26 setembro, 2007

Júlio Pereira, Diabo a Sete e Stockholm Lisboa Project - As Viagens da Música Portuguesa


Uma nova fornada de discos portugueses ocupa hoje o - agora recuperado depois de uma intensa época de festivais - espaço de «crítica» discográfica do Raízes e Antenas: o novo álbum de Júlio Pereira e os álbuns de estreia dos Diabo a Sete (na foto; de Santos Simões) e do Stockholm Lisboa Project. Todos a porem a música portuguesa - de raízes variadas - em diálogo com outras músicas.


JÚLIO PEREIRA
«GEOGRAFIAS»
Som Livre/Valentim de Carvalho

Júlio Pereira é um dos mais importantes músicos e compositores portugueses dos últimos trinta anos. Começando a sua carreira em grupos rock dos anos 60 e princípios de 70, torna-se depois presença constante nas gravações de alguns dos nomes incontornáveis da música popular portuguesa (José Afonso, Fausto...) e assina, já nos anos 80, um álbum genial de nome «Cavaquinho», em que recupera esse instrumento «perdido» do nosso património e para ele inventa (ou reinventa, através de versões pessoalíssimas de temas tradicionais) um novo lugar na hierarquia dos cordofones portugueses. E o mesmo faz com o bandolim no álbum «O Meu Bandolim». Bandolim que - muitos discos depois e uma fama que existe mais junto dos seus colegas de ofício, em Portugal e na Galiza, do que junto do grande público - é o instrumento central do seu novo álbum, «Geografias», mas com uma novidade absoluta na carreira de Júlio Pereira: neste álbum, Júlio Pereira - que geralmente grava quase todos os instrumentos dos seus discos - partilhou a gravação com outros dois músicos em permanência, Bernardo Couto (em guitarra portuguesa) e Miguel Veras (em viola acústica), e, a espaços, com Quico Serrano (sintetizadores e percussões) e três cantoras - Sara Tavares, Marisa Pinto e Isabel Dias - que no álbum têm a função mais de «instrumentistas da voz» do que propriamente de «vocalistas». E o álbum mostra, para além de um leque de soluções harmónicas muito mais aberto do que é normal nos discos de Pereira, uma música mais orgânica, mais verdadeira (de banda!) e - mercê de composições de Júlio Pereira especialmente inspiradas - a viajar entre a música portuguesa (seja o fado ou a música tradicional rural) e a música de outros lugares: o Magrebe, a África negra, o Brasil, o País Basco... E há no álbum uma luz, uma alegria e uma vivacidade que há muito não se ouviam em Júlio Pereira. É tudo bom? Não, há aqui e ali uns pós de sintetizadores - ora pomposos, ora apenas deslocados - que não faziam falta nenhuma. Mas não chegam para estragar o conjunto. (8/10)


DIABO A SETE
«PARAINFERNÁLIA»
Açor/Megamúsica

É uma coincidência feliz falar do (lindíssimo!, diga-se desde já) álbum de estreia dos Diabo a Sete a seguir ao novo álbum de Júlio Pereira. E é-o porque Pereira é, sem dúvida, uma influência decisiva na música deste grupo de Coimbra: tanto no uso dos cordofones como na sua abordagem à música tradicional portuguesa e na sua abertura a outras músicas. Mas essa influência, se bem que importante, é apenas um dos elementos da música feita pelos Diabo a Sete. Partindo muitas vezes do cancioneiro popular (Madeira, Trás-os-Montes, Alentejo, Algarve...) mas aventurando-se também em muitos temas originais mas de inspiração tradicional - quase todos de Pedro Damasceno (o homem dos cordofones e da concertina) -, os Diabo a Sete seguem depois por inúmeros caminhos que tanto os levam ao rock como ao reggae como à chamada «música celta» como às «danças europeias», mas sempre com um bom-gosto, uma leveza, uma facilidade (no bom sentido da palavra, isto é, no sentido de «naturalidade») e uma beleza genuínos. Peças fundamentais no som do grupo são, para além dos instrumentos tocados por Damasceno, a voz e a sanfona de Julieta Silva (ela também dos Chuchurumel), a gaita-de-foles de Celso Bento e uma secção rítmica rara neste tipo de projectos: o baixo eléctrico de Eduardo Murta e a bateria de Miguel Cardina, que se remetem quase sempre a uma posição discreta mas fundamental para a coesão do resultado final. E se não destaco aqui um ou outro tema, a razão é simples: porque este é um álbum para ouvir do princípio ao fim, sem pontos mortos ou temas menos interessantes. Um álbum importante. (8/10)


STOCKHOLM LISBOA PROJECT
«SOL»
Nomis Muzik

Aventura interessantíssima - se bem que resulte muito melhor na prática do que na teoria, e já vamos a essa questão -, o Stockholm Lisboa Project é essencialmente o projecto de um grupo de músicos amigos de dois países separados por milhares de quilómetros de distância: os portugueses Luís Peixoto (também dos Dazkarieh; em bandolim e bouzouki) e Sérgio Crisóstomo (ex-At-Tambur; em violino) e o sueco Simon Stalspets (em bandola e harmónica), aos quais se juntou numa fase posterior a fadista Liana. Do gosto comum em fazer música passou-se para a procura, não sistemática, de possíveis e eventuais pontos em comum entre a música portuguesa e a música sueca, de que são exemplos neste disco o original, mas com cheiro a corridinho algarvio, «Sol de Janeiro» com uma polska tradicional escandinava, ou exemplo ainda mais feliz, o «Fado do Ribatejo» com uma valsa, a «Hopers Vals». Mas são «filhos» quase únicos desta tentativa de ligação entre músicas tão distantes. E nisso, a «teoria» falha. Mas, agora a parte boa: se ouvirmos o álbum sem pensarmos nesta questão formal, se o ouvirmos pelo simples prazer de ouvir música, e boa música!, o álbum resulta espantosamente bem, com os instrumentos - e as músicas que eles transportam, sejam lá de onde for - a encaixarem-se na perfeição e a voz de Liana (muito boa cantora!), quando aparece e seja em fados ou não, a coroar com distinção esta música viva e solarenga, mesmo que por vezes melancólica. A propósito: «sol» quer dizer o mesmo em português e em sueco. (7/10)

25 setembro, 2007

Os N'Gapas, Ritchaz & Kéke e Kotalume - Novos Sons Africanos na ZDB


A semana passada falou-se aqui de música nascida ou a desenvolver-se em Angola (e também em Cabo Verde, via kizomba). E, há alguns meses, um longo texto publicado neste blog dava conta de muita música mestiça, crioula, cruzada, de fusão que se faz em Lisboa e arredores, em que eram referidos, entre outros, os Buraka Som Sistema, agrupamento em que se juntam músicos, DJs e cantores de várias origens - portuguesa, angolana, indo-moçambicana... - e que está desde há alguns meses a ser o ponta-de-lança da visibilidade de uma nova música feita na capital portuguesa mas com elementos africanos e de actualíssimas músicas anglo-saxónicas (os BSS foram recentemente nomeados para os Prémios MTV Europa, depois de terem tocado por todo esse continente fora). Mas as fusões não começam nem acabam nos nomes referidos nesses dois textos. No próximo sábado, dia 29, na ZDB, Bairro Alto, em Lisboa, apresentam-se mais três projectos de origem africana que fazem da mistura de muitas músicas o seu habitat: Os N'Gapas (quarteto de angolanos que vivem em Monte Abraão, Queluz, e que se dedicam ao kuduro e à tarrachinha); Ritchaz & Kéke (cabo-verdianos, habitantes da Outorela/Portela, estreiam-se na ZDB com uma mistura de kizomba, zouk, hip hop e reggae - na foto, de Marta Pina); e Kotalume (aka Adilson Moreno, também cabo-verdiano, que tanto faz funaná ao jeito dos Ferro Gaita quanto funaná electrónico - pode-se chamar funanhouse??? - ou kizomba). A produção do concerto é da Filho Único, com bilhetes a cinco euros que podem ser comprados antecipadamente na Flur ou, no próprio dia, na ZDB. Mais informações aqui.

24 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXVI.1 - Aisha Kandisha's Jarring Effects



O rock é uma realidade global que «contaminou» - assim como muitos dos seus derivados - muita da música que se faz hoje em dia. E, no interminável mundo das fusões de músicas locais com o rock (e derivados), os marroquinos Aisha Kandisha's Jarring Effects são um dos exemplos mais interessantes: começando por fazer música tradicional shabee, durante os anos 80, o seu primeiro álbum, «El Buya», de 1990 foi produzido pelo suiço Pat Jabbar (o mesmo que trabalha agora com os Maghrebika), que mergulhou a música do grupo num molho de dub, rock e electrónicas, com excelentes resultados. No álbum seguinte, «Shabeesation», de 1992, os Aisha Kandisha's Jarring Effects tiveram a colaboração do incansável Bill Laswell (o homem das mil colaborações e produções), álbum em que também colaboraram membros dos Last Poets e dos Parliament. Hoje, os A.K.J.E. continuam de boa saúde e a trilhar os mesmos caminhos.

Cromo XXVI.2 - Tsinandali Choir



Tentar fazer a viagem dos cantos polifónicos europeus é uma experiência fascinante: pode começar-se pelo Alentejo, seguir pela Córsega e a Sardenha, parar para beber da beleza das vozes femininas na Bulgária e acabar na Geórgia, antiga república da União Soviética. Aqui, na Geórgia, o ponto de paragem obrigatório é a cidade de Tsinandali (na região da Kakhetia), conhecida no exterior pelo seu vinho e, desde que Peter Gabriel editou na Real World o único álbum do Tsinandali Choir, em 1993 (reedição de um disco originalmente lançado em 1988 apenas na Geórgia), também pela sua maravilhosa música. Grupo apenas de homens, que cantam a capella, o Tsinandali Choir faz justiça à sua origem e neste disco interpreta as chamadas «canções de mesa», isto é, odes ao vinho que congregam os amigos nas noites frias do Leste, depois de uma noite de muita comida e ainda mais bebida. É belíssimo!


