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06 outubro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLV.1 - Sun Ra


Um dos mais importantes, originais e desviantes nomes do jazz, Sun Ra (nascido a 22 de Maio de 1914 no Alabama, Estados Unidos, como Herman Poole Blount mas adoptando depois como nome oficial Le Sony'r Sun Ra; falecido a 30 de Maio de 1993) foi compositor, teclista e líder de grandes e pequenas orquestras de jazz, nomeadamente da sua pessoalíssima Sun Ra Arkestra. Auto-baptizando-se com o nome de um deus egípcio, com uma filosofia de vida muito própria - teve sempre uma visão afro-centrista das questões sociais e políticas e dizia que tinha nascido no... planeta Saturno -, pioneiro no uso de sintetizadores no jazz, Sun Ra passeou a sua arte livremente pelo be-bop, pelo free jazz, pelo experimentalismo, passando muitas vezes por diversificadas alusões às músicas do mundo, nomeadamente à música africana, asiática e latino-americana, principalmente nos últimos anos da década de 50 e os primeiros da década de 60.


Cromo XLV.2 - Dissidenten


Na vanguarda da fusão do rock e das electrónicas com músicas de variadíssimas paragens do planeta Terra, os alemães Dissidenten iniciaram a sua carreira em 1981, em Berlim, com uma formação que incluía Friedo Josch (teclas, instrumentos de sopro), Uve Müllrich (voz, guitarra, baixo e oud) e Marlon Klein (voz, bateria, percussões, teclas). E, ao longo da sua carreira de quase trinta anos, este trio - que continua ainda agora a conduzir os destinos do grupo - cruzou a sua música com inúmeras outras músicas e inúmeros outros músicos, passando pela Índia, por Marrocos, por Espanha, pelo Havai, pela música dos índios norte-americanos... e por grupos e artistas como o Karnataka College Of Percussion, Jil Jilala, Nass El Ghiwane, Royal Orchestra of Rabat, Trilok Gurtu, Manu Gallo, Tomás San Miguel e por DJs como Shantel ou Badmarsh. Uma celebração global!


Cromo XLV.3 - Sheng


Conta a lenda que o sheng - também conhecido como «órgão de boca chinês» - serviu de inspiração para a harmónica, o acordeão e o harmonium. Uma lenda que tem tudo para ser verdadeira se atendermos à complexidade deste instrumento, inventado na China há cerca de cinco mil anos. O sheng tradicional consiste numa câmara - feita de madeira ou marfim - onde o tocador sopra, ligada a vários tubos feitos de bambu. Cada tubo tem um orifício e, no seu interior, uma palheta livre, proporcionando o conjunto dos tubos uma variedade de timbres notável. Usado em grandes orquestras - nomeadamente nas que acompanham a Ópera chinesa -, em pequenas formações ou por intérpretes a solo, o sheng - que, em tempos mais recentes evoluiu dos seus 17 tubos originais para variações com 21, 24 ou 36 tubos - continua a ter um lugar ímpar na música chinesa e de outros países do Extremo Oriente, havendo actualmente inúmeras escolas que ensinam a sua arte.


Cromo XLV.4 - Tito Puente


Nome maior da música latino-americana do séc. XX, Tito Puente (nascido Ernesto Antonio Puente Jr, a 20 de Abril de 1923; falecido a 31 de Maio de 2000) foi um dos músicos e compositores a dar maior visibilidade mundial a géneros como o mambo, a salsa ou o jazz latino e, também, aos tímbales - seu instrumento de eleição, embora tenha usado também o vibrafone, congas, piano, saxofone e clarinete. Nascido e criado em Nova Iorque, Estados Unidos, filho de pais porto-riquenhos, ao longo da sua extensa carreira - composta por mais de cem álbuns gravados e inúmeras actuações em todo o mundo - foi muitas vezes considerado como «o rei da música latino-americana», arrecadou variadíssimos prémios (incluindo cinco Grammys) e a sua música integrou vários filmes e séries televisivas, nomeadamente «Os Reis do Mambo», «Os Simpsons» e «Calle 54». «Dance Mania», o seu álbum de 1958, é absolutamente imprescindível.

27 agosto, 2006

Cacharolete de Discos (Parte 425)


E mais uma colecção de críticas de discos, dispersas, a álbuns de Keziah Jones, dos Urban Trad, de Youssou N'Dour (na foto) e de Tito Puente. Para conhecer...


