compositor foi considerado o melhor artista instrumental por “Victoires du Jazz 2006” após 10 anos de carreira, tem várias participações em festivais e em álbuns de outros artistas e o espectáculo que nos vai apresentar baseia-se no seu último trabalho Aprés la pluie.

Ficha técnica Daniel Mille » acordeão e acordina
Alfio Origlio » piano
Jerome Regard » contrabaixo
Pascal Rey » percussão
Julien Atour » trompete/fliscorne

31 Outubro | Sexta | 21h30
KRAFT (Pekka Kuusisto & Johanna Juhola) (Finlândia)
Teatro-Cine

Os KRAFT estrearam-se em Julho de 2005 no festival Time Of Music, em Viitasaari.
O duo destaca-se pela comunicação musical e expressão sem género definido.
Os sons são produzidos por uma variedade de instrumentos que vão desde o violino e o acordeão à electrónica, jogo de sinos e voz. KRAFT mostram todos os tipos de música para pessoas que gostam de música de todos os tipos.

Ficha técnica Johanna Juhola » acordeão e piano
Pekka Kuusisto » violino, viola, violino electrico, voz, sampler e piano.

3 Novembro | Segunda | 21h30
Tango Quattro (Argentina)
Teatro-Cine

Este grupo de músicos argentinos surgiu no ano de 1996.
Aquilo que a principio foi um projecto artístico como forma de manter viva a própria cultura transformou-se numa necessidade de reafirmar a própria identidade e, acima de tudo, gostam de se assumir como um grupo de amigos.
O que se destaca em Tango Quattro é a sonoridade do autêntico tango que estes músicos conheceram desde as suas infâncias, tango que expressam com vigor e com a personalidade de um estilo inconfundível, inseparável das raízes que o tango possui e baseado em novos arranjos musicais com adaptações próprias. No seu reportório incluem-se todos os estilos desde a ‘velha guarda’ até Astor Piazzolla, passando por outros músicos de referência como Troilo, Salgan, Pugliese, Plaza e outros grandes maestros do tango, dos quais são absolutamente fiéis estilisticamente falando.

Ficha Técnica
Ezequiel Cortabarría » Flauta
Fabián Carbone » Bandoneón
Mario Soriano » Piano
José Luis Ferreyra » Contrabaixo
Adrián Rodríguez » Violoncelo

7 Novembro | Sexta | 21h30
Danças Ocultas + Renato Borghetti + Martin Lubenov (Portugal, Brasil e Bulgária)
Teatro-Cine

Este concerto será o resultado de 4 dias de residência artística na qual participaram artistas já conhecidos do público Torriense. O que se espera é uma conjugação sublime de distintos modos de tocar e de sentir a música, sonoridades que espelham uma troca enriquecedora de experiências.

10 Novembro | Segunda | 21h30
Duo ARTClac (Portugal)- Duo de Acordeão e Clarinete
Paulo Jorge Ferreira e Carlos Alves
Teatro-Cine

O “Sopro dos Botões” é um programa de apresentação deste duo constituído por dois artistas com uma enorme experiência em contextos extremamente diversificados. Esta proposta dá corpo, em boa medida, à visão de descoberta de novos mundos. Do Fado à música improvisada, passando por linguagens contemporâneas e por uma das facetas muito importantes deste grupo, a produção própria. Paulo Jorge Ferreira é, também, compositor e arranjador e uma das obras foi escrita especificamente para este duo.
Uma das características centrais deste programa é a sua versatilidade e adequabilidade a muitas situações diversas, desde o tradicional recital até à integração em mostras mais alargadas.

