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09 novembro, 2007

Orchestra Baobab, Kenge Kenge e Toumast - Velhos e Novos Caminhos da Música Africana


Entre os muitos discos de música africana que tenho comprado, ou recebido de editoras, nos últimos meses, destacam-se - fazendo uma pré-selecção por grupos e não por artistas individuais, de que falarei daqui a uns tempos - estes três nomes hoje referidos: o novo álbum da veteraníssima Orchestra Baobab e os álbuns de estreia dos Kenge Kenge e dos Toumast (na foto). Todos bastante diferentes entre si mas todos cheios de muito boa música.


ORCHESTRA BAOBAB
«MADE IN DAKAR»
World Circuit Records/Megamúsica

Quando falamos da Orchestra Baobab não falamos apenas de uma banda mas de uma verdadeira instituição da música africana. Mas não se entenda aqui instituição como algo de pesado, de oficial, de fechado. Não: basta ouvir os primeiros acordes da guitarra eléctrica de Barthélemy Attisso, os primeiros sopros e as primeiras vozes do novo álbum da banda, seis vozes da própria banda e ainda um reforço vindo de Youssou N'Dour, no segundo tema, «Nijaay», para que os problemas que alguém que escreve sobre a Orchestra Baoba tem geralmente - «como abordar uma instituição?» - desapareçam rapidamente. Porque a música do grupo residente no Senegal (mas onde se encontram músicos de várias nacionalidades africanas) é de novo tão viva e tão verdadeira - ao mesmo tempo imediatamente reconhecível mas também nova e fresca e alegre, quer nos temas novos quer em alguns recuperados à sua extensa discografia - que deixamos de lado qualquer pretensão de fazer mais uma elegia ao grupo, traçar-lhe a história (para quem nisso estiver interessado já há várias referências neste blog à Orchestra Baobab; basta procurar) e queremos antes é dançar, cantar em coro (e isso é possível, pelo menos, em «Cabral», cantado em crioulo da Guiné-Bissau por Rudi Gomis) e deixar-nos encantar mais uma vez por esta música que, como sempre, tem um pé em várias músicas africanas, outro na música cubana e outro (um terceiro pé?, sim, como os embondeiros, e mais pés haveria, se necessário) em funks, souls, reggaes e calipsos. «Made In Dakar» é um álbum extraordinário, maravilhoso, sempre variado e pulsante de vida; uma vida nova para estes veteranos felizmente reaparecidos no «circuito» há alguns anos. (9/10)


KENGE KENGE
«INTRODUCING... KENGE KENGE»
World Music Network/Megamúsica

Se a Orchestra Baobab é uma «velha» conhecida, os quenianos Kenge Kenge são uma novidade, mesmo que pegando em música antiga e transportando-a para a actualidade, usando para isso um mergulho no... passado. Os Kenge Kenge são de etnia luo e têm como missão levar de volta às raízes e a uma música mais acústica um género popularizado através de grupos que usam guitarras eléctricas, o benga (estilo que é bastante conhecido, e dançado, na África Ocidental e Central; fixado na modernidade por Daniel Owino Mesiani e os seus Shirati Jazz). E os Kenge Kenge, liderados por George Achieng, saem-se muitíssimo bem da tarefa: vozes (algumas com câmara de eco a ajudar), um violino só com uma corda (orutu), um corno de vaca (oporo), flauta (asili), gongo (nyangile) e várias percussões chegam para criar uma música pulsante, de intricadas mas eficientes nuances tímbricas, harmónicas e rítmicas, transportando consigo - apesar de ser feita apenas com instrumentos acústicos - uma força e uma pujança próxima do rock. Os Kenge Kenge fazem, por vezes, lembrar os congoleses Konono Nº1, embora a música dos Kenge Kenge seja menos rude e selvagem e dê mais relevo às harmonias vocais, bastante elaboradas muitas vezes. Mas é igualmente hiper-dançável, solarenga, feita de festa, celebração e alegria. (8/10)


