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04 julho, 2010

Sons do Atlântico, Bons Sons, Intercéltico de Sendim e Povo que Lavas no Rio Águeda: o Verão 2010 Tem Tudo!

Ora bem! Há tanta informação para dar (e tanta outra que fica de fora!) que temos que ir por partes...



Parte 1:

SONS DO ATLÂNTICO (5, 6 e 7 de Agosto, Porches, Lagoa)

Os tuaregues malianos Tinariwen que actuam no FMM de Sines a 30 de Julho participam, uma semana depois, no Festival algarvio Sons do Atlântico, que se realiza este ano entre os dias 5 e 7 de Agosto, no promontório de Nossa Senhora da Rocha, Porches, Lagoa.

Os tuaregues malianos terão a companhia no primeiro dia (quinta-feira, dia 5) do guineense e lisboeta Kimi Djabaté que inaugura esta edição do Sons do Atlântico.

Na sexta-feira, dia 6, encontra-se duas distintas vozes nacionais. A algarvia que Viviane que funde fado com tango e uma das mais interessantes novas vozes do fado: Carminho (na foto).

No sábado, dia 7, o Sons do Atlântico encerra com a fanfarra sintrense Kumpania Algazarra e com o cabo-verdiano Tito Paris.(Fonte: Crónicas da Terra)

Nota: Não está aqui em cima, mas o Clube Conguito (DJs António Pires e Rodrigo Madeira) encerra o Sons do Atlântico com um set que tem por mote provisório - e provisório porque se calhar vamos mesmo acelerar até cair! - "Devagar se vai ao Lounge" :)




Parte 2:

BONS SONS (20, 21 e 22 de Agosto, Cem Soldos, Tomar)

Neste ano o BONS SONS faz a festa da multiculturalidade com Princezito (Cabo Verde), Melech Mechaya, Drama & Beiço e Terrakota. Explora, transforma as linguagens da música portuguesa com Danças Ocultas (na foto), Diabo na Cruz, Dazkarieh, Diabo a Sete ou com o consagrado Fausto. Celebra manifestações vivas do património musical português com Adufeiras de Monsanto e Cantares Alentejanos de Serpa. Brinda-nos com momentos mais acústicos com os concertos de Norberto Lobo, Dead Combo, Lula Pena e B Fachada, e alarga as noites com os DJ’s com Nuno Coelho, MissBoopsieCola e BlackBambi.

Mas há mais! Para além dos concertos ao ar livre, estarão disponíveis outras formas de vivência da música e da aldeia. Falamos de espectáculos de dança, música para bebés, exposições de artes gráficas, projecção de curtas-metragens, feira das marroquinarias, entre outras propostas.

Bilhetes à venda: Sede do SCOCS em Cem Soldos, Turismo de Tomar, Fnac, Ag. ABREU, Worten, C.C. Dolce Vita, Megarede, El Corte Inglês (Lisboa e Gaia) e em www.tickeline.sapo.pt / Reservas: 707 234 234.

Bilhete diário: 6€*
Bilhete geral: 10€*
*Com acesso gratuito ao Parque de Campismo.




Parte 3:

FESTIVAL INTERCÉLTICO DE SENDIM (30 e 31 de Julho, Sendim, Terras de Miranda)

...porque a folk merece um festival assim!


Para iniciarmos uma nova década de celebrações musicais intercélticas em terras de Sendim, na finisterra mirandesa de Trás-os-Montes, a opção fundamental da programação recaiu maioritariamente sobre jovens formações musicais provenientes de distintas geografias ibéricas apostadas em contribuir, com as suas múltiplas propostas, para se alargarem as margens expressivas da música de matriz folk dos nossos dias.
Interessaram-nos sobretudo aqueles projectos que olham o futuro a partir das raízes e que se acercam das encruzilhadas não para se instalarem no conforto dos limites mas antes para descobrirem o sortilégio da partilha intercultural.
Arrancamos com uma afirmação de vontade de tocar e de reinventar a música portuguesa de raiz tradicional (Diabo a Sete), detemo-nos nas seduções das rotas do contrabando cultural que recusa as fronteiras que não raro ignoram contextos de afinidades com seculares origens (Xarnege; na foto) e logo mais acabamos rendidos à sedução de um grito interno que se afirma como expressão actual de uma respiração cultural que resgata das memórias a essência vital do presente (Mercedes Péon). Nas transumâncias destes dias (re)descobrimos quão reconfortantes são as rotas da interculturalidade (Uxu Kalhus), porventura hesitando entre os apelos das terras e os chamamentos das costas de renovadas navegações (Garma), mas com a certeza de que longa vida da Oysterband é um poderoso tónico para a folk dos nossos dias e de sempre.
No final das viagens que propomos bastar-nos-á a confirmação de uma daquelas certezas (ou verdades?) que adoptamos como princípio orientador da saga em terras de Sendim: quem não semeia o progresso faz morrer a tradição.
Cumpram-se, pois, as celebrações sendintercélticas em 2010 sob o signo da (re)descoberta permanente dos sons que fazem vibrar o cristal de um tempo que queremos viver com a máxima plenitude intercultural. Acreditamos - continuamos a acreditar! - que esta é a grande verdade do Festival Intercéltico de Sendim - Terras de Miranda.

PARQUE DAS EIRAS
€ 12,50 por noite

30 Julho
22h30: Diabo a Sete (Portugal)
23h30: Mercedes Péon (Galiza)
00h30: Xarnege (Euskadi/Gasconha)

31 Julho
22h30: Uxu Kalhus (Portugal)
23h30: Oysterband (Inglaterra)
00h30: Garma (Cantábria)


CONCERTOS PARALELOS

Oficina de Danças Tradicionais (Uxu Kalhus)
31 Julho: 16h00 - Local: Largo da Igreja

Gaiteiricos Mirandeses
31 Julho: 18h00 - Local: Largo da Igreja

Animação de Rua: Gaiteiricos Mirandeses
31 Julho: 21h30 - Desfile: Largo da Igreja/ Parque das Eiras


BARDOFOLK

Poções mágicas para todas as sedes....
Parque das Eiras: 30 e 31 de Julho e 1 de Agosto...

OUTRAS ACTIVIDADES

Curso de Iniciação à Língua Mirandesa
Salão dos Bombeiros Voluntários
31 Julho: 10h30/12h30 - 15h00/19h00
1 Agosto: 10h30/13h00

Passeio Pedestre: La Ruta de ls Celtas
31 Julho - Saída: Junta de Freguesia: 9h00

Lançamento de Livros e Discos
31 Julho: 11h30 - Local: Balões da Cooperativa Ribadouro

Homenagem ao Gaiteiro da Póvoa Delfim de Jesus Domingues
31 Julh0: 16h00 - Local: Casa do Pauliteiro

Pintura de Luís Ferreira: Um Artista Sendinês
Local: Casa da Cultura de Sendim
30/31 Julho e 1 Agosto: 15h00/20h00


Parte 4:

POVO QUE LAVAS NO RIO ÁGUEDA (Águeda, 16 e 17 de Julho)

O imponente espectáculo inter-associativo que Águeda constrói, a cada ano, sobre as águas do seu rio, tem nova edição em 2010. Um musical exuberante, contemporâneo e visual, inspirado no repertório musical de todos os tempos dedicado ao imaginário ribeirinho: “Povo Que Lavas no Rio Águeda” (na foto: Mário Abreu/d'Orfeu 2009). A 16 e 17 de Julho de 2010, na antiga piscina fluvial, terá lugar mais um evento para a história cultural de Águeda.

[ler apresentação integral em http://povoquelavasnorioagueda.blogspot.com/]

POVO QUE LAVAS NO RIO ÁGUEDA
2 únicas apresentações: 16 e 17 Julho 2010, 22h00

lotação máxima de 1200 lugares por noite

BILHETES À VENDA
preço único 3€
na Câmara Municipal de Águeda
na Biblioteca Municipal Manuel Alegre
nas Piscinas Municipais de Águeda
no Agitágueda (a partir de 3 Julho)

16 junho, 2010

FMM de Sines - O Programa Completo!


Aqui vai!

"FMM SINES 2010

Entre 28 e 31 de Julho, a grande música do mundo volta a Sines,
capital nacional da “world music”

Considerado “o mais arriscado festival nacional” na sua programação
(Público, 2009), o FMM Sines – Festival Músicas do Mundo prepara-se
para voltar a surpreender os espectadores com os 26 espectáculos da
12.ª edição, marcada para quatro intensos dias de música - 28, 29, 30
e 31 de Julho de 2010 - nos palcos do Castelo medieval e da Praia
Vasco da Gama, em pleno coração do centro histórico de Sines.

