28 agosto, 2006

Zouk, Kizomba & Som da Kabilia - Géneros Menores?


Assim como há músicas híbridas, na chamada world music, que são bem aceites neste circuito - desde o neo-flamenco de uns Ojos de Brujo aos punks de Tuva Yat-Kha, dos cruzamentos das novas electrónicas com a tradição de DJ Dolores ou Mercan Dede a mil outras experiências de fusão -, há outros géneros que não são considerados nobres o suficiente para integrarem os circuitos habituais de difusão das chamadas músicas do mundo como o kuduro, o baile funk, o reggaeton, o kwaito sul-africano, o zouk das Caraíbas, a kizomba angolana e cabo-verdiana ou a música popular da Kabilia, na Argélia. Três colectâneas editadas há pouco tempo reunindo temas dos três últimos géneros referidos são uma boa porta de entrada nestes estilos musicais. A adesão, ou não, a cada um deles (ou a todos) só depende de quem os ouvir... ou de quem os dançar.

VÁRIOS
«ZOUK ME LOVE»
Ngola Música/Maxi Music

O zouk é um estilo nascido nas Caraíbas (principalmente nas ilhas de Martinica e Guadalupe) que mistura ritmos locais com a pop anglo-saxónica e francesa, a soul, o reggae, a música africana e, mais recentemente, o hip-hop e o novo r'n'b norte-americano. Tendo como figuras de ponta nos anos 80 e seguintes os incontornáveis Kassav, rapidamente o género se dividiu em vários sub-géneros como o zouk lambada e o zouklove. E é bastante popular nos países de origem e também em Angola e Cabo Verde - países onde o zouk contribuiu para o aparecimento da kizomba - e junto de comunidades imigrantes caribenhas e africanas em Lisboa, Paris, Amesterdão ou Londres. «Zouk Me Love», colectânea de artistas de zouklove, género mais romântico e lento do que o zouk propriamente dito, é uma boa mostra deste género, maioritariamente cantado em francês mas por vezes com desvios - como acontece no tema «Tudo Pa Bo», de Suzanna Lubrano, cabo-verdiana radicada na Holanda - para o inglês e o creoulo cabo-verdiano. Destaque para «Fanm'Fo», excelente tema de Valerie Odina, Lea Galva e Danielle Renee-Corail, para a entrada mais que natural de um flow hip-hop em «Wooh She's Who», de Shydeeh, e a festa quentíssima e quase salseira de «Bagaill La Bandé», de Jean-Philippe Marthely, Jean-Luc Guanel e Marius Priam que fecha o álbum. (6/10)

VÁRIOS
«O MIDJOR DI KIZOMBA»
Farol Música

Basta ouvir esta colectânea de kizomba a seguir à de zouk para, facilmente, constatar a proximidade, quase de irmãos, destes dois géneros. Nascida em Angola - misturando semba, merengue, zouk e géneros anglo-saxónicos - mas também bastante popular e praticada em Cabo Verde, a kizomba foi popularizada por Bonga, primeiro, e Don Kikas, depois, até chegar à expressão que tem actualmente, com dezenas (centenas?) de artistas a aderir ao género. «O Midjor di Kizomba», colectânea lançada agora pela editora portuguesa Farol e apontada às comunidades imigrantes africanas de expressão portuguesa (e a todos os outros que a queiram ouvir), agrupa 16 temas recentes de kizomba feito por artistas angolanos e cabo-verdianos e é um bom espelho deste ritmo quente, sensual e - também à semelhança do zouk - para dançar a dois, bem agarradinhos. O primeiro tema, «Ná-Ri-Ná», de Denise, é lindíssimo, com o funaná e a coladeira cabo-verdianos a meterem-se facilmente pela kizomba dentro. Já o segundo, «Alta Segurança», de Philip Monteiro, é kizomba a sério, cheia de sintetizadores e reverberação açucarada na voz do cantor, tendências repetidas por outro nome histórico da kizomba, os Irmãos Verdades, em «Amar-te Assim». E o resto da colectânea é um desfilar coerente de temas que oscilam, sempre, entre a modernidade (produções cheias e luxuosas e até aproximações ao hip-hop, como em «I Want You Back», de Katinga MC) e a tradição: ouvem-se sembas e merengues aqui e ali, ouve-se mais Cabo Verde acolá (o funaná quase em estado puro de «Nha Madrinha», de Jorge Neto), ouve-se uma pitada de São Tomé misturada com Angola (no tema do falecido Camilo Domingos, «Dicena»). Um vídeo sobre como dançar bem kizomba surge como bónus neste CD. (7/10)

VÁRIOS
«KABYLIE NON-STOP - Vol.1»
Night&Day/Megamúsica

Prima do zouk e da kizomba - na mistura de elementos da música ocidental com géneros locais - a música popular da Kabilia (região do norte da Argélia) está próxima do rai, da música berbere (e os seus característicos gritos ululantes, que aparecem em quase todos os temas deste género musical) e de outras zonas do norte de África e, em igual medida, da pop anglo-saxónica e francesa. É uma música alegre, saltitante, óptima para dançar à sombra de uma tamareira (ou outra árvore qualquer) e com um chá de menta na mão. Nesta colectânea, «Kabylie Non Stop - Vol.1», com música escolhida e misturada pelos DJs Fayçal e Youcef, podem ouvir-se muitos temas representativos do género como os incontornáveis «Anzor L'Wali», de Hassiba Amrouche, «Nana Ala», de Mohamed Allahoua, o delicioso «Byiy Anasay», de Alilou, «Yemma», do histórico Takfarinas, o excelente «Sidi Lqurci», de Ouerdia, «Ça Va, Ça Va», de Nadia Baroud; mas também temas mais próximos da música tradicional (sem instrumentos ocidentais) dos Freres Khalfa, «Idbalen», com as gaitas-de-foles da região, bendires e darabukas, e da veterana e respeitadíssima Cherifa (na foto que encabeça este post), «Echah Arnouyas», que está bastante perto da tradição kabiliana, da música clássica egípcia e do flamenco; e ainda remisturas de temas como «Ines Ines», de Massa Bouchafa, e «Sniwa Difengalen», de Ali Irsane. (7/10)

3 comentários:

G-Amádo disse...

Gostei muito do que dizem ai,sim senhor,não ha explicação melhor para o que é kizomba. Abraço

António Pires disse...

G-Amádo:

Muito obrigado pelo comentário! Volte sempre e visite o resto deste blog, por favor. Um abraço

Anónimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado