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16 agosto, 2010

Cacharolete de Discos - Rupa & The April Fishes, Yasmin Levy, Balkan Beat Box e Victor Démé


Mais um cacharolete de críticas a discos sem ligação óbvia, estilística ou outra, e publicadas originalmente na "Time Out": os álbuns mais recentes de Rupa & The April Fishes, Yasmin Levy, Balkan Beat Box e Victor Démé (na foto).


Rupa & The April Fishes
"Este Mundo"
Cumbancha/Leve Music

O segundo álbum de Rupa & The April Fishes, "Este Mundo", não entra no ouvido tão depressa quanto a fabulosa estreia "Extraordinary Rendition". E, muitas vezes, principalmente quando se escutam as canções em espanhol, a tentação é começar logo a compará-las com canções de Lhasa, Lila Downs ou Amparanoia. Mas, ouvindo-se melhor o disco, percebem-se então as subtilezas presentes neste álbum. E são muitas! Uma festa global que pode misturar reggae com sopros aciganados, chanson com klezmer lá pelo meio ou uma cumbia infectada por ska e hip-hop (cortesia Boots Riley, MC dos Coup) ou uma raga movida a acordeão musette. Para além disso, o talento de Rupa como compositora, letrista e cantora – e a coesão extraordinária de toda a banda – saem bastante reforçados n'"Este Mundo". (****)




Yasmin Levy
"Sentir"
World Village/Harmonia Mundi


A intérprete de música sefardita mais reconhecida internacionalmente – embora Mor Karbasi já lhe esteja, de certa forma, a “morder os calcanhares” -, a israelita Yasmin Levy chega, ao quinto álbum, a um patamar dificílimo de igualar: "Sentir" é um álbum de uma cantora no seu pico absoluto de forma, com uma fórmula musical perfeitamente estabelecida (a mistura da música sefardita, árabe e flamenco) e um naipe de músicos invejável. E boa parte da “culpa” deve-se à brilhante produção de Javier Limon, o produtor que já nos acostumou a arrancar a alma das cantoras pela boca, sejam Concha Buika, Mariza ou Yasmin Levy. Com tradicionais sefarditas cantados em ladino, originais da própria Yasmin ou temas de Leonard Cohen (“Hallelujah”) e Limon, "Sentir" é um álbum absolutamente maravilhoso. (*****)




Balkan Beat Box
"Blue Eyed Black Boy"
Crammed Discs/Megamúsica


Terceiro álbum de originais dos Balkan Beat Box, "Blue Eyed Black Boy" é um enorme salto em frente na carreira deste grupo formado originalmente pelos israelitas Tamir Muskat e Ori Kaplan, aos quais se juntou logo de seguida o magnífico MC Tomer Yosef. E se os dois anteriores (mais o álbum de remisturas "Nu Med") já eram muito bons, o novo disco tem, a juntar às habituais electrónicas – aqui muito menos evidentes, por motivos que se vão perceber já a seguir – e às fanfarras balcânicas de metais, um som orgânico, de “banda”, que não existia nos álbuns anteriores. Os arranjos e as orquestrações ganham assim uma nova riqueza onde convivem reggae e klezmer, rebemtika e surf rock, ciganadas de Leste e hip-hop, dub e vozes búlgaras. E dois hinos para a paz israelo-árabe: “Buhala” e “War Again”. (****)


Victor Démé
"Deli"
Chapa Blues/Massala


Depois do fantástico "Burkina Mousso", álbum de estreia do cantor e guitarrista Victor Démé, do Burkina Faso, chega agora o segundo e muito aguardado álbum, "Deli". Mais sofisticado do que o álbum de estreia – quanto mais não seja pela profusão de instrumentos ocidentais (violino, acordeão...) que se juntam à guitarra, à voz, à kora, às percussões... mas a sensação de que estamos perante um dos maiores fenómenos musicais surgidos nos últimos anos depois de décadas de anonimato (o primeiro álbum de Démé foi editado já ele tinha muito mais de quarenta anos) mantém-se intacta. A sua mistura de música mandinga, blues, música latino-americana, aproximações ao flamenco, à música árabe e a várias tipologias tradicionais europeias é única e belíssima. (*****)

