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28 outubro, 2010

O Mali Continua Cheio de Música!


Antes de mais, um pedido de desculpas aos fiéis leitores deste blog e que continuam a encher a "caixa" de seguidores do Raízes e Antenas: o excesso de trabalho das últimas semanas impediu-me, mais uma vez, de ter uma participação regular -- ou mais ou menos irregular que fosse! - neste blog. Para me compensar e, eventualmente, compensar os leitores, aqui ficam algumas críticas a vários discos de artistas malianos (e ainda uma excelente colectânea) editados nos últimos meses e originalmente publicados na "Time Out". E, a somar, ainda o álbum do projecto AfroCubism, isto é, aquilo que teria sido o Buena Vista Social Club se não tivesse sido só feito com cubanos (e norte-americanos)... São vários bombonzinhos de regresso!


Ali Farka Touré & Toumani Diabaté
"Ali & Toumani"
World Circuit/Megamúsica

Quando saiu o belíssimo "In the Heart of The Moon" – o primeiro álbum de duetos entre o guitarrista Ali Farka Touré e o mestre da kora Toumani Diabaté (na foto), dois dos nomes maiores da música do Mali nas últimas décadas -, sabia-se que tinham ficado “na gaveta” mais uns quantos temas gravados, não nas mesmas sessões (as primeiras foram em Bamako; estas em Londres), mas com um formato semelhante. Não se sabia é que os temas seriam assim tão bons! Embora perca para o primeiro em frescura, novidade e até em algum défice instrumental, "Ali & Toumani" é mais um testemunho exemplar da arte e do génio dos dois músicos, aqui acompanhados pelo baixista cubano Orlando “Cachaíto” Lopez (entretanto já falecido, tal como Ali) e Vieux Farka Touré (filho de Ali), entre outros. (****)


Oumou Sangaré
"Seya"
World Circuit/Megamúsica

Ao fim de seis anos sem discos de originais no mercado, a maior diva da música do Mali, Oumou Sangaré, está de volta com um álbum absolutamente extraordinário, "Seya" (que significa "alegria"), onde a sua música atinge um cume de excelência e luminosidade absolutos. E, embora nele participem algumas luminárias da música actual (malianos, nigerianos, norte-americanos) como Djelimady Tounkara, Cheick Tidiane Seck, Bassekou Kouyaté, Pee Wee Ellis ou Tony Allen é a voz e arte de Oumou que aqui falam mais alto. É um álbum socialmente interventivo - os casamentos forçados de adolescentes, por exemplo -, coerentíssimo no seu desenho musical (mesmo quando intervêm alguns dos músicos citados) e quase sempre acústico, com os instrumentos tradicionais a sobreporem-se facilmente aos outros. E a voz, a voz! (*****)



Amadou & Mariam
"Welcome To Mali"
Because/Megamúsica

O trabalho de produção de Manu Chao para o duo maliano Amadou & Mariam (no álbum "Dimanche à Bamako") teve uma coisa boa e uma coisa má (e que são, na prática, a mesma coisa): a coisa boa foi ter aberto o som do duo a outras músicas, mais globais, mais "world"; a coisa má foi a colagem de muitos dos seus temas a uma sonoridade demasiado próxima da de Manu Chao. Anos depois, neste novo "Welcome To Mali", a sombra de Manu Chao ainda anda por cá - e bem! - mas a música de Amadou & Mariam navega igualmente por outras paragens, a começar logo pelo belíssimo tema semi-progressivo semi-psicadélico (a fazer lembrar os Air) que é "Sabali", produzido por Damon Albarn. E o resto do álbum é variadíssimo, passando por canções profundamente "africanas" mas enfeitadas pelo rock, o funk, o disco-sound, o hip-hop (com o somali K'Naan) ou o afro-beat (com Keziah Jones). (****)

Vários
"One Day On Radio Mali"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Se, desde há muitos anos, a música do Mali é sobejamente conhecida em todo o mundo – via nomes como Oumou Sangaré, Amadou & Mariam, Tinariwen, Salif Keita, Rokia Traoré ou o falecido Ali Farka Touré -, a verdade é que há uma riquíssima “pré-história” da música maliana que antecede o “boom” da world em meados dos anos 80. E esta colectânea – lançada pela importantíssima editora africana Syllart, do produtor Ibrahim Sylla - mostra exactamente a música de grupos seminais do Mali dos anos 60 e 70 como Les Ambassadeurs du Motel (que estabeleceram Mory Kanté e Salif Keita), Rail Band (por onde passaram também Keita, Kanté e Kante Manfila ), Super Djata de Bamako, Orchestre Regional de Mopti, National Badema ou a Orchestre National de Gao (com um tema que fala da guerra colonial na Guiné-Bissau). (*****)

Donso
"Donso"
Comet Records/Massala

A fórmula já não é nova: fundir as músicas tradicionais do Mali com as electricidades e/ou as electrónicas, os rocks e os blues: pense-se em Ali Farka Touré, nos Tinariwen, em Amadou & Mariam, em Issa Bagayogo e em muitos outros... Agora, os Donso fazem uma viagem semelhante partindo do Mali (mas também da música tuaregue e do gnawa marroquino) para chegar ao psicadelismo, ao transe, a territórios próximos do metal, a baladas ”azuladas”... Nos Donso convivem músicos franceses com músicos malianos (incluindo o vocalista Gedeon Papa Diarra), e ainda têm como convidados dois importantes nomes da música maliana: Ballaké Sissoko na kora e Cheick Thidiane Seck nas teclas. Donso significa “caçador” em língua bambara e bem se pode dizer que, com este álbum, têm aqui uma boa quantidade de troféus no cinto. (****)


Ballaké Sissoko/Vincent Segal
"Chamber Music"
No Format/Massala

Nem sempre corre bem a tentativa de encaixar instrumentos tradicionais, nomeadamente africanos, num formato de música erudita e em diálogo com instrumentos preferencialmente usados nesse género. E isso até já aconteceu com o maliano Ballaké Sissoko, quando pôs a sua kora (harpa mandinga) ao serviço do piano do italiano Ludovico Einaudi. Mas, no caso deste álbum apropriadamente chamado "Chamber Music" (música de câmara), é o oposto que se passa: com composições maioritariamente assinadas por Sissoko, a sua kora brilha a grande altura sobre os belíssimos “tapetes” proporcionados pelo violoncelo do francês Vincent Segal (que já colaborou com vários nomes da world music e faz parte dos Bumcello). O álbum é inventivo, variado e sempre... africano. (****)

Idrissa Soumaoro
"Djitoumou"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Já com mais de 60 anos de idade, o cantor, guitarrista e intérprete de kamele n'goni Idrissa Soumaoro edita agora o seu segundo álbum no circuito internacional – depois de "Kôtè" (2003) – e neste novo disco continua a mostrar, em “peças” distintas do puzzle que é este "Djitoumou", o seu amor pela música tradicional de Wassoulou (a região do Mali de onde é originário), os blues, a rumba congolesa, a música árabe, a country e até o flamenco. Produzido por François Bréant (o mesmo dos Kekele ou Salif Keita), o álbum tem como um dos momentos mais altos e brilhantes o tema “Bérèbérè”, que conta com a participação especial do entretanto falecido Ali Farka Touré. Personagem arredia da ribalta da cena musical, a música rara de Soumaoro é, também por isso, uma autêntica bênção. (****)