Cromo XXVI.3 - Mickey Hart



Ao longo dos tempos, muitos foram os artistas anglo-saxónicos que se apaixonaram pelas chamadas «músicas do mundo». George Harrison, Robert Plant, Brian Jones, David Byrne, Paul Simon ou Peter Gabriel estão do lado dos mais conhecidos... Mas houve e há muitos outros, menos conhecidos, mas tão ou mais importantes que estes no cruzamento de variadíssimas linguagens musicais. Entre eles está, na linha da frente, o baterista, percussionista, escritor e musicólogo norte-americano Mickey Hart (nascido a 11 de Setembro de 1943). Membro dos Grateful Dead entre 1967 e 1971, e, depois, entre 1974 e 1995, Hart teve no mítico percussionista Babatunde Olatunji uma das suas maiores influências. E, ao longo da última década e meia, gravou álbuns importantíssimos com alguns dos mais importantes percussionistas mundiais. A conhecer (pelo menos estes álbuns): «Planet Drum», «Mystery Box» e «Supralingua».


Cromo XXVI.4 - Chavela Vargas



Nascida na Costa Rica (em San Joaquín de Flores, a 17 de Abril de 1919), mas mexicana por adopção e paixão, Chavela Vargas - de verdadeiro nome Isabel Vargas Lizano - é a maior lenda viva da música tradicional do México, especialmente da música ranchera, um estilo feito de canções de amores fatais e geralmente reservada aos homens. Há poucos anos, Chavela revelou numa entrevista aquilo de que muita gente suspeitava devido ao facto de quase sempre se ter vestido como um homem: ser lésbica. Assim como se ficou a saber que, durante a sua juventude, foi amante da pintora Frida Khalo (e ironicamente, ou talvez não, Chavela tem um dos seus momentos de maior reconhecimento internacional ao cantar no filme «Frida», de Julie Taymor). Mas isto são apenas pormenores, se bem que reveladores, da vida de uma mulher cuja força maior está na sua voz marcante, pessoal, inesquecível. A Mulher do Poncho Vermelho.

23 setembro, 2007

Tinariwen e Vieux Farka Touré - Para Ficarmos Todos Com Areia Dentro dos Bolsos



Os leitores deste blog sabem do amor que tenho aos tuaregues Tinariwen (podem procurar por aqui críticas aos discos «Amassakoul» e «Aman Iman» e a reportagem do fabuloso concerto que eles deram no MED de Loulé) e o respeito com que recebi o álbum de estreia, homónimo, de Vieux Farka Touré (na foto), filho do grande Ali Farka (ver crítica ao álbum algures neste blog, em conjunto com o disco de Afel Bocoum & Alkibar). E agora a boa notícia: tanto os Tinariwen quanto Vieux Farka Touré (este em estreia no nosso país) vêm dar concertos a Portugal, integrados na digressão de promoção ao Festival au Désert - que todos os anos decorre em Janeiro, no Mali - e desta vez tem uma extensão na Europa e Estados Unidos. Os concertos estão marcados para dia 18 de Outubro no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, e um dia depois no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Ainda não há muitos mais detalhes sobre o assunto (preços, etc.) mas ficamos, para já, com a certeza de que vamos ficar com os bolsos cheios de areia - na expressão mais que feliz de alguém que viu os Tinariwen mas que já não me lembro quem foi...

21 setembro, 2007

Adriano Correia de Oliveira - Os Tributos Que Faltavam


Um dos principais protagonistas - paralelamente a José Afonso - da evolução do fado de Coimbra para as baladas de protesto e intervenção política nas últimas duas décadas de regime fascista em Portugal, Adriano Correia de Oliveira (na foto) é recordado agora com algumas acções e discos em sua homenagem, com cantores e músicos mais recentes a recriar as suas canções. Comemorando os 25 anos da sua morte, é editado na próxima semana o álbum «Adriano Aqui e Agora. O Tributo» - em que participam nomes como Tim (dos Xutos & Pontapés), Ana Deus, Dead Combo, Valete ou Miguel Guedes (dos Blind Zero). O álbum, que tem edição da Movieplay e foi produzido por Henrique Amaro, conta ainda com a participação da fadista Raquel Tavares, Celina da Piedade (Uxu Kalhus), Vicente Palma (filho de Jorge Palma), Margarida Pinto (Coldfinger), Nuno Prata, Sebastião Antunes (Quadrilha), Pedro Laginha (Mundo Cão) e ainda as bandas Micro Audio Waves e Cindy Cat. Entre os temas escolhidos do reportório composto ou cantado por Adriano estão presentes canções como «Trova do Vento que Passa», «Sou Barco», «Tejo que Levas as Águas», «Rosa de Sangue», «Tu e Eu Meu Amor», «Para Rosalía» ou «Cantar Para um Pastor».

Já disponível há alguns meses está também o álbum «Cantaremos Adriano», com versões de temas do cantor interpretadas por um colectivo formado por Alexandre Pinto (percussões), João Queiroz (viola acústica e voz), Jorge Jordan (voz), Nuno Faria (contrabaixo), Paulo Cavaco (piano e acordeão), Rui Sousa (viola acústica e guitarra portuguesa) e Vitor Sarmento (viola acústica e voz). E, entre os inúmeros concertos e outras inciativas, destaque para um concerto, dia 25 de Outubro, na Voz do Operário, em Lisboa, «25 Anos - 25 Canções Lembrar Adriano», em que participam Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Carlos Alberto Moniz, Fausto, Fernando Tordo, Francisco Fanhais, Janita Salomé, João Fernando, Luís Represas, Luísa Basto, Manuel Freire, Nuno do Ó, Paulo Saraiva, Paulo Vaz de Carvalho, Pedro Abrunhosa e Samuel.

20 setembro, 2007

Festival O Gesto Orelhudo - Música e Humor em Águeda



Um dos mais originais - e, ao que consta, divertidos (tenho imensa pena de nunca lá ter ido!) - festivais portugueses, O Gesto Orelhudo, estará de volta a Águeda entre os dias 29 de Setembro e 6 de Outubro com vários espectáculos musicais, de mímica, de teatro, de humor, de fantoches, de circo e/ou isto tudo junto, mais uma vez - a sexta - com organização da d'Orfeu e da edilidade local. No dia 29, a abrir o festival apresenta-se a surrealista formação musical The First Vienna Vegetable Orchestra (Áustria; na foto, de Sergio Bonuomo), com um concerto em que os instrumentos são vegetais (que irão, no final, acabar em... sopa!); seguindo-se os Trukitrek (Espanha/Brasil), «anões cantores (quase) humanos que apresentam um repertório internacional digno de qualquer “jukebox”». Dia 30, há um «concerto para Pássaros e outros Palradores»; um inesperado «Monólogo a Duas Vozes» com lenga-lengas e trava-línguas em palco, pela d'Orfeu; o espectáculo «Chico Lua & Cia.», de Beto Hinça (Brasil), em que «os instrumentos são marionetas nas mãos das marionetas»; «Bebés com Música», caracterizado como «músicas do mundo em compasso bebé», por Artur Fernandes (dos Danças Ocultas); e «Unforgetable», novamente pelos Trukitrek, «fantoches quase humanos numa história com tanto de amor como de humor». Dia 1 actuam os Slampampers (Holanda), «música & humor num espectáculo de (r)ir às lágrimas!». Dia 2 pode ver-se a peça «Sempre ao Lonxe», por Mofa & Befa (Galiza), «impagável espectáculo da mais louca companhia galega da actualidade». Dia 3, sobe ao palco o «intrigante cómico que ameaça a paz cultural da cidade» Leo Bassi (Itália/Estados Unidos) com o espectáculo «Instintos Ocultos». Dia 4, o Peripécia Teatro apresenta «Novecentos». Dia 5, há «circo contemporâneo» com Ferloscardo - Cotão Associação Cultural e Centro Cultural Belém; um imperdível concerto dos Deolinda, em que o fado é metido numa trituradora e servido ora quente ora muito, muito frio, mas sempre renovado. A encerrar, dia 6, o grupo espanhol Yllana apresenta «PaGAGnini», mistura de música clássica e humor; e os portuenses Mu dão concerto/baile de fim de festa. Paralelamente, há uma programação especial para o público das escolas do concelho de Águeda com espectáculos dos Slampampers e do Trigo Limpo Teatro ACERT. Mais informações aqui.

19 setembro, 2007

Tarrachinha - A Música Mais Sexy do Mundo (e Outras Músicas de Angola)


A paz em Angola - depois de décadas de guerra (primeiro a guerra contra as tropas portuguesas, depois uma guerra fratricida igualmente sangrenta) - proporcionou o desenvolvimento de variadíssimas e riquíssimas formas musicais e a sua divulgação interna e externa. Não que muita música não se fizesse e gravasse antes - vejam-se as gravações contidas na caixa «Angola», já referida há alguns meses neste blog, ou na recente compilação «Os Reis do Semba», todas feitas durante os anos finais de dominação portuguesa - ou as inúmeras gravações de artistas de kizomba editadas ainda durante a guerra civil. Mas, nos últimos anos, outros géneros foram nascendo e crescendo com uma força imparável: a versão muito própria e angolana do hip-hop e também o kuduro e a tarrachinha. De todos estes estilos, antigos ou modernos, damos conta a seguir.

O espantoso documentário «Mãe Ju» (na foto que encima este texto), realizado por Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves, é um espelho quase perfeito do que é um alfobre de novas músicas - assim como se fosse uma Factory de Manchester transposta para um bairro pobre de Luanda e reconvertida numa espécie de barracão com bola de espelhos incorporada, o botequim da Mãe Ju. Realizado paralelamente à preparação da exposição «Agora Angola» (foto das noivas, ao lado), «Mãe Ju» mostra os fazedores e dançarinos de kuduro e da mais recente tarrachinha no local em que, segundo eles, estas músicas nasceram e se desenvolveram. Nele estão nomes como DJ Znobia, Puto Português, Gata Agressiva, Nacobeta, Come Todas ou Bobani King, nomes de ponta do bem conhecido kuduro mas também da tarrachinha. E o que é a tarrachinha (ou tarraxinha ou tarracha)?... É tão só um kuduro despido de muita da sua carga interventiva, com beats mais lentos e letras de forte carga erótica, mas igualmente electrónico e feito com samples. Mas o resultado é inacreditável: a música é quente, erótica, pulsante; dançada quase como se o casal (homem e mulher) mexessem apenas as ancas, corpo colado ao outro corpo, «roça roça» ou «esfrega esfrega» - nas palavras dos protagonistas - ou, em palavras de escritor, José Eduardo Agualusa, no seu recente e maravilhoso livro «As Mulheres do Meu Pai»: «É uma dança de um erotismo violento. Supera em muito tudo o que vi (e vi bastante) nos bailes funk das favelas cariocas. A moça enrosca-sa ao peito do rapaz, segurando-o pela nuca, e vai-se atarraxando a ele com lentíssimos movimentos dos quadris».