03 agosto, 2010

FMM de Sines - Cada Vez Mais a Acabar Com Preconceitos


O FMM de Sines deste ano foi mais um belíssimo festival de música e, também, mais um excelentíssimo exemplo de como se pode dar completamente cabo de preconceitos recorrendo apenas à música. Tendo começado, na quarta-feira, com o rejuvenescimento do aparentemente intocável cante alentejano por Vitorino e Janita Salomé, e terminado na madrugada de sábado para domingo com a luso-angolana Batida, outro projecto de cruzamento de sonoridades antigas - gravações dos anos 60 e 70 feitas em Angola - trazidas para a modernidade com a ajuda de kuduros, hip-hops e bailes funk, o FMM 2010 ajudou a quebrar estas barreiras temporais e/ou espaciais, mas também muitas outras... Só mais alguns exemplos: a bandeira palestiniana agitada durante todo o maravilhoso concerto da cantora israelita, judia, Yasmin Levy; o amor com que foram recebidos os fabulosos Barbez, que só muito vagamente poderão eventualmente inscrever-se naquilo que é normalmente considerado world music (a repetição do "mente" é propositada); a classe das vozes de formação clássica de Las Rubias del Norte, aqui posta ao serviço de outras músicas; o surpreendente - e tão bem conseguido! - cruzamento da música da Bretanha com a música do Mali do colectivo N'diale; os genuínos Galaxy, rapazes timorenses que têm as antenas apontadas para o reggae e o metal; e, acima de todos, os Staff Benda Bilili (na foto; de Mário Pires/FMM de Sines), que deram o melhor concerto do festival e um dos melhores de todos os FMM, e símbolo maior do que é lutar contra todos os preconceitos: musicais, de cor de pele, de forma do corpo, de estatuto social. O FMM faz-nos sentir melhores pessoas ou, pelo menos, ajuda-nos a sê-lo. E isso nunca teve, nem terá, preço.

Nota: o pré-lançamento do livro "Raízes e Antenas" correu muito bem! Estive rodeado de muitos e bons amigos; tive direito a um abraço prévio do Carlos e da Marta; o Paulo Faustino, da Media XXI, esteve lá a dar-me todo o apoio necessário e a ajudar-me na apresentação do livro que, sim!, está mesmo muito bonito. A todos o meu muito obrigado! Um agradecimento extensível, e ainda maior, a quem me acompanhou desde o início, e cada um à sua maneira, neste processo todo: o Guilherme Pires, o Rodrigo Madeira e a Laura Alves.

16 junho, 2010

FMM de Sines - O Programa Completo!


Aqui vai!

"FMM SINES 2010

Entre 28 e 31 de Julho, a grande música do mundo volta a Sines,
capital nacional da “world music”

Considerado “o mais arriscado festival nacional” na sua programação
(Público, 2009), o FMM Sines – Festival Músicas do Mundo prepara-se
para voltar a surpreender os espectadores com os 26 espectáculos da
12.ª edição, marcada para quatro intensos dias de música - 28, 29, 30
e 31 de Julho de 2010 - nos palcos do Castelo medieval e da Praia
Vasco da Gama, em pleno coração do centro histórico de Sines.

Os congoleses Staff Benda Bilili, o mais premiado grupo do ano, a
lenda do reggae U-Roy, The Mekons, banda britânica que partiu do
pós-punk para a fundação do movimento alt-country, e Tinariwen (na foto),
expoente contemporâneo dos blues do deserto, são alguns destaques da
programação.

Menção especial ainda às norte-americanas Las Rubias del Norte e aos
timorenses Galaxy, que fazem em Sines a sua estreia europeia, e aos
vários projectos que pisam no FMM pela primeira vez palcos nacionais,
conjunto em que se incluem o fenómeno brasileiro Forro in the Dark,
uma das maiores “cantaoras” do flamenco, Lole Montoya, os peruanos
Novalima, o “joiker” finlandês Wimme e a mais subversiva orquestra
latina da actualidade, Grupo Fantasma.