Bako Dagnon
"Sidiba"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Quando a cantora maliana Bako Dagnon foi, finalmente, revelada ao mundo através do álbum "Titati", editado em 2007 e depois de várias cassetes lançadas no seu país ao longo de vários anos, viu-se nela o terceiro lado de um triângulo sagrado de vozes femininas (ao lado de Oumou Sangaré e de Rokia Traoré). Era justo: a assunção de Bako como uma griot no feminino, a sua música muitas vezes em estado puro, bruto, e uma voz original fizeram dela uma das grandes “descobertas” world desse ano. Neste segundo álbum internacional, "Sidiba", Bako confirma isso tudo mas perdeu-se a novidade e alguma da frescura do anterior. Mas não seria nada mau poder vê-la ao vivo um dia destes. (***)


AfroCubism
"AfroCubism"
World Circuit/Megamúsica

Quando, em 1996, Ry Cooder e Nick Gold foram para Cuba gravar o "Buena Vista Social Club", a ideia base do disco era juntar músicos cubanos com músicos do Mali, devido às óbvias pontes musicais entre Havana e o continente africano. Mas, como é sabido, isso não se concretizou por falta de vistos dos africanos. Agora, o projecto inicial foi retomado e Gold (sem Cooder) é o produtor deste "AfroCubism" que reúne Kasse Mady Diabaté, Lasana Diabaté, Toumani Diabaté, Bassekou Kouyate e Djelimady Tounkara com Eliades Ochoa e o Grupo Patria. E, apesar de o resultado nem sempre corresponder às expectativas, há aqui alguns belos nacos de música. Momentos altos: “Djelimady Rumba” e o quase fado/quase morna “Benséma”. (****)

13 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXV.1 - Ali Farka Touré



Um dos maiores músicos e cantores das últimas décadas, Ali Farka Touré (Ali Ibrahim «Farka» Touré, nascido a 31 de Outubro de 1939, em Kanau, Mali, de etnia djerma/songai, e falecido a 7 de Março de 2006 em Bamako, Mali) foi o homem que fez a ponte entre a música tradicional da África ocidental e os blues, demonstrando - na prática e não só na teoria - onde nasceu a grande música negra norte-americana. Instrumentista de génio - na njarka e nas guitarras acústicas e eléctricas-, Ali Farka foi também um homem de acção, tendo contribuído decisivamente para o desenvolvimento da sua localidade de residência, Niafunké (o seu nascimento, vida e morte sempre balizados pelas margens do rio Niger). Para a história ficam muitos álbuns gravados a solo ou em parceria com gente como Ry Cooder, Toumani Diabaté ou Taj Mahal, e um concerto extraordinário e inesquecível no África Festival, em Lisboa, em 2005.


Cromo XXV.2 - Blowzabella



Pergunte-se a qualquer músico (ou quase) do circuito de recuperação das danças tradicionais europeias qual o grupo que mais o influenciou e a resposta só pode ser uma: os Blowzabella, grupo inglês nascido em 1978, em Whitechapel, Londres, pelas mãos de dois gaiteiros e flautistas (o australiano Bill O’Toole e o inglês Jon Swayne). Destes dois, foi Swayne que continuou a banda ao longo destas três décadas, tendo os Blowzabella sofrido numerosas mudanças de formação até ao actual line-up, um super-grupo formado, veja-se só, por Andy Cutting, Jo Freya, Paul James, Gregory Jolivet, David Shepherd, Barn Stradling e o próprio Jon Swayne. Ferozmente acústicos, usando e abusando de gaitas-de-foles, sanfonas e violinos, muitos tradicionais recuperados e muitíssimos originais entretanto compostos pelo grupo recriaram e criaram um reportório que agora é comum a milhares de outros músicos. Siga a dança!

Cromo XXV.3 - Esquivel



Esquivel - ou Esquivel!, com ponto de exclamação -, de nome completo Juan García Esquivel (nascido em Tampico, Tamaulipas, México, a 20 de Janeiro de 1918, falecido a 3 de Janeiro de 2002) foi um dos maiores representantes da música exotica e da música lounge, baptizado com epítetos como «The King of Space Age Pop» ou «The Busby Berkley of Cocktail Music». Pianista, fortemente influenciado pela música do seu país e de outros territórios da América Latina, Esquivel era também um apaixonado pelo jazz e pelo experimentalismo sonoro, nomeadamente com as possibilidades da emergente estereofonia. Tudo junto contribuiu para a sua criação de uma música nova e excitante que ficou conhecida como «Space Age Bachelor Pad Music». Em meados dos anos 90, e depois de décadas de apagamento, Esquivel foi reabilitado por muitos novos músicos das correntes electrónicas e ambientais que viram nele um dos seus maiores gurus.


Cromo XXV.4 - Nouvelle Vague



Os Nouvelle Vague são um dos melhores exemplos de como a pop pode coabitar pacificamente, de forma coerente e com frutos saborosos, com a chamada world music. A fórmula é simples: pegar em temas punk, new wave e pós-punk, todos eles emblemáticos, de finais dos anos 70 e dos anos 80 - de gente como os Joy Division, The Clash, Buzzcocks, Blondie, Depeche Mode, Tuxedo Moon, Dead Kennedys, The Cure, XTC, Echo and The Bunnymen, Cramps, etc, etc... - e afogar tudo em arranjos que vão beber essencialmente à bossa-nova brasileira mas também, pontualmente, a outros géneros latino-americanos. O resultado é quase sempre de elevadíssimo bom-gosto e faz justiça aos seus inventores, na primeira metade desta década: os franceses Marc Collin e Olivier Libaux, bem acolitados por excelentes cantoras como Anaïs Croze, Camille, Phoebe Killdeer, Mélanie Pain ou Marina Celeste.

29 dezembro, 2006

Memorial 2006 (Ou Um Imenso Adeus)


Na Morte não há géneros musicais. Um enorme, imenso, sentido Adeus a todos estes músicos, cantores e compositores:


Ali Farka Touré - 31 de Outubro de 1939/6 de Março de 2006

Anita O'Day - 18 de Outubro de 1919/23 de Novembro de 2006

Arthur Lee (Love) - 7 de Março de 1945/3 de Agosto de 2006

Cheikha Rimitti (na foto) - 8 de Maio de 1923/15 de Maio de 2006

Desmond Dekker - 16 de Julho de 1941/25 de Maio de 2006

Grant McLennan (The Go-Betweens) - 12 de Fevereiro de 1958/6 de Maio de 2006

György Ligeti - 28 de Maio de 1923/12 de Junho de 2006

Janette Carter (The Carter Family) - 1923/22 de Janeiro de 2006

James Brown - 3 de Maio de 1933/25 de Dezembro de 2006

Jockey Shabalala (Ladysmith Black Mambazo) - 1943/11 de Fevereiro de 2006

Mícheál Ó Domhnaill (The Bothy Band) - 7 de Outubro de 1952/7 de Julho de 2006

Miguel «Angá» Díaz (Afro Cuban All Stars, Buena Vista Social Club) - 15 de Junho de 1961/9 de Agosto de 2006