Programa

I Parte
Versionen – Werner Richter (Em dois movimentos)
Nuances a 2 – Paulo Jorge Ferreira
…para acordeão e clarinete – Rainer Glen Buschmann
­Barcarole ­Galopp ­Arie ­Tango ­Musette

II Parte
Improviso sobre melodias de Golijov – clarinete solo
Improviso – acordeão solo
Sonate – Wolfgang Hofmann ­Allegro ­Largo ­Vivace
“Ouvir Lisboa”( recriação de fados alusivos a Lisboa) – Paulo Jorge Ferreira

3 a 7 Novembro
Residência Artística
Danças Ocultas + Renato Borghetti + Martin Lubenov (Portugal, Brasil e Bulgária)
Teatro-Cine de Torres Vedras

‘O Festival Acordeões do Mundo apresenta-se este ano com mais uma inovação, a de proporcionar um espectáculo de estreia mundial com músicos internacionais e nacionais que já actuaram no festival.
Projecto que constitui uma renovação integral na apresentação de reportórios, conjuga e une distintos modos de tocar e de sentir num laboratório criado pare esse propósito. Propósito que pretende eleger de cinco em cinco anos um programa que possua a assinatura Torres Vedras, reunindo para isso um grupo de músicos (sempre que possível com a presença de portugueses) que tenha reunido o agrado do público deste Festival.
Importa aqui sublinhar o empenhamento e o entusiasmo de Artur Fernandes (Danças Ocultas) que desde a primeira hora apadrinhou e subscreveu este modelo de residência artística.’

Merendas do Acordeão - 18h

27 Outubro | Segunda | A Brasileira de Torres | José Cláudio | Concerto e prova de vinhos

28 Outubro | Terça | Pastelaria Havanesa | Vítor Apolo | Concerto e prova de vinhos

29 Outubro | Quarta | Café O Chave | Bianca Luz | Concerto e prova de vinhos

30 Outubro | Quinta | SaboreAr| João de Castro e João Domingo | Concerto e prova de vinhos

31 Outubro | Sexta | Restaurante Ferróbico | Catarina Brilha | Concerto e leitura de textos

3 Novembro | Segunda | Livraria Livrodia | Dora Tavares | Concerto e leitura de textos

4 Novembro | Terça | Casa Avó Gama | José António Martins | Concerto e leitura de textos

5 Novembro | Quarta |Bar da Câmara Municipal | Sofia Henriques | Concerto e prova de vinhos

6 Novembro | Quinta | Café O Sizandro | Vítor Apolo e Francisco Cipriano | Concerto e leitura de textos

7 Novembro | Sexta | Cervejaria O Gordo | Emanuel Crispim | Concerto e prova de vinhos

10 Novembro | Segunda | Adega O Manadinhas | Mário Paulo e João Paulo | Concerto e leitura de textos»

A magnífica foto dos Danças Ocultas que encima este post é da autoria de Mário Pires.

07 outubro, 2008

Deolinda, Kimmo Pohjonen, Varttina e Cristóbal Repetto em Concertos Próximos


Os portugueses Deolinda, as finlandesas Varttina (na foto), o igualmente finlandês Kimmo Pohjonen - com o seu projecto Kluster - e um dos nomes mais importantes do novo tango, Cristóbal Repetto, têm todos concertos e digressões marcados para Portugal nas próximas semanas, com organização da Sons em Trânsito. É (para) ver:

Deolinda

17 Outubro - Teatro Aveirense, Aveiro
18 Outubro - Aula Magna, Lisboa
23 Outubro - Teatro José Lúcio da Silva, Leiria
05 Novembro - CAEP, Portalegre
13 Dezembro - Casa das Artes, Famalicão


Kimmo Pohjonen "Kluster"

30 Outubro - Teatro Aveirense, Aveiro
01 Novembro - Fundação Oriente, Lisboa
02 Novembro - Casa da Música, Porto


Varttina

02 Novembro - Casa da Música, Porto


Cristóbal Repetto

03 Novembro - Culturgest, Lisboa

01 outubro, 2008

Cacharolete de Discos - Tango, Hip-Hop Latino e... Bongós!


A música latino-americana - e entenda-se aqui a música latino-americana como um mundo inteiro de músicas, da Argentina a Cuba, passando pelas comunidades imigrantes nos Estados Unidos - já fez muitas viagens. Em críticas a álbuns recentemente publicadas na «Time Out Lisboa» falei dos novos caminhos do tango trilhados pelos argentinos La Camorra Tango, pelo hip-hop de raiz cubana dos Orishas (na foto) e por uma lenda chamada Incredible Bongo Band. Aqui ficam os textos, recuperados da edição em papel.


