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24 maio, 2012

MED de Loulé 2012 - As Primeiras Confirmações!

Desta vez são só dois dias, mas que prometem ser intensos! Aqui vão os primeiros nomes, tal como revelados no comunicado oficial: «Festival MED 2012 – 29 e 30 de Junho Festival Med regressa a Loulé com estreia mundial A Curva da Cintura com Arnaldo Antunes, Toumani Diabaté e Edgard Scandurra, SMOD (na foto; de Fouad Allaoui), Sany Pitbull, A Jigsaw, Miguel Araújo e Norberto Lobo são os primeiros nomes já avançados para a 9ª edição do Festival Med. Loulé, 24 de maio de 2012 – Estão já fechados os primeiros nomes para a 9ª edição do Festival Med, um dos mais conceituados eventos de World Music realizado no nosso País. No fim do mês de junho o centro histórico de Loulé volta a encher-se de sons e sabores dos quatro cantos do mundo, representados pelas mais variadas manifestações artísticas, sendo a música o tema central deste festival. A Cerca e a Matriz voltam a ser os palcos principais das atuações dos grandes nomes do circuito internacional de World Music. O palco Castelo, à semelhança das edições passadas, será dedicado ao que de melhor se faz em Portugal. A Curva da Cintura com Arnaldo Antunes, Toumani Diabaté e Edgard Scandurra, SMOD, Sany Pitbull, A Jigsaw, Miguel Araújo e Norberto Lobo são os primeiros nomes já avançados para esta edição. Este ano o Festival Med será palco da esperada estreia mundial do projeto que junta três grandes nomes do género. Arnaldo Antunes (Tribalistas), Edgard Scandurra (Ira) e Toumani Diabaté (um dos músicos africanos mais importantes da atualidade) reuniram-se para gravar «A Curva da Cintura». Este disco traz até ao público as vozes quentes dos dois conhecidos artistas brasileiros e o talento do maliano nas cordas da requintada kora, instrumento que domina e que o levou a vencer por duas vezes o Grammy Awards de melhor álbum de Traditional World Music. A Curva da Cintura com Arnaldo Antunes, Toumani Diabaté e Edgard Scandurra será apresentado em estreia mundial dia 29 de junho, no palco Cerca. Vindos também do Mali chegam os aclamados SMOD. O grupo composto por Ousco, Donsky, e Sam, filho do famoso duo Amadou & Mariam, que passou pelo Med em 2008, irá estrear-se em Portugal para apresentar o seu mais recente trabalho produzido por Manu Chao. O álbum SMOD transpira ritmos revolucionários de hip-hop e rap intercalados por sonoridades malinenses, em que se juntam influências do reconhecido produtor francês. O trio será responsável por encerrar o palco Matriz no primeiro dia do festival. O internacional DJ brasileiro Sany Pitbull irá passar pelo Med no dia 30 de junho para dar a conhecer as suas produções que já conquistaram as principais capitais europeias, como Londres, Paris, Estocolmo e Berlim. O seu trabalho é a prova mais contundente que o Funk carioca está na vanguarda da eletrónica mundial. Com mais de 20 anos de experiência, Sany Pitbull é apontado como um dos expoentes do estilo, diferenciado dos restantes produtores por apostar na exploração instrumental e na riqueza de ritmos e influências. “Cinco dias e meio” é o título do álbum de estreia a solo de Miguel Araújo, que será apresentado no palco Cerca, dia 30 de junho. Gravado em cinco dias e meio, como o próprio título indica, o álbum foi para a rua a 21 de maio e desde a data de edição conta com o sigle “Os maridos das outras” entre os cinco temas mais vendidos nas plataformas digitais em Portugal. Uma estreia imperdível deste artista português em solo algarvio. No dia 23 de junho, sobe ao palco Castelo o reconhecido guitarrista português, Norberto Lobo. Aclamado pela crítica nacional e internacional o guitarrista carateriza-se pelo carácter físico, humano e popular do seu som. Ao longo dos anos tem colaborado com artistas como os München, Chullage ou Lula Pena, para além de ser cofundador dos projetos Norman, Colectivo Páscoa e Tigrala. Já partilhou palcos ou digressões com variadíssimos músicos internacionais, como é o caso Lhasa de Sela, Devendra Banhart, Larkin Grimm, Naná Vasconcelos ou Rhys Chatham. Com dois álbuns de estúdio Norberto Lobo brindará Loulé com uma atuação única e memorável. A Jigsaw é o último nome do cartaz deste ano confirmado até à data. Esta banda blues-folk portuguesa, formada em Coimbra pelo trio João Rui, Jorri e Susana Ribeiro, sobe ao palco Castelo no dia 29 de junho para apresentar o seu terceiro registo de originais e revisitar alguns dos temas dos primeiros álbuns. Este grupo conquistou a opinião pública com o seu primeiro trabalho «Letters From The Boatman», lançado em 2007, graças à originalidade das vozes e da combinação de instrumentos como guitarra, harmónica, banjo, piano, contrabaixo, castanholas, bombo tradicional ou violino. Ao contrário das edições passadas, o festival conta este ano com dois dias de cartaz. Como explica Joaquim Guerreiro, Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Loulé “O Festival Med é, desde a sua génese, um símbolo do dinamismo cultural da cidade e do Algarve. Este evento com expressão nacional tem vindo a ganhar eco internacional extremamente importante para a economia local e para a promoção da nossa oferta turística. A nona edição é mérito, sobretudo, do envolvimento e compromisso dos louletanos com este evento. Pautado pelo rigor artístico, mantém-se a excelência do cartaz, que inclui alguns dos melhores artistas nacionais e internacionais”. Os bilhetes estarão à venda a partir de dia 1 de junho no Cine–Teatro Louletano e na FNAC do Algarve Shopping. O bilhete diário custa 12,00 €.»

28 outubro, 2010

O Mali Continua Cheio de Música!


Antes de mais, um pedido de desculpas aos fiéis leitores deste blog e que continuam a encher a "caixa" de seguidores do Raízes e Antenas: o excesso de trabalho das últimas semanas impediu-me, mais uma vez, de ter uma participação regular -- ou mais ou menos irregular que fosse! - neste blog. Para me compensar e, eventualmente, compensar os leitores, aqui ficam algumas críticas a vários discos de artistas malianos (e ainda uma excelente colectânea) editados nos últimos meses e originalmente publicados na "Time Out". E, a somar, ainda o álbum do projecto AfroCubism, isto é, aquilo que teria sido o Buena Vista Social Club se não tivesse sido só feito com cubanos (e norte-americanos)... São vários bombonzinhos de regresso!


Ali Farka Touré & Toumani Diabaté
"Ali & Toumani"
World Circuit/Megamúsica

Quando saiu o belíssimo "In the Heart of The Moon" – o primeiro álbum de duetos entre o guitarrista Ali Farka Touré e o mestre da kora Toumani Diabaté (na foto), dois dos nomes maiores da música do Mali nas últimas décadas -, sabia-se que tinham ficado “na gaveta” mais uns quantos temas gravados, não nas mesmas sessões (as primeiras foram em Bamako; estas em Londres), mas com um formato semelhante. Não se sabia é que os temas seriam assim tão bons! Embora perca para o primeiro em frescura, novidade e até em algum défice instrumental, "Ali & Toumani" é mais um testemunho exemplar da arte e do génio dos dois músicos, aqui acompanhados pelo baixista cubano Orlando “Cachaíto” Lopez (entretanto já falecido, tal como Ali) e Vieux Farka Touré (filho de Ali), entre outros. (****)


Oumou Sangaré
"Seya"
World Circuit/Megamúsica

Ao fim de seis anos sem discos de originais no mercado, a maior diva da música do Mali, Oumou Sangaré, está de volta com um álbum absolutamente extraordinário, "Seya" (que significa "alegria"), onde a sua música atinge um cume de excelência e luminosidade absolutos. E, embora nele participem algumas luminárias da música actual (malianos, nigerianos, norte-americanos) como Djelimady Tounkara, Cheick Tidiane Seck, Bassekou Kouyaté, Pee Wee Ellis ou Tony Allen é a voz e arte de Oumou que aqui falam mais alto. É um álbum socialmente interventivo - os casamentos forçados de adolescentes, por exemplo -, coerentíssimo no seu desenho musical (mesmo quando intervêm alguns dos músicos citados) e quase sempre acústico, com os instrumentos tradicionais a sobreporem-se facilmente aos outros. E a voz, a voz! (*****)



