06 julho, 2009

Évora Clássica - Os Orientais Regressam ao Alentejo


O Festival Évora Clássica, promovido pela Casa do Cadaval, volta a encher Évora de música, cinema e tradições do Oriente. De amanhã, dia 7, e até 11 de Julho, com música que viaja da Índia para os Europa dos Balcãs, com passagem pelo Tibete e pela música klezmer dos judeus, sem fronteiras culturais, religiosas ou linguísticas. O programa completo e os artistas:

«CONCERTOS/CINEMA


Terça-feira dia 7 de Julho

Abertura do Festival

Gypsy night (Noite cigana)

22h - Palácio Cadaval – Jardim de Paço

Primeira Parte

Conjunto Jag Virag da aldeia de Nyirmihalydi

Região de Szabolcs-Szatmar-Bereg – Hungria

Segunda Parte

Conjunto Sentimento Gipsy Paganini

dirigido por Gyuszia Horvath - Hungria



Quarta-feira dia 8 de Julho

22h - Palácio Cadaval - Jardim do Paço

Bambu e cordas da Índia

Duo de mestres

Shashank, flauta «bansuri» e Pandit. Vishwa Mohan Bhatt, «mohan veena»
Parupalli Phalgun, «mridangam», Pandit. Ramkumar Mishra, «tabla»

- Karnataka and Rajasthan

Quinta-feira dia 9 de Julho

18h30 - Palácio Cadaval – Salão de Música

Ashar Khan Manghaniyar

Música popular do Rajastão e duplo clarinete «pungi» – Índia do Norte

22h - Palácio Cadaval - Jardim do Paço

Yom
Música «klezmer»

Yom, clarinete, Denis Cuniot, piano, Benoît Giffard, tuba, Alexandre Giffard, taban


Sexta-feira dia 10 de Julho

20h - Palácio Cadaval - Igreja dos Lóios

Lobsang Chonzor (na foto)

Cânticos do tecto do mundo – Tibete

22h - Palácio Cadaval - Jardim do Paço

Ciné-concerto criação «Les Orientales»

A Luz da Ásia (Prem Sanyas) - Filme mudo de Franz Osten - (Índe/Alemanha, 1925, 1h37mn, VOSTF) - Realização : Niranjan Pal, a aprtir do poema de Edwin Arnoldmusicado pelos músicos Manghaniyars do Rajastão, Gazi Kahn Barna and party



Sábado dia 11 de Julho

20h - Palácio Cadaval - Igreja dos Lóios

Wang Li

berimbaus da China e de algures e flautas de cabaça

22h - Palácio Cadaval - Jardim do Paço

Magic India

Mágicos e músicos do Rajastão com o grupo Divana

- Rajastão

CINEMA



CINE RAMA

A descoberta do cinema indiano

Palácio Cadaval – Salão de Música

De Quarta a Sabado

Quarta-feira dia 8 de Julho

16h00 - Palácio Cadaval

Mangal Pandey – The rising

Ballad of Mangal Pandey de Ketan Mehta –
Música : A.R Rahman, 2h30 – Índia - 2005

VO Legendado em português

Publico: Para todos


Quinta-feira dia 9 de Julho

16h00- Palácio Cadaval

Dashavatar

Cada Era tem um herói – Desenho animado realizado por Bhavik, 2h – Índia – 2008

VO Legendado em inglês

Publico: Crianças e adultos


Sexta-feira dia 10 de Julho

15h00- Palácio Cadaval

Lagaan

Era uma vez na Índia – Escrito e realizado por Ashutosh Gowariker, 3h40 – Índia - 2002

Música : A.R Rahman

VO Legendado em português

Publico: Para todos


Sábado dia 11 de Julho

15h00- Palácio Cadaval

India magica

Jodhaa Akbar d' Ashutosh Gowariker – com Hrithik Roshan e Aishwarya Rai, 3h33 - Índia – 2007
VO Legendado em inglês
Publico: Para todos

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Ashar Khan Manghaniyar:

Os instrumentos de sopro do Rajastão, «satârâ» e «muralî»
Os músicos Manghaniyars, contráriamente à casta dos «Langas» não utilizam, ou utilizam pouco, aerofones. Ashar Khan Manghaniyar faz assim figura de excepção no seio desta comunidade. Praticando a técnica do sopro contínuo (nàksãsì), ele é capaz de tocar a sua dupla flauta pastoral, «satârâ», e o duplo clarinete «muralî». O «satârâ», dupla flauta de bico e de madeira de origem pastoral possui dois tubos separados, um destinado ao bordão e o outro à melodia. A suavidade aérea que o «satârâ» emana contrasta com a rudeza das notas agudas e cortantes do «muralî».
O termo «muralî» aplica-se a diferentes aerofones na Índia, desde a flauta transversal até á flauta «vamsa» em bambu que encontramos nas mãos do deus Krishna.
Mas na tradição popular do Rajastão e do Paquistão, trata-se de um duplo clarinete enfeitado por um recipiente de madeira ou de cabaça vazia e seca e de dois tubos juntos, colados com cera.

