02 julho, 2007

Festival MED - O Tapete Voador, a Cadela Light Designer e a Maior Banda Rock do Mundo



Foi preciso ir ao último MED de Loulé para ver um verdadeiro tapete voador, cruzar-me todos os dias com quatro ovelhas num campo de papel de parede, conhecer uma cadela que é light designer, gostar de iogurte pela primeira vez na minha vida e ver a maior banda rock do mundo.

Para além da música, que é o prato principal, o Festival MED tem sempre mil outras coisas a acontecer. Pelo recinto passeiam figuras fascinantes: uma «andaluza» que conta a lenda das amendoeiras em flor com um dedal-princesa-nórdica e um dedal-príncipe-mouro perante um grupo de crianças fascinadas, uma «rainha egípcia» (Nefertiti?) em busca de par para o seu gato ou um «turco» que possui tapetes coçados, mas valiosíssimos, porque voam mesmo! Ou uma cadela loira, lindíssima e devotíssima ao seu dono (o técnico italiano responsável pela iluminação dos vários palcos do festival), que o segue por todo o lado, que entra em stress quando ele sobe à teia dos palcos e que transporta ao pescoço uma acreditação oficial que diz «Staff - Alandra, Light Designer». E há outras figuras que não se mexem mas encantam na mesma: dois dançarinos apanhados a meio de um complicado passo de corridinho algarvio, duas crianças e o seu cão a brincar numa praia do Mediterrâneo ou quatro ovelhas que nos sorriem sobre um padrão de papel de parede. E figuras híbridas, que se encontram algures entre a realidade, a arte e a ficção, como as marionetas que fazem de uma corda de roupa o seu mercado de trocas e vendas, as pulgas invisíveis que saltam de uma caixa de fósforos fosforescente ou o improvável casal burocrata de gravata/flor verde e amarela. E, por falar em flor, atrevi-me pela primeira vez na minha vida a juntar iogurte - matéria láctea que nunca entra na minha dieta - ao kebab, num dos muitos e excelentes restaurantes do recinto. Tinha muito picante por cima e aquilo até resultou bem. Até agora, tudo o que aqui foi escrito é a mais pura das verdades; mesmo que não pareça. E isso é importante dizer, para se perceber que também é verdade o que se vai escrever a seguir: no MED de Loulé tocou a maior banda de rock do mundo. Adeus Rolling Stones. Adeus U2. Adeus Metallica. Adeus aos outros todos em que se esteja a pensar. Olá Tinariwen!

Os Tinariwen (na foto; de Mário Pires, da Retorta) deram o melhor concerto do MED deste ano. E chamar-lhes «a maior banda rock do mundo» - mais ainda do que chamar-lhes «a melhor banda rock do mundo» - não é nenhum exagero. Basta assistir a um concerto desta nova fase da banda do Mali, a fase pós-«Aman Iman» - e o concerto em Loulé foi disso exemplar - para se perceber o elevadíssimo grau de verdade que a sua música atingiu. Uma verdade feita de muitas verdades, é certo, porque nela convivem muitas guitarras eléctricas e as sombras de Robert Johnson, de Jimi Hendrix ou dos Jefferson Airplane com a(s) música(s) que os tuaregues atravessam nas suas viagens - a música árabe, a música gnawa, a música mandinga, a sua própria música... -, mas ainda mais verdadeira por isso: a música de um povo que viaja por vários territórios geográficos mas também pelos territórios que as rádios e as televisões lhes dão a conhecer. E se umas e outras músicas estão ligadas por laços fortíssimos, históricos, como os blues e o rock o estão à zona de que são originários os Tinariwen, essa verdade, então, deixa de ser apenas verdade para passar a ser A Verdade. Uma Verdade maior da maior banda rock da actualidade (e quem não acredita ainda pode tirar as teimas, dia 5, quando os Tinariwen actuarem no S.Jorge, em Lisboa, ou dia 6, no Festival Évora Clássica).