Amadou & Mariam
"Welcome To Mali"
Because/Megamúsica

O trabalho de produção de Manu Chao para o duo maliano Amadou & Mariam (no álbum "Dimanche à Bamako") teve uma coisa boa e uma coisa má (e que são, na prática, a mesma coisa): a coisa boa foi ter aberto o som do duo a outras músicas, mais globais, mais "world"; a coisa má foi a colagem de muitos dos seus temas a uma sonoridade demasiado próxima da de Manu Chao. Anos depois, neste novo "Welcome To Mali", a sombra de Manu Chao ainda anda por cá - e bem! - mas a música de Amadou & Mariam navega igualmente por outras paragens, a começar logo pelo belíssimo tema semi-progressivo semi-psicadélico (a fazer lembrar os Air) que é "Sabali", produzido por Damon Albarn. E o resto do álbum é variadíssimo, passando por canções profundamente "africanas" mas enfeitadas pelo rock, o funk, o disco-sound, o hip-hop (com o somali K'Naan) ou o afro-beat (com Keziah Jones). (****)

Vários
"One Day On Radio Mali"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Se, desde há muitos anos, a música do Mali é sobejamente conhecida em todo o mundo – via nomes como Oumou Sangaré, Amadou & Mariam, Tinariwen, Salif Keita, Rokia Traoré ou o falecido Ali Farka Touré -, a verdade é que há uma riquíssima “pré-história” da música maliana que antecede o “boom” da world em meados dos anos 80. E esta colectânea – lançada pela importantíssima editora africana Syllart, do produtor Ibrahim Sylla - mostra exactamente a música de grupos seminais do Mali dos anos 60 e 70 como Les Ambassadeurs du Motel (que estabeleceram Mory Kanté e Salif Keita), Rail Band (por onde passaram também Keita, Kanté e Kante Manfila ), Super Djata de Bamako, Orchestre Regional de Mopti, National Badema ou a Orchestre National de Gao (com um tema que fala da guerra colonial na Guiné-Bissau). (*****)

Donso
"Donso"
Comet Records/Massala

A fórmula já não é nova: fundir as músicas tradicionais do Mali com as electricidades e/ou as electrónicas, os rocks e os blues: pense-se em Ali Farka Touré, nos Tinariwen, em Amadou & Mariam, em Issa Bagayogo e em muitos outros... Agora, os Donso fazem uma viagem semelhante partindo do Mali (mas também da música tuaregue e do gnawa marroquino) para chegar ao psicadelismo, ao transe, a territórios próximos do metal, a baladas ”azuladas”... Nos Donso convivem músicos franceses com músicos malianos (incluindo o vocalista Gedeon Papa Diarra), e ainda têm como convidados dois importantes nomes da música maliana: Ballaké Sissoko na kora e Cheick Thidiane Seck nas teclas. Donso significa “caçador” em língua bambara e bem se pode dizer que, com este álbum, têm aqui uma boa quantidade de troféus no cinto. (****)


Ballaké Sissoko/Vincent Segal
"Chamber Music"
No Format/Massala

Nem sempre corre bem a tentativa de encaixar instrumentos tradicionais, nomeadamente africanos, num formato de música erudita e em diálogo com instrumentos preferencialmente usados nesse género. E isso até já aconteceu com o maliano Ballaké Sissoko, quando pôs a sua kora (harpa mandinga) ao serviço do piano do italiano Ludovico Einaudi. Mas, no caso deste álbum apropriadamente chamado "Chamber Music" (música de câmara), é o oposto que se passa: com composições maioritariamente assinadas por Sissoko, a sua kora brilha a grande altura sobre os belíssimos “tapetes” proporcionados pelo violoncelo do francês Vincent Segal (que já colaborou com vários nomes da world music e faz parte dos Bumcello). O álbum é inventivo, variado e sempre... africano. (****)

Idrissa Soumaoro
"Djitoumou"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Já com mais de 60 anos de idade, o cantor, guitarrista e intérprete de kamele n'goni Idrissa Soumaoro edita agora o seu segundo álbum no circuito internacional – depois de "Kôtè" (2003) – e neste novo disco continua a mostrar, em “peças” distintas do puzzle que é este "Djitoumou", o seu amor pela música tradicional de Wassoulou (a região do Mali de onde é originário), os blues, a rumba congolesa, a música árabe, a country e até o flamenco. Produzido por François Bréant (o mesmo dos Kekele ou Salif Keita), o álbum tem como um dos momentos mais altos e brilhantes o tema “Bérèbérè”, que conta com a participação especial do entretanto falecido Ali Farka Touré. Personagem arredia da ribalta da cena musical, a música rara de Soumaoro é, também por isso, uma autêntica bênção. (****)


Bako Dagnon
"Sidiba"
Syllart/Lusáfrica/Tumbao

Quando a cantora maliana Bako Dagnon foi, finalmente, revelada ao mundo através do álbum "Titati", editado em 2007 e depois de várias cassetes lançadas no seu país ao longo de vários anos, viu-se nela o terceiro lado de um triângulo sagrado de vozes femininas (ao lado de Oumou Sangaré e de Rokia Traoré). Era justo: a assunção de Bako como uma griot no feminino, a sua música muitas vezes em estado puro, bruto, e uma voz original fizeram dela uma das grandes “descobertas” world desse ano. Neste segundo álbum internacional, "Sidiba", Bako confirma isso tudo mas perdeu-se a novidade e alguma da frescura do anterior. Mas não seria nada mau poder vê-la ao vivo um dia destes. (***)


AfroCubism
"AfroCubism"
World Circuit/Megamúsica

Quando, em 1996, Ry Cooder e Nick Gold foram para Cuba gravar o "Buena Vista Social Club", a ideia base do disco era juntar músicos cubanos com músicos do Mali, devido às óbvias pontes musicais entre Havana e o continente africano. Mas, como é sabido, isso não se concretizou por falta de vistos dos africanos. Agora, o projecto inicial foi retomado e Gold (sem Cooder) é o produtor deste "AfroCubism" que reúne Kasse Mady Diabaté, Lasana Diabaté, Toumani Diabaté, Bassekou Kouyate e Djelimady Tounkara com Eliades Ochoa e o Grupo Patria. E, apesar de o resultado nem sempre corresponder às expectativas, há aqui alguns belos nacos de música. Momentos altos: “Djelimady Rumba” e o quase fado/quase morna “Benséma”. (****)

09 setembro, 2008

Rokia Traoré, Toumani Diabaté e Richard Bona - África Cada Vez Mais Global


Em tempo de regresso às lides, aqui ficam hoje três textos publicados originalmente na revista «Time Out Lisboa» há alguns meses, sobre os discos mais recentes de três nomes incontornáveis da música africana: Rokia Traoré (na foto), Richard Bona e Toumani Diabaté. E todos eles passaram por cá também durante o Verão para concertos em festivais ou em espectáculos em nome próprio.


