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04 julho, 2010

Sons do Atlântico, Bons Sons, Intercéltico de Sendim e Povo que Lavas no Rio Águeda: o Verão 2010 Tem Tudo!

Ora bem! Há tanta informação para dar (e tanta outra que fica de fora!) que temos que ir por partes...



Parte 1:

SONS DO ATLÂNTICO (5, 6 e 7 de Agosto, Porches, Lagoa)

Os tuaregues malianos Tinariwen que actuam no FMM de Sines a 30 de Julho participam, uma semana depois, no Festival algarvio Sons do Atlântico, que se realiza este ano entre os dias 5 e 7 de Agosto, no promontório de Nossa Senhora da Rocha, Porches, Lagoa.

Os tuaregues malianos terão a companhia no primeiro dia (quinta-feira, dia 5) do guineense e lisboeta Kimi Djabaté que inaugura esta edição do Sons do Atlântico.

Na sexta-feira, dia 6, encontra-se duas distintas vozes nacionais. A algarvia que Viviane que funde fado com tango e uma das mais interessantes novas vozes do fado: Carminho (na foto).

No sábado, dia 7, o Sons do Atlântico encerra com a fanfarra sintrense Kumpania Algazarra e com o cabo-verdiano Tito Paris.(Fonte: Crónicas da Terra)

Nota: Não está aqui em cima, mas o Clube Conguito (DJs António Pires e Rodrigo Madeira) encerra o Sons do Atlântico com um set que tem por mote provisório - e provisório porque se calhar vamos mesmo acelerar até cair! - "Devagar se vai ao Lounge" :)




Parte 2:

BONS SONS (20, 21 e 22 de Agosto, Cem Soldos, Tomar)

Neste ano o BONS SONS faz a festa da multiculturalidade com Princezito (Cabo Verde), Melech Mechaya, Drama & Beiço e Terrakota. Explora, transforma as linguagens da música portuguesa com Danças Ocultas (na foto), Diabo na Cruz, Dazkarieh, Diabo a Sete ou com o consagrado Fausto. Celebra manifestações vivas do património musical português com Adufeiras de Monsanto e Cantares Alentejanos de Serpa. Brinda-nos com momentos mais acústicos com os concertos de Norberto Lobo, Dead Combo, Lula Pena e B Fachada, e alarga as noites com os DJ’s com Nuno Coelho, MissBoopsieCola e BlackBambi.

Mas há mais! Para além dos concertos ao ar livre, estarão disponíveis outras formas de vivência da música e da aldeia. Falamos de espectáculos de dança, música para bebés, exposições de artes gráficas, projecção de curtas-metragens, feira das marroquinarias, entre outras propostas.

Bilhetes à venda: Sede do SCOCS em Cem Soldos, Turismo de Tomar, Fnac, Ag. ABREU, Worten, C.C. Dolce Vita, Megarede, El Corte Inglês (Lisboa e Gaia) e em www.tickeline.sapo.pt / Reservas: 707 234 234.

Bilhete diário: 6€*
Bilhete geral: 10€*
*Com acesso gratuito ao Parque de Campismo.




Parte 3:

FESTIVAL INTERCÉLTICO DE SENDIM (30 e 31 de Julho, Sendim, Terras de Miranda)

...porque a folk merece um festival assim!


Para iniciarmos uma nova década de celebrações musicais intercélticas em terras de Sendim, na finisterra mirandesa de Trás-os-Montes, a opção fundamental da programação recaiu maioritariamente sobre jovens formações musicais provenientes de distintas geografias ibéricas apostadas em contribuir, com as suas múltiplas propostas, para se alargarem as margens expressivas da música de matriz folk dos nossos dias.
Interessaram-nos sobretudo aqueles projectos que olham o futuro a partir das raízes e que se acercam das encruzilhadas não para se instalarem no conforto dos limites mas antes para descobrirem o sortilégio da partilha intercultural.
Arrancamos com uma afirmação de vontade de tocar e de reinventar a música portuguesa de raiz tradicional (Diabo a Sete), detemo-nos nas seduções das rotas do contrabando cultural que recusa as fronteiras que não raro ignoram contextos de afinidades com seculares origens (Xarnege; na foto) e logo mais acabamos rendidos à sedução de um grito interno que se afirma como expressão actual de uma respiração cultural que resgata das memórias a essência vital do presente (Mercedes Péon). Nas transumâncias destes dias (re)descobrimos quão reconfortantes são as rotas da interculturalidade (Uxu Kalhus), porventura hesitando entre os apelos das terras e os chamamentos das costas de renovadas navegações (Garma), mas com a certeza de que longa vida da Oysterband é um poderoso tónico para a folk dos nossos dias e de sempre.
No final das viagens que propomos bastar-nos-á a confirmação de uma daquelas certezas (ou verdades?) que adoptamos como princípio orientador da saga em terras de Sendim: quem não semeia o progresso faz morrer a tradição.
Cumpram-se, pois, as celebrações sendintercélticas em 2010 sob o signo da (re)descoberta permanente dos sons que fazem vibrar o cristal de um tempo que queremos viver com a máxima plenitude intercultural. Acreditamos - continuamos a acreditar! - que esta é a grande verdade do Festival Intercéltico de Sendim - Terras de Miranda.

