28 outubro, 2010

O Mali Continua Cheio de Música!


Antes de mais, um pedido de desculpas aos fiéis leitores deste blog e que continuam a encher a "caixa" de seguidores do Raízes e Antenas: o excesso de trabalho das últimas semanas impediu-me, mais uma vez, de ter uma participação regular -- ou mais ou menos irregular que fosse! - neste blog. Para me compensar e, eventualmente, compensar os leitores, aqui ficam algumas críticas a vários discos de artistas malianos (e ainda uma excelente colectânea) editados nos últimos meses e originalmente publicados na "Time Out". E, a somar, ainda o álbum do projecto AfroCubism, isto é, aquilo que teria sido o Buena Vista Social Club se não tivesse sido só feito com cubanos (e norte-americanos)... São vários bombonzinhos de regresso!


Ali Farka Touré & Toumani Diabaté
"Ali & Toumani"
World Circuit/Megamúsica

Quando saiu o belíssimo "In the Heart of The Moon" – o primeiro álbum de duetos entre o guitarrista Ali Farka Touré e o mestre da kora Toumani Diabaté (na foto), dois dos nomes maiores da música do Mali nas últimas décadas -, sabia-se que tinham ficado “na gaveta” mais uns quantos temas gravados, não nas mesmas sessões (as primeiras foram em Bamako; estas em Londres), mas com um formato semelhante. Não se sabia é que os temas seriam assim tão bons! Embora perca para o primeiro em frescura, novidade e até em algum défice instrumental, "Ali & Toumani" é mais um testemunho exemplar da arte e do génio dos dois músicos, aqui acompanhados pelo baixista cubano Orlando “Cachaíto” Lopez (entretanto já falecido, tal como Ali) e Vieux Farka Touré (filho de Ali), entre outros. (****)


Oumou Sangaré
"Seya"
World Circuit/Megamúsica

Ao fim de seis anos sem discos de originais no mercado, a maior diva da música do Mali, Oumou Sangaré, está de volta com um álbum absolutamente extraordinário, "Seya" (que significa "alegria"), onde a sua música atinge um cume de excelência e luminosidade absolutos. E, embora nele participem algumas luminárias da música actual (malianos, nigerianos, norte-americanos) como Djelimady Tounkara, Cheick Tidiane Seck, Bassekou Kouyaté, Pee Wee Ellis ou Tony Allen é a voz e arte de Oumou que aqui falam mais alto. É um álbum socialmente interventivo - os casamentos forçados de adolescentes, por exemplo -, coerentíssimo no seu desenho musical (mesmo quando intervêm alguns dos músicos citados) e quase sempre acústico, com os instrumentos tradicionais a sobreporem-se facilmente aos outros. E a voz, a voz! (*****)



Amadou & Mariam
"Welcome To Mali"
Because/Megamúsica

O trabalho de produção de Manu Chao para o duo maliano Amadou & Mariam (no álbum "Dimanche à Bamako") teve uma coisa boa e uma coisa má (e que são, na prática, a mesma coisa): a coisa boa foi ter aberto o som do duo a outras músicas, mais globais, mais "world"; a coisa má foi a colagem de muitos dos seus temas a uma sonoridade demasiado próxima da de Manu Chao. Anos depois, neste novo "Welcome To Mali", a sombra de Manu Chao ainda anda por cá - e bem! - mas a música de Amadou & Mariam navega igualmente por outras paragens, a começar logo pelo belíssimo tema semi-progressivo semi-psicadélico (a fazer lembrar os Air) que é "Sabali", produzido por Damon Albarn. E o resto do álbum é variadíssimo, passando por canções profundamente "africanas" mas enfeitadas pelo rock, o funk, o disco-sound, o hip-hop (com o somali K'Naan) ou o afro-beat (com Keziah Jones). (****)

Vários
"One Day On Radio Mali"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Se, desde há muitos anos, a música do Mali é sobejamente conhecida em todo o mundo – via nomes como Oumou Sangaré, Amadou & Mariam, Tinariwen, Salif Keita, Rokia Traoré ou o falecido Ali Farka Touré -, a verdade é que há uma riquíssima “pré-história” da música maliana que antecede o “boom” da world em meados dos anos 80. E esta colectânea – lançada pela importantíssima editora africana Syllart, do produtor Ibrahim Sylla - mostra exactamente a música de grupos seminais do Mali dos anos 60 e 70 como Les Ambassadeurs du Motel (que estabeleceram Mory Kanté e Salif Keita), Rail Band (por onde passaram também Keita, Kanté e Kante Manfila ), Super Djata de Bamako, Orchestre Regional de Mopti, National Badema ou a Orchestre National de Gao (com um tema que fala da guerra colonial na Guiné-Bissau). (*****)