TOUMANI DIABATÉ
«THE MANDÉ VARIATIONS»
World Connection/Megamúsica

Ouvir a música de Toumani Diabaté - assim, em estado puro, só os seus dedos a percorrerem a kora (a harpa dos países da região mandinga) - é como escutar o som da água de um rio que corre (e esse rio tanto pode ser o Niger como o Mississippi como o Tejo, pelas sonoridades que cada um deles imediatamente congrega, ou até um rio algures no Extremo Oriente - oiça-se o primeiro tema, «Si Naani»). Um rio de caudal largo mas em que cada gota, cada som, cada nota, que sai dos dedos mágicos de Toumani tem o mesmo valor de outra (sua) gota qualquer. Cúmplice de músicos tão diferentes quanto Ali Farka Touré (ao qual é dedicado um dos temas de «The Mandé Variations») ou Bjork, os Ketama ou Taj Mahal, Toumani Diabaté mostra-se neste disco - e sem a companhia da sua Symmetric Orchestra - em toda a sua essência e mostra aquilo que é desde há muito tempo: o maior intérprete de kora do mundo e um músico e compositor extraordinário. Uma obra-prima. (******)


ROKIA TRAORÉ
«TCHAMANTCHÉ»
Universal Music France

Apenas dez anos de carreira musical foram suficientes para que Rokia Traoré se estabelecesse como um dos nomes maiores da música africana actual e uma cantautora com uma voz própria e pessoalíssima. Requisitada para colaborações com gente tão diferente quanto o Kronos Quartet, com quem se apresentou em Lisboa a semana passada e que também participou no seu álbum «Bowmboi», ou grupo de hip-hop senegalês Daara J, Rokia atinge no seu novo álbum «Tchamantché» um patamar de excelência difícil de igualar por muitos dos seus pares. Equilibrando muitíssimo bem - «Tchamantché» quer dizer exactamente «equilíbrio» em língua bambara - a música de inspiração pan-africana com muitas outras músicas, dos blues e do jazz ao rock e ao hip-hop (oiça-se a «human beat box» em «Zen»), e instrumentos tradicionais africanos como o n'goni e as percussões com instrumentos exteriores como a guitarra eléctrica Gretsch - que ela própria toca - ou a harpa. E o resultado é um disco variadíssimo, cantado em bambara, francês (a canção «Zen» poderia fazer parte do reportório de Camille) e inglês (o standard de jazz «The Man I Love», numa versão maravilhosa), em que África está sempre presente – canções como «Dounia», a fabulosa «Kounandi» (diálogo de voz, n'goni, guitarra eléctrica e uma harpa a fazer de kora) a mais festiva «Koronoko» ou a politicamente interventiva «Tounka» só poderiam sair da pena de uma africana -, mas filtrada pelo génio de uma compositora que já viu muito mundo e já ouviu muita música. E que, sem complexos nem barreiras nem fronteiras, faz do mundo casa sua e de muita música a sua música. (*****)



RICHARD BONA
«BONA MAKES YOU SWEAT - LIVE»
Emarcy/Universal Music


Assim como a música africana influenciou decisivamente o jazz e os blues, e a partir daí, toda a música moderna anglo-saxónica, também muitos e respeitados músicos africanos foram ao "ocidente" buscar boa parte da sua inspiração musical: Fela Kuti foi a James Brown; Ali Farka Touré a John Lee Hooker; Abdullah Ibrahim (aka Dollar Brand) a Thelonious Monk. E Richard Bona vai a... Jaco Pastorius. Mas, um «mas» enorme!, o camaronês Bona é um baixista fabuloso que não precisa de referências para se impor; é um cantor maravilhoso; e é um amante de música que consegue neste álbum - gravado ao vivo na Hungria, em 2007 - mostrar bem as suas raízes africanas, em ritmos e melodias (oiça-se a balada «Kivu & Suninga»), e muitas outras paixões: da salsa a Stevie Wonder, de Joe Zawinul a John Legend... (*****)

03 março, 2008

Toumani Diabaté - Akora É a Vez do Porto e de Lisboa


Depois de dois concertos memoráveis em Sines e no Seixal, Toumani Diabaté (na foto, de Mário Pires, da Retorta) vem akora - pois, o trocadilho é tão parvo que decidi usá-lo duas vezes! - tocar à Casa da Música, Porto, dia 28 de Maio, e à Culturgest, em Lisboa, dia 31 do mesmo mês, segundo avançam as Crónicas da Terra. O mestre maliano da kora - a harpa mandinga - apresenta-se desta vez em solo absoluto, sem a Symmetric Orchestra, interpretando temas do seu recentíssimo álbum «The Mandé Variations», todo ele dedicado inteiramente e em exclusivo aos sons da kora. Um facto raro numa carreira cheia de colaborações riquíssimas - de Ali Farka Touré a Taj Mahal, dos Ketama a Bjork - e em que é preciso recuar quase vinte anos para se encontrar outro álbum de Toumani exclusivamente dedicado à kora, «Kaira».

07 setembro, 2007

Festa do «Avante!» - A Partir de Hoje, em Atalaia



A Festa do «Avante!» começa hoje, na Quinta da Atalaia, Amora, Seixal, com uma excelente programação da qual demos conta, em parte, há algumas semanas e que aqui se repete (com alguns acrescentos lá mais para o fim do post). Ah, e é claro que o Raízes e Antenas publicará reportagem de muitos deles no início da próxima semana.

Auto-citando: Como atracções internacionais a Festa recebe a charanga romena Fanfare Ciocarlia, acompanhada por vários dos convidados que também participam no recente álbum «Queens and Kings», uma autêntica irmandade cigana: a diva Esma Redzepova (Macedónia), Jony Iliev (Bulgária), Kaloome (França) e Florentina Sandu (a neta de Nicolae Neacsu, dos Taraf de Haidouks; Roménia); do Mali - e de outros lugares do antigo império mandinga - chegam o mestre da kora Toumani Diabaté (na foto, de Mário Pires) e a sua Symmetric Orchestra; de Inglaterra vêm os veteranos do folk-rock Levellers; e dos Estados Unidos os blues do colectivo Chicago Blues Harp All Stars. No jazz, o destaque vai para o projecto Carlos Bica & Azul (em que o contrabaixista português é acompanhado pelo guitarrista alemão Frank Mobus e o baterista norte-americano Jim Black, grupo que protagonizou um dos melhores momentos - juntamente com o DJ Ill Vibe - do recente FMM de Sines), os Telectu (com Vítor Rua e Jorge Lima Barreto a serem acompanhados pelo baterista holandês Han Bennink e e o manipulador de electrónicas italiano Walter Pratti), o projecto In Loko de Carlos Barretto, o Sexteto de Mário Barreiros, o quarteto do contrabaixista Matt Pavolka e a cantora Jacinta (interpretando canções de José Afonso). Também a cantar José Afonso estarão o grupo luso-brasileiro Couple Coffee e a fadista Cristina Branco. Fado que terá uma noite especial com a presença de Ricardo Parreira e Fernando Alvim, Raquel Tavares, Chico Madureira, Aldina Duarte e Rosa Madeira, e ainda alguns «desvios» através dos Deolinda e do projecto In-Canto (de Luísa Amaro e Miguel Carvalhinho). Uma homenagem a Adriano Correia de Oliveira pela Brigada Vítor Jara e o cantor Manuel Freire, o super-grupo Sons da Fala - que reúne Sérgio Godinho (Portugal), Vitorino Salomé (Portugal), Tito Paris (Cabo Verde), Janita Salomé (Portugal), Luanda Cozetti (Brasil), Juka (São Tomé e Príncipe), André Cabaço (Moçambique), Guto Pires (Guiné Bissau) e Quikkas (Angola) e concertos especiais dos Blasted Mechanism (com o guitarrista António Chaínho e a Kumpa'nia Al-Gazarra como convidados) e a Tora Tora Big Band (reforçada pelas vozes de Milton Gulli, André Cabaço e Kika Santos) são mais alguns dos momentos de grande interesse da Festa. O rock dos Blind Zero, dos Peste & Sida e dos Anti-Clockwise, o rap de Chullage e de Sam The Kid, o projecto KoraSons (liderado pelo guineense Ibrahima Galissá, na kora, e o dinamarquês Mads Hoff, na guitarra), o super-grupo de música tradicional Quatro ao Sul (que reúne Rui Vaz e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, com José Barros, dos Navegante, e Pedro Mestre), o grupo de versões de música de intervenção TriVenção e o Low Budget Research Kitchen (banda de tributo a Frank Zappa) também já estão confirmados no menu musical da Festa do «Avante!» deste ano. Um luxo.

E como acrescentos, alguns deles importantes, feitos nas últimas semanas: o novo grupo lisboeta que mistura folk e música antiga Tanira; os Pauliteiros de Miranda; a folk experimental dos albicastrenses Cibo Mosari; os ritmos latino-americanos dos lisboetas Los Cubos; o afro-beat dos portuenses Tchakare Kanyembe; os Tíbia (gaita-de-foles); o espectáculo Redondo Vocábulo com João Afonso e João Lucas; o reggae e outras músicas dos Black Bombain (de Alverca); e o klezmer dos almadenses Melech Mechaya. A descobrir...

