06 dezembro, 2007

Hazmat Modine, Bob Brozman e Colombiafrica - (Im)puras Misturas


Os leitores regulares do Raízes e Antenas já se devem ter apercebido que na secção de críticas de discos procuro sempre que haja um fio condutor, um universo comum qualquer, que os una e que, por isso, faça sentido falar de dois, três ou quatro discos diferentes num mesmo texto. Desta vez, essa regra foi mais ou menos quebrada: porque não há nada de aparentemente parecido (que raio de frase!) entre estes discos destes três nomes - Hazmat Modine (na foto), Bob Brozman e Colombiafrica-The Mystic Orchestra - a não ser, a não ser... que qualquer deles é dificílimo de colocar numa gaveta qualquer juntamente com uns quaisquer outros discos. O que, paradoxalmente, acaba por fazer algum sentido tê-los a todos aqui reunidos...


HAZMAT MODINE
«BAHAMUT»
Jaro Medien GmBH/Harmonia Mundi

O álbum começa com uma harmónica visceralmente blues a dar o mote para um reggae fumegante que acaba por fazer lembrar, tudo, em conjunto, o «Summertime», mas como se o «Summertime» tivesse nascido numa intersecção onírica qualquer entre Nova Orleães e Kingston. E o envolvimento é mágico: ao lado da harmónica há tubas, guitarras, uma claviola, bateria... e outra harmónica. E «Bahamut» continua com um tema de bluegrass, primitivo, lindíssimo, em que às músicas mais antigas da América do Norte se junta o canto gutural dos Huun-Huur-Tu, de Tuva (e sim, o resultado é a banda-sonora de um western por rodar em que cowboys ianques fazem música em conjunto com os índios norte-americanos, primos dos povos siberianos). E depois há um filme só aparentemente mudo em que se comunica através de sinais sonoros, cifras, palavras mágicas, ao ritmo de um swing irresistível. E isto tudo, em conjunto, é só uma pequena amostra do que são os Hazmat Modine, grupo nova-iorquino que soa a... nada que tenha soado até agora. Está lá quase toda a história da música dos Estados Unidos, principalmente a música negra, mas estão lá também lanças cravadas em muitos outros lugares do mundo: de Tuva à Jamaica, de África aos Balcãs (cf. no cimbalom mágico de «Ugly Rug») e à China (eles atrevem-se a tocar um sheng, o instrumento chinês que deu origem aos órgãos...). E o que mais espanta nisto tudo é que este «Bahamut» é o primeiro álbum do grupo! Um álbum para ouvir vezes sem conta e que deixa a vontade, em salivação contínua, de que os Hazmat Modine venham cá tocar um dia. (9/10)


BOB BROZMAN ORCHESTRA
«LUMIÈRE»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

Outra surpresa magnífica: o igualmente nova-iorquino Bob Brozman - ele que é um reconhecido génio da slide-guitar e já colaborou com músicos da Ilha da Reunião, do Japão, da Guiné, da Índia (o maravilhoso Debashish Bhattacharya), do Havai... em busca de uma música comum a muitos povos diferentes - atreve-se em «Lumière» a tocar todos os instrumentos de cordas deste álbum, mais de duas dezenas (e se se olhar com atenção para a capa do álbum ver-se-ão inúmeros clones de Brozman, isto é, a sua-muito-sua «orchestra»). Instrumentos de cordas que vão desde a sua slide National a cavaquinho, kantele, gandharvi, alaúde, charango, baglama... numa profusão de timbres e de misturas irresistível. E a música acompanha esta busca quase de coleccionador fanático de instrumentos de todo o mundo (porque, para além das cordas, ainda há inúmeras percussões, tocadas por Brozman ou por Daniel Thomas). Uma música que é uma viagem imaginária por variadíssimos locais do planeta, uma viagem em que ora estamos no México ora na Índia, ora nas Caraíbas ora na Argentina, ora num acampamento cigano em que Django Reinhardt acabou de ressuscitar ora no meio de um luau com dançarinas semi-nuas a distribuir colares feitos de flores ora nas margens do Mississippi a beber aguardente de cana com Robert Johnson. Como se o antigo conceito de música «exotica» voltasse a fazer sentido algumas dezenas de anos depois, mas com um acrescento de verdade, de alegria, de humor e de paixão que a música «exotica» não tinha na sua origem. Há momentos deste álbum que são tão encantatórios que nos fazem desejar que houvesse mil Bob Brozmans diferentes. E, pelos vistos, até há! (9/10)