O concerto dos Tinariwen foi o melhor de todo o MED. Mas houve outros que estiveram lá quase. O do italiano Vinicio Capossela, com a sua «orquestra» de cordofones (um «bandolinzinho», bouzouki, guitarra eléctrica, banjo, ele próprio na guitarra «dobro» quando não estava ao piano ou a assumir personagens míticas com a ajuda de máscaras...), a voar com o seu vozeirão de barítono entre o romantismo mais desesperado, a fúria incontida ou o humor sardónico, tudo servido sobre bases inesperadas que foram do alt.country dos Calexico ao caos sónico dos Sonic Youth, passando pela música do «Quo Vadis» ou do «Ben-Hur». O dos Bajofondo Tango Club, que encerraram o festival com o seu tango modernizado, orgânico, vivo, inventivo, pulsante, imaginário e que instalaram a festa entre o público (parte do qual foi convidado pela banda a subir ao palco para dançar); Gustavo Santaolalla tem neste projecto pessoal (onde canta e toca guitarra eléctrica) um laboratório de experiências que deixou de ser ciência para passar a ser arte (no que é coadjuvado belissimamente por músicos de primeira água - o violinista, o bandoneonista, o contrabaixista, o pianista e DJ... - e uma VJ extremanente original. O do Sergent Garcia, com a sua máquina de dança e intervenção política («Free your mind and your ass will follow», dizia George Clinton), onde nunca se percebe onde começa uma e acaba a outra, sendo por isso possível dançar uma cumbia enquanto se apoia os zapatistas mexicanos ou entrar num ragga estonteante enquanto se critica o Bush. E o de Aynur, onde a cantora curda da Turquia (ou turca só porque não a deixam ser curda de nacionalidade) arrebatou toda a gente, logo a abrir o festival, com a sua voz belíssima, canções tradicionais e um grupo de músicos soberbos em que sobressaíam o saz (que ela própria também tocou num momento a solo), o nay, o violino e as percussões árabes; e com uma enormíssima vantagem em relação ao concerto que dela vi na WOMEX de Sevilha: em Loulé não tinha sintetizadores a atrapalhar-lhe o brilho intenso da voz.

Bons concertos - mas sem atingirem o brilho dos já referidos - foram os de Natacha Atlas, ainda dona de uma voz belíssima e apresentando um reportório - grandemente baseado no último álbum, «Mish Maoul» - de um assinalável bom-gosto (desde antigos temas românticos egípcios ou libaneses até bossa-nova, uma canção folk inglesa e uma homenagem a... Nina Simone); de Sara Tavares, que cada vez mais faz mais e melhor a ponte entre várias músicas tradicionais e da contemporaneidade, para além de se sentir cada vez mais à-vontade em cima do palco (e o uso frequente da palavra «mais» aqui foi apenas uma coincidência); e dos Yerba Buena, profissionalíssimos na sua função de fazer chegar ao público uma música - feita de ritmos latino-americanos, hip-hop, funk, soul... - que lhe é atirada directamente aos pés e ao rabo, obrigando-o a dançar do princípio ao fim (e isto é um elogio). A meio caminho entre o bom e o mau concerto ficaram Akli D. - que deu um espectáculo muito pior do que na WOMEX de Sevilha, talvez porque vários problemas familiares assolaram um dos músicos da banda, um estado de espírito que também assombrou o resto dos seus amigos -; os L'Ham de Foc, fabulosos quando estavam a interpretar os seus temas de geografias e épocas distantes entre si mas que cortaram o ritmo ao concerto para afinar os instrumentos durante penosos minutos; e os Chambao, que têm em Mari uma cantora de elevadíssimos recursos que merecia uma banda melhor e mais empenhada do que aquela que a acompanha (e bastou assistir ao magnífico e contrastante encore para se perceber como o concerto poderia ter sido muito melhor). E pelo mau ficaram-se, surpreendentemente, os Taraf de Haidouks que, apesar de terem apresentado vários temas do seu novíssimo álbum «Maskarada» (em que pontificam peças clássicas de compositores como Bartók, Ketèlbey, Albéniz ou Manuel de Falla, todos inspirados na música cigana e, através dos Taraf, de volta a «casa»), se mostraram desconcentrados, desmotivados e alterados.

O texto já vai longo, mas - sem esquecer a referência a coisas óbvias como o aumento do recinto (que chega agora à igreja matriz de Loulé, ao lado da qual está um dos palcos principais), ao facto de por lá terem passado nestes dias muitos milhares de pessoas, com enchentes em pelo menos três dos dias) e à má notícia que foi o cancelamento da actuação de DJ Shantel - ainda há espaço para mais algumas notas finais: as belas surpresas que foram o trance orgânico, acústico e selvagem dos OliveTree; a consistência dos Rosa Negra com o seu fado sofisticado e que viaja pelo Mediterrâneo fora; a excelência dos espanhóis Estambul, fusão conseguidíssima de jazz com música árabe, turca e balcânica; e o como resultou belíssimo o cruzamento da música bem escolhida por Raquel Bulha com os desenhos feitos e projectados em tempo real pelo autor de BD José Carlos Fernandes - que, do vazio de um papel branco, fez nascer émulos de Nusrat Fateh Ali Khan, Lila Downs, Tinariwen, odaliscas e opulentas mulheres africanas. São outras figuras, umas vivas, outras mortas, umas reais, outras imaginárias - ou a meio caminho -, umas cinéticas, outras plasmadas... Mas todas Verdadeiras.

