O texto que publiquei ontem no Raízes e Antenas provocou uma saudável discussão à volta da necessidade ou não de «padronizar» a gaita mirandesa. E, nesse sentido, hoje aqui fica publicado um texto de Jorge Lira - um dos principais mentores do projecto da chamada «padronização» - a rebater os meus argumentos e a esclarecer alguns pontos que permaneciam confusos. Texto que eu muito agradeço e que tenho a honra de publicar no Raízes e Antenas:
«Pareceu-me importante clarificar a poeira que em torno desta "padronização" se pretende eventualmente levantar. Saliento o seguinte: sendo eu alguém pessoalmente envolvido na Gaita Mirandesa – na autêntica, isto é, na "pré Galandum anos 90" e sobretudo "pré Associação Gaita de Foles após os anos 90", tendo tido a rara sorte e privilégio de poder conhecer os últimos gaiteiros, que aprenderam de rapazes antes da década de 50 do século passado, sei bem do que estou a falar.
Alguns dos actuais tidos como "velhos gaiteiros", designadamente, Sr. Ângelo Arribas de Picote e Sr. Aureliano Ribeiro, de Constantim, filho do Sr. Virgílio Cristal, meu grande amigo, iniciaram a aprendizagem e aprenderam a tocar a Gaita de Foles já depois de mim, e eu só tenho 40 anos! As primeiras palhetas do Sr. Aureliano Ribeiro, fui eu quem lhas fiz e dei e ensinei a fazer, tal como a mim houvera sido ensinado pelo Gaiteiro Tiu Joaquim de S. Joanico.
Por isso, sem mais alongamentos, se entenderá que falo de algo que para mim é orgânico. Tive essa imensa sorte.
Desde os anos 80 que o declínio era evidente.
As tentativas de Zé Preto+Galandum, anos 90, foram meritórias, mas iniciaram a desvirtuação do processo num sentido perigoso: com base em réplicas de uma réplica não rigorosa da Gaita de Alexandre Feio, e depois com base em afinações realizadas à vontade e gosto do meu grande amigo Paulo Preto (fomos colegas no Conservatório de Gaia, era ele o Mirandês mas era eu o Gueiteiro!) surgiram gaitas que em dois discos sequentes ("L’Prumeiro" e "Modas e Anzonas") fixaram para a posteridade uma sonoridade mais ou menos correcta em termos tímbricos, mas uma afinação desadequada à tradição. O que está escrito ou gravado tende a ser a verdade face ao que é imaterial, e isso começou-me a preocupar. Tudo isto feito com a melhor das intenções, e por grandes amigos que muito respeito, mas quiçá, irreversível.
Por outro lado, a Associação Gaita de Foles, também cheia de boas intenções, "inventa" uma gaita híbrida das tímbricas de Rodrigo Fernandes e das afinações… Sanabresas, da Gaita Sanabresa de Juan Prieto Ximeno. Aí as boas intenções começaram a encher o inferno a que o futuro duvidoso da verdadeira Gaita Mirandesa estaria votada se nada fosse feito. Tudo também cheio de magníficas vontades e gigantescas boas intenções, mas irreversível…
…É neste contexto, entendendo finalmente que era, por mero acaso, possuidor de um património de conhecimento sobre o assunto que seria relevante, que eu saio do meu "mutismo" (entenda-se, fase de investigação pessoal) de quase 20 anos e no final do L’Burro e L’Gueiteiro’2006 me junto com o Paulo Preto e lhe explico isto tudo. Esse homem que tenho a honra de ter por amigo, apesar da sua convicção na "sua" afinação mirandesa concordou em partir comigo para a aventura de um projecto de investigação em que esteve disposto a abdicar das suas pré-convicções (bem como eu das minhas) para obter conhecimento fundamentado e concreto: nada mais correcto do que ir às origens, do que ir em busca das (ainda) existentes, mas infelizmente, silenciadas ponteiras ancestrais. Como eu tinha acesso fácil a algumas (uma com 200 anos) e a outras, sabia onde as ir buscar, foi possível reunir a maior colecção de ponteiras mirandesas antigas e… analisar sistematicamente. Nunca havia sido feito: tal como é costume, um ou outro tinha trabalhado sobre UMA ponteira, assumindo-a como sua e ficado em redor desse "umbigo".
Os resultados foram surpreendentes: mitos caíram por terra: não só identificamos instrumentos seculares com evidentes provas de terem sido realizados pelo mesmo cosntrutor, como a maior parte desses instrumentos quando submetido a um teste de afinação em concreto e com variáveis definidas – por exemplo, A MESMA palheta, tende para uma mesma escala com divergências muito, muito pequenas.