Divana:

Actualmente habituados a calcorrear o mundo, a casta dos Manghanyars é, pela sua arte, a ligação entre o antigo refinamento poético e musical das cortes e do mundo tradicional, rural e nómada, onde ela vive actualmente.
Estas castas, que pisaram com os seus pés tanto as pedras do deserto como as lajes de mármore dos palácios dos seus antigos mestres Rajput, fascinam por esta capacidade de ter sabido conservar a extraordinária riqueza de uma herança medieval, quando estes senhores viviam ainda nas suas cidadelas suspensas no cimo de colinas escarpadas.
A rudeza das vozes que, como o oleiro e a sua argila, modelam subtis ornamentos é, à imagem desta característica das mais ricas tradições do nosso planeta – as dessas sociedades rurais e nómadas que possuem ainda um elevado refinamento poético, vestígio de um rico passado.
Nesse paraíso poético que é o antigo país dos rájás (Rajastão : palavra em sânscrito que significa "País dos Príncipes"), país antigamente composto de pequenos reinos e dinastias de guerreiros orgulhosos, a poesia é de uma alucinante beleza. Entre sagrado e profano, Islão precário e hinduismo, esta poesia conta e descreve os deuses e deusas, emanações do mundo sobrenatural, a ausência do amante, mas também a tristeza da jovem noiva longe da sua família, as boas e más colheitas, os sonhos de chuva que virá, os nascimentos e as mortes, os bandidos e salteadores do deserto.
Uma miríade de poesias, hoje ainda, em perfeita osmose com a kamanchiya (a sanfona dos Manghaniyars) ou o sarangui (a sanfona dos Langas eleva-se sinuosa e tórrida e os versos do poeta iluminam a nossa alma « como o firmamento de estrelas na noite ».


Jag Virag Ensemble:

Conjunto Jag Virag da aldeia de Nyírmihálydi – Região de Szabolcs-Szatmár-Bereg
“Ouve, minha bonita senhorinha,
Dança para mim com doçura e graça.
Dança para mim e canta para mim,
Para que os Ciganos fiquem apaixonados!
Se danças ou te divertes até de manhã,
Os Ciganos também vão alegrar-se.
Tu danças, tu danças,
Tu bates palmas,
Para que os Ciganos se apaixonem!”
Os Ciganos chamados «Oláh » ou «Valaques», correspondem aos últimos ciganos da Europa central a se sedentarizarem nos anos cinquenta e sessenta, no final das várias vagas de emigração da Rússia, da Ucrãnia e da Roménia. Os «Roms Valaques» eram aquilo que se pode considerar como autênticos cânticos «roms» : os «loki ģili'» e «khelimashi ģili'».
Tratava-se antigamente de cânticos despojados e profundos sem acompanhamento instrumental, apenas uma bilha a servir de percussão. Actualmente, este repertório impregando de influências russa, ucraniana, búlgara e bacânica, foi reabilitado, agora acompanhado pela guitarra.
É através destes magníficos cânticos épicos, nostálgicos, desesperados ou festivos que, longe dos restaurantes e dos cabarés, os Ciganos cantavam à lareira, nos acampamentos ou nas famílias da aldeia. O povo «rom» pôde assim, durante séculos, exprimir no quotidiano o lugar onde coabitam liberdade e constrangimento.


Lobsang Chonzor:

Cânticos do tecto do mundo
« Na idade em que eu era um peixinho, não fui apanhado. Como peixe grande, apesar das nassas, ninguém me domou. ... Agora, vagabundeio no oceano imenso».
Brug-pa Kun_legs, (Século XV), poeta místico tibetano
Para além das liturgias e danças rituais budistas, existem no Tibete vários estilos profanos simultaneamente clássicos e populares.
Os « Nangma », cânticos clássicos ouvidos pelos notáveis e pelos nobres da sociedade tibetana, estão sempre muito em voga nas comunidades no exílio.
Os « Teuché », do Tibete do Oeste, esses cânticos populares ligados à dança, evocam o amor, a grandiosidade da natureza, a beleza das paisagens e prestam também homenagem aos grandes mestres religiosos.
Tshering, bardo luminoso e alegre, canta acompanhando-se ao alaúde « danyen » , com a cítara « yangqin » ou toca flauta « limbu » . Aborda também o repertório da ópera tibetana nascida no Século XV que é chamada « lha mo », o que significa « rapariga, a fada ».