Donso
"Donso"
Comet Records/Massala

A fórmula já não é nova: fundir as músicas tradicionais do Mali com as electricidades e/ou as electrónicas, os rocks e os blues: pense-se em Ali Farka Touré, nos Tinariwen, em Amadou & Mariam, em Issa Bagayogo e em muitos outros... Agora, os Donso fazem uma viagem semelhante partindo do Mali (mas também da música tuaregue e do gnawa marroquino) para chegar ao psicadelismo, ao transe, a territórios próximos do metal, a baladas ”azuladas”... Nos Donso convivem músicos franceses com músicos malianos (incluindo o vocalista Gedeon Papa Diarra), e ainda têm como convidados dois importantes nomes da música maliana: Ballaké Sissoko na kora e Cheick Thidiane Seck nas teclas. Donso significa “caçador” em língua bambara e bem se pode dizer que, com este álbum, têm aqui uma boa quantidade de troféus no cinto. (****)


Ballaké Sissoko/Vincent Segal
"Chamber Music"
No Format/Massala

Nem sempre corre bem a tentativa de encaixar instrumentos tradicionais, nomeadamente africanos, num formato de música erudita e em diálogo com instrumentos preferencialmente usados nesse género. E isso até já aconteceu com o maliano Ballaké Sissoko, quando pôs a sua kora (harpa mandinga) ao serviço do piano do italiano Ludovico Einaudi. Mas, no caso deste álbum apropriadamente chamado "Chamber Music" (música de câmara), é o oposto que se passa: com composições maioritariamente assinadas por Sissoko, a sua kora brilha a grande altura sobre os belíssimos “tapetes” proporcionados pelo violoncelo do francês Vincent Segal (que já colaborou com vários nomes da world music e faz parte dos Bumcello). O álbum é inventivo, variado e sempre... africano. (****)

Idrissa Soumaoro
"Djitoumou"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Já com mais de 60 anos de idade, o cantor, guitarrista e intérprete de kamele n'goni Idrissa Soumaoro edita agora o seu segundo álbum no circuito internacional – depois de "Kôtè" (2003) – e neste novo disco continua a mostrar, em “peças” distintas do puzzle que é este "Djitoumou", o seu amor pela música tradicional de Wassoulou (a região do Mali de onde é originário), os blues, a rumba congolesa, a música árabe, a country e até o flamenco. Produzido por François Bréant (o mesmo dos Kekele ou Salif Keita), o álbum tem como um dos momentos mais altos e brilhantes o tema “Bérèbérè”, que conta com a participação especial do entretanto falecido Ali Farka Touré. Personagem arredia da ribalta da cena musical, a música rara de Soumaoro é, também por isso, uma autêntica bênção. (****)


Bako Dagnon
"Sidiba"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Quando a cantora maliana Bako Dagnon foi, finalmente, revelada ao mundo através do álbum "Titati", editado em 2007 e depois de várias cassetes lançadas no seu país ao longo de vários anos, viu-se nela o terceiro lado de um triângulo sagrado de vozes femininas (ao lado de Oumou Sangaré e de Rokia Traoré). Era justo: a assunção de Bako como uma griot no feminino, a sua música muitas vezes em estado puro, bruto, e uma voz original fizeram dela uma das grandes “descobertas” world desse ano. Neste segundo álbum internacional, "Sidiba", Bako confirma isso tudo mas perdeu-se a novidade e alguma da frescura do anterior. Mas não seria nada mau poder vê-la ao vivo um dia destes. (***)


AfroCubism
"AfroCubism"
World Circuit/Megamúsica

Quando, em 1996, Ry Cooder e Nick Gold foram para Cuba gravar o "Buena Vista Social Club", a ideia base do disco era juntar músicos cubanos com músicos do Mali, devido às óbvias pontes musicais entre Havana e o continente africano. Mas, como é sabido, isso não se concretizou por falta de vistos dos africanos. Agora, o projecto inicial foi retomado e Gold (sem Cooder) é o produtor deste "AfroCubism" que reúne Kasse Mady Diabaté, Lasana Diabaté, Toumani Diabaté, Bassekou Kouyate e Djelimady Tounkara com Eliades Ochoa e o Grupo Patria. E, apesar de o resultado nem sempre corresponder às expectativas, há aqui alguns belos nacos de música. Momentos altos: “Djelimady Rumba” e o quase fado/quase morna “Benséma”. (****)

1 comentário:

Eduardo F. disse...

Amigo, essas compilações da African Pearls são uma delícia...

:)

Não podia ser de outra forma: fazem jus ao nome.

Abraço cá de Braga.