09 fevereiro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XII.1 - Ástor Piazzolla


Símbolo maior do tango e da sua renovação - o «nuevo tango» -, o músico e compositor argentino Ástor (Pantaleón) Piazzolla (nascido a 11 de Março de 1921, em Mar del Plata, Argentina; falecido em 4 de Julho de 1992) foi também o intérprete maior de um instrumento, o bandoneón, que está agora indelevelmente ligado a esse género musical feito de paixão, sangue e alma. Incorporando no tango outros elementos musicais - o jazz e a música erudita (bem presentes em temas como inesquecível «Libertango») - Piazzolla transportou o género de casas de má-fama em Buenos Aires para os grandes palcos do mundo, sem nunca por isso esquecer as suas origens e a sua verdade. Piazzolla viveu durante alguns anos da sua infância e juventude em Nova Iorque, o que poderá explicar a sua abertura ao jazz e a outros géneros musicais. Mas isso não explica completamente o seu génio absoluto e tudo o que pelo tango - e pela música - fez em toda a sua obra. Enorme!


Cromo XII.2 - Concha Buika


O nome é lindíssimo e, passe a piada, enche a boca: Concha Buika. Cantora de origem africana (Guiné-Equatorial), Concha nasceu na cidade espanhola de Palma de Maiorca, em 1972, e passou os primeiros anos da sua vida no meio da comunidade cigana local. E o resultado desta estranha «mestiçagem» só podia dar nisto: uma cantora que, na sua música, mistura jazz, boleros, flamenco, funk, música africana. A pedra de toque para a sua original fusão musical dá-se em Londres, durante um concerto de Pat Metheny, que a leva a fazer música com instrumentistas americanos e marroquinos, ao teatro com La Fura dels Baus, ao cinema e à música... house. E, depois, à sua visão pessoal de uma música sem fronteiras em que o jazz, a tradição andaluza, África, o tango e mil outras músicas não conhecem fronteiras nem passaportes. Audição aconselhada: o álbum «Mi Niña Lola» e o mais recente «Niña de Fuego».


Cromo XII.3 - Márta Sebestyén & Muzsikás



A cantora húngara Márta Sebestyén - uma das melhores e mais respeitadas em todo o universo folk/world actual -, nascida a 19 de Agosto de 1957, tem uma distinta carreira feita em nome próprio e em colaborações com jovens grupos húngaros ou com grupos estrangeiros como os duvidosos Deep Forest ou os misteriosos e fantásticos Towering Inferno. Márta é também a voz inesquecível da banda-sonora de «O Paciente Inglês». Por sua vez, os Muzsikás são a maior instituição da música tradicional húngara, descobrindo as origens ciganas ou judaicas da sua música, visitando compositores como Zoltan Kodaly ou Béla Bartók, arrasando tudo à sua passagem com os seus violinos, contrabaixos, koboz, gardon e cimbalom. Mas, ao longo das suas carreiras, é mesmo quando a voz de Márta e os instrumentos dos Múzsikas se juntam - em álbuns e ao vivo - que a verdadeira, a grande magia acontece.


Cromo XII.4 - Farinha Master


Os seus concertos eram uma surpresa constante. Neles poder-se-ia ouvir fado mutante em electrónica lo-fi, poesia concreta transmutada em hard-rock manhoso, música minimal-repetitiva passada por uma peneira minhota. E relatos de futebol e transmissões do 13 de Maio e discursos políticos. O génio irrequieto, talvez doentio, «arrasa-paredes», de Farinha Master (de verdadeiro nome Carlos Cordeiro, nascido em 1957, falecido a 18 de Fevereiro de 2002), filtrado através do seu grupo mais lendário, os Ocaso Épico, só ficou registado em disco no álbum «Muito Obrigado» (1988) mas, principalmente, no tema «Intro» (com Anabela Duarte), da primeira colectânea da Dansa do Som, «Ao Vivo no Rock Rendez Vous». Farinha ainda passou pelos WC (antes dos Ocaso Épico) e pelos Zao Ten, K4 Quadrado Azul, The Pé e Angra do Budismo (depois). Uma figura ímpar.

12 comentários:

Joana Santos (STRITH) disse...

Bom Dia!

Nao podia deixar de encontrar um cantinho de forma a agradecer os dois comentarios que fez no meu blog. Quanto à gripe... com a forte gripe que tive (felizmente estou melhor pois estou a tomar cerca de 6 medicamentos) seria capaz de a "pegar" a todos os animaizinhos ate mesmo às pobres aves =)

Realemente o tempo passa e ja fiz 23 anos e ja agora relembro que... fez no dia 3 um aninho que esta chata estava a referir "diga aveiro, diga aveiro no seu artigo" =) como o tempo passa e como dá tantas voltas que me faz hoje estar a comentar o seu blog

Continue com a selecção dos cromos raizes e antenas, tenho seguido com atenção embora nem sem comente (minha culpa)

Bom resto de sexta feira que o meu infelizmente vai ser na cama, que tem sido a minha melhor amiga desde 2ª feira =( mas dia 12 ja começam as aulas e lá vou eu ate à invicta!

