16 fevereiro, 2007

Luar na Lubre - Os Nossos Irmãos Galegos



Os Luar na Lubre são um dos mais importantes grupos folk galegos. Com uma carreira que conta agora cerca de vinte anos, o grupo difundiu por todo o mundo a música da nossa irmã Galiza, cruzou-se com muitos e variados músicos - irlandeses e mexicanos, bretões e argentinos e portugueses, da folk ou de outras áreas musicais -, numa busca incessante das raízes da música galega na sua Galiza, sim, mas também em Portugal, nos territórios e países ditos «celtas» e na América Latina. Um grande amor pela obra de José Afonso e, mais recentemente, a entrada na banda da cantora portuguesa Sara Vidal (que substituiu Rosa Cedrón) estreitaram ainda mais os laços entre nós, portugueses, e os Luar na Lubre. Em homenagem à banda, aqui fica uma entrevista publicada originalmente no BLITZ em Abril de 2002.



LUAR NA LUBRE
A LUA É UMA BARQUINHA

Ao longo de dezasseis anos, os Luar na Lubre confirmaram-se como um dos mais importantes nomes da cena folk da Galiza. De A Coruña para o mundo foi um passo, dado com firmeza e classe, por um grupo que respeita a tradição mas não se deixa dominar por ela, abrindo o seu som e ideias a outras músicas e culturas. Nesta conversa com Bieito Romero - gaiteiro, sanfoneiro e acordeonista do grupo - falou-se de tradição, de política, do movimento folk galego, do novo álbum que vem aí - «Espiral» - e do concerto que vão dar em Lisboa, esta semana.

Os Luar na Lubre nasceram em 1986, tendo como ideia-base a recriação do cancioneiro tradicional galego e cantando numa língua, o galego, que centenas de anos de tentativas de unificação espanhola e dezenas de anos de franquismo tinham tentado remeter para um canto esconso da memória. Diz Bieito: «No início começámos com a ideia de trabalhar sobre a cultura tradicional da Galiza. No aspecto da música tradicional havia muitas carências e a ideia era fazer chegar a música tradicional - que na sua origem é mais dura do que a nossa - a muito mais gente. Temos sete discos editados - já contando com "Espiral" - e a nossa trajectória é reconhecível desde o início até agora. Mas é claro que há uma evolução a nível pessoal, como músicos, a nível de grupo e até a nível ideológico - passados todos estes anos podemos falar com mais propriedade sobre muitas coisas». O percurso dos Luar na Lubre - uma viagem em que à música galega se podem juntar a música do norte de Portugal, bretã, irlandesa e escocesa, como se a barca tripulada pelos Luar na Lubre fosse aportar nos centros principais da cultura céltica - é paralelo ao de outros grupos e artistas galegos que partiram em busca de raízes comuns. «A folk, na Galiza, evoluiu mais ou menos da mesma maneira que nós. Há quinze, vinte anos, não havia nada mas acreditava-se que poderia haver um movimento; movimento que, de facto, aconteceu. No final dos anos 90 teve o seu pico, até a nível comercial, com alguns sucessos de vendas, não só na Galiza como em outras regiões de Espanha».

A questão seguinte é tentar saber se há algum posicionamento evidente, em termos políticos, dos Luar na Lubre, coisa que nas suas letras é, muitas vezes, mais indiciada do que declarada. Diz Bieito: «A música, mesmo quando está desligada da política, assume através da cultura um compromisso social, com a terra, com o idioma, com as nossas raízes...». Acrescento que, de uma maneira mais evidente, os autores de quem eles fizeram ou fazem versões, não eram propriamente inocentes em termos de posicionamento político: o português José Afonso, o chileno Victor Jara ou o poeta - assassinado durante a guerra civil espanhola - Federico Garcia Lorca. «Não queria dizê-lo de uma maneira tão óbvia, mas já que tu o dizes... (risos) Não queremos que nos liguem a nenhuma formação política concreta, mas há, de facto, directrizes, uma maneira de trabalhar, umas ideias e uns ideais... Somos galegos e temos um importante compromisso social e, principalmente, cultural com a nossa região. Os 25 anos de democracia em Espanha não trouxeram grande coisa à Galiza. No campo da música, não há o mínimo apoio político ou institucional ao nosso trabalho ou ao trabalho de outros grupos da mesma linha, ao contrário do que aconteceu na Irlanda, onde a música se tornou uma das mais importantes fontes de entrada de divisas. Na Galiza apoia-se a moda, os vinhos, o marisco. Não tenho nada contra, mas porque não a música?... É um valor tão exportável como os outros».

