07 março, 2007

José Fortes - O Senhor do Som



José Fortes (à direita na foto, com o músico Júlio Pereira) é o mais importante engenheiro-de-som da música portuguesa. Com um curriculum em que entram gravações de campo com Michel Giacometti e trabalhos com José Afonso (é a José Fortes que se deve a existência do álbum «Galinhas do Mato» e já se vai perceber porquê), Fausto, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, Carlos do Carmo, Pedro Caldeira Cabral, José Peixoto... e até bandas rock como os UHF ou os Mão Morta, José Fortes é um músico sem o ser, o mestre e exemplo para muitos dos mais recentes engenheiros-de-som, como Tó Pinheiro da Silva. A entrevista que se segue foi publicada originalmente no BLITZ em Agosto de 2004, para a série «52 Personalidades da Música Portuguesa».


JOSÉ FORTES
FICHA:

José Manuel Nunes Fortes nasceu a 16 de Fevereiro de 1943. Precoce na profissão, com apenas 13 anos deixaram-no sozinho a fazer o som de uma emissão de rádio em directo e com 15 anos capta o som de um disco de poesia. E elege como marcantes para a sua vida o filme «O Caçador», de Michael Cimino, o livro «Por Quem os Sinos Dobram», de Ernest Hemingway, e como disco «Galinhas do Mato», de José Afonso, álbum em que Fortes tem uma contribuição decisiva (e não só como engenheiro-de-som, como se verá a seguir).

ENTREVISTA:

José Fortes é um veterano da captação de som em Portugal e um guru de vários dos mais recentes engenheiros-de-som portugueses (Tó Pinheiro da Silva, em entrevista a publicar nestas páginas, aponta-o como o seu grande mestre). No infindável curriculum de Fortes contam-se inúmeras gravações de gente tão diversa quanto Carlos Paredes e José Afonso ou os UHF, efectuadas ao longo de cinco décadas. Nos últimos anos tem-se dedicado fundamentalmente à gravação de música clássica, mas às vezes ainda há gente diferente que vai pedir a sua ajuda, como os Mão Morta. E não acha que o seu trabalho seja uma arte, mas sim uma técnica.

Com nove anos, José Fortes fazia de paquete nos estúdios do Porto da Emissora Nacional (actual RDP). Levava bicas ao pessoal da estação de rádio e observava o trabalho dos outros. «Entusiasmei-me com a parafernália do equipamento e os técnicos acharam graça ao puto». O «puto» Fortes começou a mexer no material, aprendeu e, com 13 anos, os técnicos mais velhos «praxaram-no» e deixaram-no sozinho a fazer o som de uma transmissão directa para a Emissora de um espectáculo no Teatro S. João, no Porto. E aos 15 anos é o responsável pela gravação de um disco de poemas de José Régio, ditos pelo próprio, para a editora Orfeu, de Arnaldo Trindade. E em seis meses grava «imensos discos» para esta editora, uma das mais corajosas independentes do pré-25 de Abril (para ela gravaram artistas como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Fausto, Sérgio Godinho...).

Nos primeiros anos de carreira, Fortes gravou muita música folclórica - «dezenas e dezenas de ranchos folclóricos, nas eiras e noutros recintos das aldeias onde se faziam as festas, com um material rudimentar, os gravadores Ampex 601» - e também conjuntos populares como o Pais e Filhos e o Conjunto Maria Albertina. Em 1962 abre um estúdio no Porto, que ainda existe, o Fortes & Rangel. Mas quando volta da tropa - em 1969 - recebe um convite para dirigir um estúdio em Lisboa, pertencente à Rádio Triunfo, onde permanece durante muitos anos. Para esta editora grava fadistas como Fernanda Maria, Carlos do Carmo, Cecília do Carmo, «dezenas deles». E da música ligeira grava Fernando Tordo - que Fortes destaca como o exemplo de um cantor que gravava tudo ao primeiro «take» -, Paulo de Carvalho, Teresa Silva Carvalho, José Calvário, Maria José Valério, Marco Paulo... «Gravei quase todos». Em alturas diversas também trabalha com Michel Giacometti, em recolhas de música tradicional. Sai da Rádio Triunfo porque «o estúdio estagnou em termos técnicos. E a política da editora era muito import-export, sem grande interesse na criação artística».

