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25 junho, 2008

Vinicio Capossela no FMM de Sines e Concha Buika no Med de Loulé


Este post tem boas e... más notícias. As más são os cancelamentos dos concertos dos Konono Nº1 e dos Master Musicians of Jajouka no Festival Med de Loulé - que começa já hoje - e dos Antibalas Afrobeat Orchestra e dos Kasai All Stars no FMM de Sines, por razões que mais à frente se perceberão. As boas são a inclusão da fabulosa cantora afro-espanhola Concha Buika (na foto) no cartaz do Med de Loulé e a entrada do genial cantautor italiano Vinicio Capossela e do trio - um trio de peso! - de Jean-Paul Bourelly no programa do FMM de Sines. Nos parágrafos em baixo podem ler-se os comunicados oficiais das respectivas organizações acerca deste assunto. Mas antes disso, só uma nota: revolta-me cada vez mais o facto de - como dizia alguém num comentário nas Crónicas da Terra - que a Europa se esteja a transformar numa «fortaleza» onde os naturais ou habitantes de outros continentes têm cada vez mais dificuldade em entrar, sejam eles artistas ou não.

COMUNICADO DO MED DE LOULÉ

«Konono n.º 1 e Master Musicians of Jajouka falham MED por razões consulares

Loulé, 24 de Junho de 2008 - A espanhola Concha Buika é a última presença confirmada no cartaz da 5ª edição do Festival Med 2008, que arranca já amanhã, no centro histórico de Loulé. A cantora, que participou no novo álbum de Mariza, "Terra", sobe ao palco do Med no domingo, 29 de Junho, às 22h45, onde vai apresentar o seu último
trabalho "Niña de Fuego", editado já este ano.

No mesmo dia estava prevista a actuação dos congoleses Konono n.º1, que por razões consulares, foram obrigados a cancelar a passagem por Portugal e, concretamente, pelo Med de Loulé. Também por falta de autorização para entrar na União Europeia, os Master Musicians of Jajouka, outro dos colectivos que estava no alinhamento dos palcos principais do Festival Med, viram cancelada a sua actuação, prevista para sábado, 28 de Junho».


COMUNICADO DO FMM DE SINES:

«Vinicio Capossela e Jean-Paul Bourelly no Festival Músicas do Mundo de Sines


O cantautor italiano e o trio liderado pelo músico americano actuam no lugar de Kasaï Allstars e Antibalas, cujos concertos foram cancelados.

O grupo americano Antibalas e o grupo da República Democrática do Congo Kasaï Allstars já não vão marcar presença na décima edição do FMM Sines - Festival Músicas do Mundo, que se realiza entre 17 e 26 de Julho, em Porto Covo e Sines.

O cancelamento do concerto dos Kasaï Allstars deve-se à não obtenção de visto de entrada na Europa.

A ausência dos Antibalas é motivada pelo incumprimento do compromisso assumido pelo agente europeu da banda.

Com a ausência dos Kasaï Allstars, a noite de 23 de Julho (quarta-feira), no Castelo, ganha um novo protagonista, o italiano Vinicio Capossela, uma das maiores figuras da música italiana contemporânea.

Nascido na Alemanha, em 1965, mas residente em Milão desde muito cedo, Vinicio é, desde 1990, quando lançou o disco de estreia "All'Una E Trentacinque Circa", um cantautor de referência, comparado a Paolo Conte e Tom Waits pela voz rouca, pelo "pathos" criativo e pela capacidade comovente de nos fazer encontrar com a verdade do lado menos luminoso da experiência humana.

Depois de no início da sua carreira se ter interessado pela estética underground norte-americana (Kerouac, Bukowski e, sobretudo, Waits), a partir do quarto álbum deixa-se fascinar pelo som e mistério do imaginário rural italiano, no modo "pasoliniano".

Incorporando influências de géneros com o tango, os blues, a rebetica, a morna ou o cabaret, Capossela venceu, com o seu último disco, “Ovunque Proteggi”, o prémio Tenco para melhor álbum do ano 2006. Em Sines, realiza um concerto com muitas surpresas.