ALINHAMENTO COMPLETO DE CONCERTOS

28 de Julho (quarta-feira)

Em 2010, cabe a Vitorino, um dos maiores criadores e intérpretes da
música portuguesa, iniciar o alinhamento de concertos com um
espectáculo na quarta-feira, dia 28 de Julho, às 18h00, no Castelo.
Nesta presença no FMM, Vitorino faz a estreia nacional do seu novo
projecto, dedicado ao cante alentejano, na companhia de um grupo coral
do Redondo. É também a estreia dos concertos vespertinos no Castelo,
que ao longo do FMM 2010 permitirão ao público desfrutar de uma das
horas em que este palco tem maior beleza cénica, o cair da tarde, em
espectáculos de entrada livre.

A Vitorino segue-se a banda luso-moçambicana Cacique ’97, que actua às
19h30, no palco da Av. Vasco da Gama, marginal da praia do mesmo nome.
Uma das grandes revelações recentes da música feita em Portugal,
Cacique’97 celebra a mestiçagem lisboeta através do cruzamento do
afrobeat de Fela Kuti com várias tradições lusófonas.

Às 21h30, o palco do Castelo recebe o projecto Nat King Cole en
Espagnol. Dirigido pelo saxofonista e director David Murray, figura
central do jazz contemporâneo, celebra a veia latina da obra de Nat
King Cole com a participação de um grupo de elite de músicos cubanos e
da Sinfonieta de Sines, uma orquestra de cordas formada no seio da
Escola das Artes de Sines. Trata-se de um concerto integrado no
Programa de Regeneração Urbana de Sines.

Às 23h00, é a vez das nova-iorquinas Las Rubias del Norte, que fazem
em Sines a sua estreia em palcos europeus. Com “Ziguala”, o disco que
lançaram em Março, na bagagem, mostram a sua visão de como seria hoje
a expressão global da música se a revolução do rock n’ roll não
tivesse derrubado o poder latino de meados do séc. XX.

Na melhor tradição da MPB, em diálogos com o reggae e a música
electrónica, Céu é uma estrela da nova música brasileira, aclamada
pela crítica e responsável pela melhor posição de um artista
brasileiro na tabela principal da Billboard desde Astrud Gilberto, nos
anos 60. Às 00h30, mostra no palco do Castelo o seu novo disco,
“Vagarosa”.

O primeiro dia de música termina na praia, no palco da Av. Vasco da
Gama, às 02h30, com Novalima, projecto peruano que junta um grupo de
músicos da nova geração aos melhores músicos tradicionais da
comunidade negra para trazer para as pistas música de dança assente na
rica herança afro-peruana. É uma estreia em Portugal.

29 de Julho (quinta)

Na quinta-feira, 29 de Julho, o concerto vespertino do Castelo
(18h00), traz-nos tango. O quinteto argentino 34 Puñaladas regressa a
Sines para apresentar “Bombay Bs.As.” (2009), um dos discos do género
mais aclamados dos últimos anos.

A seguir, com o sol ainda a pôr-se no horizonte, o público desce à
praia para ouvir o finlandês Wimme. Revelação dos “charts” europeus de
música do mundo em 2010, com o disco “Mun”, o “joiker” Wimme Saari e o
seu grupo transportam para o palco da Av. Vasco da Gama o poder
xamânico do canto do povo Sami, num concerto marcado para as 19h30.
Estreia nacional.

A segunda noite de música no Castelo arranca às 21h30 com uma grande
diva das músicas do mundo. Considerada “uma das melhores cantoras do
Médio Oriente” (The Guardian), a israelita Yasmin Levy promove o
encontro entre a música de tradição judaico-espanhola e o flamenco. O
repertório do seu último disco, “Sentir” (2009), estará em evidência.