Pío Leyva (Buena Vista Social Club) - 5 de Maio de 1917/22 de Março de 2006

Raul Indipwo (Duo Ouro Negro) - 1933/4 de Junho de 2006

Ray Barretto - 29 de Abril de 1929/ 17 de Fevereiro de 2006

Robert Lockwood Jr. - 27 de Março de 1915/21 de Novembro de 2006

Sivuca - 26 de Março de 1930/14 de Dezembro de 2006

Syd Barrett (Pink Floyd) - 6 de Janeiro de 1946/7 de Julho de 2006

Wilson Pickett - 18 de Março de 1941/19 de Janeiro de 2006

27 setembro, 2006

World Circuit - Vinte Anos de Encantamento


Há algum tempo, a propósito de «Savane», de Ali Farka Touré, referi que mais dia menos dia iriam aparecer gravações inéditas do génio do Mali... Pois elas aí estão, na colectânea «World Circuit Presents...» - com edição marcada para meados de Outubro -, comemorativa dos 20 anos desta importante editora de world music, que deu a conhecer a muita gente a arte de Ali Farka, dos músicos cubanos recuperados no projecto Buena Vista Social Club (na foto), de Oumou Sangare, Toumani Diabaté, Sierra Maestra e Afel Bocoum, entre muitos outros...


VÁRIOS
«WORLD CIRCUIT PRESENTS...»
World Circuit/Megamúsica

Se não fosse pelo resto - que é muito -, esta colectânea já valeria pelos dois autênticos rebuçados a derreterem-se na boca dos fãs de Ali Farka Touré que são a versão ao vivo de «Amandrai» (oito minutos de encantamento puro; Jimi Hendrix em abençoados drunfos em vez de coca...) e um inédito absoluto, outtake das sessões de gravação de «In The Heart of The Moon» com Toumani Diabaté, o tema «Du Du» (com uma kora fadista de Toumani e uma guitarra de Ali Farka em círculos e pontilhismos minimais...). Mas «World Circuit Presents...», disco-duplo, tem ainda outros inéditos que os coleccionadores agradecem: um avanço do álbum dos quenianos Shirati Jazz que vem aí, um inédito do mestre do gnawa Mustapha Baqbou, outro da cantora mauritana Dimi Mint Abba e uma gravação «no terreno» de Afel Bocoum (com uma guitarra mágica e grilos ao fundo...). E temas emblemáticos - embora não inéditos - de artistas da World Circuit estão também no rol. Temas do colectivo Buena Vista Social Club, Cheick Lô, Radio Tarifa, Afro Cuban All Stars, Abdel Gadir Salim, Oumou Sangare, Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra, Ali Farka Touré com Ry Cooder, Orchestra Baobab e Los Zafiros, para além de algumas pérolas do fundo de catálogo da editora: temas do cubano Ñico Saquito, do trompetista argelino Bellemou Messaoud ou do grupo vocal Black Umfolosi, do Zimbabwe.

A World Circuit - liderada por Nick Gold, que tem no fantástico engenheiro-de-som Jerry Boys o seu braço-direito - começou por ser uma pequena agência de concertos. Mas quando cresceu como editora fê-lo de uma forma honesta e límpida, dando sempre aos músicos contratados excelentes condições de gravação, patrocinando parcerias frutuosas com outros produtores e músicos (Ry Cooder, Pee-Wee Ellis, Youssou N'Dour...) e abrindo-lhes, muitas vezes, as portas para digressões de sucesso em todo o mundo. Dar os parabéns à World Circuit é pouco. (8/10)

20 agosto, 2006

Ali Farka Touré - Por fim, «Savane»


Depois de neste blog ter recuperado vários textos dedicados a Ali Farka Touré, chega hoje a crítica a «Savane», o álbum editado há poucas semanas e gravado pouco antes da sua morte... Aqui fica o texto, com respeito, amor e admiração eternas.


ALI FARKA TOURÉ
«SAVANE»
World Circuit/Megamúsica

Um dia (um mês, um ano) destes, hão-de surgir dezenas de gravações de Ali Farka Touré. Gravações ao vivo, maquetas, «outtakes» de estúdio, etc, etc. A indústria discográfica costuma fazer render bem os seus mortos - no rock, no jazz, na clássica, na world... - e reembalar de diferentes formas, muitas vezes, as mesmas canções em alinhamentos diferentes, em caixas diferentes, em versões (só muito ligeiramente) diferentes... Mas não é esse o caso de «Savane», verdadeiro testamento musical de Ali Farka Touré, último álbum gravado pelo genial guitarrista, cantor e compositor maliano já numa fase em que ele sabia perfeitamente qual a doença que o consumia e da qual viria a morrer em Março deste ano. Um testamento escrito a muito sangue, sim, mas só a algum suor (parece sempre tão simples de fazer, sem esforço nem dor, a música de Ali Farka) e nenhumas lágrimas.

No pequeno filme que serve de material de promoção a «Savane», vê-se Ali Farka no estúdio, em concertos, a viajar nas margens do Rio Niger, em Niafunké... E ouve-se a sua voz a falar, com amor, com paixão inteira e eterna, por esta terra que ajudou a desenvolver. E da sua música - que fala de trabalho, de agricultura, de saúde, da família, de paz, de política (diz ele que «mais importante do que a música é a mensagem que ela carrega»). E deste álbum, «Savane», que lhe deu tanto prazer gravar. E da homenagem que faz, no disco, a Anassi Coulibaly, a quem ele agradece o facto de ter podido profissionalizar-se como músico. E nunca, nunca, da doença de que sofria ou da iminência da morte. Um sorriso, um cigarro, um chapéu, outro sorriso, a voz mais suave do mundo quando diz a palavra «Niafunké» e uma música que nunca morrerá.

O tema-título do álbum, «Savane» (cantado em francês), tem nele, bem fundo, blues, música mandinga, fado, música árabe, gnawa, música peruana, mariachis, música indiana e mil outras sugestões de músicas de todo o mundo... É quase um compêndio completo de world music e é justo que apareça no álbum derradeiro de Ali Farka Touré, ele que foi um dos maiores embaixadores das músicas do mundo. E o resto do álbum é uma maravilha completa, com as guitarras dengosas, circulares, baloiços das estrelas, de Ali a conduzirem a sua voz (e as vozes dos maravilhosos coros que se ouvem de vez em quando), as cordas dos n'gonis e da njarka que o acompanham, a voz de Afel Bocoum (que duela com ele num tema e faz coros em mais dois), as percussões de Fain Dueñas (Radio Tarifa) e de outros músicos, o saxofone de Pee Wee Ellis e a harmónica visceralmente delta-blues de Little George Sueref.

Para além do tema-título, também «Ewly», «Soko Yhinka» (a homenagem a Anassi Coulibaly), «Soya», «Machengoidi» (que lança pontes óbvias com a música dos tuaregues e o gnawa vizinho do norte), a blues, bluesíssima «Ledi Coumbe» (Robert Johnson a encontrar encruzilhadas no deserto), a belíssima e com a njarka em alta velocidade «Hanana», a litania hipnótica-repetitiva «Gambari Didi», «Banga» (e uma flauta que dança), a cadência lenta e encantatória de «N'jarou» (o dueto entre Ali Farka e Afel Bocoum) e a maravilhosa «Penda Yoro» (com a harmónica de Little George Sueref a encontrar as correntes escondidadas no Atlântico entre o o Mississippi e o rio Niger), se contam entre os momentos mais brilhantes de «Savane». (9/10)

19 julho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane» (parte 4)


«Savane», o novo álbum de Ali Farka Touré, é editado esta semana. E fica desde já prometido um texto a propósito assim que o tiver. Enquanto isso não acontece, aqui fica mais um texto (publicado no BLITZ o ano passado) que parte de dois discos de Ali Farka e fala depois de outros artistas africanos...