Sentimento Gipsy Paganini:

Conjunto Sentimento Gipsy Paganini dirigido por Gyuszia Horváth
“Canta-me Cigana, Canta-me a tua canção
até que as cordas se partam em mil direcções”
Extrato da opereta «A Condessa Marica» de Kalman Imre.
Designa-se pelo termo «romungro», os «Roms» da Hungria sedentarizados durante as primeiras migrações do Século XV. Foram eles que alimentaram em qualidade, músicos profissionais em Budapeste e nas cidades de província, desenvolvendo uma música dita cigana. Tornaram-se mestres do repertório tradicional húngaro, como o das «palotas», «csardas» ou «verbunkos», os estilos musicais mais correntes.
Os «Romungro», mais integrados que as outras comunidades «roms», reivindicam uma verdadeira educação e no domínio musical estudaram todos, depois da queda da monarquia, nos conservatórios mais prestigiados da Hungria. A sua grande cultura musical permite-lhes assim passar, à sua maneira, do grande repertório clássico (de Litsz a Bartók,) ao ainda muito em voga actualmente, das operetas, ao mesmo tempo que interpretam um grande repertório dito «cigano» que vai da Rússia à Hungria, incluindo todas as regiões balcânicas.
As «csardas» (de «tcharda», «albergue») nasceram no Século XIX e impõem-se enquanto músicas de dança de albergue, praticadas antigamente em casal. Em conformidade com um alinhamento clássico, a «csárdás» compreende uma introdução lenta «lassú», depois uma parte ritmada «friss» ou «friska». Existem também as «csardas» próprias para diferentes instrumentos tais como o clarinete, inventadas por Janos Bihari (1764 - 1827). As «csardas» são inspiradas da «palotas», outra dança nobre muito corrente no início do Século XIX. Esta última influenciará nomeadamente Liszt nas suas Rapsódias húngaras.
No final do Século XVIII e até ao início do XIX, o «verbunkos» (no plural «verbounkoche» de «werbung», «recrutamento» em alemão) representavam estas danças masculinas improvisadas destinadas a alistar os jovens aldeãos para lutar contra o poder do império austro-húngaro. Esta iniciativa tinha por única finalidade aliciar um máximo de jovens proscritos aturdindo-os com música e vinho. Assim, os hussardos dançavam o «verbunkós» de cidade em cidade acompanhados por um ou dois violinos, um címbalo, instrumentos de sopro tais como o clarinete ou a gaita de foles (gajda).
Os Ciganos criaram, a partir desta prática, um estilo musical de pleno direito. Por extensão, esta dança espalhou-se no seio da população em geral para se tornar numa espécie de dança nacional; aliás, no início do Século XVIII, era conhecida muito simplesmente por «magyar», ou seja, «húngara». Inúmeros compositores experimentarão mais tarde este estilo, por entre os quais o famoso compositor e músico cigano Janos Bihari (1764 - 1827) que, compondo oralmente, fazia transcrever por outros a sua música.
É todo este repertório de que o conjunto se inspirará durante este concerto por intermédio das composições que fazem a ligação entre uma tradição musical local e a música clássica através da sua fama europeia, dos «verbunkos», «csardasmagyarnota», «nóta» e «hallgato», essas melodias lentas à moda em meados do Século XIX até às obras de compositores como Janos Bihari, Pista Dankóo (858 - 1903), até Frank Liszt depois Zoltan Kodaly, Bela Bartok e Laszlo Lajtha.