A entrada de Vinicio no programa do dia obriga a um rearranjo do alinhamento dos concertos no Castelo no dia 23, que passa a ser: Waldemar Bastos (21h30), Vinicio Capossela (23h00) e Justin Adams & Juldeh Camara (00h30).

No lugar da orquestra Antibalas, sábado, dia 26 de Julho, às 2h30, na Avenida Vasco da Gama, actua um trio de luxo da música norte-americana, Jean-Paul Bourelly meets Melvin Gibbs & Will Calhoun.

Jean-Paul Bourelly é um dos melhores guitarristas de blues contemporâneos, com um som eléctrico e fortes aproximações ao funk e ao rock. Também cantor, Bourelly já trabalhou com músicos como Miles Davis, no álbum “Amandla”, e Vernon Reid, dos Living Colour.

É precisamente desta banda pioneira do rock negro que chega Will Calhoun, eleito por várias revistas da especialidade o melhor baterista do mundo. A sua bateria poderosa tem dado coração rítmico a grandes nomes, do rapper Mos Def a B. B. King.

Se Calhoun foi considerado o melhor baterista do mundo, Melvin Gibbs, terceiro elemento do grupo, foi eleito o melhor baixista. O seu baixo lendário tem um historial de quase 200 discos de diferentes géneros.

Embora alheia aos factos que as motivaram, a organização do Festival Músicas do Mundo pede desculpa aos espectadores pelas alterações registadas no programa anteriormente anunciado».

03 dezembro, 2007

Sons em Trânsito - Tratados de Pastelaria Regional (e Global)


A última - e absolutamente maravilhosa - edição do Festival Sons em Trânsito terminou às tantas da manhã de sábado (já domingo), com uma prova aberta de doçaria regional aveirense e com os bolos a desaparecerem em pouquíssimos minutos. Eu, que tinha ido comprar tabaco à Praça do Peixe depois do fim do concerto do Capossela, já só rapei, digamos, o fundo ao tacho. Mas não me importei porque, na sala ao lado, a Raquel Bulha passava óptima música para dançar enquanto o José Carlos Fernandes desenhava e aguarelava as músicas e os músicos que se ouviam. Um docinho completo. Como de outros doces se pode falar em relação aos concertos todos (todos!) do festival.

Na quarta-feira, o imenso bolo de noiva cigano, com toques de zimbro, de canela e de pinhões da Fanfare Ciocarlia, festa imensa que não durou três dias mas durou o tempo de um concerto fabuloso - com a Fanfare a ser acompanhada pela rainha Esma Redzepova (abençoada voz!), pela princesa Florentina Sandu, pelos pagens Kaloome (a fazer a ponte entre os ciganos do sul e os do norte) e o gato das botas altas Jony Iliev - e um «after-hours» na rua, com os metais da Fanfare a bombarem dança e boa disposição durante muito tempo! Na quinta, com as castanhas assadas lisboetas que são os Deolinda, a queimarem nas mãos de tão novas e quentes que são, acompanhadas por um vinho novo que é um fado virado do avesso, alegre, vivo, simples e cheio de sentido de humor (as aletrias, perdão, as letras por Ana são deliciosas!). E, falando em letras, e aletrias, e aliterações, e frases feitas - as melhores frases feitas da música portuguesa -, Sérgio Godinho deu um concerto extraordinário, em que os inventivos e frescos arranjos de Nuno Rafael se estendem a canções novas (o «Só Neste País», repete-se aqui neste blog, devia ser o hino nacional) e antigas (de «O Charlatão» a «Quatro Quadras Soltas» ou ao delicioso e doce «O Primeiro Gomo da Tangerina», iluminadas por um som novo e actualíssimo.