LA CAMORRA TANGO
«12 POSTALES»
(Galileo/Megamúsica)

Nos últimos anos, o tango - género maior da música argentina e uruguaia - tem ficado mais mais conhecido pelos projectos em que, ao tango, se juntam electrónicas em maior ou menor grau: o Gotan Project, os Bajofondo Tango Club, os Tango Crash, Tanghetto... Mas a verdade é que o tango feito à base de vozes e/ou instrumentos acústicos continua de belíssima saúde, como se pode verificar em nomes como La Chicana, Escalandrum, 34 Puñaladas, Cristobal Repetto ou Adriana Varela. Ou na música deste grupo, La Camorra Tango, em que se reúnem cinco músicos - quase todos eles também compositores dos temas do grupo - de elevadíssima qualidade técnica, mas sem que isso obscureça a emoção avassaladora de que é feita a sua música. E com uma formação «clássica» do tango - guitarra, contrabaixo, violino, piano e bandoneón -, sem recursos a voz nem a electrónicas nem a outros instrumentos, os argentinos La Camorra Tango tocam tango e milongas, sim!, mas aliando-as a muitas outras músicas - o apelo improvisador do jazz, o rock em distorção (mesmo que a distorção seja sempre feita por instrumentos acústicos), um lirismo lindíssimo e por vezes exacerbado, o experimentalismo, a música erudita tratada à maneira do Kronos Quartet -, de um modo orgânico, apaixonado, arrebatador. A influência de Astor Piazzolla na sua música é uma evidência, mas é-o ainda mais porque lhes permite - à semelhança do que acontecia com Piazzolla - levar o tango para paragens distantes sem que deixe de ser tango. (*****)


ORISHAS
«COSITA BUENA»
(Capitol/EMI)

Desde os seus tempos como Amenaza - quando em Havana se atreveram a juntar percussões afro-cubanas ao seu hip-hop -, que os Orishas estabeleceram uma sonoridade originalíssima e muito própria, depois seguida por inúmeros outros grupos, tanto em Cuba como nas comunidades imigrantes cubanas nos Estados Unidos ou noutros países, como a Alemanha (de onde são os Culcha Candela, uma excelente alternativa para quem acha os Orishas demasiado «moles» ou «pop»). E «moles» e «pop» são epítetos que, de vez em quando, até se podem aplicar aos Orishas... Mas faça-se-lhes justiça: eles estiveram sempre na linha da frente da fusão de um género norte-americano - o hip-hop - com músicas locais, de raiz, influenciando decisivamente outros projectos um pouco por todo o lado (e não só os que misturam hip-hop com música latino-americana). No seu novo álbum, «Cosita Buena», o seu quarto de originais, os Orishas não se afastam dessa «missão», continuando a usar as características do hip-hop - o «flow», os beats, o scratch... e até as letras, muitas vezes intervenientes (como em «Maní» e «Que Quede Claro», entre outras) - como desculpa, uma excelente desculpa, para nelas injectarem ritmos como a salsa, o mambo, a rumba, o cha-cha-cha, a guajira ou, no tema «Machete», o reggaeton (género maior que vai ao hip-hop mais duro para o misturar com ritmos locais, à semelhança do dancehall jamaicano, do kwaito sul-africano, do kuduro angolano ou do baile funk brasileiro). Produzido por Tim Latham e masterizado por Tom Coyne, «Cosita Buena» é mais um passo seguro no caminho dos Orishas, que vai agradar novamente aos seus fãs e, eventualmente, desgostar mais uma vez os fãs... dos Culcha Candela. (****)