Os congoleses Staff Benda Bilili, o mais premiado grupo do ano, a
lenda do reggae U-Roy, The Mekons, banda britânica que partiu do
pós-punk para a fundação do movimento alt-country, e Tinariwen (na foto),
expoente contemporâneo dos blues do deserto, são alguns destaques da
programação.

Menção especial ainda às norte-americanas Las Rubias del Norte e aos
timorenses Galaxy, que fazem em Sines a sua estreia europeia, e aos
vários projectos que pisam no FMM pela primeira vez palcos nacionais,
conjunto em que se incluem o fenómeno brasileiro Forro in the Dark,
uma das maiores “cantaoras” do flamenco, Lole Montoya, os peruanos
Novalima, o “joiker” finlandês Wimme e a mais subversiva orquestra
latina da actualidade, Grupo Fantasma.

ALINHAMENTO COMPLETO DE CONCERTOS

28 de Julho (quarta-feira)

Em 2010, cabe a Vitorino, um dos maiores criadores e intérpretes da
música portuguesa, iniciar o alinhamento de concertos com um
espectáculo na quarta-feira, dia 28 de Julho, às 18h00, no Castelo.
Nesta presença no FMM, Vitorino faz a estreia nacional do seu novo
projecto, dedicado ao cante alentejano, na companhia de um grupo coral
do Redondo. É também a estreia dos concertos vespertinos no Castelo,
que ao longo do FMM 2010 permitirão ao público desfrutar de uma das
horas em que este palco tem maior beleza cénica, o cair da tarde, em
espectáculos de entrada livre.

A Vitorino segue-se a banda luso-moçambicana Cacique ’97, que actua às
19h30, no palco da Av. Vasco da Gama, marginal da praia do mesmo nome.
Uma das grandes revelações recentes da música feita em Portugal,
Cacique’97 celebra a mestiçagem lisboeta através do cruzamento do
afrobeat de Fela Kuti com várias tradições lusófonas.

Às 21h30, o palco do Castelo recebe o projecto Nat King Cole en
Espagnol. Dirigido pelo saxofonista e director David Murray, figura
central do jazz contemporâneo, celebra a veia latina da obra de Nat
King Cole com a participação de um grupo de elite de músicos cubanos e
da Sinfonieta de Sines, uma orquestra de cordas formada no seio da
Escola das Artes de Sines. Trata-se de um concerto integrado no
Programa de Regeneração Urbana de Sines.

Às 23h00, é a vez das nova-iorquinas Las Rubias del Norte, que fazem
em Sines a sua estreia em palcos europeus. Com “Ziguala”, o disco que
lançaram em Março, na bagagem, mostram a sua visão de como seria hoje
a expressão global da música se a revolução do rock n’ roll não
tivesse derrubado o poder latino de meados do séc. XX.

Na melhor tradição da MPB, em diálogos com o reggae e a música
electrónica, Céu é uma estrela da nova música brasileira, aclamada
pela crítica e responsável pela melhor posição de um artista
brasileiro na tabela principal da Billboard desde Astrud Gilberto, nos
anos 60. Às 00h30, mostra no palco do Castelo o seu novo disco,
“Vagarosa”.

O primeiro dia de música termina na praia, no palco da Av. Vasco da
Gama, às 02h30, com Novalima, projecto peruano que junta um grupo de
músicos da nova geração aos melhores músicos tradicionais da
comunidade negra para trazer para as pistas música de dança assente na
rica herança afro-peruana. É uma estreia em Portugal.

29 de Julho (quinta)

Na quinta-feira, 29 de Julho, o concerto vespertino do Castelo
(18h00), traz-nos tango. O quinteto argentino 34 Puñaladas regressa a
Sines para apresentar “Bombay Bs.As.” (2009), um dos discos do género
mais aclamados dos últimos anos.

A seguir, com o sol ainda a pôr-se no horizonte, o público desce à
praia para ouvir o finlandês Wimme. Revelação dos “charts” europeus de
música do mundo em 2010, com o disco “Mun”, o “joiker” Wimme Saari e o
seu grupo transportam para o palco da Av. Vasco da Gama o poder
xamânico do canto do povo Sami, num concerto marcado para as 19h30.
Estreia nacional.

A segunda noite de música no Castelo arranca às 21h30 com uma grande
diva das músicas do mundo. Considerada “uma das melhores cantoras do
Médio Oriente” (The Guardian), a israelita Yasmin Levy promove o
encontro entre a música de tradição judaico-espanhola e o flamenco. O
repertório do seu último disco, “Sentir” (2009), estará em evidência.

Às 23h00, é a vez de uma aposta do FMM 2010, o projecto de fusão
N’Diale, onde o quarteto do violinista Jacky Molard, um dos maiores
músicos bretões, se junta ao trio da cantora maliana Founé Diarra num
espectáculo acústico de excelência. O disco de estreia, que tem o nome
do projecto, foi lançado em Março, e será a base do espectáculo. Mais
uma estreia em Portugal.

Às 00h30, sobe ao palco uma banda que marca a música popular dos
últimos 35 anos. Grupo de vanguarda do pós-punk e, numa segunda vida,
fundadores do movimento alt-country, os britânicos The Mekons são
conhecidos pelas suas grandes apresentações ao vivo e este concerto já
deverá trazer canções do seu 27.º disco, a lançar nos próximos meses.

Como de costume, a música acaba na praia, às 02h30. Do Texas para o
mundo, Grupo Fantasma, a mais subversiva orquestra latina da
actualidade, “versão séc. XXI do groove latino” (Boston Globe), faz a
festa com a sua mistura explosiva de “latinidad”, jazz, funk e rock
psicadélico, bem patente no seu quinto disco “El Existencial”, que
editaram em Maio. É a primeira vez que actuam em Portugal.

30 de Julho (sexta)

Sexta-feira, dia 30, a música começa com Kimi Djabaté, às 18h00, no
Castelo. Um dos artistas emergentes do circuito das músicas do mundo,
o cantor e guitarrista guineense sobe ao palco com o disco “Karam” na
mão para demonstrar por que está a conseguir colocar a Guiné-Bissau na
1.ª divisão do panorama competitivo da música de tradição mandinga.

Responsável por “Music Maelström”, um dos discos surpresa de 2010, a
jovem artista francesa Dorothée (que tem no anagrama The Rodeo o seu
nome artístico) apresenta, às 19h30, no palco da praia, uma
reinterpretação muito pessoal da grande tradição musical
norte-americana.

Às 21h30, no Castelo, o guitarrista nova-iorquino Dan Kaufman e a sua
banda Barbez, formada em 1997 por músicos com um percurso no jazz, no
rock e na música clássica, oferecem um espectáculo com música de
ambientes nocturnos que busca inspiração em referências tão diferentes
quanto Kurt Weill, Black Sabbath e Godspeed You! Black Emperor.

Considerada a melhor artista asiática nos prémios da BBC Radio 3 em
2008, Sa Dingding é uma das vozes mais importantes da música chinesa
contemporânea com raízes na tradição. O álbum que a traz ao FMM,
“Harmony” (2009), centra-se na relação entre os homens e a natureza e
junta as raízes chinesas com a música electrónica. A descobrir a
partir das 23h00.

Os tuaregues malianos Tinariwen hipnotizam o Castelo às 00h30.
Superando Bob Dylan, Animal Collective e Grizzly Bear, entre outros,
para conquistar o prémio da revista Uncut para melhor disco de 2009,
“Imidiwan”, a mais genial banda do deserto do Sahara faz a síntese
entre as músicas da África Ocidental e do Magrebe, o rock e os blues.

A noite continua às 02h30, na praia, com mais uma estreia nacional.
Formado por quatro músicos brasileiros a viver em Nova Iorque, o grupo
Forro in the Dark abriu os horizontes do forró nordestino, cruzando-o
com o dub, o indie rock, o funk e outras músicas para produzir um som
que já é um fenómeno global. O disco “Light a Candle” (2009) é o prato
forte.

Às 04h00, o palco da praia encerra com o trio de DJ’s português
Bailarico Sofisticado, conhecido pelos seus “sets” eclécticos, onde as
músicas do mundo dialogam sem complexos com outras vertentes da música
popular, numa presença que é já habitual nas noites de dança do FMM e
que este ano traz como convidada a Dj Selecta Alice.

31 de Julho (sábado)

O último dia do FMM 2010 começa no Castelo, às 18h00, com Guadi
Galego. Autora de “Benzón”, vencedor do prémio de disco folk do ano
nos prémios Opinión da Música, em 2009, a antiga cantora dos
Berrogüetto, grupo de referência da folk europeia, é a grande voz
galega da nova geração.