04 agosto, 2007

Festa do «Avante!» - Com Levellers, Fanfare Ciocarlia, Toumani Diabaté...



Falta pouco mais de um mês para a Festa do «Avante!» e o programa já está quase todo completo, pelo menos o dos palcos principais. E um programa que inclui algumas belíssimas surpresas, à semelhança do que já tinha acontecido o ano passado, estando assim a Festa - que decorre dias 7, 8 e 9 de Setembro, mais uma vez na Quinta da Atalaia, Amora, Seixal - a regressar aos tempos áureos dos anos 70 e 80. Veja-se só: como atracções internacionais a Festa recebe a charanga romena Fanfare Ciocarlia (na foto), acompanhada por vários dos convidados que também participam no recente álbum «Queens and Kings», uma autêntica irmandade cigana: a diva Esma Redzepova (Macedónia), Jony Lliev (Bulgária), Kaloome (França) e Florentina Sandu (a neta de Nicolae Neacsu, dos Taraf de Haidouks; Roménia); do Mali - e de outros lugares do antigo império mandinga - chegam o mestre da kora Toumani Diabaté e a sua Symmetric Orchestra; de Inglaterra vêm os veteranos do folk-rock Levellers; e dos Estados Unidos os blues do colectivo Chicago Blues Harp All Stars. No jazz, o destaque vai para o projecto Carlos Bica & Azul (em que o contrabaixista português é acompanhado pelo guitarrista alemão Frank Mobus e o baterista norte-americano Jim Black, grupo que protagonizou um dos melhores momentos - juntamente com o DJ Ill Vibe - do recente FMM de Sines), os Telectu (com Vítor Rua e Jorge Lima Barreto a serem acompanhados pelo baterista holandês Han Bennink e e o manipulador de electrónicas italiano Walter Pratti), o projecto In Loko de Carlos Barretto, o Sexteto de Mário Barreiros, o quarteto do contrabaixista Matt Pavolka e a cantora Jacinta (interpretando canções de José Afonso). Também a cantar José Afonso estarão o grupo luso-brasileiro Couple Coffee e a fadista Cristina Branco. Fado que terá uma noite especial com a presença de Ricardo Parreira e Fernando Alvim, Raquel Tavares, Chico Madureira, Aldina Duarte e Rosa Madeira, e ainda alguns «desvios» através dos Deolinda e do projecto In-Canto (de Luísa Amaro e Miguel Carvalhinho). Uma homenagem a Adriano Correia de Oliveira pela Brigada Vítor Jara e o cantor Manuel Freire, o super-grupo Sons da Fala - que reúne Sérgio Godinho (Portugal), Vitorino Salomé (Portugal), Tito Paris (Cabo Verde), Janita Salomé (Portugal), Luanda Cozetti (Brasil), Juka (São Tomé e Príncipe), André Cabaço (Moçambique), Guto Pires (Guiné Bissau) e Quikkas (Angola) e concertos especiais dos Blasted Mechanism (com o guitarrista António Chaínho e a Kumpa'nia Al-Gazarra como convidados) e a Tora Tora Big Band (reforçada pelas vozes de Milton Gulli, André Cabaço e Kika Santos) são mais alguns dos momentos de grande interesse da Festa. O rock dos Blind Zero, dos Peste & Sida e dos Anti-Clockwise, o rap de Chullage e de Sam The Kid, o projecto KoraSons (liderado pelo guineense Ibrahima Galissá, na kora, e o dinamarquês Mads Hoff, na guitarra), o super-grupo de música tradicional Quatro ao Sul (que reúne Rui Vaz e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, com José Barros, dos Navegante, e Pedro Mestre), o grupo de versões de música de intervenção TriVenção e o Low Budget Research Kitchen (banda de tributo a Frank Zappa) também já estão confirmados no menu musical da Festa do «Avante!» deste ano. Um luxo.

12 março, 2007

Björk - Com Toumani Diabaté e Konono Nº1



O novo álbum de Björk, «Volta», é editado no dia 7 de Maio e nele está presente um leque de participantes que só não é inesperado porque se conhece, desde há muito, a curiosidade da cantora e compositora islandesa sobre a música tradicional, quer seja da sua terra (como na sua colaboração com Hector Zazou no álbum «Chansons des Mers Froides») ou de outros lugares (relembre-se a participação da cantora inuit canadiana Tanya Tagak em vários temas do recente «Medúlla»). Em «Volta», Björk é acompanhada pelo mestre maliano da kora Toumani Diabaté, a fabulosa charanga de kissanges e tralha percutida dos congoloses Konono Nº1 e pela respeitadíssima intérprete de pipa (alaúde) chinesa Min Xiao-Fen. Mas o leque de colaboradores em «Volta» não se resume a estas figuras importantes da chamada world music, alargando-se também ao extraordinário cantor Antony (Antony and the Johnsons), ao produtor de hip-hop Timbaland, Mark Bell (LFO), dois bateristas noisy/experimentais - Chris Corsano e Brian Chippendale (Lightning Bolt) - e uma secção de metais feminina da Islândia. O álbum - totalmente composto e produzido por Björk - tem dez temas e é editado pela One Little Indian/Atlantic Records.

27 setembro, 2006

World Circuit - Vinte Anos de Encantamento


Há algum tempo, a propósito de «Savane», de Ali Farka Touré, referi que mais dia menos dia iriam aparecer gravações inéditas do génio do Mali... Pois elas aí estão, na colectânea «World Circuit Presents...» - com edição marcada para meados de Outubro -, comemorativa dos 20 anos desta importante editora de world music, que deu a conhecer a muita gente a arte de Ali Farka, dos músicos cubanos recuperados no projecto Buena Vista Social Club (na foto), de Oumou Sangare, Toumani Diabaté, Sierra Maestra e Afel Bocoum, entre muitos outros...


VÁRIOS
«WORLD CIRCUIT PRESENTS...»
World Circuit/Megamúsica

Se não fosse pelo resto - que é muito -, esta colectânea já valeria pelos dois autênticos rebuçados a derreterem-se na boca dos fãs de Ali Farka Touré que são a versão ao vivo de «Amandrai» (oito minutos de encantamento puro; Jimi Hendrix em abençoados drunfos em vez de coca...) e um inédito absoluto, outtake das sessões de gravação de «In The Heart of The Moon» com Toumani Diabaté, o tema «Du Du» (com uma kora fadista de Toumani e uma guitarra de Ali Farka em círculos e pontilhismos minimais...). Mas «World Circuit Presents...», disco-duplo, tem ainda outros inéditos que os coleccionadores agradecem: um avanço do álbum dos quenianos Shirati Jazz que vem aí, um inédito do mestre do gnawa Mustapha Baqbou, outro da cantora mauritana Dimi Mint Abba e uma gravação «no terreno» de Afel Bocoum (com uma guitarra mágica e grilos ao fundo...). E temas emblemáticos - embora não inéditos - de artistas da World Circuit estão também no rol. Temas do colectivo Buena Vista Social Club, Cheick Lô, Radio Tarifa, Afro Cuban All Stars, Abdel Gadir Salim, Oumou Sangare, Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra, Ali Farka Touré com Ry Cooder, Orchestra Baobab e Los Zafiros, para além de algumas pérolas do fundo de catálogo da editora: temas do cubano Ñico Saquito, do trompetista argelino Bellemou Messaoud ou do grupo vocal Black Umfolosi, do Zimbabwe.