PARQUE DAS EIRAS
€ 12,50 por noite

30 Julho
22h30: Diabo a Sete (Portugal)
23h30: Mercedes Péon (Galiza)
00h30: Xarnege (Euskadi/Gasconha)

31 Julho
22h30: Uxu Kalhus (Portugal)
23h30: Oysterband (Inglaterra)
00h30: Garma (Cantábria)


CONCERTOS PARALELOS

Oficina de Danças Tradicionais (Uxu Kalhus)
31 Julho: 16h00 - Local: Largo da Igreja

Gaiteiricos Mirandeses
31 Julho: 18h00 - Local: Largo da Igreja

Animação de Rua: Gaiteiricos Mirandeses
31 Julho: 21h30 - Desfile: Largo da Igreja/ Parque das Eiras


BARDOFOLK

Poções mágicas para todas as sedes....
Parque das Eiras: 30 e 31 de Julho e 1 de Agosto...

OUTRAS ACTIVIDADES

Curso de Iniciação à Língua Mirandesa
Salão dos Bombeiros Voluntários
31 Julho: 10h30/12h30 - 15h00/19h00
1 Agosto: 10h30/13h00

Passeio Pedestre: La Ruta de ls Celtas
31 Julho - Saída: Junta de Freguesia: 9h00

Lançamento de Livros e Discos
31 Julho: 11h30 - Local: Balões da Cooperativa Ribadouro

Homenagem ao Gaiteiro da Póvoa Delfim de Jesus Domingues
31 Julh0: 16h00 - Local: Casa do Pauliteiro

Pintura de Luís Ferreira: Um Artista Sendinês
Local: Casa da Cultura de Sendim
30/31 Julho e 1 Agosto: 15h00/20h00


Parte 4:

POVO QUE LAVAS NO RIO ÁGUEDA (Águeda, 16 e 17 de Julho)

O imponente espectáculo inter-associativo que Águeda constrói, a cada ano, sobre as águas do seu rio, tem nova edição em 2010. Um musical exuberante, contemporâneo e visual, inspirado no repertório musical de todos os tempos dedicado ao imaginário ribeirinho: “Povo Que Lavas no Rio Águeda” (na foto: Mário Abreu/d'Orfeu 2009). A 16 e 17 de Julho de 2010, na antiga piscina fluvial, terá lugar mais um evento para a história cultural de Águeda.

[ler apresentação integral em http://povoquelavasnorioagueda.blogspot.com/]

POVO QUE LAVAS NO RIO ÁGUEDA
2 únicas apresentações: 16 e 17 Julho 2010, 22h00

lotação máxima de 1200 lugares por noite

BILHETES À VENDA
preço único 3€
na Câmara Municipal de Águeda
na Biblioteca Municipal Manuel Alegre
nas Piscinas Municipais de Águeda
no Agitágueda (a partir de 3 Julho)

07 junho, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (IV)


O povo que canta e dança no rio
por António Pires, Publicado em 16 de Julho de 2009