Na praia, o concerto das 19h30 é especial. Mistura de ritmos
tradicionais do povo Fataluku, clássicos da resistência, reggae, rap,
funk e rock, Galaxy é o grupo mais importante da música moderna
timorense e faz a sua estreia portuguesa e europeia em Sines, com o
alto patrocínio da Presidência e do governo de Timor-Leste.

Uma das maiores “cantaoras” da história do flamenco, par de Manuel
Molina no duo mítico Lole y Manuel e no arranque do movimento Novo
Flamenco, Lole Montoya apresenta no FMM o seu projecto a solo, no
Castelo, a partir das 21h30. “Metáfora”, o seu disco mais recente,
nomeado para um Grammy latino, é a base do alinhamento. Estreia em
Portugal.

Às 23h00, o maliano Cheick Tidiane Seck, o maior teclista da música
africana, além de um excelente cantor e guitarrista, junta-se a Mamani
Keita, uma das melhores vozes do seu país, numa fusão entre as raízes
mandingas e a música afro-americana, do jazz à música soul e ao
hip-hop. O disco “Sabaly” (2008) é o ponto de partida do espectáculo.

Às 00h30, o Castelo recebe, mais do que um concerto, um acontecimento.
Formado por músicos de rua paraplégicos, o grupo congolês Staff Benda
Bilili, Prémio Womex 2009, é uma das grandes revelações da música
africana da última década. Considerado o grupo do ano pela revista
Songlines, apresentam em Sines as canções de “Très Très Fort”, o
melhor disco editado em 2009 na opinião das publicações de referência
fRoots e Mojo. Estreia nacional.

A apoteose de Staff Benda Bilili prolonga-se no palco da praia. Depois
de ter acolhido nomes como Black Uhuru feat. Sly & Robbie, The
Skatalites e Lee ‘Scratch’ Perry, o FMM prossegue a sua história
ilustrada do reggae, às 02h30, com U-Roy, o expoente máximo do
“toasting”, o estilo artístico de DJing que o colocou entre os grandes
da música da Jamaica.

Ainda na praia, às 4h00, o projecto luso-angolano Batida, nascido no
seio do colectivo Radiofazuma, leva a dança até ao sol nascer. O
milagre mais recente da produção afro-lusitana, Batida traz para o
século XXI a melhor música angolana dos anos 60 e 70 e proporciona o
encerramento perfeito para o 12.º Festival Músicas do Mundo.

Os bilhetes para as noites de música no Castelo (a partir das 21h30)
custam 12,5 euros por dia, com opção de aquisição de passe de 40 euros
para os quatro dias. Todos os concertos na Av. Vasco da Gama são de
entrada livre, o mesmo acontecendo com os três concertos das 18h00 no
Castelo."

21 setembro, 2009

Cacharolete de Discos - Tinariwen, Tony Allen e Madredeus


Mais três textos meus recuperados ao acervo da «Time Out Lisboa» nos último meses: as críticas aos novos álbuns dos Tinariwen, de Tony Allen e dos Madredeus & A Banda Cósmica (na foto).


TINARIWEN
«IMIDIWAN: COMPANIONS»
Independiente/Megamúsica

Apesar de existirem como banda desde 1982 - na altura ainda eles faziam parte das milícias tuaregues apoiadas e armadas por Muammar Khadafi e, segundo a história oficial, andavam com uma metralhadora a tiracolo num ombro e uma guitarra eléctrica no outro -, a verdade é que «Imidiwan: Companions» é apenas o quarto álbum em CD dos tuaregues malianos Tinariwen (sim, houve outras gravações durante os anos 80 e 90, mas só saíram em, hermmm, cassete). Mas basta uma audição deste disco para se perceber que «Imidiwan» é uma obra-prima absoluta, ainda maior que as anteriores, em que aos momentos de groove imenso (como se Jimi Hendrix gravasse com Booker T. and The M.G.'s e com Ali Farka Touré como cantor solista) se sucedem canções que podiam ser de Ry Cooder, fase «Paris, Texas», mas em que os desertos norte-americaos são substituídos pelo deserto do Saara. Perfeito! (*****)


TONY ALLEN
«SECRET AGENT»
World Circuit/Megamúsica

Já velhote - quase com 70 anos! -, o baterista nigeriano Tony Allen teve nesta década o reconhecimento que há muito merecia. Fez parte dos The Good The Bad and The Queen (ao lado de Damon Albarn, dos Blur, e do ex-The Clash Paul Simonon), gravou com Sébastien Tellier, os Air e Charlotte Gainsbourg, os gurus da world music não se cansam de dizer que, se não fosse Tony Allen não haveria afro-beat, no que têm toda a razão já que Allen, na verdade, pôs o «beat» onde o seu patrão de muitos anos, Fela Kuti, pôs o «afro». E no seu novo álbum, «Secret Agent», Tony Allen deturpa uma das regras sagradas do afro-beat - o tamanho dos temas é quase pop (quatro, cinco minutos) em vez dos longos dez, quinze minutos que são normais no género - para fazer um excelente álbum de canções, sejam cantadas por ele ou pela maravilhosa Orobiyi Adunni (aka Ayo, a autora do magnífico álbum «Joyful»). (****)


MADREDEUS & A BANDA CÓSMICA
«A NOVA AURORA»
Farol

Nove meses depois da edição de «Metafonia», o álbum de renovação/rejuvenescimento/reinvenção dos Madredeus – na sua formação alargada Madredeus e A Banda Cósmica, com duas novas e excelentes cantoras e vários instrumentos eléctricos – chega o «segundo» álbum, «A Nova Aurora». E, se alguns dos bons sinais deixados pelo anterior nele continuam – uma muito maior abertura do som do grupo em termos tímbricos, estilísticos, de género (as idas às músicas do Brasil e de Cabo Verde, aos blues e ao Havai, à África Continental e à Europa dita celta, para além de se manterem, a espaços, as bases de ligação à música portuguesa e à «matriz» melódica dos Madredeus antigos) - alguns outros, os piores, também neste «A Nova Aurora» saem reforçados: uma perigosíssima aproximação ao rock sinfónico, à new age, a algumas facilidades pop que não são, de todo, necessárias num grupo com o nome e o peso e a marca Madredeus. Disco conceptual – que fala de uma nova era de harmonia em todo o universo, em letras que fazem uma estranha ponte entre «Eram os Deuses Astronautas?», Paulo Coelho e o Padre António Vieira -, «A Nova Aurora» começa com uma bela canção, «Não Estamos Sós”» (entre o «Zen» da Rokia Traoré e Madredeus vintage, com uma harpa a soar a kora mandinga). O segundo tema, «Suspenso no Universo», remete directamente, mas sem destoar, para os Heróis do Mar. E, lá para a frente, «Vai Sem Medo» é José Afonso em formato cocktail lounge, o que – por estranho que pareça - até soa bastante bem. Mas também há muitos outros temas (com letras declamadas - !!! -, guitarras eléctricas pinkfloydianas da pior fase, teclados gongóricos à Jean Michel Jarre ou... a rockalhada completamente escusada que encerra o álbum, «Baloiçando nas Estrelas») que fazem «A Nova Aurora» desequilibrar-se para uma «twilight zone» qualquer em que ficamos sem perceber que música é, afinal, esta. (**)

16 junho, 2009

Tinariwen e Sun Ra Arkestra no Arrábida World Music Festival


Os malianos Tinariwen (na foto, de Eric Mullet) - que vão apresentar o seu novo álbum, «Imidiwan: Companions» -, a Sun Ra Arkestra (que agrupa músicos que acompanharam o mítico, e místico!, teclista Sun Ra), o cabo-verdiano Tcheka, o iraniano-português Mazgani, Paulo Furtado na pele de The Legendary Tiger Man, os Heavy Trash (a fabulosa explosão de blues eléctricos de Jon Spencer e Matt Verta-Ray) e DJ Café del Mar são os nomes que integram o cartaz do nóvel Arrábida World Music Festival, que decorre no Forte de S.Filipe, Setúbal, nos dias 3 e 4 de Julho. Seguem-se as informações mais relevantes sobre o festival:

«Dia 3 de Julho

PALCO WORLD
Tinariwen
Tcheka

PALCO BLUES
Legendary Tiger Man

LOUNGE - CAFÉ DEL MAR(IBIZA)
DJ Café del Mar

Dia 4 de Julho

PALCO WORLD
Sun Ra Arkestra
Mazgani

PALCO BLUES
Heavy Trash


O AWM - Arrábida World Music Festival 2009 assume-se como um desafio da Câmara Municipal de Setúbal no sentido de projectar a região e as suas potencialidades geográficas, culturais e sociais, bem como, criar e associar à mesma um evento de culto que se pretende diferenciado e capaz de se afirmar como um dos principais acontecimentos temáticos a nível nacional.