Já na sexta, o degustar começou em África, com a música dulcíssima, lindíssima, com um travozinho de bom grogue, do compositor, guitarrista e cantor cabo-verdiano Tcheka, uma música sentida e pessoal que não é devedora de muita da música cabo-verdiana que nós conhecemos; antes uma música nova e que há-de, se tudo correr bem, ser importantíssima - só foi pena o concerto ter sido demasiado curto e ter, por isso, «sabido a pouco». Depois, um autêntico ovo mole, um concentrado explosivo e calórico inesperado com a anglo-francesa Jane Birkin: ela não canta quase nada, mas a maneira como interpreta (principalmente, as canções de Serge Gainsbourg, seu grande amor e o principal homenageado neste concerro) são de uma doçura, de uma candura, de uma simplicidade e de uma simpatia que é quase impossível não nos deixarmos encantar por ela. E o rebuçado que foi «O Leãozinho», de Caetano Veloso, desfez-se-nos na boca... E no sábado, a grande surpresa: o canadiano Gonzales (na foto), aqui em registo piano solo, num espectáculo em que a música erudita (ele é um pianista muitíssimo bom, virtuoso e divertidíssimo!) está lá, evidente ou como referência - de Chopin a Satie - mas estão lá também o «Somewhere Over The Rainbow» e... os Queen, os Bee Gees, os Soft Cell! Um cientista de luvas brancas na arte de preparar crepes em que os ingredientes são completamente inesperados. E, para final de festa, e para descongestionar de tanto doce, a cozinha ora pesada ora picante ora exótica ora feita de inúmeras nuances do italiano Vinicio Capossela, um fabuloso mestre-cozinheiro que doseia com sabedoria os momentos mais calmos (há canções de amor, mesmo canções de amor!, que são de uma beleza infinda), o humor («Maraja»), a música épica dos peplums («Al Colosseo») e o terror («Brucia Troia»). E há teatro - Capossela é também um performer (momento mais alto: quando se senta ao piano, abre um guarda-chuva e toda a gente na plateia começa a estalar os dedos imitando o som das gotas) e projecções (com imagens e... legendas em óptimo português) e uma banda competentíssima (onde brilha Vincenzo Vasi num theremin mágico). Saí do Teatro Aveirense e de Aveiro completamente alambazado mas com imensa vontade de repetir as doses todas...

27 novembro, 2007

Sons em Trânsito - Os Semáforos Passam a Verde Amanhã


O Festival Sons em Trânsito começa já amanhã, quarta-feira, no Teatro Aveirense, e logo com a celebração pan-europeia da grande família cigana presente em «Queens and Kings», o último álbum dos romenos Fanfare Ciocarlia, que em Aveiro se vão apresentar com muitos dos seus convidados que co-protagonizam este disco. Logo a seguir, na quinta-feira há concertos dos Deolinda - um dos mais interessantes novos projectos desviantes do fado - e de Sérgio Godinho, do qual basta dizer o nome para se saber ao que se vai. Na sexta-feira o palco é ocupado por um dos mais talentosos nomes da música cabo-verdiana, o cantor e guitarrista Tcheka, e pela diva anglo-francesa Jane Birkin, num espectáculo em que irá interpretar canções de Serge Gainsbourg (claro!) e dos álbuns «Rendez-vous» e «Fictions». Finalmente, na sexta, há concertos do canadiano Gonzales (num espectáculo para piano, câmara de filmar e... luvas) e do genial e inclassificável cantautor italiano Vinicio Capossela (na foto) e uma igualmente imperdível sessão de DJ de Raquel Bulha acompanhada pelos desenhos feitos em tempo real por José Carlos Fernandes, projecto nascido no MED de Loulé e agora já com nome: Disco Riscado. Mais informações aqui.