TOUMAST
«ISHUMAR»
Kraked/Village Vert

Às vezes é bom ver uma banda ao vivo para poder aquilatar da sua verdadeira qualidade e, muitas vezes, até da sua importância relativa a outros grupos. E foi o que me aconteceu com os Toumast: comprei o álbum há alguns meses e achei que a sua música estava muito, demasiado, próxima da música dos Tinariwen. Mas vi-os ao vivo na WOMEX e adorei o concerto! Certo: há muitos pontos de contacto entre o som dos Toumast e o dos Tinariwen - o próprio líder, compositor, cantor e guitarrista dos Toumast, Moussa Ag Keyna, fez parte da guerrilha tuaregue e chegou a tocar com os Tinariwen, os reconhecidos e respeitados inventores da música ishumar - um híbrido de música tradicional tuaregue, gnawa, música mandinga, blues ácidos e rock psicadélico -, que os Toumast com eles partilham. No início dos anos 90, Moussa, gravemente ferido, foi transportado para França, onde passou a viver e a desenvolver o o projecto Toumast, ao lado da sua mulher Aminatou Goumar (que canta, ulula, toca cabaça, darabuka, djembé e - ao vivo, embora não no disco - uma maravilhosa guitarra eléctrica) e do produtor e multi-instrumentista Dan Levy. E, finalmente, em 2006 é gravado este álbum de estreia: um álbum muito bom, que por vezes vai ainda mais ao rock do que os dos Tinariwen mas sem por isso deixar de transportar o calor do deserto do Sahara (oiça-se o espantoso jogo de vozes no lindíssimo «Ammilana») e doses certas de alegria, revolta e melancolia para a sua música. (8/10)

29 outubro, 2007

WOMEX - Toca Gaiteiro Que Nós Dançaremos!


No meio da dança, dos pulos, dos gritos e das palmas que algumas dezenas de portugueses semeavam na plateia durante o concerto dos Gaiteiros de Lisboa (na foto, de Carlos Mendes Pereira, do Punctum), na WOMEX de Sevilha, alguém disse «não somos mesmo nada imparciais, nós...». Pois, é que é bastante difícil ser imparcial quando, mais do que «objectos» de análise jornalística quem nós temos à nossa frente é um grupo de músicos nossos amigos. E quase todos os portugueses que estavam em Sevilha - jornalistas, músicos, produtores, editores, agentes, etc, etc... - reuniram-se para fazer claque, incluindo, claro, os jornalistas. Mais a mais, uma claque que não envergonhou ninguém porque - e agora é mesmo a objectividade a falar, juro! - os Gaiteiros deram um concerto brilhante, cheio de força, variado e seguríssimo, mesmo que o som tenha estado mais baixo do que aquilo que eles mereciam. Mas mesmo isso não impediu que, a meio do espectáculo, a festa já se tivesse espalhado do palco para os «tugas» e o resto do público. O concerto dos Gaiteiros foi o único oficial de artistas portugueses. Mas, dentro do recinto da Feira puderam ouvir-se pequenos showcases acústicos dos Dazkarieh, do Stockholm Lisboa Project e do fadista e pianista Mário Moita. E, com discos na bagagem, também por lá andavam artistas como Viviane e Hélder Moutinho e membros dos Deolinda, A Naifa, Toques do Caramulo e Blasted Mechanism, entre outros. Para além, claro, de uma larga representação da «indústria» musical portuguesa.

Dos outros concertos e showcases nos cinco espaços da WOMEX deste ano, ficaram na memória, pelas melhores razões, os da cabo-verdiana Mayra Andrade (apesar de, por vezes, ter uns arranjos mais elaborados do que aquilo que seria necessário), do maravilhoso grupo galego Marful (com a sua viagem que parte da Galiza para visitar Portugal, França e América Latina), dos Aman Aman (um projecto paralelo dos L'Ham de Foc que reúne músicos espanhóis e gregos numa leitura lindíssima da música sefardita), os «multinacionais» Badila (com a sua versão aberta e encantatória da música do Paquistão, da Índia e do Irão), os Balkan Beat Box (uma festa pegada de música balcânica, klezmer, reggae, etc, etc...), os Dengue Fever (grupo de norte-americanos e cambojanos que faz uma mistura divertidíssima de rock «sixties» - do surf ao garage e à pop - com música dos filmes de Bollywood e o Festival da Eurovisão), o DJ alemão [dunkelbunt] - imparável nas suas misturas, muitas delas inéditas e pessoais, de música balcânica com reggae, dub, trip-hop ou rap -, os Kasai Allstars (um colorido grupo congolês com uma música irresistível e viciosamente dançável) e os seus «primos» sul-africanos The Dizu Plaatjies Ibuyambo Ensemble (com as caras pintadas e uma música riquíssima e muito variada em timbres, ritmos e harmonias), do nigeriano Seun Kuti (com um espectáculo muito mais bem conseguido do que aqui há uns anos em Sines), das checas Tara Fuki (duas violoncelistas/cantoras que fundem muito bem - excepto quando se aproximam do rock dos... Apocalyptica - música tradicional polaca, música experimental e música erudita), os Toumast (grupo do Niger que leva a música tuaregue ainda mais para o rock do que os Tinariwen e é muito, muito bom ao vivo!); e a reconfirmação da grande qualidade de dois nomes por mim anteriormente vistos este ano - os Bajofondo Tango Club e Vieux Farka Touré.