Criar um projecto único para uma região em permanente evolução, com qualidades reconhecidas, contribuirá decisivamente para a captação de novos públicos e para a afirmação da Península de Setúbal numa vertente cultural e de entretenimento indispensável à valorização da mesma.

O cenário sugerido é o da Serra da Arrábida que lhe dá o nome, propondo-se o mítico Forte de S. Filipe com o Rio Sado como pano de fundo como palco principal deste projecto.

Proporcionar emoção e uma experiência única com algum arrojo, através de uma abordagem "vegetal", orgânica e global, constitui a motivação para a criação de uma identidade própria.

O Arrábida World Music Festival é o evento da marca "Setúbal. É um Mundo".

O recinto idílico do Forte de S. Filipe envolvido numa mística única foi programado criteriosamente por uma equipa de produção que definiu o layout numa perspectiva de total convívio com os diversos momentos do Festival. Para isso foram criados 2 espaços específicos:
Zona 1 - Zona Lúdica

Área lúdica de acesso para o grande público conviver directamente com o espírito do festival. Aqui irá encontrar artesanato e restauração do mundo e um playground para os mais jovens. Poderá ainda fazer uma visita às catacumbas do castelo numa viagem em que tudo pode acontecer».

Mais informações, aqui.

10 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXV.1 - Woody Guthrie


O cantor, músico e compositor Woody Guthrie (Woodrow Wilson Guthrie, nascido a 14 de Julho de 1912, no Oklahoma, Estados Unidos, falecido a 3 de Outubro de 1967, em Nova Iorque) foi o principal pioneiro da folk de intervenção norte-americana, tendo influenciado decisivamente cantores como Bob Dylan, Phil Ochs ou Joan Baez. Compositor de centenas de canções (entre as quais a emblemática «This Land Is Your Land»), sempre do lado das ideologias socialistas - não por acaso, a sua guitarra exibia a inscrição «this machine kills fascists» -, Guthrie lançou as sementes da folk com uma música inspirada na country, na música tradicional irlandesa e nos blues. Fez parte dos importantíssimos Almanac Singers - ao lado de Pete Seeger e outros - e deixou um legado ainda hoje glosado por dezenas de artistas (de Ani DiFranco aos Klezmatics, de Bruce Springsteen a Billy Bragg e os Wilco).


Cromo XXXV.2 - Stella Chiweshe


Instrumento transversal a variadíssimos países africanos, a m'bira (aka kalimba ou kissange ou sansa ou likembe, entre outras designações) é um lamelofone que consiste num jogo de lamelas de metal presas a uma caixa de ressonância de madeira. Há milhares de tocadores de m'bira em África, mas a embaixadora principal do instrumento é a cantora e instrumentista Stella Chiweshe (nascida a 8 de Julho de 1946, em Mhondoro, no Zimbabué). Curiosamente, em várias culturas africanas o acesso à m'bira está interdito às mulheres mas ela aprendeu a tocá-la (à m'bira dzavadzimu, típica do povo Shona, a que Stella pertence) no final dos anos 60, quando ainda por cima qualquer aprendizagem cultural estava proibida à população negra da então Rodésia. Stella é cantora, intérprete de m'bira e compositora, dançarina, actriz, activista. Tudo numa só, e grande, mulher.


Cromo XXXV.3 - Tinariwen


Ainda só têm três álbuns no circuito internacional - «The Radio Tisdas Sessions» (2000), «Amassakoul» (2004) e «Aman Iman» (2007) - mas são uma lenda da música africana, com dezenas de cassetes gravadas desde a fundação do grupo, em 1982. Formados por músicos que, no início, faziam parte da guerrilha tuaregue treinada nos campos militares líbios e apadrinhada pelo Coronel Khadafi, os malianos Tinariwen começaram a desenvolver um estilo musical próprio - o «tishoumaren» -, em que estão presentes elementos de músicas tradicionais tuaregues e de outros povos do norte e oeste de África, os blues e o rock. Não é por isso de estranhar que os seus instrumentos de eleição sejam, ao lado do djembé, várias guitarras eléctricas e um baixo eléctrico. Os seus espectáculos, sempre memoráveis, são uma intensa celebração musical e de vida.


Cromo XXXV.4 - Mercan Dede


Na vanguarda da fusão entre músicas tradicionais e as mais modernas tendências da pop e das electrónicas, o músico, compositor, produtor, DJ, misturador e, só por vezes, cantor turco Mercan Dede é um dos mais notáveis exemplos de como se podem misturar músicas ancestrais (como a música sagrada dos sufis) com as novas linguagens sonoras. Mercan Dede (de verdadeiro nome Arkın Ilıcalı e também conhecido como DJ Arkin Allen; nascido em 1966) aprendeu em jovem a tocar ney (uma flauta tradicional), bendir (instrumento de percussão) e oud (o alaúde dos países árabes), mas a sua paixão pela música ocidental levou-o a seguir para cruzamentos inspirados de música tradicional do Médio Oriente com outras músicas (da música indiana e espanhola ao drum'n'bass, ao dub, ao house...). Entre os seus colaboradores contam-se a cantora indiana Susheela Raman, a turca Aynur ou Peter Murphy (dos Bauhaus).

18 outubro, 2007

Tinariwen e Vieux Farka Touré - O Deserto Aqui Tão Perto


E mesmo que não se possa ir ao deserto, o deserto pode vir até nós: é já amanhã, dia 19, que a fabulosa banda de músicos tuaregues Tinariwen (na foto) regressa a Lisboa para um concerto integrado na extensão que passa pela Europa e pelos Estados Unidos do Festival au Désert. Mas, como é sabido, não vêm sozinhos: na primeira parte terão o músico e cantor maliano Vieux Farka Touré, filho de Ali Farka Touré mas já senhor de uma voz própria e que o destaca da sombra tutelar do seu pai. Prevê-se mais uma noite inesquecível de música africana, desta vez no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, num fim-de-semana a que o CCB chama 3=6 (3 Dias, 6 Concertos, Muitas Músicas) e que inclui ainda espectáculos do flautista português Rão Kyao acompanhado pelo intérprete chinês de peipá Yanan (amanhã, no Pequeno Auditório), da pianista clássica Anne Kaasa (sábado, no Pequeno Auditório), do pianista de jazz Chick Corea (sábado, no Grande Auditório), do fadista Pedro Moutinho (domingo, no Pequeno Auditório) e da pop inteligente e encantatória do antigo vocalista dos Japan, David Sylvian (domingo, no Grande Auditório). Ainda antes do concerto em Lisboa, os Tinariwen e Vieux Farka Touré apresentam-se hoje, dia 18, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.

23 setembro, 2007

Tinariwen e Vieux Farka Touré - Para Ficarmos Todos Com Areia Dentro dos Bolsos



Os leitores deste blog sabem do amor que tenho aos tuaregues Tinariwen (podem procurar por aqui críticas aos discos «Amassakoul» e «Aman Iman» e a reportagem do fabuloso concerto que eles deram no MED de Loulé) e o respeito com que recebi o álbum de estreia, homónimo, de Vieux Farka Touré (na foto), filho do grande Ali Farka (ver crítica ao álbum algures neste blog, em conjunto com o disco de Afel Bocoum & Alkibar). E agora a boa notícia: tanto os Tinariwen quanto Vieux Farka Touré (este em estreia no nosso país) vêm dar concertos a Portugal, integrados na digressão de promoção ao Festival au Désert - que todos os anos decorre em Janeiro, no Mali - e desta vez tem uma extensão na Europa e Estados Unidos. Os concertos estão marcados para dia 18 de Outubro no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, e um dia depois no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Ainda não há muitos mais detalhes sobre o assunto (preços, etc.) mas ficamos, para já, com a certeza de que vamos ficar com os bolsos cheios de areia - na expressão mais que feliz de alguém que viu os Tinariwen mas que já não me lembro quem foi...

02 julho, 2007

Festival MED - O Tapete Voador, a Cadela Light Designer e a Maior Banda Rock do Mundo



Foi preciso ir ao último MED de Loulé para ver um verdadeiro tapete voador, cruzar-me todos os dias com quatro ovelhas num campo de papel de parede, conhecer uma cadela que é light designer, gostar de iogurte pela primeira vez na minha vida e ver a maior banda rock do mundo.

