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23 abril, 2011

Flamenco, Rumba Catalã, Folk e... Fado Vindos de Espanha


Hoje recupero aqui quatro textos publicados originalmente na Time Out Lisboa, todos a propósito de artistas de vários territórios espanhóis e de diversas áreas musicais: críticas a álbuns da maravilhosa cantora de flamenco Concha Buika, da herdeira do espítito dos L'Ham de Foc, Mara Aranda, e dos rumberos catalães Sabor de Gràcia, para além de uma entrevista com a fadista basca María Berasarte (na foto), que depois da edição deste álbum "Todas Las Horas Son Viejas" passou a integrar o projecto Aduf, de José Salgueiro.

Buika
"El Último Trago"
Casa Limon

Abençoada hispanidade que permite a junção de personagens musicais como estas e deste calibre para a realização de um álbum genial: o produtor espanhol Javier Limón (o mesmo que trabalhou no último álbum de Mariza), a extraordinária cantora de flamenco e não só Concha Buika e o fabuloso pianista cubano Chucho Valdés, mais a sua banda, juntaram-se para um disco de homenagem às canções de Chavela Vargas (a lendária cantora nascida na Costa Rica mas mexicana de alma). E o resultado é absolutamente sublime! Ouve-se este disco e, nele, as canções interpretadas por Chavela – e nem por isso as mais óbvias, faltando aqui “La Llorona”, por exemplo – ganham outras cores e sabores com as rancheras e outros ritmos do México a encontrar o flamenco, a rumba, o tango, o jazz. (*****)


Sabor de Gràcia
"Sabor Pa'Rato"
World Village/Harmonia Mundi

A rumba catalã – que está bem presente na música dos Ojos de Brujo mas também aparece como referência recorrente na música de Manu Chao, Amparanoia ou Macaco – tem nos Sabor de Gràcia uns mais que dignos representantes. Ciganos que homenageiam no seu nome o bairro de Barcelona onde os gitanos mesclaram vários palos do flamenco com a salsa e outros ritmos latino-americanos, os Sabor de Gracìa têm neste seu quarto álbum, "Sabor Pa'Rato", uma abordagem à “tradição” (mesmo que nascida nos anos 50 do Séc. XX) semelhante à que os Oquestrada fazem do fado e das marchas: estão lá o rock, o funk e outras músicas mas também o respeito por ícones como Peret e Gato Pérez e, como convidados, Marina Cañailla (Ojos de Brujo), o brasileiro Wagner Pá ou Los Manolos. (***)


Mara Aranda & Solatge
"Dèria"
Galileo

Durante muitos anos foi uma das metades dos L'Ham de Foc, ao lado de Éfren López, com quem viajou pelas músicas da sua cidade (Valência) mas também de outras sonoridades ibéricas, gregas ou árabes, sempre com a memória da música medieval por trás e os ensinamentos dos Hedningarna e dos Dead Can Dance pela frente. E, com ou sem López, entrou noutras aventuras como os Aman Aman (música espanhola, grega e do resto da baía do Mediterrâneo) ou o Al Andaluz Project (música da Andaluzia da Idade Média, num convívio de géneros cristãos, muçulmanos e judeus). Agora, no álbum de estreia do primeiro projecto de Mara em nome próprio (com os Solatge) tudo isto lá continua, vivo e sempre selvaticamente acústico. É um álbum sisudo mas também há lugar para o divertimento gaiato de um fandango. (****)



María Berasarte
O fado que vem do País Basco


Há alguns, mas não muitos, os álbuns de fado gravados por artistas estrangeiros. Mas raros serão os que têm a qualidade, a ousadia e, ao mesmo tempo, um amor tão grande por este género português quanto "Todas Las Horas Son Viejas", disco de estreia da cantora basca María Berasarte, com produção de José Peixoto e letras originais, em castelhano, de Tiago Torres da Silva. Nele, não há guitarra portuguesa, mas há fados tradicionais de Lisboa em novas roupagens e uma belíssima voz a coroar isto tudo. Carlos do Carmo chama-lhe fadista.

