19 fevereiro, 2007

África Global - Reggae, Hip-Hop e Rock Ácido na Terra-Mãe


Se o «bom filho à casa torna», o mesmo acontece muitas vezes com a música, em viagens contínuas entre lugares de partida e chegada e partida outra vez. Hoje falo aqui de quatro álbuns, uns mais recentes que outros, quatro excelentes exemplos de músicos e grupos africanos que vão a Ocidente buscar de volta muita da música que um dia partiu de África e a este continente está agora a voltar: K'Naan e o grupo Daara J (na foto) no hip-hop, Tiken Jah Fakoly no reggae e Ba Cissoko na música mandinga mas com os blues e rock ácidos de Jimi Hendrix transpostos para koras acústicas e electrificadas.



BA CISSOKO
«ELECTRIC GRIOT LAND»
Totolo Limited/Megamúsica

O título do álbum não engana e é bem uma prova de que a influência de Jimi Hendrix é assumida claramente por Ba Cissoko e o seu grupo homónimo: «Electric Griot Land», variação sobre o título «Electric Ladyland», de Hendrix. Mas também está lá bem presente a palavra «griot». Um título perfeito para um álbum em que a música mandinga de raiz - e estão lá as koras e os balafons, as cabaças e os djembés em estado puro, e algumas canções tradicionais que os griots passaram de geração em geração, nas vozes - se funde na perfeição com os blues, o rock ácido de Hendrix, o psicadelismo, o dub (em «Adouna»), o hip-hop (K'naan é a voz convidada em «Silani»), o reggae (Tiken Jah Fakoly canta em «Africa» e em «On Veut Se Marier») e híbridos disto tudo com a ajuda do duo feminino franco-camaronês Les Nubians (em «Women [Dounia Guinee]» e em «Tjedo»), e também via guitarras eléctricas e koras em distorção. Um disco variadíssimo, riquíssimo, pulsante de ideias e uma música novíssima que só podia partir de África. Neste caso, da Guiné-Conacri, casa do cantor, compositor e tocador de kora acústica Ba Cissoko (Kemintan Cissoko) e da sua banda, onde pontifica Sekou Kouyaté, na kora electrificada, transformada e distorcida. (9/10)


TIKEN JAH FAKOLY
«TIKEN JAH FAKOLY»
Wrasse Records/Universal Music

Originário da Costa do Marfim, tal como Alpha Blondy, Tiken Jah Fakoly está também a crescer no circuito reggae mundial mercê de uma fusão muitíssimo bem-conseguida deste género jamaicano com músicas africanas de diversas proveniências (oiça-se o belíssimo «Alou Maye», que até tem ecos de fado!, um qualquer fado africano irmão da morna e primo da música mandinga), do norte árabe ao Ocidente dos griots - Fakoly nasceu no seio de uma família de griots -, com passagens pelo ragga e pelo funk. E neste álbum, homónimo (edição para o mercado anglo-saxónico do álbum «Coup de Gueule»), produzido por Tyrone Downie (o ex-teclista dos Wailers de Bob Marley), com a fabulosa secção rítmica formada por Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo), Fakoly dispara mensagens de paz, de solidariedade, de intervenção política (verificar por exemplo em «Quitte Le Pouvoir», endereçado ao presidente Laurent Gbagbo, que mandou assassinar vários amigos de Fakoly), cantadas em francês ou em línguas africanas. No álbum, para além de Sly & Robbie, participam ainda mais uns quantos convidados de luxo, entre jamaicanos e africanos, como U-Roy, Anthony B., o rapper Didier Awadi (dos Positive Black Soul), o griot Saramba Kouyaté e Yaniss Odua (cantor emergente da cena dancehall). Uma festa feita, também, para pensar e agir. (8/10)


DAARA J
«BOOMERANG»
Wrasse Records

O hip-hop é actualmente uma realidade incontornável em todo o continente africano - com grupos, DJs e MCs a nascerem um pouco por todo o lado. Entre eles, os senegaleses Daara J estão na linha da frente com um hip-hop nunca fechado nos parâmetros do género, antes abrindo-o a mil outros géneros musicais. À música africana, claro (e basta ouvir este álbum para perceber a riqueza meódica, rítmica e harmónica que os três Daara J encontram na música da sua terra-mãe), mas também indo a ritmos latino-americanos (como em «Esperanza» (numa electrizante parceria com Sergent Garcia), funk, reggae, música árabe, etc, etc., para desembocar por vezes numa música que só podia vir dali, de África (cf. em «Le Cycle», com a fabulosa cantora Rokia Traoré a dar uma ajuda). Curiosamente, ou talvez não, os Daara J defendem que o hip-hop não é uma invenção recente, norte-americana, mas que o «flow» dos rappers descende directamente de um estilo vocal senegalês, o tasso. Diz Faada Freddy, o líder dos Daara J, que «o "tasso" é a forma original do rap, uma antiga poesia rítmica passada de pais para filhos; uma poesia que fala da realidade envolvente, das condições de vida, da situação do país e das esperanças para o futuro». E o hip-hop faz a sua viagem de volta num «Boomerang». (8/10)


K'NAAN
«THE DUSTY FOOT PHILOSOPHER»
Track & Field Productions/SonyBMG Canada

Quem viu o concerto de K'Naan, o ano passado, em Sines, sabe perfeitamente do que se fala aqui: de um rapper inteligentíssimo, com uma escrita fabulosa, um «flow» pessoalíssimo, uma ideia de hip-hop que está nos antípodas daquilo que algum hip-hop norte-americano (e outros) tem de pior na actualidade: a promoção da violência, de hábitos luxuosos, de ideias machistas... Oiçam-se os tambores de água e a voz feminina em «Wash It Down», o ritmo imparável e irresistível das percussões africanas e das vozes (que fazem por vezes lembrar os cantos tuaregues) em «Soobax», a crítica directa ao gangsta-rap em «What's Hardcore», a irreverência quasi-pop de «I Was Stabbed by Satan» (que faz lembrar... Beck), as guitarras eléctricas incendiárias do fabuloso tema rock «If Rap Gets Jealous», o gnawa de «Hoobaale», os arranjos sempre diversos e sempre inventivos presentes neste álbum e perceber-se-á que K'Naan é um dos mais excitantes e originais cantores e compositores da actualidade. Nascido em Mogadíscio, na Somália, mas radicado no Canadá, com parcerias com gente tão diferente quanto Tricky, Zap Mama, Youssou N'Dour, Mos Def ou Damian Marley, com uma visão do mundo fortemente engajada em ideais de justiça e desenvolvimento para o seu país de origem e a África em geral, K'Naan faz a ponte perfeita entre o hip-hop, a música africana, muitas outras músicas e uma música ainda por vir. (10/10)

2 comentários:

ANNA-LYS disse...

This is interesting!!!
I don't know many of them by name, except Youssou N'Dour (an absolute favourite), actually I play his and Neneh Cherrys duet in my next post in pipeline. Of course Hendrix and Marley, are well known modern roots.
I will use this post as a igniting-spark to the (search-)engine. ;-)

Thank You!

(( hug ))

Marco Costa disse...

não podia concordar mais! excelente post! Vemo-nos em Sines... e se quiseres passa pela www.estantevazia.blogspot.com

abraço.