24 outubro, 2007

Sons em Trânsito 2007 - O Ano de Todas as Surpresas


A edição deste ano do Festival Sons em Trânsito - que decorre no Teatro Aveirense, em Aveiro, de 28 de Novembro a 1 de Dezembro - tem mais um programa de luxo, ecléctico e marcado por algumas surpresas. Este: dia 28, o festival arranca, em festa, com a música cigana de raiz dos romenos Fanfare Ciocarlia; dia 29 a noite é completamente portuguesa, preenchida com concertos do fado renovado dos Deolinda e a arte imensa de Sérgio Godinho; dia 30 há lugar para a nova música cabo-verdiana com Tcheka e, uma das grandes surpresas do festival, para a anglo-francesa Jane Birkin (na foto), ícone pop nos anos 60 que mais recentemente enveredou por uma leitura muito própria da música do norte de África com o álbum «Arabesque»; e dia 1, o festival tem mais uma surpresa, o pianista e mestre da electrónica (e não só!) canadiano Gonzales, e, para acabar em beleza, o festival termina com a música inclassificável e completamente imperdível do italiano Vinicio Capossela. A organização do SET é da empresa Sons em Trânsito, do Teatro Aveirense, da Câmara Municipal de Aveiro e da Rota da Luz.

02 julho, 2007

Festival MED - O Tapete Voador, a Cadela Light Designer e a Maior Banda Rock do Mundo



Foi preciso ir ao último MED de Loulé para ver um verdadeiro tapete voador, cruzar-me todos os dias com quatro ovelhas num campo de papel de parede, conhecer uma cadela que é light designer, gostar de iogurte pela primeira vez na minha vida e ver a maior banda rock do mundo.

Para além da música, que é o prato principal, o Festival MED tem sempre mil outras coisas a acontecer. Pelo recinto passeiam figuras fascinantes: uma «andaluza» que conta a lenda das amendoeiras em flor com um dedal-princesa-nórdica e um dedal-príncipe-mouro perante um grupo de crianças fascinadas, uma «rainha egípcia» (Nefertiti?) em busca de par para o seu gato ou um «turco» que possui tapetes coçados, mas valiosíssimos, porque voam mesmo! Ou uma cadela loira, lindíssima e devotíssima ao seu dono (o técnico italiano responsável pela iluminação dos vários palcos do festival), que o segue por todo o lado, que entra em stress quando ele sobe à teia dos palcos e que transporta ao pescoço uma acreditação oficial que diz «Staff - Alandra, Light Designer». E há outras figuras que não se mexem mas encantam na mesma: dois dançarinos apanhados a meio de um complicado passo de corridinho algarvio, duas crianças e o seu cão a brincar numa praia do Mediterrâneo ou quatro ovelhas que nos sorriem sobre um padrão de papel de parede. E figuras híbridas, que se encontram algures entre a realidade, a arte e a ficção, como as marionetas que fazem de uma corda de roupa o seu mercado de trocas e vendas, as pulgas invisíveis que saltam de uma caixa de fósforos fosforescente ou o improvável casal burocrata de gravata/flor verde e amarela. E, por falar em flor, atrevi-me pela primeira vez na minha vida a juntar iogurte - matéria láctea que nunca entra na minha dieta - ao kebab, num dos muitos e excelentes restaurantes do recinto. Tinha muito picante por cima e aquilo até resultou bem. Até agora, tudo o que aqui foi escrito é a mais pura das verdades; mesmo que não pareça. E isso é importante dizer, para se perceber que também é verdade o que se vai escrever a seguir: no MED de Loulé tocou a maior banda de rock do mundo. Adeus Rolling Stones. Adeus U2. Adeus Metallica. Adeus aos outros todos em que se esteja a pensar. Olá Tinariwen!

Os Tinariwen (na foto; de Mário Pires, da Retorta) deram o melhor concerto do MED deste ano. E chamar-lhes «a maior banda rock do mundo» - mais ainda do que chamar-lhes «a melhor banda rock do mundo» - não é nenhum exagero. Basta assistir a um concerto desta nova fase da banda do Mali, a fase pós-«Aman Iman» - e o concerto em Loulé foi disso exemplar - para se perceber o elevadíssimo grau de verdade que a sua música atingiu. Uma verdade feita de muitas verdades, é certo, porque nela convivem muitas guitarras eléctricas e as sombras de Robert Johnson, de Jimi Hendrix ou dos Jefferson Airplane com a(s) música(s) que os tuaregues atravessam nas suas viagens - a música árabe, a música gnawa, a música mandinga, a sua própria música... -, mas ainda mais verdadeira por isso: a música de um povo que viaja por vários territórios geográficos mas também pelos territórios que as rádios e as televisões lhes dão a conhecer. E se umas e outras músicas estão ligadas por laços fortíssimos, históricos, como os blues e o rock o estão à zona de que são originários os Tinariwen, essa verdade, então, deixa de ser apenas verdade para passar a ser A Verdade. Uma Verdade maior da maior banda rock da actualidade (e quem não acredita ainda pode tirar as teimas, dia 5, quando os Tinariwen actuarem no S.Jorge, em Lisboa, ou dia 6, no Festival Évora Clássica).