Anónimo disse...

Um cromo do Farinha Master... és grande, António.

ygg

António Pires disse...

Olá Joana,

Continuação das melhoras (pelo menos para aproveitar o fim-de-semana aveirense)...

E olá Ygg,

Grande era ele! Era tão bom que ainda se viesse a fazer uma compilação em CD do que o Farinha deixou gravado... O problema é que as gravações nunca lhe fizeram justiça. Ao vivo é que era...

Anónimo disse...

Olá lá que bela edição para a "tal" netlabel... tenho em casa concertos de Zao Ten, de Ocaso Épico à Porta da Esbal e muitas demos de muitos temas que não foram além do Atari e do gravador de quatro pistas...

ygg

ANNA-LYS disse...

Olá António,

Just to wish you a wonderful weekend :-D

Kram,

Anna-Lys

António Pires disse...

Olá Ygg (bis)!

Isso é que era uma grande ideia!!! E gostava imenso de saber se alguém tem a gravação de um concerto fabuloso dos O.É. na FCSH onde deviam estar umas 15 pessoas no público... Mas não deve haver :-(

(and) Olá Anna!

I wish a great weekend for you too!! :-D

JAP disse...

Ainda tive a oprtunidade de ver o Farinha ao vivo. Nem fazia ideia que havia falecido.

Rini Luyks disse...

Caro António,

Muito a propósito esta homenagem ao Farinha Master. Ainda fiz parte (durante um ano) da banda Ocaso Épico logo depois da saída do album. Participámos num dos últimos concertos no Rock Rendez Vous, um pequeno festival em época de Natal se nao me engano, nomes como Requiem, Ik Mux (com Armando Teixeira). A festa começou com muito atraso, já depois da meia noite, por causa do soundcheck. Tivemos a sorte de ser a primeira banda a tocar e Farinha abriu o concerto pendurado a uma viga com as palavras. "Olá, boa noite, nós vamos tocar 14 músicas!", levando ao desespero as outras bandas....
Tipicamente Farinha, como também a nossa entrada num estúdio RTP: Farinha levou uma carregada de utensílios agrícolas para tocar "rock rural", gozando assim com o playback obrigatório.
Em 1993 participei com ele no concurso de versões de músicas de Zeca Afonso, "Filhos da madrugada".
A nossa versão tribal de "Vai Maria Vai": eu nas teclas do sintetizador, Farinha flauta e voz e com participação especial da cantora Gil dos Lucretia Divina (a minha banda na altura) não ficou seleccionada, mas foi utilizada como banda sonora numa peça de teatro solo "As Bruxas" de Helena Flôr Dias. No dia 21 de Junho 1999 assistimos (eu, Farinha e Luís, o seu companheiro no projecto Angra do Budismo) à peça no Espaço Moira no Chiado. Foi uma noite tórrida de verão durante as Festas da Cidade, a operadora de som fez antes da peça começar a gracinha de colocar a coluna de som na janela aberta no 1º andar e quando nos subimos a Rua Garrett já de longe se ouvia a música "Vai Maria Vai" na nossa versão. Acho que Farinha ficou contente com isso, embora o "estrelato" lhe fosse completamente alheio.
A seguir ao teatro fomos ver o concerto do grupo finlandês "Värttina" ao ar livre, foi uma noite bem passada.
Depois perdi o contacto com o Farinha até saber do seu desaparecimento em 2002. A cassete com "Vai Maria Vai" guardo como uma relíquia preciosa.

Um abraço,

Rini Luyks

António Pires disse...

Olá Rini,

Obrigado por todas estas histórias sobre o enorme Farinha! Uh, e essa cassette é mesmo preciosa... Guarda-a bem porque nunca se sabe se a «memória futura» da música feita em Portugal não virá a precisar dela...

Abraços

Rini Luyks disse...

Com mais dois colegas, Rui Rebelo e Fernando Mota, tenho um (modesto) blogue sobre música e não só: http://anacruses.blogspot.com/ (com link para este blogue, claro)

Um abraço,

Rini Luyks

António Pires disse...

Olá Rini,

Irei visitar o blog, claro!

Felicidades e um abraço

Estereopositivo disse...

Tenho o Vinil "Muito Obrigado" dos Ocaso épico. Se alguem estiver interessado por favor contacte rafael.amorim@iol.pt