21 comentários:

Anónimo disse...

Sabia que devia ter ido! Mas fiquei por Lisboa. Ao menos vi a Mayra Andrade e tu não ;)

abraço

Carlos Ramos

António Pires disse...

Olá Carlos!

Pois, há sempre qualquer coisa a impedir-me de ver a Mayra Andrade. Ou é porque chego a Sines um dia depois ou é porque ela cancela o Avante ou é porque estou em Loulé e ela actua em Lisboa :( Mas hei-de vê-la...

Grande abraço

un dress disse...

olá antónio :)

olha, vou mesmo arranjar um caderninho para apontar...

pelo menos os nopmes e uma pequena referência a cada nome!...
e falo a sério...:)

foi um longuíssimo festival esse...
Tinariwen sim, ficou!
a parte da cadela light designer ( mas que coisa! :) )também!


beijO

António Pires disse...

Olá Un-Dress :)

Um caderninho para apontar as minhas sugestões?? Fico honradíssimo. Obrigado!! E sim, dos Tinariwen a prioridade vai para o último álbum, «Aman Iman», mas o anterior também é bom, se bem que não tanto (podes ler textos sobre ambos os discos algures neste blog). Tenta encontrar também um «best of» do Vinicio Capossela que a Warner/Farol está a editar por estes dias em Portugal. Parece que não vão editar o último álbum, «Ovunque Proteggi», mas deviam.

Beijo

António Pires disse...

Ah, o anterior dos Tinariwen é o «Amassakoul».

menina tóxica disse...

ainda não me perdoei por ter saído da casa da música no ano passado sem ver os tinariwen.

(porrada em mim mesma!)

adorei a descrição do festival. também queria ver as ovelhas ;)

António Pires disse...

Menina Tóxica:

Por acaso vi esse concerto dos Tinariwen na Casa da Música (no Mestiço, a seguir aos Ojos de Brujo) e gostei muito. Mas gostei muito mais deste em Loulé. Tente apanhá-los por aí porque eles estão mesmo numa forma magnífica!!! Obrigado pelo elogio (e as ovelhas estavam num quadro de uma pintora - alemã?? -, cujo nome, lamentavelmente, não apontei). Os quadros - todos de grandes dimensões - estavam espalhados pelas ruas do recinto do festival, o que dava uma vida nova e lindíssima às paredes brancas. E havia inúmeras exposições: de fotografia, de pintura, de arqueologia, uma interessantíssima exposição de instrumentos árabes...

ANNA-LYS disse...

Hello António
Hope everything is great with You and that You find some time to relax during the summertime!

Do You know what kind of music instrument it is on my blogpost???

(( hugs ))

Anónimo disse...

vim. apenas para matar Saudade.


só.



de si. Música!




_______________/piano.

mariadarosa disse...

Subscrevo na totalidade a parte dos Tinariwen serem a melhor banda rock do mundo .... adorei, amei, gravei, ja os tinha visto ao vivo e nao resisiti ir a loule de preposito. Fui e vim cheia de areia nos bolsos.
Para juntar à festa ainda tive oportunidade de falar com um dos elementos, Eyadou AG LECHE, que estava a ver os taraf (pena o som, ja no avante foi igual) e pude agradecer com um enorme Merci de coração.

O Bailarino é de facto o maior e o Djambe é daquelas coisas que mais faz parecer uma bateria rock

:)

António Pires disse...

Hello Anna-Lys!

Almost no time to relax - only during the music festivals :))

Unfortunately, my computer is always working on safe mode and can't hear music on it (and what is the instrument on «Sitting on top»). What is it?

((Hugs))

Isabel:

Matar saudades é sempre bom (como canta o Sérgio Godinho, «eu matar não gosto muito, mas saudades é diferente...»).

Beijo Poesia

Maria da Rosa:

Vir «cheia de areia nos bolsos» é uma bela imagem sobre aquilo que os Tinariwen transmitem!!! Um grupo de amigos meus está a organizar uma excursão ao Festival no Deserto (que os Tinariwen, entre outros, organizam) e eu estou completamente tentado a ir lá!! Para vir duplamente «cheio de areia nos bolsos».

Volte sempre!

Chá de Lucia Lima disse...

Olá Tinariwen! Olá Bajofondo -- olá Festival MED de Loulé! Foi tal & Qual aqui foi dito. As emoções: só mesmo estando lá! Eu estive e Sempre junto às grades! :-)))

Sou das que participam -- pulo e grito -- e neste, pulei mt!