Às 23h00, é a vez de uma aposta do FMM 2010, o projecto de fusão
N’Diale, onde o quarteto do violinista Jacky Molard, um dos maiores
músicos bretões, se junta ao trio da cantora maliana Founé Diarra num
espectáculo acústico de excelência. O disco de estreia, que tem o nome
do projecto, foi lançado em Março, e será a base do espectáculo. Mais
uma estreia em Portugal.

Às 00h30, sobe ao palco uma banda que marca a música popular dos
últimos 35 anos. Grupo de vanguarda do pós-punk e, numa segunda vida,
fundadores do movimento alt-country, os britânicos The Mekons são
conhecidos pelas suas grandes apresentações ao vivo e este concerto já
deverá trazer canções do seu 27.º disco, a lançar nos próximos meses.

Como de costume, a música acaba na praia, às 02h30. Do Texas para o
mundo, Grupo Fantasma, a mais subversiva orquestra latina da
actualidade, “versão séc. XXI do groove latino” (Boston Globe), faz a
festa com a sua mistura explosiva de “latinidad”, jazz, funk e rock
psicadélico, bem patente no seu quinto disco “El Existencial”, que
editaram em Maio. É a primeira vez que actuam em Portugal.

30 de Julho (sexta)

Sexta-feira, dia 30, a música começa com Kimi Djabaté, às 18h00, no
Castelo. Um dos artistas emergentes do circuito das músicas do mundo,
o cantor e guitarrista guineense sobe ao palco com o disco “Karam” na
mão para demonstrar por que está a conseguir colocar a Guiné-Bissau na
1.ª divisão do panorama competitivo da música de tradição mandinga.

Responsável por “Music Maelström”, um dos discos surpresa de 2010, a
jovem artista francesa Dorothée (que tem no anagrama The Rodeo o seu
nome artístico) apresenta, às 19h30, no palco da praia, uma
reinterpretação muito pessoal da grande tradição musical
norte-americana.

Às 21h30, no Castelo, o guitarrista nova-iorquino Dan Kaufman e a sua
banda Barbez, formada em 1997 por músicos com um percurso no jazz, no
rock e na música clássica, oferecem um espectáculo com música de
ambientes nocturnos que busca inspiração em referências tão diferentes
quanto Kurt Weill, Black Sabbath e Godspeed You! Black Emperor.

Considerada a melhor artista asiática nos prémios da BBC Radio 3 em
2008, Sa Dingding é uma das vozes mais importantes da música chinesa
contemporânea com raízes na tradição. O álbum que a traz ao FMM,
“Harmony” (2009), centra-se na relação entre os homens e a natureza e
junta as raízes chinesas com a música electrónica. A descobrir a
partir das 23h00.

Os tuaregues malianos Tinariwen hipnotizam o Castelo às 00h30.
Superando Bob Dylan, Animal Collective e Grizzly Bear, entre outros,
para conquistar o prémio da revista Uncut para melhor disco de 2009,
“Imidiwan”, a mais genial banda do deserto do Sahara faz a síntese
entre as músicas da África Ocidental e do Magrebe, o rock e os blues.

A noite continua às 02h30, na praia, com mais uma estreia nacional.
Formado por quatro músicos brasileiros a viver em Nova Iorque, o grupo
Forro in the Dark abriu os horizontes do forró nordestino, cruzando-o
com o dub, o indie rock, o funk e outras músicas para produzir um som
que já é um fenómeno global. O disco “Light a Candle” (2009) é o prato
forte.

Às 04h00, o palco da praia encerra com o trio de DJ’s português
Bailarico Sofisticado, conhecido pelos seus “sets” eclécticos, onde as
músicas do mundo dialogam sem complexos com outras vertentes da música
popular, numa presença que é já habitual nas noites de dança do FMM e
que este ano traz como convidada a Dj Selecta Alice.

31 de Julho (sábado)

O último dia do FMM 2010 começa no Castelo, às 18h00, com Guadi
Galego. Autora de “Benzón”, vencedor do prémio de disco folk do ano
nos prémios Opinión da Música, em 2009, a antiga cantora dos
Berrogüetto, grupo de referência da folk europeia, é a grande voz
galega da nova geração.