Há letras - e sons! - de tarrachinhas que fariam o «Je T'Aime Moi Non Plus», de Serge Gainsbourg, ou o «I Feel Love», de Donna Summer, parecerem aulas de catequese. E há, percebe-se bem vendo o filme (e ouvindo-se muita da música contida nos discos de que se fala a seguir), que há uma linha invisível que une muitas das músicas angolanas: o semba tem uma continuidade óbvia na kizomba e esta na tarrachinha; o hip-hop à angolana evoluiu naturalmente para o kuduro, na mesma medida em que, noutros locais, o hip-hop influenciou decisivamente o kwaito sul-africano, o baile funk brasileiro ou o reggaeton latino-americano. Na Mãe Ju é possível um kuduro feito ao vivo dar lugar, naturalmente, a uma tarrachinha ou uma kizomba ter como contraponto imediato uma... tarrachinha. E atrevo-me a dizer - embora sem grau absoluto de certeza - que a tarrachinha é o culminar perfeito, a súmula quase completa de todas estas músicas já referidas: do semba e da kizomba pelo lado do calor, do sexo, do contacto. E do hip-hop e do kuduro pela parte «mecânica» de como a tarrachinha é feita. Desses outros géneros, aqui representados por quatro discos recentes e disponíveis em Portugal (via lojas ou sites), fazem-se curtas fichas a seguir:

Na sequência lógica da caixa «Angola» - e com as mesmas estruturas envolvidas (os arquivos da Valentim de Carvalho, a pesquisa da equipa da Difference Music e com distribuição da Som Livre) - surge agora uma maravilhosa colecção de sembas gravados durante os últimos anos de dominação portuguesa. Infelizmente parco em informação de carácter musicológico - tal como já acontecia na caixa «Angola» -, o livreto do disco aponta porém os locais em que o semba (género musical antigo, já referenciado em Angola desde há séculos) resistia a outras músicas, importadas, durante os anos 50 do séc. XX: os musseques, bairros pobres de Luanda, onde o semba era preservado, amado e dançado, evoluindo naturalmente com a chegada de instrumentos novos, eléctricos. Nas gravações presentes em «Os Reis do Semba» - álbum que reúne 50 temas de numerosos grupos e artistas angolanos dos anos 60 e 70 - as guitarras eléctricas e os órgãos competem com percussões acústicas na criação de uma música que faz a ponte entre as músicas tradicionais angolanas com as músicas anglo-saxónicas emergentes, abrindo espaço para a criação posterior da kizomba.

Mais de 50 mil exemplares!!! Foi isso que vendeu a colectânea «O Midjor di Kizomba», editada o ano passado pela Farol - e não se pense que foram só africanos a comprar o disco. Na continuação, o recente «O Midjor di Kizomba 2», a Farol volta a apostar em alguns dos nomes já presentes na primeira compilação e juntou-lhe alguns outros. Artistas angolanos, cabo-verdianos e imigrados na Europa, todos juntos em mais um caldeirão de dança pura, na festa desta música que tem as suas raízes no semba, os ramos no zouk das Antilhas e algumas folhas já a serem «contaminadas» pelo hip-hop ou o R&B. Artistas como Philipe Monteiro, Paulinha, Irmãos Verdades, Roger, Miss S, Isidora, Contu Nobo, Mel, Micas Cabral, Scarlette... E, como bónus, um DVD com mais aulas de como bem dançar kizomba e vídeos de dois dos artistas presentes (Roger e Paulinha).

Banda-sonora de um documentário que ainda aí vem, a colectânea «É Dreda Ser Angolano» (edição da U-hu Fazmisso! Filmes, com o apoio da Rádio Fazuma) contém parte da música captada nas gravações feitas para o documentário em Luanda. O ponto de partida, contam, é o Conjunto Ngonguenha (que aqui dão voz ao tema-título), mas nela estão também muitos outros nomes que protagonizaram o álbum «Ngonguenhação», do Conjunto Ngonguenha, e outros MCs e Djs emblemáticos da cena hip-hop angolana. A lista de participações na compilação é impressionante: Conjunto Ngonguenha, Conductor, Ikonoklasta, Keita Mayanda (os três do Conjunto Ngonguenha), Phay Grand, MCK, Cocas o FSM, Leonardo Wawati, Das Primeiro e Os Turbantes. E, ouvindo-se o álbum (à venda no site da Fazuma pelo preço simbólico de cinco euros), fica a certeza de que o hip-hop em Angola é uma voz livre na luta contra a corrupção e outros males da sociedade e, por outro lado, uma música que, apesar de ser devedora do hip-hop norte-americano, nela estão contidas - em samples, em ritmos, em cadências - muita música local: sembas, kizombas e, obviamente, kuduro (o último tema, d'Os Turbantes, é kuduro puro e duro).

Finalmente, e em «raccord», o último disco deste lote é o CD que reúne os melhores temas de dois discos de Dog Murras - um dos expoentes máximos do kuduro -, editado pela Frikyiwa de Frédéric Galliano, o mesmo que editou «Frédéric Galliano Presents Kuduro Sound System». E «Um Golpe na Obscuridade», assim se chama este álbum de Dog Murras, é uma surpresa para quem poderá ter do kuduro a ideia de esta ser uma música primitiva, simplista, até boçal. Dog Murras é um MC de voz potentíssima, grave e marcante, uma voz que está sempre ao serviço das mensagens fortemente politizadas do cantor. E, na sua música, há inúmeras referências a músicas tradicionais angolanas, batuques a servir de contraponto às programações electrónicas, coros que só poderiam sair de Angola. É um disco extraordinário, para pôr ao lado, nos escaparates da modernidade - de uma modernidade feita de elementos locais e/ou globais -, dos álbuns de M.I.A., dos Konono Nº1, dos Bonde do Rolê e, claro, dos Buraka Som Sistema. A descobrir com urgência.

18 setembro, 2007

Jazzin'Tondela com Magic Malik e Richard Bona!



Surpreendente, e importante, é o elenco do próximo Festival Jazzin'Tondela, que decorre de 4 a 6 de Outubro com concertos do flautista marfinense Magic Malik, do duo de Sofia Ribeiro e Marc Demuth, do pianista Mário Laginha e do grande baixista camaronês Richard Bona (na foto, de Ian Abela), com organização da ACERT. Dia 4, o festival começa com Magic Malik (Malik Mezzadri) - ele que se move tão bem nos meandros do jazz como da house ou do reggae via participações em álbuns de Groove Gang, Human Sipirit ou Saint Germain -, acompanhado por Jean-Luc Lehr (baixo), Maxime Zampieri (bateria) e Jozef Dumoulin (piano e teclados), e com o duo da cantora portuguesa Sofia Ribeiro e do contrabaixista luxemburguês Marc Demuth, que vêm apresentar o seu álbum «Dança da Solidão», num espectáculo em que cabem versões de temas de autores tão diferentes quanto Milton Nascimento, Carl Perkins, Cole Porter ou Janita Salomé. Dia 5, concerto único com o Trio liderado pelo pianista Mário Laginha (o habitual cúmplice de Maria João) e do qual também fazem parte outros dois «monstros» do jazz feito em Portugal: o baterista Alexandre Frazão e o contrabaixista Bernardo Moreira, que apresentam o álbum «Espaço». Finalmente, no dia 6, o palco é ocupado por Richard Bona, cantor e multi-instrumentista mas especialmente um enorme baixista, que ao longo da sua carreira tem feito uma viagem admirável entre o jazz, a música africana, o funk, o experimentalismo... Para se ter uma ideia, veja-se só alguns dos nomes com quem já colaborou: Didier Lockwood, Manu Dibango, Salif Keita, o recém-falecido Joe Zawinul, Lokua Kanza, Pat Metheny, Herbie Hancock, Chick Corea, Sadao Watanabe, Branford Marsalis, Regina Carter e Bobby McFerrin. Em Tondela, Bona será acompanhado por Etienne Stadwijk (teclados), Adam Stoler (guitarra), Taylor Haskins (trompete) e Samuel Torres (percussão). Mais informações aqui.

17 setembro, 2007

Brigada Victor Jara Vence Prémio José Afonso



O álbum «Ceia Louca», da Brigada Victor Jara, foi o vencedor do Prémio José Afonso 2007, atribuído pela Câmara Municipal da Amadora. Um prémio que foi atribuído por unanimidade pelo júri constituído por Olga Prats, António Victorino d'Almeida, Carlos Pinto Coelho, António Moreira e Natália Cañamero de Matos. No álbum «Ceia Louca», editado o ano passado, a Brigada Victor Jara teve como convidados nas gravações Carlos do Carmo, Vitorino e Janita Salomé, as Segue-me à Capela, Lena d´Água e Jorge Palma (ver crítica ao disco, no Raízes e Antenas, aqui). O Prémio José Afonso - o mais prestigiado na área da folk/música tradicional em Portugal - esteve um ano sem ser atribuído, o que provocou protestos generalizados dos músicos, jornalistas e amantes de música portuguesa em geral, tendo voltado este ano, em boa hora. E com um justo vencedor, apesar da concorrência ser forte: a Brigada Victor Jara, uma verdadeira instituição (no bom sentido da palavra instituição) da música portuguesa, já com mais de trinta anos de carreira e com um percurso ímpar na recriação e renovação do nosso cancioneiro tradicional/popular. Para o ano - e com a enxurrada de álbuns de homenagem a José Afonso saídos durante 2007 -, a tarefa do júri será particularmente difícil: votar ou não votar num deles, ou votar fora desse enorme caldeirão de tributos, será a grande questão. Por mim, se votasse nalgum desses votava de caras nos Couple Coffee...

