20 agosto, 2006

Ali Farka Touré - Por fim, «Savane»


Depois de neste blog ter recuperado vários textos dedicados a Ali Farka Touré, chega hoje a crítica a «Savane», o álbum editado há poucas semanas e gravado pouco antes da sua morte... Aqui fica o texto, com respeito, amor e admiração eternas.


ALI FARKA TOURÉ
«SAVANE»
World Circuit/Megamúsica

Um dia (um mês, um ano) destes, hão-de surgir dezenas de gravações de Ali Farka Touré. Gravações ao vivo, maquetas, «outtakes» de estúdio, etc, etc. A indústria discográfica costuma fazer render bem os seus mortos - no rock, no jazz, na clássica, na world... - e reembalar de diferentes formas, muitas vezes, as mesmas canções em alinhamentos diferentes, em caixas diferentes, em versões (só muito ligeiramente) diferentes... Mas não é esse o caso de «Savane», verdadeiro testamento musical de Ali Farka Touré, último álbum gravado pelo genial guitarrista, cantor e compositor maliano já numa fase em que ele sabia perfeitamente qual a doença que o consumia e da qual viria a morrer em Março deste ano. Um testamento escrito a muito sangue, sim, mas só a algum suor (parece sempre tão simples de fazer, sem esforço nem dor, a música de Ali Farka) e nenhumas lágrimas.

No pequeno filme que serve de material de promoção a «Savane», vê-se Ali Farka no estúdio, em concertos, a viajar nas margens do Rio Niger, em Niafunké... E ouve-se a sua voz a falar, com amor, com paixão inteira e eterna, por esta terra que ajudou a desenvolver. E da sua música - que fala de trabalho, de agricultura, de saúde, da família, de paz, de política (diz ele que «mais importante do que a música é a mensagem que ela carrega»). E deste álbum, «Savane», que lhe deu tanto prazer gravar. E da homenagem que faz, no disco, a Anassi Coulibaly, a quem ele agradece o facto de ter podido profissionalizar-se como músico. E nunca, nunca, da doença de que sofria ou da iminência da morte. Um sorriso, um cigarro, um chapéu, outro sorriso, a voz mais suave do mundo quando diz a palavra «Niafunké» e uma música que nunca morrerá.

O tema-título do álbum, «Savane» (cantado em francês), tem nele, bem fundo, blues, música mandinga, fado, música árabe, gnawa, música peruana, mariachis, música indiana e mil outras sugestões de músicas de todo o mundo... É quase um compêndio completo de world music e é justo que apareça no álbum derradeiro de Ali Farka Touré, ele que foi um dos maiores embaixadores das músicas do mundo. E o resto do álbum é uma maravilha completa, com as guitarras dengosas, circulares, baloiços das estrelas, de Ali a conduzirem a sua voz (e as vozes dos maravilhosos coros que se ouvem de vez em quando), as cordas dos n'gonis e da njarka que o acompanham, a voz de Afel Bocoum (que duela com ele num tema e faz coros em mais dois), as percussões de Fain Dueñas (Radio Tarifa) e de outros músicos, o saxofone de Pee Wee Ellis e a harmónica visceralmente delta-blues de Little George Sueref.

Para além do tema-título, também «Ewly», «Soko Yhinka» (a homenagem a Anassi Coulibaly), «Soya», «Machengoidi» (que lança pontes óbvias com a música dos tuaregues e o gnawa vizinho do norte), a blues, bluesíssima «Ledi Coumbe» (Robert Johnson a encontrar encruzilhadas no deserto), a belíssima e com a njarka em alta velocidade «Hanana», a litania hipnótica-repetitiva «Gambari Didi», «Banga» (e uma flauta que dança), a cadência lenta e encantatória de «N'jarou» (o dueto entre Ali Farka e Afel Bocoum) e a maravilhosa «Penda Yoro» (com a harmónica de Little George Sueref a encontrar as correntes escondidadas no Atlântico entre o o Mississippi e o rio Niger), se contam entre os momentos mais brilhantes de «Savane». (9/10)

3 comentários:

Beep Beep disse...

Haverá assim tanto outtake? Ele não era pessoa para entrar em estúdio sem ser a sério.

António Pires disse...

Bom-dia Beep Beep,

Era mais uma forma de falar - para contrapor o carácter de álbum póstumo «sério» de «Savane» em relação a outras coisas de Ali Farka que poderão um dia surgir e de outros artistas que já surgiram (dos Nirvana a Jeff Buckley, dos Velvet Underground a António Variações, dos Beatles a Miles Davis...) -, mas não tenho grandes dúvidas que um dia irão aparecer muitas coisas de Ali Farka inimagináveis (incluindo inéditos e versões alternativas de estúdio de alguns ou muitos temas). E também não há aqui nenhuma crítica implícita à indústria discográfica: os coleccionadores de raridades agradecem sempre estes «bónus»...

Spaceboy disse...

Foi bonito de ser ver no FMM o cartaz à entrada em homenagem ao senhor Ali Farka Touré. «Savane» é lindíssimo, é a única coisa que posso dizer.