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04 dezembro, 2011

A Naifa Vai Ter Novo Álbum... E Lança Um Desafio!


Mais importante do que comemorar a passagem (ou elevação?) do fado a Património Imaterial da Humanidade é perceber que o fado é uma música -- e um espírito, uma identidade, um estado maior que o Estado -- mutante e que é nessa mutabilidade que pode e deve sobreviver. Exemplos: Amália (sempre!), Carlos do Carmo, José Mário Branco, António Variações, Ocaso Épico, Anamar, Heróis do Mar, Nuno Rebelo, Paulo Bragança, Mísia, Ovelha Negra... E mais uns quantos mais recentes e que toda a gente conhece. E, agora, a boa notícia: A Naifa vai ter um novo álbum e, ainda melhor, um álbum em que todos podem participar criativamente... O comunicado oficial reza assim:


"A NAIFA REGRESSA COM NOVO ÁLBUM EM 2012

Depois de em 2010, ter editado o livro/DVD "Esta depressão que me anima", de homenagem a João Aguardela, A Naifa prepara agora o lançamento do quarto álbum de originais.

O novo disco, com 11 canções compostas a partir de textos de Adília Lopes, Ana Paula Inácio, Margarida Vale de Gato, Maria do Rosário Pedreira e Renata Correia Botelho, tem saída marcada para Fevereiro de 2012.

CONVITE A ARTISTAS GRÁFICOS PARA COLABORAÇÃO NO NOVO DISCO

A Naifa convida artistas plásticos, gráficos, ilustradores, fotógrafos e todos os interessados a desenvolverem propostas de intervenção gráfica com base nos 11 poemas que serão disponibilizados no Facebook d'A Naifa.

Os trabalhos escolhidos irão integrar a arte final do novo álbum"

Todos os detalhes desta iniciativa, aqui.

04 abril, 2011

Colectânea de Textos no jornal "i" - XXIV


Em busca das arcas perdidas...
Publicado em 18 de Fevereiro de 2010

A Movieplay vai editar, dia 1 de Março, uma colecção de fado com dezenas de temas inéditos em CD "descobertos" no acervo da antiga editora Alvorada, etiqueta da Rádio Triunfo. O trabalho de recuperação do tesouro foi feito por José Manuel Osório e, nos três volumes de "Os Fados da Alvorada", estão gravações de Amália Rodrigues, José Afonso, Artur Paredes (na foto), Carlos Paredes, Luís Piçarra, João Villaret, Tereza Siqueira (mãe de Carminho), Maria de Lurdes Resende e Madalena Iglésias, entre muitos outros. Trata-se de mais um passo importantíssimo - a juntar-se a outros - para a preservação da nossa memória musical. Mas ainda há muito por fazer. Há alguns dias, no âmbito de um trabalho não estritamente musical, um amigo meu "descobriu" (e continuo a usar as aspas porque estas coisas já lá estão, à espera de ver de novo a luz) valiosíssimas gravações ao vivo de artistas e grupos importantes do pré e pós-25 de Abril que é urgente dar a conhecer. Numa conversa recente com um etnomusicólogo veio à baila o facto de dezenas de horas de recolhas feitas por Michel Giacometti (e mais algumas feitas por Ernesto Veiga de Oliveira) nunca terem sido disponibilizadas em disco, quer em vinil quer em CD. Se juntarmos a isto o facto, entre outros, de não ter sido dada continuidade à colecção Do Tempo do Vinil (que previa, por exemplo, o lançamento em CD do primeiro álbum a solo de José Cid), vemos que esse trabalho de recuperação é gigantesco mas absolutamente necessário.


