11 setembro, 2007

Festa do «Avante!» - O Meio e a Mensagem



Não tem directamente a ver com a Festa do «Avante!» mas tem tudo a ver, lateralmente: ando a reler um excelente livro do meu amigo Mário Correia, «Música Popular Portuguesa», em que há um capítulo inteiramente dedicado à questão «o que é música de intervenção?». E para que serve; como funciona; se a música deve estar apenas ao serviço da palavra (da mensagem) ou não. O capítulo é centrado num debate que reuniu cantores como José Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho em... 1975, com mais alguns acrescentos de entrevistas nos anos imediatamente seguintes. E, apesar de ter algumas intervenções que já não fazem sentido 32 anos depois, ainda há por lá ideias que são tão válidas hoje como eram na altura e o serão sempre. Numa das citações mais valiosas desse capítulo, José Mário Branco diz que «Quando Paulo de Carvalho, a Amália Rodrigues, o Zeca Afonso, ou eu próprio cantamos qualquer coisa, a canção está a ser uma arma, porque comunicar com os outros é uma arma. Nós temos a possibilidade dessa comunicação de massas. Isso é que é a arma. Depois vamos ver ao serviço de quem ela está. Na cantiga (Nota: "A Cantiga é Uma Arma") eu digo que a canção é uma arma por isso. E depois "tudo depende da bala e da pontaria"; quer dizer, tudo depende realmente ao serviço de quem ela é posta».

Na Festa do «Avante!» deste fim-de-semana, houve muitas cantigas transformadas em armas, muitas mensagens que passam - sempre! - muito melhor quando o meio é a música, e a constatação de que há, cada vez mais, muitos músicos e cantores empenhados em fazer ouvir a sua voz ao serviço das suas ideias e ideais. Nem todos serão simpatizantes do Partido Comunista, mas raramente há um espaço como a Festa do «Avante!» para fazer passar estas mensagens. Mensagens simples e de fácil apreensão como o «Avante Camarada» metido por Luanda Cozetti no meio do «Com as Minhas Tamanquinhas», de José Afonso, no maravilhoso concerto dos Couple Coffee de homenagem ao compositor de «Grândola»; o «Happy Birthday Revolution» dos Levellers; a «Carvalhesa» - música sem palavras que diz mais que mil palavras - nas gaitas dos transmontanos Tíbia; a palavra de ordem com ecos de Abril «O Povo Unido Jamais Será Vencido», durante o fabuloso concerto de Sam The Kid - e, sim, o rap é a música de intervenção por excelência da actualidade; ou a afirmação de que a nota «fá» é igual numa kora, num balafon ou num sintetizador e que é igual em África, em Portugal e na América, tudo bem explicado por mestre Toumani Diabaté, durante o grande, lindíssimo, concerto que o maliano deu com a Symmetric Orchestra.

Ou outro tipo de mensagens, um pouco mais elaboradas, como quando se vê muita gente com lenços palestinianos a dançar a música klezmer dos judeus servida magnificamente pelos Melech Mechaya; as mensagens subliminares mas que visam a harmonia universal dos Blasted Mechanism, durante o seu concerto que pôs muitos milhares de pessoas aos saltos em frente ao Palco 25 de Abril; a convicção de que há uma imensa nação cigana, irmanada numa cultura e numa crença comum, espalhada por toda a Europa, no concerto da Fanfare Ciocarlia e convidados (com destaque para a espantosa cantora Esma Redzepova; na foto, de Sonia Balcells); de que há outra imensa nação, a «pátria língua portuguesa» de Pessoa, espalhada pelo mundo inteiro e unida em baladas, mornas, kizombas ou sembas cantadas pelos Sons da Fala; ou mensagens - simples ou complexas, escolha-se à vontade do freguês - de que a música é uma só e universal, e de que as mensagens são comuns e globais, como quando se ouve uma versão do «My Funny Valentine» para harpa e voz no belo projecto Ela Não É Francesa Ele Não É Espanhol; ou quando se ouve um excelente upgrade do afro-beat nos quentíssimos Tchakare Kanyembe; ou versões de temas de Adriano Correia de Oliveira pela Brigada Victor Jara, Manuel Freire e o Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra ou de temas de Carlos Paredes pelas mãos de Ricardo Parreira e do mestre Fernando Alvim; ou, ainda, o fado virado do avesso e completamente reinventado pelos Deolinda. Como se todos estivessem a dizer (ou a cantar): oiçam, há mensagens antigas que ainda fazem todo o sentido; oiçam, há músicas velhas que podem ser novas; oiçam, há palavras que são balas e cantigas que são armas; oiçam!, sempre, oiçam!...

14 comentários:

Anónimo disse...

Olá António!

Foi a melhor Festa de sempre! E já fui a muitas!

Abraço
Carlos R.