Para além da música, que é o prato principal, o Festival MED tem sempre mil outras coisas a acontecer. Pelo recinto passeiam figuras fascinantes: uma «andaluza» que conta a lenda das amendoeiras em flor com um dedal-princesa-nórdica e um dedal-príncipe-mouro perante um grupo de crianças fascinadas, uma «rainha egípcia» (Nefertiti?) em busca de par para o seu gato ou um «turco» que possui tapetes coçados, mas valiosíssimos, porque voam mesmo! Ou uma cadela loira, lindíssima e devotíssima ao seu dono (o técnico italiano responsável pela iluminação dos vários palcos do festival), que o segue por todo o lado, que entra em stress quando ele sobe à teia dos palcos e que transporta ao pescoço uma acreditação oficial que diz «Staff - Alandra, Light Designer». E há outras figuras que não se mexem mas encantam na mesma: dois dançarinos apanhados a meio de um complicado passo de corridinho algarvio, duas crianças e o seu cão a brincar numa praia do Mediterrâneo ou quatro ovelhas que nos sorriem sobre um padrão de papel de parede. E figuras híbridas, que se encontram algures entre a realidade, a arte e a ficção, como as marionetas que fazem de uma corda de roupa o seu mercado de trocas e vendas, as pulgas invisíveis que saltam de uma caixa de fósforos fosforescente ou o improvável casal burocrata de gravata/flor verde e amarela. E, por falar em flor, atrevi-me pela primeira vez na minha vida a juntar iogurte - matéria láctea que nunca entra na minha dieta - ao kebab, num dos muitos e excelentes restaurantes do recinto. Tinha muito picante por cima e aquilo até resultou bem. Até agora, tudo o que aqui foi escrito é a mais pura das verdades; mesmo que não pareça. E isso é importante dizer, para se perceber que também é verdade o que se vai escrever a seguir: no MED de Loulé tocou a maior banda de rock do mundo. Adeus Rolling Stones. Adeus U2. Adeus Metallica. Adeus aos outros todos em que se esteja a pensar. Olá Tinariwen!

Os Tinariwen (na foto; de Mário Pires, da Retorta) deram o melhor concerto do MED deste ano. E chamar-lhes «a maior banda rock do mundo» - mais ainda do que chamar-lhes «a melhor banda rock do mundo» - não é nenhum exagero. Basta assistir a um concerto desta nova fase da banda do Mali, a fase pós-«Aman Iman» - e o concerto em Loulé foi disso exemplar - para se perceber o elevadíssimo grau de verdade que a sua música atingiu. Uma verdade feita de muitas verdades, é certo, porque nela convivem muitas guitarras eléctricas e as sombras de Robert Johnson, de Jimi Hendrix ou dos Jefferson Airplane com a(s) música(s) que os tuaregues atravessam nas suas viagens - a música árabe, a música gnawa, a música mandinga, a sua própria música... -, mas ainda mais verdadeira por isso: a música de um povo que viaja por vários territórios geográficos mas também pelos territórios que as rádios e as televisões lhes dão a conhecer. E se umas e outras músicas estão ligadas por laços fortíssimos, históricos, como os blues e o rock o estão à zona de que são originários os Tinariwen, essa verdade, então, deixa de ser apenas verdade para passar a ser A Verdade. Uma Verdade maior da maior banda rock da actualidade (e quem não acredita ainda pode tirar as teimas, dia 5, quando os Tinariwen actuarem no S.Jorge, em Lisboa, ou dia 6, no Festival Évora Clássica).

O concerto dos Tinariwen foi o melhor de todo o MED. Mas houve outros que estiveram lá quase. O do italiano Vinicio Capossela, com a sua «orquestra» de cordofones (um «bandolinzinho», bouzouki, guitarra eléctrica, banjo, ele próprio na guitarra «dobro» quando não estava ao piano ou a assumir personagens míticas com a ajuda de máscaras...), a voar com o seu vozeirão de barítono entre o romantismo mais desesperado, a fúria incontida ou o humor sardónico, tudo servido sobre bases inesperadas que foram do alt.country dos Calexico ao caos sónico dos Sonic Youth, passando pela música do «Quo Vadis» ou do «Ben-Hur». O dos Bajofondo Tango Club, que encerraram o festival com o seu tango modernizado, orgânico, vivo, inventivo, pulsante, imaginário e que instalaram a festa entre o público (parte do qual foi convidado pela banda a subir ao palco para dançar); Gustavo Santaolalla tem neste projecto pessoal (onde canta e toca guitarra eléctrica) um laboratório de experiências que deixou de ser ciência para passar a ser arte (no que é coadjuvado belissimamente por músicos de primeira água - o violinista, o bandoneonista, o contrabaixista, o pianista e DJ... - e uma VJ extremanente original. O do Sergent Garcia, com a sua máquina de dança e intervenção política («Free your mind and your ass will follow», dizia George Clinton), onde nunca se percebe onde começa uma e acaba a outra, sendo por isso possível dançar uma cumbia enquanto se apoia os zapatistas mexicanos ou entrar num ragga estonteante enquanto se critica o Bush. E o de Aynur, onde a cantora curda da Turquia (ou turca só porque não a deixam ser curda de nacionalidade) arrebatou toda a gente, logo a abrir o festival, com a sua voz belíssima, canções tradicionais e um grupo de músicos soberbos em que sobressaíam o saz (que ela própria também tocou num momento a solo), o nay, o violino e as percussões árabes; e com uma enormíssima vantagem em relação ao concerto que dela vi na WOMEX de Sevilha: em Loulé não tinha sintetizadores a atrapalhar-lhe o brilho intenso da voz.

Bons concertos - mas sem atingirem o brilho dos já referidos - foram os de Natacha Atlas, ainda dona de uma voz belíssima e apresentando um reportório - grandemente baseado no último álbum, «Mish Maoul» - de um assinalável bom-gosto (desde antigos temas românticos egípcios ou libaneses até bossa-nova, uma canção folk inglesa e uma homenagem a... Nina Simone); de Sara Tavares, que cada vez mais faz mais e melhor a ponte entre várias músicas tradicionais e da contemporaneidade, para além de se sentir cada vez mais à-vontade em cima do palco (e o uso frequente da palavra «mais» aqui foi apenas uma coincidência); e dos Yerba Buena, profissionalíssimos na sua função de fazer chegar ao público uma música - feita de ritmos latino-americanos, hip-hop, funk, soul... - que lhe é atirada directamente aos pés e ao rabo, obrigando-o a dançar do princípio ao fim (e isto é um elogio). A meio caminho entre o bom e o mau concerto ficaram Akli D. - que deu um espectáculo muito pior do que na WOMEX de Sevilha, talvez porque vários problemas familiares assolaram um dos músicos da banda, um estado de espírito que também assombrou o resto dos seus amigos -; os L'Ham de Foc, fabulosos quando estavam a interpretar os seus temas de geografias e épocas distantes entre si mas que cortaram o ritmo ao concerto para afinar os instrumentos durante penosos minutos; e os Chambao, que têm em Mari uma cantora de elevadíssimos recursos que merecia uma banda melhor e mais empenhada do que aquela que a acompanha (e bastou assistir ao magnífico e contrastante encore para se perceber como o concerto poderia ter sido muito melhor). E pelo mau ficaram-se, surpreendentemente, os Taraf de Haidouks que, apesar de terem apresentado vários temas do seu novíssimo álbum «Maskarada» (em que pontificam peças clássicas de compositores como Bartók, Ketèlbey, Albéniz ou Manuel de Falla, todos inspirados na música cigana e, através dos Taraf, de volta a «casa»), se mostraram desconcentrados, desmotivados e alterados.

O texto já vai longo, mas - sem esquecer a referência a coisas óbvias como o aumento do recinto (que chega agora à igreja matriz de Loulé, ao lado da qual está um dos palcos principais), ao facto de por lá terem passado nestes dias muitos milhares de pessoas, com enchentes em pelo menos três dos dias) e à má notícia que foi o cancelamento da actuação de DJ Shantel - ainda há espaço para mais algumas notas finais: as belas surpresas que foram o trance orgânico, acústico e selvagem dos OliveTree; a consistência dos Rosa Negra com o seu fado sofisticado e que viaja pelo Mediterrâneo fora; a excelência dos espanhóis Estambul, fusão conseguidíssima de jazz com música árabe, turca e balcânica; e o como resultou belíssimo o cruzamento da música bem escolhida por Raquel Bulha com os desenhos feitos e projectados em tempo real pelo autor de BD José Carlos Fernandes - que, do vazio de um papel branco, fez nascer émulos de Nusrat Fateh Ali Khan, Lila Downs, Tinariwen, odaliscas e opulentas mulheres africanas. São outras figuras, umas vivas, outras mortas, umas reais, outras imaginárias - ou a meio caminho -, umas cinéticas, outras plasmadas... Mas todas Verdadeiras.