O que é que leva uma rapariga basca a interessar-se por um género como o fado?

A minha mãe é galega e tive sempre uma relação muito estreita com Portugal. E desde há muito que comecei a ouvir fado e a apaixonar-me por esta linguagem, que é belíssima. Também gosto de flamenco, mas este é mais duro; gosto mais das melodias do fado. E, quando comecei a falar sobre o que seria o meu primeiro disco, a minha mãe disse-me “Maria, tens que gravar um disco de fados”. Primeiro, não liguei muito mas... isto ficou a maturar na minha cabeça.

Lembra-se de qual foi o primeiro fado que ouviu ou qual a primeira ou primeiro fadista que ouviu?

Foi a Amália Rodrigues. E coincidiu mais ou menos com uma altura em que a Dulce Pontes estava a ter muito sucesso em Espanha com a “Canção do Mar”. Estamos a falar de há treze anos e, nessa altura, não havia muitos discos de fado em Espanha. Mas eu comecei a comprar todos os que encontrava. E aprendi a cantá-los!

Antes da entrevista começar, disse que não quis fazer um disco de fado tradicional porque já há muitos e muito bem feitos. Este álbum, apesar de ter o fado como base navega também por outras músicas como o tango, o flamenco, a música árabe... Acha que há ligações entre todos estes géneros?

Sim. Principalmente, entre as músicas que nascem em cidades portuárias. Sevilha, onde nasceu o flamenco, foi um porto importantíssimo. Lisboa também; Buenos Aires também... as viagens que as músicas
fazem enriquecem-nas. Mas não houve nenhuma intenção inicial de irmos a essas ou outras músicas. A ideia era: vamos tocar, vamos sentir e aí vamos ver o que acontece... Poderíamos ter ido por um lado como por outros. Mas, sendo espanhola e não sendo fadista, tenho mais liberdade para percorrer esses caminhos...

“Fadista” é um carimbo muito forte...

Sim, eu prefiro dizer que sou cantora; também pela liberdade que me dá. Mas quando o Carlos do Carmo me apresentou (NR: no espectáculo comemorativo dos seus 45 anos de carreira) como uma “fadista espanhola” senti um grande orgulho! E participar nessa festa foi é importantíssimo para mim.

O José Peixoto esteve sempre nas margens do fado – lá perto mas sem lá estar. Com os seus projectos a solo, com os Madredeus, o Sal... Ele era o parceiro perfeito para esta aventura, não era?

Sim, claro. Ele foi importantíssimo em tudo isto. Costumo dizer que foi o pai do disco. Os arranjos, a produção, a sonoridade, o sentimento... E acho que para ele também foi importante, porque acho que foi a primeira vez que trabalhou sobre composições feitas há já muito tempo (NR: todas as músicas do disco são fados tradicionais de Lisboa).

Continuando na “família” que fez este disco, se a mãe é a María, se o pai é o José Peixoto, também há um tio...

Que é o Tiago Torres da Silva. Ele deu-nos muita força para fazermos o disco e arriscou ainda mais do que nós, ao fazer letras originais para aqueles fados, directamente em castelhano. E, ainda mais, a fazer letras pensando em mim. Eu gosto de cantar coisas com que me identifico e ele conseguiu conhecer-me.

O disco está a ser agora editado em Portugal e já foi editado em Espanha. Acha que Espanha já está suficientemente familiarizada com o fado para aceitar um álbum como este e... cantado em espanhol?

Em Espanha há muita gente que conhece e gosta de fado. Mas há muita gente que não percebe as palavras do que se canta. Gosto desta ideia de poder explicar, e em castelhano, do que é que o fado fala.

20 fevereiro, 2011

E a Música... Celta?

