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04 novembro, 2008

Mafalda Arnauth - Mais Flor Que Fado


Sempre na linha da frente da renovação do fado, a cantora e compositora Mafalda Arnauth editou há algumas semanas o seu novo álbum, «Flor de Fado». Aqui, para fãs e simples curiosos, deixo a transcrição da entrevista que lhe fiz para a «Time Out Lisboa» e da crítica ao álbum, igualmente publicada na mesma revista há algumas semanas.


MAFALDA ARNAUTH
MAIS FLOR QUE FADO...

E ao quinto álbum de originais, «Flor de Fado», Mafalda Arnauth - ela que canta, que produz, que compõe boa parte dos temas do álbum, sozinha ou em parcerias - cria um disco brilhante, pessoalíssimo e um disco que... não é de fado, apesar de o fado estar lá, em flor.

Em 2005, Mafalda Arnauth lançou o seu «best of», de nome «Talvez se Chame Saudade», súmula de uma carreira discográfica com seis anos, três álbuns - todos eles bem inscritos no universo do fado - e uma crescente adesão de público e de crítica em Portugal e no estrangeiro. Uma fadista estava na calha mas, em contramão ou nem tanto, o seu caminho seguinte - o álbum «Diário» (editado nesse mesmo ano, alguns meses depois) mostrava Mafalda a experimentar outras linguagens para além do fado - de uma milonga argentina a uma canção de Vinicius de Moraes, de Charles Aznavour à música basca... - e o recentíssimo «Flor de Fado» mostra a cantora e compositora com um pé no fado e outro em territórios musicais portugueses, muitíssimo portugueses sim, mas que do fado - se é que de fado sempre se trata - só conservam uma essência primordial. Diz ela: «Ainda há poucos dias falava com os meus músicos acerca do título do novo álbum, "Flor de Fado", porque este é de facto o meu disco menos de fado, de fado no sentido tradicional da palavra. Mas sinto-me mais fadista do que nunca. Nos valores, nas intenções, na ideia de cantar a vida real. E nesse sentido acho que continuo a ser extremamente fadista... Mas é verdade que há aqui um depurar, um ir à essência... A "Flor de Fado" é como a flor de sal, quando a água evapora e aquilo que fica...».

A analogia, lindíssima e que facilmente se explica por si, com a flor de sal tem uma continuação lógica na explicação de Mafalda de que este disco vive muito dos diálogos entre duas guitarras clássicas, a viola de fado de Luís Pontes e a viola do argentino Ramon Mascio, e em que a guitarra portuguesa - tocada soberbamente por Ângelo Freire, um jovem de apenas 19 anos a quem Mafalda Arnauth augura um futuro brilhante - aparece muito menos em destaque do que seria de esperar, embora quando apareça, como na sua versão de «Povo Que Lavas no Rio», seja, nas palavras de Mafalda, um «leão na selva». Mafalda Arnauth diz que a viola de fado fica muitas vezes «num ponto absurdamente esquecido. E há muitos anos que queria ter duas guitarras clássicas como base da minha música». E estiveram quase a ser três, se Pedro Jóia - com o seu lado flamenco - se tivesse juntado ao projecto, hipótese que se pôs depois de um concerto no Porto. E a estes guitarristas juntou-se também o baixista Fernando Júdice (ex-Madredeus), que já tinha trabalhado com Mafalda Arnauth no passado mas que do fado só tinha tido essa experiência.

Mafalda justifica, se tal preciso fosse, o seu mergulho em «outras músicas» no anterior álbum «Diário» como consequência de alguém que «quando era nova não ouvia fado, de todo. Ouvia música brasileira, música de outros países de América do Sul, música francesa... Só comecei a ouvir fado com 18, 19 anos. E no "Diário" alarguei os meus horizontes para me exprimir noutras linguagens». E todo o universo fraternal de «Flor de Fado» - um universo em que podem entrar nomes da chamada «canção ligeira» portuguesa dos anos 60 como Fernando Tordo, Simone de Oliveira e até, de forma lateral, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo ou José Afonso - tem também uma razão de ser. «Tenho uma admiração profunda por todos esses nomes. E nunca percebi muito bem porque é que se chamava "canção ligeira" à música do Fernando Tordo, da Simone, do Carlos do Carmo... Ligeira no sentido de superficial, de pouco profundo, de efémero... Acho que não são nada disso. E são mesmo capazes de estar na minha memória genética».