INCREDIBLE BONGO BAND
«BONGO ROCK»
Mr. Bongo Records/Multidisc

O tema "Apache", na versão da Incredible Bongo Band - e não na original, a dos Shadows - encontra-se na pré-história e na história do hip-hop como um dos temas mais samplados pelos maiores nomes do género (e aparentados) desde a sua pré-história: de Kool Herc, Grandmaster Flash e os Sugarhill Gang a Missy Elliot, Coldcut, Will Smith, Jurassic 5, Run DMC, Beastie Boys, Massive Attack, Moby... O mais engraçado disto tudo é que, durante décadas, pouco se soube sobre a lendária Incredible Bongo Band. Até que a Mr.Bongo Records - editora que deve o nome, em tributo, à banda - veio repor a História no seu lugar e reeditar agora os dois álbuns que fizeram o culto, subterrâneo, da Incredible Bongo Band: «Bongo Rock» e «The Return of The Incredible Bongo Band», ambos editados na primeira metade dos anos 70 e agora reunidos no CD «Bongo Rock». E o que era a Incredible Bongo Band?... Uma ideia, uma ideia de génio, de Michael Viner (na altura A&R da editora MGM), que reuniu uma banda formada por King Herrison (percussionista de mérito - e o tocador dos bongós que dão nome à banda - que tocava com Barbara Streisand e os Jackson 5), Hal Blaine (baterista de sessão com Phil Spector e os Beach Boys, entre muitos outros) e, conta a lenda, Ringo Starr, John Lennon e Harry Nilsson também participaram nas sessões de gravação dos álbuns da Incredible Bongo Band. Álbuns em que o funk, o jazz, a soul, guitarras em distorção, longos duelos de bateria e percussões, especiarias afro e latinas são uma constante quer nas versões de temas de outros - «Apache» (Shadows), «(I Can't Get No) Satisfaction» (Rolling Stones), «Sing Sing Sing» (Louis Prima), «In-A-Gadda-da-Vida» (Iron Butterfly), «Wipe Out» (Surfaris) quer nos originais que se encontram lá pelo meio. Esta reedição também inclui, como bónus bem-vindo, a versão de Grandmaster Flash para «Apache». (*****)

20 dezembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXXIV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXIV.1 - Mikis Theodorakis


O fascínio que a música tradicional dos seus locais de origem provoca em compositores eruditos é, se não banal e habitual, pelo menos comum a muitos deles e das mais variadas origens. Pense-se em George Gershwin, em Béla Bartók, em Manuel de Falla ou em Fernando Lopes-Graça... E pense-se, aqui, em Mikis Theodorakis, o compositor grego que tem na música do seu país - e de países à volta, como a Turquia e as regiões dos Balcãs - o mote principal para muitas das suas obras. Nascido a 29 de Julho de 1925 na ilha de Chios, Grécia, desde muito cedo o jovem Mikis se deixou conquistar pela música popular e pelos cantos polifónicos da igreja ortodoxa. Exilado em Paris devido ao seu activismo político, começou a desenvolver um riquíssimo reportório que, ao longo da sua vida, se revelou em sinfonias, óperas, cantatas, concertos para piano, partituras para bailado e filmes (a música para «Zorba, O Grego» e «Serpico» ficarão como marcas indeléveis do seu génio).


Cromo XXXIV.2 - Zap Mama


O excelentíssimo grupo afro-belga Zap Mama, liderado por Marie Daulne (na foto), é um dos melhores exemplos de como - a partir da voz, e de muitas vozes femininas em polifonias e harmonias africanas - se pode fazer a ponte entre músicas tradicionais e músicas apanhadas nas ondas do éter: o rock, o reggae, o hip-hop... Marie Daulne, nascida no Congo, criada na Bélgica, formada musicalmente no cadinho efervescente de Londres e ideologicamente quando fez uma longa viagem ao Congo e a outros países de África, e as suas companheiras (e os seus companheiros) de jornada, deram e dão ao mundo uma música viva, actual, fundada em raízes antigas mas com as antenas apontadas ao presente e ao futuro das músicas. No início (o álbum de estreia, «Adventures in Afropea» é de 1993) as Zap Mama eram um grupo a capella, mas há muito tempo que são outra coisa: muitas vozes e muitos instrumentos directamente ligados ao Céu.