ÁFRICA EXTRA

Para quem descobriu o guitarrista e cantor Ali Farka Touré através de «Radio Mali» ou de «Talking Timbuktu», é uma alegria ter à sua disposição dois álbuns antigos do génio do Mali como os que estão reunidos no duplo-CD «Red & Green» (World Circuit/Megamúsica), lançados originalmente em 1979 (o da capa vermelha) e em 1988 (o da capa verde) pela editora francesa Sonodis. E é também uma alegria imensa verificar que o talento enorme que ele tem agora era também já uma realidade há 25 anos e há 15 anos. Blues mandingas, descarnados, circulares, puros, praticamente só com voz e guitarra acústica (e uma cabaça a dar a base rítmica) no primeiro álbum; blues mandingas mais elaborados mas mágicos, arrepiantes, hipnóticos, e com a voz e guitarra acústica de Touré a serem ajudadas por um griot (Boubacar Farana) e um tocador de n'goni no segundo. A guitarra eléctrica e a sensação viva de que a electricidade que fornece Chicago vem do outro lado do Atlântico, das margens do rio Niger, só viria depois... (8/10)

Como viriam depois os seguidores de Touré, como Afel Bocoum ou Lobi Traoré, este agora com um «best of», «Mali Blue» (Dixiefrog), que passa por vários álbuns de Traoré e onde tem como convidados vários outros nomes grandes do Mali (a começar pelo próprio Ali Farka Touré). E o ambiente do disco, independentemente do ano de edição original de cada tema (entre 1990 e 1998), passa muito pelas mesmas paisagens fusionistas da música mandinga sub-sahariana com os blues de Touré (e, em algumas canções de Traoré, também com funk e rock psicadélico). Com o sol - abrasador, intenso, de fazer doer os olhos - a nascer, todos os dias, nos dedos e nas cordas vocais destes homens... (7/10)

Alguns milhares de quilómetros mais a sul, o também guitarrista e cantor Shiyani Ngcobo dá-se a conhecer ao Ocidente através do álbum «Introducing Shiyani Ngcobo» (World Music Network/Megamúsica), onde este cantor sul-africano mostra o que é a maskanda, uma dança tradicional zulu onde a guitarra acústica convive com violinos de som rude, uma concertina prima das da Louisiana (cajun, zydeco, etc...), um igogogo (guitarra com caixa de lata) e um baixo eléctrico saltitante. (7/10)

E, uma semana depois do camarada Miguel Cunha ter escrito neste jornal sobre «Africa Shrine» - o álbum ao vivo de Femi Kuti -, agora surge «The Best of Femi Kuti» (Barclay/Universal), mas que não se assustem os fãs do homem - principalmente aqueles angariados depois do seu concerto em Sines - porque não há nenhuma canção repetida nos dois discos. E mais: este «best of» é mais uma prova absoluta de que o nigeriano Femi continua de forma digna e bastante talentosa o som estabelecido por seu pai, o grande Fela Kuti. O afro-beat do pai - a fusão perfeita de ritmos da África Ocidental com o funk, o jazz, a soul - e a intervenção política estão lá, mas estão lá também muitas outras coisas que Femi acrescentou ao caldeirão nos tempos mais recentes: as electrónicas, o reggae, o ragga, o hip-hop - e, não por acaso, há participações em vários destes temas de Mos Def, Jaguar Wright e Common. (8/10)

E agora algo completamente diferente (ou não tanto quanto isso): «African Dreams» (Ellipsis Arts/Megamúsica), uma deliciosa colectânea de canções de embalar que começa com uma versão lindíssima do tema tradicional zulu sul-africano «Lala Mbube» (conhecida no Ocidente desde os anos 60 sob a designação «The Lion Sleeps Tonight») e continua depois com uma colecção riquíssima de «lullabies» dos Camarões (em dose dupla, e com um deles, «A Muna - O Síeya Pe», cantado por Coco Mbassi, que devia ser obrigatório para todos os casais que querem dar aos seus filhos bébés um sono descansado e cheio de sonhos de algodão), Congo, Gâmbia («Kanu Dingo» e «Jango», ambas com uma kora tocada por Muhamadou Salieu Suso que é de uma beleza absoluta, infinita, universal), Uganda, Serra Leoa, Zimbabwe («Vana Maruva» e «Kutira», ambos com uma m'bira, ou kissange, em círculos hipnóticos e capazes de adormecer um ogre em 20 segundos), Madagascar, Nigéria (o hino africano «Sweet Mother», de Prince Nico Mbarga, aqui cantado por Floxie Bee), Etiópia, Congo e Cabo Verde («Eclipse», uma morna de B.Leza com um poema belíssimo cantado por Celina Pereira). (7/10)

08 junho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane» (parte 3)



Para encerrar o «capítulo» Ali Farka Touré, de boas-vindas a «Savane», aqui ficam dois textos paralelos: um relativo a «In The Heart of The Moon» e discos editados na mesma altura que, de alguma forma, se relacionam com esta parceria de Ali Farka com Toumani Diabaté; o outro, de delírio (sublinha-se: delírio) proto-musicológico sobre uma eventual raiz original do fado: o Império Mandinga. Os dois textos foram originalmente publicados no BLITZ em Junho do ano passado.

ALI FARKA TOURÉ, TOUMANI DIABATÉ (& OS OUTROS)
AZUL ESCURO

«In the Heart of the Moon» (World Circuit/Megamúsica), é o aguardadíssimo álbum de colaboração entre o mestre dos blues malianos Ali Farka Touré (que a Europa «descobriu», principalmente, depois do álbum de colaboração com Ry Cooder, «Talking Timbuktu») e o respeitadíssimo tocador de kora, também maliano, Toumani Diabaté (igualmente com uma parceria célebre com um americano, Taj Mahal, no álbum «Kulanian»). E «In the Heart of the Moon» é um disco de uma beleza rara, feito a um mesmo tempo de simples e intrincadas filigranas de som, construídas pelos dedos ágeis de Ali Farka na guitarra (que dá a base simples) e de Toumani na kora (com um interminável caleidoscópio de sons a tiracolo).

Ali vive no norte do Mali, em Niafunké, paredes meias com o deserto do Sahara e é de cultura Arma, Songrai e Peul, enquanto Toumani é um griot (da linhagem antiga de contadores de histórias através da música) de etnia Mandé. Mas, apesar das diferenças culturais e étnicas, isso não impede que os dois, neste álbum, se entendam à primeira. O álbum foi gravado de improviso, em Bamako, nas mesmas sessões que resultaram em mais dois discos: um de Ali (aqui em guitarra eléctrica e voz) com dois tocadores de n'goni e outro de Toumani com a Symmetric Orchestra, ambos a editar nos próximos meses pela World Circuit.