E, em defesa - repete-se, se tal defesa fosse necessária - das suas canções, Mafalda diz que «actualmente há muita gente talentosa a defender, e a defender de forma brilhante, o fado mais tradicional. Mas qual é o interesse de eu ir, só para mostrar que sou capaz, fazer um reportório integral de fado tradicional?... Posso vir a fazer um disco de fado clássico em qualquer altura da minha vida». Mas, enquanto isso não acontece, está aí «Flor de Fado» - onde Mafalda também realça a participação do poeta Tiago Torres da Silva na escrita de alguns temas e o muito bem-disposto dueto com a cantora brasileira Olivia Byington (em «Entre a Voz e o Oceano», tema com música de Olivia e letra de Tiago Torres da Silva) - e uma infinidade de colaborações de Mafalda com gente como o mítico cantor cubano Pablo Milanés (num concerto, há alguns meses, no País Basco), com o importantíssimo grupo galego Milladoiro (numa participação que irá aparecer no próximo álbum deste grupo), com o brasileiro Vinicius Cantuária (num concerto conjunto previsto para a próxima edição do festival Atlantic Waves, em Londres) ou a gravação de um tema para o próximo disco do mestre da trikitixa basca Kepa Junkera. E que melhores parcerias é que se poderiam querer?


MAFALDA ARNAUTH
«FLOR DE FADO»
Universal Music Portugal

Se em «Diário», o seu álbum anterior (de 2005), Mafalda Arnauth levava muitas vezes, e bem, o fado para as «músicas do mundo» - nesse disco Mafalda cantava Vinicius de Moraes, uma milonga, «La Bohéme» (de Charles Aznavour), um tema do basco Fran Lasuen (ex-Oskorri)... - neste novo «Flor de Fado», a cantora salta do fado para uma música portuguesa «mítica» que remete muitas vezes para a grande canção, ligeira ou não, dos anos 60 e 70 no nosso país. Uma música imaginária que convoca em partes praticamente iguais José Afonso e Amália Rodrigues (e está aqui «Povo Que Lavas no Rio», embora numa versão pessoalíssima e que se afasta bastante da matriz amaliana), Simone de Oliveira e Fernando Tordo, Carlos do Carmo e Vitorino Salomé (e está aqui uma versão de «Tinta Verde», de Vitorino). Como está também um delicioso fado-bossa, «Entre a Voz e o Oceano», num dueto com a cantora brasileira Olivia Byington e uma versão lindíssima de «Flor do Verde Pinho» (de Manuel Alegre e José Niza).

Pensado originalmente como «alinhamento» para um concerto, este álbum (de estúdio) tem Mafalda Arnauth rodeada pelo letrista Tiago Torres da Silva e pelos compositores e guitarristas Luís Pontes e Ramon Maschio, Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Fernando Júdice no baixo e Davide Zaccaria no violoncelo. Uma equipa de luxo que fez deste disco aquilo que ele é. «Quem Me Desata» é capaz de ser o fado mais fado de todo o álbum e mostra que, se Mafalda Arnauth e os seus músicos tivessem querido, este poderia ter sido, todo ele, um excelente álbum de fado e de uma excelente fadista. Assim, é - e ainda bem - um excelente álbum de música e de uma excelente cantora. (*****)

29 outubro, 2008

Atlantic Waves - É Esta a Última Edição?


Um e-mail de Miguel Santos recebido há algumas semanas já me tinha alertado para a possibilidade. E, agora, uma notícia da Lusa dá mesmo conta de que o festival Atlantic Waves - cuja edição de 2008 começa dia 1 de Novembro, em Londres - poderá nunca mais vir a acontecer. O que, a concretizar-se, seria uma perda enorme para a divulgação extra-portas da música portuguesa e lusófona. O Atlantic Waves tem sido, tão-só, o mais importante festival temático, feito em terras estrangeiras, centrado na música portuguesa (embora abrindo sempre espaço para músicas e músicos de outros lugares, da lusofonia mas não só) e seria de todo desejável a sua continuação. Do programa deste ano - tal como também se pode ler mais em baixo neste blog e com mais pormenores - constam concertos de Mariza, Gaiteiros de Lisboa, Mafalda Arnauth com Vinicius Cantuária, Berrogüetto, Uxía, Rabih Abou-Khalil (na foto) com o fadista Ricardo Ribeiro, Rodrigo Leão com Vini Reilly, Waldemar Bastos e Neco Novellas. A notícia da Lusa, na íntegra:

«O festival Atlantic Waves, que apresentou Mariza ao público londrino e ao qual a fadista regressa este ano, abre dia 01 de Novembro com o futuro incerto. A delegação em Londres da Fundação Gulbenkian, que até agora financiou o evento dedicado à música lusófona iniciado em 2001, está a ponderar o que irá fazer com a iniciativa, nomeadamente a entrega da sua organização a outra entidade, deixando, no entanto, de a financiar. "Vamos ver se há potenciais parceiros para pegarem no que começámos", disse à agência Lusa o novo director da delegação, Andrew Barnett. A decisão coincide com o fecho do departamento de relações culturais anglo-portuguesas e com a diluição da promocao da cultura portuguesa na estrutura da delegação e a saída do seu responsável, Miguel Santos, que também era o director do Festival.

Andrew Barnett reconhece que o Atlantic Waves "foi um grande sucesso" e reivindica para o Festival o crédito de ter colocado o fado no mapa da música no Reino Unido. "Penso que não é demais dizer que [o Festival] ajudou Mariza a conseguir uma audiência britânica", vincou. Mariza estreou-se nos palcos londrinos em 2002, na 2/a edição do Festival, depois de ter actuado no festival WOMAD, em Reading. Poucos meses depois, em Março do ano seguinte, foi distinguida com o prémio de World Music da BBC3. Desde então Mariza regressou a Londres várias vezes, tendo esgotado a lotação do Royal Festival Hall em 2006, também no âmbito do Atlantic Waves. Este ano, Mariza abre o festival a 01 de Novembro com dois concertos no Barbican e ainda um espectáculo especial para as famílias durante o dia, aberto a crianças. Do programa constam ainda Rodrigo Leão e Durutti Column, Gaiteiros de Lisboa, Mafalda Arnauth, Vinicius Cantuária, estando o encerramento a cargo de Waldemar Bastos e Neco Novellas.

Andrew Barnett, no cargo há um ano, entende que é tempo de a delegação da Gulbenkian em Londres, que tem um orçamento anual de três milhões de euros, avançar para outros projectos. "Temos recursos limitados e é altura de passar à frente", refere, dando como exemplo o prémio britânico para museus e galerias, que a Gulbenkian deixou de patrocinar em 2007 após cinco anos. O mesmo, tudo indica, deverá acontecer com o festival Atlantic Waves.

Nas edições anteriores do festival passaram, entre outros, Madredeus, Mísia, Telectu, Pedro Carneiro, Zé Eduardo, The Raincoats, Lula Pena, Maria João e Mário Laginha, Rodrigo Leão, Blasted Mechanism e Gaiteiros de Lisboa - a maioria dos quais pela primeira vez no Reino Unido.


Um projecto semelhante poderá, entretanto, nascer no próximo ano pelas mãos do fundador e principal impulsionador do Atlantic Waves, Miguel Santos. "Serão quatro dias, seis concertos por dia, no início de Novembro", revelou à Lusa. O modelo, promete, será "mais ambicioso, com músicos portugueses, mas também parcerias internacionais". BM/Lusa»

23 outubro, 2008

Atlantic Waves - Mariza, Gaiteiros de Lisboa e Rodrigo Leão em Londres


Várias prestigiadas salas de espectáculos de Londres recebem, mais uma vez, nas duas primeiras semanas de Novembro, o festival Atlantic Waves, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Um festival que este ano apresenta concertos com alguns nomes maiores da música portuguesa - Mariza (na foto), Gaiteiros de Lisboa, Rodrigo Leão (com Vini Reilly, dos Durutti Column, como convidado-, algumas parcerias suculentas como a já conhecida de Rabih Abou-Khalil com Ricardo Ribeiro ou a inédita de Mafalda Arnauth com Vinicius Cantuária e alguns outros da esfera da lusofonia, com os Berrogüetto e Neco Novellas, entre outros. O programa completo, que segue em inglês e tudo para o caso de um algum «bife» visitar o Raízes e Antenas:

«1–2 Nov
Sat–Sun
7.30pm
£27.50, £25, £10 + bkg

Barbican
Silk Street
London EC2


FADO
Mariza the Terra tour

Three special UK concerts by the queen of fado, the breathtakingly lyrical and melancholic music of Portugal. Adored worldwide for her heartbreaking voice, compelling stage charisma and performances that are full of musical passion and drama, Mariza returns to London for her first UK concerts in two years to premiere material from her eagerly anticipated album Terra, out this autumn on EMI – a richly cosmopolitan mix of flamenco and morna, jazz and folk music through which resonates a constant Portuguese sound.

