
Entre os muitos discos de música africana que tenho comprado, ou recebido de editoras, nos últimos meses, destacam-se - fazendo uma pré-selecção por grupos e não por artistas individuais, de que falarei daqui a uns tempos - estes três nomes hoje referidos: o novo álbum da veteraníssima Orchestra Baobab e os álbuns de estreia dos Kenge Kenge e dos Toumast (na foto). Todos bastante diferentes entre si mas todos cheios de muito boa música.
ORCHESTRA BAOBAB
«MADE IN DAKAR»
World Circuit Records/Megamúsica
Quando falamos da Orchestra Baobab não falamos apenas de uma banda mas de uma verdadeira instituição da música africana. Mas não se entenda aqui instituição como algo de pesado, de oficial, de fechado. Não: basta ouvir os primeiros acordes da guitarra eléctrica de Barthélemy Attisso, os primeiros sopros e as primeiras vozes do novo álbum da banda, seis vozes da própria banda e ainda um reforço vindo de Youssou N'Dour, no segundo tema, «Nijaay», para que os problemas que alguém que escreve sobre a Orchestra Baoba tem geralmente - «como abordar uma instituição?» - desapareçam rapidamente. Porque a música do grupo residente no Senegal (mas onde se encontram músicos de várias nacionalidades africanas) é de novo tão viva e tão verdadeira - ao mesmo tempo imediatamente reconhecível mas também nova e fresca e alegre, quer nos temas novos quer em alguns recuperados à sua extensa discografia - que deixamos de lado qualquer pretensão de fazer mais uma elegia ao grupo, traçar-lhe a história (para quem nisso estiver interessado já há várias referências neste blog à Orchestra Baobab; basta procurar) e queremos antes é dançar, cantar em coro (e isso é possível, pelo menos, em «Cabral», cantado em crioulo da Guiné-Bissau por Rudi Gomis) e deixar-nos encantar mais uma vez por esta música que, como sempre, tem um pé em várias músicas africanas, outro na música cubana e outro (um terceiro pé?, sim, como os embondeiros, e mais pés haveria, se necessário) em funks, souls, reggaes e calipsos. «Made In Dakar» é um álbum extraordinário, maravilhoso, sempre variado e pulsante de vida; uma vida nova para estes veteranos felizmente reaparecidos no «circuito» há alguns anos. (9/10)KENGE KENGE
«INTRODUCING... KENGE KENGE»
World Music Network/Megamúsica
Se a Orchestra Baobab é uma «velha» conhecida, os quenianos Kenge Kenge são uma novidade, mesmo que pegando em música antiga e transportando-a para a actualidade, usando para isso um mergulho no... passado. Os Kenge Kenge são de etnia luo e têm como missão levar de volta às raízes e a uma música mais acústica um género popularizado através de grupos que usam guitarras eléctricas, o benga (estilo que é bastante conhecido, e dançado, na África Ocidental e Central; fixado na modernidade por Daniel Owino Mesiani e os seus Shirati Jazz). E os Kenge Kenge, liderados por George Achieng, saem-se muitíssimo bem da tarefa: vozes (algumas com câmara de eco a ajudar), um violino só com uma corda (orutu), um corno de vaca (oporo), flauta (asili), gongo (nyangile) e várias percussões chegam para criar uma música pulsante, de intricadas mas eficientes nuances tímbricas, harmónicas e rítmicas, transportando consigo - apesar de ser feita apenas com instrumentos acústicos - uma força e uma pujança próxima do rock. Os Kenge Kenge fazem, por vezes, lembrar os congoleses Konono Nº1, embora a música dos Kenge Kenge seja menos rude e selvagem e dê mais relevo às harmonias vocais, bastante elaboradas muitas vezes. Mas é igualmente hiper-dançável, solarenga, feita de festa, celebração e alegria. (8/10)TOUMAST
«ISHUMAR»
Kraked/Village Vert
Às vezes é bom ver uma banda ao vivo para poder aquilatar da sua verdadeira qualidade e, muitas vezes, até da sua importância relativa a outros grupos. E foi o que me aconteceu com os Toumast: comprei o álbum há alguns meses e achei que a sua música estava muito, demasiado, próxima da música dos Tinariwen. Mas vi-os ao vivo na WOMEX e adorei o concerto! Certo: há muitos pontos de contacto entre o som dos Toumast e o dos Tinariwen - o próprio líder, compositor, cantor e guitarrista dos Toumast, Moussa Ag Keyna, fez parte da guerrilha tuaregue e chegou a tocar com os Tinariwen, os reconhecidos e respeitados inventores da música ishumar - um híbrido de música tradicional tuaregue, gnawa, música mandinga, blues ácidos e rock psicadélico -, que os Toumast com eles partilham. No início dos anos 90, Moussa, gravemente ferido, foi transportado para França, onde passou a viver e a desenvolver o o projecto Toumast, ao lado da sua mulher Aminatou Goumar (que canta, ulula, toca cabaça, darabuka, djembé e - ao vivo, embora não no disco - uma maravilhosa guitarra eléctrica) e do produtor e multi-instrumentista Dan Levy. E, finalmente, em 2006 é gravado este álbum de estreia: um álbum muito bom, que por vezes vai ainda mais ao rock do que os dos Tinariwen mas sem por isso deixar de transportar o calor do deserto do Sahara (oiça-se o espantoso jogo de vozes no lindíssimo «Ammilana») e doses certas de alegria, revolta e melancolia para a sua música. (8/10)