O concerto dos Tinariwen foi o melhor de todo o MED. Mas houve outros que estiveram lá quase. O do italiano Vinicio Capossela, com a sua «orquestra» de cordofones (um «bandolinzinho», bouzouki, guitarra eléctrica, banjo, ele próprio na guitarra «dobro» quando não estava ao piano ou a assumir personagens míticas com a ajuda de máscaras...), a voar com o seu vozeirão de barítono entre o romantismo mais desesperado, a fúria incontida ou o humor sardónico, tudo servido sobre bases inesperadas que foram do alt.country dos Calexico ao caos sónico dos Sonic Youth, passando pela música do «Quo Vadis» ou do «Ben-Hur». O dos Bajofondo Tango Club, que encerraram o festival com o seu tango modernizado, orgânico, vivo, inventivo, pulsante, imaginário e que instalaram a festa entre o público (parte do qual foi convidado pela banda a subir ao palco para dançar); Gustavo Santaolalla tem neste projecto pessoal (onde canta e toca guitarra eléctrica) um laboratório de experiências que deixou de ser ciência para passar a ser arte (no que é coadjuvado belissimamente por músicos de primeira água - o violinista, o bandoneonista, o contrabaixista, o pianista e DJ... - e uma VJ extremanente original. O do Sergent Garcia, com a sua máquina de dança e intervenção política («Free your mind and your ass will follow», dizia George Clinton), onde nunca se percebe onde começa uma e acaba a outra, sendo por isso possível dançar uma cumbia enquanto se apoia os zapatistas mexicanos ou entrar num ragga estonteante enquanto se critica o Bush. E o de Aynur, onde a cantora curda da Turquia (ou turca só porque não a deixam ser curda de nacionalidade) arrebatou toda a gente, logo a abrir o festival, com a sua voz belíssima, canções tradicionais e um grupo de músicos soberbos em que sobressaíam o saz (que ela própria também tocou num momento a solo), o nay, o violino e as percussões árabes; e com uma enormíssima vantagem em relação ao concerto que dela vi na WOMEX de Sevilha: em Loulé não tinha sintetizadores a atrapalhar-lhe o brilho intenso da voz.

Bons concertos - mas sem atingirem o brilho dos já referidos - foram os de Natacha Atlas, ainda dona de uma voz belíssima e apresentando um reportório - grandemente baseado no último álbum, «Mish Maoul» - de um assinalável bom-gosto (desde antigos temas românticos egípcios ou libaneses até bossa-nova, uma canção folk inglesa e uma homenagem a... Nina Simone); de Sara Tavares, que cada vez mais faz mais e melhor a ponte entre várias músicas tradicionais e da contemporaneidade, para além de se sentir cada vez mais à-vontade em cima do palco (e o uso frequente da palavra «mais» aqui foi apenas uma coincidência); e dos Yerba Buena, profissionalíssimos na sua função de fazer chegar ao público uma música - feita de ritmos latino-americanos, hip-hop, funk, soul... - que lhe é atirada directamente aos pés e ao rabo, obrigando-o a dançar do princípio ao fim (e isto é um elogio). A meio caminho entre o bom e o mau concerto ficaram Akli D. - que deu um espectáculo muito pior do que na WOMEX de Sevilha, talvez porque vários problemas familiares assolaram um dos músicos da banda, um estado de espírito que também assombrou o resto dos seus amigos -; os L'Ham de Foc, fabulosos quando estavam a interpretar os seus temas de geografias e épocas distantes entre si mas que cortaram o ritmo ao concerto para afinar os instrumentos durante penosos minutos; e os Chambao, que têm em Mari uma cantora de elevadíssimos recursos que merecia uma banda melhor e mais empenhada do que aquela que a acompanha (e bastou assistir ao magnífico e contrastante encore para se perceber como o concerto poderia ter sido muito melhor). E pelo mau ficaram-se, surpreendentemente, os Taraf de Haidouks que, apesar de terem apresentado vários temas do seu novíssimo álbum «Maskarada» (em que pontificam peças clássicas de compositores como Bartók, Ketèlbey, Albéniz ou Manuel de Falla, todos inspirados na música cigana e, através dos Taraf, de volta a «casa»), se mostraram desconcentrados, desmotivados e alterados.