Info: www.atlanticwaves.org
Box office: 020 7638 8891, www.barbican.org.uk
2 Nov
Sun
2.30pm (special family show)
£40 (family ticket), £15, £10 + bkg

Barbican
Silk Street
London EC2

FADO
Mariza the Terra tour

Mariza’s special family concert on Sunday afternoon is for young people (age 7–14) and accompanying adults.

Info: www.atlanticwaves.org
Box office: 020 7638 8891, www.barbican.org.uk
4 Nov
Tue
7.30pm
£10 + bkg

Bush Hall
310 Uxbridge Road
London W12

GALICIAN FOLK

Folk with a contemporary edge courtesy of award-winning world music group Berrogüetto, who combine a passion for traditional Galician music with contemporary experimentation and influences well beyond the borders of Galicia – playing an eclectic variety of instruments from bagpipes and hurdy-gurdy to acoustic and synthesized guitar; and Uxía, the Galician diva whose passion for mixing cultures results in a fusion of rhythms and sounds. Uxía’s songs are always tinged with the touch of traditional music, whether latent or explicit, making her one of Galicia’s most valued and popular artists.

Info: www.atlanticwaves.org, www.bushhallmusic.co.uk
Box office: 08700 600 100, www.ticketweb.co.uk
5 Nov
Wed
7.30pm
£10 + bkg

Bush Hall
310 Uxbridge Road
London W12

PORTUGUESE FOLK

Acclaimed Portuguese alternative folk group Gaiteiros de Lisboa (‘Lisbon bagpipers’) make a long awaited return visit to London. This folk-world band of multitalented musicians play songs and tunes from Portuguese and other cultures alongside their own compositions, blending the music of their original wind instruments and vocal polyphonies in a continuous search for new sounds.

Info: www.atlanticwaves.org, www.bushhallmusic.co.uk
Box office: 08700 600 100, www.ticketweb.co.uk

6 Nov
Thu
7.30pm
£20, £15, £10 + bkg

Barbican
Silk Street
London EC2

Rodrigo Leão, co-founder of Madredeus, was hailed by Pedro Almodóvar as "one of the most inspired composers in the world". There is a cinematic scale to his work which has attracted collaborators from Ryuichi Sakamoto to Beth Gibbons, and which comes out in his first retrospective work, O Mundo, in which he and his band draw together much of his greatest music as part of an imagined soundtrack. Special guests The Durutti Column, Vini Reilly's legendary Manchester band, play a very rare London show in support of the forthcoming 30 Years of Factory Records box set.

Info: www.atlanticwaves.org
Box office: 020 7638 8891, www.barbican.org.uk

9 Nov
Sun
7.30pm
£22, £20, £17.50, £15 + bkg

St John’s
Smith Square
London SW1

OUD MASTER MEETS YOUNG FADISTA

A programme of Portuguese song from Rabih Abou-Khalil’s new album Em Português, featuring the voice of young Fado star Ricardo Ribeiro.

Master Lebanese oud (Arabic lute) player and composer Rabih Abou-Khalil takes inspiration from the poems of contemporary Portuguese writers Mário Raínho, Tiago Torres da Silva, Rui Manuel and José Luís Gordo, and from the free-spirited, amazingly mature voice of young Portuguese Fado star, Ricardo Ribeiro. Still in his twenties, Ribeiro is an authentic singer rooted fully in tradition but open to adventure in new directions. Weaving music around words and words around music, with long-term partners Luciano Biondini (accordion), Michel Godard (tuba and bass) and Jarrod Cagwin (percussion), the warm sounds of oud and voice create moods that are nothing less than exquisitely beautiful, where the saudade of Fado and the yearning of Abou-Khalil’s Middle Eastern melodic sense combine to create a completely new music – a kind of imagined folklore that seems to have existed all along.

