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28 março, 2012

Memórias de Cesária em Serpa e Gwendal em Sendim


Olhem só as duas recentes (e belas) notícias que o camarada Luís Rei tem nas suas Crónicas da Terra:


«Homenagem a Cesária Évora passa pelo Encontro de Culturas de Serpa

A IX edição do Encontro de Culturas de Serpa, que decorre este ano entre 2 e 17 de Junho, recebe, dia 8, o espectáculo de homenagem a Cesária Évora. Reunião de antigos membros da banda com as vozes de Tito Paris, Nancy Vieira, Maria Alice e Albertino Évora.

O espectáculo produzido pelo antigo amigo e editor da diva dos pés descalços, José da Silva, das editoras Harmonia e Lusafrica, foi estreado este mês em Cabo Verde, durante a cerimónia de renomeação do aeroporto Internacional do Mindelo na Ilha de Sal ao qual foi atribuido o nome da malograda cantora, bem como inaugurada uma estátua de três metros de altura, da autoria do artista cabo-verdiano Domingos Luísa.

Serpa terá pois a honra de receber esta homenagem musical que deverá também passar por Lisboa e correr mundo.

A programação dos Encontros de Cultura de Serpa é a seguinte:

Praça da República

Espetáculos musicais com início sempre às 21h30

Dia 7, quinta-feira
Espetáculo enREDE . Portugal, Espanha, Cabo Verde, Brasil . Produção de Malu Aires

Dia 8, sexta-feira
Homenagem a Cesária Évora . SEMBA/COLADERAS/MORNAS. Cabo Verde
Com Tito Paris, Nancy Vieira, Maria Alice e Albertino Évora

Dia 9, sábado
Zeca Baleiro . MPB. Brasil

Dia 10, domingo
Dia do Cante . CANTE ALENTEJANO. Portugal

Dia 13, quarta-feira
Magic Slim & The Teardrops BLUES. EUA

Dia 14, quinta-feira
Otava Yo . . Rússia

Dia 15, sexta-feira
Camané .FADO. Portugal

Dia 16, sábado
Virgem Suta . CANÇÃO POPULAR . POP . Portugal

Dia 17, domingo
Luz Casal . Espanha»


«Gwendal e Nuevo Mester de Julgaria no Intercéltico de Sendim

O Intercéltico de Sendim, que celebra este ano a sua 13ª edição, realiza-se entre os dias 3 e 5 de Agosto. Aos habituais dois dias de animação folqueira com seis espectáculos no Parque das Eiras, adiciona-se mais uma noite de tradição mirandesa. Cortesia da Comissão Festas de Santa Bárbara 2012 e a Associação de Pauliteiros de Sendim.

Programa principal:

sexta-feira, dia 3 de Agosto


Nuevo Mester de Julgaria (Castela / Espanha)
Le vent du Nord (Quebeque / Canadá)
Toques do Caramulo (Águeda)
Sábado, dia 4 de Agosto


Gwendal (Bretanha / França)
Assembly Point (Portugal, Galiza, Irlanda)
Realejo (Coimbra)
Domingo, dia 5 de Agosto


Lenga- Lenga
Trasga
La Çaramontaina
No Facebook da organização do Intercéltico é possível ler o seguinte:

A décima terceira edição do Festival Intercéltico de Sendim ficará desde logo marcada pelos concertos de dois grandes grupos da folk europeia que são verdadeiras instituições musicais, com um longo trajecto de permanência activa na frente cultural: GWENDAL (grupo proveniente da Bretanha francesa, a celebrar 40 anos de vida!…) e NUEVO MESTER DE JUGLARIA (fundados em finais de 1969, oriundos das vizinhas terras de Castilla y Léon). Duas apostas fortíssimas, às quais não podemos deixar de acrescentar a vinda de um dos mais aclamados grupos no que se refere a concertos ao vivo, os LE VENT DU NORD (vindos das longínquas paragens do Quebéc canadiano). Bem menos remotas mas bastante diversificadas são as terras de origem dos elementos do grupo ASSEMBLY POINT (Portugal, Galiza e Irlanda), numa “mistura” musical verdadeiramente explosiva. E, para representarem a folk portuguesa, nada mais nada menos do que dois grupos da respectiva frente de excelência: os REALEJO e os TOQUES DO CARAMULO.

Mas os concertos vão acontecer também fora do Parque das Eiras, como será, por exemplo, o caso da verdadeira embaixada musical mirandesa que se apresentará na noite de domingo (5) no Largo da Igreja – TRASGA, LENGA-LENGA e LA ÇARAMONTAINA –, numa noite mirandesa inteiramente gratuita organizada pela Mordomia de santa Bárbara 2012!