E a recordar, pelas piores razões - ou não tão boas quanto as dos outros -, os 3canal (grupo de rapso de Trinidad e Tobago, que mistura calipso, rap e reggae mas soa um bocadinho preguiçoso), os albaneses da Fanfara Tirana (uma Fanfare Ciocarlia em versão «limpinha») e os cubanos Maravilla de Florida (com um sucedâneo do Buena Vista Social Club que não acrescenta nada à música de Cuba que já conhecemos), entre outros nomes que mais vale nem recordar (exemplo máximo: o pimba-balcânico-mesmo-pimba dos !DelaDap). Entre os concertos que não vi, mas que tive pena (com três ou quatro concertos a decorrer ao mesmo tempo é impossível ir a todos) contam-se os de Umalali & The Garifuna feat. Andy Palacio, Tanya Tagaq, Siba e a Fuloresta, Lo Cór de la Plana, La Shica, Julie Fowlis e Hazmat Modine. Mas hei-de vê-los um dia.

22 outubro, 2007

WOMEX - O Atlas da Música Tem Um Centro


Numa altura em que a crise na indústria discográfica aperta cada vez mais - com inúmeros artistas, mesmo os de topo mundial, a apostar prioritariamente no circuito de espectáculos e a deixar para trás chorudos contratos com as editoras fonográficas -, os circuitos alternativos de produção, distribuição e divulgação de música são cada vez mais importantes. E na imensa «área» da chamada world music uma feira/festival como é a WOMEX, onde se cruzam músicos e outros agentes musicais de todo o mundo, é uma porta aberta para o conhecimento de novas vias de divulgação musical e, mais ainda, de projectos emergentes neste mar imenso das músicas. Este ano, a lista de concertos e showcases da WOMEX - que decorre em Sevilha, Espanha, esta semana, de 24 a 28 de Outubro - é novamente impressionante: com destaque especial, claro, para a presença dos Gaiteiros de Lisboa (única representação portuguesa na lista), o elenco inclui ainda os 3canal (Trinidad & Tobago), Abdeljalil Kodssi (Marrocos/Espanha), Aman Aman (Espanha), Badila (Índia/Irão/França), Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai), Balkan Beat Box (Israel/Estados Unidos), Caravan Palace (França), Dengue Fever (Cambodja/Estados Unidos; na foto); Electric Kulintang (Filipinas/Cuba/Estados Unidos), Ensemble AltaiKai (Rússia), Fanfara Tirana (Albânia), Hazmat Modine (Estados Unidos), Julie Fowlis (Escócia), Kasai Allstars (Congo), La Shica (Espanha), Lo Còr de la Plana (França), Majorstuen (Noruega), Mamani Keita & Nicolas Repac (Mali/França), Maravilla de Florida (Cuba), Mastaki Bafa (Congo), Mayra Andrade (Cabo Verde/França), Melingo (Argentina/França), Mono Blanco (México), Ross Daly Quartet (Irlanda/Grécia), Seun Kuti & Egypt 80 (Nigéria), Shanbehzadeh Ensemble (Irão/França), Siba e a Fuloresta (Brasil), Sväng (Finlândia), Taksim Trio (Turquia), Tanya Tagaq (Canadá), Tara Fuki (República Checa/França), Telmary (Cuba), The Dizu Plaatjies Ibuyambo Ensemble (África do Sul), Toumast (Niger/França), Umalali & The Garifuna Collective com Andy Palacio (Belize/Guatemala/Honduras) e Yamandu Costa (Brasil), havendo ainda sessões de DJs com [dunkelbunt] (Alemanha/Áustria), DJ 99 (Noruega) e Daladala Soundz (Alemanha). O Raízes e Antenas vai lá estar e há reportagem prometida para o início da próxima semana. Mais informações aqui.