Info: www.atlanticwaves.org
Box office: 020 7222 1061, www.sjss.org.uk
10 Nov
Mon
7.30pm
£20, £15, £10 + bkg

Queen Elizabeth Hall
Southbank Centre
London SE1

BOSSA NOVA MASTER & FADO DIVA

One of the greatest living singer-songwriters, Vinicius Cantuária’s seductive, restless music places him in a lineage that includes the great Tom Jobim and Caetano Veloso and has the subtle, sad beauty of the greatest bossa nova songs. For this very special show, celebrating half a century of bossa nova, Cantuária presents Samba Carioca – inspired by the sounds of the 1950s, when a generation of musicians championed the songs of the great sambistas and were increasingly taken with the jazz sounds emerging from America. It was that mix of influences that gave birth to the sophisticated sounds of bossa nova and Cantuária's Samba Carioca Quartet will perform music from the past and future of Brazilian music. Mafalda Arnauth sweeps away audiences with her singular voice and youthful spontaneity. Her unique re-interpretations of the classics combined with her own original songs make her an essential part of the new fado scene.

Info: www.atlanticwaves.org
Box office: 0870 663 2500, www.southbankcentre.co.uk

11 Nov
Tue
7.30pm
£20, £15, £10 + bkg

Queen Elizabeth Hall
Southbank Centre
London SE1

LUSOPHONE AFRICAN NIGHT

Waldemar Bastos is the great voice of Portuguese Africa. A national hero in Angola, he went to Brazil, working closely with Djavan and Chico Buarque, and then made his mark across the world recording for David Byrne’s label Luaka Bop in what he calls his ‘Afropean’ style – because he takes influences from many cultures and makes them his own. London shows are as rare as hen’s teeth, so don’t miss this special concert. Also featuring the first show here by Neco Novellas, a passionate singer from Mozambique who’s soulful music has taken him on a similar journey. The band's songs bring together the complex rhythmical structures of timbila music, Portuguese folklore, church harmonies, classical music, pop, jazz, soul, samba, afrobeat, rock, gospel and local genres.

Info: www.atlanticwaves.org
Box office: 0870 663 2500, www.southbankcentre.co.uk »

29 maio, 2008

Festa do Fado - Parcerias Inesperadas no Castelo


Mais uma vez, a Festa do Fado - que decorre no Castelo de S.Jorge, de 6 a 28 de Junho, integrada nas Festas de Lisboa propõe uma série de concertos com parcerias - muitas delas inesperadas, outras nem tanto - entre gente do fado e de outras áreas musicais. Este ano, o programa inclui concertos de Camané com o seu produtor e cúmplice de longa data José Mário Branco (dia 6); de Teresa Tapadas com a cantora de jazz Paula Oliveira (dia 7); de Jorge Fernando com o rapper Sam the Kid (dia 13), de Lula Pena com o acordeonista Richard Galliano, o guitarrista Custódio Castelo a as Adufeiras de Monsanto (dia 14); de Mafalda Arnauth com o Ensemble Costa do Castelo (dia 20); de Joana Amendoeira com o Mar Ensemble cantam (dia 21); de Carminho (na foto, de Margarida Martins) e do seu irmão Francisco Andrade com a mãe de ambos Teresa Siqueira (dia 27); e, finalmente, de Carlos do Carmo com o pianista e maestro António Victorino d'Almeida (dia 28).