Cromo XXXIV.3 - Gotan Project


Tendo como inspiração para o seu nome o calão da bandidagem de Buenos Aires, os Gotan Project («gotan» são as sílabas de «tango» ao contrário, tal como no referido calão, o vesre - ou «revés» ao contrário! - «madre» é «drema» e «carne» é «necar»), têm base em Paris mas como inspiração maior o tango e as milongas. E é um dos mais importantes - e o primeiro a ser massivamente conhecido na Europa e Estados Unidos - projectos a fundir a música urbana argentina com sonoridades contemporâneas, nomeadamente com uma fortíssima componente electrónica. Nascidos em Paris, em 1999, os Gotan Project são formados pelo francês Philippe Cohen Solal, pelo argentino Eduardo Makaroff e pelo suiço Christoph H. Müller, que editaram um ano depois o álbum «Vuelvo Al Sur/El Capitalismo Foraneo». Mas foi com «La Revancha del Tango» (2001) que se tornaram internacionalmente conhecidos.


Cromo XXXIV.4 - Stomp


Break-dance, tambores vagamente taiko/vagamente japoneses, danças e percussões africanas e brasileiras, os ritmos industriais dos Test Dept e dos Einsturzende Neubauten do início, vassouras, esfregonas e baldes de lixo usados como instrumentos musicais, o «Singin' In The Rain» tal como se tivesse sido coreografado por replicants do «Blade Runner», o corpo humano como uma imensa caixa-de-ritmos... Tudo isto - e mais, muito mais! - são os Stomp. Grupo alargado - neste momento são, aliás, vários grupos com o mesmo nome - de dançarinos, percussionistas, actores e acrobatas, todos irmanados numa missão comum, os Stomp são uma fabulosa ideia de espectáculo nascida em Brighton, Inglaterra, que já originou filmes, discos, anúncios de televisão... Mas é ao vivo que a arte total - só lá faltam as palavras, que, vendo bem, não fazem falta nenhuma - deste colectivo pode ser mais bem apreciada.

04 outubro, 2007

Festival Acordeões do Mundo - Correntes de Ar em Torres Vedras


De 28 de Outubro a 11 de Novembro decorre no Teatro-Cine de Torres Vedras, o IV Festival Acordeões do Mundo, com mais um excelente programa em que o acordeão é rei e senhor. Dia 28 de Outubro, o festival começa com o acordeonista francês Jean-Louis Matinier, seguindo-se, dia 31, o também francês, mas de origem portuguesa, René Sopa; ambos praticantes de um jazz colorido com muitas outras músicas. Dia 3 de Novembro, actua o celebradíssimo acordeonista italiano Riccardo Tesi acompanhado pela sua Banditaliana. Dia 6, é a vez do pianista e acordeonista Tomás San Miguel & Txalaparta (Espanha/País Basco), para mostrar que a arte do acordeão no país vizinho não começa nem acaba na trikitixa de Kepa Junkera. E dia 9, o festival encerra - mas apenas no «palco principal» - com o excelente tango aberto (jazz, rock, música erudita...) e de contornos electrónicos dos Tango Crash (na foto), colectivo que reúne músicos da Argentina, Alemanha e Suiça. Paralelamente, decorrem os «bailes do acordeão», com dois grupos portugueses: os Alfa Arroba (dia 1 de Novembro, à tarde, na Adega do Maxial) e os Fol&Ar (um dia depois, também à tarde, no Clube Artístico e Comercial), oficinas musicais (nos fins-de-semana de 3 e 4 e 10 e 11 de Novembro) e um concurso de tocadores de acordeão. Mais informações aqui.