Algumas afinam em uníssono. Eu e o Paulo Meirinhos estivemos a tocar em uníssono com duas ponteiras "históricas": a ponteira Paulino Pereira e a Ponteira Museu da Terra de Miranda 1. Não era novidade para mim: já em 1988 havia comprado ao Tiu Rodrigo uma que afinava tal e qual com a ponteira do meu velho mestre: e antes de a comprar levei-a a S. Joanico onde ele me disse "Yesta, La pudes cumprar, qué de las buonas" – ou seja, afinava pela dele… e com palhetas feitas artesanalmente, então…
A Padronização veio permitir dar luz e voz a instrumentos genuínos que estavam calados nas arcas das viúvas, dos herdeiros ou das prateleiras dos museus, e que a ponteira padronizada não é mais do que a afinação tendencial de todas as ponteiras identificadas, segundo o modelo unanimemente entendido como a melhor de todas, ou seja, a ponteira Paulino Pereira. Assim um pouco como aconteceu em Sanábria com a do Júlio Prada. Mas a padronização prevê duas vias de evolução com outras escalas alternativas e existentes no planalto, ou seja, não é uma redução, é um projecto plural e de evolução, a partir antes de mais da preservação absoluta de algo que estava em desaparecimento, que seria a verdadeira escala mirandesa, e não as suas reinvenções dos anos 90.
Assim sendo, creio poder afirmar sem sombra de dúvidas que a Padronização realizada antes de mais é um projecto de diversidade e de preservação cultural, e que outras leituras enviesadas apenas se podem fundamentar no desconhecimento do projecto ou na sua errada interpretação. Sei que o Termo "Padronização" é perigoso desse ponto de vista pois potencia essas leituras superficiais, mas na realidade não ocorre outro melhor…
Jorge Lira»
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06 novembro, 2007
05 novembro, 2007
Gaita Mirandesa - O Património Tem Que Ser Padronizado?

Não sou músico mas sou um amante de música, de várias músicas e de músicas muito diferentes entre si. E, dentro das muitas músicas, estou sempre mais do lado da diversidade do que da padronização, da criação sem barreiras do que do seguidismo rígido de normas, regras ou leis. E isto aplica-se, no meu modo de ouvir e gostar de música, a géneros musicais, a músicos e a instrumentos. Aprecio e amo, claro, muitas músicas de raiz mas também, e por vezes ainda mais, os desvios que depois nascem daí. Para dar alguns exemplos óbvios, no rock gosto mais das guitarras distorcidas, transformadas ou até maltratadas do Jimi Hendrix, dos Jesus and Mary Chain e dos Sonic Youth do que das guitarras limpinhas de milhares de outros. Quer dizer, da diferença de timbres, da invenção de novas sonoridades, da criação de outras harmonias à custa de alterações no modo de tocar guitarra eléctrica ou até da própria guitarra (como nos Sonic Youth, com as guitarras «preparadas» ao jeito dos pianos «preparados» de John Cage).
Vem isto a propósito de um congresso sobre a gaita mirandesa que decorreu este fim-de-semana em Miranda do Douro - o I Congresso Internacional da Gaita-de-Foles -, que trouxe uma notícia boa - o reconhecimento oficial da gaita mirandesa como ícone cultural de Trás-os-Montes - e uma, paralela, que não é, na minha singela opinião, assim tão boa, antes pelo contrário: «a partir de agora passa a haver normas para a construção e timbre deste instrumento tradicional transmontano», refere a agência Lusa, que cita ainda o coordenador do projecto, Jorge Lira, que diz: «Este (a gaita mirandesa) é um património genético que seria lamentável deixá-lo perder pela incapacidade de o normalizar e sermos substituídos na nossa originalidade por instrumentos provenientes de outros locais da Europa, que são respeitáveis, mas que não são nossos».
O argumento de Jorge Lira é bom e parece imbatível, mas a grande questão, aqui, é: porque é que se padroniza a sonoridade de um instrumento que, na sua raiz, na sua origem, tem já em si essa diversidade tímbrica, geradora de melodias diferentes, de sensações diferentes, de música diferente?... É o mesmo que dizer ao Jimi Hendrix (sim, lá onde ele estiver), aos irmãos Reid ou ao Lee Ranaldo e ao Thurston Moore: «vamos lá estar quietinhos, tocar isso muito bem afinadinho e deixar estar as Fenders e as Gibsons tal como elas são, sem essas coisas de tocar com um isqueiro Zippo, levar os amplificadores ao máximo e meter pregos por entre as cordas». E o mais grave é que na questão da gaita mirandesa - ao contrário do que se passa no exemplo dos guitarristas rock - não se parte da norma para o desvio mas dos desvios primordiais e antigos para uma norma. Repito: não sou músico, mas não me agrada nada a ideia de começar a ouvir as gaitas mirandesas todas a soar ao mesmo, tal como soam as gaitas galegas ou as gaitas escocesas. Até percebo que haja uma necessidade de se fazer isso numa primeira fase, para efeitos de aprendizagem, mas com a esperança de que depois cada gaiteiro toque a sua e à sua maneira, gaitas diversas tocadas de maneiras diversas por gaiteiros diversos... E assusta-me um bocado a ideia de ver um dia um grupo de gaiteiros transmontanos em alegre procissão, todos vestidinhos da mesma maneira e a tocar muito afinadinhos gaitas todas iguais. Não sei bem porquê, mas assusta-me.
(Nota: a imagem que encabeça este post foi retirada do site da Associação Gaita-de-Foles)
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