12 junho, 2007

Festival Piazzollex - No Montijo, Com Paixão



Há algumas semanas não fiz nenhuma referência (para grande vergonha minha!) ao festival de tango que decorreu na Voz do Operário, em Lisboa. Mas este, no Montijo, não escapa. E não escapa graças à divulgação que dele faz a Gringa Sempre/Prada, camarada de artes, de preocupações estéticas e de músicas. O festival, de nome Piazzollex, decorre no Montijo nos dias 15, 16 e 17 deste mês, com workshops, filmes, debates e ateliers dedicados ao tango, alguns espectáculos musicais e uma exposição (de Ricardo Videla, mestre da pintura argentina - ver imagem que encima este post - cuja obra pode ser vista a partir de hoje, dia 12, e até dia 17, no Cine-Teatro Joaquim de Almeida). O festival - que assinala quinze anos sobre a morte de Ástor Piazzolla, o homem que levou o tango para as grandes salas internacionais e o elevou a forma de arte superior - inclui os espectáculos «Noite Bandango», pelo quarteto de saxofones português Saxofinia (dia 15, no Cine-Teatro Joaquim de Almeida), «Noite Alemtango», com o quarteto do pianista e compositor Daniel Schvetz com a fadista Mafalda Arnauth como convidada (dia 16, também no Cine-Teatro Joaquim de Almeida, num programa dedicado a Piazzolla e ao escritor Jorge Luís Borges) e «Noite Orquestango», com uma orquestra típica de tango e milongas, formada por instrumentos de cordas, piano e bandonéon (dia 17, ao ar livre, na Praça da República). Todas as informações aqui.

17 novembro, 2006

Katia Guerreiro e Mafalda Arnauth - O Mar...


Mafalda Arnauth (na foto em cima) e Katia Guerreiro (na foto em baixo) são duas das fadistas da, digamos, nova geração que melhor têm sabido gerir uma carreira que começou, nas duas (e em quase todas as outras fadistas da, digamos outra vez, nova geração), sob o signo de Amália Rodrigues mas que, gradualmente, estão a dar provas convincentes de que podem e sabem libertar-se desse «espectro» e também abraçar novos géneros, abordar instrumentações alternativas, cantar outros poetas e dar novas roupagens ao fado. Em Novembro do ano passado saíram os últimos álbuns das duas cantoras, altura em que esta entrevista com Katia Guerreiro foi publicada no BLITZ, assim como uma crítica conjunta aos álbuns da duas: «Tudo ou Nada», de Katia Guerreiro, e «Diário», de Mafalda Arnauth. Ambos com o mar, aqui tão perto, como mote e inspiração.


KATIA GUERREIRO
AO SERVIÇO DA POESIA

Depois de «Fado Maior» e «Nas Mãos do Fado», Katia Guerreiro dá-nos agora o seu álbum mais pessoal, «Tudo ou Nada». Aqui, o leque de poetas que canta é alargado e a fadista co-compõe algumas canções (apesar de não pretender ser compositora). Katia, na primeira pessoa.


No seu site oficial aparece logo a abrir uma frase que diz «fado puro e simples». Acha que essas duas palavras são as melhores para definir o seu trabalho? E isso tem alguma coisa a ver com o facto de, por exemplo, não usar os chamados «floreados» na voz?

E também porque sou uma pessoa simples, já não tão pura quanto gostava porque a vida obriga-nos a perder alguma dessa pureza. Mas a minha simplicidade acaba por se reflectir na minha interpretação e naquilo que canto. E tenho como bandeira a minha simplicidade interpretativa, não fazer floreados nem andar à procura de coisas para impressionar. O que pode impressionar é a palavra, e a palavra tem que ser dita de forma simples e sentida.

Como se fosse mais uma intérprete – das palavras dos outros – do que uma cantora?

Sim, sem dúvida. Estou ao serviço da palavra... e da música.

É por isso que, depois no primeiro álbum, ter interpretado essencialmente fados clássicos, no segundo ter ido à procura de alguns poetas, nomeadamente António Lobo Antunes e, no novo, interpretar Lobo Antunes, Sophia de Mello Breyner, Maria Luísa Baptista...

São poetas que me fazem sentir coisas, que me fazem sentir, muito intimamente, coisas que são normais cada um de nós sentirmos, mas que só eles sabem dizer. E a minha interpretação vai ao encontro das suas palavras. Com verdade, tristeza, alegria, cor, saudade, amor, paixão... Canto tudo isso, que é o que nós somos. Os poetas que eu canto são também os poetas que leio, que leio muito. Este álbum é dedicado a Sophia de Mello Breyner. Ela é uma poetisa que me revela em palavras aquilo que sou capaz de sentir, de ser. Tenho uma enorme saudade do ar que ela nos fazia respirar. Era uma mulher muito especial... Com o Lobo Antunes há uma empatia enorme entre nós. Gosto imenso do António: é um homem de uma sensibiliudade imensa que se revela, essencialmente, nestes poemas. Não tanto nos seus romances. A poesia é um acto de confissão: a si próprio [ao poeta] e ao mundo, num momento de grande intimidade. Quando canto, com público à minha frente, também estou a revelar-me ao mundo. Sou a portadora de todas estas palavras...