A World Circuit - liderada por Nick Gold, que tem no fantástico engenheiro-de-som Jerry Boys o seu braço-direito - começou por ser uma pequena agência de concertos. Mas quando cresceu como editora fê-lo de uma forma honesta e límpida, dando sempre aos músicos contratados excelentes condições de gravação, patrocinando parcerias frutuosas com outros produtores e músicos (Ry Cooder, Pee-Wee Ellis, Youssou N'Dour...) e abrindo-lhes, muitas vezes, as portas para digressões de sucesso em todo o mundo. Dar os parabéns à World Circuit é pouco. (8/10)

31 julho, 2006

FMM Sines 2006 (ou Isto Não É Uma Reportagem)


Flashs dispersos de seis dias no FMM (ou seja, daquilo de que me consigo lembrar, ao jeito «quem diz que se lembra dos anos 60 é porque não os viveu»):

- O set de DJ na segunda-feira correu muito melhor do que seria de esperar, atendendo a que era uma estreia absoluta. É uma sensação estranha, mas muito boa, ver dezenas de freaks a dançar à minha frente, depois de terem levado com uma bela ponta final do concerto dos Vaguement La Jungle... Eu e o Gonçalo acabámos por nos divertir imenso. Só foi pena o catering já estar fechado depois da nossa actuação (actuação?) movida a muitas águas e, no meu caso, cigarros, o que nos impediu de nos vingarmos violentamente depois em licores vários. (em resposta ao «comment» de Manel Calapez, que desapareceu misteriosamente nas profundezas deste blog sabe-se lá porquê, e aos outros que eventualmente também queiram saber...)

- Os licores, no entanto, não perderam pela demora. Um dia depois, a rapaziada do nº 3, 3º esq. - 5 gajos com algum jeito para a cozinha, e mais um, eu, a ver de longe -, decidiu improvisar um chili que tinha quase tantas malaguetas quanto feijão (e uns enchidos, arroz e couves para disfarçar). Estava delicioso, mas a actividade vulcânica da coisa era tal que o fogo, durante o jantar e nas horas que se seguiram, só conseguiu ser apagado à custa de três garrafas de tinto e várias palettes de cerveja. Ficámos a bezerrar por casa e nem fomos a Porto Covo ver os Dazkarieh e o Elisio Parra.

- Uma das vantagens de não se estar em trabalho num festival como o FMM de Sines é a quantidade de coisas que não é preciso levar para o recinto: uma caneta (ou duas, para o caso de uma falhar), o bloco-notas, o gravador das entrevistas e... alguns milhares de neurónios, os neurónios que nos obrigam a identificar ou tentar identificar imediatamente uma versão de um tema mais ou menos conhecido, ir depois confirmar à net o nome de alguns instrumentos estranhos, saber na perfeição o género ou sub-género musical em que os músicos estão a navegar em determinado momento. E esta sensação é muito boa!!!

- O FMM de Sines é conhecido como o melhor festival de world music do país. Mas o FMM também é, para além de um festival de world music, um festival de jazz... Ou da fusão dos dois universos (que já têm, em si, milhões de outros universos). Este ano houve jazz, ok, com muitos outros géneros à mistura, em Jacques Pellen e a sua «Celtic Procession», no trio de Rabih Abou-Khalil com o extraordinário pianista Joachim Kuhn e o baterista Jarrod Cagwin (um dos melhores concertos do festival), nos delirantes Alamaailman Vasarat (onde, ok, o jazz não podia faltar porque eles têm lá tudo, incluindo ainda klezmer, ska, speed-metal, ciganadas balcânicas, progs vários), nos Bad Plus (estava na cavaqueira nos bastidores e só reconheci, à distância, uma versão do tema-título de «Chariots of Fire», de Vangelis, mas o resto estava a soar bem), na música da extraordinária cantora iraquiana Farida (que substituiu Thomas Mapfumo... e encabeça este parágrafo, em foto de Mário Pires - ver o seu site Retorta, aqui nos links ao lado), na música circular de Trilok Gurtu (o músico que, provavelmente, fará desistir qualquer pessoa que o veja de alguma vez tentar tocar tablas, de tão bom que ele é!), e há jazz, mais do que devia, em Ivo Papasov (cujo ensaio-de-som, ouvido na praia ao lado às cinco da tarde foi muito melhor do que o concerto propriamente dito).

- Depois da experiência incendiária do primeiro jantar, a rapaziada do nº3, 3º esq., decidiu mudar de táctica e tentar descobrir um restaurante simpático na vila. E «descobrimos» (palavra que fica sempre bem dizer na terra do Vasco da Gama) o Jorge Russano, Churrasqueira, que tem uma garagem simpática ao lado, onde fomos principescamente tratados e servidos vários dias com espetadas, frangos enormes, bacalhaus assados, entremeadas a pingar uma gordura deliciosa, etc, etc, etc, tudo regado com um piri-piri violentíssimo... Pois.

- Últimos neurónios espremidos de onde pingam muito boas lembranças dos Gaiteiros de Lisboa (sim, deu outra vez para dois ex-BLITZ e um BLITZ voltarem ao mosh durante o «Trângulo Mângulo», como já é tradição), do para mim desconhecido mas muito bom rapper somali K'naan, da maravilha que é ouvir a kora de Toumani Diabaté (e de como foi curioso ouvir, apesar do resultado musical não ter sido especialmente brilhante, uma cantora de tonalidades fadistas e a cantar em português num dos temas finais - ver, sff, texto «O Fado Nasceu no Mali?», mais em baixo neste blog), do senegalês mas com muito gnawa à mistura Nuru Kane, da proposta agora normal mas há alguns anos ousada de misturar os cantos do Sahara com os blues e o psicadelismo de Mariem Hassan, da poesia bruta e lindíssima e da música rude da excelente surpresa que foram os brasileiros Cordel de Fogo Encantado, e do final de festa arrasador no sábado, já o sol tinha nascido, do Bailarico Sofisticado (três rapazes da rapaziada do nº3, 3º esq., estes não com algumas dezenas mas com muitas centenas de freaks a dançar à frente deles...).

- E outras, menos boas: o baterista Tony Allen (sim, eu sei que o afro-beat é muitas vezes assim mesmo, mas aquilo foi muito igual do princípio ao fim... com a ressalva, nota de, ok, reportagem, de que o senhor Allen, velhinho, velhinho - ele que foi baterista de Fela Kuti e que, quando foi despedido pelo patrão, este se viu obrigado a contratar três bateristas para o substituírem - ter andado a tocar saxofone com os donos dos djembés na praia, já passava das sete da manhã - informação que parte da rapaziada resistente do nº 3, 3º esq. passou à rapaziada que já estava a dormir a essa hora, via sms), Seun Kuti (não por ter sido igual do princípio ao fim, não foi, mas porque a sua música é demasiado igual à do pai, Fela Kuti, pecadilho em que não cai, e bem, Femi Kuti), e as... Varttina, cada vez mais uma quase vulgar banda pop e já não tanto os «passarinhos» deliciosos que há doze anos - foi há doze? - encantaram o Intercéltico do Porto.

- Ah!! Ganhei um didgeridoo de prenda, para juntar à minha colecção de instrumentos étnicos... Agora só me faltam umas tablas (ok, é melhor não...).

16 julho, 2006

Toumani Diabaté - Antes de Sines


Antecipando a vinda de Toumani Diabaté ao Festival de Músicas do Mundo de Sines (dia 27 de Julho), aqui ficam dois textos publicados no BLITZ há alguns meses a propósito de «Boulevard de L’Independance», o álbum gravado com o super-grupo mandinga Symmetric Orchestra: a crítica ao álbum (publicada em Março) e uma entrevista com Diabaté, o «deus da kora», segundo as sábias palavras de Ali Farka Touré (publicada em Novembro).

TOUMANI DIABATÉ’S SYMMETRIC ORCHESTRA
«BOULEVARD DE L’INDEPENDANCE»

World Circuit/Megamúsica

O génio da kora em diálogo com o funk, o jazz, os blues... Brilhante.

Ouvir a kora (harpa mandinga) de Toumani Diabaté é, muitas vezes, ouvir um eco distante de uma guitarra portuguesa, não só pelo espectro tímbrico que é estranhamente comum aos dois instrumentos mas também pelo rol de emoções que facilmente saltam das suas cordas: alegria e tristeza, saudade e paixão, fúria e uma beleza absoluta. E Toumani está para a kora como Carlos Paredes para a guitarra portuguesa, Paco de Lucia para a guitarra de flamenco, Ravi Shankar para a sitar ou Jimi Hendrix para a guitarra eléctrica. Depois do extraordinário «In The Heart of The Moon» (a meias com o recentemente falecido Ali Farka Touré), «Boulevard de L’Independance» traz Toumani com a sua Symmetric Orchestra (onde convivem vozes masculinas e femininas, instrumentos eléctricos, saxofones, balafons e djembés) para um festim luxuoso de música mandinga com funk, soul, blues ou música cubana. Lindo! (8/10)

TOUMANI DIABATÉ
O DEUS DA KORA

Este ano já esteve cá como convidado especial de Ali Farka Touré - que lhe chama «o deus da kora» - e esta semana está de volta para dois concertos integrados no festival Sons em Trânsito [Nota: concertos que aconteceram com a Symmetric Orchestra mas sem a presença de Toumani, impedido de se deslocar a Portugal devido a doença]. Entrevista com o maliano Toumani Diabaté, mestre da harpa mandinga, também a prometer para breve um álbum com a Symmetric Orchestra.