Na praia, o concerto das 19h30 é especial. Mistura de ritmos
tradicionais do povo Fataluku, clássicos da resistência, reggae, rap,
funk e rock, Galaxy é o grupo mais importante da música moderna
timorense e faz a sua estreia portuguesa e europeia em Sines, com o
alto patrocínio da Presidência e do governo de Timor-Leste.

Uma das maiores “cantaoras” da história do flamenco, par de Manuel
Molina no duo mítico Lole y Manuel e no arranque do movimento Novo
Flamenco, Lole Montoya apresenta no FMM o seu projecto a solo, no
Castelo, a partir das 21h30. “Metáfora”, o seu disco mais recente,
nomeado para um Grammy latino, é a base do alinhamento. Estreia em
Portugal.

Às 23h00, o maliano Cheick Tidiane Seck, o maior teclista da música
africana, além de um excelente cantor e guitarrista, junta-se a Mamani
Keita, uma das melhores vozes do seu país, numa fusão entre as raízes
mandingas e a música afro-americana, do jazz à música soul e ao
hip-hop. O disco “Sabaly” (2008) é o ponto de partida do espectáculo.

Às 00h30, o Castelo recebe, mais do que um concerto, um acontecimento.
Formado por músicos de rua paraplégicos, o grupo congolês Staff Benda
Bilili, Prémio Womex 2009, é uma das grandes revelações da música
africana da última década. Considerado o grupo do ano pela revista
Songlines, apresentam em Sines as canções de “Très Très Fort”, o
melhor disco editado em 2009 na opinião das publicações de referência
fRoots e Mojo. Estreia nacional.

A apoteose de Staff Benda Bilili prolonga-se no palco da praia. Depois
de ter acolhido nomes como Black Uhuru feat. Sly & Robbie, The
Skatalites e Lee ‘Scratch’ Perry, o FMM prossegue a sua história
ilustrada do reggae, às 02h30, com U-Roy, o expoente máximo do
“toasting”, o estilo artístico de DJing que o colocou entre os grandes
da música da Jamaica.

Ainda na praia, às 4h00, o projecto luso-angolano Batida, nascido no
seio do colectivo Radiofazuma, leva a dança até ao sol nascer. O
milagre mais recente da produção afro-lusitana, Batida traz para o
século XXI a melhor música angolana dos anos 60 e 70 e proporciona o
encerramento perfeito para o 12.º Festival Músicas do Mundo.

Os bilhetes para as noites de música no Castelo (a partir das 21h30)
custam 12,5 euros por dia, com opção de aquisição de passe de 40 euros
para os quatro dias. Todos os concertos na Av. Vasco da Gama são de
entrada livre, o mesmo acontecendo com os três concertos das 18h00 no
Castelo."

05 maio, 2008

Yasmin Levy, Aman Aman e Al Andaluz Project - As Viagens da Música Sefardita


Há cerca de quinhentos anos houve outro Holocausto, um Holocausto menos conhecido do que aquele que os judeus sofreram na Alemanha nazi, com menos vítimas mas nem por isso menos vil e sangrento. Os judeus da Península Ibérica foram mortos, convertidos à força ao cristianismo ou fugiram para o norte de África, onde ficaram ou daí partiram para a Turquia, a Grécia, os países do centro e do leste europeu... Com eles levaram a sua música - a música sefardita, que foi ganhando ao longo dos séculos nuances próprias dos locais por onde essa música passou - e a sua língua, o ladino (na origem uma mistura de castelhano, português e hebraico). Hoje, o Raízes e Antenas fala de três discos com muita - e belíssima - música sefardita lá dentro. Só sefardita no caso de Yasmin Levy (na foto) e dos Aman Aman, sefardita e outras - música árabe e cristã da Idade Média dourada na Península Ibérica - no caso do Al Andaluz Project.