E as arcas já reveladas...
Publicado em 25 de Fevereiro de 2010


Um leitor deste jornal fez-me chegar, simpaticamente, via email, o reparo de que uma frase contida na minha última crónica - "o facto de dezenas de horas de recolhas feitas por Michel Giacometti (e mais algumas feitas por Ernesto Veiga de Oliveira) nunca terem sido disponibilizadas em disco, nem em vinil nem em CD" - poderia induzir em erro e ser entendida como a afirmação de que nada daquilo que Giacometti recolheu alguma vez esteve disponível em disco. Tem razão, mas não era essa, obviamente, a minha intenção: o que eu quis dizer era que, para além das muitas horas já editadas, há ainda muitas outras que nunca foram passadas a disco. Como a semana passada se falou aqui de "arcas perdidas" de gravações de música tradicional portuguesa, fala-se hoje de algumas (e apenas de algumas) daquelas que já foram abertas e estão disponíveis em suporte CD: "Música Regional Portuguesa", recolhas de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça (Strauss/PortugalSom), cinco CD; "Portugal Raízes Musicais", recolhas de José Alberto Sardinha (BMG/JN), seis CD; "Música Tradicional dos Açores" (Açor), quatro caixas de CD; "Musical Traditions of Portugal" (Smithsonian/Folkways), CD com 30 temas; "Música Tradicional - Terra de Miranda" (Saga, numa colecção que inclui também regiões espanholas); "Voix de Femmes de Portugal" (Ethnic); variadíssimos CD com recolhas de Mário Correia (Sons da Terra), etc. Conclusão: há muita música de raiz tradicional rural já revelada, mas há muito mais ainda por revelar.

Um outro mapa necessário
Publicado em 04 de Março de 2010


Não quero alongar-me muito sobre o estado do ensino da Música nas escolas oficiais, realidade que, sublinho, apenas conheço pela rama, mas da qual tenho a percepção, talvez errada talvez não, de que é extremamente pobre se comparada com a de muitos outros países, principalmente no que toca ao ensino das nossas músicas tradicionais - carência que é, em parte, colmatada pela existência de escolas privadas ou associações em que esse ensino existe, vivo e dinâmico. Estou convicto, no entanto, de que essa realidade poderá mudar, pelo menos um bocadinho, se todas as salas de aula em que se ensina Música ostentassem na parede, com orgulho e galhardia, o belíssimo Mapa Etno-Musical de Portugal. Espelho imediato da diversidade, da riqueza e da originalidade de géneros musicais, instrumentos tradicionais, formações vocais ou antigos saberes do povo português, o Mapa Etno-Musical é uma criação do músico Júlio Pereira, com a ajuda de João Luís Oliva, Sara Nobre e Henrique Cayatte, e nele estão, de forma simples e imediata, retratados variadíssimos instrumentos musicais portugueses, uns conhecidos e outros que poderão abrir imediatamente o apetite a miúdos e professores: mas que raio é um rajão ou uma viola campaniça, que música é essa do aboio ou do leva-leva? No site do Instituto Camões, onde o mapa também está alojado, podem ainda ouvir-se os sons respectivos. Apesar de não ser exaustivo, o mapa é bem capaz de aguçar a curiosidade por muita da nossa música.

06 março, 2011

Colectânea de Textos no jornal "i" - XXIII


Afinal o que é a música portuguesa?
Publicado em 28 de Janeiro de 2010

Um comentário de um leitor deste jornal, na sua versão online, ao meu último texto fez-me pensar na seguinte questão (e nalgumas outras, paralelas): afinal o que é a música portuguesa? O comentário, justíssimo!, referia-se à ausência dos Buraka Som Sistema (na foto) na lista das mais relevantes exportações da música portuguesa. Nesta coluna, há alguns meses, eu próprio apontava a saudável ironia que é o facto de os artistas musicais residentes em Portugal mais conhecidos, actualmente, no estrangeiro serem Mariza (que nasceu em Moçambique) e os Buraka Som Sistema (em que apenas um elemento é português e com a própria música do grupo a ser um misto de música angolana, jamaicana e norte-americana). E é aqui que está parte da questão. O que é a música portuguesa? É apenas a música feita por portugueses, cantada em português, com raízes portuguesas (urbanas como o fado ou rurais como os corridinhos ou o cante alentejano)? Deveremos fazer a distinção entre "música portuguesa", "música feita por portugueses" (seja de que género for, desde que os músicos sejam nacionais) e "música feita em Portugal" (feita por portugueses e também por estrangeiros residentes em Portugal)? E onde encaixar aqui os inúmeros estrangeiros, residentes nos respectivos países, que cantam ou tocam fado? Isto é: fazem mais "música portuguesa" a fadista catalã Névoa, os Blind Zero ou o Ricardo Rocha, que toca instrumentais em guitarra portuguesa mas que a leva para outros universos musicais?