Qual é, actualmente, a sua relação com a kora? Toca todos os dias?

Sim, toco todos os dias, muitas horas por dia. Passo mais horas a tocar kora do que a fazer outra coisa qualquer, incluindo dormir. Aprendi a tocar kora em criança com o meu pai e os mais velhos [nota: Toumani nasceu numa família de griots e o seu grande mestre foi seu pai, Sidiki Diabaté, que - à semelhança de Artur Paredes, pai de Carlos Paredes, com a guitarra portuguesa - autonomizou a kora como instrumento solista e não apenas como acompanhamento de cantores] e toquei kora a vida inteira. Ela faz parte da minha vida. É a minha vida.

Como é que vê o seu instrumento? Como uma mulher, um amigo, uma arma, uma extensão do seu corpo?

É um pouco disso tudo. E é até como um computador...

Um computador?!?

Sim, a kora é um instrumento com centenas, talvez milhares, de anos e ao longo dos séculos foi acumulando as memórias dos povos da zona mandinga de África. E é também um meio de comunicação, de transmissão de histórias. É melhor que um computador...

Acha então que não são necessárias palavras para contar histórias...

Sim, claro. Isso acontece quando se juntam alguns tocadores de kora. Nós falamos uns com os outros só tocando os nossos instrumentos e sabemos o que estamos a dizer. E, no Mali, eu toco a kora em vários sítios e toda a gente percebe qual é a história que estou a contar, sem palavras. A kora tem uma função social, religiosa...

Há alguns anos, gravou um álbum com Taj Mahal, um guitarrista americano de blues. Também acredita que os blues nasceram, há centenas de anos, na zona mandinga de África?

Sim, sem dúvida nenhuma. Nós aqui não lhes chamamos blues, claro, porque é a nossa música. Os africanos que foram levados para os Estados Unidos como escravos esqueceram, ao longo das gerações, os seus povos de origem, as suas línguas originais, mas conservaram a cultura. E os blues nasceram dessa memória...

Este ano, foi editado um álbum de uma parceria sua com Ali Farka Touré, In the Heart of the Moon. Foi importante essa colaboração?

Sim. Foi excelente juntar os dois estilos. O álbum demorou só algumas horas a gravar e foi um momento excelente, quase mágico. Aprendi muito com ele. Nós somos de zonas diferentes do Mali, mas compreendemo-nos e isso é o mais importante. Adoro esse álbum!

Lembra-se do concerto em Lisboa, com Ali Farka Touré, este Verão?

Oh sim! Foi o nosso melhor concerto da digressão! Foi muito bom e a audiência era maravilhosa. Gostei muito...

Está para breve a edição de um álbum seu com a Symmetric Orchestra. Como é que começou este grupo?

Esse grupo já existe há muitos anos. Editámos um álbum em 1991. A ideia da Symmetric Orchestra é «reconstruir» o Império Mandinga, em música e cultura, tal como existiu há centenas de anos, antes da colonização europeia. Na Symmetric Orchestra há músicos e cantores do Mali, Senegal, Guiné-Conakry, Gâmbia, isto é, os países actuais que, antes, estavam reunidos no Império Mandinga.

Já ouvi uma cópia incompleta do álbum e, para além da música mandinga, há muito jazz, blues, música cubana...

Porque está tudo ligado. A música cubana, por exemplo, também tem muitos elementos da nossa música. As raízes são as mesmas...

O que é que preparou para os concertos em Portugal?

Vou apresentar temas deste álbum da Symmetric Orchestra e também outros, de outros discos meus...

08 junho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane» (parte 3)



Para encerrar o «capítulo» Ali Farka Touré, de boas-vindas a «Savane», aqui ficam dois textos paralelos: um relativo a «In The Heart of The Moon» e discos editados na mesma altura que, de alguma forma, se relacionam com esta parceria de Ali Farka com Toumani Diabaté; o outro, de delírio (sublinha-se: delírio) proto-musicológico sobre uma eventual raiz original do fado: o Império Mandinga. Os dois textos foram originalmente publicados no BLITZ em Junho do ano passado.

ALI FARKA TOURÉ, TOUMANI DIABATÉ (& OS OUTROS)
AZUL ESCURO

«In the Heart of the Moon» (World Circuit/Megamúsica), é o aguardadíssimo álbum de colaboração entre o mestre dos blues malianos Ali Farka Touré (que a Europa «descobriu», principalmente, depois do álbum de colaboração com Ry Cooder, «Talking Timbuktu») e o respeitadíssimo tocador de kora, também maliano, Toumani Diabaté (igualmente com uma parceria célebre com um americano, Taj Mahal, no álbum «Kulanian»). E «In the Heart of the Moon» é um disco de uma beleza rara, feito a um mesmo tempo de simples e intrincadas filigranas de som, construídas pelos dedos ágeis de Ali Farka na guitarra (que dá a base simples) e de Toumani na kora (com um interminável caleidoscópio de sons a tiracolo).

Ali vive no norte do Mali, em Niafunké, paredes meias com o deserto do Sahara e é de cultura Arma, Songrai e Peul, enquanto Toumani é um griot (da linhagem antiga de contadores de histórias através da música) de etnia Mandé. Mas, apesar das diferenças culturais e étnicas, isso não impede que os dois, neste álbum, se entendam à primeira. O álbum foi gravado de improviso, em Bamako, nas mesmas sessões que resultaram em mais dois discos: um de Ali (aqui em guitarra eléctrica e voz) com dois tocadores de n'goni e outro de Toumani com a Symmetric Orchestra, ambos a editar nos próximos meses pela World Circuit.

Em «In the Heart of the Moon» há alturas em que parece estarmos a ouvir um blues muito antigo, outras vezes um fado perdido em África (e o timbre da kora também ajuda à sensação), outras vezes uma morna ali vizinha, outras sons das Caraíbas. No concerto de Ali Farka Touré no Bozar, em Bruxelas, há algumas semanas, essas sensações são ainda mais evidentes, tanto quando Ali Farka toca e canta a solo ou com dois intérpretes de n'goni, como nos três temas, absolutamente mágicos, que protagonizou com Toumani. Neste concerto, Ali esteve três horas em palco, ora com a guitarra acústica, embalada pelos n'gonis, congas e cabaça, a passear - em transe - pelo Sahara e pelo Mali, ora em guitarra eléctrica nuns blues que viajam sobre campos de algodão americanos (e no psicadelismo, e no rock ácido...), ora com Toumani (e com um terceiro músico no baixo eléctrico) ajudando a fazer uma música maior do que a nossa imaginação alguma vez conseguiria desejar.

Um dia depois, numa conferência de imprensa, um jornalista europeu insiste em perguntar a Ali se a sua música é influenciada pelos blues. Ali só responde «eu faço música africana». Como se fosse um dado adquirido que os blues nasceram ali na sua terra ou lá muito perto. E diz mais coisas importantes, como a polémica frase «não há afro-americanos. Há negros na América mas eles já não sabem de que cultura, etnia, dialecto ou região descendem...».

Da mesma «família» de «In The Heart of The Moon» é o novo álbum de Boubacar Traoré, «Kongo Magni» (Marabi/Dwitza). Herói da música do Mali nos anos 60, esquecido depois e «recuperado» para a música em meados dos anos 80, Boubacar continua neste álbum belíssimo a fazer a ponte entre a música mandinga e os blues (e a presença irónica de uma harmónica em alguns temas ainda mais sublinha a herança). O acordeão de Régis Gizavo (de Madagáscar) leva ainda a música de Boubacar - e isto é tão bonito!! - para a Índia, o Nordeste brasileiro, o cajun e o zydeco.