O texto já vai longo, mas - sem esquecer a referência a coisas óbvias como o aumento do recinto (que chega agora à igreja matriz de Loulé, ao lado da qual está um dos palcos principais), ao facto de por lá terem passado nestes dias muitos milhares de pessoas, com enchentes em pelo menos três dos dias) e à má notícia que foi o cancelamento da actuação de DJ Shantel - ainda há espaço para mais algumas notas finais: as belas surpresas que foram o trance orgânico, acústico e selvagem dos OliveTree; a consistência dos Rosa Negra com o seu fado sofisticado e que viaja pelo Mediterrâneo fora; a excelência dos espanhóis Estambul, fusão conseguidíssima de jazz com música árabe, turca e balcânica; e o como resultou belíssimo o cruzamento da música bem escolhida por Raquel Bulha com os desenhos feitos e projectados em tempo real pelo autor de BD José Carlos Fernandes - que, do vazio de um papel branco, fez nascer émulos de Nusrat Fateh Ali Khan, Lila Downs, Tinariwen, odaliscas e opulentas mulheres africanas. São outras figuras, umas vivas, outras mortas, umas reais, outras imaginárias - ou a meio caminho -, umas cinéticas, outras plasmadas... Mas todas Verdadeiras.

26 junho, 2007

Festival MED de Loulé Começa Já Amanhã!



A edição deste ano do Festival MED de Loulé começa já amanhã, dia 27, e continua até dia 1 de Julho, na zona do antigo Castelo de Loulé, com inúmeros concertos de artistas e grupos de várias zonas do Globo e de diversos géneros musicais. Dos artistas cabeças-de-cartaz do festival já antes o Raízes e Antenas tinha dado conta, mas desta vez fica-se aqui a saber todos os nomes do Med, separados por dias e palcos de actuação. Palco da Cerca: Aynur (Turquia) dia 27; Natacha Atlas (Egipto/Bélgica) dia 28; Akli D (Argélia) e Taraf de Haidouks (Roménia) dia 29), L'Ham de Foc (Espanha) e Yerba Buena (Estados Unidos; na foto) dia 30; Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) dia 1. Palco da Matriz: Quarteto de Cordas Intermezzo (Portugal) e Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) dia 27; Trio de Metais do Alentejo (Portugal) e Sergent Garcia (França) dia 28; Trio Lusitano (Portugal) e Tinariwen (Mali) dia 29; Eudoro Grade (Portugal) e Vinicio Capossela (Itália) dia 30; Duo Flacord (Portugal) e Chambao (Espanha) dia 1. Palco do Castelo: In-Canto (Portugal) dia 27; Estambul (Espanha) e DJ Shantel (Alemanha/Balcãs) dia 28; Toques do Caramulo (Portugal), Uxu Kalhus (Portugal) e DJ Single Again (Portugal) dia 29; Rosa Negra (Portugal), OliveTree (Portugal) e DJ Raquel Bulha (Portugal) dia 30; Amálgama - Tablao do Fado (Portugal) dia 1. Palco da Bica: Jazz Ta Parta (Portugal) e Al-Driça (Portugal) dia 27; Nanook (Portugal) dia 28; Quarteto Alma Lusa (Portugal) dia 29; Fadobrado (Portugal) dia 30; Cherno More Quartet (Bulgária/Síria/Sudão) e Duo Angola Brasil (Portugal) dia 1. Palco Classic (na Igreja Matriz): com alguns dos nomes já referidos em dose «reforçada». Exposições de artes plásticas relacionadas com a temática do festival, artesanato, gastronomia do Mediterrâneo, workshops, teatro, animação de rua, marionetas, performances e uma zona chill-out integram também o programa do festival. E há reportagem prometida neste blog lá mais para segunda-feira (ou terça, se o cansaço apertar).