21 junho, 2007

Bajofondo Tango Club - Em Digressão Nacional



Este blog já tinha dado notícia da presença dos Bajofondo Tango Club no Festival MED de Loulé, dia 1 de Julho. Mas a notícia alargou e a presença do grupo argentino/uruguaio no nosso país também, já que o colectivo liderado por Gustavo Santaollala também vai tocar, antes, em Guimarães (Teatro Vila Flor, dia 29 de Junho) e Sta. Maria da Feira (Europarque, dia 30) e, depois, em Torres Novas (Teatro Virgínia, dia 2 de Julho) e Lisboa (Garage, dia 4). Citando o comunicado de imprensa: «Bajofondo Tango Club é o nome do colectivo argentino que combina a tradição do tango com a modernidade da electrónica (...). Saído da mente genial do argentino Gustavo Santaolalla, criador dos temas de bandas-sonoras de "Os diários de Che Guevara", "21 Gramas", "Amor Cão" e "O Informador" e vencedor de Óscar das bandas-sonoras de "Brokeback Mountain" e "Babel", os Bajofondo Tango Club são um super-grupo que funde o tango com outras músicas, nomeadamente a electrónica, uma tendência comum a outros nomes como os Gotan Project, Tango Crash ou Tanghetto. A figura de proa dos Bajofondo Tango Club é, sem dúvida, Gustavo Santaolalla - músico, produtor de inúmeros grupos rock e hip-hop latino-americanos, compositor de aclamadas e premiadas banda-sonoras -, mas o projecto não se resume a ele. Com Santaolalla estão outros músicos e DJs com história vasta em nome próprio na música argentina e uruguaia: o compositor, produtor e DJ uruguaio Juan Campodónico, o teclista, DJ e compositor Luciano Supervielle, o violinista Javier Casalla, o bandoneonista Martín Ferres, o contrabaixista Gabriel Casacuberta e a vocalista (e video-jockey) Verónica Loza. Nos dois álbuns de originais editados até agora ("Bajofondo Tango Club", de 2002, e "Bajofondo Presents: Supervielle", de 2004, aos quais há a juntar o álbum de remisturas "Bajofondo Remixed", de 2006) colaboraram cantores como Cristóbal Repetto ou Adriana Varela. Não apenas um concerto (mercê das imagens manipuladas por Verónica Loza), no espectáculo dos Bajofondo Tango Club pode esperar-se, e sempre misturadas com um bom-gosto irrepreensível, a profundidade do tango e as novas tendências electrónicas: house, drum'n'bass, trip-hop, electro. Ou como uma dança antiga pode conviver também (e tão bem) com novos ritmos».

12 junho, 2007

Festival Piazzollex - No Montijo, Com Paixão



Há algumas semanas não fiz nenhuma referência (para grande vergonha minha!) ao festival de tango que decorreu na Voz do Operário, em Lisboa. Mas este, no Montijo, não escapa. E não escapa graças à divulgação que dele faz a Gringa Sempre/Prada, camarada de artes, de preocupações estéticas e de músicas. O festival, de nome Piazzollex, decorre no Montijo nos dias 15, 16 e 17 deste mês, com workshops, filmes, debates e ateliers dedicados ao tango, alguns espectáculos musicais e uma exposição (de Ricardo Videla, mestre da pintura argentina - ver imagem que encima este post - cuja obra pode ser vista a partir de hoje, dia 12, e até dia 17, no Cine-Teatro Joaquim de Almeida). O festival - que assinala quinze anos sobre a morte de Ástor Piazzolla, o homem que levou o tango para as grandes salas internacionais e o elevou a forma de arte superior - inclui os espectáculos «Noite Bandango», pelo quarteto de saxofones português Saxofinia (dia 15, no Cine-Teatro Joaquim de Almeida), «Noite Alemtango», com o quarteto do pianista e compositor Daniel Schvetz com a fadista Mafalda Arnauth como convidada (dia 16, também no Cine-Teatro Joaquim de Almeida, num programa dedicado a Piazzolla e ao escritor Jorge Luís Borges) e «Noite Orquestango», com uma orquestra típica de tango e milongas, formada por instrumentos de cordas, piano e bandonéon (dia 17, ao ar livre, na Praça da República). Todas as informações aqui.

