11 outubro, 2007

Manu Chao, Sergent Garcia e Yerba Buena - Som Mestiço (e Música de Intervenção, Sempre!)


Diferentes abordagens da música latino-americana ou, se se preferir, do «som mestiço» - naquilo que este conceito tem de mais global e alargado, principalmente se se olhar ao facto de ser música feita por franceses ou norte-americanos que vão à América Latina buscar a sua inspiração principal - e, nos três casos, uma necessidade de intervenção política activa, são a sugestão de hoje do Raízes e Antenas. Com álbuns de Sergent Garcia, de Manu Chao (na foto) e dos Yerba Buena.


MANU CHAO
«LA RADIOLINA»
Radio Bemba/Farol

Diga-se, logo para começar, que «La Radiolina» não tem a frescura, o brilho e a alegria de «Clandestino» ou do seu quase gémeo «Proxima Estación: Esperanza». Muitos anos passaram e Manu Chao está agora ainda mais atento às coisas do mundo, mais furioso com as políticas globais, mais centrado num activismo que o faz dar mais importância à mensagem do que às nuances musicais. É uma opção válida, generosa, solidária - e é importante que Manu Chao transmita as mensagens presentes em «Politik Kills», «Rainin In Paradize», «Mundo Révès» ou «Panik Panik» - mas a música fica a perder... Em «La Radiolina» continuam, claro, as habituais influências de Chao desde os tempos dos Mano Negra: a música latino-americana (desde o son cubano aos mariachis mexicanos...), o ska, o reggae, o punk à Clash, mas agora também com algumas aproximações ao country e ao rock FM (principalmente no tratamento dado às guitarras eléctricas) que ou não acrescentam grande coisa ao seu som ou, pura e simplesmente, o estragam por vezes. Mas não se pense que não há grandes momentos de música em «La Radiolina». Há! E o melhor de todos é, sem dúvida, o tema cheio de flamenco «Me Llaman Calle», logo seguido de «La Vida Tombola» (uma lindíssima homenagem a Maradona) e do lento e encantatório «Otro Mundo». E, apesar de ser bastante desequilibrado, «La Radiolina» é, mesmo assim, um bom álbum. (7/10)


SERGENT GARCIA
«MASCARAS»
Labels/EMI

Para os fãs de Manu Chao que ficaram desiludidos (ou semi-desiludidos) com o seu novo álbum, há uma boa solução: ouvir o último álbum de Sergent Garcia, «Mascaras», uma obra de excelentíssimo artesanato urbano, no sentido de se inspirar em variadíssimos géneros tradicionais da América Latina (dos quase óbvios salsa, cumbia, cha-cha-cha, rumba a vários estilos argentinos e mexicanos) mesclando-os com sabedoria com rock, reggae, dancehall, rap; e sem esquecer o lado da intervenção política como o fortíssimo líbelo anti-Bush «Guantanamo City». Curiosamente, Sergent Garcia (de verdadeiro nome Bruno Garcia) tem uma carreira paralela à de Manu Chao: fez parte de um grupo punk francês, os Ludwig von 88 (a letra de «Guantanamo City» é, curiosamente, de Karim Berrouka, seu ex-companheiro nesta banda), antes de começar a desenvolver, a solo, o seu conceito próprio de «salsamuffin». E em «Mascaras», o seu quinto álbum a solo, a fórmula está de tal forma apurada e personalizada que o álbum é um contínuo perfeito de música festiva, viva, hiper-orgânica, sempre dançável e com as coordenadas das várias músicas perfeitamente alinhadas num «equador» ficcional mas tão verosímil que parece verdadeiro. Oiça-se, por exemplo, o irresistível «Me Voy Pa' La Cumbia», e veja-se como já não há barreiras entre variadíssimos géneros musicais. E ainda bem. (9/10)


YERBA BUENA
«FOLLOW ME»
Fun Machine/Wrasse Records

Numa linha paralela à de Manu Chao e de Sergent Garcia - embora com um local de origem geográfica diferente - os Yerba Buena são uma invenção do produtor Andres Levin, que a partir da sua base em Nova Iorque partem para o mundo, em busca de géneros - essencialmente latino-americanos como a guajira, a cumbia, a soca, o boogaloo, a música brasileira (o próprio Levin nasceu no Brasil)... - que possam ser vestidos depois com doses reforçadas de funk, soul, hip-hop, afro-beat ou até flamenco... «Follow Me», este álbum de que se fala aqui, é a primeira edição dos Yerba Buena no mercado europeu e reúne muitos temas anteriormente editados nos álbuns «President Alien» (de 2003) e «Island Life» (de 2005) e, apesar de ter alguns momentos em que se sente bastante o «peso» dos efeitos de estúdio, há outros - bastantes, mesmo assim! - em que se assiste a uma música bastante coerente, divertida, dançável e em que a ideia de fusão está muitíssimo bem conseguida. Ah, sem esquecer - outro traço comum a estes três álbuns, para além da música latino-americana - a intervenção política no irónico «Bla Bla Bla», que inclui samples da voz de Bush. E, pormenor também não dispiciendo, o álbum inclui ainda algumas colaborações de luxo como, entre outros, Carlinhos Brown, o mítico Joe Bataan, Orishas, Diego «El Cigala», Célia Cruz, Les Nubians e... os Gogol Bordello. (7/10)

3 comentários:

laura disse...

Ai o que eu pulei ao som de Manu Chao em Vilar de Mouros há uns anos... :))

António Pires disse...

Olá Laura!

Não vi o Manu Chao em Vilar de Mouros nem este ano no Sudoeste, mas vi-o num concerto em Belém há alguns anos e também pulei que nem um louco!!! Curiosamente, e mais uma coisa a unir estes três nomes: todos actuaram este Verão em Portugal (Manu Chao no Sudoeste; Sergent Garcia e Yerba Buena no MED de Loulé).

Beijos :)

Jean-Louis Colbert disse...

Manu Chao est le meilleur musicien du moment... Vive la Révolution! Ici et ailleurs... Nice blog, Raizes e Antennas!!!