Sim, eu sei... Ah, e tal, só há por aqui música africana e sul-americana e indiana e etcetera... Então e os "celtas", mesmo que misturados com outras músicas?? Ora aqui estão eles, os celtas, em textos publicados originalmente na "Time Out":


The Chieftains & Ry Cooder
"San Patricio"
Universal Music
Ao longo da sua enorme e frutuosíssima carreira, os irlandeses The Chieftains já cruzaram a sua música – e, por arrasto, a música irlandesa – com muitas outras músicas (do rock dos Rolling Stones e outros a uma orquestra chinesa ou a irmãos “celtas” da Bretanha, Escócia ou Galiza). E, no seu novo e magnífico "San Patricio", ao lado de Ry Cooder e de muitíssimos músicos e cantores mexicanos (das inevitáveis Lila Downs e Chavela Vargas a bandas de mariachis e rancheras ou uma fanfarra de gaitas-de-foles), os Chieftains contam em música - também ela bela e trágica – a trágica e bela história dos San Patricios, batalhão de soldados irlandeses que lutou, na primeira metade do Séc. XIX, ao lado dos mexicanos contra o exército ianque. É um álbum conceptual que vai muito além do seu “conceito”. E, por isso, belíssimo! (*****)


Vários
"The Rough Guide to Scottish Folk"
Rough Guides/World Music Network/Megamúsica




Quando se ouve falar de folk escocesa, a óbvia imagem recorrente é a de um gaiteiro de kilt e com o nariz avermelhada pelo velho e bom scotch... Nesta colectânea – mais uma da série “Rough Guides” dedicada à Escócia – também há gaitas (por exemplo, logo ao segundo tema, de Wendy Stewart e Gary West), mas há também muitas outras músicas desenvolvidas a partir da (outra) tradição escocesa: das maravilhosas cantoras Karine Polwart, Lori Watson, Heather Heywood e Julie Fowlis... a instituições como a Battlefield Band e Ossian ou o lendário Jim Reid (não confundir com o homónimo dos Jesus & Mary Chain), numa interpretação fabulosa de “The Wild Geese/Norland Wind”. Esta colectânea inclui ainda um CD-bónus da cantora Maggie MacInnes. (****)



Bob Brozman, John McSherry & Dónal O'Connor
"Six Days In Down"
Riverboat/World Music Network/Megamúsica

Dono de uma invejável colecção de cordofones de todo o mundo e de um ainda mais invejável currículo de gravações e colaborações com gente de todo o lado – do indiano Debashish Bhattacharya ao griot Djeli Moussa Diawara, passando por músicos do Japão, Papua Nova Guiné ou Ilha Reunião – o guitarrista norte-americano Bob Brozman assina agora um belíssimo álbum ao lado de dois grandes músicos irlandeses – John McSherry na uillean pipe (a gaita-de-foles irlandesa) e o violinista Dónal O'Connor--, a quem se junta pontualmente a cantora Stephanie Makem. E o resultado surpreende: a guitarra slide de Brozman une-se aos outros instrumentos numa fabulosa celebração da folk dita “celta” em cruzamento com a country ou o bluegrass mas também com ligações... à música árabe a à música mandinga! (*****)


The Imagined Village
"Empire & Love"
EEC Records

Num formato adaptado às exigências de sucessivos concertos – Paul Weller, Billy Bragg ou o mestre do dub Benjamin Zephaniah já não estão presentes –, o projecto The Imagined Village chega a este segundo álbum, "Empire & Love", desfalcado de alguma da liberdade estilística que teve na estreia, ainda sob o guarda-chuva da Real World, mas mantendo intactas várias das suas figuras de proa. Simon Emmerson (dos Afro Celt Sound System) continua a capitanear o barco, ao lado de Martin Carthy e da sua filha Eliza Carthy, Simon Richmond e Chris Wood e o contraponto dado por vários músicos indo-paquistaneses. E a fórmula – tablas vs. violino, tradicionais britânicos vs. ragas apimentadas e açafronadas em electrónica – continua a resultar. O império encontra o mistério. (****)

24 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXVI.1 - Aisha Kandisha's Jarring Effects