Em «In the Heart of the Moon» há alturas em que parece estarmos a ouvir um blues muito antigo, outras vezes um fado perdido em África (e o timbre da kora também ajuda à sensação), outras vezes uma morna ali vizinha, outras sons das Caraíbas. No concerto de Ali Farka Touré no Bozar, em Bruxelas, há algumas semanas, essas sensações são ainda mais evidentes, tanto quando Ali Farka toca e canta a solo ou com dois intérpretes de n'goni, como nos três temas, absolutamente mágicos, que protagonizou com Toumani. Neste concerto, Ali esteve três horas em palco, ora com a guitarra acústica, embalada pelos n'gonis, congas e cabaça, a passear - em transe - pelo Sahara e pelo Mali, ora em guitarra eléctrica nuns blues que viajam sobre campos de algodão americanos (e no psicadelismo, e no rock ácido...), ora com Toumani (e com um terceiro músico no baixo eléctrico) ajudando a fazer uma música maior do que a nossa imaginação alguma vez conseguiria desejar.

Um dia depois, numa conferência de imprensa, um jornalista europeu insiste em perguntar a Ali se a sua música é influenciada pelos blues. Ali só responde «eu faço música africana». Como se fosse um dado adquirido que os blues nasceram ali na sua terra ou lá muito perto. E diz mais coisas importantes, como a polémica frase «não há afro-americanos. Há negros na América mas eles já não sabem de que cultura, etnia, dialecto ou região descendem...».

Da mesma «família» de «In The Heart of The Moon» é o novo álbum de Boubacar Traoré, «Kongo Magni» (Marabi/Dwitza). Herói da música do Mali nos anos 60, esquecido depois e «recuperado» para a música em meados dos anos 80, Boubacar continua neste álbum belíssimo a fazer a ponte entre a música mandinga e os blues (e a presença irónica de uma harmónica em alguns temas ainda mais sublinha a herança). O acordeão de Régis Gizavo (de Madagáscar) leva ainda a música de Boubacar - e isto é tão bonito!! - para a Índia, o Nordeste brasileiro, o cajun e o zydeco.

Documento de uma altura de afirmação da música africana é a edição, agora, de um álbum perdido de colaboração entre dois malianos, o cantor Salif Keita e o guitarrista Kante Manfila, que gravaram as fitas originais deste «The Lost Album» (Cantos/Megamúsica) em 1980, na Costa do Marfim. Acompanhados por kora, balafon, um coro feminino, piano e trompete, o álbum flui naturalmente entre a música de raiz maliana (mas também pelo jazz e música cubana).

«Mandekalou - The Art and Soul of the Mande Griots» (Syllart/Megamúsica) é uma excelente introdução à música dos griots mandingas («mandé jéliou» em mandinga) e basta ouvir este álbum para perceber como esta música de transmissão oral de histórias e mitos - uma CNN ancestral - pode ser uma música de comunhão absoluta (neste disco encontram-se, a colaborar em conjunto, músicos e cantores de vários países e várias gerações).

Por sua vez, a colectânea «Le Blues Est Né en Afrique» (Cantos/Megamúsica) - só o título diz tudo -, é mais um manifesto na defesa da ideia da música oeste-africana como berço dos blues. Temas de cantores e/ou músicos (malianos, guineenses, senegaleses, congoleses...) como Idrissa Soumaoro, Salif Keita, Ismael Lo, Bambino, Tsahla Muana ou Kerfala Kanté «defendem», facilmente, a tese.

Finalmente, a colectânea «The Sahara» (World Music Network/Megamúsica) viaja pelo deserto - e suas «margens» - unindo as pontas da música gnawa, mandinga, tuaregue e outras. Este disco da excelente série The Rough Guide To... mostra a música feita pelos povos que habitam o Sahara - sim, há muitos milhares de pessoas que vivem neste imenso deserto - e nas suas vizinhanças, do gnawa de Hasna El Becharia aos blues ácidos dos tuaregues Tinariwen, passando pela música de luta e libertação de artistas ligados à Frente Polisário.


O FADO NASCEU NO MALI?


















Há um chavão anglo-saxónico quando se fala de fado (e também das mornas e do choro e chorinho brasileiros...): «são os blues portugueses» (como da morna dizem «são os blues cabo-verdianos»). E se eles, por portas e travessas, tivessem razão?... Esta é uma teoria empírica, não científica, não historiográfica, não etno-musicológica e que pode ser vista apenas como um delírio livre sobre factos dispersos... Mas vamos lá:

1 - Já há bastante tempo que é um dado histórico aceite por quase toda a gente que os blues - música negra que se foi desenvolvendo no delta do Mississippi no séc. XIX e inícios do séc. XX - têm a sua origem na África Ocidental - a zona do antigo império mandinga que passa pelo Senegal, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau e, principalmente, Mali --, teoria defendida por Samuel Charters (nomeadamente no seminal livro «The Roots of the Blues - An African Search») e, mais recentemente, pela série de filmes sobre os blues supervisionados por Martin Scorsese.

2 - Paralelamente, e apesar de terem provocado polémica no início, as teorias de José Ramos Tinhorão - nomeadamente no livro «Fado - Dança do Brasil Cantar de Lisboa (O Fim de um Mito)» - que defendem que o fado teve origem no lundum (ou lundu) brasileiro estão a ser cada vez mais aceites (vide livro de Rui Vieira Nery editado na colecção de discos de fado do jornal Público).

3 - Esta teoria defende que o fado é uma evolução do lundum, uma dança quente, dolente e erótica brasileira (com umbigadas - isto é, contactos da zona genital) nascida no grande caldeirão de culturas africanas que era a Bahia. Esta dança teria sido trazida para Lisboa e aqui teria evoluído para o fado actual, perdendo gradualmente a sua característica dançável, mas mantendo as outras características.

4 - É commumente aceite que o lundum tem origem nos escravos bantos, levados de Angola e Congo para o Brasil. Segundo a «Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura», o lundum é uma «dança também cantada, de origem africana, cuja raiz entronca no batuque... O Lundu tornou-se imensamente popular no séc. XVIII, tanto no nosso país (Portugal) como no Brasil, de onde veio». E no «Dicionário da História da Colonização Portuguesa no Brasil», o lundum é caracterizado como uma «dança popular brasileira, originária de manifestações musicais trazidas pelos escravos africanos da região de Angola e Congo».

5 - Mas (e aqui entra o «delírio)... e se o lundum não vem dos escravos bantos, mas sim dos escravos malês (ou das trocas entre os dois «grupos»)?... Razões para a minha dúvida: Apesar de haver uma maioria de escravos no Brasil de origem banto (Angola, Congo e Moçambique), na região da Bahia - recorde-se, defendida como o berço do lundum - a maior parte dos escravos era malê (uma corruptela de... Mali), escravos oriundos da zona mandinga, na sua maior parte muçulmanos (tal como ainda hoje a religião principal na zona ocidental de África, devido à sua proximidade com os povos muçulmanos do norte de África... o deserto do Sahara não foi barreira para a evangelização islâmica).

6 - A importância dos malês na Bahia é reconhecida por inúmeros historiadores. E marca do seu seu peso dentro da comunidade escrava é a história do Levante dos Malês, em 1835, uma importantíssima rebelião de escravos em Salvador. Ainda agora a cidade de Salvador celebra esta revolta: no carnaval da Bahia passou um bloco chamado Malê Debalê e um outro, Ilê Aiyê, que homenageou claramente o Mali. E o escritor Antônio Risério escreve, embora apontando algumas dúvidas: «o sucesso do bloco afro Malê Debalê, junto com a revalorização popular das revoltas islâmicas, criou uma espécie de mito em torno dos malês. Hoje na Bahia qualquer negro informado, alguns com certa ponta de esnobismo (compreensível, mas condenável), afirma ser descendentes dos malês».