António Pires disse...

Lúcia Lima:

Obrigado por se ter identificado tanto com o texto!! Eu só não pulo e grito tanto - tenho que ficar cá mais atrás, hummm, a tirar apontamentos :) Volte sempre!

lf disse...

Brilhante o texto, António!

Falta aqui mencionar, quando muito, umas quantas cantigas venezuelanas junto ao palco do castelo, a certas horas madrugais, sob as instruções do repórter. :-)

Grande abraço, companheiro.

Crix disse...

Realmente este Festival Med primou pela multiplicidade e, foi inesquecivel ;)
Assino por baixo de quase todas as tuas opiniões e nem imaginas como me alegra saber que partilhamos a opinião acerca dos Taraf. Foram a desilusão de todo o festival... Eram uma das minhas apostas, e revelaram-se um fiasco. Fiquei com a mesma impressão que tu, vi uma banda totalmente desmotivada, nada organizada e, utilizando a tua imagem, o facto de estarem bastante "alterados" não ajudou em nada!
E pronto, a Alandra, já muito habituada a estas andanças, foi mais uma estrela do Festival!
Para o ano há mais! E até lá, ainda temos muito mais para ver....
:D*

António Pires disse...

Luís:

E faltam outras coisas, como uma referência aos teus Toques do Caramulo, que não vi por estar em trânsito entre o Akli D e os Tinariwen, sem passagem pelo castelo a essa hora. Mas, sim, ainda deu para ouvir a tua belíssima voz em canções venezuelanas lá mais de madrugada; mas olha que eu cá não dei instruções nenhumas ;))

Um grande, grande abraço

Crix:

Sim, eu adoro os Taraf de Haidouks mas desta vez estiveram muito mal. O próprio som - de que fala a Maria da Rosa aqui em cima - não estava bom por exclusiva responsabilidade deles (não vou entrar em detalhes). E a Alandra é linda!!! Obrigado pelas tuas palavras e volta sempre...

Chá de Lucia Lima disse...

Ya, os Taraf de Haidouks foram péssimos -- é a palavra k os define neste Festival.
Já agora, Antº..achas mesmo k me identifiquei mt...?!! :-P
Ataummm prontusss, desta vez não digo manada, só k gostei mt.
Ahhhh, então e k me dizem do trio OliveTree? Tbm puleiiiii! :-)))

brUno amaral disse...

Caro António,
É maravilhoso chegar de um festival com a alma cheia de tantas e tão boas emoções, para vir aqui ler o seu texto (longo? a mim soube-me a pouco... ;)), que tão bem descreve aquilo que se viveu em Loulé!
Maria da Rosa, também agradeci, assim como tu, com o coração, a esse elemento dessa banda magistral que são os Tinariwen. Que sorte temos! ;)
Crix, também "falei" com a Alandra, um beijo pra ela! :)
chá de lúcia lima, eu também tinha lugar cativo junto às grades, quase sempre com a minha musófona e linda Eva a dançar-me em cima dos ombros. :D
Também, também, também... Quanta partilha!

Beijos e Abraços!

António Pires disse...

Lúcia Lima:

Acho pois! E isso é bom!! E, sim, desta vez tenho que dar o braço a torcer: também pulei com os OliveTree, que eu só conhecia de gravações e que ao vivo são uma máquina de dança imparável - e o mais extraordinário é que eles fazem aquilo tudo só com instrumentos acústicos (afinal, às vezes as electrónicas não são precisas para nada :))

Bruno:

Obrigado!! E partilha é mesmo a palavra exacta para descrever aquilo que se viveu no MED e está também a acontecer nesta caixa de comentários.

Grande abraço

rui mota disse...

Grande programação, de facto. Não pude lá estar, por pena minha: África Festival, Estrella Morente e Gaiteiros, foram as alternativas em Lisboa. A Mayra (apesar de rouca) é um espanto e os Tiraniwen (ontem, no S. Jorge) excederam as expectativas. Grande banda! Não diria que é "rock-and-roll", mas bons "blues", são de certeza. A descoberta deste Verão!

António Pires disse...

Olá Rui,

Seja bem-vindo a este cantinho! Há tanta coisa a acontecer que muitas vezes não sabemos para onde havemos de nos virar... Os Tinariwen são de facto fabulosos - mas olhe que eles também têm muito do rock em que os blues se tornaram (os blues ácidos de Jimi Hendrix, por exemplo...) e, claro, a base sahariana e sub-sahariana em que nasceram... Um abraço e volte sempre.