O desinteresse do poder central perante o movimento folk e da música tradicional na Galiza não impediu, contudo, que esse movimento crescesse imenso nos últimos anos, tanto a nível de grupos e artistas, como de escolas e orquestras que pegam nas gaitas-de-foles ou nas pandeiretas para se exprimir e transmitir as músicas ancestrais da Galiza. «A chave está no interesse genuíno das pessoas pelas raízes. Há uma consciência e uma militância muito grandes nas escolas de música tradicional. Antes de nós aparecermos, praticamente esse movimento não existia. Havia gaiteiros dispersos, praticamente não havia pandeireteiras e daí surgiu um mundo que, todavia, estava vivo. Nós surgimos nas cidades, alimentando-nos do património importantíssimo que vem das aldeias mas, ao mesmo tempo, pelo nosso trabalho, esse património regressa às aldeias e cresce».

Num grupo como os Luar na Lubre a etiqueta "música celta" é redutora ou não?... «Nós assumimos a etiqueta de música celta. Pertencemos a um universo atlântico, que engloba uma forma de ser, de viver, de compreender as coisas. E esta é uma cultura universal, ao contrário do que muita gente pensa. Encontramos galegos, irlandeses, etc., e os seus descendentes em muitas partes do mundo. Por exemplo, na América, com descendentes de irlandeses no Norte e de galegos no sul. Um dos nossos próximos projectos é, precisamente, tentar recolher de volta a música que os galegos levaram para a América do Sul e aí se desenvolveu» [Nota actual: projecto que veio a concretizar-se no álbum «Saudade»].

Este eixo «céltico» será ainda mais perceptível no próximo álbum do grupo, «Espiral», que conta com a produção - e gravação de alguns instrumentos - de um dos nomes maiores da folk irlandesa, Donal Lunny (fundador de grupos seminais como os Planxty, Bothy Band e Moving Hearts e produtor e/ou colaborador de gente tão diversa como Elvis Costello, Sinéad O'Connor, Clannad, Mark Knopfler ou Van Morrison), para além do acordeonista Mairtin O'Connor e da violinista Nollaig Casey. E Bieito está encantado: «A nossa música é muito mais bem compreendida em Dublim do que em Madrid. E esta foi a nossa primeira oprtunidade de trabalhar com músicos irlandeses... Donal manteve connosco uma relação de respeito absoluto. Mudou alguns pormenores aqui e ali, mas 99 por cento dos nossos arranjos foram mantidos. Ele - e o técnico de som Tim Martin - deu uma cor especial à nossa música. O som ficou mais aberto». Os Luar na Lubre são muitas vezes caracterizados como «folk de câmara», não sendo tão festivos, dançáveis ou físicos quanto outros grupos galegos. Bieito concorda, mas só até certo ponto: «Isso acontece mais nos discos do que nos concertos. Ao vivo temos essa parte da festa, apesar de termos uma parte lírica que gostamos que seja ouvida. Mas é verdade que por vezes nos acusam disso. Acho que o "Espiral" já se aproxima mais - se não totalmente, pelo menos em parte -, do nosso som ao vivo».

Falando em «som ao vivo», os Luar na Lubre tocam esta semana, dia 14, na Aula Magna, em Lisboa. E aí poderemos constatar a beleza das canções e dos arranjos de um grupo que através da voz e violoncelo de Rosa Cedrón, nas gaitas, acordeão e sanfona de Bieito e nas flautas, percussões, guitarra e bouzouki dos outros músicos do grupo, está com os pés bem plantados na tradição mas com a cabeça posta no futuro. Para Bieito, o concerto vai ser uma revisão de carreira - ao jeito do que se pode ouvir no álbum «Lo Mejor de Luar na Lubre - XV Aniversario», editado o ano passado -, mas também «já com alguns temas de "Espiral"». Da contribuição de Mike Oldfield para o reconhecimento internacional do grupo acabou por não se falar. Mas depois de tantas provas dadas pelo grupo, ainda seria necessário?

4 comentários:

Vanda disse...

Descobri algumas músicas dos Luar na Lubre, adorei! Entretanto ouvi albuns "Saudade" e "hay un paraiso" e ADOREI. Excelente mesmo. Gostava de saber por onde andam agora e os próximos concertos onde vão ser, principalmente em Lisboa.

António Pires disse...

Olá Vanda,

Para notícias sobre os concertos dos Luar na Lubre pode sempre visitar o site oficial do grupo: http://www.luarnalubre.com/

Obrigado pela visita

MUERTEVIDEANOS disse...

VI EN EL 2004 A LUAR NA LUBRE EN MI PAÍS URUGUAY, LES COMPRÉ HAI UN PARAISO EN ESE MOMENTO, ME PARECE UN GRUPO GRANDIOSO Y LAMENTO QUE NO TENGA LA FAMA INTERNACIONAL QUE MERECE, TAMBIÉN TENGO CABO DO MUNDO QUE ES UN DISCO QUE ME HA SALVADO LA VIDA...ALGÚN DÍA LES CONTARÉ.
MI BLOG: BLOGS.MONTEVIDEO.COM.UY/DICCIONARIO

António Pires disse...

Caro Dário:

Gracias por tu participacion! La nueva cantante de Luar na Lubre es portuguesa e tiene un blog llamado Sons Vadios. Puedes contá-lo a ella!

Un abrazo!