29 junho, 2009

Med de Loulé - Rokia N'Roll!


Ainda mal refeito de mais cinco dias no Med de Loulé, as primeiras memórias fotográficas que me saltam aos olhos (às meninges?) nem são musicais: são, primeiro que tudo, os amigos - os de Lisboa e de outros lugares (Aveiro, Porto, Algarve, Alentejo...), uns que vou vendo durante o ano, outros que só encontro ali... E, depois, relâmpagos fugazes que me mostram um piano coberto a crochet ao lado de uma tarântula de pano e lantejoulas e coração de plástico negro; uma menina feliz de tranças loiras, com margaridas e purpurina a darem ainda mais brilho ao seu cabelo; uma «sevilhana» de óculos de fundo de garrafa que desmaia à minha frente; a tribal e magnificamente bem coreografada dança do fogo dos Satori; um rapazinho que regateia o preço do djembé - «são 70 euros?», «75!», «70», «75!»...; o reencontro com a Alandra, a cadela mais bonita do mundo a seguir à minha, claro; ou as imperiais e as sopas de tomate e as sardinhas albardadas que nos são servidas à hora da ceia, por pura simpatia...

E, a música... Sem ordem cronológica aparente (nem outra, sequer), mas com uma ordem que vem da ordem do coração: Rokia Traoré, em mais um fabuloso concerto afro-rock, mais conciso mas nem por isso menos intenso, que passou por temas do último álbum - exemplos: as maravilhosas «Zen» e «Kounandi» ou a versão de «The Man I Love» - e seguiu até ao habitual encore final de homenagem aos seus heróis, desta vez com a «Mama Africa» Miriam Makeba ao lado de apontamentos de temas do recém-falecido Michael Jackson. Os Moriarty e a sua (aliteração!) arte, a arte de saber transformar uma simples sequência de três canções - as versões de «Enjoy The Silence» (Depeche Mode), «Chocolate Jesus» (Tom Waits) e o seu original «Jimmy» - em algo tão valioso quanto um concerto inteiro. Os meus queridos (todos eles!) Mu e as suas músicas europeias transmutadas numa celebração das músicas de todo o mundo e, raios, com muito rock lá dentro, também. O mesmo rock que assombrou, e ainda bem!, outros momentos do Med deste ano: os Led Zeppelin em versão África mandinga - e tudo isto é elogioso - de Justin Adams e Juldeh Camara (aquele riti, espécie de njarka/espécie de violino de uma corda só é arrepiante de belo) ou os tangófilos e tangófonos Bajofondo de um oscarizado de Hollywood, Gustavo Santaolalla, a guitarrar alegremente na sua banda ao lado de outros génios do violino e bandoneón; ou um dos maiores ícones da bateria rock, o agente Stewart Copeland (ele o autor de um dos álbuns fundadores da world music, o fabuloso «The Rhythmatist»), a partilhar tarantelas e pizzicas italianas e rebemtikas gregas com um grupo onde, felizmente, o Sting não está mas onde o Andy Summers nem destoaria. E, só para destoar, onde também se esperava algum rock infectado pela world (ou vice-versa), ele não apareceu: o Med fechou com o acordeonista Kimmo Pohjonen e, dando uma volta muito bem-vinda ao seu som, neste concerto não houve rock progressivo nem electrónicas nem experimentalismos já gastos mas, sim, momentos de uma beleza imensa que devem mais a Philip Glass ou a Debussy do que a qualquer dos géneros já visitados por este visionário finlandês.

Outros momentos bons de recordar: Camané, as suas sílabas e o seu trio/caixinha de música maravilha. Os cada vez melhores Diabo a Sete e a sua reinvenção júliopereiriana (mas não só!) de uma música nossa, portuguesa. A, igualmente, reinvenção de outros temas nacionais pela cantora Filipa Pais com o bandolinista Edu Miranda. Os Ojos de Brujo e uma festa cada vez mais global, dançante, profissional. O vozeirão de Ricardo Ribeiro - apesar de não tão vozeirão quanto nos seus fados mas em bonita pose Nusrat Fateh Ali Khan - ao lado de Rabih Abou-Khalil. O à-vontade. domínio de palco e beleza astral de Lura, num dos mais quentes concertos do Med. Um calor que se estendeu ao fabuloso DJ set travestido, mas com muita pinta!, de concerto protagonizado por DJ Click (na foto; cortesia Câmara Municipal de Loulé) mais os seus músicos ciganos e judeus e as suas bailarinas e/ou cantoras. Ou os surpreendentes Ramudah, uma banda lisboeta de jazz ambiental (e com caixa-de-ritmos!) que soa muito melhor que parece esta descrição.

Momentos fracos? Também os houve, claro: a Orquesta Buena Vista Social Club, e apesar da marca registada que acompanha o seu nome, é apenas um eco pálido e esbatido da banda original reunida por Ry Cooder e Juan de Marcos González. E Pitingo, actualmente uma das maiores vedetas da música espanhola, é afinal um rapazinho birrento e, pior!, tem uma versão de uma das mais peganhentas e irritantes músicas de sempre: «Mamy Blue». Mas não chegou para estragar um festival que esteve quase sempre cheio de gente. E de gente feliz.

7 comentários:

laura disse...

"uma «sevilhana» de óculos de fundo de garrafa que desmaia à minha frente"
LOL, parece-me bem :)))

Inveja, inveja, é tudo o que posso dizer. Venha Sines!

Anónimo disse...

boa camarada antónio! já tinha saudades destas tuas crónicas. abraço. carlos s

António Pires disse...

Laura:

Pois, eu ainda pensei chamar o 112 mas depois percebi que era teatro :))) E venha Sines, claro!

Carlos S:

Falai em Sines :)

Obrigado!!

Um grande abraço Almirante, e até lá...

Anónimo disse...

Os Créditos fotográficos são para serem usados. Não é usurpar as fotos do site sem mencionar os direitos do autor ou da instituição. Vou notificar o Autor desta fotografia para o sucedido.

António Pires disse...

Caro Anónimo,

Se reparar bem, devo ter um dos poucos blogs da net que se preocupa em assinar as fotos apresentadas em cada post (quando essa identificação é necessária e quando não se tratam de fotos promocionais dos artistas e grupos apresentados).

Portanto, a sua ameaça - ainda por cima anónima, já que não teve a hombridade de se identificar - falhou o alvo completamente! Esta foto foi-me enviada pela Pure Ativism, empresa de comunicação que trabalha com o Med de Loulé, e sem a indicação de autor, pelo que presumo que seja de um fotógrafo PAGO pelo festival para fazer este trabalho, prescindindo assim dos créditos. Não a fui buscar a qualquer site (de que site é que está a falar?). Se, por acaso, conhecer o autor da foto - e, pelo que diz, conhece - e se me indicar o seu nome, terei o maior prazer em assiná-la. Mas, se quiser ser justo - e não acintoso, provocador e mal-educado («usurpar»???, que é lá isso???) como foi na mensagem -, pergunte a quem de direito a quem pertencem os direitos da foto. Já agora, quando fala de «Instituição», está a referir-se à CML? Leia lá o post outra vez e veja se não está lá a frase «cortesia Câmara Municipal de Loulé»?

Fico à espera da sua resposta, Anónimo...

cronicasdaterra disse...

Camarada, este ano andava tão stressado que nem vi a Alandra. Mas por acaso reparei que estava lá o técnico italiano, dono dela. E a Alandra também andava este ano com uma acreditação na coleira? essa acreditação tinha fotografia? :) abraço

António Pires disse...

Camarada Luís,

Eu sei! A Alandra não esteve lá todos os dias. Mas quando a vi tinha acreditação, pois! Mas sem foto e só com o nome dela (já não tinha escrito «light designer).

Grande abraço!