7 - O lundum ainda é uma forma musical viva, não no Brasil ou em Portugal (ou nas ilhas dos Açores, onde foi importante durante o séc. XIX), mas no Peru (nomeadamente na música da diva peruana Susana Baca, que mantém nos arredores de Lima um instituto dedicado ao estudo da ligação da música africana com a música peruana, o Instituto Negro Continuum) e em Cabo Verde (aqui também chamado landu ou gandum), onde no passado se desenvolveu bastante, principalmente nas ilhas do barlavento e na Boavista. Segundo as teorias mais aceites, o lundum cabo-verdiano foi levado pelos brasileiros para o arquipélago e ali permaneceu. Mas fica outra pergunta: este lundum cabo-verdiano veio mesmo do Brasil? Ou veio de ali de muito mais perto (da Guiné-Bissau e de outros países mandinga), através dos escravos levados do continente ali mesmo ao lado? Ou poderá ser uma mistura das duas coisas?

8 - Repete-se. Esta «teoria» é empírica, delirante, feita de umas pontas soltas e, porventura, de outras mal atadas [não entro, por exemplo, na influência da música gnawa de Marrocos na música dos griots e outras manifestações mandingas - e, consequentemente, nos blues norte-americanos... A propósito, não há quem defenda que o fado poderá ter vindo do norte de África?]. Mas ao ouvir este conjunto de discos falados aqui ao lado, não deixo de sentir que há ali, muitas vezes, cordas que vibram naturalmente no meu coração português, digamos, fadista. Cordas vocais, cordas de kora (e como este instrumento soa tantas vezes a... fado) e, principalmente, cordas escondidas na alma.

07 junho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane» (parte 2)


Continuando a recuperação de textos antigos sobre Ali Farka Touré, cujo novo álbum, «Savane», é editado no dia 17 de Julho, aqui fica mais um texto, este a propósito de «Niafunké» (e de outros álbuns de música africana). Apareceu, sem título, na secção «world extra», do BLITZ.

WORLD EXTRA
(publicado originalmente no ano 2000)

Quando Don Johanson, um respeitadíssimo arqueólogo, descobriu o esqueleto mais completo de um Australopithecus Afarensis, em Hadar, na Etiópia, estava a ouvir no seu gravador «Lucy In The Sky With Diamonds», dos Beatles, uma das suas canções preferidas. O esqueleto, do sexo feminino -- e, na altura, o hominídeo mais antigo que já se tinha encontrado --, foi por isso baptizado com o nome de Lucy e tornou-se uma vedeta entre os estudantes de História de todo o mundo.

A ironia da situação estava em que, procurando as origens da espécie humana em África -- onde elas estão, de facto, até prova em contrário --, se estava ao mesmo tempo a ouvir uma das melhores criações artísticas do século XX, uma música feita por brancos (a pop e o rock'n'roll) mas completamente devedora da música negra (os blues, os rhythm'n'blues, o jazz...). Como se um fio invisível unisse as várias etapas da pilhagem a que o continente africano foi sujeito ao longo dos séculos (dos milénios?) por povos exteriores. Dos escravos que foram de Angola, Guiné, Costa do Marfim, para o Brasil, levados pelos portugueses, ou das relíquias faraónicas que foram roubadas pelos franceses, até à música que saiu de África para Cuba, Brasil ou Estados Unidos para quase nunca mais voltar.

Este texto fala de pilhagens, mas também de reapropriações e de viagens de ida e volta, sabe-se lá de onde para onde, de quem para quem (o genial guitarrista Ali Farka Touré e a colaboração dos Masters Musicians of Jajouka com Talvin Singh). E também de alguma música que esteve escondida durante décadas, como é o caso das reedições de Fela Kuti, da música da cabo-verdiana Nácia Gomi ou da colecção «African Renaissance», com gravações dos arquivos da rádio oficial sul-africana. Os discos de que aqui se fala - e que podem ser descobertos facilmente em qualquer boa discoteca - são importantes, não como documentos (históricos ou outros) mas como obras de arte absolutamente acabadas, passe o quase-paternalismo e quase neo-colonialismo da frase. São assim porque o são. Só isso. Breve resenha, em jeito de ficha analítica de arqueólogo amador.

Ali Farka Touré - «Niafunké» (World Circuit/Megamúsica, 1999). Origem: Mali. Ali Farka Touré é um guitarrista de blues. Dito isto assim, de uma forma crua, parece não ter importância. Há guitarristas de blues em todo o lado. Do Mississippi a França, guitarristas de blues é o que não falta. Mas Touré é diferente de todos os outros. Ele toca e só por tocar duas ou três frases nós apercebemo-nos imediatamente de onde vem aquela música que pensávamos durante muitos anos vir dos negros da América. Vem deles, é claro, mas vem principalmente dali, do coração de África. Touré ouviu os grandes mestres dos blues (John Lee Hooker é muitas vezes apontado como uma influência) mas também ouviu muita da música que se faz na zona sub-sahariana em que nasceu. E a mistura das duas culturas é espantosa. Como se víssemos duas verdades parciais mas já estivéssemos a olhar para a verdade absoluta. Uma verdade simples: os blues nasceram em África, sem dúvida. «Niafunké» - mais rude e mais puro que o álbum gravado com Ry Cooder, o igualmente genial (embora diferente) «Talking Timbuktu» - é bem prova disso. E se o início do último tema faz lembrar os Pink Floyd de «Wish You Were Here» isso é só um gesto de ladroagem (consciente?, duvido) que é, no fundo, um acto de justiça poética em relação à contínua prática de gatunagem da música ocidental.

Master Musicians of Jajouka - «Master Musicians of Jajouka - Featuring Bachir Attar», produzido por Talvin Singh (por enquanto só um CD-sampler, com quatro temas e duas entrevistas; Point Music/Universal, 2000). Origem: Marrocos. Novo álbum de um colectivo lendário na cena «world music». Descobertos, digamos assim, por Brian Jones - o igualmente mítico guitarrista dos Rolling Stones - em 1968, com quem gravou o álbum «Brian Jones presents The Pipes of Pan at Jajouka» (a edição original, em LP, não tinha título mas foi assim designada na reedição em CD), o disco obrigou o Ocidente a conhecer a música do norte de África, as suas percussões hipnóticas, as suas vozes melismáticas, as suas gaitas afinadas nos limites dos agudos. A vontade de psicadelismo, de algum misticismo (movido a drogas várias, é verdade) e de transe levou Brian Jones para Marrocos; como outros (George Harrison e, por arrasto, os outros Beatles, foram para a Índia). O curioso é que, trinta anos depois, há um indiano radicado em Londres a produzir um disco do mesmo grupo marroquino. O novo álbum dos Masters Musicians of Jajouka tem a supervisão de Talvin Singh (uma das figuras de proa da frente asiática em Inglaterra, juntamente com os Asian Dub Foundation ou os Transglobal Underground). E mostra a mesma música (com o gaiteiro Bachir Attar como solista) de antigamente, mas com o acrescento (dado por Singh) de modernos ritmos de música de dança. Os puristas podem torcer o nariz, mas os frequentadores de festas bailantes, nomeadamente as de trance psicadélico, vão-lhe chamar um figo. Segundo Talvin Singh, a música de Marrocos e da Índia, apesar dos milhares de quilómetros de distância entre os dois países, tem uma raiz comum, a música que, da Pérsia, seguiu para outras partes do mundo (e a influência da religião muçulmana também não deve ser alheia ao facto, acrescento). Diáspora, separação, descoberta, viagem. A música sempre viveu assim, da liberdade de ir de um lado para o outro...