Podemos falar de alguns «objectos estranhos» do seu álbum? Por exemplo, há um tema com piano, tocado pelo Bernardo Sassetti...

A ideia inicial era convidar o Bernardo para compor e tocar no disco. Mas ele andava muito ocupado com o seu próprio álbum e não teve tempo para compor. Mas veio tocar neste tema, «Minha Senhora das Dores», que é um momento de grande intimismo, de grande privacidade, e uma guitarra, uma viola e um contrabaixo seriam excessivos. Este tema é um canto à minha mãe, pedindo-lhe desculpa e mostrando a minha gratidão. O Bernardo gravou comigo e nem ensaiámos, quase que saiu à primeira. Segui a minha intuição de que iria resultar e resultou.

Canta também um tema inédito de Dulce Pontes, «Dulce Caravela». É uma homenagem mútua, uma troca de flores entre colegas?

É muito uma troca de flores entre colegas. E que acontece porque entendo o que ela faz. Como ela se entrega daquela forma quando canta, toca, compõe. No meu álbum anterior, «Nas Mãos do Fado», eu interpretava um tema dela, «O Que For Há-de Ser», e esse foi o meu primeiro contacto com a Dulce. Houve uma empatia imediata e agora quis muito ter um tema dela porque ela tem uma forma de compor muito própria. Ela compôs este tema para mim e deu-me toda a liberdade interpretativa. Durante muito tempo o tema chamou-se «Dulce», mas acabei por lhe chamar «Dulce Caravela», que faz todo o sentido e é uma homenagem que eu lhe presto.

Se calhar o mais estranho de todos: também canta um tema de música ligeira, a «Menina do Alto da Serra». Acha que conseguiu transformá-lo num fado ou ele já tinha, à partida, algo de fadista?

Uma vez, num programa de televisão, o maestro Victorino d’Almeida disse que «tudo pode ser fado, mas o fado não pode ser tudo». E ele demonstrou, na prática, que uma melodia de fado tocada com uma intenção clássica será sempre um fado, mas qualquer peça clássica pode ser tocada como fado e passar a ser um fado. E tocou uma peça de Mozart ou de Bach de uma forma fadista, e passou a ser um fado. E tocou uma melodia de um fado, dando-lhe uma faceta clássica, que continuou a ser um fado. Quando eu canto a «Menina do Alto da Serra», sentindo-a como um fado, passou a ser um fado.

Também canta um tema do Vinicius de Moraes, «Saudades do Brasil em Portugal», que ele compôs para a Amália. É um poema extraordinário, quase pessoano...

E também é um fado. Ouvi-o cantado pela Amália e toda ela era fado. Ela transformava tudo em fado. Depois ouvi-o cantado por um brasileiro, o Zé Renato, acompanhado por guitarra portuguesa, e não deixou de ser fado. E ouvi a interpretação do próprio Vinicius. Mas quando o interpreto, a minha referência é a interpretação da Amália.

Neste novo álbum, a Katia tem dois ou três temas co-compostos por si e pelos seus músicos. A composição é, cada vez mais, um caminho necessário para si?

Não, não. De todo. Isto aconteceu espontaneamente. Não tenho qualquer pretensão de ser compositora. Nunca aconteceu e, desta vez, só acontece porque os músicos já tinham arrancado com uma melodia e, depois, a minha interpretação leva para uns caminhos ligeiramente diferentes. Não tenho nenhuma pretensão de assinar coisas – no álbum anterior tinha um poema meu e neste não aparece nenhum. E o meu nome só está na capa porque sou eu que canto. Aliás, é uma injustiça que o nome dos meus músicos – cuja presença é de tal forma forte e que são muito importantes nisto tudo – não apareça também na capa. Às vezes receio que surja um anúncio que diz «Banda de Katia Guerreiro procura vocalista» (risos)... Nós somos um bloco unido, e eles têm a liberdade de criar e de puxar por mim.

A Katia é médica de profissão. É, agora, ao fim de cinco ou seis anos de carreira musical, mais uma médica que canta fado ou uma fadista que, por acaso, tem a medicina como profissão?