Quase a completar quinze anos de existência, a d'Orfeu - associação que pôs Águeda no mapa dos grandes festivais de música (e não só, estendendo as suas iniciativas a outras artes como a dança, o teatro, a mímica, o vídeo, etc...) em Portugal, além de funcionar também como escola e instituição agregadora de muitos músicos locais e exteriores (portugueses e estrangeiros) - voltou a ser a responsável por um espectáculo de características únicas no país: a reunião de centenas de músicos (este ano eram quase quatrocentos) e cantores da cidade e dos seus arredores, no Povo que Lavas no Rio Águeda (na foto, de Marilyn Marques), desta vez assim chamado porque teve como mote a canção "Povo que Lavas no Rio" (popularizada por Amália Rodrigues), do poeta Pedro Homem de Mello. Terra de poetas - Homem de Mello e também Manuel Alegre -, Águeda é também um local em que parecem existir mais músicos por metro quadrado do que em qualquer sítio do país. E a presença de grupos de rock e de blues, de hip-hop experimental e de percussões selvagens numa ceifeira "fluvial" ao lado de ranchos folclóricos, vários coros e dançarinas, barqueiros e manipuladores de vídeo - todos interagindo muitas vezes uns com os outros - num local mágico e encantado (o próprio leito do rio e as suas margens) e usando sempre reportório musical local contribuíram para que as duas apresentações, sexta e sábado passados, sejam inesquecíveis. Era tão bom que Portugal fosse todo assim!




Mas porque é que eles voltam?
por António Pires, Publicado em 23 de Julho de 2009

Numa altura em que a música portuguesa fervilha de criatividade e de novas propostas que nos fazem voltar a ter orgulho em muitos dos artistas e bandas que estão agora a emergir - novos nomes do fado (Carminho) e dos seus desvios (OqueStrada, Deolinda...), o eixo Flor Caveira/Amor Fúria (B Fachada, João Coração, Tiago Guillul, Os Golpes, Os Quais...), a pop visceralmente portuguesa do Real Combo Lisbonense, Virgem Suta e Os Tornados ou a ponte entre Lisboa e as cidades africanas em que ainda se fala português feita pelos Buraka Som Sistema, Makongo ou Batida, só para dar alguns exemplos -, é duvidosa a utilidade do regresso ao nosso universo musical de nomes como os Trabalhadores do Comércio (na foto), os Táxi ou os Ban, os dois primeiros com álbuns novos editados nos últimos meses, a banda de João Loureiro com álbum anunciado para breve. Não está em causa a legitimidade, ou até as boas razões, deste retorno às lides destes grupos (por coincidência, todos do Porto; mas até poderiam ser os Salada de Frutas, os Iodo ou os NZZN, de Lisboa e arredores, que o raciocínio seria o mesmo). Acredito até que nenhum deles - com carreiras profissionais de sucesso noutras áreas - precisa da música para fazer dinheiro e foi mesmo por amor que voltaram às canções, aos palcos, aos fãs que ainda lhes restam e à adrenalina dos bastidores. Mas a grande questão é: será que a música portuguesa precisa mesmo deles em 2009?




A canção ligeira portuguesa está a ser reabilitada
por António Pires, Publicado em 30 de Julho de 2009

Houve gente a abrir o caminho: os Delfins, com a sua versão de "O Vento Mudou" (com que Eduardo Nascimento venceu o Festival RTP da Canção em 1967), e os Xutos & Pontapés com "A Minha Casinha" (sucesso de Milú no filme "O Costa do Castelo"). Mas agora há muito mais gente a fazê-lo. O novo single de David Fonseca, "A Cry 4 Love", é, para além de uma belíssima canção (na linha de muitos outros temas compostos por ele, tanto nos Silence 4 como a solo), uma homenagem subtil a uma outra canção, "Pensando em Ti", dos Gemini, por sua vez inspirada num tema de Ástor Piazzolla. Tanto a entrada da secção de cordas como a linha melódica do refrão são devedoras directas desse tema gravado por Tózé Brito, Mike Sergeant, Teresa Miguel e Isabel Ferrão em 1976. Recentemente, também Rui Reininho (com "Bem Bom", das Doce, e igualmente com o dedo de Tózé Brito na composição), o Real Combo Lisbonense (na foto) - com standards esquecidos (passe o paradoxo!) da música ligeira e do ié-ié dos anos 60 como "A Borracha do Rocha", "Sensatez" ou "O Fado É Bom Para Xuxú!", entre outros - ou a fadista Kátia Guerreiro (com "Menina do Alto da Serra", popularizado por Tonicha) editaram versões de temas da chamada "música ligeira portuguesa", tantas vezes mal-amada e mal vista e, por isso.. temos de reconhecer que algo de importante está a acontecer: uma cada vez maior abertura e liberdade e um saudável reavivar da memória de muita - e não só de alguma - da nossa música.

08 setembro, 2008

The Chieftains - Uma Surpresa em Saragoça!