05 novembro, 2006

Cromos Raízes e Antenas III



Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo III.1 - Nicolae Neacsu




Violinista cigano da Roménia, contrabandista de cigarros, figura mítica dos Taraf de Haidouks, o violinista Nicolae Neacsu (1924-2002) costumava apresentar-se assim: «E agora, Nicolae Neacsu, de Clejani, o maior violinista do mundo, vai tocar para vocês». Formados em 1989, pouco antes da morte do ditador romeno Ceausescu, os Taraf de Haidouks (Taraful Haiducilor) espalharam pelo mundo a arte da música cigana dos Balcãs, editaram vários álbuns fundamentais - «Musiques de Tsiganes de Roumanie», «Honourable Brigands, Magic Horses And Evil Eye», «Dumbala Dumba», «Band of Gypsies», entre outros -, encontram-se entre os protagonistas do filme «Latcho Drom» e adquiriram fãs inesperados em todo o lado, do actor Johnny Depp ao Kronos Quartet. Continuam a ser muito bons, mesmo sem a presença tutelar de Nicolae Neacsu, e no seu último álbum, «Maskarada», levam de volta ao universo cigano peças de autores eruditos como Bártok, Khachaturian, iszt, de Falla e Albeniz, entre outros.


Cromo III.2 - Krishna


Talvez a primeira presença registada iconograficamente de uma entidade divina tocando um instrumento musical é a de Krishna, deus que representa o Amor e a Beleza (em sânscrito, respectivamente, «Prema» e «Rupa»). Muitas vezes, Krishna é representado como um jovem pastor que toca flauta para a sua manada de vacas (animais sagrados na religião hindu) ou para a sua esposa principal, Radha. Segundo muitas narrativas mitológicas do hinduísmo, Krishna é a oitava representação ou encarnação («avatar») de Vishnu, mas no «Bhagavad Gita» é visto como o deus maior da constelação de divindades hindus e a origem de todas as outras encarnações. Mas todas as correntes hindus convergem num ponto: Krishna tem origem divina, foi pastor quando criança e em adulto foi um notável guerreiro e professor. A devoção a Krishna não é exclusiva do hinduísmo, estando também presente noutras religiões como o jinismo, o budismo, a Fé Bahá'í e até algumas correntes do islamismo.


Cromo III.3 - Fela Kuti



Figura maior da música africana do séc. XX, o nigeriano Fela Anikulapo Kuti (Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti; nascido a 15 de Outubro de 1938, em Abeokuta; falecido a 2 de Agosto de 1997) foi a síntese mais-que-perfeita de uma música que fundiu sons de raiz africana com géneros negros norte-americanos como a soul, o jazz e o funk. Cantor, multi-instrumentista, compositor, Fela Kuti inventou o afrobeat e criou uma legião de seguidores em todo o mundo - dos seus filhos Seun e Femi Kuti aos Antibalas, passando por alguns dos seus antigos companheiros de aventuras agora bem firmados a solo como Tony Allen e Dele Sosimi. Personagem única também para além da música, Fela tinha no seu país natal uma voz activa politicamente (o que lhe valeu ser perseguido pela polícia nigeriana) e criou uma «república» - Kalakuta, que era ao mesmo tempo casa, estúdio e comuna - onde congregou à sua volta as suas mulheres e os seus músicos. Só para abrir o apetite para a arte maior de Fela Kuti: a caixa de três CDs «Fela - King of Afrobeat - The Anthology».

Cromo III.4 - Tango



Música que canta o amor e a morte, o azar e a sorte, a tragédia e a ainda-mais-tragédia (tanguédia), o tango - também uma dança erótica por excelência - é a expressão maior da música argentina, sim, mas também tem ramificações próximas no Uruguai e distantes em países como a Polónia. Com uma base instrumental que inclui voz (se bem que haja tango unicamente instrumental, como no caso do génio Astor Piazzolla), bandoneón, violino, contrabaixo e piano, o tango teve como intérpretes maiores o cantor Carlos Gardel e o já referido Astor Piazzolla (mestre do bandoneón, primo do acordeão), havendo ainda hoje uma nova geração de intérpretes do tango que vale a pena acompanhar: La Chicana, 34 Puñaladas, Cristobal Repetto, Adriana Varela ou o electro-tango dos Gotan Project, Tango Crash, Tanghetto ou Bajofondo Tango Club.