Fela Kuti - «King of Afrobeat - The Anthology» (caixa de três CDs Barclay/Universal, 2000). Origem: Nigéria. Fela Anikolapu (ou Ransome) Kuti foi um visionário da música africana e, se se ouvir com atenção estes três discos (e os álbuns completos que estão agora a ser vendidos na colecção «Fela - The Authentic Collection», que reúne dois álbuns num CD) de muita da música que se fez depois dele. Estudou música em Londres, no Trinity College, viveu nos Estados Unidos a euforia do rock e do funk, para além de ter sido atingido em cheio pelas ideias do Black Power (o que reforçou ainda mais os seus ideais políticos já bem firmes desde a sua juventude). Quando voltou à Nigéria, na viragem dos anos 60 para os anos 70, começou a criar, com o seu grupo, Africa '70, as raízes daquilo que ficou conhecido como afro-beat. Baseados no jazz, no funk, no rock, no psicadelismo revisto por Sun Ra, e com uma forte intervenção política e social, os temas de Fela Kuti caracterizavam-se por longas introduções instrumentais, com a voz a aparecer só depois de estar muito bem definida a base rítmica e melódica, muito longe da obrigatoriedade de um refrão pop antes da chegada sequer ao primeiro minuto. Uma voz masculina com marcantes coros de vozes femininas e uma base instrumental «ocidental» - guitarras eléctricas, baixo, bateria, teclas, saxofone (e em quase todos estes instrumentos Fela era perito), ao lado de maracas e congas. As suas letras - cantadas em várias línguas, numa tentativa de pan-africanismo - falavam de pobreza, de corrupção, de guerra. Mas também de revolta e de esperança. Fundou uma «república» só sua, com as suas inúmeras esposas. Foi preso e torturado pelo governo nigeriano em 1984. A sua mãe foi assassinada pelos soldados que o perseguiam. Morreu de SIDA em 1997. Isto é curto para retratar a vida de Fela Kuti. Como é curto dizer que a sua música, influenciada-pela-música-ocidental-influenciada-pela-música-africana, abriu depois caminho a coisas tão diferentes como o disco-sound ou o drum'n'bass, o rap (ele que, por sua vez, tinha ficado impressionado com a obra dos Last Poets) ou grupos como os Talking Heads, os Material ou os King Crimson de inícios dos anos 80. Pulsação, encanto, fusão, futuro, liberdade, negritude.

Nácia Gomi -- «Nácia Gomi Cu Sê Mocinhos» (CD Sons D'África, 2000). Origem: Cabo Verde. Nácia Gomi é uma senhora de 75 anos que só agora está a ser revelada ao mundo. Compositora da maior parte dos temas que canta, Nhá Nácia canta o finaçon, feito de voz e batuques, uma música que remete tanto para as polifonias sul-africanas como para o griot da África Central como para os cantos melismáticos do norte de África, e, por muito estranho que possa parecer, para alguns cânticos dos índios norte-americanos. Diz ela que nunca dançou um alegre funaná. Compreende-se: o finaçon é uma música profundamente triste, feita de ladaínhas hipnóticas, circulares e telúricas que aceleram para um transe final. Deus vive ali perto, apesar da aparência desolada da paisagem e da carga histórica que rodeia o sítio em que Nácia vive, o Tarrafal.

Vários - «African Renaissance» (colecção de CDs Eagle Records/Música Alternativa, 2000). Origem: África do Sul. Quarenta anos depois de terem sido efectuadas as gravações - e com o fim do apartheid - estão agora disponíveis as recolhas feitas por técnicos e produtores da rádio sul-africana (South African Broadcasting Corporation). É música perdida nos tempos (a maior parte dos músicos presentes nestes CDs nunca teve qualquer tipo de reconhecimento público sob o regime bóer) e uma enorme miríade de estilos e géneros. Gravados nos anos 50, estes são temas protagonizados por zulus, vendas, tswanas, xhosas, swazis... E aqui podem-se ouvir cantos polifónicos zulu, temas devedores do rock'n'roll e do swing (estes temas um desenvolvimento do género local marabi, nascido nos anos 20 e que misturava as big-bands do jazz com as músicas locais), temas próximos dos merengues e dos sembas angolanos. Há canções gospel mas com os gritos femininos hiper-agudos que são mais conhecidos dos cantares berberes, do lado oposto (a norte) do continente; canções parecidas com o «Lion Sleeps Tonight» (talvez o tema sul-africano mais famoso de que os americanos se apropriaram); delírios rítmicos de percussões em explosão contínua. Diamantes em estado bruto.

É conhecida a romaria que bateristas e percussionistas ocidentais fizeram até África, à procura do ritmo: Ginger Baker, que gravou em 1971 com Fela Kuti. E, depois, Stewart Copeland (dos Police) ou Mickey Hart (dos Grateful Dead), para já não falar nos bateristas de jazz. Mas se calhar está na altura de guitarristas, baixistas, teclistas, cantores, saxofonistas, etc., seguirem o mesmo caminho. Lucy já não é o mais antigo hominídeo descoberto. Os diamantes financiam guerras no continente. Mas ao céu ainda chegam as vozes de África inteira.

06 junho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane»


Enquanto não é editado o novo álbum de Ali Farka Touré, «Savane», recordam-se aqui alguns textos sobre este génio maliano recentemente falecido... O obituário a propósito da sua morte e a reportagem do África Festival do ano passado, em Lisboa, em que Touré foi o indiscutível cabeça-de-cartaz.


ALI FARKA TOURÉ (1939 – 2006)
(originalmente publicado em Março deste ano)

Ali Farka Touré, o genial músico que mostrou os «elos perdidos» entre a música sub-sahariana e os blues, morreu a semana passada. Mas o seu legado musical - e humano – permanecerá para sempre.

O músico e cantor maliano Ali Farka Touré morreu no dia 7 de Março, enquanto dormia, vítima de um cancro nos ossos de que já padecia quando fez a sua última digressão europeia, o ano passado, e que o trouxe a Lisboa para um memorável concerto em Monsanto. Nesse concerto, Ali Farka tocou para cerca de 10 mil pessoas em transe, em encantamento (no sentido mágico da palavra) permanente perante a música deste senhor que sabia que a sua música era uma forma de expressão muito antiga mesmo quando se socorria de uma guitarra eléctrica para a fazer. Ali Farka sabia-o e demonstrava-o na sua música e dizia-o nas raras entrevistas que dava (inclusive no episódio da série documental dedicada aos blues dirigida por Martin Scorsese): os blues norte-americanos (e por arrasto, o rock e muitas das formas «modernas» de música anglo-saxónica) tinham a sua origem ali, na parte de baixo do deserto do Sahara, nas margens do Rio Niger, onde África começa a ser negra. Ali, nas regiões do Império Mandinga onde os negreiros iam buscar os escravos que levavam para as Américas (do Norte e do Sul), indo com eles a sua música que depois se transformou em muitas músicas (os blues nos Estados Unidos e formas musicais sul e centro-americanas noutros países).