Documento de uma altura de afirmação da música africana é a edição, agora, de um álbum perdido de colaboração entre dois malianos, o cantor Salif Keita e o guitarrista Kante Manfila, que gravaram as fitas originais deste «The Lost Album» (Cantos/Megamúsica) em 1980, na Costa do Marfim. Acompanhados por kora, balafon, um coro feminino, piano e trompete, o álbum flui naturalmente entre a música de raiz maliana (mas também pelo jazz e música cubana).

«Mandekalou - The Art and Soul of the Mande Griots» (Syllart/Megamúsica) é uma excelente introdução à música dos griots mandingas («mandé jéliou» em mandinga) e basta ouvir este álbum para perceber como esta música de transmissão oral de histórias e mitos - uma CNN ancestral - pode ser uma música de comunhão absoluta (neste disco encontram-se, a colaborar em conjunto, músicos e cantores de vários países e várias gerações).

Por sua vez, a colectânea «Le Blues Est Né en Afrique» (Cantos/Megamúsica) - só o título diz tudo -, é mais um manifesto na defesa da ideia da música oeste-africana como berço dos blues. Temas de cantores e/ou músicos (malianos, guineenses, senegaleses, congoleses...) como Idrissa Soumaoro, Salif Keita, Ismael Lo, Bambino, Tsahla Muana ou Kerfala Kanté «defendem», facilmente, a tese.

Finalmente, a colectânea «The Sahara» (World Music Network/Megamúsica) viaja pelo deserto - e suas «margens» - unindo as pontas da música gnawa, mandinga, tuaregue e outras. Este disco da excelente série The Rough Guide To... mostra a música feita pelos povos que habitam o Sahara - sim, há muitos milhares de pessoas que vivem neste imenso deserto - e nas suas vizinhanças, do gnawa de Hasna El Becharia aos blues ácidos dos tuaregues Tinariwen, passando pela música de luta e libertação de artistas ligados à Frente Polisário.


O FADO NASCEU NO MALI?


















Há um chavão anglo-saxónico quando se fala de fado (e também das mornas e do choro e chorinho brasileiros...): «são os blues portugueses» (como da morna dizem «são os blues cabo-verdianos»). E se eles, por portas e travessas, tivessem razão?... Esta é uma teoria empírica, não científica, não historiográfica, não etno-musicológica e que pode ser vista apenas como um delírio livre sobre factos dispersos... Mas vamos lá:

1 - Já há bastante tempo que é um dado histórico aceite por quase toda a gente que os blues - música negra que se foi desenvolvendo no delta do Mississippi no séc. XIX e inícios do séc. XX - têm a sua origem na África Ocidental - a zona do antigo império mandinga que passa pelo Senegal, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau e, principalmente, Mali --, teoria defendida por Samuel Charters (nomeadamente no seminal livro «The Roots of the Blues - An African Search») e, mais recentemente, pela série de filmes sobre os blues supervisionados por Martin Scorsese.

2 - Paralelamente, e apesar de terem provocado polémica no início, as teorias de José Ramos Tinhorão - nomeadamente no livro «Fado - Dança do Brasil Cantar de Lisboa (O Fim de um Mito)» - que defendem que o fado teve origem no lundum (ou lundu) brasileiro estão a ser cada vez mais aceites (vide livro de Rui Vieira Nery editado na colecção de discos de fado do jornal Público).

3 - Esta teoria defende que o fado é uma evolução do lundum, uma dança quente, dolente e erótica brasileira (com umbigadas - isto é, contactos da zona genital) nascida no grande caldeirão de culturas africanas que era a Bahia. Esta dança teria sido trazida para Lisboa e aqui teria evoluído para o fado actual, perdendo gradualmente a sua característica dançável, mas mantendo as outras características.

4 - É commumente aceite que o lundum tem origem nos escravos bantos, levados de Angola e Congo para o Brasil. Segundo a «Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura», o lundum é uma «dança também cantada, de origem africana, cuja raiz entronca no batuque... O Lundu tornou-se imensamente popular no séc. XVIII, tanto no nosso país (Portugal) como no Brasil, de onde veio». E no «Dicionário da História da Colonização Portuguesa no Brasil», o lundum é caracterizado como uma «dança popular brasileira, originária de manifestações musicais trazidas pelos escravos africanos da região de Angola e Congo».

5 - Mas (e aqui entra o «delírio)... e se o lundum não vem dos escravos bantos, mas sim dos escravos malês (ou das trocas entre os dois «grupos»)?... Razões para a minha dúvida: Apesar de haver uma maioria de escravos no Brasil de origem banto (Angola, Congo e Moçambique), na região da Bahia - recorde-se, defendida como o berço do lundum - a maior parte dos escravos era malê (uma corruptela de... Mali), escravos oriundos da zona mandinga, na sua maior parte muçulmanos (tal como ainda hoje a religião principal na zona ocidental de África, devido à sua proximidade com os povos muçulmanos do norte de África... o deserto do Sahara não foi barreira para a evangelização islâmica).

6 - A importância dos malês na Bahia é reconhecida por inúmeros historiadores. E marca do seu seu peso dentro da comunidade escrava é a história do Levante dos Malês, em 1835, uma importantíssima rebelião de escravos em Salvador. Ainda agora a cidade de Salvador celebra esta revolta: no carnaval da Bahia passou um bloco chamado Malê Debalê e um outro, Ilê Aiyê, que homenageou claramente o Mali. E o escritor Antônio Risério escreve, embora apontando algumas dúvidas: «o sucesso do bloco afro Malê Debalê, junto com a revalorização popular das revoltas islâmicas, criou uma espécie de mito em torno dos malês. Hoje na Bahia qualquer negro informado, alguns com certa ponta de esnobismo (compreensível, mas condenável), afirma ser descendentes dos malês».

7 - O lundum ainda é uma forma musical viva, não no Brasil ou em Portugal (ou nas ilhas dos Açores, onde foi importante durante o séc. XIX), mas no Peru (nomeadamente na música da diva peruana Susana Baca, que mantém nos arredores de Lima um instituto dedicado ao estudo da ligação da música africana com a música peruana, o Instituto Negro Continuum) e em Cabo Verde (aqui também chamado landu ou gandum), onde no passado se desenvolveu bastante, principalmente nas ilhas do barlavento e na Boavista. Segundo as teorias mais aceites, o lundum cabo-verdiano foi levado pelos brasileiros para o arquipélago e ali permaneceu. Mas fica outra pergunta: este lundum cabo-verdiano veio mesmo do Brasil? Ou veio de ali de muito mais perto (da Guiné-Bissau e de outros países mandinga), através dos escravos levados do continente ali mesmo ao lado? Ou poderá ser uma mistura das duas coisas?

8 - Repete-se. Esta «teoria» é empírica, delirante, feita de umas pontas soltas e, porventura, de outras mal atadas [não entro, por exemplo, na influência da música gnawa de Marrocos na música dos griots e outras manifestações mandingas - e, consequentemente, nos blues norte-americanos... A propósito, não há quem defenda que o fado poderá ter vindo do norte de África?]. Mas ao ouvir este conjunto de discos falados aqui ao lado, não deixo de sentir que há ali, muitas vezes, cordas que vibram naturalmente no meu coração português, digamos, fadista. Cordas vocais, cordas de kora (e como este instrumento soa tantas vezes a... fado) e, principalmente, cordas escondidas na alma.

06 junho, 2006

Ali Farka Touré - À Espera de «Savane»


Enquanto não é editado o novo álbum de Ali Farka Touré, «Savane», recordam-se aqui alguns textos sobre este génio maliano recentemente falecido... O obituário a propósito da sua morte e a reportagem do África Festival do ano passado, em Lisboa, em que Touré foi o indiscutível cabeça-de-cartaz.


ALI FARKA TOURÉ (1939 – 2006)
(originalmente publicado em Março deste ano)

Ali Farka Touré, o genial músico que mostrou os «elos perdidos» entre a música sub-sahariana e os blues, morreu a semana passada. Mas o seu legado musical - e humano – permanecerá para sempre.