17 julho, 2006

Acordeões - Entre a Argentina e a Polónia


Recuperação - mais uma - de um texto publicado no BLITZ há alguns meses (Janeiro deste ano). Fala de acordeões, de tango, do passado e do futuro... A propósito de três álbuns (dos Tango Crash, dos Motion Trio - na foto - e uma colectânea de antigo tango... polaco).

TANGO CRASH
«OTRA SANATA»

Galileo/Megamúsica

VÁRIOS
«POLSKIE TANGO»

Oriente Musik/Megamúsica

MOTION TRIO
«PLAY-STATION»

Asphalt Tango/Megamúsica


Argentina-Polónia. Tangos do passado e do futuro. Acordeões a unir tudo.

Já nem há discussão: o acordeão (e as suas variantes, como as concertinas ou o bandoneon) é, na actualidade, um dos instrumentos mais excitantes ao serviço de novas músicas «locais» ou «universais». E, se calhar, já nem é preciso voltar a falar de gente como os Danças Ocultas, Gabriel Gomes, Kepa Junkera, Kimmo Pohjonen ou Chango Spasiuk para se perceber que esta é uma discussão encerrada. E isto para dizer que, nos três discos em análise neste texto, o acordeão é rei e senhor. Mas há outros motivos para ligar três álbuns aparentemente tão diferentes entre si: os argentinos Tango Crash pegam no tango e levam-no para o futuro (numa nave espacial muito mais bem decorada e com uma força locomotora muito mais interessante do que a do Gotan Project), a colectânea «Polskie Tango» mostra tangos do passado, gravados na longínqua... Polónia nos anos 30 (e, acrescenta-se aqui, não há género musical que mais tenha feito pela dignificação do acordeão do que o tango, vd. bandoneon de Astor Piazzolla), e os polacos Motion-Trio pegam nos acordeões e fazem uma viagem paralela à dos Tango Crash, lançando os instrumentos para uma realidade paralela-alternativa-sideral qualquer.

O segundo álbum dos argentinos Tango Crash, «Otra Sanata», mostra o grupo a seguir as pisadas do primeiro, homónimo, mas com desvios valiosos devido à incorporação de novos elementos fixos no grupo. A Daniel Almada (piano) e Martin Iannaccone (violoncelo e voz) – os principais compositores – juntam-se agora um notável bandoneonista, Marcelo Nisimann, um baterista com escola feita no drum’n’bass (o que se nota aqui e ali nos temas deste álbum) e um percussionista. O todo tem agora uma sonoridade naturalmente mais orgânica, mas os tangos e milongas continuam, por vezes, a ser cobertos por um interessante chantilly electrónico (q.b. para dar patine de modernidade sem estragar o sabor original do conjunto). Pitadas de jazz, rock, experimentalismo e música erudita contemporânea fazem o resto. (7/10)

Rewind: uma das milhentas provas de que a música é uma linguagem universal é a colectânea «Polskie Tango», que agrupa tangos e milongas escritos e interpretados por compositores e músicos/cantores polacos no final dos anos 20 e durante a década de 30. Sabe-se lá por que razão, o tango (música nascida na Argentina) tinha uma adesão imensa na distante Polónia dessa altura. E o que começou por ser uma importação e adaptação locais transformou-se numa linguagem própria (com os temas a serem cantados em polaco), com um estilo de tango mais lento, mais triste, mais melancólico, mais «europeu». E é um documento lindíssimo. (7/10)

FFW: 70 anos depois, três polacos tocam acordeão como se este instrumento acústico fosse uma barreira de sintetizadores, comandos de discos voadores ou instrumentos ao serviço de bandas-sonoras de jogos de computador. O seu terceiro álbum, «Play-Station», é de 2001 mas só agora chega ao mercado português. E é uma maravilha de invenção e ritmo e sedução. Aqui há rock, jazz, música minimal-repetitiva, trance, tecno e delírios vários (um dos temas imita o voo de uma mosca; outro mima um jogo de naves espaciais em computador...). Arrasador. (9/10)