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30 outubro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXIX.1 - Buena Vista Social Club


Se a música cubana já era internacionalmente bem conhecida na altura da edição do álbum «Buena Vista Social Club» (1997), este projecto elaborado pelo norte-americano Ry Cooder veio ainda dar-lhe maior visibilidade e levou-a ao topo de preferências de inúmeros amantes das «músicas do mundo». Muito justamente, já que a música presente no álbum é absolutamente extraordinária e tem ainda o mérito de ter voltado a pôr na ribalta muitos músicos e cantores cubanos entretanto esquecidos, para além de uma excelente selecção de jovens músicos. No barco estavam a cantora Omara Portuondo, o cantor Ibrahim Ferrer, o pianista Rubén González, o guitarrista Eliades Ochoa, o trompetista Manuel «Guajiro» Mirabal e o percussionista Angá Díaz - alguns deles entretanto já falecidos -, entre outros. E «Buena Vista Social Club» foi o cadinho, feliz, de onde saíram muitos e bons álbuns individuais dos seus membros, para além de um filme, com o mesmo nome, de Wim Wenders.


Cromo XXIX.2 - Yat-Kha


Na vanguarda do rejuvenescimento da arte do «throat-singing» (o canto difónico, gutural, de Tuva), os Yat-Kha são um grupo extraordinário que mistura a música tradicional desta região russa do norte da Ásia com as linguagens do rock, muitas vezes um punk-rock eficientíssimo e abrasador. Liderados por Albert Kuvezin (guitarrista e cantor no velho estilo «kanzat kargyraa»), os Yat-Kha nasceram em 1991 como um duo de Albert com Ivan Sokolovsky (perito em electrónicas), mas evoluiu para uma banda de características mais rock quando Ivan saiu do projecto, depois da gravação do primeiro álbum, «Priznak Greyushii Byedi» (1991), e chegaram outros músicos ao grupo. Vários álbuns e inúmeras digressões por todo o mundo depois, o último álbum, «Re-Covers» (de 2005 e assinado Albert Kuvezin & Yat-Kha) mostra-os a fazer versões de muitos grupos rock, dos Joy Division aos Kraftwerk e Led Zeppelin.


Cromo XXIX.3 - Cajón


À semelhança do que acontece com o bouzouki - que, apesar de ser um instrumento associado à música «celta», nasceu na Grécia -, também o cajón não é um instrumento originalmente espanhol, mais especificamente uma «invenção» dos percussionistas do flamenco, mas sim um instrumento peruano, tendo entrado em Espanha apenas em meados dos anos 70, quando Paco de Lucia o incorporou no seu naipe de instrumentos depois de uma digressão na América Latina. O cajón é um instrumento afro-peruano sobre o qual existem documentos desde o Séc. XIX, sendo uma criação dos escravos africanos do Peru que - devido ao facto de serem proibidos os tambores nas suas festas e para comunicar entre si - começaram a usar um objecto de uso corrente, os caixotes (cájons) de madeira de transporte de mercadorias, como instrumento de percussão. Um instrumento que, depois, evoluiu para o cajón tal como o conhecemos agora.


Cromo XXIX.4 - Tarika


Os Tarika - palavra que significa simplesmente «o grupo» - são o mais importante grupo da riquíssima música de Madagáscar, uma ilha que se situa ao largo da costa de África, perto de Moçambique, mas que desenvolveu uma música muito própria que inclui elementos africanos, indianos e malaio-polinésios (estes os primeiros povos a colonizar a ilha). E, ouvindo-se a música dos Tarika - também conhecidos como Tarika Bé -, tudo isso faz sentido. Liderados pela fabulosa cantora Hanitra (aka Rasoanaivo Hanitrarivo), sempre bem acolitada pela sua irmã Noro, os Tarika fazem uma música excitante, riquíssima em «nuances» e com uma energia que põe toda a gente a dançar. E com a ajuda de instrumentos tradicionais - marovany, valiha, kabosy, jejy voatavo... - e também de guitarra e baixo, os Tarika já levaram a sua música a todo o mundo, tanto com esse nome como com o super-grupo paralelo Vakoka Project.

06 abril, 2007

Cromos Raízes e Antenas XVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XVI.1 - João Gilberto



Há uma lenda que conta que o gato de João Gilberto (na foto, com Astrud Gilberto) se suicidou, atirando-se de uma janela, por já não poder ouvir o seu dono ensaiar mais vezes, e de forma obsessiva, a canção «O Pato» (uma outra versão diz que o gato apenas fugiu de casa). Mas, como todas as lendas, esta serve pelo menos para mostrar como o brasileiro João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (nascido a 10 de Junho de 1931, perto da Bahia) é um maníaco da perfeição. Inventor da bossa-nova (ao lado de Tom Jobim e de Vinicius de Moraes), cantor e guitarrista, João Gilberto notabilizou-se essencialmente pela sua interpretação pessoalíssima de muitas das canções compostas por Jobim e Vinicius. Ponto muito alto da sua carreira foi o maravilhoso álbum «Getz/Gilberto» (1964), com o saxofonista de jazz norte-americano Stan Getz, Jobim e a sua mulher Astrud Gilberto.