14 setembro, 2007

Há Fado Feito no Estrangeiro? Há Pois, Cada Vez Mais...



A propósito de algum sururu em fóruns de discussão sobre fado acerca do destaque que é dado a artistas não portugueses que cantam no filme «Fados», de Carlos Saura - artistas como Lila Downs, Chico Buarque ou Lura -, enchi-me de coragem para meter a minha colherada em defesa do fado e da sua interpretação ou re-interpretação por parte de cantores e cantoras estrangeiros, com o «argumento», se tal fosse preciso, de que o fado é uma forma musical como outra qualquer e de que não é necessário nascer em Alfama ou beber uns copos no Bairro Alto - ou, no caso de Coimbra, ir carpir mágoas amorosas para a Quinta das Lágrimas -, para que o fado possa ser interpretado, ou reinterpretado, por quem o quiser. Ah, e a questão da alma, da saudade, etc, etc... Coisas menores, acho eu: já ouvi verdadeiro rock feito no Porto, excelente hip-hop feito na Amadora, já ouvi a Petra - dos Nobody's Bizness - a cantar blues como muito pouca gente e uns almadenses de nome Melech Mechaya a fazer klezmer como se fossem judeus de gema.

Vai daí, decidi deixar aqui vários nomes - mais do que aqueles que estava à espera quando iniciei a pesquisa - de cantores e cantoras estrangeiras, e também de intérpretes de guitarra portuguesa, que fazem do fado a sua música ou uma das suas músicas de eleição. Goste-se ou não - e isso já depende de cada um dos seus ouvintes -, é importante dar com eles: quase todos têm sites ou estão no myspace. Procurem-nos, por favor.

No Japão - onde a diva Amália Rodrigues deixou sementes, fruto das suas históricas actuaçõe por lá - há, pelo menos, duas cantoras de fado: Hideko Tsukida e Marie Mine. Ambas são neste momento acompanhadas, na guitarra portuguesa, por Masahiro Iizumi, que começou por tocar tango em guitarra clássica mas, desde há alguns anos, desenvolveu um estilo próprio na guitarra portuguesa.

No Brasil, para além do fado fazer parte da «ementa» de muitos locais de reunião de portugueses, cantores importantes como Caetano Veloso, Fáfá de Belém, Ney Matogrosso ou o já referido Chico Buarque (o maravilhoso «Fado Tropical») interpretaram fados. E Vinicius de Moraes compôs para Amália.

Há guitarras portuguesas espalhadas um pouco por todo o mundo, nas mãos de vários músicos - Jimmy Page, dos recém-ressuscitados Led Zeppelin, que ao consta nunca a conseguiu tocar por ser «muito difícil», mas também alguns mais corajosos como músicos do grupo argentino La Chicana ou do grupo belga Timna, que acompanhou a cantora Ghalia Benali num Intercéltico do Porto, há alguns anos atrás.

Em França há alguns luso-franceses a aventurar-se no fado: a já conhecida e respeitada cantora Bévinda, o jovem intérprete de guitarra portuguesa Philippe de Sousa e até um acordeonista que adapta fados para o seu instrumento: Toucas. Mas mais surpreendente é o caso de uma cantora franco-argelina, Alima, cantora do grupo Monkomarok, que a solo diz cantar um «fado franco-algérien», evocando influências de Steve Reich e... dos Madredeus.

Luso-americana, e agora radicada em Lisboa, a cantora e actriz californiana Michelle Pereira é um caso paradigmático de muita gente que se deixou apaixonar pelo fado. Actriz de algum sucesso nos Estados Unidos (pode ser vista, por exemplo, no filme «Os Dez Mandamentos - O Musical», ao lado de Val Kilmer, e chegou a entrar na série «Friends), há alguns anos veio estudar o fado para Portugal e por cá ficou.

Na Catalunha, o grupo EnFado - o nome diz tudo -, de Lérida/Lleida, existe desde 2002 e é um quarteto composto por Càrol Blàvia (voz), Raquel Garcia (violino e guitarra clássica), Carles Garrofé (guitarra clássica) e Gus Garcia (baixo acústico), cujas influências são Dulce Pontes, Mísia, Kátia Guerreiro, Mariza, Amália Rodrigues e... Maria del Mar Bonet.

Em Itália, desde há muitos anos que o intérprete de guitarra portuguesa Marco Poeta é conhecido. Recentemente, e já com um álbum editado, criou o projecto O'Fado (na foto), no qual conta com os famosos cantores Eugenio Finardi e Francesco Di Giacomo e com a jovem cantora Elisa Ridolfi, Michele Ascolese (guitarra acústica) e Paolo Galassi (baixo acústico). Também de Itália é outro intérprete de guitarra portuguesa, Loris Donatelli.

De Toronto, no Canadá, há notícias de um grupo, 15, liderado por Catarina Cardeal (voz) e Mike Siracusa (guitarra), que dá concertos de fado/blues. Dos 15 fazem também parte John Yelland (contrabaixo), Lou Bartolomucci (guitarra acústica e eléctrica) e Claudio Vena (viola d'arco e acordeão).

Finalmente - e obrigado Luís Rei pela dica -, também do Canadá vem um dos nomes mais surpreendentes: a cantora indo-canadiana Kiran Ahluwalia, que no seu último álbum, «Wanderlust», mistura poesia urdu com fado e blues saharianos. Na gravação do álbum, Kiran contou com a participação de José Manuel Neto (em guitarra portuguesa) e Ricardo Cruz (baixo acústico).

Se calhar, isto é apenas a ponta de um iceberg que está a crescer. E ainda bem! A ouvir sem preconceitos...

Nota: E aqui mais alguns acrescentos, fruto de pesquisas posteriores e, principalmente, da valiosa contribuição de leitores deste blog (muito obrigado!): os grupos argentinos Luz de Lágrima e Fadeiros, a fadista catalã Névoa, a basca Maria Berasarte, a francesa Jenyfer, o luso-francês Lúcio Bamond, a brasileira Joanna (com um dos seus álbuns inteiramente dedicado ao fado), a mexicana Marcela Ortiz Aznar, a polaca Marzena Nieczuja-Urbanska, a holandesa Nynke Laverman, a croata Jelena Radan, a chinesa Cao Bei e a indiana Sónia Shirsat. Para além disso, em comentário recente, chegaram os acrescentos de Charles Aznavour como compositor de alguns fados, um tema de Tom Waits inspirado no fado («The Part You Throw Away») e o álbum «Fadista» da cantora holandesa Lenny Kuhr.

13 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXV.1 - Ali Farka Touré



Um dos maiores músicos e cantores das últimas décadas, Ali Farka Touré (Ali Ibrahim «Farka» Touré, nascido a 31 de Outubro de 1939, em Kanau, Mali, de etnia djerma/songai, e falecido a 7 de Março de 2006 em Bamako, Mali) foi o homem que fez a ponte entre a música tradicional da África ocidental e os blues, demonstrando - na prática e não só na teoria - onde nasceu a grande música negra norte-americana. Instrumentista de génio - na njarka e nas guitarras acústicas e eléctricas-, Ali Farka foi também um homem de acção, tendo contribuído decisivamente para o desenvolvimento da sua localidade de residência, Niafunké (o seu nascimento, vida e morte sempre balizados pelas margens do rio Niger). Para a história ficam muitos álbuns gravados a solo ou em parceria com gente como Ry Cooder, Toumani Diabaté ou Taj Mahal, e um concerto extraordinário e inesquecível no África Festival, em Lisboa, em 2005.


Cromo XXV.2 - Blowzabella



Pergunte-se a qualquer músico (ou quase) do circuito de recuperação das danças tradicionais europeias qual o grupo que mais o influenciou e a resposta só pode ser uma: os Blowzabella, grupo inglês nascido em 1978, em Whitechapel, Londres, pelas mãos de dois gaiteiros e flautistas (o australiano Bill O’Toole e o inglês Jon Swayne). Destes dois, foi Swayne que continuou a banda ao longo destas três décadas, tendo os Blowzabella sofrido numerosas mudanças de formação até ao actual line-up, um super-grupo formado, veja-se só, por Andy Cutting, Jo Freya, Paul James, Gregory Jolivet, David Shepherd, Barn Stradling e o próprio Jon Swayne. Ferozmente acústicos, usando e abusando de gaitas-de-foles, sanfonas e violinos, muitos tradicionais recuperados e muitíssimos originais entretanto compostos pelo grupo recriaram e criaram um reportório que agora é comum a milhares de outros músicos. Siga a dança!

Cromo XXV.3 - Esquivel



Esquivel - ou Esquivel!, com ponto de exclamação -, de nome completo Juan García Esquivel (nascido em Tampico, Tamaulipas, México, a 20 de Janeiro de 1918, falecido a 3 de Janeiro de 2002) foi um dos maiores representantes da música exotica e da música lounge, baptizado com epítetos como «The King of Space Age Pop» ou «The Busby Berkley of Cocktail Music». Pianista, fortemente influenciado pela música do seu país e de outros territórios da América Latina, Esquivel era também um apaixonado pelo jazz e pelo experimentalismo sonoro, nomeadamente com as possibilidades da emergente estereofonia. Tudo junto contribuiu para a sua criação de uma música nova e excitante que ficou conhecida como «Space Age Bachelor Pad Music». Em meados dos anos 90, e depois de décadas de apagamento, Esquivel foi reabilitado por muitos novos músicos das correntes electrónicas e ambientais que viram nele um dos seus maiores gurus.


Cromo XXV.4 - Nouvelle Vague



Os Nouvelle Vague são um dos melhores exemplos de como a pop pode coabitar pacificamente, de forma coerente e com frutos saborosos, com a chamada world music. A fórmula é simples: pegar em temas punk, new wave e pós-punk, todos eles emblemáticos, de finais dos anos 70 e dos anos 80 - de gente como os Joy Division, The Clash, Buzzcocks, Blondie, Depeche Mode, Tuxedo Moon, Dead Kennedys, The Cure, XTC, Echo and The Bunnymen, Cramps, etc, etc... - e afogar tudo em arranjos que vão beber essencialmente à bossa-nova brasileira mas também, pontualmente, a outros géneros latino-americanos. O resultado é quase sempre de elevadíssimo bom-gosto e faz justiça aos seus inventores, na primeira metade desta década: os franceses Marc Collin e Olivier Libaux, bem acolitados por excelentes cantoras como Anaïs Croze, Camille, Phoebe Killdeer, Mélanie Pain ou Marina Celeste.