YASMIN LEVY
«MANO SUAVE»
Adama/World Village/ Harmonia Mundi

A respeitadíssima cantora israelita Yasmin Levy continua, no novo álbum «Mano Suave», a traçar uma rota possível da música sefardita desde a sua fonte, na Península Ibérica, até aos vários locais por onde passou. Nas suas romansas (romances ou romanças), baladas e kantigas há elementos vindos do flamenco - e há uma teoria que defende que o flamenco foi uma invenção conjunta das comunidades judias, árabes e ciganas fugidas à Inquisição espanhola -, da música árabe, da música turca, da música grega... todas juntas num são convívio livre de barreiras religiosas, políticas ou culturais. Entre tradicionais sefarditas (como os belíssimos «Adio Kerida», «Nani Nani» ou «Komo La Roza» e o divertido «Si Veriash»), alguns originais de Yasmin Levy, uma canção catalã («Mal de l'Amor», de Gustavo Durán, em que a harpa faz lembrar... a kora mandinga) e uma canção de beduínos («Mano Suave», cantada em castelhano e em árabe, num dueto com Natacha Atlas), o álbum flui de uma forma belíssima, com a voz de Yasmin a brilhar a grande altura e um naipe de instrumentos acústicos de várias origens - da guitarra clássica e do piano ao qanun, à ney, ao oud, à harpa ou às percussões - a sublinhar na perfeição a voz e as palavras cantadas. Profunda conhecedora da tradição sefardita - o seu pai, Yitzhak Levy, foi um pioneiro no estudo desta cultura ancestral -, Yasmin Levy edita discos dedicados à música que os judeus ibéricos levaram consigo e que foi entretanto transmitida de geração em geração desde 2000 (quando lançou o álbum de estreia «Romance & Yasmin»). E, para quem não a conhece, «Mano Suave» é uma excelente porta de entrada. (8/10)


AMAN AMAN
«MÚSICA I CANTS SEFARDIS D'ORIENT I OCCIDENT»
Galileo/Megamúsica

Os Aman Aman são um dos vários projectos paralelos dos valencianos L'Ham de Foc - o Al Andaluz Project é outro, mas já lá iremos -, grupo dedicado ao estudo e à prática da música sefardita em que Efrén Lopéz e a cantora Mara Aranda são acompanhados por vários músicos espanhóis e gregos, nomeadamente Diego López (que também acompanha os L'Ham de Foc, nas percussões), Christos Barbas (na ney), Eleni Kallimopoulou (em kemençe) e Aziz Samsaoui (no qanun). E neste álbum de estreia dos Aman Aman, o grupo concentra-se essencialmente em versões de música sefardita recolhidas junto das comunidades judeo-espanholas que se fixaram no antigo Império Otomano (que compreendia a Turquia, a Grécia, a Bulgária e a antiga Jugoslávia), mas comuns a muitas outras comunidades sefarditas. Música sefardita de Marrocos - destino primeiro de muitos judeus em fuga à Inquisição espanhola e portuguesa - também tem lugar neste álbum. Um álbum extraordinário em que Mara Aranda canta, naturalmente, em ladino e os instrumentos tradicionais (neste caso não há lugar para guitarras e pianos, embora ande por aqui um contrabaixo) europeus e árabes se casam na perfeição. Com momentos de sublime beleza como «La Galana y El Mar/Ajuar de Novia Galana» ou a canção de embalar «Durme/Bana Yucelerden Seyreden Dilber», «Música I Cants Sefardis d'Orient I Occident» é um álbum magnífico de respeito e reinterpretação de uma tradição que continua viva em muitos lugares. (9/10)