Estava eu muito bem a ver um jornal espanhol, o «Heraldo de Zaragoza», que tinha uma pequena notícia sobre as minhas actuações como DJ no Pavilhão de Portugal da Expo Saragoça quando a notícia de destaque da mesma página me fez dar um pulo de alegria: os irlandeses The Chieftains (na foto) iam tocar nessa mesma noite num dos palcos principais da Expo!! E dava mais que tempo para os ir ver!! E de sorriso de orelha a orelha, e coração apertadinho, lá fui à Plaza de Aragón ver o espectáculo de uns Chieftains renovados, remoçados, mais alegres, menos «roots» e mais «variedades». Mas valeu a pena, oh se valeu!! Integrado na sua digressão «The Celtic-Scottisch Connection Tour», este espectáculo mostra o núcleo duro dos Chieftains - Paddy Moloney (uilleann pipes, tin whistle), Matt Molloy (flauta), Sean Keane (violino) e Kevin Conneff (bodhran e voz) - acompanhado pela maravilhosa cantora escocesa Alyth MacCormack, a harpista e teclista Triona Marshall, o violinista Jon Pilatzke (que também dança, e se dança!) e mais um par de bailarinos fantásticos. E o resultado é um espectáculo total onde a música tradicional irlandesa se cruza naturalmente com as suas irmãs escocesa, bretã e galega (Paddy homenageou Carlos Nuñez, companheiro de aventuras dos Chieftains durante muitos anos) e também a country e o... rock - ouviram-se riffs do «(I Can't Get No) Satisfaction», dos Rolling Stones, lá pelo meio do concerto. Pelo que se sabe, o próximo passo dos Chieftains será um disco de fusão de música irlandesa com música mexicana, produzido por Ry Cooder. Promete!

Mas a Expo de Saragoça não me deu só um memorável concerto dos Chieftains. Lá, há música por todo o lado: uma fabulosa steel-band de Trinidad e Tobago que tanto toca música clássica, como Abba, como o seu calipso... Um grupo mauritano de hip-hop e reggae... Percussões tailandesas e indonésias... Ou os Cabo San Roque, aquele fantástico grupo catalão (o da máquina de lavar roupa ao centro do palco) que passou há uns meses pela ZDB... E isto tudo numa volta rápida pelo recinto e numa única tarde... E à noite haveria Carminho a cantar o seu fado verdadeiro no espaço Portugal Compartilha do Pavilhão de Portugal, concerto que não vi - para grande pena minha - porque a essa hora já estava de regresso. A propósito, as minhas sessões de DJ nesse mesmo espaço correram bastante bem, principalmente a primeira noite, que terminou em enorme festa dançante. E aproveito aqui para agradecer à equipa que me acolheu tão bem durante aqueles dias: à Tela, à Dina, ao Alexandre, à Clara, à Ana Paula e aos outros todos de que não sei o nome mas que me trataram sempre nas palminhas. Muito obrigado!

29 maio, 2008

Festa do Fado - Parcerias Inesperadas no Castelo


Mais uma vez, a Festa do Fado - que decorre no Castelo de S.Jorge, de 6 a 28 de Junho, integrada nas Festas de Lisboa propõe uma série de concertos com parcerias - muitas delas inesperadas, outras nem tanto - entre gente do fado e de outras áreas musicais. Este ano, o programa inclui concertos de Camané com o seu produtor e cúmplice de longa data José Mário Branco (dia 6); de Teresa Tapadas com a cantora de jazz Paula Oliveira (dia 7); de Jorge Fernando com o rapper Sam the Kid (dia 13), de Lula Pena com o acordeonista Richard Galliano, o guitarrista Custódio Castelo a as Adufeiras de Monsanto (dia 14); de Mafalda Arnauth com o Ensemble Costa do Castelo (dia 20); de Joana Amendoeira com o Mar Ensemble cantam (dia 21); de Carminho (na foto, de Margarida Martins) e do seu irmão Francisco Andrade com a mãe de ambos Teresa Siqueira (dia 27); e, finalmente, de Carlos do Carmo com o pianista e maestro António Victorino d'Almeida (dia 28).