27 junho, 2007

África Festival (ou Lisboa na Cidade Negra*)



O África Festival começa amanhã, dia 28, na Torre de Belém, em Lisboa, com concertos de Mayra Andrade e dos Músicos do Nilo. E espero - do fundo do coração! - que comece bem e assim continue, tanto na sua «base» mais visível em Belém como na sua extensão ao Cinema S.Jorge, na primeira semana de Julho. Tive o prazer de colaborar com a organizadora do festival, Paula Nascimento, escrevendo um texto sobre música africana que ocupa as páginas centrais do jornal que vai ser distribuído no África Festival; o que muito me honrou. Uma colaboração que vai ter o seu epílogo no debate de encerramento do festival, dia 8 de Julho, depois da exibição do filme «Lusofonia, A (R)evolução». A todas as pessoas envolvidas no África Festival mas, principalmente, à Paula Nascimento - cujo profissionalismo, visão, empenho e paixão por esta causa são exemplares - deixo um grande obrigado, um «até já» e a recuperação de um texto publicado neste blog há alguns tempos:

O bolo principal do África Festival, que decorre no relvado junto à Torre de Belém, em Lisboa, já é conhecido mas fica aqui recordado: Mayra Andrade (Cabo Verde) e Músicos do Nilo (Egipto) no dia 28 Junho; Paulo Flores (Angola) e Bassekou Kouyaté (Mali) no dia 29; e Sally Nyolo (Camarões; na foto) e Baaba Maal (Senegal) no dia 30. Mas o Festival inclui ainda outros concertos de bastante interesse e muito cinema, na sua extensão ao Cinema S.Jorge, também em Lisboa, de 1 a 8 de Julho. Da programação de concertos faz parte um espectáculo de apresentação do novo álbum de Nancy Vieira (dia 2 de Julho); o novo projecto do músico, compositor e construtor de instrumentos Victor Gama «FWD: Utopia» (4 de Julho); do fabuloso grupo de tuaregues do malianos Tinariwen, que recentemente editou o álbum «Aman Iman», cuja crítica pode ser encontrada um pouco mais abaixo neste blog (dia 5 de Julho); e de um novo projecto em que Kalaf convida músicos angolanos e de outros países, Ecos da Banda (dia 7 de Julho); para além das Kizomba Sessions (um concurso de kizomba que decorre de 3 a 6 de Julho, seguido de um workshop de kizomba por Avelino Chantre, a 7).

Também no S.Jorge é apresentada, nestes dias, uma variadíssima programação de cinema, «Sons e Visões de África», que inclui os filmes «Bamako», de Abderrahmane Sissako (dia 3); «Bajove Dokotela - The Philip Tabane Story», de Khalo Matabane e Dumisani Phakathi, «Being Pavarotti», de Odette Geldenhuys, e «Amandla!», de Lee Hirsch (dia 4); «Le Miel N'Est Jamais Bon Dans Une Seule Bouche - Ali Farka Touré», de Marc Huraux, e «Teshumara - Les Guitares de La Rébellion Touareg», de Jérémie Reichenbach (dia 5); «Ishumars, Les Rockers Oubliés du Désert», de François Bergeron, e «Sierra Leone's Refugee All Stars», de Zach Niles e Banker White (dia 6); «Marrabentando, ou As Histórias Que a Minha Guitarra Canta», de Karen Boswell, «Muxima», de Alfredo Jaar, e «Mãe Ju», de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves (dia 7); «Calado Não Dá», de João Nicolau, «Mais Alma», de Catarina Alves Costa, «Batuque, A Alma de Um Povo», de Júlio Silvão Tavares, e «Lusofonia, A (R)evolução», da Red Bull Music Academy (dia 8).

*«Lisboa na Cidade Negra» é o título de um maravilhoso livro de Jean-Yves Loude, recentemente editado pela Dom Quixote; mote para uma visita guiada pelo autor pela África que há em Lisboa, dia 1 de Julho. O lançamento oficial do livro decorre no S.Jorge, um dia depois.

26 junho, 2007

Festival MED de Loulé Começa Já Amanhã!



A edição deste ano do Festival MED de Loulé começa já amanhã, dia 27, e continua até dia 1 de Julho, na zona do antigo Castelo de Loulé, com inúmeros concertos de artistas e grupos de várias zonas do Globo e de diversos géneros musicais. Dos artistas cabeças-de-cartaz do festival já antes o Raízes e Antenas tinha dado conta, mas desta vez fica-se aqui a saber todos os nomes do Med, separados por dias e palcos de actuação. Palco da Cerca: Aynur (Turquia) dia 27; Natacha Atlas (Egipto/Bélgica) dia 28; Akli D (Argélia) e Taraf de Haidouks (Roménia) dia 29), L'Ham de Foc (Espanha) e Yerba Buena (Estados Unidos; na foto) dia 30; Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) dia 1. Palco da Matriz: Quarteto de Cordas Intermezzo (Portugal) e Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) dia 27; Trio de Metais do Alentejo (Portugal) e Sergent Garcia (França) dia 28; Trio Lusitano (Portugal) e Tinariwen (Mali) dia 29; Eudoro Grade (Portugal) e Vinicio Capossela (Itália) dia 30; Duo Flacord (Portugal) e Chambao (Espanha) dia 1. Palco do Castelo: In-Canto (Portugal) dia 27; Estambul (Espanha) e DJ Shantel (Alemanha/Balcãs) dia 28; Toques do Caramulo (Portugal), Uxu Kalhus (Portugal) e DJ Single Again (Portugal) dia 29; Rosa Negra (Portugal), OliveTree (Portugal) e DJ Raquel Bulha (Portugal) dia 30; Amálgama - Tablao do Fado (Portugal) dia 1. Palco da Bica: Jazz Ta Parta (Portugal) e Al-Driça (Portugal) dia 27; Nanook (Portugal) dia 28; Quarteto Alma Lusa (Portugal) dia 29; Fadobrado (Portugal) dia 30; Cherno More Quartet (Bulgária/Síria/Sudão) e Duo Angola Brasil (Portugal) dia 1. Palco Classic (na Igreja Matriz): com alguns dos nomes já referidos em dose «reforçada». Exposições de artes plásticas relacionadas com a temática do festival, artesanato, gastronomia do Mediterrâneo, workshops, teatro, animação de rua, marionetas, performances e uma zona chill-out integram também o programa do festival. E há reportagem prometida neste blog lá mais para segunda-feira (ou terça, se o cansaço apertar).

19 maio, 2007

Festival MED - Tantos Mares em Loulé!



A 4ª edição do Festival MED de Loulé apresenta o melhor cartaz de todas as que até agora se realizaram, com concertos de importantes grupos e artistas vindos de variadíssimas zonas do globo e não só da baía do Mediterrâneo, mote primeiro do festival. E ainda bem! De 27 de Junho a 1 de Julho, a zona do antigo castelo de Loulé acolhe concertos, no primeiro dia, da cada vez mais madura e coerente Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) e da interventiva cantora curda Aynur (Turquia; na foto); no segundo, da ex-vocalista dos Transglobal Underground e diva da música de fusão Natacha Atlas (Bélgica/Egipto), do fusionista de punk, reggae e música latino-americana Sergent Garcia (França) e do principal misturador da música das fanfarras balcânicas com a electrónica, DJ Shantel (Alemanha); no terceiro há lugar para a música tuaregue infectada pelos blues e o rock dos Tinariwen (Mali), o misto único de melancolia e festa dos Taraf de Haidouks (Roménia) e a música da Kabilia revista à luz de vários géneros ocidentais do cantor Akli D. (Argélia); no quarto é a vez do genial e incatalogável cantor e compositor Vinicio Capossela (Itália), da mescla de muitas músicas modernas com a música latino-americana dos Yerba Buena (Estados Unidos) e do duo valenciano de folk, música medieval, música grega e tudo à volta L´Ham de Foc (Espanha); e, para fim de festival, dois projectos que juntam músicas tradicionais do seu país com a electrónica - o tango trazido para a contemporaneidade pelos Bajofondo Tango Club, de Gustavo Santaolalla (Argentina) e o flamenco-chill dos Chambao (Espanha). E, claro, nas ruas circundantes e nos outros palcos ainda há lugar para muitos outros concertos (principalmente de novos grupos de música tradicional, folk e de fusão portugueses), sessões de DJ a puxar a dança, inúmeras bancas de artesanato, restaurantes de variados sabores mediterrânicos, workshops e animação de rua. Mais informações aqui.