COLOMBIAFRICA - THE MYSTIC ORCHESTRA
«VOODOO LOVE INNA CHAMPETA-LAND»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

Há poucas semanas falou-se neste blog de «Made In Dakar», o novo álbum da Orchestra Baobab, e de como a música cubana - num movimento de retorno às origens - iluminava a música «naturalmente» africana desta banda sediada no Senegal. E ouvir-se agora «Voodoo Love Inna Champeta-Land», da Colombiafrica-The Mystic Orchestra, é um «upgrade» natural dessa ideia. O álbum dos Colombiafrica é um disco extraordinário em que músicas dos dois lados do Atlântico - a champeta colombiana, a cumbia, o calipso ou a salsa cubana mas também a soul e o funk norte-americanos convivem com músicas africanas (estas também já contaminadas por ritmos «modernos» americanos) como o afro-beat, os soukous, o highlife do Gana, a mbaqanga sul-africana... numa mistura excitantíssima, variadíassima e interminável de ritmos e vozes e instrumentos. Se se quiser exagerar um bocadinho, dir-se-ia que isto são contaminações de contaminações de contaminações intermináveis, mas que isso é muito bom: ouve-se este álbum e é impossível deixar de dançar ou estalar os dedos ou querer estar num sítio qualquer que não aqui (um sítio que, na realidade, não existe!). O projecto Colombiafrica foi criado pelo colombiano Lucas Silva, que reuniu vedetas locais da champeta como Viviano Torres, Luis Towers e Justo Valdez com nomes incontornáveis da música africana como os históricos guitarristas Diblo Dibala, Caien Madoka, Dally Kimoko, Rigo Star e Sékou Diabaté (este dos Bembeya Jazz) ou o cantor Nyboma (dos Kékélé, outro grupo que faz sempre a ponte entre África e a América Latina). E, o mais importante de tudo, este é um álbum que é uma festa - uma linda festa feita de irmãos distantes mas afinal tão próximos - do princípio ao fim. (9/10)

6 comentários:

Eduardo Jai disse...

É sempre um prazer ler os teus posts e sentir a tua paixão pela música.

Apesar das etiquetas - sempre necessárias para uma catalogação extensa e variada de abordagens e para que o visitante não se perca ou possa absorver a informação que mais lhe interessa - o que sempre sobressai e que me faz leitor assíduo é a sensação de que para ti (como para mim) a Música não têm etiquetas.

Um blog paradoxo? Não. Um dos melhores espaços sobre música que conheço. E conheço muitos.

Pronto, foi o que me deu para comentar sobre este teu último post.

Ah! Destes todos só conheço o Bob Brozman e precisamente por algumas das suas "aproximações" a alguma boa música indiana, como é o caso do Debashish Bhattacharya que já tive o prazer de ouvir ao vivo e quase por acaso.

Uma noite boa e bons sons.

Abraço.

António Pires disse...

Eduardo:

Muito, muitíssimo obrigado pelo que dizes sobre mim e sobre este blog!!! E sim, a paixão pela música é o que me motiva a escrever, a insistir, a tentar passar ideias e informações e (alguns) delírios sobre as músicas de que gosto e de que, felizmente e cada vez mais, cada vez mais gente gosta!... E também já vi o Bhattacharya num maravilhoso concerto no SET de Aveiro... Mas espero que também venham cá os Hazmat Modine e o Bob Brozman (como é que ele conseguirá fazer aquilo tudo... ao vivo???), sabendo - ou desconfiando - que o Colombiafrica dificilmente será apresentado desta maneira em espectáculo... Mas nunca se sabe!

Um grande abraço...

MGB disse...

Fiz o percurso Raízes&Antenas-Hazmat Modine (texto e imagem)-You Tube-Hazmat Modine (vídeo)Raízes&Antenas(texto e imagem)-caixa de comentários. Uma descoberta assombrosa!!

:)))

António Pires disse...

MGB:

:))) E, tanto quanto eu sei, o disco já está à venda em Portugal. Vale mesmo a pena!

Beijos...

isabel victor disse...

E no caderno ...

Brassens/Kristo Numpuby

africamente em simbiose.


(as insuspeitas "cimeiras" da arte !



Bj*

António Pires disse...

Isabel Victor:

Sim, insuspeitas e sempre mais verdadeiras e... sem compromissos :)

*Beijos*