25 abril, 2007

E Se... (ou O Monólogo do Censor Neste Dia de 2007)



(O Censor, vestido casualmente, entra, senta-se e liga o computador onde os seus funcionários gravaram, digamos, previamente, os ficheiros a analisar durante o longo dia de trabalho que o espera... Pormenor importante: o rato do computador é azul. Fora de cena está, presumivelmente, uma outra personagem que nunca aparece)


- Mas o que é isto? Estes Gaiteiros de Lisboa estão a gozar com o nosso folclore; só pode! Proibido.

- Uxu Kalhus? A mesma coisa (e onde é que eles foram aprender a escrever, hem?, nem devem ter a quarta classe, o que, pensando bem, nem é lá muito má ideia). Proibido.

- Uiiiiiiiiiiiiiiiii... Estes Moonspell tocam mas é coisas do Diabo... Proibido.

- E os Roncos do Diabo... Roncos do Diabo? Pois, estava-se mesmo a ver. Proibido.

- A Ruth Marlene mostra demasiado as pernas - eh, pá, são boas, mas é para arquivar - arquiva aí na letra G - é de quê?, perguntas tu, é de gajedo, porra! Proibido.

- Os GNR porque se chamam GNR (ah, e, se bem me lembro, também já fizeram pouco da Nossa Senhora). Proibido.

- O que é que a rapariga d'A Naifa, bem gira por sinal, está para aqui a cantar?... Ela está mesmo a dizer «Foder»? Proibido (mas arquiva aí a foto dela).

- E este Pedro Abrunhosa agora vem com esta dos sem-abrigo. Mas quais sem-abrigo, porra? Em Lisboa não há nenhum sem-abrigo. O quê, o gajo é do Porto? Mas no Porto também não há, porra. Huuum, e ele também já cantou algo com a palavra «foder», huuuuum, mas é homem, não é?, e isso torna o caso diferente... huuum, ou não?, deixa cá ver... Proibido.

- E como é que se chamam mesmo estes gajos? Orgasmo?... Proibido.

- Este DJ Vibe passa música que incita ao consumo de drogas. Proibido.

- The Vicious 5? Drogas. Proibido.

- Xutos & Pontapés? Mais drogas (ah, pois, e as letras). Proibido.

- Os Madredeus invocam o Santo Nome de Deus em vão. Proibido.

- Uma mulata moçambicana a cantar fado?!?... Como é que ela se chama mesmo, Mariza? Ná! Ná!! Proibido.

- O Sérgio Godinho e o José Mário Branco, deixem-nos lá estar porque lá em França é que estão bem. Proibidos, sempre.

- Linda Martini? Martini? Eh lá!!!! Então e a promoção do Vinho do Porto e do Vinho da Madeira? Proibido.

- O quê? E também há uns Smartini? Porra, que obsessão! E o nosso tintol, hem? Proibido.

- O Legendary Tiger Man mostra gajas nuas nas capas dos discos e usa calças demasiado apertadas. Arquiva aí as capas na letra que já te disse. Proibido.

- Brigada Victor Jara? Victor Jara?, eh lá, comunas!!! Proibido.

- Cindy Cat? Cindy Cat?, eh lá, comunas!!! Proibido.

- E que porra é esta de andarem a gravar canções do Zeca Afonso? Quantos são, afinal? Vejo aqui: Frei Fado d'El Rei, Erva de Cheiro, Couple Coffee, Cristina Branco, Drumming, Jacinta, Banda Futrica... Já chega, porra! Estás a dizer que ainda há mais?... Proibidos, todos proibidos.

- E em que língua é que cantam mesmo os Blasted Mechanism?... Karkoviano? Língua de Karkov? Isso não existe, pá! Isso é russo, não é? Ah, pode ser polaco? Olha lá, mas não será antes húngaro?... Ou é código?... Que se foda, vi logo que era língua de comunas... Proibido.

- The Great Lesbian Show? The Great Lesbian Show?, eh lá, isto agora pode ser interessante - junta aí à Ruth Marlene e às outras no gajedo; o quê?, há só uma gaja no grupo? Então, então, então... Proibido.

- Mas que barulheira assustadora e incompreensível vem a ser esta dos Caveira? Não têm letras? Sim, eu sei que não têm letras, foda-se! Proibido.

- Ala dos Namorados? Mas estão a gozar com a nossa História ou quê?... Proibido.

- Mão Morta?... Insurreição absoluta. Pop Dell'Arte?... Também... Todos Proibidos.

- Buraka Som Sistema, eh pá, isto lembra-me as festas em Luanda em 2003... Que saudades dos tempos da tropa, pá, até me vêm as lágrimas aos olhos. Mas na Buraca não quero isto, porra! Proibido.

- O quê? Mais pretos? Eh pá, não estou para ouvir estes discos todos, chiça, porra, tantos!!! Eles que vão fazer hip-hop e reggae e essas porras todas p'rá Holanda ou para os Estados Unidos. E que fumem ceruma e que a coca-cola lhes faça bom proveito... Proibido.

- Isto sim, isto agora é que é, um grupo chamado Dr.Salazar! Isto sim! Isto é que é! Respeito!... Mas espera lá, que merda de chinfrineira é esta?... Como é que chamam a esta merda? Rock industrial? Se é industrial, eles que vão mas é trabalhar para a CUF, a Lisnave e a Siderurgia... Eles devem é estar a gozar. Ou não?... Por via das dúvidas, proibido.

A Bem da Nação...


(Nota: a imagem incluída neste post apresenta carimbos usados pela Censura em Portugal durante o Estado Novo e foi encontrada no site Galeria Virtual da Censura. Nota 2: todos os grupos e artistas referidos existem neste momento)

17 comentários:

menina tóxica disse...