Sou uma médica que se cruzou com o fado e se apaixonou pelo fado. E tenho feito um tremendo esforço para manter estas duas grandes paixões na minha vida. Têm sido cinco anos de grande luta interior, e finalmente estou a colher os frutos de todos os sacrifícios que tenho feito. Cada vez mais, as pessoas acreditam que vou continuar a ser médica e vou continuar a ser fadista. Não me vejo sem a medicina nem sem o fado. A medicina é a minha ligação àquilo que a vida é na realidade.


OS DISCOS...




KATIA GUERREIRO
«TUDO OU NADA»
Som Livre
(7/10)







MAFALDA ARNAUTH
«DIÁRIO»
Universal Music Portugal
(7/10)




Há um desejo de cosmopolitismo cada vez maior nos fadistas portugueses. E isso é bom. Descoberta, talvez, de que o fado é uma «música do mundo» (semi-piada), de que o fado pode ter muitas outras músicas a conviver consigo, ou por afinidades estilísticas ou sentimentais ou de gosto pessoal – e nós sabemos lá de onde veio o fado ou de onde vieram os fados (do norte de África?, do Brasil?, da zona mandinga da África Ocidental?, de outras zonas da Europa?, etc, etc...) -, podendo imaginar-se que o fado influenciou, ou foi influenciado – num jogo de espelhos com espelhos com espelhos... -, o tango, a milonga, o flamenco, a música árabe, a morna, o choro, a música napolitana.

Ou então, os fadistas de agora só redescobriram o que Amália fez com canções de variadíssimas proveniências – italianas, espanholas, francesas... – transformando-as em fado, fado mesmo, ou o que Carlos Paredes fez com o «Summertime», de Gershwin, subvertendo-o genialmente na «Canção Verdes Anos», ou aquilo que Carlos do Carmo pensava fazer no projecto que nunca se concretizou «Um Homem no Mundo» (e no qual repegou, em parte, no recente «Nove Fados e Uma Canção de Amor» (álbum de 2002 onde há um fado africano, «Fado Mulato», e um fado-tango, «Dois Portos»). Juntemos a isto as ousadias de Paulo Bragança em «Amai» (das quais a versão de «Sorrow’s Child», de Nick Cave, não será a menor), a intencionalidade de Rão Kyao no seu cruzamento do fado e da música do norte de África, as aventuras de Mísia, Anamar ou Cristina Branco nas fugas, deliberadas, em direcção – não todas mas cada uma por si - a tangos, boleros, mornas, rumbas e milongas, ou a canções em francês e inglês (principalmente nos últimos álbuns destas três cantoras, respectivamente, «Drama Box», «Transfado» e «Ulisses»). Como se houvesse uma certeza absoluta: que o fado não nos pertence só a nós e que nós não pertencemos só ao fado.

«Tudo ou Nada», novo álbum de Katia Guerreiro, e «Diário», novo álbum de Mafalda Arnauth, são dois discos também com um pé bem assente no fado – no caso de Katia como receptáculo e intérprete fiel das palavras e da música dos outros, no caso de Mafalda como autora de muitas das letras e compositora de muitas das músicas - e com o outro a tactear caminhos, novos em ambos os casos, em busca de cosmopolitismo. Há muito fado – se quisermos, há sempre fado – em ambos os discos. E é sempre bom. Mas também há uma busca de outras vias, digamos trans-musicais, digamos marítimas. Mafalda canta Vinicius de Moraes («O que Tinha Que Ser...», com um saxofone stangetziano), Katia também («Saudades do Brasil em Portugal», que o brasileiro compôs para Amália). Mafalda canta uma milonga («Milonga do Chiado»), «La Bohéme» de Charles Aznavour, o espantoso «Rasgo de Luz», do basco Fran Lasuen (que foi dos Oskorri) e, no final, os seus músicos tocam Paredes e Gardel e Bach e Armandinho. Katia canta acompanhada ao piano (pelos dedos mágicos do pianista de jazz Bernardo Sassetti) «Minha Senhora das Dores». E oiça-se como Katia Guerreiro canta «Dulce Caravela», inédito de Dulce Pontes, ou como Mafalda Arnauth canta «Por Onde Me Levar o Vento», e saberemos também que o fado vai, um dia, voltar ao mar, «para enfim seguir viagem».