KEZIAH JONES
«BLACK ORPHEUS»
Delabel/EMI-VC

Pensa-se num cantor e guitarrista e compositor oriundo de Lagos, na Nigéria, e é em Fela Kuti que se pensa logo. Mas depois sabe-se que é de Keziah Jones que se fala e o caso muda de figura: Keziah (Olufemi Sanyaolu de verdadeiro nome) deixou a Nigéria quando tinha oito anos e foi viver para Londres, onde fez a sua formação com toda a música negra... feita fora de África. E mais tarde é acolhido em Paris, na editora Delabel, o espaço perfeito para mostrar a sua música - uma mistura viva e pulsante de música africana de variadas proveniências, afro-beat, funk, soul, jazz, blues, bossa-nova, tudo apimentado por letras que misturam o inglês com o yoruba. Keziah chamou-lhe blufunk, mas podia ter-lhe chamado afrosoul ou yorusurrealism, que seria a mesma coisa. Em «Black Orpheus», o seu quarto álbum, Keziah Jones transporta as suas influências a um estado de depuração máxima. Quando se ouve o álbum ouvem-se ecos de Fela Kuti (até na apropriação de um termo por este inventado, «kpafuca»), sim, mas também de Manu Dibango e Salif Keita, de Jimi Hendrix e de Frank Zappa, de Sly & The Family Stone e de Stevie Wonder (da primeira metade dos anos 70), de João Gilberto e de Prince e de Miles Davis. Mas tudo embrulhado numa música nova, excitante, personalizada - e a letra do tema «72 Kilos», em que Keziah (explícita ou implicitamente) assume todas as influências, explica bem o que por aqui se passa. O último tema, «Orin O'Lomi», só com voz, guitarra e som de chuva, é um lindíssimo espaço de paz (antes de revelar, minutos depois, uma faixa escondida que parece um «rewind» até aos cantos dos escravos levados de África...). (7/10)

URBAN TRAD
«ELEM»
Mercury/Universal

Oriundos da Bélgica, os Urban Trad fazem uma curiosa mistura de folk europeia – da escola «céltica» irlandesa, escocesa e especialmente da nossa irmã Galiza – com rock e electrónicas, notando-se a influência do «efeito» Hedningarna em linguagens folk aqui mais a sul. Resulta muitas vezes bem e de uma forma extremamente interessante - com as programações e os sintetizadores a não encharcarem em demasia os instrumentos tradicionais (gaitas-de-foles, flautas irlandesas, concertina, violino…). Mas também há aqui alguns temas escusadamente ligeiros (um segundo lugar dos Urban Trad num Festival da Eurovisão deixou marcas!) que desequilibram a coisa, outras vezes, para um lado mais pop e «festivaleiro». Um melhor equilíbrio entre os vários elementos constituintes do som Urban Trad não lhes fazia mal nenhum. (6/10)


YOUSSOU N’DOUR
«HEY YOU! – THE ESSENTIAL COLLECTION»
Nascente/Megamúsica

Recordação do astro senegalês nos anos da discórdia.

Youssou N’Dour não é uma personagem consensual. Como se refere – com uma honestidade de assinalar – no livreto deste álbum, muita gente considera-o demasiado africano para atingir o mainstream da pop ocidental, outros acham-no demasiado pop para ser um verdadeiro músico africano. E esta condição dúbia está especialmente patente em «Hey You!», que reúne temas dos álbuns «The Lion» e «Set» (ambos da viragem dos anos 80 para os 90), que lançaram definitivamente o inventor do mbalax no circuito internacional e lhe valeram temas de sucesso como «The Lion», «Shakin' The Tree» ou «Medina». Eu gosto; os outros que decidam também por si. (7/10)

TITO PUENTE
«THE ROUGH GUIDE TO...»
World Music Network/Megamúsica

Tito Puente foi um dos maiores músicos do Séc. XX. Percussionista, compositor, arranjador, chefe de orquestra, «compagnon de route» de alguns dos nomes maiores do jazz nova-iorquino (ele que era nova-iorquino de ascendência porto-riquenha), Tito Puente passou dezenas de anos da sua vida com uma missão: dar dignidade aos géneros musicais latino-americanos, mostrando – através das suas orquestrações que misturavam, em boa dose, poderosas secções de metais e muitas percussões (com um violino aqui e ali; com vozes algumas vezes – e neste disco estão as de La Lupe, Célia Cruz, Vicentico Valdes...) – que se pode dançar com muitas e desvairadas músicas. Neste álbum ouvem-se mambos, salsas, bossa-nova («Meditação», de Tom Jobim), boogaloos... e latin-jazz e funk de vez em quando. E os pés saltam, saltam sempre. (8/10)