Outros caminhos do fado
Publicado em 04 de Fevereiro de 2010

Há variadíssimas colecções de discos de fado. Só para citar algumas, há a do jornal "Público" (que conta a história do fado, com notas importantes de Rui Vieira Nery); há uma mais recente da CNM (Companhia Nacional de Música); "The Best of Fado - Um Tesouro Português", da EMI; as lindíssimas caixas "Divas do Fado" e "Fado sempre! Ontem, hoje e amanhã", ambas da Difference; etc. E haverá, no futuro, a mais aguardada de todas: a edição em CD dos velhos discos de fado (e não só) em 78 rpm, coleccionados por Bruce Bastin, e que será editada, ao que presumo, pela Tradisom. Esta de que falo hoje, "Alma Lusitana", é uma edição conjunta FNAC/iPlay: seis CD que fazem uma viagem global e bastante aliciante por várias décadas de fado, tanto pelos seus cantores como pelos intérpretes de guitarra portuguesa - estão aqui os inevitáveis Carlos Paredes e Armandinho, Alfredo Marceneiro, Tristão da Silva e Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Beatriz da Conceição e Hermínia Silva... E que também surpreende pela quantidade de nomes novos e desviantes que inclui. Um dos CDs - e logo o primeiro da série! - intitula-se, exactamente, "Outros Caminhos", e nele aparecem nomes como A Naifa, Donna Maria ou os Atlantihda (na foto), mas também os Cool Hipnoise, Sam The Kid, Ana Deus (Três Tristes Tigres) ou M-Pex. Noutros CDs estão Pedro Jóia e Catarina Moura (Brigada Victor Jara), com a sua participação em "Fados", de Carlos Saura. Todos a mostrar que há muito fado para além das fronteiras do fado.



Tradição é a transmissão do fogo...
Publicado em 11 de Fevereiro de 2010

Há uma fase de Gustav Mahler que está a fazer uma saudável escola entre a comunidade "trad" portuguesa: "A tradição é a transmissão do fogo, não a veneração das cinzas." E isso reflecte-se na música de muitos dos novos grupos e artistas portugueses. De muitos deles já falei aqui - ainda a semana passada foram referidos nesta coluna vários desvios ao fado -, havendo hoje espaço para mais cinco. Nos seus discos de estreia, o álbum "Dentro da Matriz" e o EP "Electrónica cá da Terra", respectivamente, os Omiri (projecto a solo de Vasco Ribeiro Casais, dos Dazkarieh) e os Charanga mergulham de cabeça na tradição e transformam-na em música absolutamente moderna e actual. Os Omiri vão a várias danças tradicionais europeias e injectam-lhes distorção e heavy-metal, mas também... drum'n'bass. Ao drum'n'bass e a outras tipologias electrónicas vão também os Charanga, estes mais empenhados em recriar temas profundamente portugueses. No seu novo álbum, "Senhor Galandum", os veteranos Galandum Galundaina (na foto) não prescindem da música tradicional transmontana, cantada em mirandês e tocada com instrumentos acústicos, mas também surpreendem quando dão a Hugo Correia (Fadomorse) a remistura electrónica de "Nabos (cun alheiras i bino)". A cantora Claud recria e bem, no seu novo álbum "Pensamento", temas de Sérgio Godinho, Jorge Palma e Trovante. E os OliveTreeDance dão três voltas ao malhão - em "Viva o Malhão", do EP "Urbano Roots" - com didgeridoo e percussões trance!

10 agosto, 2010

Colectânea de Textos no jornal "i" (VIII)


A Rosa (e os Enjeitados)
por António Pires, Publicado em 08 de Outubro de 2009

António Variações cantava, em "Todos Temos Amália na Voz": "Dei o teu nome à minha terra/Dei o teu nome à minha arte/A tua vida é primavera/A tua voz é eternidade", antes de, no refrão, dizer "Todos nós temos Amália na voz". E Variações, nesta canção composta muitos anos antes da morte de Amália Rodrigues - ele, aliás, viria a morrer muito mais cedo que a sua musa -, resumiu na perfeição o amor, o respeito e a admiração que milhões de portugueses sentiram e sentem pelo ícone maior do fado de Lisboa. Não são de mais, portanto, as inúmeras iniciativas que nesta e nas últimas semanas homenagearam a memória de Amália. A edição em CD de temas inéditos dos primeiros tempos da cantora; extensas colecções de discos; concertos de tributo (de gente do fado e de fora dele); conferências; exposições; o filme "Amália" a passar na RTP... Tudo isso é mais que justo, e se calhar ainda é pouco. Mas não deixa de ser triste - como o fado - pensar que homenagear Amália é importante, mas que igualmente importante seria homenagear muitos outros. Há dois anos passaram 25 anos sobre a morte de Alfredo Marceneiro (na foto). O ano passado, 20 sobre o falecimento de Francisco José. Alguém os recordou? Neste mesmo ano de 2009 passam dez anos, tal como com Amália, sobre o desaparecimento de Lucília do Carmo. Onde estão as comemorações? Max morreu em Maio de 1980. Alguém sabe de alguma coisa que esteja a ser feita para a celebração dos 30 anos da sua morte, daqui por alguns meses?