Numa Taberna dos Celtas totalmente remodelada, acontecerão os inefáveis encontros sob o signo das gaitas – com gaiteiros e gaiteiricos (que continuarão a apresentar-se, como de costume, no convívio no Largo da Igreja), evocações e homenagens, lançamentos de discos e de livros, exibição de filmes… Mas não faltarão as caminhadas pelas arribas – La Ruta de ls Celtas – os bailes mirandeses na Praça (sob a batuta do grupo Lenga-Lenga), a leitura integral de Ls Lusiadas, (assim, em mirandês, com gravação para futura edição fonográfica), a missa intercéltica (dita em mirandês, com toques tradicionais de fraita e tamboril). E um festival ibérico de danças de pauliteiros (organizado pela Associação de Pauliteiros de Sendim).

É assim em Sendim: a festa acontece em tons maiores de celebração. E, em 2012, com mais um dia para… o que der e vier!»

24 julho, 2006

Zeca Baleiro - Baladas Bem Embaladas


Estou quase de saída para Porto Côvo e Sines. Hoje à noite há estreia absoluta da dupla de DJs 2Mé & Prince Hip (é «private joke» ou já não tão «private» quanto isso)e o resto da semana é para usufruir do resto do festival, mesmo (ver posts relativos ao FMM lá mais em baixo, sff)... E, na semana seguinte, ainda sem certezas, sou capaz de ir ao Andanças (ver post sobre este festival também lá mais em baixo, sff, bis...). Isto quer dizer que este blog vai estar ao abandono durante uma semana (ou duas). Antes disso, deixo aqui a entrevista com o brasileiro Zeca Baleiro, publicada no BLITZ em Julho do ano passado e já referida noutro post lá em baixo (este não é preciso ver: é aquele em que se fala da Ruth Marlene). Do disco com as versões de temas portugueses é que ainda não se sabe nada...

ZECA BALEIRO
VÔ EMBALÁ(DA)

Ao quinto álbum, Zeca Baleiro dá-nos «Baladas do Asfalto & Outros Blues». Um álbum que pode ser visto como uma continuação de «Líricas» (o terceiro) e uma, digamos, pausa na loucura habitual. Baleiro de abalada para a balada bem embalada? Sim e não, como ele explica nesta entrevista.

Zeca Baleiro é um excelente conversador. Inteligente, divertido, sempre com a palavra certa na altura exacta. E defende a sua obra - neste caso, o álbum «Baladas do Asfalto & Outros Blues» - não como advogado em causa própria, mas mais como um pai a defender um filho. Um filho que, ainda por cima, tem uma paternidade mais repartida do que é habitual: foi feito a convite de dois produtores (Walter Costa e Dunga); algumas letras não são de Baleiro... Para o futuro próximo está previsto um álbum com versões de temas de artistas portugueses.

Pode dizer-se que, à semelhança de «Líricas», «Baladas do Asfalto & Outros Blues» é mais um disco de poesia do que de música?

Não; embora esses dois discos sejam primos. A edição de «Líricas» deveu-se à minha necessidade de meter um travão na grande exposição que estava a ter devido ao sucesso do «Vô Imbolá». Andava um pouco saturado. E o «Líricas» foi criticado porque não era o disco que a editora e o público esperavam de mim. Mas o «Líricas» acabou também por ser um êxito. E isso deu-me uma grande segurança no sentido de fazer o que eu quisesse. Como foi o caso deste novo álbum, que tem muito pouco a ver com o anterior [«Pet Shop Mundo Cão»]. E não acho que seja só um disco de poesia: há muita música ali.

O «Líricas» era um álbum muito descarnado musicalmente. Já este novo tem arranjos luxuosos, muitos instrumentos, secção de cordas, etc...

Engana bem!! (risos) Este foi um disco de orçamento médio, mais para o baixo do que para o alto. Tem coros em dois temas e um quarteto de cordas em quatro canções. Acho que é igualmente despojado, como o «Líricas». O que muda é que é um disco de banda, enquanto o outro tinha canções só com piano e voz, violão e voz. Aqui há bateria, baixo, guitarras. Mas a alma é semelhante à do «Líricas». Os blues do título têm que ver com esses sentimentos, essa alma, que percorre todo o disco. Mais do que com o género musical blues.

Temos falado do «Líricas»... E o disco, mais recente, de colaboração com Raimundo Fagner? Teve alguma coisa a ver com a direcção estética de «Baladas...»?

Não. Esse era outro disco simples e despojado, que apareceu como um projecto entre muitos outros que eu tinha e ainda tenho em mente. Quero ainda fazer um disco só de samba, outro de reggae, calipso e carimbó - géneros muito populares no Maranhão [região de onde Zeca é originário] - e ainda um disco só com versões de canções de autores portugueses.

Já se pode saber alguma coisa desse projecto?