12 setembro, 2007

Auto-Promoção!!!



O livro já está à venda (e eu, eu cá estou muito orgulhoso!).

11 setembro, 2007

Festa do «Avante!» - O Meio e a Mensagem



Não tem directamente a ver com a Festa do «Avante!» mas tem tudo a ver, lateralmente: ando a reler um excelente livro do meu amigo Mário Correia, «Música Popular Portuguesa», em que há um capítulo inteiramente dedicado à questão «o que é música de intervenção?». E para que serve; como funciona; se a música deve estar apenas ao serviço da palavra (da mensagem) ou não. O capítulo é centrado num debate que reuniu cantores como José Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho em... 1975, com mais alguns acrescentos de entrevistas nos anos imediatamente seguintes. E, apesar de ter algumas intervenções que já não fazem sentido 32 anos depois, ainda há por lá ideias que são tão válidas hoje como eram na altura e o serão sempre. Numa das citações mais valiosas desse capítulo, José Mário Branco diz que «Quando Paulo de Carvalho, a Amália Rodrigues, o Zeca Afonso, ou eu próprio cantamos qualquer coisa, a canção está a ser uma arma, porque comunicar com os outros é uma arma. Nós temos a possibilidade dessa comunicação de massas. Isso é que é a arma. Depois vamos ver ao serviço de quem ela está. Na cantiga (Nota: "A Cantiga é Uma Arma") eu digo que a canção é uma arma por isso. E depois "tudo depende da bala e da pontaria"; quer dizer, tudo depende realmente ao serviço de quem ela é posta».

Na Festa do «Avante!» deste fim-de-semana, houve muitas cantigas transformadas em armas, muitas mensagens que passam - sempre! - muito melhor quando o meio é a música, e a constatação de que há, cada vez mais, muitos músicos e cantores empenhados em fazer ouvir a sua voz ao serviço das suas ideias e ideais. Nem todos serão simpatizantes do Partido Comunista, mas raramente há um espaço como a Festa do «Avante!» para fazer passar estas mensagens. Mensagens simples e de fácil apreensão como o «Avante Camarada» metido por Luanda Cozetti no meio do «Com as Minhas Tamanquinhas», de José Afonso, no maravilhoso concerto dos Couple Coffee de homenagem ao compositor de «Grândola»; o «Happy Birthday Revolution» dos Levellers; a «Carvalhesa» - música sem palavras que diz mais que mil palavras - nas gaitas dos transmontanos Tíbia; a palavra de ordem com ecos de Abril «O Povo Unido Jamais Será Vencido», durante o fabuloso concerto de Sam The Kid - e, sim, o rap é a música de intervenção por excelência da actualidade; ou a afirmação de que a nota «fá» é igual numa kora, num balafon ou num sintetizador e que é igual em África, em Portugal e na América, tudo bem explicado por mestre Toumani Diabaté, durante o grande, lindíssimo, concerto que o maliano deu com a Symmetric Orchestra.

Ou outro tipo de mensagens, um pouco mais elaboradas, como quando se vê muita gente com lenços palestinianos a dançar a música klezmer dos judeus servida magnificamente pelos Melech Mechaya; as mensagens subliminares mas que visam a harmonia universal dos Blasted Mechanism, durante o seu concerto que pôs muitos milhares de pessoas aos saltos em frente ao Palco 25 de Abril; a convicção de que há uma imensa nação cigana, irmanada numa cultura e numa crença comum, espalhada por toda a Europa, no concerto da Fanfare Ciocarlia e convidados (com destaque para a espantosa cantora Esma Redzepova; na foto, de Sonia Balcells); de que há outra imensa nação, a «pátria língua portuguesa» de Pessoa, espalhada pelo mundo inteiro e unida em baladas, mornas, kizombas ou sembas cantadas pelos Sons da Fala; ou mensagens - simples ou complexas, escolha-se à vontade do freguês - de que a música é uma só e universal, e de que as mensagens são comuns e globais, como quando se ouve uma versão do «My Funny Valentine» para harpa e voz no belo projecto Ela Não É Francesa Ele Não É Espanhol; ou quando se ouve um excelente upgrade do afro-beat nos quentíssimos Tchakare Kanyembe; ou versões de temas de Adriano Correia de Oliveira pela Brigada Victor Jara, Manuel Freire e o Coro dos Antigos Orfeonistas de Coimbra ou de temas de Carlos Paredes pelas mãos de Ricardo Parreira e do mestre Fernando Alvim; ou, ainda, o fado virado do avesso e completamente reinventado pelos Deolinda. Como se todos estivessem a dizer (ou a cantar): oiçam, há mensagens antigas que ainda fazem todo o sentido; oiçam, há músicas velhas que podem ser novas; oiçam, há palavras que são balas e cantigas que são armas; oiçam!, sempre, oiçam!...

07 setembro, 2007

Festa do «Avante!» - A Partir de Hoje, em Atalaia



A Festa do «Avante!» começa hoje, na Quinta da Atalaia, Amora, Seixal, com uma excelente programação da qual demos conta, em parte, há algumas semanas e que aqui se repete (com alguns acrescentos lá mais para o fim do post). Ah, e é claro que o Raízes e Antenas publicará reportagem de muitos deles no início da próxima semana.

Auto-citando: Como atracções internacionais a Festa recebe a charanga romena Fanfare Ciocarlia, acompanhada por vários dos convidados que também participam no recente álbum «Queens and Kings», uma autêntica irmandade cigana: a diva Esma Redzepova (Macedónia), Jony Iliev (Bulgária), Kaloome (França) e Florentina Sandu (a neta de Nicolae Neacsu, dos Taraf de Haidouks; Roménia); do Mali - e de outros lugares do antigo império mandinga - chegam o mestre da kora Toumani Diabaté (na foto, de Mário Pires) e a sua Symmetric Orchestra; de Inglaterra vêm os veteranos do folk-rock Levellers; e dos Estados Unidos os blues do colectivo Chicago Blues Harp All Stars. No jazz, o destaque vai para o projecto Carlos Bica & Azul (em que o contrabaixista português é acompanhado pelo guitarrista alemão Frank Mobus e o baterista norte-americano Jim Black, grupo que protagonizou um dos melhores momentos - juntamente com o DJ Ill Vibe - do recente FMM de Sines), os Telectu (com Vítor Rua e Jorge Lima Barreto a serem acompanhados pelo baterista holandês Han Bennink e e o manipulador de electrónicas italiano Walter Pratti), o projecto In Loko de Carlos Barretto, o Sexteto de Mário Barreiros, o quarteto do contrabaixista Matt Pavolka e a cantora Jacinta (interpretando canções de José Afonso). Também a cantar José Afonso estarão o grupo luso-brasileiro Couple Coffee e a fadista Cristina Branco. Fado que terá uma noite especial com a presença de Ricardo Parreira e Fernando Alvim, Raquel Tavares, Chico Madureira, Aldina Duarte e Rosa Madeira, e ainda alguns «desvios» através dos Deolinda e do projecto In-Canto (de Luísa Amaro e Miguel Carvalhinho). Uma homenagem a Adriano Correia de Oliveira pela Brigada Vítor Jara e o cantor Manuel Freire, o super-grupo Sons da Fala - que reúne Sérgio Godinho (Portugal), Vitorino Salomé (Portugal), Tito Paris (Cabo Verde), Janita Salomé (Portugal), Luanda Cozetti (Brasil), Juka (São Tomé e Príncipe), André Cabaço (Moçambique), Guto Pires (Guiné Bissau) e Quikkas (Angola) e concertos especiais dos Blasted Mechanism (com o guitarrista António Chaínho e a Kumpa'nia Al-Gazarra como convidados) e a Tora Tora Big Band (reforçada pelas vozes de Milton Gulli, André Cabaço e Kika Santos) são mais alguns dos momentos de grande interesse da Festa. O rock dos Blind Zero, dos Peste & Sida e dos Anti-Clockwise, o rap de Chullage e de Sam The Kid, o projecto KoraSons (liderado pelo guineense Ibrahima Galissá, na kora, e o dinamarquês Mads Hoff, na guitarra), o super-grupo de música tradicional Quatro ao Sul (que reúne Rui Vaz e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, com José Barros, dos Navegante, e Pedro Mestre), o grupo de versões de música de intervenção TriVenção e o Low Budget Research Kitchen (banda de tributo a Frank Zappa) também já estão confirmados no menu musical da Festa do «Avante!» deste ano. Um luxo.

E como acrescentos, alguns deles importantes, feitos nas últimas semanas: o novo grupo lisboeta que mistura folk e música antiga Tanira; os Pauliteiros de Miranda; a folk experimental dos albicastrenses Cibo Mosari; os ritmos latino-americanos dos lisboetas Los Cubos; o afro-beat dos portuenses Tchakare Kanyembe; os Tíbia (gaita-de-foles); o espectáculo Redondo Vocábulo com João Afonso e João Lucas; o reggae e outras músicas dos Black Bombain (de Alverca); e o klezmer dos almadenses Melech Mechaya. A descobrir...

06 setembro, 2007

Musidanças - O Aquecimento Num Cabaret


Invenção de Firmino Pascoal (Lindú Mona), o Festival Musidanças já existe desde 2001 e tem ocupado, discretamente, alguns espaços lisboetas nos últimos anos. Na sua edição de 2007, o festival está marcado para Novembro, no Institut Franco-Portugais, ainda com programa a anunciar. Mas, como aquecimento para o festival, estão a decorrer as Noites Mestiças Musidanças, em ritmo semanal - todas as quintas-feiras, às 23h00 - no Cabaret Maxime, à Praça da Alegria, em Lisboa, local onde se anunciam para este mês concertos do ex-vocalista dos Cool Hipnoise, Melo D, já hoje, dia 6; o soul-jazz do Groove 4tet, dia 13; o originalíssimo grupo que funde música portuguesa com música sueca do Stockholm Lisboa Project(na foto), dia 20, num concerto em que Simon Stålspets, Sérgio Crisóstomo, Liana e Luís Peixoto apresentam o seu álbum de estreia; e, dia 27, a Orkestra Musidanças, com André Cabaço, Lindú Mona e Guto Pires acompanhados pelo Quinteto de Johannes Krieger, num espectáculo que será gravado e editado pela Tinman Music. Paralelamente, as Noites Mestiças apresentam uma exposição da artista plástica e marionetista Denise Souto. Mais informações aqui e aqui.