O Segredo da Mandrágora
por António Pires, Publicado em 15 de Outubro de 2009

Se Michel Giacometti - e alguns outros - fez um trabalho extraordinário na preservação do património musical português, também é importante que, neste início de novo século, se ponham em diálogo as tradições com a modernidade. E isso está a ser feito por muitos nomes da música portuguesa que têm sido referidos nesta coluna ao longo das últimas semanas. Mas esse diálogo é ainda mais visível - e aqui "visível" é a palavra correcta - na obra videográfica de Tiago Pereira, que em filmes como "11 Burros Caem no Estômago Vazio", "Arritmia" ou "B Fachada - Tradição Oral Contemporânea" - tem sempre feito a ponte, ao mesmo tempo que a questiona muitas vezes de forma irónica, entre a nossa música tradicional e a nossa música moderna. O culminar deste processo é um filme/instalação multimedia/intervenção em tempo real e ao vivo... novo e absolutamente maravilhoso: "Mandragora Officinarum". Nele, Tiago Pereira parte da nossa religião tradicional (mistura de paganismo antigo, judaísmo mal-amanhado, resquícios da cultura muçulmana, um catolicismo temeroso e medicina popular) para, com esse mote, pôr em confronto responsos, ladaínhas, orações, benzeduras e receitas de mezinhas tradicionais com a música de gente como Tó Trips, B Fachada, Tiago Guillul, Márcia, Ernst Reijseger, Pedro Mestre, Paulo Meirinhos, Vasco Casais, Walter Benjamin, Jorge Cruz, Luís Fernandes, Lara Figueiredo ou BiTocas. "Mandragora Officinarum" é um marco maior do nosso cinema e da nossa música.



O fado não é só português!
por António Pires, Publicado em 29 de Outubro de 2009

Anda a circular na net um texto de Fernando Zeloso (será pseudónimo?) que parte dos Amália Hoje - sobre os quais já dei a minha opinião nesta coluna -, para depois defender, entre outras tomadas de posição xenófobas e nacionalistas (inclusive acerca dos luso-brasileiros da selecção portuguesa de futebol e terminando o texto com um revelador... "A Bem da Nação Fadista"), que o fado deve ser única e exclusivamente cantado por portugueses. A mesma posição tomaram algumas pessoas a propósito do filme "Fados", realizado por um espanhol, Carlos Saura, e onde apareciam Lila Downs (na foto), Caetano Veloso, Cesária Évora e Miguel Poveda, entre outros, a cantar fado. Ora esta ideia, para além de perigosa ideologicamente e mesquinha moralmente, é sem dúvida ridícula. Pela mesma ordem de ideias, e entre variadíssimos exemplos possíveis, Vitorino não poderia gravar tangos, Luís Represas não poderia cantar música cubana nem os Mind da Gap fazer hip-hop - e a própria Amália Rodrigues nunca poderia ter interpretado flamenco, napolitanas, canções francesas, as maravilhosas letras de Vinicius de Moraes ou standards de jazz. Em tempos fiz um apanhado de cantores e instrumentistas de fado não portugueses. E são às dezenas: no Japão, no Brasil, na Itália, na Espanha, na Argentina, na Índia, no México, na Holanda, na Croácia, na Polónia, na França... O que, ao contrário do que defende Zeloso, nos deveria, isso sim, encher de orgulho.

19 maio, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (I)

Faz este mês um ano que comecei a colaborar com o jornal «i», sendo o responsável por uma coluna de opinião sobre música portuguesa. Hoje e nos próximos tempos - a conselho de uma mente sábia - publicarei aqui muitos dos textos que, semanalmente, foram por lá nascendo em suporte papel-e-tinta. Não é só world music, tradição e folk, mas como este blog tem andado demasiado órfão sempre é uma maneira de ir ocupando aqui os pixéis disponíveis de uma forma, hermmmm, útil...


