01 agosto, 2006

Andanças - Estar Lá Não Estando


Este ano não vou ao Andanças, para grande pena minha. Assim como não vou ao Intercéltico de Sendim, também com grandes remorsos por não ir... O Andanças começou ontem (ver parte da programação mais lá em baixo, sff) e por lá deve ser encontrado o livro «Contra Danças Não Há Argumentos», que tem um capítulo escrito por mim, «Dois Pés Esquerdos» (adaptação de um artigo publicado originalmente no BLITZ), do qual deixo aqui só o início... É outra forma de matar saudades do festival...

DOIS PÉS ESQUERDOS

No Festival Andanças toda a gente dança. Toda? Não. Enquanto há dezenas de milhar de pessoas a dançar ritmos de todo o mundo, e durante alguns dias, há uma outra pessoa que só «anda»: o repórter do BLITZ. Mas ao fim de meio festival, até ele se atreve a entrar nas rodas. Desculpem lá as pisadelas.


O Festival Andanças é diferente de todos os outros realizados em Portugal. E não é diferente por causa da qualidade do cartaz ou da beleza do local ou por melhores condições, digamos, nas casas-de-banho (apesar dessas melhores condições existirem... paralelamente às preocupações ecológicas que, por exemplo, introduziram recentemente o bom hábito de cada pessoa levar os seus próprios pratos e talheres). É diferente porque o grau de participação das pessoas - ia chamar-lhes público, mas não é esse o nome correcto e já se perceberá porquê - é incomparavelmente maior. A sua participação é real, activa, fundamental, necessária, a razão primeira deste festival.

Vou falar de mim - coisa que não é muito correcta jornalisticamente mas que aqui se desculpa devido ao estado de deslumbramento do escriba e como forma de melhor se perceber o que é o Andanças. Como é que eu «participo» em concertos e festivais?... Assim: às vezes bato o pé a compasso; bato palmas no fim (nunca durante, que é foleiro); faço ritmos celtas com a caneta a percutir o bloco-de-apontamentos, como se fosse um bodhran, quando me entusiasmo mais com algum grupo irlandês; é raro mas às vezes até canto em coro; ponho os braços em X, quando ninguém está a ver, nos concertos dos Xutos & Pontapés; uma vez insultei em voz alta um exímio executante de guitarra portuguesa, não porque tocou mal mas porque tocou pouco tempo (e para grande embaraço de quem estava comigo); de outra vez gritei «é roubado! é roubado!» para o palco onde estava uma jovem banda portuguesa que copiava um famoso grupo de Manchester. E é só.

Mas no Andanças sou obrigado a participar. Ao fim de três dias de resistência já me atrevo a experimentar aprender um ou dois ritmos mais fáceis (danças europeias -- 1, 2, 3, 1, 2, 3, 4 -- ou cabo-verdianas, porque já tenho alguma prática de concertos dos desaparecidos Tubarões, o único grupo que alguma vez me pôs a dançar durante mais do que 37 segundos seguidos). Dança! Por que raio é que um gajo que não dança, que tem dois pés esquerdos - e abençoado seja quem inventou a frase - e cuja barriga não ajuda, vai a um festival destes? Para participar, claro, e por muito renitente que esteja à partida.

Aliás, e voltamos ao início, este é o único festival português em que toda a gente participa e em que todos os Participantes são o Festival. Está bem, está bem, nos outros o público também interage com o palco - mais palminha, menos palminha; mais isqueiro aceso, menos isqueiro aceso; mais gritinho histérico para a Britney, menos indicador e mindinho esticados para os Metallica, etc, etc... -, mas o Andanças é o único em que as pessoas que lá vão têm exactamente a mesma importância que os músicos ou os monitores de danças ou os contadores de histórias ou... ou... O festival são eles, somos nós, os andantes, os dançantes, os bailantes... E os protagonistas não estão no palco, mas em todo o lado (ok, incluindo o palco).

(Para a programação completa ver o site www.pedexumbo.com ou carregar no link aqui ao lado)

4 comentários:

maizine disse...

estranhei o nome do blog, até ver a explicação no primeiro post :) tenho pena de nunca ter ido ao FMM de Sines. Parece que o último foi bom.... A ver se não falho o próximo. E a ver se não falham as minhas visitas a este espaço que, ao que vejo, está cheio de boas referências :) beijos.

Capuchinho Vermelho disse...

Eu estava lá nessa parte do "é roubado, é roubado". Que boas memórias :)

António Pires disse...

Olá Laura: sim, o festival de Sines foi magnífico este ano, mas tem sido sempre muito bom... Vale a pena ir até lá. E será sempre bem-vinda neste espaço...
E olá Capuchinho: sim, no Sudoeste, com excelentes memórias... tirando esses copiões ;)
Beijos.

Jazz Manel disse...

Eu vou estar lá mais uma vez...já há uns tempos atrás falei das "good vibes" do Andanças...Biba!....