04 setembro, 2007

Músicas do Mar - Um Festival de Boas Ondas



A Póvoa de Varzim está de parabéns pelo nascimento de mais um festival da chamada «world music», Músicas do Mar, que decorreu este fim-de-semana sempre com boas assistências e com excelentes concertos dos nomes congregados - alguns em estreia absoluta no nosso país - no programa. Não cheguei a tempo de ver o concerto de Joel Xavier, mas o primeiro dia, quinta-feira, compensou largamente a longa viagem (três horas e meia de comboio e uma hora de metro entre Campanhã e a Póvoa) com um fabuloso concerto, no palco principal, do baterista nigeriano Tony Allen - aquele que Fela Kuti teve que substituir por três bateristas depois de o despedir -, muito bem acolitado por uma banda mista de músicos negros e brancos que serviram um poderosíssimo cocktail de afro-beat, funk, soul e jazz on the rocks, sempre com o mestre Allen a comandar a «orquestra» com mãos... de veludo. No segundo dia, no Diana Bar, a abertura deu-se com um maravilhoso espectáculo semi-musical semi-teatral dos almadenses O'QueStrada, desconstrução e reinvenção de fados, mornas, bossas e outras músicas, com a cantora Miranda a seduzir o público e o guitarrista a rappar e a raggar e a dançar. Para continuar, no palco principal, com uma grande surpresa: o cantor cipriota grego Alkinoos Ioannidis, que começou o concerto com algumas alusões ao rock progressivo mas seguiu depois por um caminho mais lírico, mais etéreo e encantatório que revelou momentos de uma beleza imensa. A noite terminou com a dupla de DJs Raquel Bulha e Álvaro Costa, que - num belíssimo anfiteatro também perto da praia - misturaram world, rock e pop, explicando sempre, em jeito radiofónico e didáctico, o que estavam a passar. No sábado, e depois de uma actuação bailante e contagiante dos italianos Anonima Nuvolari perto da praia e na Rua Junqueira - que terminou com muita gente a dançar o «Bella Ciao» - e do excelente jazz subtilmente contaminado pelo tango e pelas milongas dos argentinos Escalandrum, no Diana Bar, outra surpresa: os brasileiros Eddie tomaram de assalto o palco principal com a sua visão personalizada do mangue beat, em que se podem encontrar pontos de contacto com a Nação Zumbi, Carlinhos Brown ou os Mestre Ambrósio, mas sempre com uma frescura e uma alegria contagiantes. Uma festa que seguiu depois para o Anfiteatro com mais uma sessão furiosa, inventiva e movimentadíssima do grande Bailarico Sofisticado (e a festa não terminaria sem um after-hours, madrugada fora, numa esplanada e na... praia com os Anónima Nuvolari a comandar a jam). Domingo, último dia, mais festa pelas ruas da cidade com os sintrenses Kumpa'nia Al-gazarra, trupe pseudo-balcânica que «engana» toda a gente com as suas vestimentas, caras farruscas e instrumentos já muito bem oleados na arte de mimar as «ciganadas» de Leste. E, para terminar o Festival em beleza, o melhor concerto de todos: os fabulosos catalães La Troba Kung-Fú (na foto, de Marta Pujol), alguns deles saídos dos seminais Dusminguet, que pegaram fogo ao recinto com muitos ritmos latino-americanos (salsa, son, cumbia, mariachi, ranchera...) à mistura com punk, ska, alusões a manhosices eighties como o... «Eye of The Tiger»; e tudo isto ao serviço de uma rumba catalã que está mais viva do que nunca! Um festival que também foi feito da companhia de bons amigos; de uma ementa rica em rojões, tripas, francesinhas, filetes de polvo e pescada; e com o mar ali ao lado (ali ao lado das músicas). Pode querer-se melhor?

28 agosto, 2007

Festival Planície Mediterrânica - Muitas Músicas em Castro Verde


Mesmo na chamada «silly season», as Crónicas da Terra do camarada e amigo Luís Rei continuam atentíssimas ao que se passa à nossa volta nestas coisas da world/folk/etc. (passem por lá que há mais novas sumarentas). E é das Crónicas que eu saco mais uma notícia, desta vez relativa ao Festival Planície Mediterrânica, que decorre em Castro Verde - integrado no Sete Sóis Sete Luas - entre os dias 13 e 16 de Setembro, com concertos dos Vaguement La Jungle (França; na foto), Café Aman (Grécia/Turquia), Lautari (Sicília - Itália) e La Gialleta (uma produção do festival que reúne as gémeas bascas Ttukunak, em txalaparta, o português José Barros, dos Navegante e Quatro ao Sul, e os italianos Mimmo Epifani, no bandolim, e Erasmo Trenglia, no violino), o «novo circo» dos franceses Galapiat, espectáculos de cante alentejano, ateliers de danças tradicionais promovidas pela Pé de Xumbo e bailes «mandados» pelos portugueses Fol&ar e os turcos Gevende. Todas as informações aqui.

27 agosto, 2007

Iberfolk - II Edição Confirmada na Sortelha



De regresso às lides - ainda com os bolsos cheios de areia algarvia e apenas por alguns dias antes de ir até à Póvoa de Varzim para o nóvel Músicas do Mar - aqui fica, com júbilo, a notícia da confirmação da realização do II Iberfolk, na Sortelha, aldeia próxima do Sabugal, nos dias 7, 8 e 9 de Setembro. Com um programa ainda aberto a sugestões de quem queira participar com actividades várias - «além das actividades planeadas deixaremos a cada um propor e realizar o que entender. Existirá, durante o festival, um placard onde cada um poderá indicar a hora e local da actividade que pretende realizar. Não há limites ao tipo e natureza de actividades, desde que a logística esteja assegurada. Fica na vossa mão fazer workshops, sessões de debate, percursos, projecção de filmes, o que quiserem. Sortelha e todos nós estaremos lá para participar. O lema é: "Constrói o festival"» -, mas já com o programa-base delineado e confirmado. Este: Dia 7, 15h00 - Escalada no castelo, 19h00 - Observação solar, 22h00 - Pé Na Terra, 23h30 - Projecção do documentário «Arritmia», de Tiago Pereira, 23h30 - Hora Do Conto I - Marco Luna, 24h00 - Ventos Da Líria (e ainda, após as 22h00 - Observação astronómica); dia 8, 15h00 - Escalada no castelo, 15h30 - Workshop de Danças Tradicionais I, 16h00 - Caminhada «À descoberta de moinhos de água», 17h00 - Workshop de Adufe, 17h00 - Workshop de Danças Tradicionais II, 19h00 - Workshop «Mergulhar no Corpo», com Sandra João, 19h00 - Workshop de Ioga, 21h00 - Adufeiras de Paúl, com participantes de Workshop de Adufe, 22h00 - Diabo A Sete (cujo excelente álbum de estreia, «Parainfernália», está na calha para crítica próxima; na foto), 23h30 - Projecção do documentário «11 burros caem num estômago vazio», de Tiago Pereira, 23h30 - Hora Do Conto II, com Marco Luna, 24h00 - Tor; dia 9, 15h00 - Escalada no castelo, 15h30 - Workshop de Danças Tradicionais III, 15h00 - Caminhada «Serra de Malcata», 19h00 - Teatro de Marionetas «Tobias», 17h30 - No Mazurka Band (Baile/Workshop/Animação), 21h30 - Hora Do Conto III, com Marco Luna, 22h00 - Mosca Tosca. Mais informações aqui.

15 agosto, 2007

Sons do Atlântico - A Rainha, os Plebeus e os Infantes



O Sons do Atlântico, no lindíssimo promontório de N.Sra. da Rocha, em Lagoa, é ainda um festival pequeno - em número de assistentes - mas já bastante consistente em termos artísticos e com argumentos suficientes para se impor como mais uma etapa incontornável no roteiro de festivais de Verão da chamada world music. E se, o ano passado, o alinhamento do festival foi mais arriscado e aventuroso - apostando em nomes como Mercan Dede e Mercedes Péon, ambos a assinar concertos de nível altíssimo -, o elenco deste ano, embora alinhando nomes mais consensuais, foi também de altíssima qualidade. A começar logo no primeiro dia, com uma Lura deslumbrante, «animal de palco», a arrancar coros e aplausos de uma plateia cheia, cativando muitos cabo-verdianos e toda a gente das outras nacionalidades. Uma Lura segura, dona de uma voz maravilhosa, boa dançarina, a distribuir bem pelo espectáculo coladeiras, mornas, batuques e funanás, apelando a canções do novo álbum (como o tema-título «M'Bem Di Fora», «Ponciana» ou o lindíssimo «Bida Mariadu») mas também a sucessos mais antigos, como a inevitável «canção de embalar» «Na Ri Na» ou «Vazulina». Foi Lura, sem dúvida, a rainha absoluta do festival. Na noite seguinte, os Macaco, plebeus da Catalunha e de outros lugares, deram outro concerto fabuloso, conquistando toda a gente com a sua garra, alegria, inventividade - uma inventividade imensa que lhes permite misturar como ninguém inúmeros géneros musicais, e de uma maneira que soa sempre consistente, madura, original... Pontos altos do concerto - no meio de muitos mais, entre os quais os coros e coreografias que arrancaram do público em muitos momentos do espectáculo - foram os diálogos do guitarrista, nessa altura no oud árabe, consigo próprio em ecrã, do percussionista, bis (consigo próprio em ecrã), e a banda toda unida numa batucada quando alguém desligou o gerador a meio de uma canção e deixou de haver electricidade no recinto. Outros plebeus em alta, estes irlandeses, os Kíla encerraram o festival com mais uma demonstração de profissionalismo enorme e assinando momentos de altíssima música, quando o bodhran dialogava em alta velocidade com o violino ou as uilleann pipes num molho de folk progressiva - e aqui, a palavra «progressiva» é mais que um elogio! - ou quando aos jigs e reels se juntavam, aqui e ali, alusões à música árabe, à música latino-americana ou quando, como no final, protagonizam uma espantosa aproximação aos espirituais zulus da África do Sul. E, se os concertos dos três cabeças-de-cartaz foram muito, muito bons, os músicos e cantores das «primeiras partes» cumpriram bem o papel de infantes, mais do que de pagens ou acólitos: a cantora guineense Eneida Marta (com um super-grupo pan-africano onde pontifica Ibrahima Galissá na kora) e os seus n'gumbés e tinas; o jovem grupo andaluz Cadencia - ao qual se augura um futuro brilhante! - e o seu flamenco enfeitado de muitas músicas; e os cada vez mais consistentes algarvios Marenostrum, ali reforçados por um quarteto de saxofones que levou a música do grupo para caminhos originais e inesperados. Haja festival!