Já. Eu falei dele ao Marco Mazola [da editora brasileira MZA] e ao José Serrão [da Som Livre em Portugal] e eles ficaram muito entusiasmados com a ideia. Penso cantar coisas de Sérgio Godinho [com quem Baleiro colaborou no «Irmão do Meio»], Jorge Palma [de quem Baleiro faz uma versão, «Frágil», na faixa-bónus da edição portuguesa de «Baladas...»], Rui Veloso, Zeca Afonso, Fausto, Vitorino, Pedro Abrunhosa e Armando Teixeira, entre outros. Geralmente, os brasileiros que cantam canções portuguesas, cantam fados, que são lindos, mas a minha ideia é diferente. Penso editar o álbum em Portugal e no Brasil.

É curioso porque, enquanto em Portugal há um grande preconceito de alguns artistas em relação a alguns cantores mais populares, no Brasil há uma grande cumplicidade entre a comunidade artística. Em «Baladas...» há uma canção, «Muzak», dedicada a Roberto Carlos...

Sim, o Roberto Carlos é muito respeitado. Mas também há bastante preconceito contra alguns cantores populares. Por exemplo, o Martinho da Vila, que é um génio popular, é menos respeitado do que deveria. Há o «complexo do vira-lata» - querer sempre aspirar a ser europeu e, mais recentemente, a ser norte-americano. Participei num álbum de tributo a Odair José, um grande compositor da música considerada brega - que, para vocês, é o pimba - nos anos 70. Ele foi a vanguarda do brega (risos)... Eu gosto de uma cantora portuguesa que é a Ruth Marlene.

Ruth Marlene?!?

Sim! Porque não? Ela é minha fã; foi ver um concerto meu e estivemos a conversar depois.

Voltando ao novo álbum: como é que surgiu a ideia deste «formato» banda?

Este álbum veio até mim. O Walter Costa - que é um génio da produção e já tinha trabalhado comigo no «Vô Imbolá» - e o Dunga, baixista que tocou com muita gente, fizeram-me um desafio: «você manda-nos umas cassetes com canções; ficamos trabalhando aqui com um grupo, sem compromisso, e se ficar bom, avançamos para o disco...». Foi uma proposta tentadora! (risos) Eu mandei as maquetas, só voz e violão, e eles foram trabalhando sem pressas. Eles produziram o álbum de uma maneira que eu jamais faria: o disco tem um som radiofónico, FM, despudoradamente radiofónico! Nunca vi as minhas canções embaladas assim...

O álbum poderia, então, chamar-se «Vô Embalá»...

Sim, podia! (risos) E eu adorei essa produção. Apesar de poder haver um certo pudor e poder haver reacções como «ah, se vendeu!! quer fazer sucesso!!». É um álbum para ouvir na estrada...

Por outro lado, este álbum está cheio de instrumentos «verdadeiros». Quase não há electrónica...

Sim, quase nada. É um disco muito, como se diz hoje, orgânico. E foi pegar nos instrumentos, ligar o gravador e vamos lá... Há canções gravadas ao primeiro «take»... Se calhar, se fosse eu a produzir, editaria, reeditaria, samplava... Mas a natureza do disco não era essa: tem muito calor.

No novo álbum também há menos presença de géneros brasileiros como o forró, o baião ou o samba e uma presença constante de géneros norte-americanos...

Sim, originalmente norte-americanos mas já adoptados em todo o mundo há muito tempo. Em Espanha temos o Joaquín Sabina, em Portugal temos o Jorge Palma, etc, etc... E eu tenho um amor sincero por esses géneros norte-americanos. As canções que eu mandei para os produtores já tinham essa carga. Os produtores podem é ter acentuado esse lado. E não, não há referências à música brasileira. Mas isso foi propositado. Foi uma questão de foco. Eu estou a fechar o universo dos discos - é por isso que vou fazer um só com variações de samba - porque estou cansado de discos, como o «Vô Imbolá», em que há rap com embolada, samba de roda, baladas. Cansei disso.

Outra diferença: no novo álbum os poemas são mais acessíveis, menos experimentais, com menos jogos de palavras...

É verdade que este disco tem uma poética, uma métrica, mais tradicional, talvez porque as canções se prestam mais a isso. Ficaria um pouco deslocado fazer uma letra muito abstracta em canções com estas características. Mas não foi intencional. E neste disco também há letras de outras pessoas. Do Murilo Mendes, por exemplo, que é um poeta fantástico.

Há uma referência aos Mutantes neste disco. O tropicalismo continua a ser uma fonte de inspiração?

O tropicalismo está muito entranhado em nós, mas não nos cabe ficar repetindo-o. Uma vez disse, provocatoriamente, que o brasileiro já é por natureza tropicalista. Quem inventou o tropicalismo não foram Caetano, Gil, Tom Zé, Mutantes, foi a Chiquinha Gonzaga [maestrina cuja carreira decorreu no final do séc. XIX e início do séc. XX e que juntava música dos salões europeus com música tradicional brasileira]. O pensamento tropicalista já estava nela, assim como já estava no Heitor Villa-Lobos quando este fazia digressões com o Pixinguinha. O tropicalismo está naturalmente enraizado nos brasileiros.