AL ANDALUZ PROJECT
«DEUS ET DIABOLUS»
Galileo/Megamúsica

Ainda outro projecto paralelo dos dois L'Ham de Foc - Mara Aranda e o multi-instrumentista Efrén Lopéz -, no Al Andaluz Project participam também músicos de uma das mais respeitadas formações de música antiga, o grupo alemão Estampie, dirigido por Michael Popp. Com três vozes femininas a coroar os diferentes géneros presentes no álbum (Mara a interpretar as canções sefarditas; Sigrid Hausen a interpretar as canções galaico-portuguesas do Cancioneiro de Santa María; e Iman al Kandoussi a cantar as canções árabes), «Deus et Diabolus» é a celebração de uma época e um local - o Al-Ándalus, isto é, a Península Ibérica sob o domínio árabe da Idade Média, mas também, do lado cristão, a corte do rei castelhano Afonso X, O Sábio - em que três culturas e religiões conviviam em harmonia: os muçulmanos, os judeus e os cristãos. E o que é mais estranho, ou nem por isso, é verificar como de facto a música e as músicas dos diferentes povos se contaminaram e influenciaram entre si, podendo uma canção em galaico-português do Cancioneiro de Santa María (do qual muitas das canções são atribuídas ao próprio Afonso X, se bem que dele só devam ser dez das mais de quatrocentas composições do Cancioneiro) colar-se perfeitamente a uma cantiga sefardita e esta a uma canção árabe. Com um domínio perfeito de inúmeros instrumentos antigos e tradicionais (da sanfona e da nyckelharpa ao saz, ao qanun ou ao alaúde), e com as fabulosas vozes das três cantoras a voar por cima deles, «Deus et Diabolus» é um disco quase perfeito. (9/10)

04 julho, 2006

E Salta Loulé E Salta Loulé, Loulé!


Jump, jump, jump, jump... Dez (onze?, doze?) franceses tresloucados saltam em cima do palco, em uníssono. O público, muito público à sua frente, salta em uníssono com eles, os Babylon Circus (na foto), máquina de muita festa e muitas músicas: reggae, ska, klezmer, Balcãs, chanson, valsas parisienses... E os Babylon Circus foram os responsáveis por um, entre muitos outros e igualmente bons, delírios festivos da edição deste ano do Festival MED, de Loulé: os extraordinários Think of One (um bando de belgas e de brasileiras que têm em D.Cila, uma velhinha pequenina, a mestra de cerimónias perfeita para o seu cocktail molotov de música nordestina e bahiana com tudo o que de ocidental se possa imaginar - até um tema surf-forró!), os bem melhores ao vivo do que em disco Capercaillie (pela simples razão de que os escoceses, ao vivo, quase não usam electrónicas e vão muito mais directos «ao osso» dos jigs e reels), os cada vez melhores na mestiçagem de géneros Amparanoia, a simpatia contagiante e a música lindíssima de Manecas Costa, a genial fusão de rai, gnawa e outros géneros do norte de África com funk, jazz, prog, etc. da Orchestre National de Barbés (que acabou o concerto com uma surpreendente e fabulosa versão de «Sympathy For The Devil», dos Rolling Stones, cantada em francês, árabe e inglês) e os marafados Marenostrum, cada vez melhores e a melhor juntar variadíssimos géneros (dos algarvios ao «celta», ao reggae ou à música cabo-verdiana, neste concerto representada por Maria Alice - maravilhosa em «Bulimundo» - e o seu teclista, que se juntaram aos Marenostrum em alguns temas). Uma festa que, em duas noites, continuou animadíssima com excelentes e arriscadas sessões de DJ de Raquel Bulha e Luís Rei.

Num registo mais introspectivo, Cristina Branco, Yasmin Levy, Souad Massi e, num dos palcos secundários, os Dazkarieh (com nova vocalista) e os Mandrágora, deram também muito bons concertos. E se a isto juntarmos muita gente todos os dias (com enchentes enormes nas noites de sexta e sábado), mais bancas de artesanato e restaurantes (incluindo um de comida egípcia), a simpatia enorme das pessoas que trabalham no festival e muitos amigos, o balanço do 3º MED só pode ser mais que positivo. E o melhor que eu poderia esperar depois de duas semanas de «férias» deste Raízes & Antenas (eufemismo que aqui significa «estou desempregado mas, como não tenho internet, vou deixar este blog abandonado»). Férias passadas ali mesmo ao lado, em S.Brás de Alportel.