António Pires disse...

Carlos:

Também fui a muitas e esta foi, de facto, uma das melhores a que assisti... Mas é difícil comparar a Festa do «Avante!» de agora com as do Alto da Ajuda, onde vi muitos grupos e artistas que não conseguia ver em mais lado nenhum. Mas é verdade que a Festa voltou a ser relevante e a mostrar muita, e excelente, música! Ainda bem!!

Grande abraço

JPS disse...

Bom-dia, onde posso encontrar música do Melech Mechaya?

João Paulo Soares

António Pires disse...

João Paulo:

Melech Mechaya é um grupo de música klezmer de Almada, que eu saiba ainda sem discos editados. Pode encontrar a música deles no myspace: http://www.myspace.com/melechmechaya

Abraços

Anónimo disse...

António,
foi impressão minha ou o tomani disse que tinha família em portugal? Estava no bar e pareceu-me que sim, mas quando voltei ninguém tinha tomado atenção ao homem e não me conseguiram confirmar.

De qualquer modo, sabes se o kimi djabaté tem alguma relação com o tomani diabaté? é q do mali à guiné bissau é um instantinho. e ambos são mandingas certo?

Obrigado
Luís P.

Mário disse...

Tenho um desafio para ti no meu blog :)

António Pires disse...

Luís P:

Sim, o Toumani falou da família dele em Portugal mas não sei se estava a referir-se aos «primos» guineenses - o Kimi Djabaté também é de uma família griot como o Toumani mas duvido que tenham laços de parentesco próximos. Acredito que ele estava mais a referir-se à «família» afectiva como a Paula Nascimento, organizadora do África Festival - a quem ele também se referiu -, ou
a Deborah Cohen, a antiga manager do Ali Farka Touré e que agora vive em Lisboa. Estive a falar com o Sr.Toumani no backstage - é de uma simpatia imensa! -, onde também estavam a Paula Nascimento, a Deborah Cohen, o Luís Rei e a italiana Chiara - que, curiosamente, canta com o Kimi - e não me apercebi de estar alguma outra «família» por lá.

Nota: o P. a seguir a Luís é de quê? E... conhecemo-nos?


Mário:

Vou já lá ver...

Grande abraço!

Anónimo disse...

o P é de Palácios. não nos conhecemos, mas já fomos apresentados, este ano em sines, ou melhor em Porto Côvo, pelo Nuno.

Obrigado, de novo.
Luís P

António Pires disse...

Luís Palácios:

Então conhecemo-nos ;)

Um abraço e volta sempre!

Dijambura disse...

Adorei esta magnifica descrição!Não podia estar melhor descrita a magia da festa na sua ligação à música que é uma das suas peças fundamentais...a festa foi mesmo assim e a música que por lá se ouviu à mistura com os aromas, com os cheiros, com as cores, com a alegria, foi sem dúvida de valiosa qualidade. Eu e a minha Joana vibrámos e estivemos em harmonia absoluta!

Anónimo disse...

Olá Rapaz,

Fiquei com os teus discos, pá!

Acho que a "família" a que ele se referia era mesmo essa... A Deborah não era considerada como uma "irmã" pelo Ali Farka Touré?

Acho que já uma vez falei com o Kimi sobre isso e ele referiu, se não estou em erro, que eram primos muito afastados. Se bem que a noção de família em África seja bem diferente da nossa...

lr

António Pires disse...

Dijambura:

Obrigado! Poderia ter falado de muitas outras coisas da Festa do «Avante!», mas este blog é essencialmente sobre música: a música que é a melhor maneira de comunicar ideias, emoções, ideais, sentimentos (individuais ou... colectivos). E é bom, muito bom!, que uma Joana recém-nascida receba tudo isto (a música... e os aromas, etc, etc...).

Volta (voltem) sempre!

Camarada Luís:

Pois ficaste com os discos! Foi dos grogues de Cabo Verde e da adrenalina toda no final de festa, com os Blasted, os Melech Mechaya e o Osga a dar-lhe forte na gaita no restaurante do Nordeste... Foi um belo final e... os discos devolves-me na próxima vez que nos encontrarmos.

E, sim, acho que o Toumani Diabaté estava mesmo a referir-se à Deborah e também à Paula. E foi tão bonito ele dizer que o Ali Farka considerou o concerto em Lisboa (em que ele próprio, Toumani, também participou) o melhor de toda a sua vida, não foi?

Grande abraço

Alan disse...

Foi uma bela surpresa aquela citação de "Avante Camarada" que os Couple Coffee fizeram em "Com as minhas tamanquinhas". Momento carregado de emoção, no espírito da festa. Quem viu, viu...

António Pires disse...

Alan:

Foi, sim senhor! E feito com honestidade, o que é muito importante!! Obrigado pela visita ao R&A e um abraço...