A vingança do kuduro
por António Pires, Publicado em 15 de Maio de 2009

Na longa lista de aberrações convidadas para os seus programas televisivos - o Vítor Peter, a Pomba Gira, a Natália de Andrade, o Professor Alexandrino... -, Herman José incluiu há alguns anos o duo de kuduro Salsicha & Vaca Louca, ridicularizando os seus ritmos selvagens e os seus requebros opulentos. Poucos anos depois, o kuduro, via Buraka Som Sistema (na foto, de Hilary Harris), mas não só,é um fenómeno de sucesso mundial. Angolano na sua origem mas com ligações ao miami bass, ao baile funk brasileiro, ao kwaito sul-africano, ao reggaeton porto-riquenho e ao dancehall jamaicano, o kuduro foi adoptado por vários produtores e músicos dos PALOPs e de Portugal (Dog Murras, DJ Znobia, Makongo, Batida ou o cabo-verdiano que junta funaná com kuduro Izé, entre muitos outros) e de fora da esfera lusófona como M.I.A. (a voz principal da oscarizada banda-sonora do filme "Quem Quer Ser Bilionário?"), o DJ e produtor francês Frédéric Galliano ou o norte-americano Diplo. E os Buraka Som Sistema actuam nos principais festivais do mundo (Glastonbury, Roskilde, Coachella...) e têm feito digressões, com tremendo sucesso, no Japão, na Europa, na Austrália e nos Estados Unidos. Os Buraka Som Sistema (uma mistura de portugueses, angolanos e indo-moçambicanos e um espelho perfeito do caldo de culturas em que Lisboa se transformou nos últimos anos) são, aliás, considerados - ao lado de Mariza, uma fadista nascida em Moçambique - os maiores embaixadores actuais da música... portuguesa. Está na altura de reescrever a entrada "kuduro" na "enciclopédia" do Herman.



Um musical para José Cid
por António Pires, Publicado em 22 de Maio de 2009

Aterra-se no aeroporto de Gatwick, chega-se a Londres de comboio e a primeira coisa que se vê é o enorme cartaz de "We Will Rock You", o musical dedicado aos Queen, em cena no Dominion Theatre, ali mesmo ao lado (e que tem no elenco um cantor e actor português, Ricardo Afonso, que, ao que parece, é uma emulação quase perfeita de Freddie Mercury). E, para além dos outros, milhentos, exemplos de musicais dedicados a grandes nomes da música, assistimos desde há alguns anos à febre "Mamma Mia": de repente os ABBA são a coisa melhor do mundo, há peças de teatro, filmes, concursos, karaokes e discos a mitificar as canções do grupo sueco. Agora, a circular na net, corre uma petição a pedir um musical dedicado à vida e obra de José Cid (na foto, de Rita Carmo). Sou suspeito quando falo dele - tive a honra de escrever a biografia do Quarteto 1111, que tinha como líder José Cid -, mas acho que posso dizer, em consciência, que era mais que justo fazer-se esta homenagem. Pelo 1111, pelos Green Windows, pela sua valiosíssima obra a solo, do disco "da palha" a "10 000 Anos depois entre Vénus e Marte" e muitos outros. E também pelos deslizes e apesar dos deslizes... Mas há uma diferença fundamental entre Cid e os outros: o Freddie Mercury já morreu, os ABBA acabaram há muito e sabe-se que nunca voltarão a reunir-se, mas José Cid está vivinho da costa! Logo, o actor principal que proponho para esse musical baseado no José Cid não poderia ser outro senão... o próprio José Cid.



O fado que há nos Joy Division
por António Pires, Publicado em 29 de Maio de 2009

Em alguns círculos mais apertados do fado continua a gritar-se "heresia!" sempre que há alguns desvios mais atrevidos ao género. O último caso deu-se com as canções dos Joy Division e dos Nine Inch Nails interpretadas - de forma excelente, digo eu - por Mísia (na foto, de Youssef Nabil) no álbum "Ruas": porque são cantadas em inglês; porque têm bateria e guitarra eléctrica a acompanhar; porque vêm de um reportório do rock, rock mesmo. Mas estas críticas perdem fulgor quando se pensa que a canção portuguesa de maior sucesso mundial é "Coimbra" - traduzida e adaptada para francês e inglês como "Avril au Portugal" e "April in Portugal", respectivamente, e cantada por Louis Armstrong, Bing Crosby, Eartha Kit ou Liberace - ou que Amália Rodrigues, que cantava frequentemente noutras línguas, gravou um álbum inteiro em inglês, "Amália na Broadway" (onde interpretava temas como "Long Ago and Far Away", "Blue Moon" ou "Summertime"). Mais alguns exemplos: a deliciosa versão de "Hey Jude", dos Beatles, por Carlos Bastos (editada no final dos anos 60, com arranjo para guitarra portuguesa de António Chainho e cantada por Carlos Bastos com uma pronúncia divertidíssima); a arrepiante versão de "Sorrow's Child", de Nick Cave, por Paulo Bragança; ou as "Outras Canções" de Camané, que já incluíram temas de Frank Sinatra ou Divine Comedy.

10 novembro, 2008

«Todos Cantam Zeca Afonso» - Uma Colectânea de Homenagem


Aqui há uns bons anos, a colectânea «Filhos da Madrugada» mostrava uma série de versões de temas de José Afonso feitas de propósito para esse disco produzido por Manuel Faria. Versões de grupos como os Madredeus, GNR, Sitiados, Vozes da Rádio, Os Tubarões, Delfins, Diva, Opus Ensemble, Xutos & Pontapés, Mão Morta ou Brigada Victor Jara. E, só o ano passado - a propósito da passagem do vigésimo aniversário sobre a morte de José Afonso -, surgiram inúmeros álbuns de tributo, feitos por variadíssimos grupos e artistas, à arte e ao génio do autor de «Grândola Vila Morena». E a somar a isso tudo, a Farol lança hoje, dia 10 de Novembro, mais uma colectânea de homenagem, «Todos Cantam Zeca Afonso», que abrange diversas épocas (há gravações dos anos 70, como as de Tonicha e Amália, mas também algumas saídas dessa fornada de homenagens de 2007) e diversos géneros musicais. O alinhamento completo do disco é:


1. José Mário Branco/Amélia Muge/João Afonso – «Maio Maduro Maio»

2. Cristina Branco – «Canção de Embalar»

3. Fernando Machado Soares – «Maria Faia»

4. Mariza – «Menino Do Bairro Negro»

5. Tonicha – «Resineiro Engraçado»

6. Jacinta – «Se Voaras Mais Ao Perto»

7. Teresa Silva Carvalho – «Vejam Bem»

8. Frei Fado D'El Rei – «A Morte Saiu À Rua»

9. Paula Oliveira & Bernardo Moreira – «Os Índios Da Meia-Praia»

10. Carla Pires – «Traz Outro Amigo Também»

11. Uxía – «Verdes São Os Campos»

12. Sons da Fala – «Venham Mais Cinco»

13. Lua Extravagante – «Adeus Ó Serra Da Lapa»

14. Lena d'Água – «Era Um Redondo Vocábulo»

15. Rosa Madeira – «Menina dos Olhos Tristes»

16. João Afonso – «Bombons De Todos Os Dias»

17. Couple Coffee & Band – «Vampiros»

18. Carlos do Carmo – «Menino D'Oiro»

19. Amália Rodrigues – «Grândola Vila Morena»

20. Júlio Pereira – «Viva O Poder Popular»

28 abril, 2008

III Gala Amália - Os Prémios do Fado


Mais do que um espectáculo, a Gala Amália - este ano na sua terceira edição, a decorrer no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, dia 21 de Maio - é também um momento de homenagem, não só à cantora que o inspira mas também ao fado como forma músical e artística. Melhor explicado, e citando o comunicado de imprensa, «no próximo dia 21 de Maio o Centro Cultural Olga Cadaval abre as suas portas para receber a terceira Gala Amália. Este espectáculo destina-se a premiar os melhores no fado, tendo como principal objectivo divulgar, incentivar e premiar a criação e divulgação da música portuguesa». Na gala vão actuar Ana Moura (na foto), Beatriz da Conceição, Camané, Machado Soares, Marco Rodrigues e Pedro Moutinho. Os prémios Amália, referentes a 2007 e já conhecidos, contemplaram Beatriz da Conceição (Prémio Carreira), Marco Rodrigues (Prémio Revelação), Ana Moura (Melhor Intérprete), Moniz Pereira (Prémio Composição/Poesia), Carlos Manuel Proença (Melhor Instrumentista), Pedro Moutinho (Melhor Álbum) e Victor Duarte Marceneiro (Prémio Ensaio/Divulgação), votados por um júri constituído por Machado Soares (autor/compositor e intérprete de fado de Coimbra), Gabriela Canavilhas, (pianista e presidente da Orquestra Metropolitana de Lisboa), Nuno Lopes (jornalista da Lusa), Hélder Moutinho (fadista), Nélson Tereso (vogal da Fundação Amália) e A. Lourenço (vogal da Fundação Amália).