Nesse concerto em Monsanto, Ali Farka teve como convidado especial Toumani Diabaté, o mais respeitado instrumentista de kora do Mali, com quem Ali gravou em dueto o último álbum editado em vida, «In The Heart of The Moon» (recentemente premiado com um Grammy, o segundo da carreira de Ali Farka, depois de «Talking Timbuktu»). Para 2006 está prevista a edição de um novo álbum, gravado durante as mesmas sessões de «In The Heart of The Moon», mas com Ali Farka a ser acompanhado por dois tocadores de n’goni (pequena guitarra de madeira com 3 ou 4 cordas). Para trás ficou uma riquíssima discografia, parte dela editada apenas no Mali nos anos 70 e inícios dos anos 80. O reconhecimento internacional chega em meados dos anos 80, com a edição, através da World Circuit, de «Ali Farka Touré» (1987), a que se seguiram «The River» (1990), «The Source» (1992), «Talking Timbuktu» (1994; ao lado de Ry Cooder), «Radio Mali» (1996; que compilava gravações dos anos 70), «Niafunké» (1999), «Red & Green» (2004; recuperando dois álbuns, conhecidos como «Red» e «Green» devido à cor das suas capas, editados originalmente apenas no Mali) e «In The Heart of The Moon» (2005).

Ali Ibrahim Touré nasceu em 1939 (não se sabe ao certo o dia de nascimento), na aldeia maliana de Kanau, tendo sido o único sobrevivente de uma família de dez irmãos. Talvez por isso, os seus pais deram-lhe a alcunha de Farka, que significa «Burro» (e que na tradição do povo Arma, de que Ali era originário, significa «um animal forte e tenaz»). De religião muçulmana (religião que praticou durante toda a sua vida), Ali passou por bastantes dificuldades durante a infância e juventude. Perdeu o pai ainda criança e lançou-se à vida: foi mecânico, condutor de táxis e de ambulâncias. Mas a música surge-lhe como uma necessidade maior no início dos anos 60. Fez parte de várias bandas, foi artista residente na Rádio Mali, começou então a perceber os laços óbvios que uniam a música da sua região com a música norte-americanma que admirava (de John Lee Hooker a James Brown). E, mais importante ainda, sempre se assumiu como um cidadão e artista que, apesar de Arma, respeitava e amava as outras tribos e culturas do Mali. Ali Farka cantava em songhai, peul, bambara, fula, tamaschek e outras línguas da região. Essa abertura permitiu-lhe ser um dos artistas que contribuiu para a reconciliação nacional no Mali depois da mais recente revolta dos tuaregues. Um bom exemplo dessa reconciliação é o Festival no Deserto, que se realiza desde há alguns anos em Niafunké (e onde participam músicos de variadíssimas etnias malianas, para além de «habitués» como Robert Plant ou os franceses Lo’Jo, co-organizadores do festival), a localidade em que Ali Farka viveu durante muitos anos e cuja agricultura ajudou a desenvolver mercê de modernos sistemas de rega que implantou com o dinheiro que ganhava com a música. Ali Farka foi, nos últimos anos, presidente da câmara de Niafunké (facto «celebrado» no tema «Monsieur Le Maire de Niafunké», de «In The Heart of The Moon»).


COMO UMA RELVA QUE ONDULA
(publicado originalmente em Julho de 2005)

África Festival. Anfiteatro Keil do Amaral (Lisboa), 21 a 24 de Julho.

Vê-se a ponte sobre o Tejo, uma Lua enorme, aviões que passam de minuto em minuto ali mesmo em cima. E há 10 mil pessoas (talvez mais) a ondular à frente do palco. Lentamente, em movimentos vagamente circulares - de transe -, muitas de olhos fechados, algumas de mãos abertas, e todas de coração liberto por uma alegria ou uma fé ou uma revelação qualquer. Mas não estamos no Estádio do Restelo durante o encontro anual de uma seita religiosa. Estamos um bocadinho mais acima, em Monsanto, num belíssimo anfiteatro feito de relva e madeira e água e árvores, e ali à nossa frente está Ali Farka Touré, a sua voz e a sua guitarra eléctrica que convocam os espíritos dos músicos mandingas, dos músicos gnawa, dos vizinhos de ali à volta e dos outros, os primos que nos Estados Unidos criaram (ou recriaram) os blues. Ali Farka já está acima da música... está numa esfera diferente, em que a aura, o carisma, o encanto (e como ele está também encantado connosco!) fazem dele, mais do que um músico, um anjo. E um anjo amigo, que se apaga para deixar brilhar Bassekou Kouyaté em ngoni (pequena «guitarra» de duas cordas) e o convidado especial, na segunda «secção» do concerto, Toumani Diabaté, na kora (a harpa dos países mandingas) – e a repetição do tema «Gomni», uma sem e outra com Toumani, serviu para fazer perceber como a mesma canção pode ter formas tão diferentes (e ambas belíssimas). Aquilo a que estas 10 mil pessoas assistiram não foi na realidade um concerto, mas uma celebração religiosa. No final, Ali toca njarka (um «violino» só com uma corda) e diz que este instrumento foi o seu professor (foi da corda única da njarka que passou para as seis da guitarra).

Ali Farka Touré mereceu o «título» de cabeça-de-cartaz do África Festival, mas todos os outros estiveram também em bom nível. E sempre com muita gente a assistir. Manecas Costa mostrou a sua mestria na voz e guitarras, fazendo um concerto mais festivo do que alguns anteriores, com o n’gumbé guineense a sair muito bem servido (ai as bailarinas!!); e as Zap Mama mostraram que estão mais disco, mais funk, mais soul, até mais hip-hop (com um MC/DJ incendiário) e mais Broadway, embora as riquíssimas harmonias vocais das senhoras (e da filha de Marie, agora também integrada no grupo) ainda brilhem de vez em quando (como no encore). Os moçambicanos Mabulu mostraram que é possível fundir bem o antigo (a marrabenta) e o novo (o reggae, o dancehall, o hip-hop...) e fazer uma festa imensa com cada um dos ingredientes. Waldemar Bastos também animou as gentes, principalmente na segunda parte do seu espectáculo (depois do belíssimo coro de «Muxima») com sembas e «merengues» com «açúcar»; e o congolês Ray Lema foi um acólito de luxo (um Mozart-free vindo de África não se ouve todos os dias) no concerto conjunto com o brasileiro Chico César: nordeste brasileiro, jazz, África, reggae; festa sempre. E na última noite, Cabo Verde bem representado por Lura – que é um animal de palco (canta bem, dança bem...) e cruza com bom gosto funanás, coladeiras e batuque, sim, mas também mbalax e música brasileira – e por Tito Paris, acompanhado por banda, orquestra de câmara e secção de metais, um fantástico «wall of sound» a servir de base a temas como «Curti Bô Life», «Dança Ma Mi Criola» ou um sentido «Sodade» (no encore e em – segundo – dueto com o angolano Paulo Flores). A ondulação continua. E às vezes a relva pode crescer viçosa nas margens dos desertos ou no meio dos oceanos.