
Uma nova fornada de discos portugueses ocupa hoje o - agora recuperado depois de uma intensa época de festivais - espaço de «crítica» discográfica do Raízes e Antenas: o novo álbum de Júlio Pereira e os álbuns de estreia dos Diabo a Sete (na foto; de Santos Simões) e do Stockholm Lisboa Project. Todos a porem a música portuguesa - de raízes variadas - em diálogo com outras músicas.
JÚLIO PEREIRA
«GEOGRAFIAS»
Som Livre/Valentim de Carvalho
Júlio Pereira é um dos mais importantes músicos e compositores portugueses dos últimos trinta anos. Começando a sua carreira em grupos rock dos anos 60 e princípios de 70, torna-se depois presença constante nas gravações de alguns dos nomes incontornáveis da música popular portuguesa (José Afonso, Fausto...) e assina, já nos anos 80, um álbum genial de nome «Cavaquinho», em que recupera esse instrumento «perdido» do nosso património e para ele inventa (ou reinventa, através de versões pessoalíssimas de temas tradicionais) um novo lugar na hierarquia dos cordofones portugueses. E o mesmo faz com o bandolim no álbum «O Meu Bandolim». Bandolim que - muitos discos depois e uma fama que existe mais junto dos seus colegas de ofício, em Portugal e na Galiza, do que junto do grande público - é o instrumento central do seu novo álbum, «Geografias», mas com uma novidade absoluta na carreira de Júlio Pereira: neste álbum, Júlio Pereira - que geralmente grava quase todos os instrumentos dos seus discos - partilhou a gravação com outros dois músicos em permanência, Bernardo Couto (em guitarra portuguesa) e Miguel Veras (em viola acústica), e, a espaços, com Quico Serrano (sintetizadores e percussões) e três cantoras - Sara Tavares, Marisa Pinto e Isabel Dias - que no álbum têm a função mais de «instrumentistas da voz» do que propriamente de «vocalistas». E o álbum mostra, para além de um leque de soluções harmónicas muito mais aberto do que é normal nos discos de Pereira, uma música mais orgânica, mais verdadeira (de banda!) e - mercê de composições de Júlio Pereira especialmente inspiradas - a viajar entre a música portuguesa (seja o fado ou a música tradicional rural) e a música de outros lugares: o Magrebe, a África negra, o Brasil, o País Basco... E há no álbum uma luz, uma alegria e uma vivacidade que há muito não se ouviam em Júlio Pereira. É tudo bom? Não, há aqui e ali uns pós de sintetizadores - ora pomposos, ora apenas deslocados - que não faziam falta nenhuma. Mas não chegam para estragar o conjunto. (8/10)DIABO A SETE
«PARAINFERNÁLIA»
Açor/Megamúsica
É uma coincidência feliz falar do (lindíssimo!, diga-se desde já) álbum de estreia dos Diabo a Sete a seguir ao novo álbum de Júlio Pereira. E é-o porque Pereira é, sem dúvida, uma influência decisiva na música deste grupo de Coimbra: tanto no uso dos cordofones como na sua abordagem à música tradicional portuguesa e na sua abertura a outras músicas. Mas essa influência, se bem que importante, é apenas um dos elementos da música feita pelos Diabo a Sete. Partindo muitas vezes do cancioneiro popular (Madeira, Trás-os-Montes, Alentejo, Algarve...) mas aventurando-se também em muitos temas originais mas de inspiração tradicional - quase todos de Pedro Damasceno (o homem dos cordofones e da concertina) -, os Diabo a Sete seguem depois por inúmeros caminhos que tanto os levam ao rock como ao reggae como à chamada «música celta» como às «danças europeias», mas sempre com um bom-gosto, uma leveza, uma facilidade (no bom sentido da palavra, isto é, no sentido de «naturalidade») e uma beleza genuínos. Peças fundamentais no som do grupo são, para além dos instrumentos tocados por Damasceno, a voz e a sanfona de Julieta Silva (ela também dos Chuchurumel), a gaita-de-foles de Celso Bento e uma secção rítmica rara neste tipo de projectos: o baixo eléctrico de Eduardo Murta e a bateria de Miguel Cardina, que se remetem quase sempre a uma posição discreta mas fundamental para a coesão do resultado final. E se não destaco aqui um ou outro tema, a razão é simples: porque este é um álbum para ouvir do princípio ao fim, sem pontos mortos ou temas menos interessantes. Um álbum importante. (8/10)STOCKHOLM LISBOA PROJECT
«SOL»
Nomis Muzik
Aventura interessantíssima - se bem que resulte muito melhor na prática do que na teoria, e já vamos a essa questão -, o Stockholm Lisboa Project é essencialmente o projecto de um grupo de músicos amigos de dois países separados por milhares de quilómetros de distância: os portugueses Luís Peixoto (também dos Dazkarieh; em bandolim e bouzouki) e Sérgio Crisóstomo (ex-At-Tambur; em violino) e o sueco Simon Stalspets (em bandola e harmónica), aos quais se juntou numa fase posterior a fadista Liana. Do gosto comum em fazer música passou-se para a procura, não sistemática, de possíveis e eventuais pontos em comum entre a música portuguesa e a música sueca, de que são exemplos neste disco o original, mas com cheiro a corridinho algarvio, «Sol de Janeiro» com uma polska tradicional escandinava, ou exemplo ainda mais feliz, o «Fado do Ribatejo» com uma valsa, a «Hopers Vals». Mas são «filhos» quase únicos desta tentativa de ligação entre músicas tão distantes. E nisso, a «teoria» falha. Mas, agora a parte boa: se ouvirmos o álbum sem pensarmos nesta questão formal, se o ouvirmos pelo simples prazer de ouvir música, e boa música!, o álbum resulta espantosamente bem, com os instrumentos - e as músicas que eles transportam, sejam lá de onde for - a encaixarem-se na perfeição e a voz de Liana (muito boa cantora!), quando aparece e seja em fados ou não, a coroar com distinção esta música viva e solarenga, mesmo que por vezes melancólica. A propósito: «sol» quer dizer o mesmo em português e em sueco. (7/10)










