Cromo XVI.2 - Sainkho Namtchilak



A fabulosa cantora Sainkho Namtchylak é uma das principais embaixadoras da música de Tuva (juntamente com os Yat-Kha, os Huun-Huur-Tu e os Chirgilchin), embora muitas vezes seja acusada de se estar a afastar gradualmente das suas raízes - o que, de certo modo, é verdade, não tanto pela inclusão de electrónicas na sua música mas mais pela sua crescente tendência em abandonar o «throat-singing» da sua região natal em favor de uma voz mais «normal». Mas isso não impede que Sainkho (nascida em 1957 numa aldeia do Sul da Mongólia) tenha uma carreira em que soube levar - às cavalitas numa voz que abrange sete oitavas - a música de Tuva aos quatro cantos do mundo, mesmo que misturada com electrónicas, jazz de vanguarda ou música experimental. Álbuns aconselhados: «Tunguska-guska», «Lost Rivers», «Out of Tuva» e «Who Stole The Sky».


Cromo XVI.3 - Juju Music



A «juju music» é a forma musical mais conhecida da Nigéria, descendendo directamente dos ritmos tradicionais da etnia Yoruba e fixando-se nos anos 20 do século passado como uma forma autónoma da «palm-wine music» (popular em países como a Serra Leoa ou Libéria), tendo artistas como Tunde King e Ojoge Daniel gravado discos de juju nessa década. Com o advento dos instrumentos eléctricos, a «juju music» avança numa nova direcção, mais ocidentalizada mas sem por isso perder as suas principais características rítmicas originais, sendo dada a conhecer no exterior por artistas como o importantíssimo King Sunny Adé (na foto), I.K. Dairo, Ebenezer Obey ou J.O. Araba. Mas outros nomes da juju são também de realçar como Admiral Dele Abiodun, Comfort Omoge, Shina Peters, Wale Thompson (que funde juju com hip-hop), Emperor Wale Olateju, Chief Zebulon Omoranmowo ou Lady Balogun.


Cromo XVI.4 - Dead Can Dance



O duo Dead Can Dance é, provavelmente, um dos grupos rock que mais gente levou (juntamente com os Pogues) a interessar-se por outros géneros musicais, nomeadamente a chamada «world music». Formado por Lisa Gerrard e Brendan Perry, o duo iniciou a sua carreira em Melbourne, na Austrália, em 1981, mas pouco tempo depois fixou-se em Londres engrossando os quadros da histórica 4AD. Fundindo, ao longo dos tempos, géneros musicais tão diferentes quanto a pop, a folk, música medieval e renascentista e inspirações vindas um pouco de todo o mundo, os Dead Can Dance foram por vezes erradamente enfiados nas correntes gótica e dark-wave devido à beleza intemporal, fluida, etérea de muitos dos seus temas, muitos deles coroados pela voz mágica de Lisa Gerrard. O fim chegou, oficialmente, em 1999 (o último álbum, «Spiritchaser», é de 1996), mas em 2005 os dois ainda fizeram uma digressão conjunta.

03 fevereiro, 2007

Chirgilchin - Vozes de Tuva em Dose Reforçada



Os Chirgilchin - cada vez mais na linha da frente das Vozes de Tuva, a juntar aos Yat-Kha, aos Huun-Huur-Tu e à cantora Sainkho Namtchylak - regressam proximamente ao nosso país para quatro concertos durante este mês de Fevereiro: dia 22 no Cinema S. Jorge, em Lisboa, dia 23 no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, dia 24 no Theatro Circo, em Braga, e dia 26 no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra. Os Chirgilchin - que no Verão passado partilharam o palco com Laurie Anderson no Castelo de Montemor-o-Velho - são exímios na ancestral técnica vocal de Tuva, província russa da Sibéria que faz fronteira com a Mongólia, o «throat-singing» (que traduzido à letra significa «canto de garganta» mas que, mais bem explicadinho, pode ser traduzido por «canto difónico», «canto bitonal» ou «canto politónico»: a produção simultânea de duas emissões vocais, com uma nota fundamental vinda das cordas vocais como bordão, uma segunda nota e a melodia produzida pelas suas séries de harmónicos). No caso dos Chirgilchin, este grupo desenvolve cinco variantes diferentes do «throat singing», incluindo a sua mais famosa forma, o khoomei, sempre acompanhadas por instrumentos artesanais da sua região. Estão muito mais próximos da tradição do que os seus conterrâneos Yat-Kha (variante punk) e Sainkho (variante electrónica/experimental) mas são, também por isso, um bom pretexto para conhecer esta arte milenar.