: )))))))

adorei este post!

jpinto disse...

Parabéns por este post. vale sempre a pena recordar que esses tempos foram duros, muito duros.
adenda nota 2: todos estes grupos e artistas não existiriam actualmente!

rui rebelo disse...

eram todos censurados mas os estrangeiros também. cantávamos a mouraria e dançavamos a valsa...

António Pires disse...

Menina Tóxica:

Obrigado!

JPinto:

Sim, muitos deles não existiriam de certeza...

Rui Rebelo:

Tens razão! Mas, se o que eu sei da História da Censura estiver correcto - e, claro, extrapolando para a realidade anterior a 1974, os Censores geralmente não se preocupavam muito com o que vinha de fora, principalmente se cantado em inglês - nem com o que os portugueses cantavam em inglês. Eles contavam com a ignorância, a iliteracia e o analfabetismo generalizados e não eram tão severos nessa área... E, muitas vezes, enganavam-se, claro.

jpinto disse...

Também acho que tens razão. Não esquecer a existência de programas como o "Em Órbita" ou "Dois Pontos",por onde passavam Dylan, Baez, Cohen, Kinks, Janis Ian, etc.
E, embora o panorama de concertos fosse muito pobre, ainda houve oportunidade p/ ver Searchers, Animals, Vinegar Joe, Georgie Fame,Manfred Mann e esse inesquecível "happening" que foi o concerto dos Procol Harum, cujo início, marcado para as 22h, só aconteceu às 4h da manhã, devido a uma greve dos controladores aéreos em Orly,as francesas F. Hardy e J. Gréco, sem falar nos excelentes Festivais de Jazz de Cascais por onde passaram Miles Davies, Ornette Coleman, Jean-Luc Ponty, Charlie Haden, Thelonius Monk, entre outros.Na verdade, a censura era muito mais permeável ao que se cantava em inglês. Por ter tocado no sensível e "indiscutível" tema da Guerra colonial, ao dedicar à Frelimo um dos seus números, Charlie Haden foi de imediato colocado na fronteira, logo após ter terminado o seu concerto em Cascais.

menina-alice disse...

Bela posta, António! :D:D:D A parte dos Martinis é deliciosa!

António Pires disse...

JPinto:

Sim, e ainda houve mais alguns como, assim de cabeça, o de Elton John - quando o Elton John era relevante - no mítico Vilar de Mouros de 1971... E os próprios grupos portugueses atreviam-se a cantar versões de canções inglesas cujo conteúdo, se fosse em português, não seria permitido. Essa história do Charlie Haden é verdeira e, se me permites um acrescento, os músicos de jazz que vinham a Cascais tinham que assinar um documento em que se comprometiam a não fazer intervenções de carácter político durante as suas actuações.

Menina-Alice:

Obrigado!

Preciouzzz disse...

bom.dia!!!

muito bom! delicioso! gostei!

beijos

M@rio disse...

E há ainda quem diga que o que agora faz falta é o Salazar...

Excelente post. Obrigado!

António Pires disse...

Preciouzzz:

Obrigado! E bem-vinda a esta casa!

Mário:

Continuo a acreditar que quem diz isso é apenas uma minoria insignificante. Talvez uma minoria com muito dinheiro para gastar em chamadas telefónicas, mas insignificante mesmo assim.

Dijambura disse...

Genial..adorei!
Viver Abril Sempre! Esquecer Abril Nunca! Aiii... o que seria de nós!

M@rio disse...

Eu também gostaria de acreditar. A verdade é que essa afirmação nada tem a ver com o famoso concurso...já antes ouvi muita gente a dizer que Salazar faria cá falta...e cada vez ouço mais. Por mim, quero acreditar que são desabafos feitos face a determinadas situações como a (in)segurança, mas o terreno político mundial está muito aberto à formação de novas ditaduras...ou talvez seja apenas eu a ser pessimista!

António Pires disse...

Dijambura:

Obrigado (corei, de gratidão, com o «genial», que o texto obviamente não merece...).

Mário:

Não acredito que as ditaduras tenham futuro na Europa Ocidental ou, mesmo, na antiga Europa de Leste. E mesmo nos países em que a extrema-direita cresceu nos últimos anos, o fenómeno está mais ou menos controlado: avançando um pouco mais, acho que esses partidos, nomeadamente em França e na Áustria, quase que entraram na chamada «legalidade democrática», aceitando as leis da democracia... Explicando melhor: odeio profundamente as ideias do Le Pen mas não acredito que ele algum dia conte espingardas para tentar fazer uma revolução de extrema-direita em França; em vez disso, vai a eleições.

A conversa daria pano para mangas e não é este o lugar para a ter mas, resumindo, é só para dizer que, apesar de me preocupar naturalmente com o facto de haver muita gente que diz «Isto no tempo do Salazar é que era bom» ou «Isto precisava era de um Salazar em cada esquina» (credo!!!), acredito que, confrontados a sério com essa afirmação, muitos do que o dizem voltariam atrás em poucos minutos de argumentação. Já me aconteceu com taxistas - nada contra os taxistas! - que, depois dessa conversa, me disseram: «ah, isto é só uma forma de falar» ou «ah, isto foi só para meter conversa».

Grande abraço

zé lérias disse...

Isto não é um poste, é um delicioso momento de abjuração do passado.
Cumprimento-o
Bom fim de semana

António Pires disse...

Zé Lérias:

Seja bem-vindo ao R&A! E obrigado pelas palavras...

Cumprimentos e um bom fim-de-semana!

Ana disse...

Só descobri agora este blog. Parabèns, tem muita e boa inforação!
Este post está lindo, fartei-me de rir!
Até breve :)

António Pires disse...

Ana:

Muito obrigado!! E volta sempre, mesmo aos posts mais recentes :)))