Por essa altura, 1979, Fortes pensa abandonar a actividade de engenheiro-de-som. «Pensei: vou parar, fazer outra coisa na vida. Mas ao fim de 15 dias de estar em casa aparece-me o maestro Correia Martins, que me convida para ir gravar com ele num estúdio, RPE, que estava um caos. Comecei por recusar, mas lá fui "desenrascar" o trabalho». E tanto desenrascou que ficou: o estúdio estava falido, era «um buraco» e transformou-se num desafio remodelar o estúdio e criar condições profissionais para nele fazer boas gravações. Nascia assim o Angel Studio, do qual Fortes viria a ser sócio. Em 1984, ano de nascimento do BLITZ, Fortes está de corpo e alma neste estúdio, onde grava ao longo da década de 80 mais umas boas centenas de artistas, entre grupos rock, cantores ligeiros, músicos de MPP... Com José Afonso, por exemplo, trabalha várias vezes. E é ele o responsável por haver um álbum chamado «Galinhas do Mato«, o último de originais de José Afonso (e onde participam também cantores como Luís Represas, Janita e Né Ladeiras, entre outros). Fortes conta a história: «Temas cantados pelo Zeca nesse álbum foram gravados alguns anos antes, para um álbum a editar pela Sassetti. Essas gravações acabaram por não sair na altura porque a editora se recusou a pagar uma ninharia pelas fitas. Toda a gente pensava que as fitas tinham sido apagadas, mas eu guardei-as e as gravações acabaram por aparecer no "Galinhas do Mato"», disco editado em 1985 pela Transmédia.

José Fortes é, em alguns discos, para além de engenheiro-de-som, creditado como produtor. «Há alguns amigos que me envolveram na produção ou eu envolvi-me na produção, não sei bem. Mas às vezes comecei a opinar e essa opinião começou a ser bem recebida. Mas não sou produtor nem tenho pretensões a isso». Nessa função de produtor e/ou co-produtor trabalhou com José Peixoto, Júlio Pereira e até os Mão Morta. A propósito da banda rock de Braga, Fortes diz que «eles têm uma qualidade, independentemente do estilo, que é a honestidade. Aquilo que eles são é aquilo que eles fazem. Como é que um homem como eu, mais ligado à música acústica e à música clássica, trabalha com os Mão Morta?... Porque são pessoas de boa formação e fazem um trabalho honesto. E não renego o estilo deles, pelo contrário: gosto e oiço. Eles têm um estilo ímpar neste país».

No início dos anos 90, Fortes passa alguns meses nos estúdios Valentim de Carvalho, «de passagem», quando o Angel Studio se alia à VC. Mas sai por incompatibilidades várias, «dei-me mal com aquilo». E vai para a Edipim, empresa de televisão, embora nunca perdendo o «contacto com as gravações de música acústica, principalmente na área da música clássica». Na Edipim permanece durante seis anos. Actualmente trabalha por conta própria e possui um estúdio móvel montado numa carrinha Iveco, que utiliza para gravar concertos de música clássica, a sua música preferida. «Faço gravações a preços módicos e suaves prestações mensais, orçamentos grátis e vou a casa do freguês». E acrescenta, com humor: «Sou mais camionista que técnico, talvez». Mas ele prefere assim, continuar a viajar milhares de quilómetros por ano, na sua carrinha, para gravar aqui e ali, sem estar dependente de outras pessoas. Diz: «Prefiro comer uma tigela de sopa todos os dias e não fazer fretes a comer caviar todos os dias mas não me sentir feliz». «Estive muitos anos enclausurado numa régie. E de manhã, tarde, noite, madrugada, sábados, domingos, dias santos... Isso dá uma grande saturação. E ficamos azedos... principalmente com a saturação do faz-de-conta». Um faz-de-conta que se prende com a má qualidade de alguns artistas, que cantam mal, tocam mal e contam com os técnicos para disfarçar, com as máquinas do estúdio, a sua inabilidade como cantores ou músicos. E pergunta: «o que é que isso tem de arte?».

É também por isso que, agora, só trabalha com quem lhe dá prazer estar, conviver, gravar. Entre todos os artistas com que já trabalhou, José Fortes destaca ainda Miguel Graça Moura com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, António Pinho Vargas, Pedro Caldeira Cabral ou o guitarrista José Peixoto (desde há alguns anos a trabalhar com os Madredeus). Fortes diz de Peixoto: «Deu-me imenso prazer ver crescer o José Peixoto como músico. Há muitos anos, ele fez uma sessão de estúdio, reparei nele e falei com as pessoas que ali estavam, "este gajo funciona bem, é porreiro", mas ninguém deu muita importância. Mas convidei-o para gravar as coisas dele. Fomos para o estúdio gravar fora de horas, editou e a seguir as pessoas começaram a reparar nele. E só não tem mais sucesso porque há políticas editoriais que não se compreendem. Ou então se, em vez de se chamar José Peixoto, tivesse um nome qualquer em alemão. Gravei um concerto belíssimo do Peixoto com o Mário Franco, no CCB, que tinha apenas duas dezenas de pessoas na sala».