19 junho, 2007

Vinicio Capossela, La Etruria Criminale Banda e Abnoba - A Música Italiana Que Aí Vem



Três excelentes propostas musicais nascidas em Itália vão passar por Portugal nos próximos tempos para concertos que se esperam, todos eles, de altíssima qualidade: o cantor e compositor Vinicio Capossela (na foto) no MED de Loulé, La Etruria Criminale Banda no FMM de Sines e os Abnoba no Festival Temático de Músicas do Mundo, em Águeda. Muito diferentes entre si, e todos com Itália lá dentro mas também com muitas outras músicas ao redor, aqui fica uma resenha dos seus álbuns mais recentes.


VINICIO CAPOSSELA
«OVUNQUE PROTEGGI»
Atlantic/Warner Music Italia


Vinicio Capossela é um dos mais admiráveis cantautores surgidos em Itália na última vintena de anos. Alemão de nascimento, mas italiano de ascendência e de alma e de vivências, Vinicio fez de Milão a base da sua arte, uma arte em que a palavras e temas se confrontam, sempre, com a realidade envolvente mesmo que recorrendo a temas históricos ou mitológicos (como, neste álbum, as referências à Babilónia, a Tróia, ao Minotauro, ao Coliseu de Roma, à Medusa...), numa linha poética que remete directamente para os filmes de Pasolini e para as road-novels de Jack Kerouac. Musicalmente, a sua arte - e é de arte de se trata, mesmo! - é um mundo aberto de referências e de citações e de invenções. Em «Ovunque Proteggi» (o seu sexto álbum de originais) podemos encontrar fanfarras balcânicas à Bregovic e Kusturica, guitarras elétricas hard-rock, música árabe e coros da Sardenha, balafons mandingas e cha-cha-cha, mergulhos na canção italiana romântica de Adriano Celentano, cabaret e circo e surf music, Tom Waits e bel canto bufo e hinos partigiani e música épica dos peplums e tudo o mais que a imaginação possa alcançar, num delírio constante e absoluto. Na gravação do álbum participaram músicos de variadíssimos lugares de Itália (Sardenha, Sicília, etc...) e do mundo (com destaque para o guitarrista Marc Ribot, companheiro de Capossela em vários discos). Um monumento. (9/10)


LA ETRURIA CRIMINALE BANDA
«ETRURIA CRIMINALE BANDA»
Etnagigante/V2 Records

Big-band alargadíssima em timbres, sons e músicas, La Etruria Criminale Banda - da qual já tinha falado neste blog a propósito do seu fabuloso concerto na última Womex de Sevilha - é, mais do que uma grande banda (nos variados sentidos que esta expressão possa ter em português), um enorme bando de aventureiros que tem um dedo do pé na música italiana (há aqui tarantelas e outros ritmos e géneros imeditamente reconhecíveis como... italianos) mas os outros todos em muitíssimas outras músicas: o funk, o punk, o hip-hop, vários géneros de jazz (do free ao swing e ao be bop), o reggae, o ska, o tango, o klezmer... E tudo o mais que possa encaixar-se numa formação de fabulosos músicos e cantores (La Etruria Criminale Banda são 15 ou 16 tipos em palco a tocar trompetes - muitas trompetes -, guitarra, tuba, clarinetes, trombone, saxofone, baixo, bateria, percussões, flauta, laptop...; muitos deles também em solos vocais ou coros irresistíveis, incluindo aproximações às vozes de Tuva), e sempre com uma inventividade e criatividade inacreditáveis. Nascidos em Roma, através de uma ideia dos irmãos Giovanni di Cosimo e Nando di Cosimo, La Etruria Criminale Banda é um projecto para ver essencialmente ao vivo mas se se puder deitar a mão a este álbum, o primeiro do grupo, também se fica muito bem servido. (8/10)