05 outubro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXVII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXVII.1 - Amália Rodrigues



Considerada unanimemente como a maior das cantadeiras de fado - e também actriz e... compositora - Amália Rodrigues (de nome completo Amália da Piedade Rebordão Rodrigues) nasceu em Lisboa, a 1 (ou 23) de Julho de 1920, e morreu na mesma cidade, a 6 de Outubro de 1999. Mas, se Lisboa foi o palco do seu nascimento e da sua morte e a música tradicional de Lisboa, o fado, a sua expressão maior, muitos outros palcos por todo o mundo acolheram a sua-voz-maior-que-a-vida e a sua arte, que partia do fado mas podia ir desembocar a muitas outras músicas. As suas actuações em prestigiadas salas do Brasil, de França, de Espanha, dos Estados Unidos, do Japão e até da antiga União Soviética (e numa altura em que o regime salazarista português tinha no comunismo o seu maior inimigo) fizeram dela uma das primeiras divas globais da agora chamada «world music» e abriram o caminho para muitos outros artistas, portugueses e não só. Um Mito.


Cromo XXVII.2 - Yothu Yindi



O rock, é sabido, anda por todo o lado. E até em locais dos antípodas, como a Austrália, terra de muito bom rock (de Nick Cave aos Go-Betweens, passando pelos, pois, AC/DC e os... Dead Can Dance). Mas já será mais estranho (ou não?) saber-se de uma importante banda rock cujo líder e maioria de elementos é constituída por aborígenes. Mas essa banda, Yothu Yindi, existe e não é a única. Mas é a pioneira de uma música que junta a música tradicional dos aborígenes com a pulsão do rock e uma ligação fortíssima a temáticas políticas (cantam, muitas vezes, sobre a repressão a que os aborígenes são sujeitos e também defenderam a causa de Timor-Leste, ali ao lado). Liderados pelo cantor e compositor Mandawuy Yunupingu, os Yothu Yindi têm na sua formação aborígenes e não aborígenes e tanto usam guitarras eléctricas e acústicas e bateria quanto o inevitável didgeridoo ou os também tradicionais «paus de percussão».


Cromo XXVII.3 - Atahualpa Yupanqui



Atahualpa Yupanqui (pseudónimo de Héctor Roberto Chavero Haram, nascido a 22 de Janeiro de 1908, em Pergamino, Argentina, falecido a 23 de Maio de 1992) é a mais importante personagem da música argentina extra-tango. Cantor, guitarrista, compositor, poeta, Yupanqui foi também a influência maior de muitos cantores e compositores argentinos e de outros países da América Latina, nomedamente da cantora sua conterrânea Mercedes Sosa, que muitas vezes interpretou as suas canções. Incansável recuperador e reinventor das canções tradicionais do interior da Argentina; activista político durante várias décadas (Yupanqui pertenceu ao Partido Comunista Argentino durante bastante tempo, tendo-se exilado no Uruguai por isso) e um símbolo da preservação de culturas antigas (o seu pseudónimo presta homenagem a dois reis incas), a sua arte permanece ainda nas vozes de muitos dos seus seguidores.


Cromo XXVII.4 - Paul Simon



Paul Simon (de nome completo Paul Frederic Simon, nascido a 13 de Outubro de 1941, em Newark, Nova Jérsia, Estados Unidos) foi um dos artistas de maior sucesso dos anos 60 e 70, mercê de uma parceria bastante frutuosa com Art Garfunkel e de canções inesquecíveis como «The Sound of Silence» ou «Bridge Over Troubled Water». Mas se Garfunkel era a «carinha laroca» do duo, Paul Simon era o principal compositor e o homem das ideias, ideias que ao longo do tempo o levaram, a solo, para caminhos alternativos ao seu habitual folk-rock: o reggae na canção «Mother and Child Reunion» ou, já na década de 80 e inícios de 90, a música sul-africana no álbum «Graceland» - em que foi acompanhado pelos Ladysmith Black Mambazo - e a música brasileira em «The Rhythm of the Saints» - onde, entre outros, colabora Milton Nascimento. Dois álbuns que, só por si, lhe garantiriam um lugar nestes Cromos.

