02 julho, 2008

Med de Loulé - Um Festival Cada Vez Mais Interactivo


Uma nota prévia: os meus dois computadores, coitados, estão há muito tempo semi-mortos, em estado de coma ou naquele limiar de luz em que os doentes terminais pensam estar a rever os parentes há muito falecidos. E este texto, coitado, está a sair assim, boião de soro aqui, injecção de morfina ali, extrema-unção acolá. Mas, se este computador que estou a usar agora que e ainda resiste à força de algálias e cadeira de rodas... morrer mesmo durante este texto terá cumprido a sua função: um pequeno texto sobre o Festival Med, que - ao contrário dos meus computadores - está cada vez mais vivo, activo e interactivo. Uma interacção admirável entre o espaço (acolhedor, caseiro, branco, quente...) e as pessoas que o ocupam, os actores e os visitantes do festival (o Cupido que distribui amor com um sorriso, o carteiro das «love letters» personalizadas, as duas bruxinhas deliciosas...), os artesãos e os compradores (ali é possível comprar, por exemplo, didgeridoos, qarqabas ou bilhas musicais e... aprender na hora a tocá-los), os músicos e a assistência. E aqui era possível dar variadíssimos exemplos de interactividade mas ficamo-nos por apenas dois ou três: a simpatia e encanto do enormíssimo Solomon Burke que, do alto do seu trono real, junta muita gente do público à sua volta, no palco, e depois oferta rosas vermelhas às senhoras; o fabuloso quadro pintado durante o ainda mais fabuloso concerto - o melhor de todo o festival! - de Muchachito Bombo Infierno (o quadro está na foto em cima; de Mira/Câmara Municipal de Loulé), que é logo a seguir vendido por 600 euros; a comunhão entre o palco e a «plateia» durante o concerto de Jimmy Cliff, um concerto em que as boas vibrações passavam rapidamente da audição para o olfacto e vice-versa.

Música, e muito boa, houve ainda mais: a surpresa que foi La Shica ao vivo (mais verdadeira e orgânica que em disco); a festa interminável, irresistível e inteligentíssima dos Balkan Beat Box; a continuação de festa com o jazz manouche, swing e charleston com pinceladas electro dos Caravan Palace; o som mestiço de Roy Paci & Aretuska (ele um incrivelmente bom trompetista e nada mau a cantar em italiano e espanhol); os cada vez melhores a dominar o palco e a apelar ao coro e ao riso Deolinda; a pop inteligentíssima e elegante dos Zita Swoon; o concerto - mais uma vez lindíssimo, tocante e meigo - de Amadou & Mariam; muitas músicas globais postas ao serviço de uma mensagem de paz em The Idan Raichel Project; e a voz maravilhosa e sofrida de Concha Buika (num concerto em que o flamenco vai a África e ao jazz). Menos conseguidas, nos palcos principais, foram as prestações de Ana Moura (apesar da qualidade da voz e da excelência do alinhamento, Ana Moura continua a ser mais cantora que... fadista), dos Café Tacuba (que têm, sente-se infelizmente agora, mais passado que futuro) e Les Tambours du Bronx (que, embora sejam realmente espectaculares e sonoramente rimbombantes, devem quase tudo aos Test Dept e aos Einsturzende Neubauten do início). Mais uma nota: não vi os Zuco 103 (por muita gente apontados como os autores de um dos melhores concertos do festival), concentrado que estava numa sessão de DJ para a qual fui convidado à última hora, substituindo a minha amiga Raquel Bulha (as melhoras, Raquel!).

Nos palcos secundários, o destaque vai para os INP.A.C.TO (com uma proposta musical interessantíssima, apesar de as vozes terem que ser mais trabalhadas), os Batukalgarve (marimbas e outras percussões ao serviço de standards de jazz, temas clássicos e músicas de bandas-sonoras, sempre com o divertimento na mira), os Velha Gaiteira (que estão a chegar ao nível dos «primos» Roncos do Diabo), Freddy Locks e The Most Wanted (tanto ele como eles com um reggae aberto a muitas outras músicas e duas propostas que devem ser seguidas com imensa atenção). Uma nota final e derradeira: o festival Med foi, mais uma vez, muitíssimo bom e será recordado por todos quantos lá estiveram. Há mais gente, mais música, mais coisas a acontecer. E isso é bom!! Mas já não é assim tão bom quando, como na noite de sábado, se deixou entrar no recinto muito mais gente do que aquela que o recinto comporta de uma forma fluida, organizada e saudável. É a única nota a rever.