10 agosto, 2007

Raízes e Antenas - Vinte Dias (quase) de Férias



O Raízes e Antenas vai estar fechado (embora não completamente...) durante vinte dias. As excepções serão a reportagem sobre o festival Sons do Atlântico, em Lagoa, e - provavelmente - sobre o novo festival Músicas do Mar, na Póvoa de Varzim. De resto, o meu tempo será reservado para a família, banhos de mar, são convívio com muitos cães e gatos, uma ou duas visitas a Cacela-a-Velha para as melhores ostras do mundo, ouvir alguma música (o vício! o vício!) e pôr muitas leituras em dia. Em Setembro - e mesmo com outros afazeres no horizonte, nomeadamente o lançamento e acções de promoção do meu livro «As Lendas do Quarteto 1111», editado pela Ulisseia - o Raízes e Antenas retomará o ritmo normal, com novos posts todos os dias (ou quase), estando desde já prometidas matérias sobre a tarrachinha - a música mais sexy do mundo!!! - e outros ritmos angolanos e recensões a muitos discos que estão em atraso (cabo-verdianos da Lusáfrica; novas cantoras folk britânicas; música indiana ou de inspiração indiana; mais música cigana de Leste; etc...). Até já!

08 agosto, 2007

Festival Sons do Atlântico - É Já Este Fim-de-Semana!



A edição deste ano do Festival Sons do Atlântico, que decorre em Porches, Lagoa, começa já na sexta-feira. E, para refrescar a memória, aqui fica novamente o programa do festival: dia 10 de Agosto há concertos da luso-cabo-verdiana Lura e da guineense Eneida Marta, dia 11 podemos assistir ao flamenco (e muito mais à volta) dos andaluzes Cadencia e ao concerto do grupo catalão, padrinho da designação deste blog, Macaco, e dia 12 aos espectáculos dos algarvios Marenostrum e dos irlandeses de música «celta» nada ortodoxa Kíla (na foto). O Raízes e Antenas vai lá estar e fica desde já prometida a respectiva reportagem para o início da próxima semana.

07 agosto, 2007

Músicas do Mar - Novo Festival de World Music



É só a primeira edição, mas é um bom balão-de-ensaio para outras que aí podem vir: o nóvel festival Músicas do Mar decorre de 30 de Agosto a 2 de Setembro, na Póvoa de Varzim, com organização da autarquia local, e apresenta um programa bastante variado onde se incluem concertos e sessões de DJ em vários locais da cidade. O festival arranca, dia 30, com concertos do guitarrista português Joel Xavier (Diana Bar, 21h00) e do lendário baterista de Fela Kuti e um dos papas do afro-beat Tony Allen (na foto; Passeio Alegre, 22h15). No dia 31 há concertos dos almadenses O'QueStrada (Diana Bar, 21h00) e do cantautor cipriota Alkinoos Ioannidis (Passeio Alegre, 22h15) e uma sessão de DJs por Raquel Bulha e Álvaro Costa (auditório ao ar livre, meia-noite). Dia 1, o festival prossegue com concertos dos italianos Anonima Nuvolari (nas ruas da cidade, 18h30), dos argentinos Escalandrum, liderados pelo neto de Ástor Piazzolla, Daniel «Pipi» Piazzolla (Diana Bar, 21h00) e da banda Eddie, brasileiros do mangue-beat de Olinda (Passeio Alegre, 22h15) e uma sessão de DJs de outro colectivo de amigos, o Bailarico Sofisticado (auditório ao ar livre, meia-noite). Finalmente, no dia 2, há concertos da Kumpa'nia Al-gazarra (ruas da cidade, 18h30) e da banda catalã de «son mestizo» La Troba Kung-Fú (Passeio Alegre, 22h15). Mais informações aqui.

06 agosto, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXIV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXIV.1 - Crioulo




É comum ler-se ou saber-se que um determinado artista «canta em crioulo». Mas qual crioulo? E que raio é isso da língua crioula?... A verdade é que há muitos crioulos - estão identificados e estudados cerca de 80 - e que o «crioulo» está espalhado por vários continentes. Historicamente, o primeiro crioulo identificado como tal foi a chamada «língua franca», baseada no italiano e falada pelos Cruzados na Idade Média. Mas, depois disso, muitos crioulos nasceram, principalmente nas zonas em que escravos africanos (ou outros) de várias origens pegaram na língua dos «senhores» e as transformaram numa língua híbrida, entendível por falantes oriundos de várias etnias. Para resumir - e apesar da complexidade do tema - digamos que, na origem, os actuais crioulos têm geralmente uma língua-base «dominante» (o inglês, o francês, o português...) e elementos de outras línguas da zona natal ou de origem dos seus falantes.


Cromo XXIV.2 - George Harrison




É agora um dado adquirido que os blues - e por arrasto, o rock - nasceram na zona mandinga de África. Assim como se percebe cada vez melhor como «outras músicas» influenciaram os primeiros tempos do rock'n'roll: da música mexicana em Ritchie Valens à música do Médio Oriente no surf-rock de Dick Dale. Mas, nos anos 60, o primeiro contacto de milhões de fãs de rock com músicas «estranhas» deu-se através dos Beatles e, mais concretamente, de George Harrison, que incluiu a sitar e a tambura indianas no som do grupo. Fascinado pela música de Ravi Shankar, George Harrison introduz a sitar na música anglo-saxónica na canção «Norwegian Wood (This Bird Has Flown)», do álbum «Rubber Soul» (1965), converte-se ao hinduísmo e arrasta os outros Beatles para a Índia. Foi ele o responsável pela presença de Shankar no festival de Monterey e o produtor do single «Hare Krishna Mantra», do London Radha Krishna Temple.


Cromo XXIV.3 - Osibisa



Muitas vezes considerados como os «padrinhos da world music», os Osibisa nasceram em 1969 em Londres, liderados pelo cantor e saxofonista ganês Teddy Osei, ladeado por mais dois músicos do Gana - Sol Amarfio (bateria) e Mac Tontoh (trompete) -, um nigeriano - o percussionista e saxofonista Lasisi Amao - e três caribenhos: Spartacus R (baixo; de Granada), Robert Bailey (teclas, de Trinidad) e Wendell Richardson (guitarras; de Antígua). Ao longo dos anos, outros músicos - como os ganeses Darko Adams Potato e Kiki Djan - passaram pela banda mas foi essa primeira formação que os lançou para a fama mundial, mercê de uma mistura explosiva e hiper-dançável de highlife, música das Caraíbas, funk, R&B e jazz. Álbuns como «Osibisa» e «Woyaya» (ambos de 1971), «Superfly TNT» e «Osibirock» (ambos de 1974) e canções como «Sunshine Day» ou «Ojah Awake» são ainda hoje clássicos abslutos. Ainda andam por aí.


Cromo XXIV.4 - The Klezmatics



A música klezmer - que tem as suas raízes remotas no séc. XV, no seio das comunidades judaicas do centro europeu, e é fixada como género na primeira metade do séc. XX - tem hoje num grupo nova-iorquino, os Klezmatics, o seu maior expoente mundial. É justo: os Klezmatics, judeus pouco ortodoxos que defendem a paz entre Israel e a Palestina, que cantam loas ao haxixe e dedicam discos a rabinos homossexuais, fazem da melhor música da actualidade, juntando a música klezmer ao jazz, ao punk, ao ska, à música árabe e, mais recentemente, à folk norte-americana, via canções de Woodie Guthrie (cf. em «Wonder Wheel», de 2006). Nascidos em 1986, em Nova Iorque, Estados Unidos, encabeçados pelo trompetista Frank London e pelo vocalista e acordeonista Lorin Sklamberg, assinaram desde aí alguns álbuns geniais, dos quais se podem destacar «Rhythm and Jews», «Possessed», «The Well» (com Chava Alberstein) e «Rise Up!».

04 agosto, 2007

Festa do «Avante!» - Com Levellers, Fanfare Ciocarlia, Toumani Diabaté...