29 março, 2007

«Coimbra» - Uma Colectânea Histórica



Saiu em 2004 mas nunca é tarde para se falar dela: a magnífica colectânea «Coimbra», que mostra como esta canção portuguesa foi interpretada (com este nome ou sob as suas designações em francês e inglês, «Avril au Portugal» ou «April In Portugal») de formas tão diferentes por tanta gente diferente - de Amália Rodrigues a Louis Armstrong (na foto), de Caetano Veloso a Bing Crosby -, interpretações escolhidas entre as cerca de 200 versões da canção encontradas por José Moças, da Tradisom. A crítica que se segue foi publicada originalmente no BLITZ em Junho de 2004.


VÁRIOS
«COIMBRA»
Tradisom

Se a norma que impede as mulheres de cantar fado de Coimbra não tivesse sido quebrada por Amália Rodrigues - assim como quebrou muitas outras normas e regras «estabelecidas» - talvez a canção «Coimbra» fosse apenas um belíssimo tema de Raul Ferrão (música) e José Galhardo (letra) interpretado por alguns fadistas portugueses. Mas não, Amália cantava-a nos seus espectáculos e, certo dia, interpretou-a para a cantora francesa Yvette Giraud, que pegou no tema e para ele pediu uma nova letra, em francês, a Jacques Larue, transformando-a assim em «Avril au Portugal». Depois, toda a gente começou a gravar a canção (em português, francês, inglês, italiano...)... e é de algumas (24) dessas inúmeras versões gravadas ao longo dos últimos cinquenta anos que é feita a colectânea «Coimbra», pensada e organizada por José Miguel Júdice e José Moças. Colectânea abrangente, divertida e universal - dando uma boa ideia de quem se apaixonou por «Coimbra» - aqui estão as versões de Alberto Ribeiro (que a gravou pela primeira vez; para o filme «Capas Negras», em 1947) e de luminárias da música internacional como, entre outros, Louis Armstrong (cuja trompete e voz dão um swing quente e lindíssimo à melodia), Bing Crosby, Amália (que a canta aqui em italiano), Eartha Kit, Caetano Veloso, Chet Atkins, Xavier Cugat, Yvette Giraud, Bert Kaempfert, Perez Prado, Tony Martin e curiosidades como uma steel-band de Trinidad e Tobago ou a versão «camp» de Liberace. Falta só aqui, talvez, a versão de Luís Piçarra que, segundo a «Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa», vendeu mais de um milhão de exemplares do tema (!). (8/10)

06 outubro, 2006

Amália Rodrigues (23 de Julho de 1920 - 6 de Outubro de 1999)


Amália Rodrigues morreu há sete anos. E, indo ao fundo da nossa memória da cantadeira, nenhuma canção por ela cantada (nem mesmo «Amália», nem mesmo «Estranha Forma de Vida», nem mesmo «Com Que Voz») poderia resumir melhor a sua arte do que esta que aqui deixo. Vénia, respeito e saudade.


«Foi Deus»
(Roberto Gomes)

Não sei, não sabe ninguém
Por que canto o fado
Neste tom magoado
De dor e de pranto
E neste tormento
Todo o sofrimento
Eu sinto que a alma
Cá dentro se acalma
Nos versos que canto

Foi Deus
Que deu luz aos olhos
Perfumou as rosas
Deu oiro ao sol
E prata ao luar
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
E pôs as estrelas no céu
E fez o espaço sem fim
Deu o luto às andorinhas
Ai, e deu-me esta voz a mim

Se canto
Não sei o que canto
Misto de ventura
Saudade, ternura
E talvez amor
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando
Se tem um desgosto
E o pranto no rosto
Nos deixa melhor

Foi Deus
Que deu voz ao vento
Luz ao firmamento
E deu o azul às ondas do mar
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
Fez poeta o rouxinol
Pôs no campo o alecrim
Deu as flores à Primavera
Ai!, e deu-me esta voz a mim