Para Fortes, ser engenheiro-de-som não é uma arte: «Faço captação de som. E isso é pura e simplesmente técnica, não é arte. Agora, podemos é ter técnicos de melhor ou pior qualidade, de quem gostamos mais ou menos, que se adaptam melhor a este tipo de trabalho ou àquele tipo de trabalho. Pela sua formação, pela sua instrução... A gravação não tem nada a ver com arte. Mas, se gostamos de música, aí já podemos aproveitar-nos disso. Gostamos, ouvimos e aí poderemos dar nuances diferentes ao trabalho que estamos a fazer». E acrescenta: «quando fazemos o equilíbrio de um grupo, de uma orquestra, seja do que for, para que soe bem - quer em termos de dinâmica, de espaço, de qualidade - estamos a usar parâmetros técnicos, não artísticos. Já ouvi dizer que a técnica é uma arte... mas só se for ao nível do artífice, como o sapateiro que também é um artista. A captação de som é uma actividade objectiva, não é subjectiva; porque assente em leis rígidas - a acústica é matemática, a electrónica é matemática, a física é matemática. Por exemplo, se temos distorção, essa distorção é mensurável; se temos excesso de nível, também podemos medi-lo em decibéis... A apreciação do trabalho é que poderá, depois, ser subjectiva». E deixa uma «dica», algo enigmática (ou irónica), aos novos técnicos de som: «também se fazem boas gravações com bons equipamentos».

Só para terminar. De José Fortes traça Júlio Pereira, na sua página de internet, o resumo de vida quase perfeito: «Dedicou toda a sua vida a estudar a melhor maneira de gravar os sons. De gravar o som. O seu curriculum não caberia nesta página. Dele constam centenas e centenas de discos, gravações de espectáculos e concertos ao vivo e recolhas de carácter etnográfico. Sempre se disponibilizou para ajudar o músico, dando horas sem remuneração, noites sem dormir e material emprestado. E um sorriso constante que lhe vem da sua ascendência galega».

8 comentários:

Eduardo F. disse...

Bom artigo! Já é tempo de falar destes senhores que estão por trás dos discos, mas raramente são mencionados e sem os quais eles não teriam saído como saíram.

Pedro disse...

Excelente! Foi um mistério que se desvendou.

Dario Alves disse...

Finalmente vejo-te embora seja apenas numa fotografia.Muito gostava de estar contigo para relembrar o nosso tempo no Estrela D'Ouro, que não se pode nunca esquecer, mas nem sei como te encontrar. Parabéns, José Fortes por tudo quanto tens feito.Um grande abraço do Dario Alves

Anónimo disse...

Tive o prazer de recentemente ter conversado com este senhor e em 5/10 minutos de conversa aprendi muito ! Como musico tenho esperança de algum dia contar com o seu contributo

António Pires disse...

Anónimo:

Não quer identificar-se?... Sim, o José Fortes é um mestre do som, da música e da vida.

Anónimo disse...

Para quem se interessar pelo assunto, o José Fortes está este fim de semana a dar um mini-curso de cptação na Visound. mais informações na área de cursos da empresa www.visound.pt

Pedro Pinto disse...

Tive o prazer de ter sido aluno do Sr. José Fortes. É inspirador, cada pedaço de conversa com este senhor. Para além da comprovada excelência naquilo que faz, ensinou-me a não dar como certo aquilo que leio ou que me dizem e a nunca desistir de procurar as minhas verdades e métodos. Mais do que qualquer pormenor técnico, incentivou-me a ter iniciativa e a ouvir, simplesmente.
Um exemplo para todos, obrigado e até qualquer dia!

D. QUIM disse...

Fortes, ele pode disser que não é artista... mas se alguém que o é na arte de registar é ele! Pode ficar ofendido, mas só quem grava em década de 80, temas acústicos dos "Terra a Terra" com aquele timbre, só um verdadeiro génio! Bem haja pela sabedoria que emana!