O músico e cantor maliano Ali Farka Touré morreu no dia 7 de Março, enquanto dormia, vítima de um cancro nos ossos de que já padecia quando fez a sua última digressão europeia, o ano passado, e que o trouxe a Lisboa para um memorável concerto em Monsanto. Nesse concerto, Ali Farka tocou para cerca de 10 mil pessoas em transe, em encantamento (no sentido mágico da palavra) permanente perante a música deste senhor que sabia que a sua música era uma forma de expressão muito antiga mesmo quando se socorria de uma guitarra eléctrica para a fazer. Ali Farka sabia-o e demonstrava-o na sua música e dizia-o nas raras entrevistas que dava (inclusive no episódio da série documental dedicada aos blues dirigida por Martin Scorsese): os blues norte-americanos (e por arrasto, o rock e muitas das formas «modernas» de música anglo-saxónica) tinham a sua origem ali, na parte de baixo do deserto do Sahara, nas margens do Rio Niger, onde África começa a ser negra. Ali, nas regiões do Império Mandinga onde os negreiros iam buscar os escravos que levavam para as Américas (do Norte e do Sul), indo com eles a sua música que depois se transformou em muitas músicas (os blues nos Estados Unidos e formas musicais sul e centro-americanas noutros países).

Nesse concerto em Monsanto, Ali Farka teve como convidado especial Toumani Diabaté, o mais respeitado instrumentista de kora do Mali, com quem Ali gravou em dueto o último álbum editado em vida, «In The Heart of The Moon» (recentemente premiado com um Grammy, o segundo da carreira de Ali Farka, depois de «Talking Timbuktu»). Para 2006 está prevista a edição de um novo álbum, gravado durante as mesmas sessões de «In The Heart of The Moon», mas com Ali Farka a ser acompanhado por dois tocadores de n’goni (pequena guitarra de madeira com 3 ou 4 cordas). Para trás ficou uma riquíssima discografia, parte dela editada apenas no Mali nos anos 70 e inícios dos anos 80. O reconhecimento internacional chega em meados dos anos 80, com a edição, através da World Circuit, de «Ali Farka Touré» (1987), a que se seguiram «The River» (1990), «The Source» (1992), «Talking Timbuktu» (1994; ao lado de Ry Cooder), «Radio Mali» (1996; que compilava gravações dos anos 70), «Niafunké» (1999), «Red & Green» (2004; recuperando dois álbuns, conhecidos como «Red» e «Green» devido à cor das suas capas, editados originalmente apenas no Mali) e «In The Heart of The Moon» (2005).

Ali Ibrahim Touré nasceu em 1939 (não se sabe ao certo o dia de nascimento), na aldeia maliana de Kanau, tendo sido o único sobrevivente de uma família de dez irmãos. Talvez por isso, os seus pais deram-lhe a alcunha de Farka, que significa «Burro» (e que na tradição do povo Arma, de que Ali era originário, significa «um animal forte e tenaz»). De religião muçulmana (religião que praticou durante toda a sua vida), Ali passou por bastantes dificuldades durante a infância e juventude. Perdeu o pai ainda criança e lançou-se à vida: foi mecânico, condutor de táxis e de ambulâncias. Mas a música surge-lhe como uma necessidade maior no início dos anos 60. Fez parte de várias bandas, foi artista residente na Rádio Mali, começou então a perceber os laços óbvios que uniam a música da sua região com a música norte-americanma que admirava (de John Lee Hooker a James Brown). E, mais importante ainda, sempre se assumiu como um cidadão e artista que, apesar de Arma, respeitava e amava as outras tribos e culturas do Mali. Ali Farka cantava em songhai, peul, bambara, fula, tamaschek e outras línguas da região. Essa abertura permitiu-lhe ser um dos artistas que contribuiu para a reconciliação nacional no Mali depois da mais recente revolta dos tuaregues. Um bom exemplo dessa reconciliação é o Festival no Deserto, que se realiza desde há alguns anos em Niafunké (e onde participam músicos de variadíssimas etnias malianas, para além de «habitués» como Robert Plant ou os franceses Lo’Jo, co-organizadores do festival), a localidade em que Ali Farka viveu durante muitos anos e cuja agricultura ajudou a desenvolver mercê de modernos sistemas de rega que implantou com o dinheiro que ganhava com a música. Ali Farka foi, nos últimos anos, presidente da câmara de Niafunké (facto «celebrado» no tema «Monsieur Le Maire de Niafunké», de «In The Heart of The Moon»).


COMO UMA RELVA QUE ONDULA
(publicado originalmente em Julho de 2005)

África Festival. Anfiteatro Keil do Amaral (Lisboa), 21 a 24 de Julho.

Vê-se a ponte sobre o Tejo, uma Lua enorme, aviões que passam de minuto em minuto ali mesmo em cima. E há 10 mil pessoas (talvez mais) a ondular à frente do palco. Lentamente, em movimentos vagamente circulares - de transe -, muitas de olhos fechados, algumas de mãos abertas, e todas de coração liberto por uma alegria ou uma fé ou uma revelação qualquer. Mas não estamos no Estádio do Restelo durante o encontro anual de uma seita religiosa. Estamos um bocadinho mais acima, em Monsanto, num belíssimo anfiteatro feito de relva e madeira e água e árvores, e ali à nossa frente está Ali Farka Touré, a sua voz e a sua guitarra eléctrica que convocam os espíritos dos músicos mandingas, dos músicos gnawa, dos vizinhos de ali à volta e dos outros, os primos que nos Estados Unidos criaram (ou recriaram) os blues. Ali Farka já está acima da música... está numa esfera diferente, em que a aura, o carisma, o encanto (e como ele está também encantado connosco!) fazem dele, mais do que um músico, um anjo. E um anjo amigo, que se apaga para deixar brilhar Bassekou Kouyaté em ngoni (pequena «guitarra» de duas cordas) e o convidado especial, na segunda «secção» do concerto, Toumani Diabaté, na kora (a harpa dos países mandingas) – e a repetição do tema «Gomni», uma sem e outra com Toumani, serviu para fazer perceber como a mesma canção pode ter formas tão diferentes (e ambas belíssimas). Aquilo a que estas 10 mil pessoas assistiram não foi na realidade um concerto, mas uma celebração religiosa. No final, Ali toca njarka (um «violino» só com uma corda) e diz que este instrumento foi o seu professor (foi da corda única da njarka que passou para as seis da guitarra).

Ali Farka Touré mereceu o «título» de cabeça-de-cartaz do África Festival, mas todos os outros estiveram também em bom nível. E sempre com muita gente a assistir. Manecas Costa mostrou a sua mestria na voz e guitarras, fazendo um concerto mais festivo do que alguns anteriores, com o n’gumbé guineense a sair muito bem servido (ai as bailarinas!!); e as Zap Mama mostraram que estão mais disco, mais funk, mais soul, até mais hip-hop (com um MC/DJ incendiário) e mais Broadway, embora as riquíssimas harmonias vocais das senhoras (e da filha de Marie, agora também integrada no grupo) ainda brilhem de vez em quando (como no encore). Os moçambicanos Mabulu mostraram que é possível fundir bem o antigo (a marrabenta) e o novo (o reggae, o dancehall, o hip-hop...) e fazer uma festa imensa com cada um dos ingredientes. Waldemar Bastos também animou as gentes, principalmente na segunda parte do seu espectáculo (depois do belíssimo coro de «Muxima») com sembas e «merengues» com «açúcar»; e o congolês Ray Lema foi um acólito de luxo (um Mozart-free vindo de África não se ouve todos os dias) no concerto conjunto com o brasileiro Chico César: nordeste brasileiro, jazz, África, reggae; festa sempre. E na última noite, Cabo Verde bem representado por Lura – que é um animal de palco (canta bem, dança bem...) e cruza com bom gosto funanás, coladeiras e batuque, sim, mas também mbalax e música brasileira – e por Tito Paris, acompanhado por banda, orquestra de câmara e secção de metais, um fantástico «wall of sound» a servir de base a temas como «Curti Bô Life», «Dança Ma Mi Criola» ou um sentido «Sodade» (no encore e em – segundo – dueto com o angolano Paulo Flores). A ondulação continua. E às vezes a relva pode crescer viçosa nas margens dos desertos ou no meio dos oceanos.