ABNOBA
«VAI FACILE»
Dunya Records/Megamúsica


Apesar de se inscreverem num registo mais facilmente identificável com a folk - e depois da explosão de músicas, de estilos e de referências de Vinicio Capossela e de La Etruria Criminale Banda -, não se pense, no entanto, que os Abnoba ficam a perder para os nomes referidos mais acima. Não! Este grupo do norte de Itália - nascido em 2004 da confluência de músicos vindos dos Harmoniraptus, Stygiens e Suriscot Trio - pratica uma excitante fusão de música tradicional italiana (nomeadamente dos Alpes, como em «Tourdion», movido a flauta de pastores) e bretã (o primeiro tema de «Vai Facile» é um tradicional da Bretanha, «Andro») com originais que tanto vão à folk italiana como a outros géneros como o klezmer, a rembetika, a música balcânica, a música dita «celta» ou... o rock, o jazz e o funk; muitas vezes em altíssima velocidade e com piano, clarinete, gaitas-de-foles, a belíssima concertina, low whistle, baixo, bateria, sanfona e inúmeras percussões (percussões árabes e latino-americanas, italianas e africanas...) a entrar em despiques estonteantes e/ou em harmonias belíssimas e inesperadas. Contam as crónicas de quem lá esteve que, o ano passado, no Andanças, os Abnoba deram um concerto inesquecível. Espera-se que desta vez, em Águeda, a recordação também assim permaneça. (8/10)

19 maio, 2007

Festival MED - Tantos Mares em Loulé!



A 4ª edição do Festival MED de Loulé apresenta o melhor cartaz de todas as que até agora se realizaram, com concertos de importantes grupos e artistas vindos de variadíssimas zonas do globo e não só da baía do Mediterrâneo, mote primeiro do festival. E ainda bem! De 27 de Junho a 1 de Julho, a zona do antigo castelo de Loulé acolhe concertos, no primeiro dia, da cada vez mais madura e coerente Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) e da interventiva cantora curda Aynur (Turquia; na foto); no segundo, da ex-vocalista dos Transglobal Underground e diva da música de fusão Natacha Atlas (Bélgica/Egipto), do fusionista de punk, reggae e música latino-americana Sergent Garcia (França) e do principal misturador da música das fanfarras balcânicas com a electrónica, DJ Shantel (Alemanha); no terceiro há lugar para a música tuaregue infectada pelos blues e o rock dos Tinariwen (Mali), o misto único de melancolia e festa dos Taraf de Haidouks (Roménia) e a música da Kabilia revista à luz de vários géneros ocidentais do cantor Akli D. (Argélia); no quarto é a vez do genial e incatalogável cantor e compositor Vinicio Capossela (Itália), da mescla de muitas músicas modernas com a música latino-americana dos Yerba Buena (Estados Unidos) e do duo valenciano de folk, música medieval, música grega e tudo à volta L´Ham de Foc (Espanha); e, para fim de festival, dois projectos que juntam músicas tradicionais do seu país com a electrónica - o tango trazido para a contemporaneidade pelos Bajofondo Tango Club, de Gustavo Santaolalla (Argentina) e o flamenco-chill dos Chambao (Espanha). E, claro, nas ruas circundantes e nos outros palcos ainda há lugar para muitos outros concertos (principalmente de novos grupos de música tradicional, folk e de fusão portugueses), sessões de DJ a puxar a dança, inúmeras bancas de artesanato, restaurantes de variados sabores mediterrânicos, workshops e animação de rua. Mais informações aqui.