O rock é uma realidade global que «contaminou» - assim como muitos dos seus derivados - muita da música que se faz hoje em dia. E, no interminável mundo das fusões de músicas locais com o rock (e derivados), os marroquinos Aisha Kandisha's Jarring Effects são um dos exemplos mais interessantes: começando por fazer música tradicional shabee, durante os anos 80, o seu primeiro álbum, «El Buya», de 1990 foi produzido pelo suiço Pat Jabbar (o mesmo que trabalha agora com os Maghrebika), que mergulhou a música do grupo num molho de dub, rock e electrónicas, com excelentes resultados. No álbum seguinte, «Shabeesation», de 1992, os Aisha Kandisha's Jarring Effects tiveram a colaboração do incansável Bill Laswell (o homem das mil colaborações e produções), álbum em que também colaboraram membros dos Last Poets e dos Parliament. Hoje, os A.K.J.E. continuam de boa saúde e a trilhar os mesmos caminhos.

Cromo XXVI.2 - Tsinandali Choir



Tentar fazer a viagem dos cantos polifónicos europeus é uma experiência fascinante: pode começar-se pelo Alentejo, seguir pela Córsega e a Sardenha, parar para beber da beleza das vozes femininas na Bulgária e acabar na Geórgia, antiga república da União Soviética. Aqui, na Geórgia, o ponto de paragem obrigatório é a cidade de Tsinandali (na região da Kakhetia), conhecida no exterior pelo seu vinho e, desde que Peter Gabriel editou na Real World o único álbum do Tsinandali Choir, em 1993 (reedição de um disco originalmente lançado em 1988 apenas na Geórgia), também pela sua maravilhosa música. Grupo apenas de homens, que cantam a capella, o Tsinandali Choir faz justiça à sua origem e neste disco interpreta as chamadas «canções de mesa», isto é, odes ao vinho que congregam os amigos nas noites frias do Leste, depois de uma noite de muita comida e ainda mais bebida. É belíssimo!


Cromo XXVI.3 - Mickey Hart



Ao longo dos tempos, muitos foram os artistas anglo-saxónicos que se apaixonaram pelas chamadas «músicas do mundo». George Harrison, Robert Plant, Brian Jones, David Byrne, Paul Simon ou Peter Gabriel estão do lado dos mais conhecidos... Mas houve e há muitos outros, menos conhecidos, mas tão ou mais importantes que estes no cruzamento de variadíssimas linguagens musicais. Entre eles está, na linha da frente, o baterista, percussionista, escritor e musicólogo norte-americano Mickey Hart (nascido a 11 de Setembro de 1943). Membro dos Grateful Dead entre 1967 e 1971, e, depois, entre 1974 e 1995, Hart teve no mítico percussionista Babatunde Olatunji uma das suas maiores influências. E, ao longo da última década e meia, gravou álbuns importantíssimos com alguns dos mais importantes percussionistas mundiais. A conhecer (pelo menos estes álbuns): «Planet Drum», «Mystery Box» e «Supralingua».


Cromo XXVI.4 - Chavela Vargas



Nascida na Costa Rica (em San Joaquín de Flores, a 17 de Abril de 1919), mas mexicana por adopção e paixão, Chavela Vargas - de verdadeiro nome Isabel Vargas Lizano - é a maior lenda viva da música tradicional do México, especialmente da música ranchera, um estilo feito de canções de amores fatais e geralmente reservada aos homens. Há poucos anos, Chavela revelou numa entrevista aquilo de que muita gente suspeitava devido ao facto de quase sempre se ter vestido como um homem: ser lésbica. Assim como se ficou a saber que, durante a sua juventude, foi amante da pintora Frida Khalo (e ironicamente, ou talvez não, Chavela tem um dos seus momentos de maior reconhecimento internacional ao cantar no filme «Frida», de Julie Taymor). Mas isto são apenas pormenores, se bem que reveladores, da vida de uma mulher cuja força maior está na sua voz marcante, pessoal, inesquecível. A Mulher do Poncho Vermelho.