24 abril, 2007

Tinariwen, Victor Gama, Kalaf e Cinema - Também no África Festival



O bolo principal do África Festival, que decorre no relvado junto à Torre de Belém, em Lisboa, já é conhecido mas fica aqui recordado: Mayra Andrade e Músicos do Nilo no dia 28 Junho; Paulo Flores e Bassekou Kouyaté no dia 29; e Sally Nyolo e Baaba Maal no dia 30. Mas o Festival inclui ainda outros concertos de bastante interesse e muito cinema, na sua extensão ao Cinema S.Jorge, também em Lisboa, de 1 a 8 de Julho. Da programação de concertos faz parte o novo projecto do músico, compositor e construtor de instrumentos Victor Gama «FWD: Utopia» (4 de Julho); do fabuloso grupo de tuaregues do malianos Tinariwen, que recentemente editou o álbum «Aman Iman», cuja crítica pode ser encontrada um pouco mais abaixo neste blog (dia 5 de Julho); e de um novo projecto em que Kalaf (na foto) convida músicos angolanos e de outros países, Ecos da Banda (dia 7 de Julho); para além das Kizomba Sessions (um concurso de kizomba que decorre de 3 a 6 de Julho, seguido de um workshop de kizomba por Avelino Chantre, a 7).

Também no S.Jorge é apresentada, nestes dias, uma variadíssima programação de cinema, «Sons e Visões de África», que inclui os filmes «Bamako», de Abderrahmane Sissako (dia 3); «Bajove Dokotela - The Philip Tabane Story», de Khalo Matabane e Dumisani Phakathi, «Being Pavarotti», de Odette Geldenhuys, e «Amandla!», de Lee Hirsch (dia 4); «Le Miel N'Est Jamais Bon Dans Une Seule Bouche - Ali Farka Touré», de Marc Huraux, e «Teshumara - Les Guitares de La Rébellion Touareg», de Jérémie Reichenbach (dia 5); «Ishumars, Les Rockers Oubliés du Désert», de François Bergeron, e «Sierra Leone's Refugee All Stars», de Zach Niles e Banker White (dia 6); «Marrabentando, ou As Histórias Que a Minha Guitarra Canta», de Karen Boswell, «Muxima», de Alfredo Jaar, e «Mãe Ju», de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves (dia 7); «Calado Não Dá», de João Nicolau, «Mais Alma», de Catarina Alves Costa, «Batuque, A Alma de Um Povo», de Júlio Silvão Tavares, e «Lusofonia, A (R)evolução», da Red Bull Music Academy (dia 8). Também integrado na programação do África Festival está o lançamento do livro «Lisboa na Cidade Negra», de Jean-Yves Loude.

13 abril, 2007

Tinariwen e Bassekou Kouyate - O Mali em Guitarras Eléctricas e N'gonis



Do riquíssimo alfobre que é a cena musical do Mali, os primeiros nomes que nos vêm à memória são os de Ali Farka Touré, Toumani Diabaté, Salif Keita, Afel Bocoum, Oumou Sangaré, Issa Bagayogo, Amadou & Mariam, Boubacar Traoré, Tartit, Rokia Traoré... De um não mais acabar de nomes e estilos diferentes. Mas, desde há alguns anos, outro nome está a impor-se como fundamental e diferente nesse cacharolete, o dos tuaregues Tinariwen (na foto). E, agora, um outro nome em crescimento imparável, o do mestre do n'goni Bassekou Kouyate.

TINARIWEN
«AMAN IMAN»
Independiente/Megamúsica

Os primeiros trabalhos discográficos dos Tinariwen chegados à ribalta internacional, «The Radio Tisdas Sessions» e «Amassakoul», mostravam já, claramente, as potencialidades destes tuaregues armados de guitarras eléctricas e da sua música feita de gnawa, de música árabe, da tradição própria (tuaregue) e de outras músicas apanhadas em rádios a pilhas: os blues, o rock psicadélico, o rock ácido da Costa Oeste dos Estados Unidos dos anos 60. Mas nenhum deles tinha o fulgor, a chama, a verdade que está presente no novo álbum «Aman Iman» (que tem como sub-título revelador «Water Is Life»). Em «Aman Iman», os Tinariwen fazem uma música muito mais verdadeira, directa, activa, «in your face», e dão-nos uma lição de música sem fronteiras nem grilhetas nem auto-censura de espécie nenhuma. «Aman Iman» é um álbum que se ouve do princípio (o tema de abertura, «Cler Achel», é o resumo perfeito de tudo o que vem depois e parece uma jam de Jimi Hendrix com os Jefferson Airplane se todos eles tivessem nascido no Sahara, com Grace Slick incluída) ao fim (o tema de fecho, «Nak Assarhagh», é uma balada mágica e hipnótica, belíssima) sempre com um sorriso nos lábios, uma ginga em partes secretas do corpo e um tremor constante na alma, como se esta música nova, novíssima, fosse já uma nossa velha conhecida. «Aman Iman» é um álbum de rock? Seria, se o rock ainda fosse isto: aquilo por que vale ainda a pena viver e... viver fazendo disso uma forma de arte. (10/10)


BASSEKOU KOUYATE & NGONI BA
«SEGU BLUE»
Out Here Records

É tão estranho, este disco! Estranho porque há ali sons, sonoridades, sentimentos, estímulos, que nos parecem tão distantes (de onde vêm aquelas cordas todas?, e de onde vem aquela voz feminina inesperada, a de Amy Sacko, a mulher de Bassekou Kouyate?)... Porque vêm de algo distante, desconhecido, estrangeiro a todos nós, os que estamos habituados a ouvir a música do Mali feita por Ali Farka Touré (o nosso tio, amado tio, falecido mas presente tio, que nos reconciliou com os blues, o fado, a morna, com uma raiz qualquer que nos une a todos de uma maneira que ninguém sabe explicar muito bem qual é)... mas que vem, em Bassekou Kouyate e na sua banda de n'gonis, com um eco de reconhecimento - sim, apesar da distância e da estranheza - aqui tão próximo, quase linear na sua, nesta, proximidade. Ouvimos «Segu Blue» e estamos a ouvir o álbum «Cavaquinho» de Júlio Pereira, ou um fado qualquer de vez em quando, ou alguma coisa gravada no nordeste do Brasil (com cordas lá dentro) ou um banjo tocado por Earl Eugene Scruggs ou uma (espanto!)... tuna de Castelo Branco dos anos 70 (não universitária, portanto) feita de mil cordas e mil sentimentos e mil sons. O n'goni - também chamado gaaci ou ganbare - tem apenas três ou quatro cordas (consoante a região de onde é originário) e sublinha as narrativas de amor e de guerra nas mãos dos griots. E o xamane Bassekou Kouyate, companheiro de Ali Farka em «Savane» e de Diabaté na Symmetric Orchestra, transporta-nos a uma outra dimensão, esta, sempre tão distante e tão próxima de nós... E é nela que queremos estar. (8/10)

18 novembro, 2006

«Planet Rock» - Levámos Todos Com Uma Pedra na Cabeça


Se há alguns dias falei de «Rhythms del Mundo», em que artistas e grupos de rock anglo-saxónicos se deixam «contaminar» por géneros cubanos, desta vez falo de «The Rough Guide To Planet Rock», álbum em que músicas «locais» são mergulhadas em cadinhos borbulhantes de rock e funk e psicadelismo e punk e... E o resultado destas experiências vagamente científicas - entre muitos outros, andam por aqui os Tinariwen, Albert Kuvezin & Yat-Kha (na foto), Ba Cissoko, Dengue Fever, Konono Nº1, Gogol Bordello, Etran Finatawa e os portugueses Donna Maria - é muitas vezes uma maravilha completa.