12 comentários:

Pedro disse...

grande festival, de facto! andei por Loulé nas noites de sábado e domingo, foi pena não te ter visto por lá.

abraços,
Pedro

António Pires disse...

Pedro:

Foi, sim senhor!! Agora, desculpa mas que Pedro és tu? Não consigo aceder ao teu perfil.

Um abraço...

Pedro disse...

o Matos, pá!

António Pires disse...

Oh Pedro,

Então estiveste em Loulé e não disseste nada? Mau!! Para a próxima vê lá se apitas, sim??

Um grande abraço...

Crix disse...

Acho que não chegamos a comentar o concerto de Amadou & Mariam, mas lamento António, este concerto não conseguiu desfazer a minha impressão acerca deles.... A minha opinião, lembraste? Pois é, continua a mesma!
De resto, no campo musical, meu amigo, não podia concordar mais contigo!
Só queria fazer um apontamento para a actuação das Moçoilas que, de tão boa e interessante pareceu curta. Não sei se te esqueceste delas ou se o computador entrou em coma profundo, entretanto ;)
Beeeijos

António Pires disse...

Olá Cristina!

Oh, e a minha continua a mesma ;) ;) Eu adoro-os, como sabes!! Quanto às Moçoilas - não vi o concerto delas tempo suficiente para poder emitir uma opinião, o mesmo se passando com os Semente (gostei imenso do pouco que vi mas tive que ir para os outros palcos a seguir :(( E o meu portátil está a aguentar-se agora - estou a tentar não me mexer muito para que o cabo de alimentação de electricidade não caia mais uma vez e isto desligue logo sozinho (pois, a bateria também está marada!).

Beijos...

Crix disse...

1º que tudo, grande gaffe... Esqueci-me de comentar a grande actuação do Dj, autor deste blog... Um sucesso (e sim, é a verdade, não é para agradar a ninguém), poderia ter sido um sucesso ainda maior se não tivesse sido exactamente ao mesmo tempo do concerto de Zuco 103. Mas não deixas de estar de parabéns, eram poucos mas bons! .... ao ponto de semearem brincos e tudo ;D
agora a segunda gaffe - não tão grave - em relação ao comentário anterior.... "lembras-te" e não "lembraste" :s
Bjs

António Pires disse...

Cristina:

Não me faças corar :)) Só dizes isso porque és minha amiga, eu sei!!! Mas o brinco perdido durante as danças teve mesmo graça, lá isso teve :)))

Beijos...

Chá de Lucia Lima disse...

Antº.....acho k os PCs avariaram todos! Tbm estou sem pc. Estou na biblioteca local e aproveitei para dar 1 olhinho aki...e perguntar, onde foi k o meu amigo se meteu, k não o vi mais?!!! Eu estive lá os dias todos! Verdade, verdade...?, quem me encantou mais foi mesmo a Buika!

Bj.....e 1 kandando! :))

António Pires disse...

Lúcia Lima:

Pois, acho que os PCs não aguentam tanto calor :((

E eu andei por lá os dias todos, claro!!! Mas, no meio de tanta gente, foi fácil desencontrar-nos... E adorei a Concha Buika - há tanta verdade no canto dele que dói só de ver e ouvir...

Beijos** e ((kandandus))

catarinia disse...

Oh... Quase que me cai uma lagrimita! Texto delicioso, como de costume - quase que me levou lá, quase que sinto o calor e o cheiro e o ambiente.

Eu acho que desenvolvi uma relação especial com o MED e este ano foi o primeiro em que não estive lá - perdi-o por uma semana. Não quis nem ver o cartaz, não fosse depois não querer vir-me embora. Soubera eu que lá ia estar a Concha Buika...

Muito obrigada António, por mais esta viagem! =)

António Pires disse...

Catarinia:

Muito obrigado eu, mais uma vez (e um ano depois :), pelas tuas palavras!! E sim, a Concha Buika deu um concerto lindíssimo!! Não te preocupes: ela virá cá mais vezes, de certeza!

Beijos e bom trabalho lá pelas Highlands, onde as gaitas soam afinadas e o scotch é mais puro :))