28 março, 2007

Carminho - Um Segredo



Numa era de youtubes, myspaces, mp3s de mão em mão e CDs gravados baratinhos, ainda há quem se resguarde do grande público e se guarde para um futuro qualquer. A fadista Carminho (na foto, de Margarida Martins) é um desses casos raros. Assim como rara é a sua voz. Não que o segredo seja absoluto: ganhou vários prémios no circuito fadista, actuava regularmente no restaurante Mesa de Frades - para onde arrastava os seus fãs, já muitos -, vai dar-se a mostrar em «Fados», de Carlos Saura, mas os discos, esses, ficam guardados para mais tarde. Para já, Carminho está algures no Oriente. Esta entrevista - que está por estes dias a aparecer também, numa versão mais curta, na revista alemã «Mini International» dedicada a Lisboa (assim como o meu texto já publicado neste blog dedicado à música africana e brasileira em Lisboa) - foi feita antes da grande viagem.


CARMINHO
O FADO COMO VERDADE

Carminho abre a boca para cantar e sente-se que aquele fado é verdadeiro, vindo do fundo do tempo e do fundo da alma. Ela canta no restaurante Mesa de Frades, antiga capela em Alfama, um dos bairros populares de Lisboa em que o fado terá nascido no Séc. XIX. E, apesar de ter apenas 22 anos, Carminho parece transportar na sua voz - quente, bem timbrada, versátil, levemente rouca - todo o peso de uma antiga tradição. Ainda sem discos gravados - e a poucas semanas de começar uma viagem à volta do mundo inserida em organizações de ajuda humanitária -, Carminho (Carmo Rebelo de Andrade) dar-se-á primeiro a conhecer internacionalmente no filme «Fados», de Carlos Saura. Uma revelação.

O que é que leva uma jovem lisboeta a enveredar por uma forma de arte tão antiga como o fado?

O fado sempre esteve muito presente na minha vida. É uma tradição familiar. A minha mãe, Teresa Siqueira, foi fadista. Se calhar, se isso não tivesse acontecido não teria vindo para o fado. Na minha família sempre se ouviu muito fado, cantava-se o fado, ia-se ver o fado. O fado não é uma música fácil e tive que exercitar o ouvido para o conseguir compreender, o que foi facilitado pelo facto de ter crescida na família em que cresci.

Também tiveste contacto directo com outros fadistas...

Sim, mas não tantos quanto gostaria. Muitos deles conheço-os apenas de discos, não de os ver ao vivo. Porque durante muitos anos estive a viver no Algarve e não estava tanto em contacto directo com o meio do fado... E ia ouvindo a Amália Rodrigues, o Fernando Maurício, a Lucília do Carmo através de discos...

O que é que o fado te transmite em termos emocionais, em termos sentimentais, em termos pessoais?

O fado tem sempre que ser verdadeiro. O fado é feito de poemas musicados e quando cantamos um fado temos que o cantar como se aquela vez fosse a última. E cada fadista vai buscar a si próprio a sua maneira de reviver, outra vez, aquilo que as palavras dos fados transmitem. Da mesma maneira que uma pessoa pode voltar a sentir tristeza quando se lembra de algo triste que lhe aconteceu no passado - e isso já não é real mas volta a ser real -, podemos reviver sentimentos de outras pessoas, as pessoas que escreveram os poemas dos fados, através das nossas experiências pessoais. Não canto poemas de fados que não entenda ou com os quais não me identifico. Fados que não tenham a ver comigo, com a minha vida, até com a minha idade... Só canto fados que consigo compreender, para os quais possa ir buscar recordações, emoções e às vezes coisas abstractas mas que tenham a ver com experiências reais para que os possa cantar de um modo único, pessoal e verdadeiro. E isso as pessoas sentem: quando oiço fado, não sei dizer porquê, mas sei distinguir o fado verdadeiro do falso fado.

Desde há alguns anos, o fado tem tido um ressurgimento fortíssimo, não só principalmente através de uma nova geração de cantoras. Consegues distinguir, entre elas, quem canta esse fado verdadeiro e quem canta o «falso» fado?

Não consigo julgar o fado a que não assisto ao vivo. A verdade do fado vê-se ao vivo e não ouvindo os discos. E há muitas das novas fadistas que nunca vi ao vivo. Mas há muitas outras novas fadistas em que sinto essa verdade - e esta é uma sensação pessoal, pouco objectiva. Acho que o verdadeiro é o que vai ficar. Daqui por uns anos vai-se fazer essa triagem, entre o que é genuíno e verdadeiro, e o que não é. Por exemplo, noutras áreas musicais, nós vemos que tantos anos depois há verdade na música dos Queen ou dos Beatles, bandas que ainda continuamos a ouvir para além das modas, dos «hypes»...

Falaste em Queen e em Beatles. Para além de fado, que música é que ouves?