VÁRIOS
«THE ROUGH GUIDE TO PLANET ROCK»
World Music Network/Megamúsica

«Planet Rock» é mais uma excelente colectânea da série «The Rough Guide To...», desta vez compilando grupos de várias zonas do globo que partem de músicas próprias, tradicionais, para depois se lançarem de cabeça a vários géneros de rock ou de músicos rock dos mais variados países que, num momento ou noutro, descobriram ou redescobriram as suas próprias músicas tradicionais - não se sabendo muito bem qual a ordem destes factores em cada um deles - e também projectos multinacionais em que a mistura de influências se faz a partir da origem de cada um dos seus músicos. O álbum começa muito bem, com os Dengue Fever, grupo recente de Los Angeles com uma cambojana como vocalista - e a sua música parece directamente saída do «Bom-Dia Vietname», com um rock sixties, misto de garage e psicadelismo, mas cantado em... khmer - e Les Boukakes - bando de franceses, argelinos e tunisinos que misturam, em festa, guitarras em distorção com rai e gnawa. Seguem-se, muito bem, os malianos Tinariwen com a sua música tuaregue infectada por blues ácidos e os Ba Cissoko (da Guiné-Conakry), com koras electrificadas e o fantasma de Jimi Hendrix a assombrar a música mandinga. E depois, uma surpresa, os fantásticos norte-americanos Hip Hop Hoodios, que misturam hip-hop, klezmer, ritmos latino-americanos, jazz, guitarras eléctricas em voo livre etc, etc... (nos HHH juntam-se músicos dos Klezmatics, Orishas, Midnight Minyan e da banda de apoio de Carlos Santana), que colam muito bem com os Balkan Beat Box - aqui num tema que tanto deve à música cigana do centro europeu quanto ao gnawa, ao klezmer e à electrónica - e com os Yat-Kha - numa estranhíssima versão «vozes de Tuva em molho country-punk» de «In A Gadda da Vida», dos Iron Butterfly (retirada do álbum «Re-Covers», com versões de variadíssimos temas rock ocidentais visitados por Albert Kuvezin e os seus Yat-Kha). Depois, mais surpresas: os fabulosos Alms For Shanti (banda indiana que sucedeu aos Indus Creed) misturando canto konokol, gaitas em fogo, rock e breakbeats; Yela, cantora da Ilha da Reunião que junta smooth jazz a ritmos locais como o maloya; e os portugueses Donna Maria, num fado-tango-electrónica discreta (qualquer canção d'A Naifa ficaria aqui bem melhor, mas pronto...). O ritmo volta a acelerar com os Transsilvanyans, grupo berlinense em que se juntam húngaros e alemães e que parecem uma Marta Sebestyen pop acompanhada por uns Muzsikas electrificados e em alta velocidade; os Haydamaky, numa canção lindíssima que liga a tradição ucraniana ao reggae e à soul; e a maravihosa cantora palestiniana Rim Banna, num tema que parece um misto de Talking Heads, Material (de Bill Laswell) e música árabe - a banda que a acompanha, para aumentar ainda mais esta parte boa da globalização, inclui um ucraniano e alguns noruegueses. A recta final da colectânea fica reservada para os Etran Finatawa (do Niger) e a sua mistura sempre bem conseguida de música tuaregue e wodaabe com blues eléctricos; o ritmo infernal dos kissanges e tralha percutida dos congoleses Konono Nº1; e o punk ucraniano, balcânico e interventivo dos incontornáveis Gogol Bordello. «Planet Rock» é especialmente aconselhado, claro, aos amantes de rock que desconfiam de outras músicas e aos amantes de músicas tradicionais que desconfiam do rock. (9/10)

11 julho, 2006

Híbridos (Recuperados a 2004)


Recuperação de mais um texto publicado na secção World Extra do BLITZ, este de Julho de 2004...

WORLD EXTRA

A história é conhecida: David Byrne defende que a «world music» não existe, sendo apenas uma prateleira nas discotecas ou uma secção nos jornais, existindo, isso sim, milhares de géneros musicais locais ou regionais. Byrne tem razão e, mais, com um bocadinho de esforço, na mal-chamada world music podem também entrar híbridos absolutos como esta selecção que aqui segue...

Híbrido 1: os londrinos Oi Va Voi editaram há alguns meses o seu álbum de estreia, «Laughter Through Tears» (Outcaste), um exemplo quase perfeito de cruzamento da tradição - klezmer, neste caso - com outras sonoridades como o trip-hop, a pop, o drum'n'bass, a música árabe, o flamenco e o reggae mesclado com música cigana dos Balcãs (numa colaboração com Earl Zinger, aka Rob Gallagher, dos Galliano). Mas sempre com os dois pés bem assentes na tradição mesmo que o corpo voe, depois, noutras direcções. E com a colaboração preciosa da cantora escocesa KT Tunstall e de Sevara Nazarkhan, do Usbequistão. (8/10)

Híbrido 2: Já com alguns anos de existência, os latinos baseados em Los Angeles, Estados Unidos, Ozomatli (na foto) editam agora o seu terceiro álbum, «Street Signs» (Real World, EMI), uma fusão quase sempre bem conseguida de funk, hip-hop, música gnawa marroquina, rai argelino, ragas indianas, reggae, heavy-metal, salsa, mariachi, samba-scratch e tudo o mais que eles queiram atirar para o caldeirão. Cantado em espanhol e inglês, este álbum é uma boa surpresa world - ?? - deste ano. (7/10)

Híbrido 3: E que tal um grupo pop turco - e que, à pop, juntava de facto a música turca e a música árabe e o rai, pelo menos no álbum «UC Oyundan Onyedi Muzik» - e que, na sua mais recente aventura, «Psychebelly Dance Music» (Doublemoon) decide acrescentar ao cocktail ainda mais um ingrediente, o produtor Mad Professor (colaborador dos Massive Attack, Lee Scratch Perry e Sly Dunbar & Robbie Shakespeare, entre muitos outros)? Foi isso o que fizeram os Baba Zula e o resultado é delicioso (embora por vezes um pouco repetitivo): música e vozes turcas afogadas numa sopa dub, reggae, drum'n'bass, até surf-music (!), o que for preciso, mas sempre hipnótica e dançante. Dança do ventre psicadélica?... Sim. (7/10)

Híbrido 4: E falando em psicadelismo... Depois de «The Radio Tisdas Sessions» (de 2001), os tuaregues do Mali - com passagem pelos campos de refugiados líbios - Tinariwen estão de volta com um novo e excelente álbum, «Amassakoul» (Emma Productions/Triban Union/Megamúsica). Aqui, os «tuaregues em guitarras eléctricas» liderados por Ibrahim Ag Alhabib - que fundou o grupo em 1979 - misturam com sabedoria as sonoridades tradicionais tuaregues, mandingas, gnawas e árabes com os ensinamentos de gente como Muddy Waters, Jimi Hendrix, Jefferson Airplane e Grateful Dead. É música africana das «margens» do deserto do Sahara, sim, mas infectada com blues, psicadelismo e acid-rock em doses suficientes para que estas guitarras - e estas fabulosas vozes masculinas e femininas que cantam manifestos políticos - pareçam saídas não de África nem dos Estados Unidos (pelons sons paralelos) mas de um outro planeta qualquer. (9/10)

Híbrido 5: E, agora, que tal tentar juntar num mesmo projecto duas das correntes musicais mais dançáveis do mundo? Não, não estou a falar de tecno nem de trance... Estou a falar da música de dança cubana (e de outros locais das Caraíbas) e de música de dança das nações «celtas»: Irlanda, Escócia, Gales... Quer dizer, dos escoceses Salsa Celtica, que no seu segundo álbum, «El Agua de La Vida» (Greentrax) - o primeiro tinha sido «Demonios, Angels and Lovers» - misturam com arte e alegria as cumbias, salsas e merengues caribenhos com jigs e reels, tudo embrulhado em arranjos luxuosos que poderiam ter saído da era de ouro do swing norte-americano. E quando uma gaita-de-foles paira sobre percussões afro-cubanas e se funde, depois, com uma secção de metais quente e tropicalíssima, o pé só pode fugir mesmo para uma pista de dança ideal e imaginária - aquela em que todos os sons do planeta teriam lugar. (8/10)

Híbrido 6: Depois de dois concertos fabulosos em Portugal - na Tenda Raízes do Rock In Rio-Lisboa e em Aveiro -, os espanhóis Amparanoia, liderados pela vocalista e compositora Amparo Sanchez, tem agora o «best of» «Rebeldia Con Alegria» (EMI) disponível em Portugal. E é um disco muito, mas muito bom, apesar de não tanto quanto os espectáculos. Apesar de não serem de Barcelona, os Amparanoia inscrevem-se na escola de Manu Chao, Ojos de Brujo, Macaco, etc, incorporando elementos ocidentais (funk, hip-hop, jazz...), de muitos outros lugares (Caraíbas, Balcãs, Marrocos, Brasil, México, etc, etc.) e letras - em várias línguas - feministas e politicamente activas. Um momento brilhante, entre outros: «Don't Leave Me Now», com os Calexico. (8/10)