Shashank:

Bambu e cordas da Índia
Este encontro entre dois grandes mestres da música «carnatique» e do hindostão representa um acontecimento único.
Neste magnífico confronto, as notas de agudos exacerbados da « mohan veena» parece zombar do timbre grave e meditativo da flauta «bansuri», oferecendo uma paleta acústica de uma grande riqueza.
A flauta de bambu é o instrumento de sopro que melhor exprime o encontro entre o divino e a natureza, sacralizando, de algum modo esta última, tal como na música sufi onde o «ney» (a cana) exprime a noção de sopro divino. A imagem do Senhor Khrishna encantando as jovens pastoras «gopis» com as suas melodias voluptuosas, enfatiza esta imagem harmoniosa de uma natureza que transporta os nossos sentidos para a contemplação.
É na Austrália, em Adelaide, que com a idade de onze anos, que Shashank dá o seu primeiro concerto. Parecendo-se ainda com um jovem estudante perdido no seu mundo da lua, de flauta debaixo de um braço e o seu computador portátil debaixo do outro, Shashank entra suavemente no mundo dos grandes músicos clássicos da Índia do Sul, lá, no lugar onde se constróem as lendas.
Para Pt Vishwa Mohan Bhatt: «a música é a linguagem de Deus criada para a humanidade. Para mim, a música é o meio para falar com Deus. Cada vez que toco, adoro com o meu espírito a deusa Saraawati, símbolo do conhecimento e da sabedoria».
Pt Vishwa Mohan Bhatt, outra lenda da música indiana, é originário de Jaipur e está aliás muito próximo de Gazi khan Barna e do conjunto Divana com quem ele realizará o albúm « Desert Slide ». É o criador do «Mohan Veena». Quatro cordas para tocar e doze cordas simpáticas fazem do «Mohan Veena» uma espécie de alaúde híbrido de sonoridades havaianas. «Mohan», sinónimo de graça, é também um dos nomes atribuídos a Khrishna, ao paço que o termo «veena» se refere, em sanscrito, a todos os instrumentos de cordas.


Wang Li:

berimbaus da China e de Algures e flautas de cabaça
Wang Li retira a inspiração das suas composições das experiências da sua vida. A sua música conta, com efeito, as suas recordações de infância, as suas reflexões sobre o mundo que o rodeia e as recordações emocionantes que guarda da sua família. As cantilenas da sua infância deixaram uma marca indelével nos seus ouvidos, na sua memória. Os seus ritmos simples, tais como os batimentos do coração, põem em ressonância o Wang Li do passado e aquele que ele é actualmente. O berimbau é um dos seus instrumentos predilectos. A sua complexidade dá a Wang Li uma grande liberdade de criação. A sua sensibilidade em relação à vida anima a interpretação das suas composições, nas quais ele utiliza a língua da sua região natal.


Yom:

Jovem virtuoso do clarinete « klezmer », músico prolífico e inspirado, Yom explora os territórios da música tradicional, do jazz contemporâneo e da música electro. Muito cedo influenciado pelo toque de Naftule Brandwein (pioneiro do clarinete « klezmer » nos anos 20 em Nova Iorque), Yom rapidamente exprimiu a sua visão contemporânea da música « klezmer », em primeiro lugar no seio do Orient Express Moving Schnorers e de Klezmer Nova, depois mais particularmente no seu Duo com o pianista Denis Cuniot.
É aliás com o cumplicidade deste último que ele apresenta hoje, em quarteto, esta homenagem àquele que se auto-proclamou 'King of Klezmer Clarinet'."
O criador intérprete pontua-o de tumultos e de sonhos dominados e executados em virtuosismo.
A música « klezmer » é a que os bufões judeus «ashkénazes» levavam de festa em festa, de "shtetl" (aldeia) em gueto, em toda a Europa de Leste desde a Idade Média até às perseguições nazis e estalinistas do século XX. Ela inspira-se não apenas nos cânticos profanos e nas danças populares como na "khazanut" (liturgia judia) e nos "nigunim", essas melodias simples pelas quais os "khasidim" tentavam aproximar-se de Deus numa espécie de êxtase comunitário.
Com o contacto (recíproco) de músicos eslavos, ciganos, gregos, turcos e – mais tarde – do jazz, o « klezmer » adquiriu uma diversidade e uma sonoridade, características que lhe valem hoje ser imediatamente reconhecido e apreciado no mundo inteiro.
Desde o século XVI, foram acrescentadas palavras ao repertúrio « klezmer » instrumental, graças ao "badkhn" (mestre de cerimónias nos casamentos), ao "purimshpil" (representação de Esther para a festa de Purim) depois ao teatro yiddish».

Mais informações, aqui.

2 comentários:

Iris R. Costa Barroso disse...

Se tudo correr bem e não houver contratempos, la estarei todas as noites.

Boa semana!

António Pires disse...

Iris,

Eu dificimente irei, mas fico com pena.

Bom festival!