Para a mim a música é essencial, não consigo viver sem música. E também não consigo ficar muito tempo a ouvir sempre fado. Adoro os Queen, são a minha banda preferida. Mas também gosto de muitos géneros de música diferentes: música cabo-verdiana, tango, música clássica (Vivaldi, Tchaikovsky, Mozart...), gosto de jazz e gosto de tecno - e não só para dançar, para ouvir também - e chill-out...

Imaginas-te um dia a integrar alguns desses géneros musicais no teu fado?

Não, não imagino. O fado tem uma raiz e tem uma tradição. Há muitos géneros de música que não têm nada a defender. Mas o fado tem, porque tem raízes muito antigas, muito próprias. E tem que se ter muito cuidado quando se mexe no fado. Quando se quer lá pôr novas referências, novos instrumentos, para tornar a coisa mais comercial, isso deixa de ser fado. Acho que nunca vou enveredar por aí. O que eu gosto, onde eu me sinto bem, onde eu sei que sou verdadeira a fazer alguma coisa, é no fado tradicional. Talvez um dia, por brincadeira, se me convidarem para cantar nalgum projecto diferente eu aceite, mas aí já não lhe chamaria fado.

Vamos falar de referências tuas dentro do fado. Tens, de certeza, alguns ídolos e influências...

A minha mãe é, sem dúvida, a minha maior referência e influência. E - não lhe chamaria ídolos nem mentores - mas pessoas que me mostraram o que era o fado: Beatriz da Conceição, Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, Fernanda Maria e homens como o Fernando Farinha e o Fernando Maurício... A Amália Rodrigues, também.

É curioso teres feito essa pausa antes de teres dito o nome de Amália Rodrigues.

A Amália não foi a minha primeira referência. E não tive contacto directo com ela. A Beatriz da Conceição, sim, foi das pessoas que mais me ensinou o fado. Talvez ainda mais que a minha mãe. A Bia (Beatriz da Conceição) falava comigo, repreendia-me, criticava-me, mostrava-me o que fazer ou não e foi ela que mais me abriu os olhos para o sentido da palavra, a dicção, a maneira como se dizem as palavras e como no fado as palavras são o mais importante: não se pode brincar com as palavras por causa da melodia; as palavras estão primeiro e a melodia vem depois; é a melodia que tem que se adaptar às palavras e não o contrário.

Tu estás a seguir uma tradição antiga no fado que é cantar ao vivo nm local específico, um restaurante, muito perto, quase «em cima», das pessoas que te ouvem, sem amplificação... É importante este contacto tão directo com as outras pessoas?

É muito importante. O fado é, sem dúvida, uma forma musical que deve ser ouvida nestas circunstâncias. Com as pessoas ali ao pé, a mandarem piropos, a fazerem comentários. O fadista também vive muito das pessoas que o ouvem. Ao calor, ao empenho, que se sente do outro lado. Quando se sente que as pessoas sentem o que o fadista está a sentir... Quando se está a cantar para uma parede, num estúdio, é diferente.

Já tiveste convites para gravar discos?

Já, mas recusei. Acabei há pouco tempo o meu curso de Marketing e Publicidade e nem sequer pus a hipótese de gravar um disco. Queria acabar o meu curso e não queria misturar, não queria desviar-me. Entretanto, já percebi que não vou poder fugir muito ao meu destino e que vou fazer qualquer coisa no fado. Não sei se vou ser fadista a 100 por cento do meu tempo. Mas sei que vou fazer qualquer coisa no fado. E gravar um disco não é uma prioridade enquanto disco. Será mais uma muleta para ir a outros sítios, mostrar o meu fado. E só gravarei um disco quando tiver prazer a fazê-lo. Por enquanto não me sinto bem num estúdio. O outro dia estive a gravar para o filme «Fados», de Carlos Saura (nota: realizador espanhol que está agora a fazer um filme sobre o fado, depois de também já ter abordado nos seus filmes o flamenco e o tango), e aquilo ficou uma porcaria. Acho que vamos ter que gravar outra vez. Só vou gravar um disco quando puder dar o meu melhor e ter uma entrega verdadeira num estúdio.

Sei que vais fazer uma longa viagem proximamente...

Sim, vou-me embora em Fevereiro e vou estar integrada em missões de ajuda humanitária na Índia e outros países da Ásia e também vou à América do Sul. Vou estar fora daqui durante um ano. Espero aprender muito com esta viagem e vou voltar, de certeza, uma pessoa diferente...