Falta pouco mais de um mês para a Festa do «Avante!» e o programa já está quase todo completo, pelo menos o dos palcos principais. E um programa que inclui algumas belíssimas surpresas, à semelhança do que já tinha acontecido o ano passado, estando assim a Festa - que decorre dias 7, 8 e 9 de Setembro, mais uma vez na Quinta da Atalaia, Amora, Seixal - a regressar aos tempos áureos dos anos 70 e 80. Veja-se só: como atracções internacionais a Festa recebe a charanga romena Fanfare Ciocarlia (na foto), acompanhada por vários dos convidados que também participam no recente álbum «Queens and Kings», uma autêntica irmandade cigana: a diva Esma Redzepova (Macedónia), Jony Lliev (Bulgária), Kaloome (França) e Florentina Sandu (a neta de Nicolae Neacsu, dos Taraf de Haidouks; Roménia); do Mali - e de outros lugares do antigo império mandinga - chegam o mestre da kora Toumani Diabaté e a sua Symmetric Orchestra; de Inglaterra vêm os veteranos do folk-rock Levellers; e dos Estados Unidos os blues do colectivo Chicago Blues Harp All Stars. No jazz, o destaque vai para o projecto Carlos Bica & Azul (em que o contrabaixista português é acompanhado pelo guitarrista alemão Frank Mobus e o baterista norte-americano Jim Black, grupo que protagonizou um dos melhores momentos - juntamente com o DJ Ill Vibe - do recente FMM de Sines), os Telectu (com Vítor Rua e Jorge Lima Barreto a serem acompanhados pelo baterista holandês Han Bennink e e o manipulador de electrónicas italiano Walter Pratti), o projecto In Loko de Carlos Barretto, o Sexteto de Mário Barreiros, o quarteto do contrabaixista Matt Pavolka e a cantora Jacinta (interpretando canções de José Afonso). Também a cantar José Afonso estarão o grupo luso-brasileiro Couple Coffee e a fadista Cristina Branco. Fado que terá uma noite especial com a presença de Ricardo Parreira e Fernando Alvim, Raquel Tavares, Chico Madureira, Aldina Duarte e Rosa Madeira, e ainda alguns «desvios» através dos Deolinda e do projecto In-Canto (de Luísa Amaro e Miguel Carvalhinho). Uma homenagem a Adriano Correia de Oliveira pela Brigada Vítor Jara e o cantor Manuel Freire, o super-grupo Sons da Fala - que reúne Sérgio Godinho (Portugal), Vitorino Salomé (Portugal), Tito Paris (Cabo Verde), Janita Salomé (Portugal), Luanda Cozetti (Brasil), Juka (São Tomé e Príncipe), André Cabaço (Moçambique), Guto Pires (Guiné Bissau) e Quikkas (Angola) e concertos especiais dos Blasted Mechanism (com o guitarrista António Chaínho e a Kumpa'nia Al-Gazarra como convidados) e a Tora Tora Big Band (reforçada pelas vozes de Milton Gulli, André Cabaço e Kika Santos) são mais alguns dos momentos de grande interesse da Festa. O rock dos Blind Zero, dos Peste & Sida e dos Anti-Clockwise, o rap de Chullage e de Sam The Kid, o projecto KoraSons (liderado pelo guineense Ibrahima Galissá, na kora, e o dinamarquês Mads Hoff, na guitarra), o super-grupo de música tradicional Quatro ao Sul (que reúne Rui Vaz e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, com José Barros, dos Navegante, e Pedro Mestre), o grupo de versões de música de intervenção TriVenção e o Low Budget Research Kitchen (banda de tributo a Frank Zappa) também já estão confirmados no menu musical da Festa do «Avante!» deste ano. Um luxo.

03 agosto, 2007

Galandum Galundaina no Festival Celta de Santulhão



A sétima edição do Festival de Música Tradicional/Celta de Santulhão, que fica perto da vila transmontana de Vimioso, realiza-se no próximo dia 14, com o sub-título «Já Chegaram os Gaiteiros». E com o seguinte programa: 16h00 - Passeio de Burros; 20h00 - Arruada de gaiteiros mirandeses; e, a partir das 22h00, começam os concertos com os Ranchada (Santulhão, Portugal), Galandum Galundaina (na foto; Portugal), De Mar a Mar (Espanha) e Charanga do Zeek i Trasgo (Portugal). Com entrada livre, a organização do Festival Tradicional/Celta é da AMS - Associação de Melhoramentos Santulhana, com apoio de Câmara Municipal de Vimioso e da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino. Mais informações, aqui.

Intercéltico de Sendim - Começa Já Hoje!



Infelizmente não posso ir até lá, mas aqui fica - em jeito de muito fraca consolação - a recuperação da notícia anteriormente publicada neste blog acerca do Intercéltico de Sendim, que começa já hoje: O 8º Festival Intercéltico de Sendim decorre este ano nos dias 3, 4 e 5 de Agosto, no Parque das Eiras, com actuações, no primeiro dia, dos Trasga (grupo da Terra de Miranda, Portugal), dos Tradere (de Castela e Leão) e do excelente grupo irlandês/norte-americano Solas. No dia seguinte actuam os Dazkarieh (Portugal), o basco da trikitixa voadora Kepa Junkera (na foto) e os veteranos e festivos irlandeses Four Men and A Dog. Também no dia 4 há animação de rua com a Banda de Gaitas de Ortigueira e no domingo, a encerrar o Festival, Célio Pires (gaita-de-foles, fraita e sanfona) dá o envolvimento musical a uma missa tradicional mirandesa. Paralelamente, as noites na Taberna dos Celtas serão, como é habitual, animadas com jam-sessions; decorre a exposição fotográfica «A Máscara Ibérica»; a exposição documental «José Afonso - Vinte Anos Depois»; haverá passeios nas arribas do Douro; bancas de artesanato, produtos naturais, discos, livros, intrumentos musicais e bebidas («licor celta e outras poções mágicas») no Parque das Eiras; e haverá ainda apresentações de discos e livros, conferências, debates e workshops. Mais informações aqui.

02 agosto, 2007

Uxía - Um Álbum Luso-Galego-Africano



Quando se fala do grande caldeirão que é a lusofonia - se é que a lusofonia existe, e na minha opinião existe enquanto ideia de irmandade de povos próximos, histórica ou geograficamente, que partilham uma língua ou várias línguas que têm o longínquo galaico-português como raiz comum - muitas vezes esquece-se, exactamente, a Galiza, a Galiza que nos está aqui tão perto. E esquecêmo-lo mais, muito mais, do que muitos dos nossos irmãos galegos. Por isso, não é de estranhar que - depois de várias iniciativas ocorridas na Galiza, nomeadamente os espectáculos «Cantos na Maré» ou a recente homenagem luso-galega-africana a José Afonso - o novo álbum da cantora galega Uxía seja uma celebração desse conceito alargado de «lusofonia» e em que colaboram músicos e cantores como os cabo-verdianos Tito Paris e Jon Luz, a luso-cabo-verdiana Sara Tavares, os açorianos Zeca Medeiros e Paulo Borges, os portugueses Sérgio Godinho, Rui Veloso, Júlio Pereira, Mário Delgado, Filipa Pais, Amélia Muge e João Afonso, o guineense Manecas Costa ou as cantoras galegas Ugía Pedreira (Marful e Nordestin@s) e Guadi Galego (Berrogüetto e Nordestin@s), entre outros. O álbum, que tem edição marcada através da Nordesia para Outubro, é apresentado como o trilhar de «camiños partindo da tradición galega para encontrar sonoridades atlánticas e ritmos africanos... Dende varios puntos da Lusofonía veñen sons e ritmos que se mesturan coa melodiosa voz e o estilo intimista de Uxía, nunha pluralidade de linguaxes oídas nun só idioma». Promete!

01 agosto, 2007

FMM de Sines - «Os Gamíadas» (ou Um Proto-Poema Semi-Épico - Conclusão)



Das Descobertas, Batalhas e Combates na Praia e no Castelo

Qual fero Adamastor, com as suas ameaças
Recebemos anónimas mensagens (do Cristiano)
Mas não perdes pela demora, oh Dragão das Taças
Havemos, oh celta falso, de nos encontrar p'ró ano!


Com Clash, oud, darabuka e sabedoria
Eis agora o enorme mouro, o Rachid Taha
Que gosta muito mais do galo champanhe
Do que da menta da sua terra: o bom chá


Ele há teutões que não batem bem do coco
Ele há helvéticas que põem o povo louco
Ele há bretões que fazem soar a bombarda
Ele há saxões que da folk fazem atoarda
Ele há romanos que dão grande chavascal
E, todos, todos, todos, não se saíram nada mal!


Oh África, África, nossa Terra-Mãe Comum
Ulularam as Tartit, cantou bem a Sangaré
E cantou o cota Ahmed e ainda mais um:
O glorioso K'naan, que ao 50 Cent bate o pé
Ao 50 Cent bate o pé, aos Limp Bizkit também
O jovem K'naan, que foi salvo por sua mãe
E se lerem isto em rap, do rap façam lição
Mas se for em baile mandado, talvez sim, talvez não
Talvez sim, talvez não, talvez cheguemos ao Brasil
Com o bandolim do Hamilton que do Pereira faz mil
Ou talvez ao Harry Manx, blues com sabor a caril
Blues com sabor a caril, que são ali do Canadá
Oh América, América, oh América coisa má
Diz um quarteto de saxofones que é do melhor que há...


Descobrimos das orientais electrónicas os odores
Quando arribámos ao mar bravo do Japão
O que nos salvou foi o indiano dos tambores
Deus das tablas Gurtu, que toca aquilo à mão


Dos odores do reggae houve um cheirinho
Um cheirinho que não era mesmo nada mau
Mas este cheirinho de que todos nós gostámos
Não era do Bitty McLean... Era do manhanhau


E que povos tão estranhos são estes Gogol Bordello
Comunistas! Ciganos! Punks! Até um preto no baixo!
Na refrega, no mosh, nosso Pedro perde óculos e cabelo
Calma, filho, calma: enrola aí um que eu já os acho


No fragor da batalha, com o castelo em chamas
Estalar de fogo, um cheiro a pólvora pelo ar,
Já todos ansiamos pelas nossas pátrias camas
Mas a cama pode esperar! Havemos todos de bailar!


A Festa, A Festa... e Dedicatória Final aos Amigos


O escriba zarolho e seu amigo Gonçalo
Com muitos discos e apenas dois pratos
Puxaram a dança até ao cantar do galo
Passando, enfim, da teoria aos actos


Há muitos milhares de pessoas a dançar
Ao grande som do Bailarico Sofisticado
Festejamos todos juntos o gosto de viajar
E abraçamos os amigos: muito obrigado!


(Cheia está a Lua e já vai nascendo o Sol
Deixa-me dormir agora dentro do teu lençol)


Em Sines, ao lado da do Vasco da Gama
Ergueremos estátua ao Almirante Seixas
Que já o supera em engenho, arte e fama
E a todos deixa sem mágoas nem queixas


Na foto (do grande João Gonçalves): os bailadores ao som do Bailarico Sofisticado, num último adeus ao festival, já o sol tinha nascido sobre a Avenida da Praia Vasco da Gama, em Sines